Project Gutenberg's Contos e Lendas, by Lus Augusto Rebelo da Silva

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Title: Contos e Lendas

Author: Lus Augusto Rebelo da Silva

Release Date: October 29, 2009 [EBook #30359]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-15

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CONTOS E LENDAS




REBELLO DA SILVA


CONTOS

E

LENDAS


Introduco--A torre de Cain--O castello de Almourol
A camisa do noivado
A ultima corrida de touros em Salvaterra




LISBOA
LIVRARIA EDITORA DE MATTOS MOREIRA E COMP.
67--Praa de D. Pedro--67
1873




DECLARAO


_A propriedade d'esta edio pertence a Henrique de Araujo Tavares,
subdito brasileiro._




LISBOA
LIVRARIA EDITORA DE MATTOS MOREIRA E COMP.
67--Praa de D. Pedro--67
1873




INTRODUCO

    Dicebam que: in nidulo meo moriar, et sicut palma multiplicabo dies.

                                                    Job cap. XXIX v. 18


As pequenas composies, que hoje principimos a publicar, so de um
homem, que nunca do mundo quiz mais do que a tranquilla obscuridade, que
faz de ordinario o supplicio de tantas vaidades. Ministro sincero de um
Deus de paz, assentou-se aos ps da cruz e d'ali viu aproximar o inverno
da velhice, com a mesma serenidade com que tinha visto passar as
illuses da juventude, e com que havia atravessado os perigos da edade
viril. Satisfeito com a sua pobreza, no invejava (se  que invejou
alguma cousa!) seno a unco apostolica e a eloquencia persuasiva dos
primeiros confessores da f nas grandes epochas da regenerao moral do
mundo. Chegado quasi ao termo do seu desterro, quando a hora da
liberdade estava a soar, reclinou a cabea para acordar sem dr na
mano do jubilo, patria suspirada de suas mais doces esperanas, unica
impaciencia de uma alma, que longe da morada celeste se entristecia
captiva.

A virtude n'elle era risonha e desassombrada. Nascia de dentro, no
aspirava a grangear applausos, nem se desvanecia com os respeitos
mundanos. Se alguma vez peccou foi por excesso de bondade. Nunca ouviu
queixas que a sua bocca se no abrisse para as suavisar, nem viu
lagrimas, que a sua mo as no enxugasse logo. Por isso em muitas
occasies, elle, o ancio experimentado, revellava a simplicidade da
pomba, enganado pelos artificios dos hypocritas. Por mais que o
advertissem, a sua caridade no se cansava, e embora faltasse a si,
nunca faltou aos pobres. Se o convenciam de erro, se lhe mostravam a
illuso, sorria-se, e respondia: Louvado seja Deus! Ainda bem que at
me deu para esses! Dito isto cheirava com pausa a sua pitada de
esturro, e ia catar, ou alporcar os craveiros, at o relogio do
estomago, unico relogio que havia em casa, o avisar de que eram horas da
refeio. Vinha ento recolhendo-se de vagar, alargava o passeio pela
cosinha, rondando o almoo ou o jantar, no sem se arriscar a alguma
jaculatoria da tia Brizida, matrona sexuagenaria, que tinha a seu cargo
a economia domestica e o baixo e mixto imperio da dispensa e da
capoeira.

A ultima doena do padre Vigario, occasionou-a o zelo pelo servio
d'Aquelle, que nunca fez tambem esperar os desvalidos. Por baixo de
immensa cerrao, caindo a chuva em torrentes, e soprando o vento, frio
e agudo, metteu-se  meia noute ao caminho da serra, para levar as
consolaes da Egreja a uma de suas ovelhas, que agonisava em
desabrigada choupana.  volta o corpo tremia sacudido por uma seso de
febre, e o rosto vinha mais pallido, do que a face de um moribundo.
Deitou-se para no se tornar a levantar.

Ferido no seu posto, como soldado intrepido, elevou o espirito, abenoou
a enfermidade, e bem com Deus e com os homens, ao terceiro dia adormeceu
para sempre. O Vigario levou todos os bens comsigo. Para se sepultar foi
preciso que os visinhos fizessem uma derrama. Mas em compensao nunca
houve funeral to rico de prantos e louvores. Despovoaram-se os logares
da freguezia e dos arredores para o acompanhar, e quando o corpo saiu do
presbyterio, o chro de toda a aldeia honrou aquellas cinzas to amadas.
Com razo! No era o velho parocho o pae, o amigo, o bemfeitor de todos?
Em vida constituira os pobres seus herdeiros, por isso no deixava de
seu mais do que a sobrepeliz e a batina remendada, em que o
amortalharam, e o crucifixo de marfim, que unira ao corao na
derradeira despedida.

