The Project Gutenberg EBook of Estrellas Propcias, by 
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco

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Title: Estrellas Propcias

Author: Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco

Release Date: September 21, 2010 [EBook #33788]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ESTRELLAS PROPCIAS ***




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    *Nota de editor:* Devido  existncia de erros tipogrficos neste
    texto, foram tomadas vrias decises quanto  verso final. Em caso
    de dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
    deste livro encontrar a lista de erros corrigidos.

                                           Rita Farinha (Setembro 2010)




ESTRELLAS PROPICIAS.




OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO QUE SE ENCONTRAM  VENDA NAS LIVRARIAS
DE VIUVA MOR

PORTO E COIMBRA.


Abenoadas lagrimas, drama               240
Amor de perdio                         500
Agostinho de Ceuta, drama                240
Cabea, corao e estomago               500
Carlota Angela                           400
Coisas espantosas                        500
Doze casamentos felizes                  500
Duas epochas da vida                     600
Estrellas funestas                       500
Justia, drama                           200
Livro negro                              500
Marquez de Torres Novas, drama           400
Memorias do Carcere, 2 vol               800
Morgado de Fafe, drama                   200
Romance d'um homem rico                  500
Scenas innocentes da comedia humana      500
As tres irmans                           500
Um livro, poesias                        360




ESTRELLAS PROPICIAS.

POR

CAMILLO CASTELLO BRANCO.


V. M.



PORTO,
EM CASA DE VIUVA MOR - EDITORA,
PRAA DE D. PEDRO.

A mesma casa em Coimbra,  |  Casa de Commisses em Paris,
    Rua da Calada.       |     2^{bis}, Rua d'Arcole.


1863.





TYP. DE SEBASTIO JOS PEREIRA,
Rua do Almada, 641.




ESTRELLAS PROPICIAS.




I.


Navegando contra a corrente do Lima--o rio das saudades e dos pavores da
mythologia--vereis, a meia legua distante de Vianna, na margem direita,
uma casa apalaada, em parte cantaria que os seculos denegriram, em
parte edificao moderna, caiada, tingida, variegada, coisa sem graa,
sem poesia, que toda lhe tira a magestosa e veneranda av, alli  beira,
com o seu toucado de ameias e collares de embrincadas laarias.

Da margem do rio ao edificio conduz uma vereda relvosa ladeada de
alamos, cilindras, hidranjas, e outras arvores e arbustos, que ensombram
a convidativa lea. L no tpo entrevdes um chafariz, rodeado de bancos
de pedra, e abobadado por um pavilho de chores, cujos troncos a mo do
tempo torneou e retorceu em caprichosos feitios.

Se mandaes parar o barquinho diante d'esse obscuro alcar das
esquecidas musas do idyllio, d'esse manancial dos gratos devaneios, ao
abrir de uma manhan de agosto, ou ao entardecer de um dia da estao do
outomno--a mais amavel do Minho--ahi ficareis como arrobados, sentindo
sem saber o que, desejando sem dar limites ao desejo, aspirando a
enlevos que vos no parecem da terra, nem os sabereis dizer, se cuidaes
que vos transportam ao ceo. O que vdes, se sabeis copiar a natureza na
tela, no verso, ou na prosa, podereis conseguir que ns tambem o vejamos
em sombra; o sentir, porm, que semelhante espectaculo, a tal hora, vos
suggere, sde embora Raphael, Fnlon, ou Delille, que no lograreis
verter em nossas almas a poesia das vossas. Folheai o livrinho, todo
mimo e deleite, do poeta Bernardes, sentido e escripto alli n'aquellas
margens; cuidareis vr n'elle as harmonias que vos soam ao corao em
descompassadas notas; e, melancolicamente, abrireis mo das maviosas
poesias, que dizem menos que o susurro da veia limpida na fluctuante
frana do salgueiro, ou o regorgeio do rouxinol, que vos fugiu da
margem, para de longe vos estar conversando com o espirito alheado. Nos
versos e nas poeticas prosas do mais canoro bardo do Minho[1], se vos
deparam relanos de delicado sentimento, douras campezinas, que todas
recendem os aromas d'aquelles relvados e arvoredos. No mavioso romance
d'outro cantor e prosador sentimental do jardim d'esta formosa terra[2],
l inspirado, l haurido no mel de tantas colmeias, nem ahi achaes seno
o bosquejo das vises que adentraram vosso animo, e de vs se apartam,
mal vos embaralhaes com homens vascolejados em negocios da vida real.
No ha corao que sostenha em si poesia, quando cuidados o empegam no
commum esterquilinio, onde todos, uns mais que outros, nos rebalamos,
embora  luz do sol das praas, e  luz das serpentinas das salas, as
immundicias brilhem como ouro, ou alvejem como arminhos.

No ha, pois, dizer o que sente cada um, ao abrir da manhan, ou descahir
da tarde, se alli parou e contemplou do seu barquinho a avenida
arborisada, o repuxo com seu docel de ramagem, e as cornijas
denticuladas da vetusta metade do edificio.

Se por l derivasseis, ao fim de uma tarde de agosto de 1844, e o
rumorejo da corrente vos no houvesse entorpecido a vida exterior,
verieis, ao cimo da avenida, n'um dos bancos circumpostos  fonte, uma
senhora reclinada com o descuido de quem se cr ssinha, sobre um
respaldo de massio, que brandamente se amollentava, para, a prazer da
solitaria scismadora, se lhe modular s frmas gentis.

A seu lado estava uma carta de muitas paginas, sobre a qual ella
assentava a mo descahida em langoroso quebranto. O que certamente no
verieis eram as lagrimas, que humedeciam a carta, e outras que desciam
nas faces, e paravam aos cantos dos labios, como se ahi esperassem que
um sorriso de esperana outra vez as embebesse no corao.

De vras creio que o meu leitor ahi se ficaria em quanto o vestido
branco da formosa viso se estremasse da escuridade das arvores; quando,
porm, a noite lhe fechasse o encanto de olhos, o leitor ir-se-ia,
rio-abaixo, scismando um pouco na solitaria creatura, amante das noites
bellas; e, chegando a Vianna, escassamente se lembraria de tl-a visto,
e s, a muito proposito, perguntaria quem fosse a mulher da pittoresca
vivenda do Minho.

Tivesse eu a honra de ser a pessoa interrogada, e responderia com o
seguinte capitulo, se o leitor me dsse ares de sua complacencia em
ouvil-o.




II.


O romancista de mais perluxo gosto em nomes de personagens de novella,
se os procurar nos climas temperados, ahi os acha mais lindos, mais a
molde da strophe, do poema e do romance sentimental. Os nomes de mais
musica, e mais amoraveis, so os das mulheres gregas, se todos soam como
os das heroinas de Byron, de Hugo, e dos poetas affeioados s coisas
orientaes.

Desisto de ir  Grecia baptisar as minhas personagens femininas. Escrevo
de Portugal, onde ha nomes de mulheres a competirem de belleza com suas
donas; e, mais que em outra provincia, no corao de todas, no
Minho,--que bem podra ser a flor da Europa--ahi, na familia de solar, e
na familia da choa, ha peregrinos nomes, que mais parecem ensinados
pela melopeia das aereas musicas, ou dos mui suaves murmurinhos das
florestas, dos rios, das aves e dos insectos.

Corinna da Soledade era o nome da viso, que o meu leitor pudera ver
n'uma tarde de agosto de 1844.

Em outra qualquer tarde poderiamos ver, no uma, mas um rancho de cinco
meninas, a competirem de formosura, todas trajadas de branco, soltos os
cabellos, ou ennastrados de flores, com que se andavam dando invejas s
outras. Eram as cinco irmans d'aquelle ditoso ermo; as cinco Evas
d'aquelle terreal paraizo, por onde no rastejavam serpentes, estas
serpentes de casaca e luva branca, que so o proprio demonio civilisado
pelo alfaiate, e amoldado a estes tempos illustrados em que nenhuma Eva
de certo se deixaria embair por cobras, propriamente ditas.

Tinha ento vinte annos Corinna da Soledade.

Sou avesso a descripes: muitas vezes o tenho dito. Sahem-me todas
muito pallidas e infieis por causa do esforo que fao a dar relevo aos
traos. Profusamente se dispendem os romancistas em mineralogia e
botanica para colherem o effeito das comparaes. Flores e pedraria, a
alvura do lyrio, o escarlate do carmim, o niveo jaspe, o rubido coral, a
lustrosa pretido do azeviche, a gata para a cutis das mos, a petala
de rosa para a das faces, o branco avelludado da magnolia para o collo,
o marfim para os dentes... que sei eu!

Corinna da Soledade era de estatura mais que mean, refeita, robusta na
apparencia, mimosa de pelle, mas no alvissima; olhos mais singulares
pela brandura que pelo tamanho, reluzentes como chammas, ou amortecidos
como a luz tibia da lua empanada por transparente nuvem--alternativas
instantaneas, que denotavam as rapidas mutaes da alma--; arcadas
negras e sedosas, travadas na base da escampada fronte--rara belleza em
mulher, n'aquellas mesmas, que se chamam Sapho, Stal, ou Sand--, breve
boca de finissimos labios, subtilmente assombrados d'um buo,
imperceptivel a curta distancia, mas de bello effeito na approximao.

Tanto esta, como as outras quatro filhas de Gasto de Noronha, tinham
sido educadas em Frana, para onde os paes emigraram em 1829. O fidalgo
do Minho homisiara-se, sem conscienciosamente poder dizer que era menos
realista que seus avs; porm, odios velhos de covardes inimigos o
haviam denunciado  alada, e o prudente sujeito antes quiz confirmar a
denuncia com a fuga, que provar d'entre ferros sua innocencia.

Em 1833 recolheu a numerosa familia  patria. As meninas vinham
esmeradamente educadas em collegio de Paris, e saudosas dos comos de
vida alegre que ainda experimentaram na capital do mundo. A transio de
Paris para as margens do Lima, as noites fugitivas dos bailes comparadas
com o silencio do palacio velho, em parte ruinas, e rodeado de arvoredos
e murmurios melancolicos, parece que ao mesmo tempo enluctaram o animo
das cinco meninas, que se contemplavam umas s outras, como se as
lanassem nas praias ermas d'Africa.

Gastara, nos cinco annos de emigrao, o jactancioso Noronha, como
gastam em Paris os homens opulentos ou perdularios. Bem que a sua casa,
toda em propriedade rustica, fosse grandemente rendosa, e bastasse a
dar-lhe fama e brilho de rico na sua provincia, os redditos d'ella
escassamente dariam a um parisiense com que sustentar dez pessoas de
familia em recatada decencia. Gasto, recolhendo  patria, rareou a
pouco e pouco as nuvens da poeira olympica de Paris, que lhe empanavam
os olhos, e viu todos os seus haveres ameaados, se no j feridos de
proxima ruina. Os caseiros e administradores tinham esbanjado e
desbaratado  porfia com elle; porm, to engenhosamente o fizeram, que
o fidalgo achou-os a elles proprietarios, e legitimos possessores das
quintas que, por ordem do amo homisiado, tinham vendido.

A velha casa solarenga d'onde o fidalgo sahira para o estrangeiro, nos
cinco annos de desamparo e descuido dos administradores, abriu pelo
tecto e fendeu-se pelas abaladas paredes. A familia, affeita a morar em
casas decoradas com graciosas alfaias, quando entrou ao palacete das
margens do Lima, confrangeu-se de pavor como se os vigamentos estivessem
estalando sobre suas cabeas. Fugiram as meninas do salo de espera, e
entraram na sala proxima, onde as mais velhas se recordavam de terem
visto tapetes encarnados, jarres indianos, e espaldares de sda. A sala
estava sendo uma eira, com espigas a monte, medas de palha paina, e
instrumentos agricolas, como enxadas, gadanhas, forcados e aguilhadas,
por sobre os jarres esbotenados.

D. Mafalda, me das meninas, quando tal viu rompeu a chorar, e o marido
a praguejar, e as meninas encolheram-se todas a um canto, to tristes e
intanguidas, como se as tivessem descido por um alapo s lageas de
fria masmorra.

Cuidou logo o fidalgo em mandar reconstruir aquella parte da casa, que
eu mostrei ao meu leitor, na margem direita do Lima. Como gizara obra
grande, a belprazer da sua desasizada fantasia, vendeu e hypothecou bens
urgentes  sua sustentao para convertel-os em salas, tapetes,
porcellanas, diwans, sophs, chaises-longues, jardineiras, consoles, e
que taes estrangeirices em que as meninas reconheciam um pedao do seu
saudoso Paris.

Soffreram maior quebra os rendimentos, sem que a conformidade, se no o
contentamento d'aquella familia, bem aposentada e servida do luxo da
civilisao, os indemnisasse do desfalque dos bens. Gasto de Noronha em
vez de aconselhar paciencia  esposa e s filhas, era o primeiro a
lastimar-se da solido em que viviam, do tedio das compridas noites de
inverno, do enfadonho palavrorio dos primos e primas, e dos pessimos
cosinheiros, que nunca tinham bem acertado com o segredo de loirejar 
parisiense umas _omelettes soufles_, ou um _vol-au-vent_.

Enfadado de tudo, Gasto, incitado pelos gabos que a imprensa portuense
dispensava  sua companhia lyrica, pegou da familia, alvoroada com a
boa nova, e foi para o Porto, onde passou um inverno, frequentando as
melhores casas, e convidando aos seus bailes a flor da mocidade
portuense.

Imaginou elle que suas filhas, educadas a primor, bem fallantes,
bonitas, e graciosas em seu desembarao, fariam epocha no Porto, como
costuma dizer-se, e seriam pretendidas dos negociantes ricos  conta de
sua fidalguia. Este plano  o unico signal que temos da intelligencia
domesticamente governamental de Gasto de Noronha. No se recommenda o
systema aos paes dissipadores e aos fidalgos arruinados, porque, sobre
ser revelho e desautorisado,  seu tanto ou quanto immoral: abstenho-me
de fundar o dito em razes que no agradariam nem moralisariam.

No ha duvida que as meninas, educadas em Frana, e formosas como as que
mais o so em Portugal, impressionaram vivamente os moos abastados da
dinheirosa cidade; mas estas impresses redundaram todas em muita
poesia, em muito suspiro, em muitos olhares meigos, e em muita
contradana innocente, quando contradansas podem ser innocentes.

Os mancebos apaixonados viam as meninas, e viam tudo que mais anhelavam;
mas os paes d'estes mancebos, posto que achassem lindas de se verem as
flores, iam de preferencia analysar o tronco da arvore florida, o qual
tronco, como sabem, era Gasto de Noronha. Estas analyses ao tronco
prejudicavam grandemente as flores, como  de ver; e todos os velhos
abastados diziam,  uma, que no queriam enxertias de sua obscura
linhagem em arvore podre. No sei se o nobilissimo Gasto de Noronha
chegou a saber que lhe chamavam arvore podre!

O sabido  que o fidalgo voltou s margens do seu Lima, na primavera
seguinte, com as filhas solteiras, e tristes em dobro do que tinham
vindo de Paris.

O Porto d'aquella epocha era muito para dar saudades a quem o trocava,
no direi s pelas solitarias margens d'um rio, mas ainda pelos ruidosos
esplendores da capital.

Quem de l sahiu ha dezoito annos, e hoje alli voltou, no reconheceu de
certo a sociedade portuense. Ento primavam as principaes familias do
commercio, da industria e da jerarchia na magnificencia de seus bailes.
Rara semana corria sem que algum salo reverberasse os seus lustres nas
graas nativas e nos custosos artificios com que se sobre-doiravam
aquellas gentis meninas, que hoje se desvelam em ser mes, e todo seu
viver concentram na vida intima. Das duas ricas provincias, feudatarias
da cidade industrial por excellencia, confluiam, no fim do outomno,
quantidade de morgados e morgadas, que se dispendiam  larga, e
constituiam grande parte da sociedade brilhante, que os folhetins
cantavam, e as modistas vestiam... ou despiam, seria mais acertado
dizer-se. Nenhum festim nupcial dispensava um baile; cada pessoa da
familia opulenta, em seu dia natalicio, tinha um baile; o baile era o
cunho do progresso n'aquella sociedade desentorpecida do marasmo de
seculos, e devotada a competir em pompas com Lisboa, que a no valia
ento, nem hoje me affoito a dizer que a vale. E quo diversa agora se
me afigura, quo outra te vi,  rainha do norte, depois que os teus
prceres trocaram a convivencia dos sales pela commodidade das
equipagens! Foi a parelha que matou o baile indisputavelmente. Foi o
luxo esteril dos urcos e dos arreios, dos trens armorejados, e das
fantasiosas librs que desviou o fecundante capital do intento
civilisador a que o applicaram os patriarchas do progresso n'aquella boa
terra. Era um capital que a todos chegava, todas as classes sociaes
participavam da superabundancia do baile.

Enriquecia a modista.

Prosperava o cabelleireiro.

As confeitarias rivalisavam em primores de bolinhos e pasteis.

O mercador renovava os seus lotes em cada trimestre.

As alfaias dos sales, no ultimo baile, faziam esquecer as pompas do
penultimo.

E, por outro lado, visto pela face moral, o baile era o incentivo mais
energico do talento. Ento se viram maravilhas de genio na seco das
locaes, que to enfezadinha  agora! Ento andavam ahi versos, a froixo,
por todos os jornaes; eramos todos poetas, todos tinhamos uma estrella
que cantar, e, pelo commum, aquella estrella luzia-nos da constellao
dos bailes.

E agora, tudo fundido nas carruagens que trancaram as portas dos sales,
tudo, sem excepo das musas!--as proprias musas me quer parecer que
andam aos varaes das seges!




III.


Das meninas, a mais saudosa do Porto era Corinna da Soledade. Razo
tinha mais que as irmans, porque amara mais que todas, e amara sem
inteno nem calculo.

N'um baile do conde do Casal fra-lhe apresentado Antonio d'Azevedo
Barbosa, moo de vinte e dois annos, nem pallido nem crado, nem triste
nem alegre, um homem egual a todos os homens, como elles so fra do
romance.

Este Antonio d'Azevedo Barbosa era de Barcellos, filho d'um pequeno
proprietario, que tinha muitos filhos, e mandara o mais velho cursar
jurisprudencia em Coimbra, cuidando erguer um futuro esteio aos irmos,
lesados em seu patrimonio por amor d'aquelle.

O moo fra muito novo para Coimbra; ninguem o admoestava a estudar;
viu-se em plena liberdade de suas aces; achou que era muito suave vida
gastar a mesada, e poupar os livros. Assim o fez, e fez mal, que ficou
reprovado em preparatorios.

Os patricios seus contemporaneos na universidade foram contar a
Barcellos o desastre do estudante, no por lhe quererem mal, mas por se
quererem demasiado bem a si: disseram-n'o para que a villa de Barcellos
e o mundo soubessem que Coimbra no  para todos; e, a este proposito,
repetiam as memorandas palavras do senhor Ferrer, lente de direito
natural, aos seus discipulos: meus senhores, quem no puder ser doutor,
seja sapateiro.

Manoel d'Azevedo, pae do academico reprovado, adoeceu de paixo, e, se o
no amparam os braos implorantes dos outros filhos, cahia na cova.

Um abbade limitrophe de Barcellos, e tio materno do estudante, levou o
moo para sua casa, e castigou-o com uma tarefa diaria de duzentos
versos de Virgilio, e um thema de duas laudas da _Vida de Fr.
Bartholomeu dos Martyres_, e doze paginas do _Genuense_, e outras tantas
de rhetorica e geographia. Findou o prazo das ferias, e Antonio tornou a
Coimbra,  custa do abbade. Fez o seu exame de latim, logica, rhetorica
e geographia, com approvao e applausos de bom latinista.

Matriculou-se no primeiro anno, e sobre-excedeu as esperanas do tio e
as ambies do pae: ganhou o segundo premio, e recolheu ao gremio de sua
familia. D'esta vez, o pae ia adoecendo de alegria.

No se morre de dor, nem de alegria; mas morre-se facilmente d'um
hydro-torax; foi o que n'esse mesmo anno succedeu a Manoel d'Azevedo.

Eram nove os orphos, e Antonio, o mais velho dos irmos, tinha dezesete
annos. Fez-se inventario, pagaram-se as dividas do casal, e ficaram
dotados com cento e cincoenta mil reis cada um. O abbade levou as
sobrinhas para sua companhia, que eram quatro; arrumou no commercio os
pequenos, e disse ao segundo-annista da universidade, que se reduzisse a
viver com quatro mil e oitocentos reis de mesada, se queria formar-se.

Antonio respondeu que viveria com menos, para que suas irmans vivessem
com mais.

Foi o moo ao segundo anno, e comeou logo a escrever umas cadernetas
que l denominam sebentas, as quaes os cuidadosos em reproduzir a
preleco do lente vendem lithographadas. As sebentas de Antonio
d'Azevedo grangearam reputao de explicitas e bem coordenadas, e
produziram metade de sua subsistencia; a outra metade proveio-lhe da
verso de romances francezes, editados por assignatura. E assim vingou o
segundo anno, e os annos seguintes at completar sua carreira.

O bacharel Antonio d'Azevedo recolheu ao presbyterio do tio com o seu
diploma enrolado n'um tubo de folha de Flandres.

--E agora?--perguntou o abbade, tres mezes depois.

--Agora, estou formado--respondeu o bacharel.

--Bem sei; mas que fazes? quando comeas o teu officio de doutor?

--O meu officio de doutor?!--disse Antonio de Azevedo, como perguntando
a si mesmo a utilidade da formatura em direito.

--Sim--tornou o padre--o sapateiro, o marceneiro, o artifice em todos os
mesteres, cumprido o tempo de aprendizagem, comea de ganhar sua vida.
Ha dez annos que tu estudas para isto que hoje s: ests doutor, meu
sobrinho; agora applica o que sabes.

Antonio d'Azevedo achou discreta a admoestao delicada do tio. Recebeu
o seu patrimonio de cento e cincoenta mil reis, e foi a Lisboa requerer.

Ajuntou o pretendente ao seu requerimento as certides de seus premios
na faculdade, e de seu excellente comportamento, afra a pathetica
narrativa de sua pobreza, e das quatro orphans dependentes d'elle.
Consta que o ministro da justia se no commovera, porque no lera a
petio nem os documentos.

O bacharel, ao cabo de seis mezes, pediu ao tio padre que lhe mandasse
alguns soccorros, com que pudesse deter-se mais algum mez em Lisboa,
esperando despacho.

No lhe respondeu o tio, porque j estava na presena de Deus.
Responderam as irmans, pedindo-lhe que fosse tomar conta d'ellas, visto
que o novo abbade as mandaria sahir da casa da residencia parochial.

Triste nova para o pobre pretendente, que s tinha de seu o diploma, e
uma surrada casaca com que ia s audiencias semanaes do ministro, o qual
nunca lhe deu f da casaca, nem dos premios universitarios, nem das
lagrimas!

Escreveu Antonio a um de seus quatro irmos, que j era guarda-livros
n'uma casa commercial do Porto, pedindo-lhe meios para sahir de Lisboa,
e ir  provincia tomar conta das irmans. O guarda livros acudiu prestes
ao pedido, e partiu logo a segurar a subsistencia s quatro meninas na
casa agricola em que tinham nascido. Deteve-se ainda alguns mezes o
bacharel em Lisboa, sustentado por seu irmo. A final, baldadas as
supplicas, o triste moo sahiu da capital com inteno de abrir
escriptorio de advogado na sua terra.

No desagrade ao leitor este familiar estylo com que lhe so contadas
coisas de si to singelas, que, s  custa de muito florescl-as,  que
poderiam ser agradaveis. Acceitem-me os successos verdadeiros sem
enfeites; quando eu estiver fantasiando, ento lh'os darei ataviados de
modo que a poesia me dispense de ser um fiel copista do que a toda a
hora nos passa diante dos olhos.

Chegou Antonio d'Azevedo ao Porto, e hospedou-se em casa de seu irmo
Joaquim. Acertara de ser o commerciante a cujo servio estava Joaquim,
pae de dois condiscipulos de Antonio. Receberam-n'o cordialmente,
deram-lhe bom quarto, sentaram-no no melhor logar da sua mesa, e
instaram-o a demorar-se no Porto durante aquelle inverno. N'essa mesma
occasio fra ao Porto Gasto de Noronha com suas filhas e mulher; e,
como Antonio d'Azevedo, obrigado pelos seus hospedeiros condiscipulos,
fosse aos bailes onde elles iam, ahi est a razo porque Corinna da
Soledade encontrou o bacharel de Barcellos no baile do conde do Casal.

O infortunio abastarda os espiritos, desalenta-os, e de todo os
transfigura. Antonio d'Azevedo vergava debaixo da dependencia, sem
maldizel-a. Sentia-se alquebrado por sua mesma inercia, e esmagado pelo
quasi opprobrio de sua inutilidade. O futuro estava-lhe fechado, futuro
para onde o arremessavam esperanas, que todas vira morrer, durante
aquelle triste viver de supplicas e repulses  porta de ministros, de
magnates, de influentes, homens que vestem o arnez do egoismo, logo que,
no dizer do senhor A. Herculano, se recostam nos sophs para onde se
atiraram de cima do tamborete de couro ou da cadeira de pinho.
Sentia-se o moo brutificado pela desgraa: tem ella de seu o fatal
condo de deslapidar o brilho das ideias, enredando-as, escurecendo-as,
falsificando-as; ha uma como nevoa que empana os objectos ou os
desfigura; o infeliz v sempre errado; ora cr e confia-se em tudo que
ao commum dos homens  despresivel; ora esquiva-se a tomar pelos
caminhos direitos do bem-estar, que eventualmente se lhe offerecem. Pde
ser que uma linguagem energica lhe valesse uma transformao de vida;
mas o susto, o quasi pavor com que falla aos grandes, e a humildade
lagrimosa com que intenta commovel-os,  ainda um sestro mau da sua
desgraa. E em tudo assim, em tudo, at no amor, que devia estar forro
das cadeias com que a desfortuna peia e trava as demais faculdades.  ao
p da mulher amada, amada sem confiana nem expanso,  ahi que mais a
olhos observadores se manifesta o infeliz. Nenhuma palavra diz que
lealmente lhe sirva o corao. O que diz  incongruente e absurdo,
quando no  disparate de desfranzir um riso. As agudezas triviaes, que
inculcam fina tmpera de alma, e que todo o homem, medianamente servido
de olhos e intellecto, sabe dizer, tomam no discurso do infeliz umas
entoaes ridiculas e antipathicas. Se algum pensamento bem ordenado lhe
entreluz, esmorece ao proferil-o, afroixa-o como inconciliavel com sua
baixa posio, e prefere antes trocal-o por uma semsaboria. Esta  a
sorte de todos os desgraados, que no so tolos; porm  coisa muito
rara encontrar-se um tolo desgraado.

Antonio d'Azevedo sondara-se, compulsara-se, e vira a lenta desfigurao
que se operara em sua alma. Impozera-se silencio, que os seus amigos
estranhavam. Negava-se a dar parecer nas mais insignificantes questes.
De si para si dizia elle que sentia uma depresso no cerebro, uma placa
de ferro premindo-lhe a bossa do entendimento. Onde concorresse com
senhoras, ninguem lhe ouvia palavra, seno as precisas para dar um
pretexto a ausentar-se. Muita gente o reputava malfadado; e outra optava
antes por que fosse estupido.

Quando elle viu Corinna da Soledade, estava ao lado d'um sujeito, cuja
maxima gloria n'este globo era poder apresentar um conhecido a outro
conhecido. Assim que alguem lhe dizia: Vossa senhoria conhece fulano?
respondia logo: Quer ser apresentado? E se os apresentados lhe ficavam
 mo, era logo.

Foi o que aconteceu com Antonio d'Azevedo.

Apenas lhe elle perguntou quem era aquella menina vestida de
azul-celeste, o sujeito travou-lhe do brao, e disse:

--Venha c.

O bacharel mal sabia onde era levado, quando se viu rosto a rosto de
Corinna, a quem o apresentante disse:

--O meu amigo doutor Antonio d'Azevedo Barbosa, que eu
satisfactoriamente apresento  excellentissima senhora D. Corinna da
Soledade e Noronha, filha do nobilissimo Gasto de Noronha. Agora
deem-me licena, que tenho de fazer quatro apresentaes ao conde do
Casal.

Deus livre o leitor de ver-se alguma vez nos apertos do bacharel!
Corinna esperou o logar-commum que deriva da apresentao. Antonio
d'Azevedo no sabia o logar-commum. Foi ella quem o disse:

--Est animadissimo o baile; mas abafa a gente de calor!

--Sim, minha senhora--disse o nosso pobre amigo, puxando pelo colchete
da luva at arrancal-o com a pelica.

Corinna esperou ainda que o moo fosse alm da affirmativa do calor, em
que elle parecia estar mais abafado que toda a outra gente: to copiosas
lhe borbulhavam na testa e faces as camarinhas do suor!

Antonio d'Azevedo viu-se tal qual estava sendo aos olhos da filha de
Gasto de Noronha. Apiedou-se d'elle o seu bom anjo. Levantou-se aquelle
espirito com todo o peso da sua amargura, e disse abruptamente, mas de
compasso:

--Eu no solicitei a honra de ser apresentado a vossa excellencia. Um
homem desgraado no pede relaes. Fui barbaro comigo mesmo entrando
aqui; mas a desventura tem mil rodeios por onde me encaminha a tudo que
me augmenta o desgosto da vida. Resta-me ainda uma sombra de vaidade...
Custa-me que vossa excellencia fique fazendo de mim uma ideia injusta.
No sou absolutamente estupido: sou infeliz. Perdi o dom da palavra, e
s sei fallar em lagrimas, ou com a minha consciencia, na solido.
Perde-me vossa excellencia este intempestivo desafogo.

E retirou-se, sem dar tempo a um monossyllabo.

Corinna da Soledade seguiu-o interdicta com os olhos, e estranhou
aquella novidade romanesca de que no encontrra exemplo mesmo em Paris.

Antonio d'Azevedo sahiu do baile, que era na casa do quartel general, e
tomou pela rua do Sol a passo vagaroso, at receber a bafagem fria do
Douro, debruando-se sobre o peitoril do passeio das Fontainhas. Pouco
depois desenrolou-se do mar um denso nevoeiro que se estendeu rio acima,
e logo despediu em nuvens a subir as fragosas ribas da margem direita, e
espraiou-se com taciturna presteza por sobre a cidade. A reglida
neblina arrefecera a cabea do moo. O que elle estava soffrendo era um
d'aquelles phrenesis que, a longos espaos, atacam os misanthropos.

As pessoas nunca apalpadas por esta penosa enfermidade, cuidam que ou
ella no existe, ou, se existe, em pouco est o combatel-a com os suaves
linimentos da sociabilidade, ou pouco se deve doer de a no gosar o
misanthropo que lhe foge.

Pouco sabe de tamanha desventura quem tal diz! Os accessos de
vertiginosa raiva que padecem os feridos d'esta lepra moral so agonias
mortaes. O esquivarem-se  sociedade, o ouvirem-se unicamente a si
proprios nos monologos selvagens com que a si se amaldioam e amaldioam
a humanidade, dispara por vezes em enfurecimentos e raivas, que s bem
desafogam se o desgraado, com as proprias unhas, se dilacera. O homem
sem irmos, sem familia, sem amigos, sem um mundo que lhe absorva a sua
individualidade e n'elle se identifique, se tanto fra das leis da
natureza, que a sua angustia ha de superar todas as angustias
inconsolaveis. D'estas horas tinha muitas Antonio d'Azevedo, e uma das
mais longas e convulsivas estava elle penando n'aquella noite.

Havia de pensar a leitora que o infeliz ia para as Fontainhas scismar na
imagem de Corinna da Soledade, contar-lhe os seus infortunios sem pejo
d'ella nem das estrellas, consubstancial-a em sua alma pelo mais facil
dos processos que usam amantes imaginativos; em fim, haviam de pensar os
meus amigos que Antonio d'Azevedo era um poeta como ns todos os que
andamos de noite a namorar senhoras nos luzeiros do firmamento, como se
isso servisse d'alguma coisa para o amanho da vida de cada um e de cada
uma. Em minha boa e leal verdade hei de dizer-lhes que o bacharel de
Barcellos era bastante desgraado para entender em coisas do corao,
que requerem contentamento e paz de espirito. Um homem que medita no
presente e futuro de quatro irmans, reconcentra toda a sua sensibilidade
no corao paternal. O corao dos amores conjugaes--alvo mais ou menos
remoto dos affectos enamorados--esse no se compadece com as tristezas,
que gelam e como que endurecem o espirito.

Em quanto, porm, o moo engolfava os olhos e o pensamento na alvacenta
nuvem que mais e mais se condensava sobre a torrente, Corinna da
Soledade relanceava inquieta os olhos  procura do cavalheiro que lhe
tinha apresentado Antonio d'Azevedo. Ao vel-o, fez-lhe signal com
vehemente interesse, e perguntou-lhe quem era o sujeito que lhe elle
apresentara.

-- um doutor de Barcellos, que eu encontrei, ha dias, hospedado em casa
dos Taveiras, riquissimos commerciantes. Estes meus amigos  que devem
conhecel-o cabalmente, e s elles podem informar vossa excellencia...
D-me licena...

O cavalheiro vira de relance um dos dois bachareis, condiscipulos de
Antonio d'Azevedo, e apanhou pelos cabellos o ensejo d'uma apresentao.
Instantes depois voltava, e dizia ter a honra de apresentar  filha do
nobilissimo Gasto de Noronha o doutor Felisberto Taveira, e deixou-os,
segundo disse, para ir apresentar dois amigos da provincia  senhora
condessa do Casal.

Este cavalheiro, alguns annos depois,  hora da morte, ainda apresentou
ao seu confessor as testemunhas do testamento.




IV.


Corinna e Felisberto Taveira conversaram largo espao. Gasto de
Noronha, reparando no interesse e apparente intimidade com que sua
filha, estranha s dansas e a tudo, se entretinha, cuidou em averiguar
quem fosse o cavalheiro. As informaes deram em resultado que o fidalgo
ficou contente. Houve alli um sujeito que respondeu assim
arithmeticamente  pergunta do nobilissimo Gasto:

--Joo Bernardo Taveira, quando casou, dotou-se com cento e cincoenta
contos; a mulher trouxe-lhe de dote cento e dez contos: somma duzentos e
sessenta contos. Depois, o Taveira herdou de sua cunhada cento e dez
contos: somma trezentos e setenta contos. O negocio d'esta casa tem ido
sempre em crescente prosperidade. Dou-lhe que, feitas as despezas
domesticas, o capital de trezentos e setenta contos, em trinta annos,
tenha rendido nove por cento. Ahi tem vossa excellencia que a casa de
Joo Bernardo Taveira deve hoje valer perto de setecentos contos, que
repartidos por dois filhos...

--Trezentos e cincoenta contos--atalhou o fidalgo-- uma fortunasita
soffrivel em Portugal...

--Eu no se me dava de a soffrer em Londres--disse o outro.

Em vista do que, o condescendente pae estimou que sua filha gastasse o
tempo com gente d'aquella bitola.

Ao abrir da manhan entrou Felisberto no quarto de Antonio d'Azevedo, e
encontrou-o emmalando a sua roupa.

--Isso que ?--disse Taveira--onde vaes tu?

--Vou para Barcellos--respondeu serenamente o hospede--Basta de vida
regalada: vamos ao trabalho, que  o unico regalo dos infelizes. Estou
aqui deslocado, meu amigo. Esta vida do teu galhardo Porto no se fez
para mim. Ha de ser-me mais consoladora a soledade e a tristeza de
minhas irmans. Desgraados com desgraados.

--Mas--interrompeu Felisberto--que vaes fazer em Barcellos?

--Abrir um escriptorio de requerimentos, e nos dias em que merecer um
tosto com o meu trabalho, dar a minhas irmans um banquete que valha um
tosto; e nos dias em que a minha sciencia das leis no tiver que fazer
com a paz em que vivem os homens, farei discursos a minhas irmans para
persuadil-as  resignao. De qualquer das maneiras carecem ellas de
mim, e eu d'ellas.

--E porque no has de tu--atalhou o leal amigo--dizer ao teu Felisberto
que tuas irmans esto precisadas, e que os prazeres da vida te amarguram
em quanto ellas esto penando? Abre as minhas gavetas, e manda dinheiro
a tuas irmans.

--Obrigado, meu bom irmo. Se a amizade te impe o dever de ser
generoso, a estima de mim proprio obriga-me a ser homem. Aquelle que
vive de emprestimos, sem ter exhaurido as suas faculdades de aptido
para o trabalho, pde hypothecar a sua palavra, mas a dignidade, no,
que a no tem.

--Faz a tua vontade, Azevedo; mas v l que o teu catonismo de dignidade
te no leve at  ingratido!...--disse com branda severidade o filho do
millionario.

--Ingratido!--acudiu o mancebo com sincera magoa.

-- ingratido esconderes tua vida de quem est com a alma aberta
convidando-te a dar-lhe o prazer de te ser util.  ingratido
privares-me da alegria de te fazer bem a ti e aos teus.

--Perdoa-me, pois...--interrompeu Azevedo, apertando-lhe
estremecidamente a mo.

--Ests perdoado--tornou Felisberto abraando-o; mas has de cumprir uma
pena. Ficars mais algum tempo comnosco. Tuas irmans no so felizes;
mas necessidades creio que as no soffrem. Teu irmo Joaquim reparte com
ellas o seu ordenado, e bem sabes que quatrocentos mil reis abundam 
subsistencia d'uma familia em Barcellos... Vou ajudar-te a desfazer a
mala.

Felisberto ia desdobrando o pouco fato do seu hospede, e fallando ao
mesmo tempo:

--Porque sahiste to cedo do baile, Azevedo? s onze horas j te no
vi...

--Estava triste...

--E que fizestes at s seis horas e meia fra de casa?

--Andei a fazer a digesto da felicidade com que sahi de l--respondeu
sorrindo amargamente Azevedo.

--Que te pareceu aquella mulher com quem falaste? a Corinna?

--Chama-se Corinna?

--Da Soledade! V tu que nome, que poesia, e que romance! Quanto daria o
Eugenio Sue por um nome d'estes? Quando aquella menina fr conhecida dos
poetas menores do Porto, todas as poesias se chamam Corinnas da
Soledade. Que te pareceu ella a ti, alma de gelo?

Antonio d'Azevedo crou, lembrando-se de que o seu amigo ouvira d'ella
ou d'outra a singular sahida da sua apresentao, adornada comicamente
de motejos feminis, os mais pungentes de quantos ha.

--Riram-se de mim?--perguntou elle--Tu de certo no ririas, meu Taveira!

--Se riram! que desproposito! Que ha em ti provocador de riso?

--Entre-lembro-me de ter dito no sei qu a essa senhora... O que foi
est-me fazendo a impresso de um mau sonho.

--Disseste-lhe que eras infeliz. Tu crs que a infelicidade faa rir
alguem? Corinna ouviu-te, estranhou o infortunio que se confessa em
bailes; mas no sorriu, condoeu-se, lastimou-te, e pediu-me que te
levasse manhan ao baile da Torre da Marca.

-- curiosidade de mulher ociosa?

--No:  sympathia...

--Com a desgraa?--atalhou Azevedo.

--E com o homem, creio eu; muito mais com o homem. Uma menina de vinte
annos, bella, nobre, e no sei se rica, s por milagre sympathisa com o
homem desgraado.

--Ento...--disse Antonio d'Azevedo, e sosteve-se.

--Ento, ias tu perguntar-me se seria amor?

--No: o infortunio estraga as faculdades da razo, mas no as cega, meu
amigo.

--O que me espanta  o sangue frio com que tu ouves esta revelao, que
faria endoidecer muitos felizes!--tornou Felisberto--Dar-se-ha caso que
tu sejas aleijado de corao!  Azevedo, tu j amaste?

--No tive ainda tempo. Quando a alma trabalha sempre, o corao nunca
est ocioso. Bem sabes que fiz a minha formatura  custa de muitas
vigilias. Acabei de formar-me, e fui para Lisboa requerer. Estive l
nove mezes; e, n'este longo prazo de desgostos, o menor foi a fome, e o
maior foi a convico da minha nullidade. Uma vida assim, nem por
descuido se acha illaqueada nas armadilhas do amor.

--Mas deves ter sentido uma aspirao que  commum: deves ter sonhado
uma mulher.

--No, porque adormecia sempre com a barra de ferro da desgraa sobre o
peito. As mulheres que via nos meus sonhos eram minhas quatro irmans
lindas, desamparadas e pobres. Tinha o corao cheio d'ellas. A
Providencia divina tem-me feito a merc de no ajuntar uma quinta imagem
s quatro infelizes que sobejam  minha sensibilidade.

--Ora vamos--tornou Felisberto Taveira--Corinna da Soledade no  mulher
que algum homem veja isentamente. No te havia ser penoso amal-a, pois
no?

--Tem graa a pergunta!--respondeu Azevedo com affavel sorriso--Creio
que me seria muito facil amal-a se eu fosse Felisberto Taveira, ou um
d'esses mil que recebem um raio d'este sol universal da esperana ou da
alegria. Como queres tu que a minha alma saia do seu abysmo escuro, e v
como doida banhar-se na luz immensa, n'este mar de paixes deliciosas
que eu mal conheo dos romances que traduzi, como quem copa caracteres
hebraicos, sem os entender? Meu amigo, eu creio que o amor s resiste s
lagrimas, que so suas: ha um chorar que vem d'outras angustias mais
severas e profundas; e, a meu ver, estas lagrimas vo ao corao, e
devoram o sentimento melindroso do amor.

-- uma theoria, que ests compendiando para um futuro livro, meu
Azevedo; estimo que desbanques o Balzac, o Ovidio, o Sthendal, o
Castilho, e quantos escreveram do amor e da arte de amar; entretanto,
convem-te recolher experiencias. Comeas manhan a experimentar no baile
da Torre da Marca.

--Tu s to bom que me deixas ficar em casa!--disse Azevedo.

--No posso: dei a minha palavra a Corinna, contando com a tua
condescendencia.

--Iremos--acudiu Antonio d'Azevedo.

N'este mesmo dia, Joaquim, guarda-livros dos Taveiras, foi ao quarto de
seu irmo, e disse-lhe:

--Trago-te uma boa nova, Antonio. O senhor Taveira chamou-me ao seu
escriptorio, e augmentou o meu ordenado a um conto e duzentos, para que
eu continuasse a dispender na minha decencia e pequenas negociaes que
fao a quantia que dava a nossas irmans. Beijei-lhe as mos, e
agradeci-lhe em nome d'ellas, e em teu nome. Agora v tu se precisas
d'alguma quantia para os teus arranjos, que eu tenho de sobra. Se queres
tornar para Lisboa, vai, Antonio, que te no ho de faltar meios. D'aqui
a meia duzia de annos as nossas irmans podem estar casadas com
lavradores remediados, se eu tiver vida e saude. Dois mil cruzados  um
bom dote para cada uma, e eu sinto-me com bastante aptido e fortuna
para os grangear de dois em dois annos, sem lhes diminuir a ellas a
mesada. Quero ver se tu agora com esta boa noticia te no alegras,
Antonio! Andas ahi to acabrunhado que pareces um velho! Quem te vir
assim abatido e descuidado do teu aceio, ha de pensar que algum remorso
te atormenta! Vive como toda a gente mais infeliz do que ns somos. Se
foste contrariado, se trabalhaste muito para te formar, agradece a Deus
a intelligencia com que venceste todos os obstaculos. Se no tens agora
emprego, tu sers empregado. Os senhores Taveiras morrem por ti, e tem
muitos amigos na capital. J o pae me disse que, em cahindo este
ministerio has de ser delegado ou administrador d'um bairro aqui do
Porto. Depois, as nossas irmans se estiverem solteiras, veem para a
nossa companhia, e vo comnosco aos bailes e aos theatros...

--Cala-te, criana!--interrompeu Antonio--Se as nossas irmans ho de ir
comnosco aos bailes e aos theatros, como queres tu que ellas casem com
lavradores, dotadas a dois mil cruzados! V se as dotas, Joaquim; e
d-lhes os seus maridos lavradores, e no as chames  cidade. No te
lembras d'aquelles choupos onde cantavam de madrugada e ao anoitecer os
pintasilgos, debaixo da janella do nosso quarto?

--Lembra.

--Pois olha que no ha musica mais suave a coraes felizes! Deixa que
nossas irmans a gosem por muito tempo; que, se a esquecerem por outra,
em vo te cansars em dar-lhes novas alegrias. Faz por que ellas no
tenham de vender o seu patrimonio, que est na pequena propriedade onde
os passarinhos cantam nos choupos, e onde o anjo da paz mora com ellas.
Em quanto ao offerecimento que me fazes do teu dinheiro, meu bom irmo,
pde ser que eu t'o acceite para uma longa viagem, visto que j no sou
aqui preciso para meditar no futuro esteio da nossa familia.

--Pois onde queres tu ir?--atalhou Joaquim.

--Penso em ir ao Brazil. Dizem-me que ha alli trabalho para os braos de
todas as naes, e particular amor e bem-querena para o portuguez que
trabalha. O cansao do espirito enfraqueceu-me os braos,  verdade;
mas, ainda assim, quando eu puder acabar de todo com este incommodo
hospede chamado a sciencia--a minha estupida e inutil sciencia!--ento
pde ser que os braos se revigorem, e eu restitua  minha propria
dignidade, em trabalho, o que perdi na inactividade de doze estereis
annos de lidas de pensamento e de vans ambies. Outras ambies me ho
de levar ao Brazil:  ajudar-te, Joaquim;  ser, como tu, digno da
estima dos nossos e da estima de estranhos. O homem inerte, aqui no
Porto,  desconsiderado: devia sel-o assim em toda a parte onde fosse um
e unico o padro da honra. No sei em que conta sou tido pelas raras
pessoas que me conhecem aqui; mas escuto o que se diz dos pouquissimos
que por ahi vagueiam de rua em rua, affectando com jactanciosa necedade
que o Porto pde imitar Lisboa no seu peculiar caracteristico da
vadiagem. Vexa-me a actividade d'esta boa gente, que parece trabalhar
incessantemente para dar nome de laborioso a este paiz! Ando como
humilhado ao par do commerciante, do artista, do escriptor e do ultimo
operario. Esta ancia de lavor e de fadiga chega a mortificar-me.  ver
que benefica influencia tem a labutao dos mais materiaes mesteres
sobre os espiritos exclusivamente dados s funces da intelligencia!
Parece que todo o homem anda em competencia com o outro na sua esphera
de trabalho. O commerciante agenceia grandes operaes em poucas horas;
as forjas convertem em frmas maravilhosas milhares de arrobas de ferro
em rapido tempo; o poeta, se outro fito o no descaminha, reala na
facundia e seleco de seus poemas; o romancista, com este mesmo mundo
de boas paixes e febril actividade, compor livros sobre livros sem lhe
ser mister explorar as sinuosidades do vicio para ser bem-quisto e lido.
E que sou eu aqui, meu irmo? Que fiz eu do meu cabedal de
intelligencia? Deixei-o congelar-se sob a mo do infortunio, quando
devia rasgar umas cartas de bacharel affrontosas, e vestir a jaqueta do
operario, em cujas lapelas o respeito publico aprezilha muitas vezes a
condecorao, invisivel sim, mas venerada na consciencia dos que
nobilitam o trabalho..................................................

Eu tenho a sizudesa de poupar o leitor ao muito mais estirado discurso
do bacharel. Fallou muito, como fallam os misanthropos quando uma
luzinha de esperana lhes lampeja na sua escuridade. A sua esperana
sorria-lhe d'alm-mar, do ceo hospedeiro do novo-mundo.




V.


Dizia Gasto de Noronha  filha Corinna:

--Vi-te hontem  noite muito distrahida, menina, e gostei que te
inclinasses quelle rapaz...

--A qual, pap?

--A qual ha de ser?!--tornou o pae com um gesto de intelligencia e
comprazimento-- o unico com quem te detiveste uma boa hora...

--Ah! j sei... o Taveira?

--Alli tens um excellente marido, Corinna! Trezentos e cincoenta
contos... No sabias?

--No, meu pae--respondeu a menina, indecisa se devia desenganal-o, ou
evadir-se  continuao das perguntas.

-- necessario--proseguiu Gasto em tom solemne--acabar com as
distinces de raas. A velha nobreza  um merito relativo que o
progresso acata, se outros meritos de natureza commum a sustentam na
altura d'onde procede. As altas linhagens predominavam, quando eram as
representantes dos illustres nomes e das grandes riquezas. Porm, depois
que as industrias abriram fontes de ouro, sem terem de o fazer  ponta
da espada e da lana, a fidalguia baixou muito do seu quilate, e teve de
associar-se com ellas para no ficar ssinha, estacionaria e
dessociavel. Tu viste como em Frana as netas dos grandes titulares de
Luiz XIV vo casando com os netos dos plebeus d'aquelle tempo.
Ennobrecer-se de veneras e titulos custa to pouco, ou vale to pouco no
bom juizo dos governos illustrados, que j hoje pde cada homem rico
abrir a sua burra, e fazer com que ao mesmo tempo se abra o cofre das
graas. Muita gente irreflectida diz que isto  um mal; e os atilados
acham que a depreciao dos fros de fidalguia  coisa de incalculaveis
vantagens para o adiantamento da humanidade. Entendem elles avisadamente
que s assim, egualando os homens pela nobilitao, j que elles no
querem egualar-se pelo plebeismo, conseguiremos ser todos eguaes. Ora
ns, filha, que vivemos em Frana, onde as fitinhas so respeitadas,
porque todos as desejam e trabalham para ganhal-as, vencendo uma
batalha, apedrejando um rei, ou inventando uma machina de fazer
colchetes, devemos ter na devida conta de desprso uma chimera que,
felizmente, em Portugal preoccupa todas as cabeas para, a final, as
nivelar todas na mesma linha...

Corinna da Soledade estava ouvindo e recolhendo as sentenas do pae, com
o proposito de responder com ellas ao mesmo apostolo da egualdade, se
alguma vez carecesse d'isso.

Gasto continuou no mesmo tom de circumspecta gravidade:

--Accrescem razes d'outra ordem no caso especial em que estamos,
Corinna. A nossa casa est desfalcada a ponto de eu no poder remediar
com a mais apertada economia o mal que vem de avs, e eu continuei na
emigrao, para vos dar decencia, educao e prazeres. Moos eguaes a ti
em nascimento muitos haver; mas, pouco mais ou menos, empobrecidos como
ns, e retirados como realistas  obscuridade dos seus solares e da sua
inactividade. Uns por inercia, outros por ignorancia, todos se devem
considerar formando  parte uma phalange de estatuas d'algum devastado
jardim que no ha de mais florir. J vs, Corinna, que ha difficuldade
em achar-se um marido como teus bisavs o desejariam; mas facil te ha de
ser encontral-o como teu pae t'o deseja. Felisberto Taveira, sobre ser
rico,  um gentil moo,  doutor, revela fina educao, e... no 
assim?

--Parece-me excellente sujeito--disse Corinna.

--Bem: eu no podia enganar-me--tornou com alegre semblante o pae--J te
disse elle que... sim... manifestou-se-te?

--Nada me disse com relao a casamento, pap.

--No admira: era a primeira vez que fallava comtigo; mas que te
amava...

--Tambem no disse...

--Pois sim; convenho em que o respeito e a delicadeza o contivessem;
porm tu deves conhecer, depois de uma hora de conversao...

--No fallamos a nosso respeito, pap--disse candidamente Corinna.

--Pois ento?!

--Eu lhe digo: apresentaram-me um sujeito que me disse umas palavras
muito amarguradas, e sahiu do baile. Fiquei pasmada e curiosa de saber
quem era o tal sujeito. O Anto de Menezes, que m'o tinha apresentado,
trouxe-me o Taveira para me dar as informaes que eu desejava. Ficamos
a fallar d'elle todo aquelle tempo que o pap viu. Ahi tem vossa
excellencia o que foi.

--E quem era o sujeito? que te disse elle? e porque ficaste tu assim
curiosa de o conhecer?!--perguntou Gasto com demudado rosto.

--Era um doutor Azevedo Barbosa, de Barcellos, hospede do Felisberto
Taveira...

--E que mais?--atalhou o pae precipitadamente.

--E que mais?! o pap que deseja que eu lhe diga mais?

--Se  rapaz de fortuna... Em Barcellos no sei que haja...

-- pobre, e vive muito penalisado, porque tem quatro irmans, e cuida
que o persegue uma m estrella.

--Pois sim, no duvido que o persiga uma m estrella, e que seja pobre e
tenha quatro irmans; mas que tens tu que ver com isso? Em que se funda a
tua interessante curiosidade?!

--Tive compaixo d'elle, pap.

--E gastaste uma hora a colher informaes!... O Taveira havia de
persuadir-se que tamanho interesse significava alguma coisa mais que
simples curiosidade. Se assim foi, como havia de elle dizer-te que te
amava?! Ora, minha filha, nunca faas praa d'essas tuas compaixes sem
utilidade. Se o Taveira te procurar nos bailes, agradece-lhe a
preferencia, e no lhe faas suspeitar que o escolhes por medianeiro:
isso no s desanima, mas offende o amor-proprio. Teu pae pede-te que
olhes com toda a seriedade ao teu futuro, que por em quanto se figura
triste. Com um bom casamento davas-te, e davas  tua familia a
felicidade.

Corinna da Soledade, ausente o pae, scismou largo tempo com muita
tristeza, e meditou em fingir-se doente para no ir, na seguinte noite,
ao baile da Torre da Marca.

O fingimento era facil; porm o bom ou mau anjo d'ella segredou-lhe
seduces, que a deliberaram a conservar-se no goso de sua perfeita
saude para ir ao baile dos condes de Terena.

Antonio d'Azevedo, sinceramente violentado, entrou na sala em que estava
Corinna, e foi ao lado de Taveira cumprimental-a. Momentos depois,
Felisberto ia retirar-se, crendo que assim comprazia a Corinna. Chamou-o
ella, e disse-lhe a resguardo de Azevedo:

--Desagrado a meu pae, que est aqui defronte, se ficar conversando com
o seu amigo. Peo-lhe que me no deixe s com elle, e, quando meu pae
estiver jogando, ento...

E de feito, Gasto de Noronha fitava os olhos na filha, e perguntava 
pessoa com quem fallava, se o sujeito que entrara com Taveira era um tal
Azevedo, de Barcellos.

Dizia Taveira ao seu hospede:

--Aposto mil contra um... aposto!

--O que?--perguntou Azevedo.

--Que Corinna te ama, e te ama de vras! A esconder-se do pae para te
fallar! ha nada mais persuasivo! Quando uma menina se confia n'um
confidente, e desconfia de seu pae, e se esconde d'um terceiro para
dizer ao medianeiro que volte com o outro quando o pap estiver jogando;
e quando esse _outro_... s tu!...

Antonio d'Azevedo ergueu os hombros, e disse:

--Valha-te Deus! Cuidas tu que eu tenho espirito bem folgado para entrar
n'estes brinquedos pueris, em que a tua seriedade corre perigo de
sahir-se mal!... Queres tu que eu me capacite de que estamos figurando
n'uma das graves comedias humanas? Pois sim, meu amigo: figuremos e
discutamos. Tu j disseste quella senhora que eu sou um pobre bacharel
que consumiu sua sensibilidade, _fazendo a crte_ aos ministros da
justia?

--No lhe disse tudo isso, nem parte d'isso. Como ella me no perguntou
se eras rico, dispensei-me de ser o inventariante dos teus pares de
botas e dos teus camapheus. Perguntou-me se eras bom, e eu disse-lhe que
eras um moo honrado, e o corao d'um anjo. Tudo o mais que dissemos
foi commentar o que  ser-se honrado e ser-se anjo. Provavelmente
Corinna, que viu tudo em Paris, no achou l a exquisitice do
anjo-corao, e est em ancias de saber em que tu te apartas do restante
do genero humano. Esta curiosidade  j uma escolha, e a escolha, se a
tua modestia m'o consente,  o amor com todos os seus recatos e
astucias.

Proseguiram n'esta contenda, at que Taveira viu abancar ao jogo o pae
de Corinna; mas, momentos antes, observara elle que o fidalgo segredara
com sua mulher, olhando o bacharel de travz com o sabido disfarce dos
que olham de travz. D. Mafalda fizera um gesto, que vinha a dizer que
estava sciente.

--Vejo que a familia est de sobre-rolda!--disse Taveira ao seu
amigo--mas ainda assim avisinhemo-nos cautelosamente da praa.

Corinna acabara de dansar, e passeava pelo brao do parceiro, que por
fortuna era Anto de Menezes, o apresentante emrito. Este, que
adivinhava todas as subtilezas do corao dos seus apresentados,
approximou-se de Azevedo, e disse-lhe com mui galharda cortezania:

--O thesouro no me pertence. Aqui o tem, que eu sou apenas o indicador
dos thesouros.... sou uma especie de S. Cyprianno, que descobre as
riquezas encantadas.

Antonio d'Azevedo deu o brao a Corinna, e Felisberto Taveira retirou-se
com Anto.

Agora  que havia de ser umas delicias ouvil-os, se D. Mafalda,
vigilante observadora da passagem innocente, no mandasse um cavalheiro
dizer a sua filha que fosse fallar-lhe.

Corinna respondeu:

--Queira dizer  maman que eu vou j.

--V, minha senhora--disse Azevedo. No seja eu causa de sua me a
desgostar.

--No importa.... Eu queria pedir-lhe que no fosse to infeliz...

--A mim?!--atalhou Azevedo suavemente enleado pela musica d'aquella voz,
em que o tom da supplica tinha o mavioso do carinho filial.

--Sim... pois no me disse que era muito desgraado?...

--Sou.... era muito desgraado; mas condoeu-se vossa excellencia a tal
ponto de mim que....

--Que lhe peo com instancia que se no deixe vencer do tedio da
sociedade; no fuja das pessoas que imagina felizes... Olhe que no
encontra seis que o sejam n'estes centenares de pessoas. Eu, se fosse
senhora das minhas aces, tambem aqui no vinha, e ficaria a soffrer
sem nada remediar... No posso demorar-me, que minha me est
impaciente... Olhe que eu desejo a sua amizade... Conduza-me a minha
me... e no se esquea...

Este lance, que, a dar-se uma vez na vida do homem, nunca se repete, foi
uma especie de vertigem, que deixou o espirito de Azevedo na indeciso
de quem, a sonhar, a si mesmo se pergunta se est sonhando.

Corinna sentou-se ao lado de sua me, e o bacharel com os braos
pendentes e a boca descerrada para tragar flego que lhe alargasse o
peito, ficou, tres passos distante, arrobado na contemplao da gentil
menina.

Taveira, que no os perdera de vista, estava-se deliciando no
espectaculo que s elle via. Quando achou que era tempo de acordar o
amigo de um extasis desagradavel a D. Mafalda, tomou-o pelo brao, e
disse-lhe simulando seriedade:

--Quando quizeres vamos embora. So duas horas da manhan.

--J!--murmurou Azevedo.

--V l.... se queres sonhar mais alguns minutos....

Azevedo comprehendeu a inteno de Taveira, e disse com uma voz que no
era a sua, e com um brilho d'olhos que nunca tivera:

--Nasce o novo homem... Sinto o corao... Agora sei que ha uma
felicidade commum de todos os desgraados. Se isto no  uma sensao
passageira, hei de beijar-te as mos, que me arrancaram do meu abysmo.

--A beijares as mos de alguem--disse Taveira, sorrindo-- melhor que
beijes as mos de Corinna.

Antonio d'Azevedo deteve-se um pouco de tempo em recolhimento
silencioso, e disse de sobresalto:

--Isto  uma nova desgraa!

--O qu? uma desgraa beijares as mos de Corinna?

--V tu--proseguiu elle como se no ouvisse a pergunta galhofeira do
amigo--que engenhosa  a minha funesta estrella! Hontem tive um
pensamento que me deu vigor novo para crer e esperar. Projectei ir ao
Brazil, e logo os horisontes do meu futuro se rasgaram, e no sei a que
luz a esperana me mostrou dias ditosos. Sonhei com as alegrias do meu
plano, e acordei hoje com um alvoroo estranho. A desgraa viu que eu
tive algumas horas menos negras, e duvidou da sua omnipotencia.
Trouxe-me aqui para eu sentir que o apartar-me hoje do local onde ouvi
aquella mulher me ha de ser um tormento.

--Melhor!--interrompeu Felisberto--Ella e os teus amigos no querem que
vs ao Brazil procurar a felicidade que deixas c. Onde a procuramos 
que ella no est.

--Entendes tu--disse o bacharel--que se  feliz, amando, na minha
posio, uma senhora na posio de Corinna de Noronha, filha do nobre
Gasto de Noronha...

--Nobre e pobre, accrescenta. Se elle fosse rico como foi, dizia-te que,
a no quereres renunciar aos teus austeros principios de dignidade,
convinha-te esmagar o corao debaixo da barra d'oiro que ella valesse;
mas, segundo as informaes que hoje me deram, a filha do fidalgo no
tem mais do que tu. Entre ti e ella est estabelecida a egualdade
humana, no maximo rigor da palavra.

--Ainda no--atalhou Azevedo--Eu sou filho de um lavrador de Barcellos.

--Vai tu perguntar aos lavradores de Barcellos se elles do seus filhos
s filhas dos fidalgos que no tem terras que lavrar.

--Essa  outra questo, meu amigo. No te esqueas que eu sou um homem
sem occupao. To reprehensivel seria eu disputal-a ao pae sendo ella
rica e eu pobre, como se quizesse associal-a  minha pobreza. Que faria
eu d'aquella menina se me fosse permittido casar com ella?

--O que fazem das esposas os maridos que casam pobres. Amam-as como se
costumam amar os pobres; por amor d'ellas redobram de vigor para
luctarem com a adversidade; por amor dos filhos nunca esmorecem no
desalento em que tantas vezes se nos deparam os celibatarios, que apenas
luctaram um anno com as contrariedades. A familia  uma accumulao de
foras no brao do seu chefe. O pae nunca succumbe; o marido tem uma
fora providencial que o ampara.

Este dialogo, o primeiro que n'este genero talvez se travou n'um baile
entre dois rapazes menores de vinte e cinco annos, foi interrompido por
Gasto de Noronha, que quiz ser apresentado a Felisberto Taveira.




VI.


Quiz o fidalgo do Minho apalpar o corao do filho do millionario,
pessoalmente. A sua prosapia soffria-lhe que, ageitando-se o ensejo,
elle mesmo se offerecesse para sogro, e poupasse o timido moo aos
embaraos de pedir-lhe a filha, e aos receios de ser mal acolhido.

Ouviu Felisberto Taveira uma longa e no falsa descripo das virtudes e
prendas de Corinna da Soledade. Aqui se d um fragmento da paternal
exposio:

--Minha filha, posto que vivesse na melhor roda de Paris, e a rodeassem
os mais graduados moos d'aquelle viveiro da elegancia, nunca se
captivou d'algum. No lhe direi que ella se isentasse por soberba do seu
nascimento, bem que pudesse tel-a, porque meu quinto av sahiu da casa
dos marquezes de Villa-Real, por onde somos Noronhas; todavia, no era
vaidade a frieza de Corinna. Bem pde saber vossa senhoria que o corao
 de essencia democrata, e ao corao se deve o triumpho da democracia,
em virtude de se irem a pouco e pouco amollecendo as durezas de que as
antigas educaes callejavam o corao da mulher de linhagem. O que
minha filha tinha e tem, era um juizo prudencial  prova de todas as
velleidades e pompas, que seduzem o vulgar das meninas. Os seus gostos
foram sempre moderadissimos; riquezas nunca a deslumbraram; os bailes e
os banquetes era preciso obrigal-a a gosal-os; tudo lhe era pesado,
menos a solido, a meditao e a obscuridade. Cuidei sempre que minha
filha seria insensivel ao prazer de se ver amada, e mais ainda ao de
receber satisfeita a crte de algum moo. Em Portugal, principalmente, 
que no devia esperar vel-a possuida de sentimentos amorosos; porque,
sem desaire da nossa patria, devemos confessar que ns, os portuguezes,
temos em amor uma certa gravidade, que toca a extrema do aborrecimento.
Falta-nos um certo espirito _ptillant_, um no sei qu de que as
mulheres se deixam seduzir. No acha?

--Sim, senhor... ns temos isso...--respondeu Felisberto Taveira,
descobrindo um grande fundo de ridiculez atravs do aspeito encanecido
do fidalgo.

--Sem duvida nenhuma... Pois, meu caro senhor Taveira, penso poder
affirmar-lhe que a minha filha est pagando o universal tributo.
Descobri que ama! S o Porto podia fazer tal milagre!

-- muita honra para o Porto, senhor Noronha! e muita mais ainda para o
homem escolhido.

--Que vossa senhoria conhece perfeitamente...

--Eu?...--balbuciou Taveira, quasi convencido de que o fidalgo alludia a
Antonio d'Azevedo.

--Sim, senhor: conhece-o como s suas mos, porque vossa senhoria e elle
formam dois seres n'um s ser: so inseparaveis.

Isto acabou de persuadir Taveira, que, na mais candida boa f,
accrescentou:

--E creia vossa excellencia que a pessoa preferida pela senhora D.
Corinna tem virtudes e corao dignos d'ella.

--Creio, creio, e o meu maior prazer era vel-os unidos, em quanto eu
tenho vida e alegria para poder felicitar-me de to boa unio.

--Agora me convenci--acudiu Felisberto--de que vossa excellencia ama
sinceramente sua filha, e viu com benignos olhos a inclinao desegual
que ella manifestou.

--Inclinao desegual! Eu no sou parvo de fidalgas desegualdades,
senhor Taveira! Soberania ha uma s, que  a da virtude: o resto so
convenes humanas sem criterio nem fundamento real. O que eu quero 
ver minha filha feliz. Se os meus appellidos valem alguma coisa, meus
netos ho de chamar-se Noronhas, e a todo tempo que elles queiram
humilhar arrogancias d'outros nobres, podero sempre abrir a historia,
na certeza de que encontram o nome d'um av em cada pagina. Os tempos
so outros, senhor Taveira, porque so outros os coraes. Violentar a
vontade de minha filha!... Deus me feche os olhos antes que eu tal faa!
Respeito-lhe a inclinao, que ella manifestou, porque sei que a sua
dignidade foi a primeira voz que lhe deu conselho.

--Admiro a grandeza de sua alma!--tornou Taveira com mui sizuda e
admirativa satisfao--E mais me espanta que vossa excellencia, antes de
acceder  vontade de sua filha, no curasse de saber se o homem
escolhido  bastante rico a mantl-a na decencia com que foi criada.

--No, senhor, no quiz saber se era rico: o que perguntei foi se era
bem comportado, se tinha grangeado a estima publica, se seria um bom
marido e um bom pae. Unanimemente me disseram que sim.

--E disseram-lhe a verdade, senhor Gasto de Noronha--confirmou
Taveira--A riqueza de Antonio d'Azevedo s bem lh'a podem avaliar os que
mais perto vivem de sua nobre alma.

--A riqueza de quem?--atalhou Gasto de Noronha com um gesto de
irrisorio espanto.

--De Antonio d'Azevedo Barbosa--tartamudeou Taveira, corrido do engano
em que tinha estado.

--No nos temos entendido!... Pois vossa senhoria cuida que eu estou
fallando d'esse tal sujeito?

--Cuidava... Pois no  elle a pessoa distinguida por sua filha?!...
Perdo! eu entendi mal.

--Vejo que sim; e eu peo tambem perdo de entender mal, cuidando que
era outra a pessoa... Ora esta!... Pois no  o senhor Felisberto
Taveira?

--Eu!

--Sim, o senhor!

--No pensei tal... e creio que vossa excellencia entendeu mal a
propenso da senhora D. Corinna, posto que a escolha me daria muita
gloria.

--Muito bem: faamos de conta que estivemos a fantasiar--tornou Gasto
simulando um desenfado risonho, que l por dentro era accesso de zanga e
vergonha.--Pelo que diz respeito ao senhor Antonio de... como ?

--Antonio d'Azevedo.

--Ah! sim, d'Azevedo... filhote de Barcellos?

--Justamente.

--No sei quem so os Azevedos de Barcellos... Sejam l quem forem, meu
caro senhor Taveira... tenho a dizer-lhe...

--Os Azevedos de Barcellos--interrompeu com louvavel desabrimento
Felisberto--so to nobres como os Taveiras do Porto. Meu pae veio da
lavoira de Fafe para aqui; o pae do bacharel Antonio d'Azevedo morreu na
lavoira de Barcellos.

--Sim, senhor: convenho em que to nobres so uns como outros; mas a
minha filha no ha de, creio eu, illudir-me mais uma hora. Queira
desculpar um engano, em que vossa senhoria nada perdeu, e rogo-lhe que
diga ao senhor Antonio d'Azevedo que se preoccupe com aspiraes mais
rasoaveis, se no interessa em dar graves desgostos a uma familia que
vive tranquilla.

Quando as ultimas linhas d'este dialogo se trocavam entre os dois, qual
d'elles mais corrido do seu equivoco, outro dialogo terminava entre
Corinna e Antonio d'Azevedo por estas palavras d'ella:

--Eu receio que meu pae se no demore no Porto, e Deus sabe se nos
veremos mais! Olhe: se tiver preciso de queixar-se da sua m estrella,
faa-o a mim, que sou, desde hontem, desde sempre, desde que nasci sua
amiga, e talvez sua irman por sympathia de dores. Escreva-me: eu lhe
direi de Vianna em que nome me ha de escrever. V visitar-me em espirito
 minha soledade: l me ver ssinha por entre as arvores, em quanto
minhas irmans, quasi to infelizes como eu, procuram ao menos
entreter-se umas com as outras em volta das suas saudades de Paris... Eu
nem isso trouxe de l... No se demore, que vejo meu pae...

Felisberto chegou diante de Antonio d'Azevedo, e disse com forado riso:

--Ests outra vez somnambulo, Antonio? Eu estou peor, porque venho
estupido de spasmo!

--Que ?

--Querem casar-me com a tua Corinna!

Azevedo ergueu a fronte avincada, e disse:

--Pois  costume offerecerem-se assim as filhas n'um baile ao homem a
quem se  apresentado?!

--No  costume:  moda agora... O Gasto vai sahir com a
familia--ajuntou Felisberto--Podemos ir, e l fra conversaremos.

Ouviu o bacharel o dialogo em resumo; contou ao seu amigo as ultimas
palavras de Corinna; e adorou a imagem da primeira mulher amada nos
alvores da aurora que repontava. O que elle ento disse, em arrobos de
poesia, era o sublime represado n'aquelle corao em sua primeira
primavera.

Perguntou-lhe Taveira se pensava ainda em ir ao Brazil.

--Hoje mais que nunca--respondeu elle.

--Como assim?! Aquella mulher no te prende  patria?

--Prende-me sobre tudo a um sacratissimo dever. At agora pensava em ir
ao Brazil para segurar o futuro de quatro irmans pobremente criadas e
boas de contentar com pouco; d'hora em diante hei de ver no horisonte
das minhas ambies, alm de minhas irmans, Corinna da Soledade, educada
com as regalias da sua condio, e s digna do homem que a no obrigar a
descer de posio aos olhos da sua sociedade.

--E quem te assevera--redarguiu Felisberto--que voltas rico a Portugal?
De que genero de trabalho fias tu a tua prosperidade?

--De todos os generos honestos. Se no valer como advogado, valerei como
caixeiro; se no tiver aptido para o negocio, ensinarei o que sei; se
tiver de descer, descerei sem vergonha; se descer to baixo que nunca
possa erguer-me d'entre os ultimos operarios, ahi ficarei, e l
morrerei: ninguem dir, depois, que transigi com a minha inutilidade.

--Quer-me parecer--retorquiu Taveira--que a linda Corinna est sendo
ainda pouquissima coisa na tua alma! Dar-se-ha caso que, em verdade, tu
sejas refractario ao amor, ou que a tua sensibilidade, como disseste, se
consumisse em galantear os ministros da justia!? Qualquer homem, que
no fosse tu, forte do amor inspirado por um anjo como Corinna, e com as
tuas habilitaes, cuidava desde j em agenciar na patria uma mediania,
que a doura da vida intima convertesse em opulencia invejavel aos mais
opulentos. Suppondo que tu no pudesses, n'um ou dois annos, alcanar
emprego, ou clientela como advogado,  de crer que tivesses um amigo a
quem pedisses um, dois, ou mais contos de reis para te estabeleceres
aqui, em Lisboa, na tua terra, ou onde quizesses viver. Suppondo mais
que tu me tivesses na conta do teu primeiro amigo, era a mim que tu
pedias esse emprestimo, e eu com mil vontades te servia agora, e depois,
e sempre.

Antonio d'Azevedo, aps algum espao de reflexo, respondeu:

--Meu caro amigo, se o verdadeiro amor  uma desordem da razo, esse no
 o amor que eu sinto. Que a minha vida est passando por nova phase, 
certo: esta excitao d'alma, que eu no sei se deva chamar alegria da
juventude feliz, nunca a experimentei. Porm nenhuma das minhas
faculdades, que pensam, julgam, e antevem os successos, se escureceu:
ouso at affirmar-te que o juizo se revigora, e a previdencia se aclara
mais. Depois d'isto, imaginemos que tu me emprestas o cabedal necessario
para eu ter uma casa, uma esposa, e a subsistencia certa de algum tempo.
A esposa devia ser necessariamente a filha de um homem que cahiu da sua
dignidade offerecendo-t'a porque s rico, e que se dignou recommendar-me
que no perturbasse o socego de uma familia, que vive tranquilla. No
foi isto?

--Pouco mais ou menos.

--Bem: e no entendes tu que seria uma indignidade ir eu perturbar o
socego do pae de Corinna, casando-lhe com a filha, por meio d'um rapto
ou da interveno da justia?

--No entendo assim a dignidade. Se Corinna consentir em ser raptada
para o mais santo dos intentos a que o corao a pode impellir; e, se
ella rasoavelmente se no quizer sacrificar  ambio do pae, nem a tua
honra, nem a sua, nem a da familia illustre ou no illustre, soffrem
desaire.

--Discordamos--replicou Azevedo--Gasto de Noronha quer que sua filha
case rica: entende elle que sua filha s pde ser feliz sendo rica. Ser
absurdidade uma tal opinio? Vai tu perguntar a qualquer pessoa estranha
a Corinna, se a julga feliz na pobreza: ha de responder-te que a julga
mais feliz sendo rica. Pois se os estranhos pensam assim, que far um
pae?

--Convenho; mas sobejam exemplos de mulheres sacrificadas por esse erro
dos paes.

--Deixal-os sobejar: ainda mesmo que todos os exemplos fossem contra os
paes, nem por isso a vontade bem intencionada d'elles deixava de ser
respeitavel; mas cr tu, meu amigo, que o maior numero de casos
justifica o arbitrio dos paes. Eu tenho vivido muito arredado d'estes
estudos da sociedade em que tu deves saber muito; assim mesmo, se tu
quizeres posso recordar-te de os ter ouvido a ti e aos outros, alguns
casamentos mal agourados por terem sido contra vontade das filhas,
arrancadas por fora a affeies de moos pobres para serem adjudicadas
a homens odiados com toda a sua riqueza. Pois, com o rapido andar de
alguns mezes, se no dias, as esposas violentadas apparecem radiosas de
alegria nas suas carruagens, nos seus camarotes e nos seus sales; em
quanto os mocinhos pobres e amantissimos, ou porque emmagrecem, ou
porque engordam muito, chegam a passar por as noivas, que os poetas
denominam _martyres_, sem ellas os conhecerem.

Felisberto riu-se do semblante grave com que o seu amigo proferiu as
ultimas palavras.

Aps breve pausa, Antonio d'Azevedo continuou:

--Estamos aqui a fallar de casamento, como se Corinna me tivesse dito
que quer casar comigo!... O que ha entre ns  uma ligao das que se
desligam no intervallo de dois bailes, meu amigo. Lembra-te que eu no
sou de todo hospede n'estas materias: traduzi vinte ou mais volumes de
romances, e acredito nos romances, cujas passagens a minha razo
explica. Dado, porm, que a maga  duradoura, e que este amor encerra
em si um drama, que ha de fechar pelo casamento, eu s poderei ser
marido de Corinna quando o pae me acolher, _sem equivoco_, como te
acolheu a ti ha poucas horas.  preciso que a justia no interceda a
favor do meu corao. Quando eu puder dizer a Corinna que sou bom, e ao
pae de Corinna que sou rico, ento verei se este presentimento da
felicidade era mais que um sonho dos que os grandes desgraados
convertem logo em excruciante realidade da vida. Por ora, nem bom nem
rico. Para a bondade falta-me ter esgotado as foras que ainda sinto em
adquirir meios com que sustente uma grande poro do bem-estar,
impossivel de alcanar-se sem elles. Eu no sei que merecimentos pde
ter, no conceito d'uma mulher, o homem pobre que, em nome da sua
desvairada paixo, a convida a ser pobre com elle, e a receber da
sociedade as, talvez involuntarias, desattenes que necessariamente
avexam o pobre, se elle no est santificado pela paciencia. Ora, a
santificao n'estes nossos dias, meu amigo, nem o muito amor a pde dar
aos casados pobres.

--Do teu arrazoado--disse Felisberto--concluo, e toda a gente ha de
concluir, que amas Corinna como um inglez, estabelecido nas Antilhas,
amaria a sua noiva, que elle nunca viu, estabelecida em Londres. Dentro
de quinze dias ests mudado, ou ento ha ahi grande aleijo na tua alma!
Hei de dar-te um conselho, se no mudares.

--Ento d-m'o j, que eu fico pela minha constancia.

--Ordena-te, faz-te conego, bispo, patriarcha, cardeal, e no vs ao
Brazil.




VII.


Gasto de Noronha, poucos dias depois do baile da Torre da Marca, sahiu
do Porto apressadamente com a familia, por saber que chegara a Vianna um
seu parente de Lisboa, com o intento de passar a estao da primavera na
quinta das margens do Lima.

Momentos antes da partida, Corinna da Soledade escreveu esta carta:

Vamos partir. Lembre-se d'esta sua outra irman para lhe contar os seus
dissabores. Pde parecer-lhe que este desejo das suas cartas  desejo de
quem vai viver na solido da aldeia, e precisa distrahir-se seja com o
que fr. Talvez a sua bondade me no recusasse tal distraco, ainda
mesmo tendo o meu amigo a certeza de ser tamanho e to de gelo o meu
egoismo. No, no  assim. Eu, sem pejo, lhe confessei que o estimava
quanto podia, e nenhum accidente da minha vida me far mudar. Se vir o
caminho da felicidade, siga-o, meu irmo, e no volva a face l para a
minha soledade, para aquelles arvoredos onde eu hei de esconder-me com
as suas cartas. Adeus.==_C. da S._

Na carta ia incluido um bilhete com um nome de homem, a quem deviam ser
subscriptadas as cartas de Antonio d'Azevedo.

Agora sabe a sensivel leitora se Corinna da Soledade tinha razo de
estar triste mais que suas irmans, quando, idas do tumultuoso Porto, se
viram outra vez no ermo, quando as arvores mal sacudido tinham os gelos
do inverno, e comeavam a abrolhar os gomos da sua nova folhagem.

O parente, que esperava em Vianna, Gasto, era um fidalgo sexagenario,
filho de Lisboa, grande morgado no Alemtejo, e muito amigo de
divertir-se, do que dera cabal prova no decurso de sua vida celibataria.
Chamava-se D. Joo de Mattos e Noronha, e vinha a ser segundo primo de
Gasto, ou coisa assim parecida. O ir elle ao Minho, na primavera
d'aquelle anno, posso asseverar-lhes que no era movido por desejo de
vr florido o jardim de Portugal, nem se lhe a elle dava que as claras
aguas do Lima corressem para baixo ou para cima. O caso era todo
medicinal. Como sentisse as pernas fracas, e o estomago preguioso,
consultou varios medicos, e todos lhe disseram que fizesse exercicio, e
bebesse bons ares, especialmente os do Minho. Occorreu logo a D. Joo de
Mattos que tinha um parente nos suburbios de Vianna; e, posto que nunca
se vissem nem correspondessem, entendeu elle que, a toda a hora, um
Noronha seria bem recebido no solar do fidalgo minhoto. Outra razo vem
condizendo para explicar a escolha da provincia, e era que o velho
fidalgo de Lisboa, na ultima decada da vida, se fizera to economico e
avro, quanto fra prodigo e dissipado at aos cincoenta annos: d'onde
resultava que o seu grande prazer seria achar bom gasalhado gratuito em
casa de parentes, que se dariam por bem pagos com a honra de o terem
hospede.

Cresceu de ponto a satisfao do velho, quando se viu alegremente
acolhido nos braos de seu primo, dando a beijar a mo s cinco formosas
meninas, que lhe chamavam tio D. Joo.

A medicina teve um triumpho. O estomago de D. Joo activou
admiravelmente suas digestes; as pernas pareciam recaldeadas de ao;
movia-se o remoado velho com a flexibilidade dos seus quarenta annos. A
natureza brindou-o com as suas urnas aromaticas: eram tudo tapetes e
doceis de flores a festejal-o; as calhandras e os rouxinoes
desgarravam-se em cantilenas quando o velho passava com as sobrinhas
pelos braos; at o Lima, recobrando a primitiva maga de dar o
esquecimento a quem o transpunha, parecia ter matado no sexagenario
saudades, e renascido esperanas em novo comear de vida.

Esperanas! ora, esperanas aos sessenta annos, (diz o leitor) em que, a
no ser na salvao de sua alma?

Vero o que d'alli se. Ho de maravilhar-se do influxo d'aquelles ares
e aguas do Minho, nas fibras revelhas de um peito ido de Lisboa, onde as
cachexias do corao vem muito mais temporans--o que, a meu ver, se deve
ao mau ar e  pessima agua, elementos importantissimos do sangue.

D. Joo de Mattos, conversando, uma vez, a ss com seu primo Gasto,
disse ao correr do dialogo:

--Olha, primo, o celibato d aos moos vantagens, que, no velho, so
amargamente descontadas. Mil vezes, nos ultimos vinte annos, me tenho
arrependido de no haver casado. Desprezei grandes fortunas, porque era
rico, e formosas mulheres, porque era um estroina de pessimos costumes:
parecia-me que a belleza  uma flor boa para se aspirar e deixal-a ainda
viosa para que nol-a invejem e furtem; em quanto que a obrigao de
conservar em casa a flor murcha  um pesadelo. Isto  que eu pensava com
a minha libertina philosophia dos vinte, dos trinta e dos quarenta
annos. Quando orcei pelos cincoenta, lembrou-me que, aos sessenta,
precisaria de uma familia, de uma esposa, de filhos, de carinhos e das
doces illuses da velhice. Pensei em casar-me. Procurei as mulheres que
amara aos trinta, e achei-as mes e avs; algumas que se conservavam
solteiras estavam feias e velhas. Veja o primo o poder dos maus
habitos!--quando assim as vi, ainda c disse de mim para mim: olha se
eu tenho casado, que bonitas creaturas estas para me ajudarem a
bem-morrer! Muito custa a purgar a peonha dos maus principios, primo
Gasto! Aqui tem, pois, vossa excellencia que por um triz no cedi 
tentao de casar com uma menina de vinte e cinco annos, filha segunda
da casa da Trofa em Evora, a qual os paes me davam com a melhor vontade,
e ella tambem no mostrava sombra de constrangimento; mas um dia, no
sei como, vou a casa d'um tenente de cavallaria, ainda nosso parente, e
vejo-lhe sobre uma mesa um ramo de flores velhas atadas com uma fita de
setim verde que eu mandara  minha futura, atando outro ramilhete, em
dia dos seus annos. Pensei no que vi sem dizer nada. Faz l ideia do
castigo dos meus erros comeados n'aquella hora de ciume! Ninguem
imagina a dor de um velho ludibriado, se elle ainda conserva corao com
bastante memoria para lembrar relances reprehensiveis de sua
mocidade!... Fui para Lisboa sem me despedir da noiva, e de l escrevi
ao pae, dizendo-lhe que seria grande acerto casar sua filha com o
tenente de cavallaria. Como de facto acertaram casando, e l esto
felizes com muitos filhos. O que eu nunca pude acabar de entender  como
podia aquella menina acceitar-me, e com que vistas o faria? Dispunha-se
a ser feliz comigo, e vai depois ser feliz com o outro! Entendam l as
mulheres d'agora to differentes das do meu tempo! De maneira, meu caro
primo, que a minha decrepitude ser triste a mais no poder.  hora da
morte hei de ver-me rodeado dos successores do morgadio, sobrinhos que
aborreo, porque os vejo sempre a contarem-me as rugas novas da cara, e
sei que tem o lisongeiro cuidado de perguntarem por mim, todos os dias,
aos medicos. Tenho accumulado os rendimentos por no saber em que
dispendel-os; e tudo isto ha de ir dar quellas mos vidas de meus
sobrinhos, e depois elles  que ho de saber gosar o que eu j no
posso.... Triste, tristissima coisa, primo Gasto!

--Isso  assim, primo D. Joo....--murmurou com doloroso tregeito de
beios e olhos o pae das cinco meninas solteiras; e proseguiu--O primo,
ainda assim, por causa de uma  injusto com as outras mulheres. As de
hoje so como as de todos os tempos: ha bom e mau. Ora assim como D.
Joo deu com uma das ms, podia ter encontrado uma das muitas que ha
boas, e estar a esta hora muito satisfeito, e ter j um herdeiro dos
seus vinculos.

--Palavra de cavalheiro!--exclamou com alvoroo D. Joo--quando penso
que podia ter um herdeiro dos meus vinculos, e arrancar a minha casa das
garras famintas de meus sobrinhos, morro de desesperao por me no ter
casado! Que contentamento seria o meu,  primo! um filho! um herdeiro!

--Pois ainda est em tempo--atalhou Gasto--case-se; no ho de
faltar-lhe noivas, sem sahir da sua qualidade. Ha de achal-as mesmo na
sua parentella, dignas, formosas, capazes de lhe honrarem a velhice, e
encherem de alegria e mocidade os seus ultimos annos.

D. Joo fitou os olhos descorados e franzidos no rosto do primo,
estendeu-lhe a mo cortada de cordoveias, e tartamudeou:

--Se eu tivesse vinte annos menos, pedia-lhe uma de minhas sobrinhas,
primo Gasto.

--Escolha, primo--disse o pae de Corinna apertando-lhe affectuosamente a
mo.

--No escolho nem peo nenhuma--tornou o velho--Veja se me tira vinte
annos das costas, e depois pedirei a nossa Corinna, que  um anjinho,
mas no para mim, que posso ser av d'ella. Nada, primo, nada: para
desgraado basto eu.

--Faamos um contracto. Eu tracto de sondar a vontade de minhas filhas,
e especialmente de Corinna. Se esta, ou alguma das outras se mostrar bem
disposta a ser sua esposa, o primo D. Joo no se nega.

--Palavra de D. Joo de Mattos e Noronha, que no me nego; pelo
contrario, morrerei de felicidade, porque, alm da esposa e da sobrinha,
levo comigo a mulher, cujos costumes tenho apreciado em mez e meio de
convivencia a todas as horas.

Fechou-se o dialogo com poucas mais palavras de reciproca satisfao dos
dois fidalgos. Em quanto elles praticavam, lia Corinna da Soledade a
decima carta de Antonio d'Azevedo, que dizia assim:

Esta  a ultima carta que lhe escrevo em Portugal, minha amiga. O navio
parte depois de manhan de tarde. Agora vou a Barcellos abraar minhas
irmans, e despedir-me das memorias da minha infancia. Sinto um prazer
amargo em me ir approximando do seu ermo. Cinco leguas apenas nos ho de
separar quando ler esta carta. D-me uma lagrima como retribuio da
angustia com que eu hei de lanar a derradeira vista ao ceo que cobre os
seus arvoredos. Quando eu era criana, ia tantas vezes d'um alto, onde
ha ruinas d'um castello, olhar para esses sitios! Que viso seria
aquella da minha alma, ento magoada como se presentisse a saudade de
hoje!

Mande-me ter coragem, minha querida amiga: diga-me antes, como tantas
vezes me tem dito, que a dignidade excessiva me tem dado ao corao liga
de bronze. Ai! quanto se engana, Corinna! quanto se enganam os mesmos
amigos de quem no escondo um pensamento!

Levo alegres esperanas. Os bons Taveiras tem-me dado cartas de summo
valor de pessoas muito importantes d'aqui para outras do Rio de Janeiro.
A mim no me ha de custar a merecer a bem-querena de todos: levo comigo
a segurana no firme proposito que fiz de no sahir do caminho dos meus
deveres. O que fui comsigo, minha amiga, hei de sl-o em todas as
situaes da minha vida. Se esta estrada me no guiar  felicidade sem
remorsos,  que no ha nenhuma.

Vou no intento de advogar. Em poucos annos, com o auxilio de amigos e
fervor de trabalho, posso ganhar a mediania que basta aos nossos
moderados desejos. Poucos annos, Corinna, que rapidos ho de ir como vo
os annos dos felizes. Ver que a esperana lhe aligeira o tempo, e as
minhas cartas lhe ho de acudir nas ms horas da desanimao. Temos Deus
por ns. Deus, minha Corinna! Escrevo-lhe estas quatro lettras com
quanta unco pde dar a f ardente d'um homem sem culpa. O premio que
Deus me d  a consciencia de poder assim fallar de mim; e chego a crer
que este dom me basta para valer muito em seu conceito. Se me no
sentisse puro de vergonhas e remorsos, Corinna, julgar-me-ia indigno de
si.

Eu quizera poder dizer a todo o mundo, e a todos os desventurosos
escravos de suas paixes, que nenhum amor, por mais desmedido que seja,
carece de provar que o  com destinos e excessos censuraveis.  a
primeira vez que amo, Corinna, e amo-a muito: pois, por sua vida lhe
juro, que ainda leve sombra de inteno culposa me no nubelou a limpida
esperana de a ver minha esposa. Estou chorando e estas lagrimas no sei
se qualquer amante as verte. Sei que muitos as fariam chorar de sangue a
outrem, para se esquivarem ao trance que me est fundamente doendo no
corao. E eu, por mim, antes quero padecer agora, porque sei que hei de
ser consolado. Os dias prosperos no vem do acaso: so grangeados, como
as searas, a muita fadiga e com muitos intervallos de desalento: a final
a colheita de fructos e de benos; o corao ainda novo para saborear
os fructos, e o espirito cheio de santa vaidade por ter merecido as
benos.

Espere-me, minha doce amiga; seja o meu anjo animador; mostre-me de c
sempre a patria  luz da sua alma allumiada de graa divina.

Escreva-me, e mande as suas cartas ao nosso bom amigo Taveira; as
minhas, por mediao d'elle, todas receber, e muito longas, para lhe
encurtar as horas, e dar alguma alegria s minhas noites.

Corinna, minha querida esposa, no posso continuar. Sejamos dignos um
do outro. Offereo a Deus as lagrimas que hei de chorar, pedindo-lhe que
enxugue as suas com as consolaes da esperana. Tenha muito animo. A
religio ha de dar-lhe o que o meu amor no puder. Estarei sempre com a
sua alma, e Deus ser sempre entre ns, porque muito do intimo creio que
entre dois infelizes sem culpa est sempre um bom anjo. Adeus.




VIII.


O jubilo de Gasto de Noronha, causado pela proposta de D. Joo de
Mattos, foi, n'aquelle mesmo dia, aguado por extraordinaria e imprevista
angustia.

Os vinculos que administrava o descendente dos marquezes de Villa Real,
trouxera-os sua mulher, D. Mafalda de Athaide, natural de Ponte do Lima,
havidos de um tio, que morrera sem descendencia directa.

Em quanto Gasto estivera no estrangeiro appareceu um filho natural do
antecessor dos vinculos administrados por D. Mafalda, allegando o seu
direito  successo dos bens de Ferno d'Athaide. O fidalgo no deu pezo
s consideraveis provas de habilitao do contendor. De mais a mais,
como o seu nome de liberal valesse muito a favor do pretendente, o
pleito decidiu-se contra Gasto em primeira instancia. Seguiu o processo
os termos de appellao para as superiores instancias. Gasto tinha
parentes nos altos cargos da judicatura, liberaes rebuados, que
protegeram o ro ausente, contra o favorecido author. O pleito ficou
alguns annos trancado no desembargo do pao, at que o emigrado voltou.
Os primeiros annos, que seguiram a restaurao, foram tumultuosos e
favoraveis em todo o sentido para os que, mais ou menos prestantes, se
diziam restauradores. Como em tudo assim era desleixado e imprevisto, o
fidalgo no curou de rematar o litigio, destruindo as provas do filho
natural, nem mesmo quiz averiguar a sua plausibilidade, ou fazer que o
processo se perdesse.

Em 1840 requereu novamente o filho natural, documentando o seu arrasoado
com uma carta de perfilhao concedida por D. Joo VI no Rio de Janeiro,
para onde Ferno de Athaide, pae do habilitando, fra com o rei em 1807.
Ajuntava este aos autos reconstruidos cartas escriptas por seu pae,
tanto a elle, como a sua me, portugueza de origem, que fallecera no Rio
de Janeiro, casada e dotada pelo fidalgo de Ponte do Lima. Accrescia a
isto o depoimento de doze testemunhas de ouvirem dizer ao moribundo
Athaide que tinha no imperio do Brazil um filho natural, chamado
Fernando de Athaide, ao qual testava todos os seus bens livres e
vinculados.

Este legado, com quanto em principio devesse tornar duvidosa a successo
de D. Mafalda aos vinculos de seu tio, foi pouco no conceito dos
principaes lettrados, quando Gasto de Noronha os consultou: diziam que
os bens vinculados no podiam ir ao filho natural, nem a declarao do
velho  ultima hora da vida podia esbulhar da successo a legitima
descendencia.

Em 1829 viera Fernando de Athaide a Portugal a tomar conta da herana:
achou sua prima empossada n'ella, e a favor d'elle os jurisconsultos que
tinham dado por boa e legitima a espoliao.

Em 1832, enfadado das delongas da deciso e do patronato que sua prima
tinha em Lisboa, voltou para o Brazil onde tinha o seu florente
commercio de caf, herdado de sua me, que morrera abastada, e universal
herdeira de seu marido.

Voltara novamente Fernando  patria de seu pae, depois de visitar as
capitaes da Europa, e mais por brio do seu appellido, que por
necessidade de duas duzias de contos de reis, instaurou segunda vez o
pleito, confiou-o a habeis advogados e procuradores, e seguiu viagem
para o Rio de Janeiro.

Esta noticia, com os accessorios funestos de um presumivel perdimento da
causa, foi surprender Gasto de Noronha, quando elle cogitava no melhor
modo de fallar a Corinna em casamento com o tio D. Joo. Sahiu o fidalgo
para Vianna a ouvir o parecer de advogados, que lhe foram desfavoraveis.
Voltou a casa mais firme na resoluo de segurar a futura subsistencia
da familia, casando uma das filhas com o provecto primo, cuja abastana
daria para viverem todos largamente.

Chamou Corinna a mui secreta prtica, e contou-lhe em miudos a historia
do filho natural, as probabilidades da perda da demanda, a irremediavel
pobreza da familia e a preciso de ella se sacrificar  decencia de seus
paes e suas irmans, casando com o tio D. Joo, por ser das cinco a
menina que elle preferia, posto que se no despedisse de casar com uma
das outras.

--E nenhuma de minhas manas quer casar com o tio D. Joo?--perguntou
Corinna.

--Ainda as no consultei; eu  que desejo que sejas tu.

--As boas intenes de meu pae so providenciar ao futuro de nossa
familia por meio d'este casamento?

--Sim, minha filha.

--Eu com lagrimas lhe digo que no posso servir a esse bom intento.

--Porque?--atalhou o pae entre pasmado e colerico.

--Porque morro, porque hei de morrer antes de ser mulher do tio D. Joo.
No me recuso, meu pae: faa vossa excellencia o que quizer.

--Ora!--tornou o pae modificado em sua ira--No morres, no, filha. Isso
 o que te parece agora; tu vers que todos te ajudaremos a levar a
cruz. E, depois, cuidas que teu tio ha de viver muito? Est alli e est
na cova. As escripturas ho de ser feitas de modo que, ainda mesmo que
tu fiques viuva sem filhos, has de ficar riquissima.

--O pae no quer acreditar-me...--atalhou, soluante, Corinna.

--Acreditar o qu?

--Que me mato, se Deus me no levar para si.

--Sei o que  isso...--tornou Gasto escarlate de ira-- o homemzinho de
Barcellos que te ha de fazer perder de todo a minha estima. No tem
duvida: tu te arrependers!... Cuidas que, por ser a mais velha, tens os
vinculos? J te disse que no tens nada. Quando quizeres um vestido, e
no haja em casa um objecto que se venda para t'o comprar, veremos como
te vestes com o amor do valdevinos de Barcellos.

Disse, e sahiu enfurecido.

A irman de Corinna, sua immediata em idade e formosura, era Emma. Esta
menina parecia a mais meiga, docil e resignada. Devia estas virtudes 
brandura de sua indole fleugmatica e um tanto fria. O seu prazer era a
quietao, que parecia uma invencivel preguia. Bem que estranhasse
tanto como as outras a mudana de Paris para a quinta do Lima, foi a
primeira a conformar-se, e achar certa suavidade no socego e silencio,
que affligia as irmans. Era esta tambem a que dava mais trela ao
palavriado do tio D. Joo, e por vezes se ria a bom rir das baforadas de
juventude que ainda, a tempos, sahiam mornas l das cinzas do corao do
velhusco. Como amiga de estar em casa, sentada ao piano, ou amezendrada
n'um tapete, D. Joo tinha sempre certa a palestra com aquella
pachorrenta sobrinha.

Gasto foi ter com Emma, e encontrou-a aparando as unhas a D. Joo, e a
rir-se muito das caretas, que o velho fazia, receando que a tesoura lhe
entrasse pelo sabugo. Gasto tomou como de bom agoiro a scena intima das
unhas. Compoz o semblante de risos, avisinhou-se do grupo, e achou
tambem graa aos chistes da filha e aos esgares do primo.

--Ahi est o nosso D. Joo--disse elle--gosando um dos milhares de
prazeres da vida domestica. Quando era moo, e requestava damas, sentiu
alguns d'esses innocentes jubilos, primo D. Joo?

--J estive a pensar n'isso, primo Gasto; mas o diacho da Emma no me
deixa pensar em nada se no em guardar os dedos da implacavel tesoura
d'esta linda parca... Olhe que j me quiz cortar a ponta do nariz, a
traquina, que s no tem preguia para cortar narizes... e coraes.

Accrescentou D. Joo ao galanteio um regougo de riso, com o que a menina
desatou uma gargalhada to pachorrenta, que acudiram as irmans, salvo
Corinna, a rir sem saber de qu. D. Joo cuidou que ella se desmanchava
assim,  conta da ultima e novissima careta que elle fizera.

Logo que o ensejo se proporcionou, Gasto de Noronha perguntou ao primo
se Emma seria uma digna esposa d'elle. O velho acudiu logo, dizendo:

--Estava eu para lhe dizer, primo, que, a no ser Corinna, de boa
vontade casaria com Emma. Acho-a mais dada que as outras; mais socegada
e amiga da casa. A creatura passa horas e horas sentada no tapete, em
quanto as outras me esto sempre a convidar a passeios, e querem que eu
salte portellos e vallados como ellas, seno fazem-me apupadas as
doidinhas! Corinna agradou-me pelo seu juizo; mas, a dizer-lhe a
verdade, acho-a triste de mais; e esposa triste no serve para velho,
que bem lhe basta a rabugice e pezo dos annos. Em fim, primo, se Emma me
quizer, aqui estou.

Poucas horas depois, Gasto encerrado com Emma, perguntava-lhe se ella
quereria segurar uma enorme fortuna, casando com seu tio D. Joo.

--O pap est a mangar comigo!--disse ella rindo.

Com poucas palavras a convenceu da seriedade da proposta. Emma ouviu
tudo com desusada seriedade. Viu no rosto do pae signaes no fingidos de
atribulado, fallando da imminente ruina de seus haveres, e da recusao
de Corinna. O tom com que elle pedia a Emma o sacrificio era j
supplicante. A menina respondeu primeiro com lagrimas e depois com a
promessa de satisfazer os desejos de seu pae.

Nunca pae algum beijou sua filha com tamanho transporte de ternura!

Foi logo avisado D. Joo da resposta de Emma. O velho desenvolveu de
repente um pudor senil de muita graa! Estava, como noiva que se peja de
apparecer ao noivo, na sala onde o pap a manda chamar, a fim de, em
presena de ambos, confirmar vocalmente os anhelos de todos tres.
Esquivava-se D. Joo de encontrar a sobrinha; e, quando lhe ouvia a voz,
crava! Era a segunda infancia a fazer milagres de remoar coraes
mumificados!

Desde este incidente, Corinna da Soledade nunca mais viu um sorriso, nem
ouviu palavra carinhosa de seu pae. As caricias, repetidas at ao
extremo da ridiculez, eram todas para Emma, a quem elle chamava a
salvadora da familia. Pensava j Gasto no processo de defraudar a filha
mais velha dos vinculos, como esquecido da demanda em que os vinculos
estavam to arriscados, que nem o seu proprio advogado lhe dava
esperanas de vencimento.

Cuidaram desde logo os fidalgos em requerer dispensa, que o Nuncio
apostolico residente em Lisboa concedeu.

Em seguida usou o pae da noiva de ardilosos rodeios para levar o futuro
genro a dotar a filha com os bens livres, que valiam muito, e grandes
arrhas. D. Joo de Mattos, ao principio irresoluto, porque o animo
sovina lhe inspirava duvidas, deu-se a final por vencido, e dotou a
noiva com avultado cabedal em dinheiro depositado em bancos de
Inglaterra, e estabeleceu-lhe arrhas mais que sobejas para uma viuva se
no lembrar mais dos sessenta annos do seu defuncto marido, ao ver-se
ssinha n'este valle de lagrimas.

Estava resolvido que as nupcias seriam celebradas em Lisboa, para onde
iria toda a familia, excepto Corinna, que pedira licena ao pae, e
facilmente a obtivera, de ficar n'um mosteiro de Vianna, em companhia de
uma prima de sua me.

A noiva encarava o futuro com a salutar pachorra de sua compleio, e
continuava a aparar as unhas do noivo e a rir-se das muito engenhosas
visagens com que o bom do velho julgava bem merecer da estimao da
menina. As outras tres meninas, a cuidarem nos arranjos da partida para
Lisboa, andavam alvoroadas e felicissimas. Corinna esperava a vespera
da partida, com no menos alvoroo, para entrar no mosteiro de Santa
Anna.

Sorriam-lhe l da sua cella as tristezas e a soledade em que o
desafogado corao se gosaria livre, livre para ir-se alm-mar, nas
longas cartas, escriptas sem medo de ser surprendida, pedir ao digno
moo que lhe acceitasse a recluso, to voluntaria, como prova de seu
esperanado amor.

Estava marcado o dia da partida, tomadas as liteiras, as cavalgaduras, e
convidado o prestito dos parentes, que desceriam do alto-Minho para
acompanharem os noivos at ao Porto. Quatro dias antes do designado, D.
Joo de Mattos e Noronha, assignadas as escripturas, foi para a mesa,
que n'esse dia era lauta e muito concorrida.

Um dos pratos mais de cobia, e ingratos a estomagos fatigados, era o
salmo, o salmo de Vianna, famoso em toda a parte onde a gastronomia
tem sacerdotes e martyres.

Entrou o noivo pelo salmo com a voracidade dos vinte e cinco annos, no
obstante o cauteloso primo lhe haver dito que se abstivesse de competir
com a sua Emma em materia to indigesta. Parece que Emma gostava muito
do appetitoso pescado, e devemos suppor que o velho, por comprazer com o
paladar da noiva, quiz fazer heroismos de deglutio. Perdoavel excesso
para quem sabe o que  amar!

Declarou-se a indigesto, quando ainda se estava  sobremesa. D. Joo
pediu genebra, bebeu em proporo com o volume do bolo indigesto, e,
dando-se alta na incipiente molestia, comeu ovos mexidos em grande
poro, e correspondeu a todos os brindes com absorvente enthusiasmo.

Estavam todos admirados do vigor digestivo do sexagenario, e do rubor
juvenil que lhe ressumava nas faces, quando o velho se sentiu anciado, e
pediu um vomitorio prompto. Cada pessoa de familia lhe ministrava um
remedio, e Gasto, mais que todos, mostrava sua inquietao, mandando
chamar medico a Vianna. Foram logo sensiveis os symptomas de apoplexia.
D. Joo tinha os olhos injectados de sangue, e a cabea em brazas vivas.
Votaram todos pela sangria; mas no havia sangrador, nem sequer lanceta.
O abbade da freguezia estava presente, e, como bom pastor, foi de
parecer que seria muito util ministrar os sacramentos ao enfermo, visto
que as apoplexias eram summarias n'aquellas idades e por taes causas.

Redobraram os sustos de Gasto de Noronha. A morte, anticipando-se
quinze dias, dava um golpe terrivel em toda aquella familia. O menos
damnificado seria de certo o morto. Quem mais soffria as angustias do
moribundo era Gasto! Perguntou elle ao abbade se seria acertado dizer a
D. Joo que recebesse as benos nupciaes.

O clerigo encarregou-se de lh'o propor. O enfermo, j quasi
desaccordado, ouviu a pergunta e estorceu-se em desesperada afflico.
Foi ento que elle viu a morte na pessoa do inoffensivo abbade. 
segunda instancia, D. Joo fez um esgar repellente, e sacudiu
vertiginosamente os braos e as pernas. Gasto disse a Emma que se
approximasse do leito, e lhe dissesse algumas palavras confortadoras.
Emma foi com semblante de medo. As feies do velho, j lassas e
lividas, para assim o dizermos, cheiravam a cadaver. A pallida menina
foi tremendo.

--D-lhe a mo--disse-lhe o pae ao ouvido.

Tocou ella na mo tepida e insensivel do agonisante com repugnancia.

O abbade, instado por Gasto, disse:

--Senhor D. Joo de Mattos, vossa excellencia recebe como sua legitima
esposa a senhora D....

O velho deu um saco, e esgazeou os olhos espavoridos.

Emma retrahiu-se aterrada, e o abbade sahiu a ir buscar os santos oleos.

--Vai-se embora, abbade?!--perguntou o fidalgo furioso de sua afflico.

--No ha que fazer aqui, seno cuidar-lhe da alma--disse o padre--O
homem j no d accordo de si: o casamento n'este estado ficaria
canonicamente nullo, fidalgo!

Sahiu o abbade da egreja com o viatico, e recolheu logo, por lhe dizerem
que D. Joo tinha expirado.




IX.

UMA CARTA DE CORINNA DA SOLEDADE A ANTONIO D'AZEVEDO BARBOSA.


Na minha segunda carta lhe contei o que se passou at  morte do tio D.
Joo. Agora  que eu bem comprehendo o desespero em que vive meu pobre
pae. Quando elle me disse que iamos empobrecer, cuidei que se inventava
um engano para eu consentir em ser a victima voluntaria da pobreza da
nossa familia. Soube que a Emma fra instada com as mesmas razes da
pobreza: no a dissuadi; mas, em minha consciencia, julguei que era
sacrificada s ambies de continuar-se em Lisboa o fausto que tiveramos
em Paris.

 verdade o que meu pae me dizia. Os bens do vinculo, unicos que
possuimos, esto em risco de se perderem. Imagine o meu querido amigo
como ser a nossa vida, ouvindo a cada hora o pae lastimar-se,
enfurecer-se e lanar-nos injustamente em rosto que fomos ns a causa da
sua ruina, porque dissipara os bens livres para nos dar em Paris uma
vida brilhante com esmerada educao! Minha me, que no tem culpa de
ter sido herdeira do dote que lhe tiram, faz-me muita compaixo, quando
o pae lhe diz que foi atrozmente enganado para casar com ella.

Que ser de ns, passados alguns mezes? Para onde iremos quando nos
expulsarem d'esta casa? Minha me j pediu a parentas, que tem em
differentes conventos, que nos recebam. Eu creio que irei para Vianna e
mais a mana Felismina; outra ir para Vairo; e as outras duas para S.
Bento do Porto. O pae diz que vai a Lisboa requerer um emprego, com que
possa sustentar-se a si e  me. De maneira que estamos em vesperas de
nos dispersarmos para nunca mais nos reunirmos! E eu, entre todas as
minhas irmans, sou a menos infeliz, porque ha muito suspiro pela solido
do claustro, e sei que l terei comigo a imagem compassiva do meu
querido irmo; porm, eu queria ir para o convento, deixando a minha
familia contente e feliz, e no assim a braos com a dependencia, e Deus
sabe com quantas desventuras peores que a dependencia!

Aqui me tem, pois, bem digna do seu amor por minha pobreza. J me
lembrou se Deus me deu esta virtude para merecer aos seus olhos, meu
amigo. Tenho momentos em que o futuro se me allumia; sou eu a unica
pessoa da minha familia que v a felicidade atravs d'esta escuridade.
Todos se lastimam, e eu s me lastimo de os ver to desanimados.
Falta-lhes o amparo do amor, e talvez da f na providencia divina. Eu
rezo muito, e desafgo em consoladoras lagrimas; minhas irmans e meus
paes abafam sem linitivo. s vezes quero consolar meu pae: o infeliz
repelle-me, como se eu dsse causa a seus desgostos, e no fosse capaz,
para o salvar da queda, de me deixar esmagar no corao e na vida!

No estranhe que eu lhe diga tudo o que o corao me fr dictando.
Agora que eu estou assim pobre, e d'aqui a pouco obscura e esquecida
n'um convento, haveria alguem que me quizesse para esposa? Poderia
alguem invejar a sorte do homem que me acceitasse? Pois,  n'esta
situao que eu mais confio do seu amor;  assim que eu me affoito a
pedir-lhe que venha, que renuncie ao desejo de ser rico, e que... A
riqueza para que a procurava? no era para poder ostentar o seu
valimento aos olhos de meu pae? Era de certo; que, se fosse para valer
em meu conceito, grande injustia me fazia, meu caro amigo. Pois ento
faa de conta que esto cahidas as barreiras que s o ouro poderia
arrazar. Ninguem me impedir que eu seja sua mulher. Sejamos ambos
pobres: no teremos que medir a desegualdade das nossas posies. A
nossa fortuna principiar com a primeira moeda de cobre que empregarmos
no primeiro po. Depois eu lhe darei horas de alegria com a minha ditosa
conformidade a tudo que os descontentes chamam infortunio.

No cuide que a vida de convento me assusta, e que eu procuro aligeirar
o tempo do supplicio. No, meu amigo. O convento  o unico estado que me
quadra, e a mais proxima ventura que se offerece  minha sde de
solido. Se voltar cedo, l me encontrar; se, passados muitos annos
tornar para Portugal, no convento me encontrar ou desfigurada pela
velhice, ou confundida nas cinzas das bemaventuradas, que alli acabaram
contentes e amantes de mais seguras esperanas que as minhas.

Pde ser que o meu irmo, n'essa outra sociedade, com outras relaes,
e com a mudana que fazem os annos, contra vontade mesmo de quem se
transfigura, sinta diminuir-se a boa impresso que de mim levou. No
creio que me esquea; mas pde ser que a distancia me v descolorindo
aos olhos da sua alma. Se tal acontecer, nem assim deixarei de esperar
que em algum momento, entre as fugazes venturas d'este mundo, o seu
espirito v ver-me, no meu asylo, esperando-o ainda, e esperando sempre.

Mas o meu corao lhe pede que no me esquea, e que acceite as
alegrias que elle lhe promette. Adeus, meu amigo, meu consolador. Sua
_C. da Soledade_.


A PRIMEIRA CARTA DE ANTONIO D'AZEVEDO A CORINNA, ESCRIPTA NO BRAZIL.


         _21 de junho de 1843, onze horas da manhan._


Aqui estou, minha querida Corinna. Cheguei ha meia hora. A minha
tristeza tem uma negrura inexplicavel. Abafa-me mortalmente este ar.
Estou como o desterrado que atiraram a uma praia onde no houvessem
olhos humanos que me vissem chorar.  meu Deus, que atroz supplicio  a
saudade! Que desolao em roda de mim, que terror me incute tudo isto
que me v com uma indifferena dolorosa como o escarneo! Sahirei eu
d'esta febre que me est arrancando pedaos de vida a cada momento! 
Corinna, eu no a vejo mais! Aqui  que sossobram as mais robustas
almas... Eu no previra isto...  impossivel que haja piedade n'esta
gente! A quem escrevo eu, meu Deus! Est a milhares de leguas distante,
 minha amiga! E esta carta s, passados quinze dias, sahir
d'aqui!...............................................................
......................................................................


                      _Quatro horas da tarde._


Sahi no afgo de uma afflico sem nome. Levei a minha carteira, e
entreguei uma carta do Taveira a um negociante, que, apenas leu a carta,
me disse que eu seria hospede na sua chacara, para onde vou manhan.
Acolheu-me com muito bom rosto, e, apertando-me a mo, disse: O senhor
vem muito recommendado: ha de ter muitos amigos, e eu o mais dedicado de
todos.

Fizeram-me grande bem estas palavras. A maior oppresso vai
desapparecendo. J a vejo a outra luz, minha Corinna. J a torno a ver
ao meu lado com a misso de anjo do alento e da paciencia. Os
desamparados so unicamente aquelles que no tem nenhum amor puro na
terra, nem confiana na graa divina. Ha de tudo em minha alma, bemdito
seja Deus! Eis-me outra vez forte para a lucta, e envergonhado da minha
fraqueza. No rasgo a primeira pagina d'esta carta porque a minha alma
ha de mostrar-se-lhe sempre nas suas intercadencias de fora e
desanimao. Assim lh'o prometti, e tenho necessidade de cumprir. Toda a
gente ha de ignorar os meus desfallecimentos, menos a minha Corinna para
me dizer: Levanta-te, fraco, se queres ser digno de mim! Vou sahir
para entregar outras cartas, antes da minha ida para o campo.


                     _Nove horas da noite._


Todos os portuguezes me recebem nos braos. Suppunha eu que os
negociantes me acolheriam com a frieza da sua distancia d'um homem de
to diversa profisso. O que ahi se diz d'esta boa gente  uma calumnia.
Os opulentos commerciantes a quem me apresentei parece que me estavam
vendo nos olhos espelhadas as saudades da patria; e elles, tambem
saudosos, sympathisavam mais com a minha dor, e queriam ouvir-me fallar
das menores coisas de Portugal. Aqui  que se sabe o que  esse torro
de flores e alegrias. Em parte nenhuma a palavra patria tem to doce,
to querida e esperanosa significao. Muitos ahi dizem que tem
vergonha de serem portuguezes; aqui sente-se orgulho de ter l nascido,
e encontrar to longe irmos assim saudosos da me commum. Abenoados
sejam estes homens que tem olhado compadecidos para mim! Devo-lhes esta
serenidade com que lhe vou escrevendo... Mas o cansao prostra-me, minha
amiga. At manhan.


               _22 de junho, oito horas da manhan._


O meu despertar foi afflictivo. Com os sonhos renasceram as saudades, e
o descoroamento. Assaltou-me a pusillanime ideia de voltar j para
Portugal. Seduzia-me o receio de adoecer n'este clima, o terror das
febres, a difficuldade de ser rico, onde nem todos so ricos, ainda os
mais laboriosos. Adormecera pensando no caminho que devia encetar: todos
se me afiguravam difficeis e escabrosos. Que fraqueza! que inconstancia
miseravel a do homem mais fervoroso no trabalho! Eu tinha perguntado ao
dono do hotel se os advogados enriqueciam depressa; e elle, enumerando
todas as profisses que enriqueciam, no mencionou a minha. Instei
encarecendo as vantagens que se offerecem a um bom e honrado advogado:
ouviu-m'as encolhendo os hombros, e disse que os caminhos direitos eram
os mais tortos para quem procurava enriquecer-se. Isto desconsolou-me,
amargurou-me os sonhos, e deu-me a hora m que precedeu estas linhas.
Deixar fallar o descrente da honra. Se  foroso, renunciarei  riqueza;
contento-me que as muitas fadigas e vigilias me dem honesta
independencia, e o respeito de mim proprio.


                     _Cinco horas da tarde._


Espera-me o amigo de quem vou ser hospede. Brevemente voltarei a dar
comeo  minha tarefa. J me esto pezando as horas que vou passar de
ocio sem prazer: parece-me que so horas que roubo  sua felicidade e 
minha. A vontade energica  uma esperana meio realisada. Ha aqui n'este
ar, n'este ceo, n'esta incessante labutao, um rumor mysterioso que eu
escuto como o cantico victorioso dos que luctaram e venceram. Porque no
hei de eu, a final, vencer tambem com esta ancia e fora d'alma, com
este amor e saudade, com esta voz prophetica promettedora de honrosos
triumphos?...


              _23 de junho, nove horas da manhan._


A casa em que vivo, minha amiga, faz-me lembrar uma finissima e polida
concha entre fofos de verdura e caules de gentis florinhas! As palmas,
as tamarindeiras, os coqueiros, e muita especie de arvores do paraizo
com sua explendida e agigantada folhagem, absorvem os raios abrazadores
d'este sol, e elaboram-no em si, expedindo-o em frescura, que faz
lembrar a da nossa terra, as auras das margens dos nossos rios, os
salgueiraes do seu Lima, e os choupaes do meu Cvado! Mas que falta aqui
da alegria dos nossos arvoredos, minha Corinna? No sei: parecem-me
tristes estas arvores; no me viram na infancia; no me conhecem; no me
fallam. Que bello deve ser este diamante do mundo para os que nasceram
aqui! Que abrasadas fantasias sero as dos poetas aquecidos a este vapor
aromatisado por tantas urnas de florescencia peregrina! Que ar de
primitiva magnificencia da creao tem isto tudo? Afigura-se-me que, 
sahida do eden, este pedao de mundo se desdobrou, com as entranhas
arquejantes de riqueza, concitando o homem condemnado a trabalhar, a
tressuar e a limpar mil vezes o rosto, calcinado sob os ardores do sol,
 sombra d'estas arvores, que significam a misericordia divina ao lado
da justia inexoravel.  um como fantastico explendor que me est
arrobando os sentidos; mas a minha alma est triste porque esta verdura
macilenta no  a da minha patria; estas folhas hirtas, apontadas ao ceo
como flexas, ou largas, immoveis e enormes, no me do o murmurio
tremente das nossas selvas. No oio o rumorejo dos regatos, nem o gemer
dos carros, nem a cadencia melancolica dos pegureiros das nossas serras.
Ai! a patria, Corinna! como  linda a nossa to rica e to pobre terra!
Que copiosas benos verte Deus sobre a cabana do pobre jornaleiro que
achou a felicidade sem a procurar, formando d'um rochedo e da sebe
d'alguns arbustos o seu palaciosinho s abas da serra da Tranqueira,
onde eu, em criana, tantas vezes subi para contemplar as boleadas
serras do seu paraizo, minha filha. Tudo agora me lembra quanto 
pequeno e pueril ao p d'estes gigantes de verdura, que me assoberbam
com a sua magestade! Ainda vos verei,  opulentas pobrezas da minha
mocidade! Ainda l recordarei, a ss com o anjo da minha alegria, estas
melancolicas horas, este deslumbrante espectaculo, que parece estar-me
dizendo que para gosal-o  preciso ter aqui gosado os brinquedos de
irmos, os carinhos de me; e, sobre tudo, ter aqui sentido o corao a
formar-se, e a desentranhar-se em amor e esperanas...................
......................................................................


                           _25 de junho._


Brevemente, manhan talvez, volto para o Rio. Vou praticar com um
advogado portuguez de grandes creditos e fortuna, homem de muita idade,
que reparte comigo os interesses, e me trespassa as obrigaes muito
lucrativas de defensor, em que est contractado com corporaes
commerciaes. Devo esta promettedora estreia s cartas do pae de
Felisberto Taveira, que d'aqui foi ha muitos annos, e deixou respeitado
nome, e ainda grosso cabedal. Estou contente quanto, em minha situao,
 possivel estar. Esta familia que me hospedou j me parece minha. A
intimidade aqui  uma religio, como se um punhado de portuguezes, e no
cincoenta mil almas, se encontrassem em torro estrangeiro. Aqui  onde
ns aprendemos o amor de conterraneos: l, no seio da me, somos-lhe
ingratos a ella, e maus uns com os outros; aqui suspiramos todos por
ella, abenoamol-a, e religamos os coraes de todos com vinculos da
reciproca saudade.

Espere, espere, minha querida Corinna, que havemos de ser felizes!
......................................................................


                           _27 de junho._


O lettrado a quem vou associar-me  um ancio de semblante apostolico,
viuvo, sem filhos, rico, muito esmoler e doente. Fallamos muito de
Portugal, d'onde elle veio com D. Joo VI ha muitos annos.  filho de
Lisboa, e est ha vinte annos com o projecto feito de ir morrer 
patria; porm os medicos aconselham-o a gosar-se do clima a que est
affeito.  que toda esta gente o venera, e carece alm d'isso da sua
muita sciencia, e probidade na sciencia. J aqui teve comsigo dous
sobrinhos, que elle amava como seus unicos herdeiros. Morreram ambos por
causa da irregularidade da sua vida, e o ancio chorava fallando-me
d'elles. manhan comeo a praticar e a estudar o direito brazileiro:
ser-me-ha preciso naturalisar-me; que importa? Eu serei voluntariamente
natural de toda a parte onde encontro irmos que fallam a minha lingua,
com tanto que me deixem o corao, l, onde tenho tudo que  d'elle.
.....................................................................

A carta  extensa de mais, e o leitor contenta-se com as paginas
transcriptas.




X.


Gasto de Noronha valia ainda muito com homens de alta graduao, seus
companheiros de exilio.

O litigio, perdido em primeira instancia, foi appellado para o Porto; e
com quanto uma espantosa actividade, esporeada pelo ouro do brazileiro,
instasse com os juizes de segunda instancia, os padrinhos do fidalgo
valeram mais para que o processo paralisasse na mo do relator. Este,
porm, com maravilhosa consciencia fez saber ao ro que a sua perda era
inevitavel, cedo ou tarde, e que parte da imprensa estava a favor da
prompta deciso do pleito.

Decorridos quatro mezes, os tres jornaes portuenses d'aquelle tempo, e
alguns de Lisboa, depois d'um prefacio de dez e mais artigos cerca da
corrupo da magistratura, fulminaram o juiz relator, j alcunhando-o de
vendido, j de subornado pelas fidalgas influencias que ladeavam Gasto
de Noronha. No houve remedio seno confirmar a sentena.

Recorreu de revista para o supremo tribunal o ro, acompanhando o
processo, e cumulando embargos sobre embargos. Em Lisboa a presena de
Gasto e a solicitude dos amigos promettiam um anno ou mais de
esquecimento dos autos; mas as gazetas, ainda antes de tempo, j se
mostravam espantadas da demora, e, por conta de seu espanto, lavraram
logo alvar de corruptos a todos os juizes, pedindo s leis, ao governo
e ao universo que os esfollassem, como o tyranno de Siracusa fizera a um
juiz venal.

Aproveitou Gasto o ensejo de requerer emprego em Lisboa, j mais que
certo do resultado do pleito. Os seus amigos, que o julgavam rico,
pasmavam de o verem com aquelle aspeito typico, immutavel, e unico de
pretendente. Pedia elle a directoria d'uma alfandega de primeira ordem,
posto que nenhuma estivesse vaga. O ministro achou absurdo o
requerimento, e os amigos acharam importuno o requerente. Desceu Gasto
de suas pretenes, e pedia um governo civil em Vianna, Braga ou Porto.
Os funccionarios que exerciam taes commisses na provincia eram sujeitos
affectos ao governo, e bons fabricantes de Fabricios e Codros
sertanejos. O fidalgo foi esclarecido a este respeito, e azoou. Pediu
ainda um logar de escrivo da mesa grande da alfandega de Lisboa; mas o
ministro mostrou-se muito sentido de que o serventuario existente no
tivesse dado causa a ser demittido.

Ora Gasto de Noronha algumas vezes, em Paris, dera a um dos ministros
pares de botas, e muitos jantares a outro. Assim lh'o lanou em rosto, e
elles, pelos modos, ouviram a injuria com muito receio de que o fidalgo
minhoto fizesse uso dos pulsos no menos rijos que as phrases. Era homem
para isso o atribulado pae de cinco meninas, em vesperas de no ter
sombra de arvore sua que o cobrisse!

Desanimado, e com o pensamento do suicidio a empeonhar-lhe a alma,
desamparou o processo, e foi para os seus.

Que ia elle fazer alli? que destino ia dar s filhas? que remedio
esperava elle haurir das lagrimas da pobre Mafalda, que em seis mezes
envelhecera vinte annos?

A sua entrada em casa denunciou, sem palavras, a desesperana e suprema
desgraa que o trazia. As meninas cuidaram logo nos preparos para se
recolherem ao claustro, e D. Mafalda, sem consultar o marido, resolvera
entrar com Corinna no mosteiro de Vianna. No tocante a si, dizia Gasto
de Noronha que as suas tenes estavam deliberadas.

As tenes do fidalgo eram incendiar o palacete no dia em que chegasse
de Lisboa a noticia do ultimo arranco da sua fortuna. O que elle faria
de si depois era segredo que no deixou transpirar dos seus furores
recalcados no peito.

A noticia que o seu procurador lhe deu passados dias foi consolativa. O
supremo tribunal annullara o processo desde a appellao por falta de
intimao ao ro. Queria isto dizer que a demanda ia recomear desde a
sentena de primeira instancia.

Recobrou-se Gasto; as meninas descontinuaram os preparativos de
convento; aquietou-se o animo de todos, e volveram  casa das margens do
Lima alguns parentes, que fugiam _para no presenciarem as angustias
d'aquella nobilissima familia_. Boas almas, no tem duvida nenhuma!

De pouco tempo foi este repousar para maiores angustias. Os zelosos
procuradores de Fernando de Athaide obtiveram despacho para embargo dos
fructos pendentes, fundamentando sua justia em artigos que o leitor
curioso pde ver de seu vagar no codigo.

Foi, para este effeito, citado Gasto de Noronha. Era de mais: foi uma
faisca que atiraram quella alma cheia de rancor, que ameaava exploso!
O fidalgo chamou os criados, armou-os, postou-os ao porto da quinta, e
sentou-se no muro para capitanear a defeza.

Os officiaes de justia, idos de Vianna, quando avistaram os homens
armados, retrocederam. Os criados, vencedores sem consumo de polvora,
deram-lhes uma bateria de apupos e assovios, que nunca a justia d'estes
reinos foi to ridiculamente escorraada.

Gasto preparou-se para mais pugnaz arremettida. Chamou os caseiros em
grande numero, armados de foices, enxadas e escopetas vesadas a matar
uma andorinha no ar.

Sahiram de Vianna os mesmos esbirros e outros mais afoitos, com doze
soldados e um sargento. As inculcas do fidalgo anticiparam-se com a
noticia. Gasto fechou toda a sua familia n'uma sala interior da casa
nova, e postou-se com trinta homens nas janellas do edificio solarengo.

A diligencia viu aberto o porto, e receou cilada. Os aguazis incitaram
o exercito a ir na dianteira. O bravo sargento, direito como um
Giraldo-sem-pavor, entrou com o dedo no gatilho, bradando: preparar!
com voz to marcial, que fazia lembrar os bons tempos de Nuno Alvares e
Joo de Castro. Os soldados compassaram-se em atiradores ao longo das
alas de cilindras e acacias.

As avesinhas, que se aninhavam calorosas por entre a folhagem,
crepitavam em bandos, e fugiam para o lado da casa, como a pedirem
abrigo s cinco meninas, suas unicas visitas quelles pacificos
caramancheis.

Parou a tropa no terrao fronteiro  casa. O sargento viu uma cabea
entre as duas columnatas mosarabes d'uma janella, e disse:

--Cuidado! que l est um!

-- o fidalgo!--disse o escrivo, aventurando uma espreitadella por
entre as franas de uma olaia--Est ssinho?

--Est, pelo menos no vejo mais ninguem--disse o sargento.

Animou-se o executor a sahir em claro, e cortejou de baixo Gasto.

--Que quer voss?--perguntou o fidalgo.

O escrivo tartamudeou palavras inaudiveis. Sahiu  frente um official
de chibana, e disse stentorosamente:

--Vimos a fazer embargos nos fructos a requerimento de Fernando
d'Athaide, e com mandado do senhor doutor juiz de direito. Est vossa
excellencia citado na presena de todas estas testemunhas. Agora vamos
cumprir a diligencia: somos mandados. Vossa excellencia, se quizer,
ponha embargos ao embargo.

--Eu no lhe tolero conselhos, _su_ miseravel!--bradou Gasto--J, e sem
perda de tempo, meia volta  direita, e fra da minha quinta, quando no
vo debaixo de fogo!

--Auto de resistencia!--exclamou o escrivo, desentarrachando um
tinteiro de osso negro, e examinando na unha do pollegar esquerdo os
bicos da penna.

Mal o scriba proferira a bombastica exclamao, o fidalgo deixou ver o
cano de um bacamarte, e vinte se no mais bocas de fogo romperam das
differentes janellas. O escrivo escoou-se ao longo d'um massio de
murtas e acocorou-se. Os esbirros tomaram a retaguarda do exercito, e o
sargento, em vez de arengar  tropa enfiada de pavor, sahiu do seu posto
de honra e foi perguntar ao agachado escrivo se devia dar voz de fogo.

O escrivo ouviu a sibylla do medo, e disse que o melhor seria no haver
sangue, e retirarem-se a lavrar o auto de resistencia.

--Meia volta  direita, rodar!--bradou o sargento. Os soldados voltaram
costas ao inimigo, e obedeceram s vozes brao-arma! e marcha!

A victoria, posto que incruenta, seria uma ridicula derrota para as
armas e para as lettras juridicas, se alguns dos caseiros de mais rpia
e chulice, como l dizem, no sahissem por portas travessas contra
vontade do amo, e no cortassem por atalhos a retirada  corrida
justia. Mal precatada ia esta, quando o tiroteio lhe rompeu  frente e
pelo flanco direito, com grande algazarra de gritos, e de balas, cujo
assovio encrespava de horriveis titilaes as orelhas do escrivo. Os
soldados viam, a intervallos, surgirem umas cabeas por detraz das
moitas, ou deslizarem rapidos os vultos sobre uma clareira de dois
troncos seculares do escuro arvoredo. Um soldado mais afoito rompeu ao
bosque, e voltou de l a manquejar com um raspo de bala n'um artelho. O
esbirro chibante, que queria dar o exemplo da bravura, viu-se de repente
na boca d'uma clavina, e metteu a coragem debaixo dos joelhos, que poz
em terra, pedindo misericordia.

Gasto, logo que ouvira o tiroteio, mandou chamar os seus bravos, mas
no a tempo de aggravar a resistencia com o ferimento do soldado. Cessou
o fogo. Os escaramuceiros recolheram  cidadella com um chapeo de
aguazil arvorado no gancho d'uma foice, e o escrivo com os seus
chegaram a Vianna com aspecto livido como aquelle soldado unico dos
trezentos de Leonidas que foi annunciar a Sparta a morte de todos os
seus camaradas nas Thermopylas.

O regimento de infanteria aquartelado em Vianna, quando viu o soldado
ferido, quiz sahir em pezo a vingar a affronta. Conteve o commandante a
soldadesca, promettendo em nome da justia mais legal e solemne
vingana.

Pde dizer-se, sem injuria ao fidalgo, que a pobre cabea d'elle estava
perdida. Era aquillo tudo um cavar abismos em abismos. De hora a hora
mandava atalaiar a estrada, em quanto recolhia gente armada das aldeias
proximas, munies de guerra e vitualhas. Aquella casa, to quieta dias
antes, a remirar-se no crystal do Lima, estava sendo um castello de
antigo baro em guerra com rei, ou senhor feudal inimigo de velhos odios
de raa. As pallidas meninas e sua me aconchegavam-se umas das outras,
e tremiam a cada estrondo de cronha d'armas no sobrado ou tinnir de
varetas no cano das espingardas.

Mafalda ia supplicar ao marido que fugisse e as deixasse a ellas
recolher aos conventos para se pouparem  desgraa de o verem a elle
morto ou preso.

Gasto enfurecia-se contra as lagrimas; e, no auge de sua demencia,
chegava a bradar que elle e sua familia morreriam no incendio da casa
para no sobreviverem ao opprobrio da indigencia.

Os espias, ao terceiro dia de providencias para formal assedio, foram
avisar o fidalgo de que vinham na estrada tres cavalheiros com um
lacaio.

Momentos depois apearam no pateo os pacificos invasores da fortaleza,
passando por entre fileiras de homens armados.

Gasto da sua janella-guarita reconheceu um parente de Vianna e
Felisberto Taveira, j ento visconde da Cruz, cujo era o lacaio.

Felisberto abraou effusamente o pae de Corinna, maravilhando-se do
aspeito bellicoso do castello, e pedindo licena para cumprimentar as
damas castellans.

Appareceram as meninas com sua me. Corinna no se teve que no
abraasse expansiva e lagrimosa o amigo de Antonio d'Azevedo.

Ditos os logares communs, que eram para pouco em lances to
extraordinarios, o visconde da Cruz disse que lra no _Periodico dos
Pobres do Porto_ uma correspondencia contando com negras cores a
primeira resistencia que o fidalgo fizera  aco judiciaria, e os
motivos que promoviam o embargo. Ajuntou que resolvera desde logo sahir
caminho de Vianna para, como bom amigo de to sympathica familia,
offerecer o seu valimento. Accrescentou que chegara a Vianna quando se
tomavam violentas medidas para vingar o aggravo feito  justia e 
fora armada; e ento, de accordo com o cavalheiro parente da casa, e
advogado d'um tal Fernando de Athaide, conseguira, mediante um deposito
equivalente ao rendimento dos bens litigados, cancellar os processos
crimes instaurados e mandados de priso.

No ficou assim mesmo Gasto de Noronha extremamente satisfeito de tal
servio; mas agradeceu-o com um sorriso, e as meninas com lagrimas.

A parecer do visconde, os caseiros depozeram as armas e os criados
voltaram ao seu trabalho. O chapeo do aguazil, em testemunho de alegria,
foi arcabusado e sacudido em farrapos aos quatro ventos do ceo.

O restante do dia e noite correu tranquillo e alegre. Corinna recebeu
furtivamente a segunda carta de Antonio d'Azevedo, e sentiu ancias de
oscular a mo do visconde, que lh'a entregou com estas palavras:

--O nosso Antonio est n'um largo caminho de venturas. Ha de vel-o em
Portugal dentro em pouco, e rico. Tenha orgulho de ser amada por tal
homem.

--Tenho! Deus sabe que tenho!--murmurou ella.




XI.


O incansavel estudo, auxiliado pelo muito saber e prtica do doutor
Valentim da Costa, habilitou Antonio d'Azevedo a grangear renome em
poucos mezes de exercicio.

O velho presava o praticante com mais que a vulgar estima captada pela
probidade. Quantos ganhos podia declinar em lavor do laborioso moo
todos lhe dava, no exceptuando mesmo os resultantes de seu proprio e
exclusivo trabalho. Os clientes no distinguiam entre os dois, e alguns
iam mais contentes da linguagem e escripta concisa e vigorosa do doutor
novo.

--J pde o senhor Azevedo, quando quizer, estabelecer-se sobre si--lhe
disse o velho um dia--Ha de sobejar-lhe clientela, e est na carreira
que leva  considerao e  fortuna. De mim  que j no precisa, meu
caro amigo.

--E vossa senhoria assim me dispensa da sua companhia?--atalhou
Azevedo--Fiz sempre quanto pude por que esta sociedade lhe no fosse
onerosa.

--Ora ahi est! Eu a cuidar que o senhor desejava estar ssinho em seu
escriptorio, como todos desejam, e vai agora sae-me o Azevedo o
contrario de toda a gente! Pois, em sua boa verdade, o senhor quer ficar
na minha companhia?

--Desejo-o; e nunca me lembrou que havia de sahir.

--Pois fique, Azevedo, fique, se o no move o interesse de mais algum
punhado de oiro no fim de cada anno. Bem v como este meu trabalho 
interrompido pela gota, pelo rheumatismo e por outros achaques, contra
os quaes no tenho que allegar nos nossos reinicolas. Isto est acabado,
e acabada estava ha muito a minha tarefa, se no fossem velhos amigos
que me tiram da cama para a cadeira, e s vezes conseguem arrastar-me,
em holocausto  amizade, aos tribunaes. Agora os novos que trabalhem, e
c se avenham com o seculo, com o qual eu j me no entendo. Tome o
Azevedo conta das minhas procuraes, dos meus livros, dos meus amigos,
e, se quizer, do meu rheumatismo e da minha gota.

O velho doutor era mui faceto, e mettia sempre a riso a sua gota e o seu
rheumatismo.

Estavam elles n'uma d'estas feriadas praticas, quando entrou um cliente
de Valentim da Costa.

--Muito bem apparecido seja--disse este--o senhor Fernando de Athaide,
fidalgo em Portugal e fazendeiro no Brazil. Vem-me dizer que est de
posse dos seus vinculos de S. Torquato, de Alvites e de Ameixoal?
Parabens!

--Quaes parabens, meu caro senhor doutor!--disse Fernando de
Athaide--Aquillo tem dente de coelho! Tenho gasto o valor dos bens;
tenho cinco sentenas a favor, e ainda pelo ultimo barco recebi uma
carta do advogado e outra do procurador. Veja l vossa senhoria o que
por l vai!

Leu o doutor mentalmente, e interrompeu-se em meio com esta exclamao:

--Magnifico bruto  o seu advogado, e o seu procurador outro bruto
magnifico! Pois no deixam de intimar ao ro a primeira sentena! Esta,
esta  das que desbancam a propria estupidez!...

--Pois olhe que tenho pago a rios de oiro essas brutalidades--disse
Fernando.

--No que ellas valem-no pela raridade!--disse o doutor limpando os
oculos e proseguindo na leitura mental.

--Isto agora  que tem graa!--exclamou o velho, arfando em
risadas--Est-se l em Portugal na edade media. Recebem a justia a fogo
e ferro!  Azevedo, oia l isto, que  perdido em pouca gente.

E leu:

A diligencia que sahiu de Vianna, retirou apupada e no fez o embargo;
a outra que foi com a tropa, retirou debaixo de fogo, e recolheu com um
soldado ferido.  hora que lhe escrevo consta-me que mais de cem homens
armados fazem sentinella ao palacio artilhado de Gasto de Noronha....

--Como? de quem?--exclamou Azevedo.

--De Gasto de Noronha--disse o velho--Conhece-o?

--Conheo!--disse mui alvoroado e pallido Antonio d'Azevedo--Mas que
tiros so esses?

-- muito simples--respondeu Fernando d'Athaide, eu sou o directo
successor dos vinculos que retem D. Mafalda de Athaide, mulher de Gasto
de Noronha e minha prima. Ha muitos annos que tracto de senhorear-me do
que  legitimamente meu. Tenho vencido em todas as instancias; obtive
despacho para embargo nos fructos at  final deciso do pleito,
annullado por um estupido descuido; e quando os officiaes de justia vo
cumprir a lei, o senhor Gasto d-lhe fogo, e diz que a casa  sua. Ora
vejam o que  Portugal! que civilisao aquella! Com que ento o senhor
doutor conhece meu primo Gasto de Noronha?

Azevedo, de abstrahido que ficou, no ouviu a pergunta. Fernando encarou
em Valentim, como perguntando-lhe se era surdo o praticante.

--Diz o senhor Fernando se o meu amigo conhece Gasto de Noronha--tornou
o velho.

--Conheo, creio que j disse.

Esta resposta foi dada com enfadado franzimento de sobr'olho, estranho
ao velho.

Azevedo, vencido insolitamente de sua nobre paixo, fitou em cheio o
rosto de Fernando, e perguntou:

--O senhor  pobre?

--Graas a Deus, no.

-- rico?

--Assim, assim.

-- muito rico--accrescentou o doutor Valentim.

--E no carece dos bens de sua prima D. Mafalda para ser feliz?--tornou
Azevedo.

--Os bens so meus; no so de minha prima Mafalda--redarguiu Fernando
com desabrimento.

--Convenho que so seus. Os bens que legitimamente possue sua prima so
cinco filhas. Se o senhor tirar quella familia as terras de que viviam,
sua prima e seu primo e cinco meninas tero fome; ao passo que o senhor
Fernando de Athaide no saber que fazer d'essa parcella, que
accrescenta  sua abundancia.

--Pode ser que assim seja--disse Fernando descommovido--mas a pobreza
no  orgulhosa. Eu escrevi duas cartas a Gasto de Noronha, quando elle
estava em Paris, propondo-lhe uma conciliao, e elle nem sequer desceu
do seu orgulho a responder ao filho natural de Ferno de Athaide. Ora o
filho natural quer desforar-se como seu pae se desforaria lanando
fra de sua casa os miseraveis que o no reconhecem como dono, nem
sequer como parente. Colloque-se l na minha posio, e diga-me o que
faria?

--Tinha commiserao--respondeu Azevedo, e fingiu-se occupado a folhear
uns autos.

--Commiserao com o senhor castello que manda despejar balas sobre os
executores do meu direito!--volveu Fernando--Olha em que postas eu era
talhado se vivesse l n'aquellas serras, em que os ladres fidalgos se
acastellam!

Antonio d'Azevedo pegou do chapeo, e disse que ia jantar e voltaria
depois. Ao sahir cortejou urbanamente Fernando, como a pedir-lhe
desculpa no sorriso.

--Este homem  exquisito!--disse Fernando ao doutor.

-- um modlo de honra e virtude--tornou o velho--No imagina que puro
oiro  o d'aquella alma! Foi a commiserao que o excitou a tal
estranheza de phrases. Desculpe-o, que o pobre moo, no fim de tudo,
disse-lhe uma augusta verdade. Olhe que  triste coisa um homem que
educou cinco filhas com todo o mimo e regalias de fidalgas, vel-as
privadas de po e de respeitos sociaes.

--Ento que quer o senhor doutor?--atalhou Fernando.

--Eu de mim no quero seno absolver a compaixo de Antonio d'Azevedo, e
lembrar ao senhor Fernando, que a caridade e o perdo so as virtudes
fundamentaes do doutrinamento de Jesus Christo.

--E achava vossa senhoria acertado--acudiu Fernando--que eu perdesse
contos de reis, que tenho gastado n'este capricho, e deixasse os meus
vinculos na posse e direitos de minha prima?

--Eu no aconselho, senhor Fernando. Isto de bem fazer no se l nem se
ensina: est dentro do corao,  foro intimo,  materia de tractar com
Deus. Faa o que bem quizer; mas de modo se haja que nunca venha a
sentir-se mal comsigo proprio.

--A minha consciencia est tranquillissima--retorquiu Fernando.

--Quantas vezes a consciencia est quieta, e o corao inquieto? A
consciencia  a inspiradora dos deveres; e o corao da piedade, da
humanidade, e d'outras virtudes menos pautadas que os meros deveres e
obrigaes de uma recta razo. Faa o que quizer, senhor Fernando...

--Como eu me enganei!--atalhou Athaide.

--Enganou-se!? Com qu e com quem?

--Com o seu socio de escriptorio.

--Ora essa! pois...

--Eu lhe digo, senhor doutor. Disseram-me que este Antonio d'Azevedo era
um advogado esperto.

--No lhe mentiram.

--Ser; no duvido. Ora, como eu queria acabar com isto  custa de mais
alguns contos de reis, vinha com o fito posto em offerecer tres ou
quatro contos ao doutor Azevedo para elle ir a Portugal tomar posse dos
vinculos em meu nome, removendo todos os embaraos com a sua esperteza.
Vinha n'esta ideia, e, quando menos o cuido, acho um prgador de
caridade...

--Gratuito...--accrescentou, sorrindo, o velho.

--O que faltava era ter de lhe pagar o sermo que no lhe encommendei!

--Pois olhe que valeu dinheiro! Vossa senhoria, se for scismar no que
ouviu, manhan est melhor de corao que hoje. Acha que no vale
dinheiro um melhoramento moral? Oh! se vale! At eu lhe devo, a elle mui
salutares conselhos para a caduquez, e quando o escuto estou como
pezaroso de no ter sido o que elle . Pois que lhe disse o meu Antonio
d'Azevedo? Cifra n'isto: O senhor  muito rico: deixe essas migalhas
que est disputando  familia, que no tem mais nada: faa de conta que
pegou de sete pessoas pobres de sua familia, e deu a cada uma sua
subsistencia. No lhe sa bem isto ao animo desassombrado, senhor
Fernando de Athaide? O seu bom sangue de fidalgo no se azedaria nas
veias, se lhe c viessem dizer que uma poro to chegada de seus
parentes andava l por Portugal arrastada sobre os espinhos da pobreza,
da miseria, e talvez da deshonra? Tem o senhor em Portugal cinco primas.
Onde cuida vossa senhoria que as pde levar a indigencia?...

Valentim, fallando d'este theor, tinha os olhos embaciados de lagrimas.
Fernando olhava-o em certa estupefaco, que umas vezes  dureza de
sentimento, e muitas encendimento de renascida sensibilidade. O velho
calou-se, e o primo de D. Mafalda, tomando o chapeo, sahiu sem proferir
palavra, cortejando o doutor com um aceno.

--Adeus, meu amigo--disse o velho--Pense no fim da vida. Lembre-se que,
no inverno d'ella, costumam os velhos lembrar-se das flores d'alma, que
esmagaram na primavera.

Fernando ouviu, no patamar da escada, as ultimas palavras, e sahiu tanto
ou quanto abalado.

Pouco depois entrou Antonio d'Azevedo. Viam-se-lhe nos olhos os residuos
das lagrimas.  que elle acabava de escrever a seguinte lauda d'uma
carta a Corinna:

.....................................................................


          _2 d'Abril de 1844--quatro horas da tarde._


Acabo de saber as desventuras que vo em tua casa. Ouvi-as da boca do
mesmo homem que vos quer privar d'essas arvores e do bero onde te
embalaste, minha querida Corinna. Eu alcano a profundeza das vossas
amarguras, pobres meninas e pobre me! Que tremenda afflico hallucinou
teu pae ao ponto de resistir  justia impiedosa, que no entende de
infortunios, nem de lagrimas! Quantas vezes te voaria ao corao
angustiado a imagem invalida do teu amigo! Tardias exclamaes, filha!
Deixa-me ver o que posso conseguir a bem de teu pae, cujas mos eu
espero beijar ainda. Talvez que  hora em que receberes esta carta,
comeada com tanta alegria, e to atormentada agora, tudo esteja sanado,
e teu pae olhe como suas para sempre essas reliquias de uma grande
fortuna mal desbaratada. Tenho um presentimento de que hei de merecer a
interveno da providencia nas minhas intenes. Talvez que, a estas
horas, estejas orando, e o anjo do nosso amor me segrede os dons que
Deus te concede. Vou sahir, minha Corinna. Vou ouvir o santo varo a
quem devo tudo.  tempo de eu lhe mostrar que anjo tu s para o fazer
teu amigo, e bemfeitor de ambos. At logo.

Valentim observou o ar magoado do seu estremecido amigo, e quiz ver uma
extraordinaria causa quelle compungir-se pela familia portugueza.

--Olhe que eu c fiquei prgando com o homem--disse o velho--As suas
palavras foram o thema do sermo; mas, a fallar-lhe a verdade, no vejo
lura d'onde saia coelho. Este Fernando de Athaide, cujo pae e me
conheci, se no fosse a balda da fidalguia, havia de ser um homem muito
estimavel. Est muito rico, e acha-se pobre quando veste a casaca sem o
habito de cavalleiro ou official da Roza. Ha pouco arranjou em Portugal
no sei que fitinha, que ellas por l so tantas e to bastas que no ha
saber estremar os fidalgos pelas fitas. Mas o pobre homem no se
contenta com ser condecorado pelo que faz (que eu, a bem dizer, no sei
o que elle faz ou fez) quer tambem que a sua fidalguia lhe proceda em
linha direita dos godos. Para isso precisa justificar-se tomando posse
das quintas vinculadas e dos pardieiros que, pelos modos, tem ameias,
adarves, barbacans e brazes com coras e mitras. Isto  o que explica a
crua insensibilidade de Fernando com os seus parentes. Ora diga l,
Azevedo, voss conhece pessoalmente o tal Gasto de Noronha?

--Conheo-o de vista apenas; mas Gasto de Noronha est to identificado
 minha vida, que por causa d'elle estou hoje no Brazil. O senhor doutor
Valentim j sabe que o meu corao tem lagrimas de saudade. Eu era na
patria o que ainda sou aqui: um rapaz sem bens e sem futuro; e Gasto de
Noronha era o fidalgo no rico, mas de sobra ambicioso e soberbo para me
no dar sua filha. A mulher que eu amo e choro  filha de Gasto de
Noronha.

-- notavel a coincidencia!--disse Valentim--Agora  que a sua mgoa me
parece racional, e digna me pareceria de todo o modo. Entretanto, meu
Azevedo, na sua mo est salvar essa menina, e desde j, das
contingencias da pobreza. O senhor j sabe que tem bastos recursos no
Brazil. V a Portugal, que a soberba do fidalgo deve estar amollecida.
Case com a sua dama, e volte, que os seus amigos c o ficam esperando.

Riram os olhos de Antonio d'Azevedo; mas este claro de alegria foi
instantaneo.

--Seria a felicidade perfeita para mim, mas no para ella--disse o
bacharel, aps instantes de reflexo.

--Como assim?--perguntou o velho--que mais pde ella desejar?!

--Que seus paes e irmans no soffram as horriveis privaes tanto mais
amargas, quanto a vida lhes correu abundante e respeitada. Calcule o
senhor doutor que desgosto no seria o d'ella ao lembrar-se que suas
quatro irmans ficaram encerradas em conventos, e dependentes da esmola
de parentas! e que sua me, privada d'ellas, e talvez do marido... como
poderia eu ser assim feliz, meu amigo?!...

Antonio d'Azevedo deixava cahir as lagrimas para que o velho no lh'as
visse enxugar! Ha lagrimas que tem um como pudor, e recato que  talvez
o medo de serem mal avaliadas. O chorar do homem ha de ser assim, ou
ficar sendo miseravel alardo de sua feminil fraqueza.




XII.


--Valha-me Deus!--disse o doutor, esfregando as palmas das mos
tremulas--como ha de a gente remediar isto? O que o meu Antonio queria 
que todos vivessem contentes. Christan utopia, que ha de realisar-se no
ceo!

--Eu vinha animado d'um pensamento quando aqui entrei--tornou
Azevedo--porm desanimei logo que o senhor me disse que Fernando de
Athaide queria os vinculos para mostrar a sua fidalga genealogia.

-- o que ; e se no fosse, que ideia era a sua? Vamos discutil-a.

--A minha ideia era contrahir eu um emprestimo aqui: sei que o obtinha.

--Tambem eu sei que o meu amigo obtem o emprestimo. E depois?

--Avaliavam-se os bens vinculados e as despezas feitas para os liquidar:
eu dava o valor de tudo a Fernando de Athaide, e elle desistia do
direito por conciliao.

--E o Antonio ficava pobre e a trabalhar toda a sua vida para remir a
divida?

--Necessariamente.

--Com effeito!--exclamou o doutor--e dizem l que j no ha santos! Sabe
voss, Azevedo, como  que o mundo, desde que perdeu a f nos milagres,
chama aos santos da sua virtude? Chama-lhes mentecaptos. Assim devia de
ser, porque a philosophia inscreveu tambem como demencia o amor divino
dos crucificados por sua lealdade a Deus, e d'estes vejo que ainda os ha
devotados  _sublime loucura da cruz_. Queria ento voss adjudicar o
trabalho de toda a vida ao pagamento do dinheiro com que pretende
restabelecer o bem-estar da familia da sua futura senhora?... Vamos
meditar. Este Fernando de Athaide, como j lhe disse, o que quer 
provar _urbi et orbi_ que  fidalgo de raa por seu pae. A herana no
lhe importa. Poderemos conseguir que elle convena o universo da sua
fidalguia, sem se apossar dos vinculos de D. Mafalda? Aqui  que bate o
ponto. E poderemos conseguil-o sem que o meu amigo hypotheque o seu
trabalho  solvencia da divida? Invoquemos as musas das entalaes, e
vejamos o que ellas nos decretam em coisa to prosaica, j que os
praxistas nos tapam todas as sahidas. Poderemos pensar no modo de
approximar Fernando de Athaide de uma das primas, casando-os? Este
expediente bem se v que  inspirao de musas, porque  de todo em todo
poetico. Que diz a isto, meu rapaz?

--Creio que por parte de Gasto de Noronha seria um negocio concluido,
ainda mesmo que Fernando de Athaide fosse do mais baixo plebeismo--disse
Azevedo.

--Feliz genio de homem para os nossos fins! Mas voss sabe que a
renuncia d'um direito transmissivel, como  o dos vinculos,  nulla; e
que os descendentes do renunciante esto sempre ao abrigo da lei. 
preciso que Fernando de Athaide case com a menina successora dos
vinculos, na hypothese de serem elles legitimamente de sua me...

--Essa  Corinna!--interrompeu Azevedo--Corinna  a que eu amo!

--Ah! sim? ento muda de figura o negocio.... Deixe-me pensar... E se
ns conseguissemos que Fernando casasse com uma das outras senhoras?
Leval-o-iamos a deixar aos sogros a administrao dos vinculos,
melhorados e desembaraados de dividas com liberalisado capital pelo
ricasso, e sobre tudo pelo fidalgo, orgulhoso de reedificar os
pardieiros de seus avoengos. Que lhe parece?

--Gasto de Noronha no acceitaria a humilde posio de mordomo de seu
genro--disse Azevedo--Por parte d'este a reconciliao seria impossivel.
S vejo um meio.

--Diga l.

--Fernando obteria uma filha de Gasto, se, antes de pedir-lh'a,
rasgasse as provas com que se diz successor dos vinculos.

--No se rasgam assim facilmente as provas. A perfilhao est
archivada, e as cartas e testamento que o legitimam filho de Ferno de
Athaide esto em notas de tabellies de Portugal e do Brazil.

--A desistencia, portanto,  invalida?--tornou Azevedo.

--, a menos que o senhor me no assevere que a descendencia directa de
Ferno de Athaide acaba em seu filho.

Proseguiram largo tempo dialogando juridicamente, e ultimaram indecisos
no que deviam fazer.

Antonio d'Azevedo desvelou aquella noite em hypotheses que se combatiam
e destruiam. Amanheceu-lhe o dia seguinte para incessante inquietao e
dolorosa perplexidade. Voltou s onze horas ao escriptorio de Valentim
da Costa, e encontrou-o encerrado com Fernando de Athaide.

--J se demorava--disse-lhe o doutor--Sente-se aqui.

O velho, voltado a Fernando, proseguiu:

--D-se o caso, amigo e senhor Athaide, que este Antonio d'Azevedo veio
ao Brazil ganhar alguns punhados de oiro para poder voltar a Portugal e
casar com uma das cinco primas de vossa senhoria, filhas de Gasto de
Noronha.

--Pois conhece minhas primas?!--atalhou Fernando.

--Especialmente a mais velha, a senhora D. Corinna--disse Azevedo.

--Alguem me disse que  muito galante essa--tornou o millionario.

--So todas galantes: so cinco anjos, que fariam o orgulho d'um pae
menos infeliz que o senhor Gasto, e teriam sido felizes se nascessem em
menos elevada condio.

--Alguem as viu em Paris--tornou Fernando--e achou-as educadas muito 
franceza.

--Por fora devia achal-as assim educadas: as mais novas l nasceram.

--Mas desenvoltas...  o que eu quero dizer.

--No senhor: enganaram-o: vi-as em alguns bailes do Porto com quanta
gravidade e compostura se pde desejar na mulher que se ama para nos
felicitar e honrar a vida.

--Agora fallo eu--atalhou o velho--O senhor Azevedo affligiu-se quando
vossa senhoria nos contou a situao em que ficou seu tio;  natural;
porque a senhora que elle ama, at ao sacrificio de vir grangear-lhe
aqui o po futuro, est l n'essa casa, d'onde vossa senhoria vai
expulsar toda a familia.

--Minhas primas devem odiar-me de morte!--interrompeu Fernando em tom de
desagradavel ironia.

--Fazem ellas muito bem--disse o velho, sorrindo.

--Que lhe diz de mim a prima Corinna?--tornou Athaide com prasenteiro
semblante.

--A carta que ella me escreveu n'este ultimo navio contm uma pagina com
referencia a vossa senhoria. Queira ll-a, que ella de certo me perdoa a
confidencia.

Fernando de Athaide leu a penultima lauda da carta, dobrou-a
vagarosamente, e restituiu-a sem fitar os olhos no bacharel.

--Aqui no ha odio de morte n'estas palavras, senhor Fernando de
Athaide--disse Azevedo.

--Ento isso  segredo c para o velho, heim?--disse o doutor.

--Ha meia hora que recebi a carta--respondeu o moo, entregando-lh'a.

--Sempre quero ver o juizo que ella faz do priminho. Mostre l o sitio
onde vem a catillinaria.

--Antonio indicou-lhe a pagina, e o velho leu alto:

Ouvi dizer ao nosso amigo Felisberto que o primo de minha me  muito
rico, e no precisa d'estes poucos bens. Que triste gloria reduzir 
ultima pobreza uma familia to numerosa! Ha coraes muito duros, meu
querido Antonio! s vezes penso com tristeza e ao mesmo tempo
consolao, no differente modo de pensar que Deus d s suas creaturas
to semelhantes no exterior. No se lembrar esse homem das afflices
que nos d sem proveito nenhum para si mesmo! No saber elle que a
subsistencia de sete pessoas, creadas na opulencia, era s isto que nos
tira!? Se um dia lhe disserem que meu pae morre de desgosto e miseria, a
voz do sangue no lhe gritar como um remorso ao corao? Ai! como os
felizes gosam,  meu pobre Antonio!...................................
.....................................................................

--Estas palavras, senhor Fernando--continuou o veneravel doutor--podem
mais que tudo quanto eu lhe dissesse, se as lagrimas que eu vejo nos
seus olhos no so uma illuso dos meus. Olhe fito c para mim, Athaide!
No se envergonhe de ser bom: tenha s pezar de o no ter sido. Vamos!
deixe l fallar esse corao! Sente-se disposto a salvar esta familia?

--Responderei--disse Fernando de Athaide, erguendo-se de golpe.

--Uma resposta, n'este caso, no  operao diplomatica que demande
vigilias e subtilezas de engenho. Sente-se!--disse com gracioso imperio
o velho.

--Mas que quer de mim o doutor?

--Quero que se mea em bizarria d'alma com este cavalheiro que aqui
est. Antonio d'Azevedo quiz contrahir um emprestimo de trinta contos,
ou mais, caucionados com a sua honra e trabalho. Estes trinta excedem em
doze, segundo vossa senhoria me tem dito, o valor dos vinculos. O
restante ser o que Fernando de Athaide tem gasto no costeio da demanda.
Antonio d'Azevedo queria offerecer a vossa senhoria esta quantia como
gratificao pela desistencia da demanda.

Sorriu Fernando, e atalhou:

--O doutor no disse a este senhor que eu dou trinta contos pelo menor
dos meus caprichos, e que ainda fico bastantemente rico para dar de
esmola o valor dos vinculos ao soberbo Gasto de Noronha?

--Esmola que elle no acceitar--disse com altivez o amado de Corinna.

--Nem eu estou pedindo esmola para o marido de sua tia--accrescentou o
doutor.

--Ento que pede?!--tornou Fernando com philaucioso sobrecenho.

--Peo ao fidalgo que tenha uma alma fidalga; que, se a no tiver, que
importam os seus brazes em confronto da caridade com que o escravo nu
levanta da rua o seu irmo prostrado de fome?! Quer saber o que lhe fica
bem? O cavalheiro manda suspender a execuo, sem desistencia dos seus
direitos, que as leis e todos lhe reconhecem. O seu vencimento foi
completo: agora  preciso coroal-o com a generosidade, se quer o
triumpho. Est vencida a questo: est reconhecido Fernando de Athaide o
successor dos vinculos de seu pae. So seus os vinculos, e  sua a honra
de os deixar administrar por sua prima. Isto  que  nobreza! De resto,
as armas dos portes das suas quintas so pedaos de pedra lavrada, onde
as aranhas fazem seus ninhos como entre a palhia que colma a cabana do
jornaleiro! Que diz?

--Responderei!--repetiu Fernando--tenho de dar satisfao  minha
dignidade. Entre corao e pundonor vai larga distancia: preciso de
explicar o despreso com que foram recebidas as minhas cartas por Gasto
de Noronha.  preciso que o mundo no pense que os meus direitos se
atemorisaram diante do arcabuz do valento.

-- preciso, primeiro que tudo, respeitar o infortunio!--disse
brandamente Antonio d'Azevedo.

--Digno de respeito--accrescentou o neto dos Athaides sahindo de m
sombra.




XIII.


Lembra-se o leitor de eu lhe ter dito, no primeiro capitulo, que, por
uma tarde de Agosto, estava Corinna da Soledade, nas margens do Lima,
reclinada n'um dos bancos circumpostos  fonte do tpo da sombria
avenida?

Agora  que o romance prende com aquella tarde! Vejam que desconcerto
este! Chega uma novella ao meio, e torna a comear. Parece que  isto um
abuso da indulgencia com que o leitor costuma indultar-me os desarranjos
do meu engenho. Ora queira perdoar mais este, attendendo a que as
coisas, na vida como ella , tambem assim vo desordenadas, e comeam
no s pelo meio, mas at pelo fim.

A carta, que Corinna lia e regava de lagrimas, era de Antonio d'Azevedo.
A pagina que mais a enternecia a prantos dizia assim:

.....................................................................
Eu no sei que deva esperar de Fernando de Athaide. Pareceu-me bom quando
lhe vi lagrimas, e mau quando se despediu. Ser tudo, ou no ser nada
do que me pareceu: os individuos vulgares so os menos intelligiveis. O
melhor, Corinna,  nada esperar que bom seja.

Entretanto, eu posso mandar  tua familia o bom corao que tu fizeste,
e no pde ser teu sem ser dos teus. Przo teu pae e tua me, quero s
tuas irmans como s minhas. Tenho-vos a todos no mais sagrado dos meus
affectos e ardentes desejos de ser util.

Os meus haveres, por em quanto, no merecem tal nome; porm a minha
palavra vale muito com os amigos que me deram os Taveiras. -me facil
possuir alguns contos de reis, e mandal-os a teu pae para ter uma casa e
segura subsistencia de sua familia, at que a minha posio seja mais
solida. Mas como hei de eu, e com que pretexto, remetter-lhe este
dinheiro? Como ha de elle acceital-o? Pensei n'isto muitos dias; e, a
final de desanimados arbitrios, tomei um expediente que tu, minha
Corinna, applaudirs, porque, sobre tudo, s a minha irman. Remetti seis
contos de reis ao nosso Felisberto Taveira, pedindo-lhe que fosse elle
offerecel-os a teu pae como coisa sua. Contrariou-me logo a conjectura
de que teu pae os no acceitaria, por no poder dar abonao; mas to
cansado estava eu j de ser contrariado, que fechei os olhos, e deixei
ao meu bom amigo o desapressar-se das difficuldades. Aqui tens o que
fiz: Deus far o resto.

Pedi ao Taveira que aconselhasse a sahida de teu pae para o Porto ou
Lisboa. A especial situao em que elle se collocou  muito violenta.
Digam-lhe todos que abandone as terras que j no so suas. Em toda a
parte ha sol e arvores e paz. Todas as flores te ho de festejar, minha
filha, e o meu corao te ser companhia onde quer que vs............
.....................................................................

Era bem para lagrimas este singelo dizer e extremo amar do pobre
ausente!

Expiravam nas cristas das serras fronteiras os ultimos raios de sol, que
Corinna contemplava, coroando de escarlate os pinhaes, quando um
barquinho abicou  margem relvada, mesmo no ancoradoiro pertencente 
quinta de Gasto de Noronha.

Corinna viu saltar e subir por entre as aleas das ramosas arvores um
homem, seguido d'um criado com uma mala. Como a fuga, sem ser vista,
seria extemporanea, a menina, escondendo a carta, esperou que o
adventicio chegasse.

A certa distancia descobriu-se o sujeito, e perguntou se estava em casa
o senhor Gasto de Noronha.

--Meu pae est para Vianna--disse Corinna--mas deve chegar ao escurecer:
no tardar.

--Poderei esperar que elle chegue para lhe apresentar uma carta do
senhor visconde da Cruz?

--Sim, senhor: queira subir, que eu dou parte a minha me, posto que
ella est recolhida no seu quarto por doena.

Chamou Corinna um criado que encaminhou o hospede  sala.

Pouco depois entrou a menina na sala, desculpando sua me em no poder
ir receber um amigo do senhor visconde, e pedindo ao cavalheiro o favor
de esperar seu marido, que voltaria breve.

Corinna retirou-se, ouvidos os termos cortezos com que o hospede
agradecia a delicadeza da senhora D. Mafalda.

No se demorou Gasto. Foi logo  sala, e recebeu a seguinte carta:

Illustrissimo e excellentissimo senhor, e meu respeitavel amigo de
minha maior considerao e respeito. Amigos de meu pae, e muito da nossa
estima, nos recommendam o cavalheiro portador d'esta carta, brazileiro
nato, que anda visitando a Europa, e quer ver o nosso Minho, e mais
ainda o Minho de vossa excellencia, symbolisado na sua formosa quinta.
Confiados na amizade de vossa excellencia, ousamos pedir-lhe o favor de
recebel-o, e indicar-lhe as principaes bellezas que enfeitam as margens
do Minho e Lima. Digne-se vossa excellencia acolhel-o com a sua
costumada delicadeza, e dar-nos a honra de lhe devermos esta nova
considerao. De vossa excellencia etc.==_Visconde da Cruz._

_P. S._ Passados dias terei o prazer de visitar vossa excellencia e sua
amavel familia, para quem peo respeitos e saudades.

--Offereo-lhe esta casa como a offereceria ao senhor visconde--disse o
fidalgo com palaciana graa--Queira sentar-se. Temos alguns locaes
bonitos na nossa provincia; mas se vossa senhoria viu a Suissa, a Italia
e alguns departamentos de Frana, de certo achar encarecida a pintura
que lhe fizeram do Minho. Eu viajei muito com a minha familia antes de
estabelecer casa em Paris, no tempo das nossas guerras intestinas!
Sinceramente lhe digo que l fra vi a natureza mais adornada, e por
isso mesmo mais bella: tudo assim . O artista quer achar a nudez para
enfeital-a com a poesia do pincel ou do buril; mas o mero curioso sente
melhor o bello onde elle realmente .

Proseguiram em conversao sobre viagens, at horas do ch. J o
hospede, a esse tempo, sabia que o seu quarto de dormir era contiguo 
sala, e que o seu criado dormia na alcova inferior correspondente ao
pavimento do quarto.

Antes de servir-se o ch, mandou Gasto chamar as cinco meninas, e
apresentou-as a Carlos Zuzarte, que assim disse chamar-se o hospede.
Felismina tocou piano para acompanhar Emma; seguiu-se Elisa a cantar,
acompanhada por Leonor: Corinna estava no quarto de sua me. Carlos
sentia-se como encantado entre aquellas meninas, que fallavam um
portuguez feiticeiro em suas incorreces, como fallariam anjos, se
descessem a tractar com portuguezes, circumstancia de idioma que os
poetas nunca observaram, que me lembre. Em quanto a ellas, o dizer do
hospede, puro brazileiro, era coisa de muita graa, com o que ellas
francamente riam, e de modo o faziam, que o viajante folgava de lhes dar
motivo a rirem.  onde pde chegar a condescendencia com meninas
galantes!

A noite correu ligeira para todos. Ao dia seguinte madrugou Zuzarte, e
desceu ao jardim. Argentava o sol a serra d'Arga, e l em cima os
montados d'aquella mystica selva dos franciscanos, onde ainda rumorejam
os psalmos das singelas almas que d'alli, to visinhas do ceo, se alaram
para Deus. Com que pena, leitor, eu acho o meu frei Luiz de Sousa
estranhamente trivial e despoetico na descripo d'aquelle ermo e dos
seus moradores! Elle, o dulcissimo panegyrista das solides de Bemfica,
passou por entre os cenobitas de mais ignorada vida, nas chronicas
monasticas, e apenas disse:  convento de religiosos entregues mais 
vida contemplativa, que aos cuidados e trabalhos da activa. E mais nada
d'aquellas brenhas, e grutas e lageas sem nome que...

Se eu me deixava ir agora  vontade da penna, l me ficava o romance
enredado nos silveiraes da mata de S. Francisco de Vianna, por onde j
passei um dia, l muito no alto, d'onde eu avistava a casa acastellada
de Gasto de Noronha, em quanto outro anachoreta me ia contando o
romance d'aquella familia.

O hospede estacou surprezo  entrada d'um pavilho de olaias. Estava l
dentro uma como estatua de alabastro, que poderia chamar-se o anjo da
meditao. A estatua, porm, se o era, dos jardins do ceo devia de ser,
porque tinha luz nos olhos e celestial graa no sorriso, quando Zuzarte
a viu. Era Corinna da Soledade.

Cortejou-a o sujeito com certa turvao, e retirou-se. A menina
correspondeu ao cumprimento, e sahiu do jardim logo que o hospede se
distanceou da gruta.

Por alli se deteve contemplativo o brazileiro at horas de almoo. L
veio procural-o Gasto de Noronha, e se andaram ambos conversando ainda
sobre coisas que tendiam todas, por parte do fidalgo, a averiguar se o
hospede era rico.

--Tenho trinta e oito annos--disse o brazileiro--e principo agora ainda
a pensar nas delicias que tem o mundo. At agora cuidei em fazer-me
rico, pensando que bastava sel-o para ser feliz. Como me enganei, cuido
d'hoje vante em dar nova applicao  fortuna.

--Na sua idade--atalhou Gasto--quando se  rico, acham-se abertas as
portas do mundo para todos os gosos.

--No  tanto assim--replicou o hospede--A riqueza  muitas vezes um
estorvo  felicidade do corao; e o corao, aos trinta e oito annos, 
quasi sempre enganado pela juventude que o reflexo do oiro lhe d.
Quando me proponho um programma de vida nova, o meu primeiro pensamento
 casar. A felicidade do celibatario, se elle no fr monge ou santo, ou
temperamento excepcional,  uma concatenao de deleites viciosos com
muito desconto de amarguras. Para alm d'este difficil passo do
casamento rasgam-se-me novos horisontes, encantam-me as alegrias da vida
domestica, vejo os bens que Deus concede na velhice aos que dignamente
consumiram suas foras nos annos em que as foras carecem de ser
subordinadas ao dever...

--Pensa muito acertadamente, senhor Zuzarte--interrompeu o fidalgo.

--O quadro delicioso que vim achar em sua casa, senhor Gasto de
Noronha, redobrou-me o encanto, porque  elle a mais sublime realidade
das minhas imaginaes. Que ditosa velhice a do pae que v em volta de
si cinco filhas, cinco amores de filha a florescerem-lhe a alma com as
suas primaveras! Assim no se deve sentir o pezo dos annos, nem o temor
da morte. O caminho final, a ultima jornada deve ser suave entre os
anjos. No  muito feliz, senhor Gasto de Noronha?

--Sou infeliz--disse, em boa consciencia, o fidalgo.

--Infeliz?! Com familia to querida e extremosa, n'este paraizo, 
infeliz!? Ento l se vo as minhas chimeras!...

--Fui ditoso at ao momento em que uma inesperada desventura me bateu 
porta para me dizer que esta casa no era minha, e que as minhas filhas
teriam um futuro de dependencia, obscuridade, e... Deus sabe que
futuro!...

--Pois no  de vossa excellencia esta casa?--perguntou o hospede com um
ar de espanto, que denotava artificio por demasia de naturalidade.

--A herana de minha mulher foi-me disputada por um parente; so
vinculos que as leis concederam a um filho natural do antecessor de
minha mulher. Passados alguns mezes terei de sahir com minha familia. Um
descendente dos marquezes de Villa Real no ter choupana onde se
abrigue com suas filhas e mulher. Aqui tem o senhor Zuzarte a razo da
minha amargura. As filhas, que eram minhas delicias, esto sendo um
constante incentivo de soffrimento. Eduquei-as em Frana, dei-lhes uma
infancia de rainhas, premeditava casal-as nas primeiras familias d'esta
provincia: muito fidalgas, muito prendadas e muito pobres, quem as quer,
a no serem maridos de quem eu de certo as no fiava assim mesmo
pobres?...

Carlos ouvia Gasto com semblante mais assombrado que compungido:
dir-se-ia que aquelle homem, conscio da indole soberba do fidalgo,
pasmava de ouvil-o abrir-se em palavras to brandas, francas e humildes.
De si para si dizia Gasto, vendo o aspecto indefinivel do seu hospede,
que, depois da revelao da pobreza, o rico o estava olhando com menos
prestigio, e talvez reflectindo no modo de esquivar-se a alguma petio
de dinheiro. Esta hypothese, beliscando o orgulho do fidalgo, fel-o
proromper n'estas palavras destoantes das ultimas que proferira:

--Ainda assim, as pessoas que se hospedam em casa de Gasto de Noronha,
por em quanto, so recebidas como em todo o tempo. A revelao que lhe
fiz, senhor Zuzarte, no  lastimas de quem acaba pedindo um favor.
Tenha vossa senhoria muita confiana na minha independencia, que eu hei
de morrer Gasto de Noronha. Ha mezes que o nosso amigo visconde da Cruz
depositou um capital de dois contos de reis para evitar um embargo nos
fructos pendentes d'estes bens: quando eu tal sube, vendi as joias de
minhas filhas para embolsar o senhor visconde do seu deposito.

--Vossa excellencia est-me fazendo revelaes que me confundem--atalhou
o hospede--e ao mesmo tempo fere-me com suspeitas que eu no mereo! Por
ventura cr-me capaz de o julgar abatido e desmerecido em seu
infortunio? Que disse eu para vossa excellencia passar de uma to nobre
confisso dos seus desgostos a prevenir-me de que os hospedes em sua
casa so recebidos como nos tempos prosperos?!

--Desculpe-me--acudiu Gasto-- que eu no nasci para estas queixas, e
cuido sempre que a pobreza me abate aos olhos dos estranhos, desde que
me vi desconsiderado dos parentes.

Entraram na casa do almoo, e encontraram D. Mafalda, que os esperava
com as cinco meninas. Carlos foi apresentado  fidalga, e deteve-se
conversando especialmente com ella durante o almoo. A polidez assim o
mandava ao hospede: mas o familiar affecto com que elle a tratava era
por demais. Notaram as meninas que elle no desfitava os olhos de sua
me seno quando encontrava os d'ella, j tambem admirada da fixidez
attenta do brazileiro.

Da casa do almoo passaram  sala do piano. Felismina foi cantar
modinhas brazileiras com o requebro e mimo das ardentes e languidas
filhas do Brazil. Felismina era uma formosa morena, com olhos negros,
cabellos curtos e annelados como spiraes de ebano, esbelta de corpo,
alta mais que todas, muito agil e inquieta, relanceando sempre a vista a
todos e a tudo, a mais diserta e chistosa de todas, e a menos dada s
flores,  poesia, e s bellezas campezinas que suas irmans encareciam
umas mais que outras, e Emma, a pachorrenta Emma, esta mais que nenhuma.

Felismina estava gracejando com Zuzarte a respeito das damas
brazileiras, cujas graas o hospede, sem favor, elogiava, quando um
criado entrou  sala onde estavam todos, e entregou uma carta ida de
Lisboa para Gasto de Noronha. Era a carta do procurador.

--Teremos golpe?--disse o fidalgo a D. Mafalda.

--No sei qual possa ser!--respondeu a senhora--As dores mais de temer
esto todas passadas.

Leu Gasto a carta, e disse com alvoroo:

--O Fernando manda suspender a execuo, e retirar o processo de
julgamento com desistencia! Que significa isto?

--O qu, pap?--exclamou Felismina, que mal ouvira, de entretida que
estava com o brazileiro.

-- o primo Fernando que desiste da demanda--disse Mafalda.

--Foi elle!--exclamou Corinna.

Voltaram-se todos para a menina que soltara o brado, e viram-a muito
escarlate.

--Elle! quem?--perguntou o pae.

Corinna balbuciou confusas palavras, e no soube como explicar aquelle
disparate, que parecia o despertar subito d'um arrobamento semelhante a
somnambulismo!

Se no existissem os pronomes _este_ e _elle_, Corinna teria exclamado:

--Foi Antonio d'Azevedo!

E, se ella tal dissesse, ninguem a entenderia, excepto o leitor.




XIV.


Pediu Zuzarte licena para compartir do contentamento da familia. Em
breves e alegres termos, D. Mafalda disse que seu primo Fernando de
Athaide desistia da aco que tinha vencida, quando menos se esperava.
Sem rebuo de vo orgulho, a fidalga enumerou quantas desventuras
estavam eminentes  sua familia, e a ella, pobre me e esposa, que, ao
mesmo tempo, se havia de separar de marido e filhas para ir quinhoar o
po da caridade de parentes, que, muitas vezes, lh'o atirariam  cara
com a cruel censura aos desperdicios da emigrao.

O brazileiro mostrava-se jubiloso do successo; e, cada vez que as
meninas bem-diziam seu primo Fernando, era muito de notar-se que o
hospede guardava um silencio indelicado.

Instado por Felismina a dar explicao do seu silencio, e mais ainda
d'um certo tregeito de fria admirao, disse o brazileiro, como
surprendido em mysterioso sentimento, qualquer que fosse:

--Eu no sei de que hei de louvar esse senhor Fernando de Athaide, posto
que o respeito muito por ser to proximo parente de vossas excellencias.

--No sabe?!--disse Mafalda com vehemencia.

--No, minha senhora.

--Pois a desistencia d'uma fortuna, que era j sua...--tornou a fidalga.

--Minha senhora--replicou Zuzarte--eu conheo o primo de vossa
excellencia.

--Conhece!--exclamaram todos.

--Fernando de Athaide desistindo de algumas dezenas de contos, obedeceu
talvez a um sentimento de vaidade, o mais barato de quantos lhe tenho
conhecido. Seu primo, minhas senhoras,  hoje um millionario. A balana
do seu oiro no ergueu duas linhas com o desfalque do valor d'estes
vinculos. No ha virtude que deva espantar-nos na desistencia d'um
objecto inutil.

--No quero pensar assim, nem consinto que minhas filhas assim
pensem--tornou Mafalda.

--Pois bem--retorquiu o brazileiro--convenho que em vossas excellencias
a superabundancia de sensibilidade reverta em gratido; aposto, porm,
que o senhor Gasto de Noronha no pensa assim.

--Penso como minha mulher--disse o fidalgo--Penso que lhe devemos muito
ao generoso Fernando, porque eu fui mau para com elle. Quando estavamos
em Paris, recebi duas cartas suas, muito attenciosas, s quaes no
respondi. Chamava-me primo, e eu tive a estupida arrogancia de rejeitar
o parentesco de um homem que, por delicados termos, me convidava a
entrar com elle em negociaes cerca dos vinculos, que eu illegalmente
administrava. Depois d'isso, tenho rejeitado todas as conciliaes
propostas, e, no arrasoado de minha defeza, fiz que os lettrados
empregassem termos injuriosos contra a sua pretendida filiao de nosso
tio Ferno de Athaide. Era de crer que fosse implacavel o odio do
vencedor, depois que eu,  fora d'armas, lhe resisti ainda em ultimo
lance. Ora, senhor Zuzarte, seja embora millionario Fernando, fora nos
 confessar que ha sangue muito fidalgo n'aquellas veias! Se eu pudesse
apertal-o ao corao n'este momento, exultaria do nobre orgulho com tal
parente!

Carlos Zuzarte fez um signal de assentimento s calorosas razes de
Gasto, e derivou a prtica a outro assumpto. Felismina, porm, teimou
em fallar de seu primo Fernando, pedindo ao brazileiro que lhe contasse
o que sabia d'elle.

--Que interesse, minha senhora!--disse Zuzarte com ar de maravilhado--O
primo de vossa excellencia  um homem de bigode grisalho, olhos pretos,
alto, debil, muito trigueiro, alegre s vezes, outras muito triste, com
muitos amigos e muitos inimigos...

-- solteiro?--atalhou Felismina.

-- solteiro, e j agora assim morrer, porque, se me no engano, deve
ter trinta e oito annos.

--Justamente--disse Mafalda--Meu tio Ferno morreu ha vinte e dois, e
lembra-me elle dizer-me que Fernando teria dezoito. Queria meu tio que
eu casasse com o primo; mas como falleceu quasi repentinamente, no
chegou a mandal-o chamar.

--Se vossa excellencia tem casado com elle--disse Zuzarte--esta scena,
em que todos figuramos, estava na massa dos impossiveis! Ora vejam
vossas excellencias que em bem pouco est o no virem  luz da vida
magnificos espectaculos! Que quer vossa excellencia saber mais de seu
primo, senhora D. Felismina?

--Diga tudo o que souber--respondeu a menina.

--Eu no sei mais nada, minha senhora. A ultima vez que o vi no Rio de
Janeiro foi no escriptorio de um velho jurisconsulto, onde tinha banca
de advogado um moo portuguez chamado Antonio d'Azevedo Barbosa.

Corinna da Soledade estremeceu expansivamente, como se ninguem a visse,
e como por influio magnetica, a cadeira per si mesma se arrastou
algumas pollegadas para mais perto do brazileiro. A leitora de certo no
acredita n'este magnetismo da cadeira.

Gasto de Noronha relanceou os olhos a Corinna, e as irmans tambem.

--Eu no sei que influencia teve este nome no meu auditorio!--disse o
brazileiro, sorrindo.

--Em que consiste a fortuna de Fernando?--interrompeu Gasto com mal
disfarada zanga.

--Em terras, dinheiro, escravos, navios e predios--respondeu
Zuzarte--Esta grande labutao demanda um bom zelador, que o primo de
vossas excellencias, por natural preguia, no pde ser. Ouvi-lhe ento
dizer, que tendo de sahir para demorada viagem na Europa, deixava seu
advogado no Brazil o honrado Antonio d'Azevedo, com um ordenado bastante
s suas despezas. Bem escolhido patrono! Em poucos mezes, o doutor
conquistou, no Brazil, um nome que vale muito grande fortuna,
conservando-se l seis annos. Alguem me disse que Antonio d'Azevedo
amara em Portugal uma menina nobre, e fra ao Brazil enriquecer-se para
voltar a casar-se com ella. Se isto  verdade, devem dar-se os parabens
 noiva, que o laborioso moo tinha l uma boa fada  sua espera.

Gasto de Noronha ergueu-se, e disse com impetuosa acrimonia:

--O senhor sabe que est em casa do pae d'essa senhora, que Antonio
d'Azevedo cuida comprar com o dinheiro ganhado no Brazil?

--Como?!--exclamou Carlos com a mais magistral naturalidade--Vossa
excellencia assombra-me! Dar-se-ha caso que seja alguma d'estas senhoras
a menina que... Com effeito! Parece que estamos compondo um romance!

--Romances d'uma minha filha...--tornou o fidalgo--No fallemos mais
d'isso... que a ferida ainda sangra...

--Eu peo perdo se avivei dores e saudades, sem a menor inteno, nem
suspeita de....--disse Carlos.

--Pois est claro que vossa senhoria ignorava tudo...--replicou o
fidalgo.

E voltando-se a Corinna, soltou um frouxo de mau riso, riso de repreza
clera, porque lhe vira as lagrimas correrem nas faces a fio.

Carlos no pde conter esta exclamao:

--Que grande e digno amor!

Gasto fitou-o com certo espanto e azedume, e disse, em occasio
opportuna, ao ouvido de sua mulher:

--No sei o que hei de pensar d'este homem! O acaso no faz d'estas
coincidencias seno nas novellas...

O incidente passara. O brazileiro encostara-se ao peitoril d'uma janella
com Felismina, e ahi conversaram largo tempo cerca dos amores de
Corinna e Antonio d'Azevedo. Parece que o apologista do bacharel se
saboreava muito em discorrer de amores alheios, e no perdia azo de
invocar o corao da menina a decidir em theses amorosas, que elle muito
de industria estabelecia. A direco que levou o dialogo, no a sei eu
cabalmente dizer;  certo, porm, que Felismina, conversando n'aquelle
dia com sua me muito  puridade, lhe disse que o brazileiro lhe
perguntara se ella poderia amal-o. N'essa mesma noite Mafalda revelou ao
marido a pergunta. O marido pensou na resposta, e disse que tinha razes
para suppor que Carlos Zuzarte era homem muito rico. A senhora entendeu
as clausulas de tal resposta, e disse a Felismina que o pae ouvira a
noticia com agrado.

--E tu, filha--accrescentou D. Mafalda--gostas do Carlos?

--No desgosto, maman.

--E querias casar com elle?

--Se o pap quizesse... Mas olhe que elle no me disse que queria casar
comigo, maman!

--Bem sei, filha, bem sei; mas assim  que se principiam os casamentos.
Como o visconde da Cruz c vem, elle nos dir quem  o brazileiro, e
depois, se o partido fr de vantagem e tu quizeres, o que ha de fazer-se
ao tarde, faa-se ao cedo.

Em quanto esta scena, nem edificante, nem rara, se passava no quarto de
Mafalda, Corinna fra sentar-se na varanda mais solitaria do palacete, e
o proposito levara alli Carlos Zuzarte, acompanhado de Emma e Leonor,
que lhe andavam mostrando a poro antiga do edificio. O brazileiro
approximou-se de Corinna em quanto as duas meninas desceram ao jardim a
colher agua em pequenas bilhas, e disse-lhe:

--Minha senhora! alegre-se que ha de ser feliz! Antonio d'Azevedo ha de
ser seu marido, porque Deus  justo com os coraes corajosos sem
deshonra. Espere, e vencer. Faa de conta que esta revelao lhe vem do
ceo!

--Bem haja!--disse Corinna apertando-lhe a mo.

No dia seguinte chegou o visconde da Cruz, o bem-vindo para todos, e
particularmente para Corinna. Carlos Zuzarte, ao apertar-lhe a mo,
murmurou estas palavras:

--Seja discreto, quanto lhe pedi!

--Pois duvda?!--respondeu o visconde.

Gasto, logo que pde, apartou-se com o visconde, e teve com elle o
seguinte dialogo:

--Ser censuravel pedir eu a vossa excellencia algumas informaes
cerca d'este meu hospede?

--No , senhor Gasto--disse o visconde--Direi o que souber.

--Este sujeito parece-me excellente creatura.

--No sei: recommendaram-m'o como pessoa muito rica. Em materia de
costumes nada me disseram.

--Mas muito rico, sim?

--J tive a honra de dizer a vossa excellencia que  muito. Viaja em
navio proprio, e podia viajar com estado de quatro navios...

--Oh!  muito!--interrompeu Gasto abrindo os olhos ao tamanho da boca.

--Estou quasi a adivinhar que vossa excellencia observou que elle amava
alguma de suas filhas!...

--Quem lh'o disse?--acudiu alegremente o fidalgo.

--Ninguem m'o disse, meu nobre amigo, nem eu me orgulho de adivinhal-o:
quem quer o faria. Qual  a menina predilecta? Naturalmente a senhora D.
Corinna.

--Ora... Corinna! no sei que distinco  a de minha filha Corinna! No
so to formosas como ella as outras?

--So formosissimas todas--respondeu o visconde--mas aquella tem mais
que as outras um cunho de melancolia...

--De tolice, meu amigo, o cunho  de tolice... No  ella; ainda bem que
no ... Corinna tem de dar m sahida com os taes amores... Deus perdoe
a quem contribuiu para aquella demencia...

--Fui eu?...

--Bem sabe que foi, senhor visconde...

--Pois Deus ha de no s perdoar-me, mas glorificar-me com a satisfao
de ter approximado dois anjos...

--No sei para qu...

--Para se amarem e darem um exemplo de sacrificio raro, sublime e
invejavel... No vim a enfadal-o, senhor Gasto... Comea vossa
excellencia a enrugar a testa, e to bom hospedeiro merece melhor
recompensa. Como esto os seus negocios?

--Acabou a questo com meu primo.

--Sim?! e como acabou?

--Desistiu.

--Bello! mil parabens! No tem, pois, vossa excellencia nada que o
penalise?

--Estou contentissimo. A minha casa volta a ser, se no invejavel pela
ostentao, ao menos pacifica e bastante s minhas despezas em agradavel
mediania.

--Precisa vossa excellencia de dinheiro para remir-se de algumas
dividas?

--Mil graas; ainda tenho algum do producto das joias.

--Mas quer vossa excellencia resgatar as joias de suas filhas? Abro-lhe
com franqueza o corao e a bolsa.

--Dispenso o seu obsequio. Minhas filhas enfeitam-se com flores: c
n'estas montanhas o melhor joalheiro  a natureza. Cada primavera  um
milhar de cofres de pedrarias preciosas abertos por esses montes e
veigas.

--Santa e bella poesia!--disse o visconde--Queria vel-o coherente
comsigo mesmo, meu amigo! Se a natureza lhe d tantas riquezas em
flores, porque no ha de querer acceitar das mos d'ella um genro dotado
com quantas virtudes podem adornar o rei da creao?

--Um genro! de quem me falla?--acudiu enleado o fidalgo.

--Fallo-lhe d'um Antonio de Azevedo Barbosa, que sabedor dos infortunios
de vossa excellencia...

O visconde reteve a exuberancia do corao, talvez indignado, e doeu-se
de levar to longe seu zelo.

Gasto ia pedir-lhe explicaes, quando o visconde, turbado de sua
irreflexo, recorreu, ao avisinharem-se duas meninas, a ir ter com
ellas, pedindo-lhes flores dos seus canteiros.

Emma e Leonor desceram ao jardim, e o visconde seguiu-as. Carlos Zuzarte
passeava n'uma rua abobadada de arvoredo, com Felismina; no tpo d'esta
rua estava Corinna da Soledade corrigindo umas trepadeiras que descahiam
da direco que a sua cultora lhes dera.

O visconde estugou o passo; quando a viu, approximou-se, e disse-lhe:

--A sua felicidade est a chegar. Exulte, minha amiga. So mais alguns
mezes: doire-os com a esperana, que  um bem quasi egual  mais querida
realidade, quando se tem a certeza.

--A certeza!--exclamou ella.

--Sim, a certeza.

-- senhor visconde, meu bom amigo, diz-me uma coisa? Como sabe este
brazileiro que eu vou ser feliz?...

--Sabe-o: tem a quasi certeza, e eu tenho a certeza completa. Deus no
ha de querer desmentir-nos.

Appareceu Gasto ao fundo da rua, e logo o visconde dirigiu em voz alta
perguntas s meninas que cortavam perto as flores.

Gasto, ao vl-o perto de Corinna, disse a Mafalda:

--Estes populares so uns pelos outros! Parece que andam conjurados a
darem cabo dos titulos e das raas distinctas!

--Porque dizes isso, Gasto?--perguntou Mafalda.

--Porque o digo?! Pois no vs o interesse que este visconde tem em que
a nossa Corinna case com o homem de Barcellos!  teima que me ha de
fazer chegar a mostarda ao nariz!

Chegaram  curva da rua onde estavam Felismina e Carlos.

Gasto sorriu-se e passou vante, dizendo a Mafalda:

--Tenho a certeza de que  riquissimo o brazileiro.

--Mas plebeu, no ?

--No averiguei: ha de ser naturalmente. Mas que pensas tu? Do modo como
por c est isto, o homem, se quizer,  conde manhan. Tem cinco navios!
cinco navios, Mafalda!... Que te parece? as intenes d'elle sero boas?

--Creio que sim. A pequena sympathisa verdadeiramente com elle. Pareciam
dois tolos a brincar  rda do tanque, e assim que o Carlos lhe pede que
cante modinhas brasileiras, ella ahi vai logo ao piano, e elle morre por
ouvil-a. Quando isto  de quatro dias, que far se elle se demorar?

--Era uma felicidade, Mafalda! Fortuna de milhes! Ento  que diziamos
um adeus  aldeia e a estes parvos c do Minho, que fazem consistir a
sua grandeza nobliarchica em terem dois cyprestes  porta, quatro patos
reaes n'um tanque, e um lacaio com grandes botas... Ainda tenho
esperanas de voltarmos a Paris! Aquillo  que  viver!

--Ai! Paris!--suspirou Mafalda, reclinando a cabea sobre o hombro do
marido--ai! Paris!




XV.


Decorreram alguns dias de excurses pelo Minho e Lima. O visconde
acompanhou o festivo rancho. As meninas iam felizes: a propria Corinna,
com as suas esperanas, egualava as irmans em contentamento. A espaos,
Zuzarte ou o visconde lhe diziam uma palavra confortadora, de modo que o
desconfiado Gasto no dsse f. No que elle muito reparava era nas
repetidas conversaes dos dois hospedes, que se apartavam da caravana
para fallarem com certos visos de mysterio.

--Em quanto a mim--dizia o fidalgo a D.Mafalda--o brazileiro consulta o
visconde a respeito de Felismina. Seria bom prevenil-o.

Chegaram a Ponte do Lima. D. Mafalda quiz visitar o carneiro de seu tio
Ferno de Athaide. Ajoelharam todos a orar por alma do fidalgo. Carlos
Zuzarte com tal devoo o fez, que deu nos olhos de todos.

--Parece que  bom christo!--disse Mafalda a Felismina--V tu que o
homem tinha lagrimas nos olhos, e veio perguntar-me se eu ajoelhara por
formalidade, se por sincero sentimento de respeito s cinzas de meu tio!
Que pergunta!...

Alojaram-se n'um velho palacio das margens do Minho, onde tinham nascido
os avoengos de Mafalda: era a casa onde expirara Ferno. As meninas
riram muito, e andavam a reboque umas das outras nos vastos sales
esburacados. No quarto onde morreu o camarista de D. Joo VI estava um
retrato d'elle, roido de traa e p, com as feies quasi apagadas. O
brazileiro disse a Gasto de Noronha que Fernando d'Athaide havia de
apreciar grandemente o mimo d'aquella carunchosa lona. Prometteu Noronha
mandar retocar o retrato, e presentear-lh'o.

Nem Mafalda, nem alguma das meninas quiz pernoitar no quarto, onde
morrera o tio, e estivera inhabitado desde ento. Dormiram n'elle o
visconde e o brazileiro.

Dois dias depois proseguiram o passeio desandando para o palacete das
margens do Lima. O visconde recolheu-se ao Porto, e Carlos Zuzarte ficou
ainda sem designar destino.

Abriu-se o theatro lyrico no Porto. O brazileiro convidou a hospedeira
familia a visitarem a galera que elle tinha fundeada no Douro, e a
gosarem-se de algumas noites de theatro. As quatro meninas iam
endoidecendo de alegria com o convite, e mais ainda com a
condescendencia do pae. Corinna entristeceu-se. A felicidade adoava-lhe
a solido agora mais que nunca. Os sitios onde nos afizemos a scismar e
soffrer com a nossa saudade do-nos a sombra do ausente que choramos
sempre que a mgoa l se vai carpir. Se depois nos afastamos d'aquelles
sitios, a saudade j  dupla: parece que os novos logares, onde imos,
nos no conhecem, nem sabem porque choramos. A nossa dor dera-nos alm
um clima nosso; aqui tudo estranhamos, tudo nos parece em dobro
apartado. Esta sensao amarga adivinhava Corinna da Soledade, quando
pediu a sua me licena para ficar com o governo da casa. Gasto deu a
licena sem constrangimento; mas Carlos Zuzarte no prescindiu da
companhia de Corinna, e de modo lh'o disse a ella, que a menina no
hesitou.

Esperava-os no Porto uma casa nobre mobilada com riqueza. Pasmou Gasto
das rapidas providencias do seu hospede: este disse que, tencionando
residir alguns mezes no Porto, incumbira o seu amigo visconde da
decorao da casa.

Pediu o brazileiro a D. Mafalda se convidava as suas relaes no Porto
para lhe honrarem as salas por occasio d'um baile, que elle queria dar
ao visconde da Cruz. Deu-se um baile explendido, como o fidalgo
portuguez os dava em Paris.

Concorreram as senhoras de primeira sociedade e formosura.

Carlos Zuzarte afigurou-se a muitas meninas um bom marido; todas, porm,
excepto uma, se abstiveram de revelar o seu parecer n'um sorriso ao
brazileiro, por verem que eram cinco, e todas bellas, as filhas do
fidalgo commensal do ricasso; ora a exceptuada no deu pso a isso, e
distinguiu-se em branduras e cortezias que deram na vista.

Felismina foi quem primeiro as viu. Podera no! O seu amor era
verdadeiro, porque disparatou em ciumes. Sahiu das salas, recolheu-se ao
seu quarto, e, nem com ordem do pae, sahiu de l. O brazileiro soube
isto, e sorriu-se como a vaidade do corao sorri. Foi elle, em pessoa,
pedir a Felismina que voltasse  sala: estava fechada por dentro, e
disse pela fechadura da porta que no ia servir de escarneo  sua rival.
Carlos sustentou o dialogo  fechadura, foi eloquente quanto se pde ser
por um tal systema de embocadura de suspiros, e conseguiu que Felismina
promettesse voltar  sala.

O brazileiro levou  evidencia de todos que amava a filha de Gasto,
desde que o seu perdoavel orgulho se inflou com os ciumes, acintemente
provocados.

No dia immediato jantaram a bordo da galera, que se chamara _Aurora_, e
n'aquelle dia appareceu chrismada em _Felismina_. Este successo para
Gasto de Noronha teve o valor do terceiro proclame lido  missa
conventual.

 noite no sahiram de casa, nem receberam visitas, excepto o visconde
da Cruz, e seu irmo Luiz Taveira, que, desde o baile, scismava muito
com Leonor, filha de Gasto, a mais mimosa de todas em structura, coisa
assim como sonho, sylpho, ou quer que era de imponderavel, que parecia
nas walsas uma borboleta de azas iriadas.

Que esperto era aquelle Gasto de Noronha! Deu logo pela ternura dos
olhares de Luiz, e de si para si disse: Mudam os ventos, mudam os
tempos!

Estava, pois, reunida a familia, o dono do palacete, e os dois Taveiras
convidados ao desembarque.

Ao retirarem os taboleiros do ch, o brazileiro convidou Felismina a
jogar o xadrez, sob condio de ficar sujeita  vontade do vencedor a
liberdade do vencido. Felismina annuiu. Todos cercaram os jogadores com
anciosa curiosidade.

--Gsto de ver a atteno que nos prestam--disse Zuzarte--porque no 
brincadeira isto. Esquecia-me, porm, ouvir o senhor Gasto de Noronha,
antes de acceitar a annuencia de sua filha. Vossa excellencia no vem
com embargos, se a sorte fr funesta  senhora D. Felismina?

--Quaes embargos!--exclamou Gasto rindo estrondosamente--E se ella
vencer? haver embargos por parte do cavalheiro Zuzarte?

--Ninguem se importa com o meu destino.

--Quem sabe!...--disse Felismina--Tenho medo....

--Que teme, minha senhora?--perguntou Zuzarte com meiguice.

Felismina sorriu e crou.

Jogaram. Os pees, os delfins, o castello, o rei e rainha do brazileiro,
foram todos derrotados e assoprados miseravelmente. Felismina venceu.

--Estou  sua disposio, minha senhora!--disse Zuzarte.

--Est?--acudiu ella com as morenas faces retinctas de escarlate.

--Estou: que determina?

--Que fique sendo o nosso amigo sempre; que no torne para o Brazil.

--Ficarei. Quer-me ento como um parente, sim? Irmo, tio, primo... veja
l: qual parentesco lhe quadra mais?

--Seja primo--disse Felismina.

--Pois, sim, seja primo--disseram todas as meninas.

--Pois ento venham dar todas um abrao em seu primo--tornou o
brazileiro erguendo-se--O primeiro abrao ha de ser o de minha prima
Mafalda, sobrinha de meu pae Ferno de Athaide.

Houve um spasmo em todas as senhoras, que pareciam, ao encarar-se
mutuamente, perguntarem umas s outras se tinham entendido o dizer do
brazileiro.

--Ento, prima Mafalda!--tornou Fernando de Athaide--se no acceita o
parentesco que sua filha nos d, acceite o que nos deu a natureza. Aqui
tem o mau, o perseguidor, o implacavel Fernando de Athaide! Vingue-se
agora, dando-lhe um abrao de abafar-lhe o ruim corao que trasborda de
felicidade!

Mafalda correu aos braos de Fernando; Corinna, Emma, Felismina, Elisa,
Leonor, todas a um tempo, pareciam contentar-se com apertar-lhe os
braos. O proprio Gasto abrindo os seus queria abraar o grupo d'um
amplexo.

Fernando de Athaide, beijado e abraado por todas, sentou-se extenuado,
e murmurou:

--Devo esta felicidade a Corinna. D-me um outro abrao, minha prima
Corinna: a si devo o que sou agora; a si  que toda esta familia deve a
felicidade que eu posso dar-lhe.

--A mim?!--disse Corinna.

--Como assim, primo Fernando?--acudiu Mafalda--a gente no sabe como 
que Corinna deu causa a isto!...

--Eu lhe digo, prima: se Antonio d'Azevedo no tivesse amado Corinna,
nunca o eu conheceria no Rio de Janeiro; e, se eu no viesse a encontrar
o amigo, o anjo, o honrado amante de Corinna, creia vossa excellencia
que seria hoje o perseguidor d'estas pobres meninas. Foi elle quem me
ensinou, com duas palavras, como o Christo as dizia aos maus, a ser bom,
compassivo e misericordioso. Vi-lhe lagrimas mal abafadas no corao; e
quiz Deus que ellas me cahissem no meu. D'ellas se gerou a felicidade de
todos ns, de todos, menos a d'elle... Adiante... Elle est debaixo da
mo de Deus... A sua hora de premio ha de tambem chegar... Meu primo
Gasto, eu perdi o jogo com minha prima: perdi o direito de me revoltar
contra as suas decises; mas, ainda assim, o corao pe embargos, e
vossa excellencia ser o juiz, e minha prima Mafalda tambem. Eu peo-lhe
para minha esposa sua filha Felismina: antes quero ser irmo que primo
d'estas meninas; hei de sentir alguma vez o prazer de chamar a vossa
excellencia pae. D-me sua filha?

--Com orgulho, com soberba, como a no daria ao primeiro sangue de
Portugal!--exclamou Gasto, conduzindo Felismina aos braos de Fernando.

O visconde da Cruz felicitou Gasto, e discorreu com enthusiasmo sobre o
pathetico lance, a respeito do qual tambem eu faria aqui de vontade um
discurso, se o leitor quizesse medir sua paciencia com o meu flego
oratorio. A chave de oiro com que o visconde fechou a parlanda foi
apresentar todas as licenas necessarias para os noivos se receberem na
egreja parochial de Cedofeita, com dispensa de proclames e attestados
canonicos do imperio do Brazil. Isto deu realces de alegria 
sobre-excitao em que todos estavam. Mafalda queria manter-se em sua
gravidade dos quarenta annos; mas parecia irman de suas filhas. Gasto
andava a querer levantar toda a gente nos braos, e, a fallar a verdade,
no s levantava, mas apertava as costellas franzinas do noivo com todo
o amor dos seus musculos d'ao, musculos que desmentiam a fidalga
placidez, que  condio das finas raas. N'estas idas e voltas, Luiz
Taveira no perdia Leonor de olho, e a espiritual menina, com quanto mui
angelica, d'esta vez dava semelhanas d'aquelles anjos despenhados por
crime de inveja. O deliquio com que ella o fitava parecia dizer: A mim
no se me dava de me parecer com os mortaes n'estas alegrias da mana
Felismina! A pachorrenta Emma  que se movia menos n'aquella geral
vertigem. Sentou-se a conversar com o visconde, e teve o descco de
dizer que j se no podia ter em p, e que estava saudosa das suas
almofadas de relva nas margens do Lima.

Seguiu-se, dias depois, o casamento. No foi fallado, nem estrondoso.
At os jornaes o ignoraram, ou, se o souberam, vingaram-se da sovinice
dos noivos, deferindo para mais galhardas bodas as quatro phrazes
ramalhudas do costume.

Ao jantar concorreram unicamente o visconde, seu irmo, e o velho pae
dos Taveiras, ancio de muita gravidade e respeito, um dos velhos
modelos do commerciante portuense, coberto de honradas cans, com muita
consciencia em logar de sciencia, e poucas palavras, mas pesadas a oiro,
e authorisadas como se fossem maximas que encerrassem a experiencia
d'uma longa vida.

Terminado o jantar, apagado o afgo dos brindes, e travada serena
pratica cerca dos verdadeiros bens da vida, Bernardo Taveira fallou
assim:

--Eu, se tivesse uma filha, havia de procurar-lhe marido dotado com os
verdadeiros bens da vida: que vem a ser saude, honra, trabalho e
religio; religio bastaria dizer, porque ella encerra tudo. No meu
tempo achavam-se moos bons, que no tinham outro dote; e o homem que
acertava com um, dava-se por feliz, se tinha filha a casar, ou grandes
cabedaes a administrar. Eu no sei se ha muitos d'estes moos n'estes
ruins tempos; o que de vras sei  que os poucos que ha, batem s portas
dos ricos, e estes no lh'as abrem, sem que elles mandem adiante a
certeza de que o seu honrado trabalho est j em bom fructo de aces
bancarias; e, se elles mostram o fructo, sem dar ideia da arvore boa ou
m que os deu, isso tambem no importa... Senhor Gasto de Noronha, eu
hospedei em minha casa um moo chamado Antonio d'Azevedo Barbosa. Era
pobre, e sem occupao. Tinha a sua formatura, a sua habilidade; mas,
apesar de amigos protectores, no tinha que fazer. Muitas vezes eu disse
em mim: Se eu tivesse uma filha, dava-a a este moo pobre. O meu
hospede teve razes para sahir de Portugal e ir ao Brazil: dei-lhe l as
relaes dos meus amigos, e a alguns disse eu que o recebessem como
receberiam meu filho. Ia recommendado por sua honra: foi o que mais lhe
valeu l. Azevedo principiou a trabalhar e logo a ser conhecido como
lettrado. Advoga, e ha de ser rico; e, se no fr rico, ha de ser sempre
mais do que isso: ha de ser um thesouro de virtudes. Peza-me realmente
no ter uma filha; mas quando vejo que vossa excellencia tem quatro
solteiras, no resisto  vontade de lhe pedir uma em nome de Antonio de
Azevedo.

Gasto de Noronha ficou estupefacto. Fernando de Athaide avisinhou-se
d'elle, e disse-lhe:

--O homem veneravel que lhe falla, tem inspirao do ceo, meu primo.
Acceite a felicidade da nossa Corinna.

--Demora-se a responder, senhor Gasto!--disse o velho com ar triste--Eu
no queria que os rogos dos moos valessem mais com vossa excellencia,
que as minhas singelas palavras. Se alguem aqui pedir mais do que eu, ha
de ser a noiva. Senhora D. Corinna, venha comigo: ha de ajoelhar aos ps
de seu pae.

Ergueu-se o tremulo ancio, e tomou a mo de Corinna, que era toda
purpura e lagrimas.

Gasto, sem balbuciar um monosyllabo, fez signal affirmativo, recebeu a
filha nos braos, e osculou-a na testa.

--Bravo!--exclamou o brazileiro, apertando convulsamente ao peito o
velho Taveira. A esposada e as outras meninas, salvo Emma, foram beijar
soffregamente a irman; Emma, porm, l da sua cadeira de espaldas, disse
lentamente:

-- Corinna, vem c abraar-me, que eu no posso bolir comigo de
cansada!

Este milagre de inercia fez rir a todos, e desfranziu o semblante de
Gasto. Voltaram  mesa do _toast_ a brindar Antonio de Azevedo. O
fidalgo concordou sem repugnancia nas saudes propostas, e agradeceu a
ultima do negociante, em nome de sua filha, futura esposa de Antonio
d'Azevedo.

Quando Gasto proferiu estas palavras com enthusiasmo, Corinna da
Soledade descahiu sobre o hombro de sua me, e desmaiou. Era um deliquio
de felicidade, um arrobamento de bemaventurana como as santas os sentem
em seus extasis de amor divino.




XVI.


Antonio de Azevedo recebeu, ao mesmo tempo, tres cartas, afinadas todas
pelo mesmo tom de felicidade.

Abriu primeiro a de Corinna da Soledade: era uma surpreza desde o
principio. Noticiava o casamento de Felismina com Fernando de Athaide, e
os miudos successos decorridos at s palavras proferidas por seu pae na
occasio do brinde.

A ultima pagina continha o seguinte:

Ainda estamos do Porto; mas brevemente vamos para Lisboa. O primo
Fernando quer que te esperemos l, onde se ho de realisar os nossos
sonhos, mais cedo do que eu e tu suppnhamos,  meu querido Antonio!
Vem, vem no primeiro navio que sahir s vezes receio morrer antes da tua
chegada. Temo que me acordem d'este sonho. As pessoas infelizes no
podem familiarisar-se com a ideia de j o no serem! Imaginas tu que
terrores me atormentam, agora, que to ditosa me sinto, e to grata
levanto as mos ao Senhor! Lembra-me que j podes amar-me com menos
ardor; lembra-me que ests embevecido na ambio das riquezas...  meu
amigo, at me lembra se ters morrido! V tu se ha mais cruel
imaginao! Nem agora me deixa o mau destino! Parece que se est assim
vingando por no poder aniquilar-me! Acode aos meus receios, vem sem
demora, sim? Fernando  um anjo de bondade; sobra-lhe riqueza para dar
abundancia e alegria a muita gente. No ser vergonha recebermos tudo de
sua mo. Que lhe diria o visconde a teu respeito, que elle ficou
pensativo?! Perguntei-lhe o que tinha, e respondeu-me que o teu
caracter, por demasia de austeridade, talvez se no dobrasse  vontade
d'elle. Comprehendo estas palavras: suspeitam que tu recusars favores
de posio, devida a influencia estranha.  porque no sabem quanto me
amas, meu querido amigo! Eu disse a meu primo que ficava pela tua
docilidade: no me deixes ficar mal, no?
....................................................................

A carta de Fernando de Athaide rezava assim:

O meu amigo espera que eu de Londres lhe escreva, explicando a surpreza
de uma procurao que lhe deixei, a fim de tomar conta na direco dos
meus haveres ahi, no caso de eu me demorar na Europa. Escrevo-lhe de
Portugal, onde estou casado com minha prima Felismina. Ja v que me
compuz com Gasto de Noronha o mais amigavelmente que vossa senhoria
podia desejar. Antonio de Azevedo com duas palavras decidiu do meu
destino; e, se no me engano, abriu uma poca de muita ventura para esta
familia, que  hoje a minha, e que deve ser a sua to brevemente, quanto
depende da sua vinda para Portugal.

Eu no lhe peo, apenas lhe digo que venha. Se necessario fosse pedir,
Corinna e eu duvidariamos do seu amor. Bem sei que ha uma certa
dignidade humana, que tem a ferrea inflexibilidade dos coraes duros.
Essa, Deus permittir que no seja a sua: se o fosse, a minha gloria
seria imperfeita, e essa nuvem bastaria a toldar esta festiva luz que me
alegra a alma.

No discutamos tal ponto. Venha, meu irmo. Os meus negocios deixe-os
entregues ao senhor Valentim da Costa, a quem escrevo.

Minha mulher offerece uma prenda de noivado a sua futura esposa: quiz,
porm, (caprichos feminis!) que vossa senhoria fosse o portador da
prenda, que ahi lhe ha de ser dada.

Na proxima semana partimos para Lisboa. Na sua chegada alli
encontrar-me-ha logo.

Corinna tem as tristezas da duvida. Venha dar-lhe a ventura que a mais
ridente esperana no pde dar-lhe...................................

A carta do visconde da Cruz incluia a ordem devolvida dos seis contos de
reis, e a historia minudenciosa que Antonio lra na carta de Corinna.
Como avaliador profundo do caracter do seu amigo, o visconde combatia de
antemo os argumentos de independencia com que esperava ser contrariado;
rematava, porm, a carta censurando-se a si proprio por ter julgado to
frio amante o homem que, por amor d'um anjo, se expatriara alanceado de
desgostos......

Entendam l o corao humano!

Antonio de Azevedo lra as tres cartas surprendido, mas no alegre! Que
nuvem negra lhe cobria o quadro bello a que o chamavam as tres cartas!
Que presagio d'alma lhe antepunha s delicias convidativas da patria uma
viso triste em que elle parecia cravar os olhos espavoridos!

Valentim da Costa, que raro sahia de casa, entrou n'este momento.

--A alegria d foras!--exclamou elle--aqui est o velho a dar os
emboras ao mancebo, que foi mais cedo compensado do que ordinariamente
costumam sl-o os bons!... Que  isso?! voss est triste, Antonio?! As
suas cartas que lhe dizem?

--Que Fernando de Athaide casara com uma de suas primas.

--E que mais?... No  chamado para ir casar com a sua Corinna?

--Sou.

--E ento? voss no est ainda louco de alegria? No cuida em
preparar-se para a ida?

--No, senhor; cuido em ganhar a minha independencia. Corinna  a filha
de Gasto de Noronha, e eu sou quem era, quando sahi de Portugal. Estou
pobre como vim. A patria para mim  meramente a terra onde nasci; no 
independencia. Quando aqui vim, foi a legitima vaidade de homem
pundonoroso que me aconselhou; o pundonor aconselha-me agora que no v
acceitar de mos estranhas a subsistencia de minha mulher e de meus
filhos. A maior alma  sempre insignificante ao p da pequenissima alma
em cuja dependencia est. Eu no quero dizer a Corinna que lisonjeie seu
cunhado pelos favores que lhe devemos. Ser-me-ia um permanente
infortunio recebel-os de Gasto ou Fernando. Sou homem: devo-me a mim
proprio. E os homens que no podem viver com muito, vo s inferiores
escaleiras sociaes procurar a mulher que quadra  sua mediania, e no
devem pensar que o amor os desculpa de irem s altas classes convidar
uma senhora a descer onde elles esto. No caso pobre com Corinna, e
tambem no a fao quinhoeira da minha dependencia. Quando eu tiver
ganhado pollegada a pollegada o torro que me sustente na patria, ento
irei. Agora, meu bom amigo, vou dar-lhe conta da minha amargura, que 
mais que tristeza. Corinna, ao receber esta resposta, dir que eu a no
amo. Fernando dir que sou indigno d'ella. O fidalgo arrancar do
orgulho ferido injurias contra o meu plebeismo. As irmans ho de
dizer-lhe que eu a sacrifico  bruteza das minhas ambies. A final s
terei por mim a minha consciencia pura, se  que me no ha de pungir a
mgoa de ser assim organisado. Aqui tem, senhor Valentim, que a minha
estrella  m!

--M!?--exclamou o velho-- uma estrella de santificao a sua, meu
Azevedo! Sabe o que eu podia fazer? era argumentar comsigo, e leval-o a
convencer-se de que a dependencia s  vergonhosa quando o dependente
abdica de sua dignidade  fora de fazer-se inutil; dir-lhe-ia que voss
com o seu trabalho de jurisconsulto, embora mal remunerado, havia de
adquirir na patria o torro mais que abundante  sua subsistencia, e que
sua senhora e seus filhos viveriam todos felizes  sombra da mesma
arvore; mas...

Antonio de Azevedo interrompeu:

--Os seus argumentos no me moveriam: perde  minha rebeldia, meu caro
amigo. A mediocridade, e ainda mesmo a pobreza, podem parecer delicias 
mulher que ama contrariada por obstaculos de nascimento ou de fortuna: o
amor faz milagres taes, desfigurando tudo o que est feito e refeito
pelos seculos, e pelo consenso universal. Quando, porm, o amor cede ao
tempo,  intimidade, aos mais serios deveres da maternidade, e aos
preceitos e preconceitos inexoraveis da sociedade--que acham sempre
traa de se insinuarem mesmo atravs do colmado do trabalhador de
enxada--a me, que se v pobre,  j mulher muito diversa da noiva que
almejava a pobreza do homem amado. As flores da poesia fructificaram j
em filhos que pedem alimento, educao e futuro. As amigas de infancia,
que pareceram baixas almas por se terem victimado voluntariamente ao
oiro d'um velho e aos epigrammas da mocidade, l esto ricas,
respeitadas e vaidosas de seus filhos; e com quanto j no conheam a
amiga pobre que se deu de corao ao corao, culpam-na e condemnam-na
do alto da sua severa abundancia. Ora a mulher, na posio de Corinna,
quando se v pobre, dois annos depois de casada, e v ricas suas irmans,
lembra ao marido que pea o amparo d'ellas; e se esse marido  Antonio
de Azevedo, a verdadeira desgraa domestica principia para ambos desde
esse momento. Aqui tem o que sou e o que penso. Julgue-me e condemne-me
o mundo como puder e quizer. O meu pensamento era salvar a dignidade de
Gasto sem lhe dar riqueza, por me ser impossivel adquiril-a; depois eu
levaria o meu pouco  familia que vivia de pouco, e seriamos felizes
todos. No pde j ser assim. Esto ricos, ou vivem  sombra do homem
rico. No serei eu quem v pedir um logar entre pessoas que se haviam de
acotovellar com o plebeu. Que levaria eu que me recommendasse? Se eu
fosse nobre, daria como merito a minha inutil e inerte nobreza; assim,
filho do povo e pobre, todos, menos a generosa Corinna, a seu tempo
perguntariam uns aos outros: De que serve este homem? Ora um homem
sabe pontualmente quando os outros perguntam o para que elle serve... Em
summa, c estou no comeo da minha tarefa: Deus d-me este pensar para
que eu o leve a cabo. Outra cousa, meu amigo. O visconde da Cruz
devolve-me a lettra dos seis contos: aqui a tem vossa senhoria para
rehaver os quatro que benignamente me emprestou. Beijo-lhe segunda vez
as mos.

Valentim ia replicar com razes de muita fora, que lhe suggeriu o
talvez injusto juizo que Azevedo expendera a respeito das mulheres
devotadas  pobreza dos maridos, quando o bacharel foi procurado por um
negociante.

Disse o negociante que recebera ordem de entregar trinta contos de reis
fracos a Antonio d'Azevedo, por mandado de Fernando de Athaide,
accrescentando que era tal quantia a prenda de noivado que a senhora D.
Felismina offerecia a sua irman.

O bacharel disse ao negociante que conservasse em sua mo a quantia, at
lhe ser pedida.

Sahiu o depositario dos trinta contos, e o doutor exaltou a bizarria de
Fernando de Athaide, aconselhando Antonio d'Azevedo a no dar  sua
dignidade umas parecenas de soberba.

-- o dote de Corinna, que seu primo lhe d--disse Azevedo--Quando eu
tiver egual quantia, no me pejarei de ir levantar o deposito. Em
verdade,  grande a alma de Fernando, e por isso mesmo se faz digno de
lidar com almas eguaes  sua.

O velho sahiu captivo do moo; mais extremoso que captivo; sentia-se
amar como pae; ser-lhe-ia doloroso apartar-se d'elle desde aquella hora.
No termo da vida, longa vida em contacto com as pustulas sociaes,
aquella paragem, quem da eternidade, era-lhe uma como prelibao das
alegrias dos justos. Pensava o ancio em dar um adeus  existencia,
contente d'ella, e de si: parecia-lhe que as palavras do consolador lhe
suavisariam o trance. Era j egoista da amizade do seu Azevedo:
disputal-o-ia  mesma Corinna, se o visse em preparativos de viagem.

--Se eu pudesse dar-lhe desde j a independencia!--dizia entre si o
velho--Oh! se podia!... Mas, a dar-lh'a, eil-o ahi est dependente de
mim, e a rejeitar-m'a, e a fugir-me as instancias, e a ser menos meu
amigo!  preciso respeital-o muito para o prender  minha affeio.

Aqui est a resposta de Antonio d'Azevedo a Corinna:

Folgo com as venturas de teu pae, e louvo a Deus por me ter dado uma
casual influencia no melhor remedio de seus males. Tudo me faz crer que
tendes em Fernando um bom irmo. D um abrao, por mim, na tua
Felismina, e agradece-lhe o valioso deposito que confiou de mim. Em vez
das joias, que vale este dinheiro, pedir-te-ia, minha Corinna, se
estivesses no Lima, que te adornasses de flores; mas, como vives em
Lisboa, os enfeites das flores valem nada ahi, porque o clima as
requeima logo. Esse sol quer reverberar nas facetas dos brilhantes,
seno ninguem d por elle.

No tens amor aos teus campos e ao teu rio?  minha amiga, ainda me
doem saudades das minhas arvores, ainda peo a minhas irmans que m'as
guardem e cultivem com amor! No me culpes, se a minha saudade ainda vai
por esse formoso Portugal fra, para alm do ponto onde ests, em busca
d'outros amores. Amores so, que eram j muito em minha alma, antes que
tu m'a reformasses para olhar a futuros. Tinha de meu, quando te vi, um
passado de innocentes alegrias. A idade, cortada de penas, pde tudo,
menos despojar-me do que l est, e est para sempre, nas relvas, nas
arvores, nas serras, e no meu Cvado! V tu como a criana ainda se gosa
das lagrimas do homem!

Que estou eu a devanear, se tu j tens pressa de saber porque vai esta
carta, e no vou eu!

No vou, Corinna, porque  cedo para ser feliz. O puro e duradouro
contentamento custa a merecer, e leva tempo. As alegrias improvisadas
vo como vem. Sobre que bases assentam as nossas convenes de corao,
minha amiga? Voltar eu a Portugal com o necessario para a decencia da
posio em que te conheci. Se eu fosse, faltava-te: tu perdoavas-m'o; eu
 que no podia perdoal-o a mim proprio. A decencia da tua posio no a
tenho ainda. Sei que anjo s, que doce conformidade seria a tua: mas o
mau, o intractavel, e irreconciliavel com os _tremendos nadas_ da vida
positiva, sou eu. Venho da desgraa, e conheo-a: as minhas relaes em
Lisboa foram os desgraados, e estudei-os. Deus confiou-te de mim como
d'um encaminhador e guarda.  foroso dizer-te que o bom rosto da
fortuna s est sorrindo aos teus olhos, porque s innocente. Se comigo
no tem sido boa, tambem j se abstem de querer enganar-me. A nossa
riqueza, Corinna,  a esperana: esta, juro-te eu, que vale mais que os
milhes de tua irman. Felismina tem tudo que desejava: Deus sabe o que
ella agora deseja!...

O que tu queres de mim no  muito amor, e uma casinha alm no nosso
Minho, e as serenas alegrias, promettedoras d'um fim de vida socegada?
L me tens o corao, e eu c o espirito a grangear o mais. No o tenho
ainda: poucos annos bastaro a esta opulencia, que to pouco vale aqui e
l. Ento, sim, ento vers que vai aqui n'este peito a ufania d'um
principe, o santo orgulho d'um operario, que no inveja principes. Hei
de ir procurar-te, no aos bailes de Lisboa, mas sim aos arvoredos do
Lima. De l irs comigo, sem atravessares pompas de cidades, nem
magnificencias onde te fique prso um desejo. L temos ainda  margem do
meu rio a casa de meus paes: que pobre e formosa vivenda!
Augmental-a-hemos para vivermos todos: plantars novas arvores, e irs
tomar o teu quinho das flores de nossas irmans. As tuas arvores viro a
tempo com suas sombras para nossos filhos; e estes, creados nas
asperezas dos montados, e nas asperezas da religio, ir-se-ho fazendo e
formando entre as duas sublimes e unicas poesias: a da f e a da
natureza.

A vida, que me tu pedes,  mui diversa, Corinna. Teu cunhado  um
grande em Portugal, quando o quizer ser. Teu pae e tua me anhelam muita
luz para serem vistos, e embriagam-se nos perfumes da lisonja. Esse ar a
mim empeonhava-me a vida, e no sei se o corao. Ahi amava-te menos,
porque perderia o amor de mim proprio, o amor que me extrema do vulgo, o
illustre vulgo, que  o derradeiro plebeismo, sem individualidade, sem
classe, sem mais religio que a das sensaes.

Corinna, no te aviltes em te julgares menos amada. Adoro-te
respeitosamente; porque sei que rejeitas o sacrificio da minha
dignidade.

Estamos no ponto onde ha quatro mezes estavamos: a mulher corajosa
espera; e o homem, nobilitado por teu amor, quer ennobrecer-se para a
tua mo. Nada mudou, salvo a posio de tua familia. Mas que temos ns
que entender com a riqueza de Fernando de Athaide? A riqueza  d'elle. A
mim era-me egual depender de teu cunhado, ou do visconde da Cruz, ou do
primeiro encontradio que me offerecesse um obulo. Quando sahi de
Portugal, Felisberto Taveira emprestava-me alguns contos de reis para eu
me estabelecer e casar comtigo. Se ento rejeitei um emprestimo sem
desaire, como hei de ir hoje acceitar uma delicada esmola d'um sugeito
que escassamente conheo?

Isto ser amar-me demasiadamente a mim; e no  menos amar a mulher que
est identificada em minha vida e honra.

Adeus, Corinna. A tua alma ha de conservar-se immaculada ahi em Lisboa,
como l na solido das nossas terras. Se o mundo te no respeitar, tu
sabers respeitar-te a ti mesma. Ahi e em toda a parte encontrarei
sempre a minha Corinna, cuja animadora imagem eu vejo em tudo que 
adoravel e santo. Adeus.




XVII.


As cartas de Antonio de Azevedo a Corinna e Fernando produziram o que
elle at certo ponto vaticinara, fallando com Valentim.

Corinna duvidou do amor, que se desafogava em dissertaes mysticas, e
bucolicas saudades d'arvores e de rios.

As irmans de Corinna, com o louvavel intento de a consolarem, abundavam
no parecer d'ella.

Fernando de Athaide dizia a sua mulher que no podia caber amor em
corao to cheio de orgulho.

D. Mafalda dizia ao marido que era moda a gente baixa fingir philaucia
de fidalgos.

Gasto, acidulado pelo dito da esposa, deu para baixo na peonagem, e
declarou que sempre esperava que sua filha levasse uma boa lio.

Acontecera estar n'este ensejo em Lisboa, e hospede de Fernando, o
visconde da Cruz e seu irmo Luiz. A declamao do fidalgo ferira
acremente a dedicada alma do visconde. Tambem este havia de ter uma
carta explicativa do proceder de Antonio d'Azevedo: esperava-a do Porto,
e, sem a ter lido, no queria arvorar-se defensor do ausente. Tanto,
porm, subiu Gasto em sarcasmos contra o _homem de Barcellos_, que o
visconde ergueu-se irado, e exclamou:

--Senhor Gasto de Noronha! o _homem de Barcellos_, quando vossa
excellencia estava em risco de extrema pobreza...

Corinna correu contra o visconde, e poz-lhe a mo na boca, supplicando
silencio. A prevista menina sabia que duro vexame o pae ia soffrer com
tal revelao. Calou-se o visconde, e o fidalgo insistiu na continuao
da phrase, com tregeitos iracundos. O visconde ia pegar do chapeo,
quando Emma lhe disse:

--No saia assim irritado, visconde. Sou eu que lh'o rogo.

Parece que Emma podia muito no animo do visconde.

Fernando travou do brao do cavalheiro, e passou  sala immediata.

--Voss--disse elle--ha de dizer-me o resto da phrase. Que fez Antonio
d'Azevedo, quando meu primo estava em risco de extrema pobreza?

--Mandou-me seis contos de reis para eu lhe valer, sem declarar a seu
primo que os mandava elle. No mesmo paquete em que recebi tal ordem,
veio voss. Logo que me revelou quem era e o intento com que vinha,
entendi que a posio de seu primo estava mudada. Ainda assim, fui a
Vianna, e offereci dinheiro a Gasto. Como no precisava, devolvi a
ordem a Antonio d'Azevedo.

--Bem--disse Fernando-- foroso o segredo?

--. Corinna valeu-me n'um impeto de clera; agora confio de voss que a
minha palavra, dada ao Azevedo, se no quebrante.

--Confia bem, visconde. Que admiraveis virtudes as d'este moo! Sabe
voss que um homem, conhecedor de taes exemplos de honra, nunca est bem
com a sua consciencia!? Eu no sei o que j hei de fazer a favor de
Antonio d'Azevedo!... Aqui me diz o meu correspondente que elle deixou
ficar o dinheiro em deposito at nova ordem. Est claro que o no
acceita...

--Clarissimo. Se elle no vem, como iria levantar a prenda da
noiva?!--disse o visconde.

--Que se ha de fazer, meu amigo?

--No sei:  esperar que elle tenha o que julga necessario  sua
independencia.

--Vou dar um passo decisivo!--tornou Fernando, depois de breve
meditao.

--Qual?

--Voss ver. Vamos  sala. Receio que meu primo diga alguma grosseria a
Corinna.

Quando entraram, a pobre menina estava chorando, e Felismina,
lanando-lhe os braos sobre os hombros, segredava-lhe consolaes.

Fernando approximou-se de ambos, e disse a Corinna:

--Est tudo remediado.  questo de alguns dias.

E, voltado a Gasto, disse jovialmente:

--Ol, primo! o incidente passou: torna tudo ao seu curso regular. Aqui
no se falla bem nem mal de Antonio d'Azevedo. Defendel-o seria
ultrajal-o. Accusal-o seria um vilipendio. Ninguem ficou mais nem menos
do que era.

Na noite d'esse dia estava Corinna no seu quarto com Felismina, quando
entrou Gasto de affavel semblante. Sentou-se entre ambas, e disse com
mellica entoao:

--Tu s minha filha, s o meu sangue, tens pundonor de raa, e deves
estar curada, Corinna. Ha muito quem te pretenda; e teu cunhado deixa-te
a administrao dos vinculos para tu poderes escolher marido. Tens tres
bons partidos a escolher. O morgado de Villar da Rocha est aqui em
Lisboa, viu-te, e perguntou-me se no estavas promettida. Um filho
segundo do marquez de Travassos, familia mais antiga que a Lusitania,
fez-me egual pergunta. O baro da Teixeira, vindo ha pouco da Bahia, com
mais de quinhentos contos, fallou em ti ao Fernando. Escolhe.

--No escolho ninguem--disse resolutamente Corinna--O que eu escolhia
era a morte.

--Antes isso que a vergonha da familia!--replicou o pae.

--Que vergonhas d ella  familia?--perguntou Felismina com os geitos
especiaes de quem tem dois milhes.

Gasto involuntariamente respeitou a interpellao da filha millionaria.
A bem dizer, a pergunta era irrespondivel.

D'ahi a pouco estava febril Corinna, e as ancias e soluos to
frequentes a opprimiram, que a familia houve medo d'algum accesso de
loucura.

Fernando de Athaide, conscio da brevidade do insulto nervoso, disse ao
primo:

--No volte a injuriar a pobre menina, que a mata a ella, e perde a
minha estima. Eu hei de necessariamente fazel-a feliz. Se o no
conseguir, maldigo a hora em que a conheci.

Dias depois, Corinna sahira do seu quarto, pallida, desolhada e triste.
O sangue mal lhe acudia ao pulso. As palavras sahiam  fora de
caricias. Era preciso fazel-a chorar para que as lastimas subissem do
corao aos labios. Fallavam-lhe em Antonio de Azevedo, e as faces
retingiam-se-lhe; mostravam-lhe o anjo da esperana a voejar para ella,
e o sorriso volitava-lhe em toda a face at se confundir com as lagrimas
de jubilo. Mas este mesmo jubilo era um accesso de febre. Os medicos
tinham-se enganado: aquelle quebranto de foras e feies eram
prenuncios de morte. A gente experimentada facilmente diagnostca estas
insaneaveis doenas: os medicos  que, do cocuruto da sciencia, o que
ordinariamente palpam n'estes symptomas  uma doena que entende com o
estomago ou com o figado. De corao s conhecem lezes, turgecencias,
hypertrophias, aneurismas, &c. Tem assim, e por conta da sciencia,
morrido muita gente, que se curava com um raio de alegria e um pouco de
compaixo do mundo.

Fernando encerrou-se com Gasto, e disse-lhe:

--Vou liquidar a minha casa ao Rio de Janeiro. Mandei crenar a galera.
Parto na proxima semana. Minha mulher vai comigo; e Corinna ir tambem,
se o primo a ama e me estima a mim. Se ficar, morre; e se morrer,
Felismina no quer voltar a Portugal.

--Vai procurar o noivo minha filha?--disse Gasto ironicamente.

--Vai procurar a vida; e se Antonio d'Azevedo lh'a dr, bem haja o
salvador da nossa Corinna!

--Pois que v: ns partiremos para o Minho.

--Pedia-lhes que ficassem em Lisboa, e no alterassem os costumes de
minha casa. Tenho relaes que desejo conservar. Meu primo honrar os
nossos amigos, recebendo-os. Em seu poder fica a poro da fortuna que
tenho em Portugal. A sua estima por mim ha de chegar ao sacrificio de
esperar em Lisboa a nossa volta do Brazil.

No se fez rogar o fidalgo. Sujeitou-se plenamente  vontade do genro.

Recebeu Corinna da Soledade a nova da viagem. Alvoroou-se at recahir
na febre; mas a crise foi leve, e rapida a convalescena.

A galera de Fernando, construida em Inglaterra, era garbosa, linda e
leveira como um cysne. A tolda era um camaranchel de sedas, como o das
antigas gondolas de Veneza. O chrisma para Felismina fadou-lhe mais
ricos destinos. O amor lhe inventara os adornos, os perfumes, as graas
e garridices que s o amor desentranha de suas fantasias. A sala de r
era uma ante-camara de sultana. Ia por esses mares fra aquella concha
de perolas, namorada das auras que ciciavam no velame, imitando as
branduras de suas irmans derramadas pelas moitas dos gestaes. Que
vontade fazia aquella gentil galera de ir ter um mundo na vastido do
oceano, e no vr mais que ella e ceo, e um ente amado, debaixo das
estrellas a espelharem-se nos paramos azues das aguas! Como alli o
corao, golpeado na terra, se iria contente, se c d'estes abysmos
levasse ainda a salvo o condo da poesia que faz sahir mundos sobre
mundos dos abysmos do mar!

A galharda galera, como ovante da gentil alma que levava, sahiu barra
fra com todo o panno e prospera mono. A festival menina, por esses
mares fra, sobre a tolda, a scismar, com os olhos l no infinito
horisonte, d'onde a chamava o esposo, e os favonios a enfunarem-lhe as
roupas alvissimas... que linda ia! julgareis ver a pomba sobre a arca
fluctuante nas aguas j serenas do diluvio!

Ao vigesimo nono dia de viagem avistaram pharoes das terras de Santa
Cruz.

Corinna, ao repontar da alva, subiu ao tombadilho, e viu a cidade
d'oiro, a rainha do novo mundo, espreguiando-se do ultimo somno entre
os ceruleos coxins do seu immenso leito com pavilho de mil flammulas e
bandeiras. Parecia-lhe ver caminhar a terra, mar dentro, a recebel-a;
mas tardio era o avanar da galera a encontral-a.

--D'aqui a meia hora?--disse ella a Fernando.

--Sim, d'aqui a meia hora, minha egoista!--respondeu o primo, e
continuou sorrindo--D'aqui a meia hora j no tens patria, nem irman,
nem cunhado! O Antoninho, que, a estas horas est escrevendo uns
_provars_, com o supremo tedio de que  susceptivel a creatura humana,
vai receber um golpe d'alegria mortal!... Haver no genero humano um
segundo homem a ponto de experimentar prazer egual?!  impossivel que
elle te no adivinhe, mana Corinna! salvo se o corao de um
jurisconsulto  tapado a toda a casta de inspirao divina!...........
......................................................................

A este tempo, chegava Antonio d'Azevedo Barbosa, ao caes.

Adivinhou, com effeito?--pergunta o leitor.

Nem sombra de presentimento, meu amigo! O que trazia ao caes, e a bordo
de um navio, Antonio d'Azevedo,  successo infausto que tem uma historia
concisa, mas necessaria.

Um dos irmos do bacharel, Francisco d'Azevedo, era caixeiro, em Lisboa,
n'uma casa de cambio da rua dos Capellistas. Merecera um bom nome, e
cahira em tentao depois de o ter merecido. As desordens da vida, as
demasias de luxo, a ancia de mostrar-se rico aos olhos d'uma mulher que
distinguia os moos ricos, induziram-no a subtrahir, com inteno de os
repor, capitaes, que excediam os seus ordenados de dois annos. Francisco
jogou na esperana de resgatar-se, e cavou mais no abysmo de sua
perdio. Quasi a ponto de ser descoberto, quando o patro dava o
balano, o caixeiro desappareceu, e fugiu caminho do Brazil, confiado na
reforma de seus costumes, e na possibilidade de ganhar depressa com que
restituir o furto.

Chegou ao Rio, e procurou o irmo. Deu explicaes inventadas da sua
ida, e conseguiu logo, mediante Antonio d'Azevedo, boa casa, bom
ordenado e muita estimao dos patres.

O bacharel estava contente do expediente de seu irmo. Lembrava-se que
assim mais cedo as irmans teriam bom amparo.

Lia, passados trinta dias, Antonio d'Azevedo o _Commercio do Rio de
Janeiro_, e casualmente parou os olhos sobre esta correspondencia,
intitulada: _Cautela com os ladres._

E seguia d'este theor:

_Fugiu de Lisboa, com direco ao Brazil, um caixeiro do cambista F***.
Chama-se Francisco de Azevedo, natural de Barcellos. Desfalcou o patro
em dois contos de reis. Para que o ladro no logre o bom resultado das
suas manhas, avisa-se o commercio do Brazil._

Antonio d'Azevedo viu entre si e o jornal um redemoinho de scintillas de
lume, e, ao levar as mos aos olhos, tinha perdido os sentidos. Este
lance passra-se no escriptorio de Valentim da Costa.

Entrara o velho, e ouvira o soluar cortante do seu amigo. Interrogou-o
com paternal carinho. Azevedo ergueu-se como atordoado, e, ao sahir,
murmurou estas palavras:

--A infamia est ahi escripta n'esse jornal.

Foi ao armazem onde Francisco era guarda-livros; entrou no gabinete
particular do negociante, e encontrou-o lendo o jornal.

O negociante estava correndo a primeira pagina, e a noticia vinha na
segunda.

--Por c, doutor!--disse alegremente o patro de Francisco--Vem saber
como vai o nosso homem? Optimamente. Estou contentissimo.  seu irmo, e
basta!

Eram frechas que varavam o peito de Antonio de Azevedo! A dor rompeu-lhe
em lagrimas. O negociante viu-as, e exclamou:

--Que tem o doutor?! Alguma desgraa de familia l na terra? Morreu-lhe
algum de seus irmos?

--Morreu Francisco--balbuciou o bacharel.

--O qu? morreu Francisco! O doutor est a sonhar! Pois no o viu quando
entrou?!

--Morreu para a honra--tornou j serenamente Antonio--Ahi est na
segunda pagina d'esse jornal o ignominioso epitaphio do desgraado.

--O qu? que diz o doutor de epitaphio?

Azevedo collocou o dedo indicador sobre a correspondencia. O
commerciante leu, e fez-se amarello. Depoz o jornal, levou as mos aos
raros cabellos brancos, e disse:

--Tem razo, doutor! seu desgraado irmo est morto!

--Vim para o levar comigo. Queira o senhor dar-lhe ordem de sahir.
Rogo-lhe a generosidade de no lhe dizer a causa por que o despede.

Deteve-se a scismar o negociante, e disse com energia de boa alma:

--Vamos ver se o salvamos.

--Salval-o como?

--Vai com outro nome para o Par.

--O nome no  o infamado;  elle. Creia o meu amigo que eu no vim
pedir-lhe a sua proteco para salvar o homem indigno d'ella. Vim buscar
meu irmo.

Foi chamado Francisco.

--D contas ao senhor Silva, que vaes sahir de sua casa.

O guarda-livros fez-se roixo.

--No ha explicaes previas--tornou Antonio--Apresenta os livros a teu
cargo ao senhor Silva.

--Os livros esto vistos--disse o negociante--No tenho a menor suspeita
da probidade do senhor Francisco.

--Suspeita?--atalhou este.

--Silencio!--disse imperiosamente Antonio--Vamos.

O commerciante apertou a mo do bacharel, e lanou ao irmo um olhar
compassivo.

Francisco hospedou-se com Antonio. Dois dias depois, recebeu de repente
a noticia da sua volta a Portugal, accrescentada d'estas palavras:

--Entrega esta carta em Lisboa. A pessoa a quem a entregas ir comtigo a
casa do cambista F***, teu patro que foi. Dars ao cambista o dinheiro
em que elle se disser roubado por ti. Cobrars recibo, que me enviars.
Feito isto, recolhe-te a Barcellos, e pede a tuas irmans que te dem um
quinho da sua subsistencia.

Francisco, lavado em lagrimas, quiz ajoelhar aos ps de seu irmo, e
contar a historia dos seus desatinos.

--No ha historia que absolva um roubo--disse o bacharel.

E no dia seguinte, quando elle acompanhava ao navio o irmo,  que a
vistosa galera _Felismina_ se baloiava, como odalisca, sobre a camilha
azul das aguas que reverberavam o sol nascente, e se cobriam de
scintillante lhama de oiro.

Olhem a felicidade de Corinna e a felicidade de Antonio de Azevedo!




XVIII.


Antonio de Azevedo foi abrir a reprsa de lagrimas no seio do ancio que
o esperava com as suas, unico balsamo das supremas afflices.

--Veja a minha vida!--disse entre soluos o bacharel--Pensar eu que o
muito trabalhar me daria um quieto contentamento, e que, alm dos
dissabores do corao, nunca teria outros!... E agora estes! os da
ultima deshonra! uma vergonha irremediavel que me priva de olhar de
frente para os homens que estimaram meu irmo por amor de mim!

O velho, combatendo os escrupulos do moo, teve a admiravel e inspirada
eloquencia da verdade. Declinou a deshonra sobre quem a praticara, e
provou ser aquella desgraa mais uma prova para aquilatar as virtudes do
bacharel. Verdadeiros, mas, ainda assim, inconsolativos argumentos!

Fallaram longo tempo. Valentim no deixara sahir o amigo n'aquella
manhan, receoso de que a solido lhe amargurasse a mais as apprehenses.

Quando o moo se impunha a si mesmo o preceito da fora para o trabalho,
e o velho insistia nos seus dictames insinuativos de coragem, entrou no
escriptorio Fernando de Athaide.

Antonio de Azevedo, como a desentorpecer-se de um glacial spasmo,
estendeu-lhe machinalmente a mo e deixou-se abraar. Valentim fazia um
alarido de exclamaes de espanto, que no deixavam ouvir o adventicio.

--Vejo-o triste e demudado, senhor Azevedo!--disse o primo de Corinna.

-- oiro que est ainda ardendo da ultima prova!--respondeu o velho--A
desgraa cuidou que o fulminava; mas a honra venceu.

Antonio d'Azevedo fez um gesto supplicante de silencio ao doutor, e
disse a Fernando:

--Ninguem o esperava no Rio, senhor Athaide.

--Foi uma partida repentina. Assim  que se fazem as coisas!

--Como ficou Corinna?--perguntou Azevedo; e logo as lagrimas lhe
saltaram a quatro, e uma ancia lhe ressumou  face em suor frio.

Sentou-se quebrantado, e murmurou:

--Desculpem-me: estou-me fazendo mulher... Estas lagrimas, se as no
chorasse, matavam-me.

--So de saudade?--disse Fernando.

--So de desesperana, cuido eu--respondeu Azevedo, escondendo os olhos
com as mos.

--Anime-se!--exclamou Athaide--Que descoroamento  esse, improprio
d'uma alma de bronze! Azevedo, saia d'essa lethargia! Olhe que Corinna
ama-o como sempre, e espera-o com a anciedade d'um anjo consolador de
todas as suas mgoas.

--Tardia vir a consolao!--balbuciou o moo--Deus me livre de a
condemnar a soffrer debaixo da minha estrella... Escreveu-me ella?

--Que pergunta! Tenho em casa uma carta sem fim, que o meu amigo ha de
lr como se ella mesma a estivesse fallando! Venha comigo, e cuidar que
tem entre mos, no uma carta, mas o proprio corao da sua Corinna!

--Agora consinto que v!--disse o velho.

--E o doutor vem tambem--acudiu Fernando.

--Vamos l!--voltou o velho--Vosss os rapazes andam comigo d'aqui
p'r'ali, como se esta gotta no merecesse respeito nenhum  gerao
nova! Ora esperem ahi, que eu vou vestir a dalmacia, a casaca
circumspecta! Sua senhora veio?

--Veio, sim.

--Ah!--disse Azevedo--est c a senhora D. Felismina?!

--Pois eu havia de deixar l a alma! Ento voss no sabe que marido eu
sou! Minha mulher sou eu--disse com festivo semblante o millionario.

Sahiram.

--Isto veio do ceo!--disse Valentim--Quem distrahiria o meu pobre
Antonio, se lhe no chegassem os bons amigos da patria! Vai ter um dia
cheio, meu amigo! Quem lhe fallaria com mais ternura da sua Corinna que
a irman querida! Felismina se chama ella: hoje  que  _feliz mina_ de
consolaes para o meu desterrado!

Assim, com estes dizeres affectuosos do alegre ancio, chegaram ao
grandioso predio, que Fernando habitava.

Na primeira sala esperava-os Felismina. O doutor, que subia na
dianteira, ao vl-a, exclamou:

--Sim, senhores!  muito linda! Ha muito que no vi d'estes fructos da
minha terra! Quero e gosto que as senhoras brazileiras vejam o que l ha
por Portugal!

Felismina sorriu-se ao galanteio do velho, e abraou Antonio d'Azevedo.

--Como est abatido!--disse ella.

--Abatido no rosto, mas Sanso na alma!--acudiu Valentim.

--Acha-me velho?--disse Azevedo--N'este paiz acaba-se depressa o homem
que se no exercita muito, e endurece ao fogo do sol. A sua familia,
minha senhora, ficou boa? A senhora D. Corinna?

--Como faz essa pergunta, senhor Azevedo!...--disse Felismina--Que
frialdade! Dar-se-ha caso que vossa senhoria no ame j minha irman?

--Por Deus, minha senhora!--respondeu o moo--Todos os infortunios podem
menos sobre mim que uma injustia, que deixa de ser injuria por ser dita
por vossa excellencia.

--Se elle ama sua irman!--atalhou o velho-- minha senhora, se os meus
cabellos brancos inspiram confiana, creia vossa excellencia que o meu
Azevedo ama tanto sua irman que, por amor d'ella, excede-se a si proprio
na prtica das virtudes. Grande e distincto deve ser o amor que faz o
virtuoso! Vicios e crimes  o que eu tenho visto resultar dos amores
vulgares...

--Est o senhor Azevedo ancioso por que lhe entreguem a carta de
Corinna--disse Fernando--Vai tu buscal-a, Felismina.

Abriu-se uma porta, e appareceu Corinna, exclamando:

--No preciso que me tragam!

E cuidam que ella impallideceu, desmaiou, ou, pelo menos, expediu um ai
de procedencia dramatica?

No, senhores. Corinna entrou de corrida, leve como um gnomo, a rir e a
chorar, purpureada, com os olhos a saltar-lhe fra da face, os braos
abertos e convulsos, a respirao como tomada, e os labios crispando
nervosamente, sem poderem proferir o quer que era de que s os
dramaturgos acham sempre uma expresso insipida, incolor e inverosimil.

Antonio de Azevedo  que (sem desaire seja dito) deu uns ares de
idiotismo, que, na scena, seriam lastimaveis! Abraou Corinna, como a
medo: era a primeira vez que a sentia nos braos. Fitou-a como quem
duvda; remirou-a, como quem teme um engano dos sentidos; estava-se
acordando do sonho; invocava a sua razo; e, quando a razo lhe mostrou
em volta d'elle todas as faces orvalhadas de lagrimas,  que Azevedo
pde exclamar:

--Bem hajas, anjo de Deus!...

Imagine agora a minha leitora os successos indescriptiveis d'este lance.
Por pouco imaginativa que seja, vossa excellencia ha de avultal-o melhor
em sua fantasia do que eu poderia dar-lh'o n'esta pagina. Uma s poesia
creou a natureza para taes quadros:  a poesia da pintura.

Foram cinco minutos de febre, de delirio, de silencio, de ouvir-se o
bater forte e descompassado de cinco coraes. Ora pintem l isto, a no
ser em expresso de olhos, de labios, de feies que s, em casos
d'estes, se vos deparam em pinturas christans, onde os enlevos so ceo,
bemaventurana e alegria de santos. E haveis de notar que o proprio
pincel profano antes se quer a pintar expresses angustiosas, porque as
visagens da afflico mais se prestam ao relevo, como em Niobe, em
Laocoonte, em Ugolino. Quer tudo isto dizer que tenho diante dos olhos
aquelle espectaculo de jubilos, e desisto de descrevel-o para de todo em
todo me no capacitar de minha inhabilidade.

Porque hei de eu dizer to affoitamente espectaculo de jubilos, se
Antonio d'Azevedo, momentos depois, se deixava senhorear da lembrana do
irmo, banido do numero dos honrados! A candida Corinna encarava n'elle
com olhos aguados, e no lacerante silencio de sua alma perguntava a si
mesma, que fizera ella para ser menos amada! De que outro modo se
explicaria a tristeza do moo n'aquella primeira hora!

No pde ter-se que o no chamasse a um ponto mais afastado da sala onde
se tinham ficado Valentim e Fernando, em quanto Felismina sahira a dar
ordens.

--Tu ests melancolico, Antonio!--disse ella, tomando-lhe a mo com
estremecida ternura--Viria eu contrariar a tua vontade? Estaria eu
enganada comtigo?...

--Vejo-me indigno de ti...--respondeu Azevedo.

--Indigno de mim!--tornou ella crescendo no afago da expresso convulsa
de lagrimas--Pois tu no tens sido mais que nobre para seres digno da
mais nobre e pura mulher! Querers que eu te recorde as tuas virtudes,
meu querido amigo!?

--As minhas virtudes--replicou o moo--to frageis eram, que talvez a
esta hora tenham sido reputadas hypocrisia.

-- filho!--exclamou ella--desconfio da tua razo! Muito deves ter
padecido para te considerares assim, quando em volta de mim os teus
merecimentos so louvados com admirao de todos!...

--Escuta-me para me consolares, Corinna. Deus quiz que tu viesses  hora
em que toda a esperana me ia fugindo...

Antonio d'Azevedo contou a Corinna a ignominia de seu irmo, e levantou
a voz de modo que Valentim, no angulo opposto da sala, ouviu tudo.
Ergueu-se o velho, caminhou para elles, e interrompeu a exposio do
bacharel.

--Senhor Antonio d'Azevedo, antes do infortunio de seu irmo, voss, no
Rio de Janeiro, gosava nome de intelligente, laborioso e honesto; depois
do infortunio de seu irmo, o nome de Antonio d'Azevedo  proferido com
o acatamento de que homem nenhum de sua idade se tem gosado. Os velhos
honrados da sociedade brazileira querem conhecel-o: os portuguezes citam
o seu glorioso procedimento com orgulho. O facto  de ha tres dias, e
tem corrido de bca em bca como raras vezes acontece a uma boa aco.
Ora pois! Eu sei bem o que  dignidade; achei que a sua se manteve
sempre na altura dos mais dignos homens d'outros tempos; admirei-o e
louvei-o pelo que outros chamariam demasias de orgulho sob capa de
independencia; agora, porm,  chegada a hora de eu lhe dizer que, assim
como a suave religio se descaminha at ao fanatismo execravel, assim a
briosa dignidade, se perde o rumo do bom juizo, vai dar comsigo n'uns
excessos rudes, insociaveis e repellentes. A sociedade applaude os
virtuosos, mas desadora os que fazem de sua virtude uma tribuna para lhe
censurar as fraquezas. O excesso do bem  um mal que no me aproveita a
mim, nem a outrem. Eu quero que Antonio d'Azevedo se mostre alegre para
que o mundo no diga que a honra tem uns pavores interiores refractarios
ao contentamento. A boa consciencia  alegre, senhor. E o melhor
beneficio que voss pde fazer aos homens  convencel-os de que vai indo
seu caminho, arrancando os espinhos dos ps, e sorrindo s novas
desventuras que o impecem. Fallou o velho. Diga agora o anjo, a nossa
Corinna, o que ser preciso fazer-se a esta criana decrepita para a
levantarmos do seu abatimento?

--Se eu pudesse...--balbuciou Corinna.

Antonio d'Azevedo levou aos labios a mo de Corinna, e murmurou:

--Emenda tu os defeitos da minha desgraada indole... D-me paz,
Corinna; d-me a unco do teu amor, e eu me salvarei de mim proprio...

--Primeiro passo a dar!--exclamou Valentim da Costa--O primeiro passo a
dar  casarem-se, meus filhos!

N'este momento entrou Felismina, e disse:

--Est o almoo na mesa.

Valentim continuou:

--Visto que est o almoo na mesa, o primeiro passo a dar, meus filhos,
... almoar!

No decurso da conversao durante o almoo, disse Fernando de Athaide:

--Ahi vo novidades, meu caro Azevedo. O visconde da Cruz casa
brevemente com Emma, e Luiz Taveira com Leonor. Eliza tem doze annos, e
j  pretendida. Quem de certo nos fica solteira  a nossa Corinna! que
pena!

Riram todos, e Valentim exclamou:

--Solteira! essa  boa! No consentirei eu que a belleza assim seja
ultrajada! Aqui est a minha mo, senhora D. Corinna!  um sacrificio
que fao da minha isempo; mas fao-o para que suas manas se no riam
de vossa excellencia.




XIX.


Tres mezes depois dos grandes successos froixamente descriptos no
anterior capitulo, Fernando de Athaide e sua mulher vinham caminho de
Portugal; e Corinna da Soledade e seu marido Antonio d'Azevedo
habitavam, nos arrabaldes do Rio de Janeiro, uma chacara de modestas
regalias.

O bacharel era ainda o mesmo laborioso jurisconsulto, associado no
escriptorio de Valentim da Costa. Corinna, simplesmente ajudada d'uma
negra, cuidava do lavor domestico, singelo lavor, que isso mesmo tem de
bom a mediania.

Quizera Fernando que seus cunhados ficassem habitando a casa onde se
hospedaram, e Azevedo, j receoso de desagradar com suas isempes, mal
se atrevia a rejeitar os offerecimentos; porm Corinna, avaliadora dos
secretos desejos de seu marido, simulou vontade de viver no campo, e
assim o desembaraou do desgosto de acceitar a magnifica vivenda na
melhor praa da capital. Valentim, aconselhando Athaide no melhor modo
de haver-se com seu cunhado, repetia o que no livro divino de frei Luiz
de Sousa se l, que o cardeal de Lorena dizia, ao embaixador de
Portugal, com referencia ao santo arcebispo bracharense: .....se o
quereis ter contente, no lhe deis a comer mais que dois ovos duros.

Corinna recebra de Felismina a prenda dos trinta contos depositados
ainda em poder do commerciante. Foi-lhe, porm, mister guardal-os como
cofre de joias, sem lhe dar destino conducente a alliviar os encargos do
marido. Era um dinheiro que no existia para o bacharel, nem Corinna
buscava occasio de fallar d'elle.

No tocante a felicidade, alguns periodos de uma carta de Azevedo ao
visconde da Cruz dizem o que basta a convencer-nos de que a possuiam,
quanto ella, n'este desterro, se deixa gosar.

.............................................................

s seis horas da tarde, quando vou do escriptorio, encontro sempre a
minha Corinna sentada n'um pequenino ressaio, como se l diz no meu
Barcellos, que tenho  porta da chacara. Alli  a minha primeira
paragem, em que o espirito se desfadiga do pesadello das leis: o corao
toma absoluto imperio sobre as minhas outras faculdades, e todo me deixo
adormecer na quietao d'um bem-estar, que s podem conhecer os
operarios d'um dia inteiro, quando ao cahir da noite, se repousam ao
lado da companheira, por amor da qual se cansam e recobram. Os nossos
frugaes jantares so rapidos, e assazoados dos infantis gracejos da
minha Corinna, que os tem sempre novos para encarecer a profuso das
iguarias. Depois vamos por esses caminhos fra, admirando tudo que nos
vem ao encontro a sorrir: so as arvores e flores de todas as ricas
vivendas d'este luxoso torro: tudo  nosso, porque, meu amigo, nada
ambicionamos do que vamos vendo.

Corinna est-me sempre repetindo a historia dos nossos amores, que eu
acho sempre nova. Os dois bailes do Porto em que a vi; as primeiras
palavras que eu lhe disse, com destemperada lamuria; os seus pensamentos
l no Lima, dia por dia, e hora por hora. Sinto-me duplicadamente viver
na sua vida passada; parece-me que estou tomando posse d'uma existencia
que devia ser minha desde ento.

Deito-me cedo para me levantar com a aurora. Corinna l at tarde: l
alto em quanto v que eu a escuto; depois, vai diminuindo gradualmente a
voz at me ver adormecido. Rirs tu d'esta miudeza de traos no quadro
da felicidade domestica? Se ris, visconde, mal de ti, que os no has de
saber gosar. Uma coisa magnifica, estrondosa, e apparatosa, que vai pelo
mundo, chamada Felicidade, feitas as contas, sabes o que ?  isto, so
os singellos prazeres, que no valem nada descriptos, e so a
bemaventurana sentidos. E no valem nada, porque a gente que os l,
pensa que pouco vai de desejal-os a tel-os. Que engano! A mais facil
felicidade  a que requer mais grande corao e pura consciencia. Se
estes bens fossem communs, todos eramos felizes. Ns antes queremos ser
todos ricos......................................

Valentim da Costa foi, um domingo, jantar com os _seus filhos_, termo de
muita amizade com que elle os acarinhava. N'esse dia se completavam os
setenta e nove annos do ancio. Depois do jantar, desceram a sentarem-se
debaixo das quatro palmeiras, que davam o usurpado titulo de chacara 
casinha dos venturosos. Ahi fallou sempre o velho, com a perdoavel
vaidade de quem sabe tudo do passado, e possue a chave dos futuros. Ora!
por onde elle andou! Foi cavar na raiz da revoluo franceza, contou a
vida de Napoleo, a fuga de D. Joo VI, as anecdotas da crte, a
infancia e juventude do senhor D. Pedro IV, a mocidade estudiosa e as
virtudes civicas do actual imperador do Brazil, e tudo isto para
concluir que o presente era melhor que o passado, e que o futuro ser
melhor que o presente. E a tal proposito ajuntou:

--Vosss no faam caso do que eu disser, quando elogiar as coisas e
pessoas do meu tempo. O _seu tempo_  a balda dos velhos, que, ao
verem-se carregados de tempo, no s querem que seja _seu_--o que
ninguem lhes contesta--; mas at querem que o tempo d'elles fosse a
melhor quadra dos dezenove seculos que j l vo. Ora eu, que sou velho
e ao mesmo passo rasoavel, se duvidasse das virtudes d'este tempo,
duvidaria das vossas, meus filhos. Dizem que a velhice  egoista, e
morre devorada de odientos ciumes da gerao nova, no s porque  boa
de indole, que tambem por ser inventora das regalias que vieram tarde
para ella. Deus me livre de ir  eternidade com este trambolho agarrado
s pernas: bem me basta a gotta! Eu c de mim at folgo de acabar,
quando comea uma transfigurao na face da terra, coisa nem sequer
sonhada ha quarenta annos, quando eu e os meus contemporaneos
motejavamos o desconfortavel viver de nossos paes. No me diro o que
ns tinhamos mais do que elles, ha quarenta annos?! Vosss  que podem
rir-se de mim e dos meus; mas nem por isso lhes quero mal de inveja. O
meu amor  gente nova chega a ponto de eu me desejar morrer no meio
d'ella. Querem-me os meus filhos trazer para sua casa? Eu estou por alli
ssinho n'aquella rua do Ouvidor, muito rica, e muito bulhenta. Tenho l
tres pretos e tres pretas a quem quero dar a liberdade, e os diachos no
a querem! Olhem que  forte mania a dos que dizem que a escravido  o
antagonismo permanente com a ideia de Jesus! Se os meus pretos fossem
novos, e eu lhes dsse liberdade, os pobresinhos, em vez de irem aos
seus sertes respirar ar livre, assoldadavam-se a senhor que os
carregava de trabalho; ora, como os meus escravos so velhos, os
coitados no querem a liberdade, que para os de sua especie  uma
palavra van. Pois se eu me no posso, nem devo desfazer d'elles,
peo-vos que m'os deixeis trazer comigo para a vossa companhia. Verdade
 que esta casa  mui estreita para tanta negraria, e commodidades d'um
hospede octogenario. Aqui  que o meu Azevedo ha de mostrar-se amigo do
seu velho. Est alli abaixo uma boa casa, com muito arvoredo em roda.
Vai o meu filho arrendar aquella casa, e recolher-se a ella com o seu
mestre de leis. Faa de conta que eu sou um pulvereo praxista que voss
tem na sua livraria... O ingrato no me responde. Vou voltar-me para a
minha filha Corinna. Faz-se o que eu peo?

--Faz--disse Corinna, sorrindo ao esposo.

--Pois ento--tornou o velho--j d'aqui no saio. Onde me dais agasalho
esta noite? Quero j saber onde est o meu quarto.

No dia seguinte, Azevedo arrendou a chacara magnifica, mudou para ella
com o ancio, e com os seis velhos escravos e amigos de Valentim. Logo
ao segundo dia, o hospede chamou Azevedo, e disse-lhe:

--Eu tambem tenho a minha dignidade, a minha vaidade e o meu orgulho.
Quero entrar com a minha quota parte para as despezas da casa, minhas e
da minha pretaria. Arrendamento da chacara, a meias; o importante da
cozinha, isso  c com o anjo dos lares, com a nossa Corinna.

Antonio d'Azevedo ia contrariar o velho, e reteve-se ante um gesto de
desagrado, e logo esta risonha exclamao:

--Voss cuida que tem mais pundonor que eu!

Este viver continuou assim seis mezes. Corinna tinha ouvinte certo s
suas leituras em quanto o marido dormia. Valentim repousava tres horas
em cada noite, e velava as outras, folheando papeis, e dando expediente
a negocios attinentes aos seus haveres. Algumas vezes ia  cidade em
carruagem que comprara n'este ultimo praso da vida, no tanto para elle,
como para os passeios de Corinna. Valera-lhe a gotta para colorir o
presente aos seus queridos commensaes.

N'este tempo as cartas vindas de Portugal davam a noticia confirmada dos
casamentos de Emma e Leonor. As duas noivas tinham ido para o Porto com
seus maridos, e Felismina com seu marido e o primogenito estavam nas
margens do Lima, ou no palacio reconstruido de Ferno de Athaide, onde o
filho natural mandara acastellar os telhados. Fernando era j visconde
do Ameixial, e estava pasmado da barateza da coisa, em comparao do
muito que dera por uma commenda cinco annos antes. Tinha sido logrado
pelo procurador.

Gasto de Noronha, D. Mafalda e a menina mais nova tinham ido a Paris
comprar mobilia para renovar a decorao do palacio de Lisboa. Esta era
a razo ostensiva que o publico deve acceitar por ser melhor, se no a
mais ajuizada; mas os indiscretos portuguezes que ento estavam em
Frana, disseram que o ainda robusto Gasto de Noronha fra espairecer
saudades de uma duqueza, ou duas duquezas, ou mais seriam, que, pelos
modos, em Paris, isto de amar quatro duquezas  coisa mais que frequente
a quantos portuguezes l vo, como eu tenho visto nos apontamentos de
pessoas que l estiveram quinze dias. D. Mafalda  que ha de saber a
verdade de tudo.

Com estas noticias chegou outra concernente a Francisco d'Azevedo. O
caixeiro chegou a Lisboa, pagou a sua divida, mandou o recibo ao irmo,
foi a Barcellos, vendeu a pequena legitima, abraou suas irmans, e
tornou a Lisboa, d'onde partiu para a Africa.

As quatro meninas das margens do Cvado viviam abundantemente. Seu irmo
Joaquim, j estabelecido e coadjuvado pelos Taveiras, occorria-lhes a
todas as necessidades, dava-lhes tudo, menos o prazer de leval-as ao
Porto, porque o irmo do Brazil, em todas as cartas recommendava
instantemente, que as deixasse estar em Barcellos com as arvores e
flores da casa paterna. Outros dois irmos de Azevedo, sem importancia
n'esta chronica de familia, exerciam probamente a profisso do
commercio.

--Todos felizes!--exclamou o velho, que ouvira attentamente lr as
cartas, como se fossem de familia sua--Todos felizes! S o meu pobre
Azevedo ainda a trafegar para o po de cada dia! Os dois contos de reis,
ganhados nos primeiros mezes, l se foram na restituio do Francisco.
Desde ento para c as economias so impossiveis! Esta Corinna  uma
grande avra! Tem alli na gaveta trinta contos, que ella chama os seus
alfinetes de noiva, e no os quer arriscar nas despezas da cozinha! Ora
deixa-te estar, minha sovina, que te no hei de deixar em testamento as
minhas tres pretas velhas!

--O Antoninho no quer o dinheiro...--disse ella, afagando o cabello do
marido, que ria muito do sainete comico do velho--Ha que
tempos--continuou ella--eu no vi o meu thesouro! Vou-lhe desafiar a
inveja, doutor, a mostrar-lhe as minhas notas! ora espere...

Foi Corinna a uma gaveta de sua commoda, e voltou pallida, exclamando:

-- Antoninho! mudaste o dinheiro da gavetinha do meio?

--Eu nunca soube onde tinhas o teu dinheiro--respondeu placidamente o
marido.

--No est l... roubaram-m'o--bradou ella.

Dias antes tinha fugido uma negra, alugada para a cozinha.

--Seria a preta?--perguntou tranquillamente o bacharel--Pde
proclamar-se rainha nas suas senzalas a negrinha!

Corinna mostrava-se afflicta. O marido chamou-a a si, encostou-a ao
seio, e disse-lhe com muita meiguice:

--A tua grande alma, minha filha? Ento! ha ahi dinheiro que valha uma
lagrima tua, Corinna? Imagina que Deus te experimentava, privando teu
marido da saude de tres dias! Que farias ento, minha amada?... Quantas
vezes darias os teus trinta contos por uma tisana que me restaurasse?!
Quero s ver-te lagrimas, quando eu as chorar.

--Tens razo!--exclamou ella--Estou alegre! perdoa  minha fraqueza de
mulher, sim? Quem me visse chorar, julgaria que eu amava aquelle
dinheiro inutil!

--Pois sim; tudo isso  muito admiravel--exclamou o velho--mas 
necessario annunciar a fuga da ladra, agarral-a e despedaal-a com o
azorrague!

Antonio de Azevedo ergueu os hombros e sorriu. Corinna fitou os seus
humidos e negros olhos em Valentim, e murmurou:

--Despedaal-a! Coitada da infeliz!

--Essa agora  que no  piedade irreprehensivel, menina!--redarguiu o
velho--Chama _coitada infeliz_  negra que lhe rouba uma quantia que em
Portugal se chama _uma fortuna_!... Eu tomo a negra  minha conta! Ha de
ser cortada pelo azorrague!

--No deixes, Antoninho!--clamou Corinna, tomando-lhe o rosto entre as
mos.

--No deixo, no, filha. O doutor est feroz; mas aquillo passa-lhe.

--Ora, senhores--tornou o velho tregeitando espanto--O nome, que isso
tem em boa hermeneutica,  _fomentar o crime_! A sociedade no se serve
assim!  preciso que cada qual contribua com o cauterio para lhe
extirpar os cancros que a corroem.

--Parece que est no tribunal, doutor!--disse Azevedo--A velha
eloquencia  ainda brilhante; mas a lei nova, a lei do justo que os
fariseus azorragaram, manda cahir o azorrague das mos do offendido, e
castigar moralmente o culpado.

--Moralmente!--retorquiu o doutor--Com que ento voss cr no moral dos
negros?!

--Creio na alma dos negros.

--Isso  uma impiedade!

Azevedo riu-se, e, por momentos, duvidou do concerto intellectual do
velho.

Mas, a esta injuriosa duvida, ergueu-se o velho, e caminhando para
elles, com os braos abertos, exclamou:

--No calumniemos a negra, meus filhos! Abraai-me, anjos! Eu quiz
experimentar a vossa caridade! Abraai-me, santos da honra e da
misericordia, que os vossos trinta contos quem os furtou fui eu!




XX.


Em uma tarde de maio de 1849, ao oitavo mez de ceo sem nuvens n'aquella
chacara, onde  competencia os tres ditosos moradores se davam alegrias,
chegou o anjo pallido da morte, e sentou-se no limiar d'aquelle den,
como para vedar o accesso ao anjo do contentamento.

A um lado do leito de Valentim da Costa estava Corinna da Soledade, com
o cotovello apoiado no travesseiro e a face na palma da mo esquerda,
orvalhada de lagrimas.

Do outro lado Antonio de Azevedo, com as mos entrelaadas debaixo do
rosto que encostava  borda do leito, erguia a espaos os olhos
lagrimosos, e cravava-os nas faces emaciadas e lividas do ancio.

Aos ps do leito estavam sentadas duas velhas negras soluantes, com os
rostos escondidos entre os joelhos.

Na ante-camara moviam-se p ante p os restantes dos antigos servos de
Valentim, e cada um por sua vez, de instante em instante, vinha, por
entre os cortinados de cassa, espreitar o enfermo, e retirava com as
mos postas e o corao em ancias e suspiros.

Valentim da Costa tinha sido confessado e ungido n'aquella tarde. A
sciencia retirara ante a irremediavel decomposio dos oitenta annos.

Mas Corinna e Azevedo no podiam convencer-se de que o seu amigo havia
de morrer assim, quando, a intervallos, o ouviam discorrer com o socego
e energia moral dos mais saudaveis dias. Era a alma imperecedoira
allumiada j pela claridade do empyreo: era a prova suprema que ella
estava dando de sua immortalidade. A cryzalida desfazia-se, e a
borboleta do ceo, n'aquelles assomos de intelligencia, ensaiava seu
voejar para o alto.

O moribundo descerrara as palpebras, e dissera:

--No devia eu esperar to suave morrer. Homem que viveu ssinho os
annos da juventude e fora, morrera ssinho. No quiz o Altissimo que eu
pagasse amargosamente a minha incuria. Eis-me com filhos e amigos em
volta do meu leito. Bemdito seja o Senhor!

Falleceram-lhe foras, e descahiram as palpebras transparentes, flacidas
e azulejadas.

D'ahi a pouco reabriu os olhos, fez signal a Antonio d'Azevedo, e
indicou-lhe o travesseiro, que forcejou por levantar.

Azevedo correu a mo por debaixo do travesseiro e tirou papeis, que
offereceu ao ancio. Este no pde erguer os braos quebrantados, e
disse:

--Um  o meu testamento; o outro papel  a minha despedida de vs. Est
escripto ha quinze dias: escrevi-o quando conheci o fim. Lde-o vs,
filhos; quero ouvil-o; o corao quer ainda o goso de se escutar.

Antonio d'Azevedo abriu vagarosamente a folha dobrada em oitavo, e leu
com tremor de suspiros:

Um secreto aviso me manda preparar. No posso dizer como o santo:--O
meu corao est prompto--; mas vejo o termo da viagem sem susto. A face
do Juiz transluz misericordia. O meu Creador foi para si que me creou.

 dr deixar-vos, filhos; porm saudades haver mais pungentes entre os
vivos que se apartam. A providencia divina permitte que o aspeito da
morte seja menos afflictivo, quando em verdade ella est comnosco. Ai de
ns, se este desapego da terra, onde se  feliz ou se espera sel-o, no
existisse! O morrer custa ruins quebrantos da materia; mas a alma como
que se est despenando e alegrando para ir ao seu destino.

Vou deixar-vos, meus amigos. Chorai-me, porque vos quiz muito, e vos
fui grato s doces horas que me dstes. Chorai-me, porque ao moribundo 
consolador o pranto dos que lhe deram os risos da ventura.

Ficaes novos e ricos. Pela vida alm haveis de encontrar muita gente
affligida: sde valedores de todos, e associai sempre o meu nome  vossa
beneficencia. Assim viver comvosco uma faisca d'esta chamma, que no
pde ser toda vossa, por ser de Deus.

Dai-me sepultura, e ide depois para a patria e para os vossos. Empregai
l a vossa actividade menos em accumular, que em repartir a sobejido de
vossa riqueza. Quando houverdes filhos no lhes ensineis a honra do
rico, que essa  facil: ensinai-lhes a honra do pobre, a honra de
Antonio d'Azevedo e a abnegao de Corinna. Vivei de modo que a vossa
descendencia se glorifique do exemplo, quando vossos nomes estiverem j
esquecidos.

Estou a dar-vos conselhos, como se carecesseis d'elles: desculpai ao
velho este fraco da muita idade.  uma misso paternal que cumpro. Se eu
tivesse dois filhos, exemplares em virtudes, havia de fallar-lhes assim.
Deixai-me acabar n'esta abenoada illuso. Admoesto-vos, meu Antonio
d'Azevedo, a que deis de mo ao grande pezo do trabalho. O que hontem
era preciso, ser manhan sde sobre sde de riquezas inuteis. O
bastante  muito pouco. Da riqueza de vossa alma  que deveis ser grande
dissipador: derramai-a em preceitos, conselhos, allivios e censuras. O
solitario virtuoso  um egoista do ceo. Ide ao meio do povo e fallai. O
homem ssinho pde ter muito de que alegrar-se; mas no alegra os
milhares de infelizes que gemem, e a gemer se vo despedaando.

Sabei que eu,  custa de sessenta annos de trabalho, cheguei a esta
hora podendo dizer que no tenho um ceitil. Tudo dei a uns, e perdoei a
outros. Os bens de fortuna, que vos lego, deu-m'os uma herana, no
ultimo quartel da vida. Ahi vol-a transmitto. Foi sempre meu intento
deixal-a a pobres: sei que fica sendo vossa e d'elles.

Agora abraai-me, e dai-me o vosso adeus.

Antonio d'Azevedo fra algumas vezes embargado pelas lagrimas, e
Corinna, com os labios postos na mo do moribundo, soluava mui anciada.
No final da leitura, Valentim fez um vo esforo de levantar os braos
para receber os dois filhos que se achegaram ao seio d'elle. Os escravos
tinham entrado todos de roldo, e beijavam-lhe os ps por cima da
coberta. O agonisante relanceou os olhos de sobre elles para a face
d'Azevedo, e murmurou:

--Sero vossos amigos tambem... Levai-os... Os pobrezinhos morreriam de
saudade... e miseria.

Os negros ajoelharam de mos postas, e oraram. Corinna insensivelmente
ajoelhou tambem, conservando entre as suas a mo do moribundo.




CONCLUSO.


Passados seis mezes,  porta do quinteiro de uma pequena granja, visinha
de Barcellos, parou uma liteira, d'onde apearam Antonio d'Azevedo e
Corinna da Soledade. Logo em seguida, chegaram algumas cargas,
acompanhadas por negros, em volta dos quaes o rapazio de Barcellinhos
fizera grande alarido de apupos e espirros. Das tres escravas, uma s
resistira  saudade do senhor; os pretos viviam todos, amparados pelo
bom tracto dos novos amos.

As irmans do bacharel vestiam as suas mais vistosas e secias galas. Eram
quatro frescas moas, robustas, cr escarlate de quem vende saude,
alegria a desbordar do corao aos olhos, e um rir franco e aberto de
innocencia, e felicidade expansiva.

Corinna abraou-se n'ellas, que a levaram em andor para o primeiro
sobrado. N'este sobrado, algum tanto escuro, rescendia um acre de
rosmaninho e alecrim, como em festividade de presbyterio. Por cima de
mesas, commodas, e banzos das janellas, tudo eram jarras de loua
ordinaria com grandes feixes de dhalias, rozas e folhudos gira-soes. O
oratorio estava aberto, e allumiado o crucifixo com a lampada usual, e
mais duas vellas de cera de meio arratel, voto da mais nova das meninas.
Os frizos do sanctuario eram grinaldas de flores, atadas pelas hastes
umas n'outras, enfeite de menos engenho que apparato.

Antonio d'Azevedo entrou depois de sua mulher; sentou-se em um tamborete
de coiro; descobriu-se, quando deu pela imagem do Christo, e murmurou:

--Finalmente!

Corinna da Soledade sentou-se  sua beira, e disse-lhe:

--Que celestial graa tem isto tudo,  filho!

--Aqui tens a pobre casa onde nasci. Corinna!...--disse Azevedo,
relanceando em redor os olhos humidos--Isto pde explicar a estreiteza
das minhas ambies. Moldou-se-me a alma nas dimenses acanhadas d'esta
casinha. Olha as flores de que eu tinha tantas saudades! Alli tens a
minha banca de estudo... L esto ao lado do oratorio os meus primeiros
livros... Mas como isto  pequeno! Como caberemos aqui!

--Perfeitamente, Antoninho!--disse Corinna.

Entrou, n'este ensejo, Joaquim d'Azevedo, o negociante do Porto, que
ficara arrumando n'outro sobrado os bahus.

--No sei, no sei como ho de caber aqui, meus irmos--disse elle,
rindo--Tu j sabes, Antonio, que, alm d'esta saleta, e dois quartos,
segue-se um casaro velho, e umas oito alcovas, de que os ratos esto de
posse immemorial. Ora vem ver! Estou certo que a nossa Corinna vai ficar
espavorida!

Abriu Joaquim de Azevedo a porta que abria para o casaro. Antonio fez
p atraz de maravilhado. Tinha diante de si uma sala luxuosamente
trastejada, com janellas lateraes rasgadas em arco, e envidraadas a
cores. A jardineira central estava cogulada de flores raras, e ricas
encadernaes de albuns. A um lado o piano. A outro a othomana e as
cadeiras de respaldo em setim amarello. No centro, o lustre pendente do
estuque primorosamente lavrado da mais engenhosa filagrana. Ao fundo
d'esta sala estava um quarto com recamara, espaoso, alegre, com alfaias
de muito valor e gosto.

-- o vosso quarto, meus irmos--disse Joaquim--Ao lado tendes outro:
ser o do vosso primeiro filho. Quando os filhos augmentarem, iremos
rompendo com o edificio pelo campo, ou daremos  casa a largura que
precisa para corresponder ao comprimento. O defeito no foi do mestre
architecto: foi meu por tua causa. Era preciso, c para o meu plano um
pouco de pea magica, que tu visses a frontaria da velha casa, e no
podesses ver o fundo. O que era de nossos paes, est em p; tens que
farte onde ver o teu passado; tudo se conservou por amor de ti, que tens
l essa poesia das casas velhas. Mas has de perdoar que eu tenha
destruido o casaro, antes que os ratos devorassem as nossas irmans.

Antonio abraou Joaquim de Azevedo com fervorosa alegria, e este, com o
outro brao, apertou Corinna ao peito.

Seguiu-se um dia e muitos dias de contentamento incessante. A cada hora
em que se encontravam juntos,  mesa, no jardim, nos campos, ou  margem
do Cvado, era uma festa, uma alegria de crianas!

Gasto de Noronha estava j em Lisboa, de volta de Frana, onde se
deteve um anno a comprar a mobilia. Aquellas duquezas eram os seus
peccados!

Fernando de Athaide desceu do alto-Minho a receber seus cunhados na
quinta do Lima. Tambem Corinna queria ir reconhecer os arvoredos de sua
infancia, e mostrar ao marido os logares onde chorara mais lagrimas de
saudade. N'esta quinta se reuniram as quatro irmans casadas.

Emma, viscondessa da Cruz, tinha nutrido muito; e, com quanto o jubilo
lhe dsse azas, no cessava de queixar-se dos incommodos de tamanha
viagem, desde o Porto alli! Leonor, casada com Luiz Taveira, ria muito
da irman gorda, chamava-lhe o ideal da preguia, e saltava muito,
pendurada no brao do marido, que era doido por ella. O velho Bernardo
Taveira seguiu os filhos, e fazia discursos, que ninguem lhe ouvia,
excepto Antonio d'Azevedo, que via n'elle um dos classicos velhos
talhados a molde das virtudes de Valentim da Costa. Dias depois, chegou
Gasto de Noronha, Mafalda e Elisa, a mais nova, e ainda solteira das
meninas. Gasto, com todo o aprumo de sua fidalga altivez, approximou-se
do genro Azevedo, abraou-o cordialmente, e disse-lhe:

--Meu caro commendador!

--Vossa excellencia est enganado!--disse o attonito Azevedo--Eu sou,
salvo a pequena differena de alguns cabellos brancos, o Antonio de
Azevedo de 1844.

Gasto tirou da algibeira uma chapa refulgente da ordem de Christo, e
disse:

--Aqui tem!  o meu presente de noivado.

--Muito agradecido a vossa excellencia--disse Antonio
d'Azevedo--Qualquer dadiva de vossa excellencia me alegra; e esta, que
tanto luz, deve ser muito agradavel entre os brinquedos de meu primeiro
filho.

--Mas eu quero que a use--tornou o sogro.

--Na minha aldeia?--perguntou o genro.

--Em Lisboa, para onde eu quero que o senhor v gosar a vida e a riqueza
que tem. A minha Corinna no se fez para o mato de Barcellos. No 
assim menina?

--Respeito muito a vontade de meu pae--disse Corinna com submisso--mas
a nossa casa  em Barcellos, e as minhas flores esto l por aquelles
matos. Tenho l uma segunda familia que me chama, e  qual eu tenho
escrupulos de roubar por mais dias o seu irmo querido. manhan
partiremos.

Antonio de Azevedo, sem temer reparos, cedeu  alma reconhecida, e deu
um beijo na face de sua mulher.




EPILOGO.


L vo quatorze annos.

No me consta que tenha morrido algum dos personagens que ha instantes
vimos to alegres nas margens do Lima.

Conhecem romance em que tenha morrido to pouca gente? Eu no! Se
aquelle santo do Rio de Janeiro no vergasse debaixo dos oitenta annos,
ainda agora podia estar no seio da patriarchal familia de Barcellos,
onde elle tencionava acabar seus dias.

As irmans de Antonio de Azevedo esto todas casadas, e senhoras de boas
casas de lavoira e numerosa descendencia.

Est ainda solteira Eliza, a irman mais nova de Corinna. Tem hoje trinta
e um annos.  ainda formosa. Se o leitor  solteiro e rico... (no ser
mau que seja rico, para maior segurana) pde dar a este romance um
supplemento, casando com aquella senhora, que est aqui em Lisboa. Eu de
muito boa vontade, na segunda edio d'este romance, darei a possivel
immortalidade ao acto.

Pude tambem saber que o menino mais velho de Antonio d'Azevedo amolgou a
commenda na borda de um tanque, e acabou por atirar com ella a um poo.
Que grande democrata se est alli criando!


FIM.





Notas:

[1] O _Snr. Antonio Pereira da Cunha_.

[2] O _Snr. Jos Barbosa e Silva_, author do romance==Viver para
soffrer.




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+-------------------------+----------------------+
  |          |      Original           |      Correco       |
  +----------+-------------------------+----------------------+
  |#pg.   65| Ningnem                 | Ninguem              |
  |#pg.  164| pimas                   | primas               |
  |#pg.  178| ao labios               | aos labios           |
  |#pg.  184| nogociante              | negociante           |
  +----------+-------------------------+----------------------+

Foram mantidas as variaes de nomes prprios.





End of the Project Gutenberg EBook of Estrellas Propcias, by 
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco

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works, and the medium on which they may be stored, may contain
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that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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