O premio no foi s a cora de gloria!... Por mais desvairada, ou
corrompida, que uma gerao corra ao precipicio, os exemplos salutares
sempre se lhe gravam na lembrana, e a rudeza dos camponezes, apezar dos
vicios esquecidos nos idilios, no  usualmente a que resiste mais 
proveitosa lio das boas obras. Pelo menos assim aconteceu na parochia.
A ama,  qual o Vigario legra smente a memoria de suas virtudes,
encontrou logo a hospitalidade, affectuosa, no de um, mas de muitos
habitantes, que se lhe offereceram para acolherem sua velhice. O co do
Pastor, companheiro constante de tantos dias de fadiga, tambem achou
quem se condoesse, e o fosse levantar da sepultura sobre que gemia
saudoso. As pobres alfaias da casa, o breviario usado, os poucos livros
da estante, e um, ou outro movel de seu uso quotidiano, disputados como
reliquias, repartiram-se  sorte por evitar contendas, e hoje mesmo,
depois de largos annos, o tempo, que tudo gasta, no amorteceu ainda a
recordao do sacerdote exemplar, cujos ossos repousam  sombra dos
cyprestes plantados pelas suas mos no cemiterio da aldeia.

Este foi o homem e o ecclesiastico venerando.

Do poeta, que era, que sempre tinha sido, quasi sem o cuidar, raras,
rarissimas pessoas dariam noticia. Fugia da fama que do as lettras, com
um cuidado egual pelo menos quelle, com que se furtava envergonhado ao
prego da sua caridade. Pejava-se tanto de si, e por tal receava ser
visto, que se a direita se escondia da esquerda nas esmolas, a penna no
se occultava menos discreta quando escrevia. O padre prior tinha pouco
vagar para livros volumosos. Nos curtos ocios que as obrigaes lhe
concediam, distrahia-se deixando vaguear a phantasia pelas recordaes
do passado, enganando assim as tristesas do presente, ou ligando em
algumas scenas soltas as remeniscencias, ainda vivas, dos dias da
mocidade. E em quanto o vento lhe sacudia os caixilhos das janellas, e a
chuva, chapinhando, lhe fustigava os telhados, enchia elle uma ou duas
paginas  luz do ponderoso candieiro de lato amarello de tres bicos,
talvez o traste mais luxuoso de toda a sua mobilia. Assim nasceram em um
recanto obscuro da aldeia estes _Contos e Lendas_, escriptos sem emendas
e com admiravel rapidez, em lettra grada, direita, e garrafal, para
regosijo dos compositores, que cegam a miudo os negalhos de missanga de
certos auctores, muito nossos conhecidos, aos quaes Deus no castigue em
desaggravo de suas victimas.

Se o padre Vigario vivesse, ainda no soltava seguramente da gaveta os
papeis fechados a tres voltas e meia de chave. Foram precisas repetidas
instancias para m'os confiar. Poucos mezes antes da sua morte  que
alcancei licena para fazer d'elles o uso que julgasse mais opportuno,
com tanto que o nome do verdadeiro auctor nunca figurasse porque dizia
elle, no so cousas estas para um sacerdote da minha edade matar o
tempo, quando podia rezar, meditar as suas praticas do domingo, ou
examinar a sua consciencia. Mas no sei como isto ; assim que me sento
diante da mesa e pego da penna, no posso valer-lhe, e apesar de todos
os protestos, entram commigo as malditas historias, e no ha
resistir-lhe. Se fosse crendeiro jurava que me faziam bruxarias.

A bruxaria era o que hoje se chama a vocao! A ss commigo perdia de
vista as realidades da vida, e quasi sem o saber, deixava-se arrebatar
pelas vises do mundo phantastico, aonde antes d'elle j se entranharam
muitas outras que a admirao sada como principes da intelligencia.
Vingava-se porem d'este mu sestro (era a sua phrase) pondo de lado as
escriptas frivolas apenas as acabava e nunca mais fallando d'ellas.
Rabiscava umas tantas folhas de papel (com este desprezo tratava a
inspirao!) e sem as tornar a ler, juntava o novo caderno ao antigo
mao. Uma fita de nastro vermelho atava tudo. Esquecia-se depois d'este
e dos outros at ao inverno seguinte, em que voltava s suas historias
com extremo pavor da tia Brizida, confidente dos seus segredos, a qual
representava nos seres litterarios do presbyterio o papel, que a
tradio attribue  famosa ama de Molire. Em lisa f temia ella
devras, que o demonio perdesse um dia a paciencia  fora de
esbofeteado, e de escarnecido pelo Vigario n'aquelles papeis, e que se
desforrasse torcendo o pescoo s gallinhas e frangos, ou chupando o
sangue aos coelhos, transformado em raposa ou em ginete. Nunca acordava,
que no esperasse encontrar a capoeira vasia! Se  bom estar bem com
Deus, dizia, no  mu estar em paz com o demonio. A casa do presbyterio
no era grande, nem espaosa, mas sorria de longe  vista caiada por
fra e rodeada de canteiros de flres. Vestia-se de um tal ar de festa,
que namorava pela bellesa rustica e logo a distancia promettia a
hospitalidade que nos dias do Prior estava convidando de longe com os
braos abertos a quantos lhe batiam  porta. Situada na cora de um
outeirinho, alvejava por entre a folhagem prateada das faias, cujos
troncos lisos e direitos o vento meneava graciosamente. O pateo
ajardinado, cercado de alegretes, era todo vio e frescura, e tres cepas
enroscadas e collossaes, cobriam com a sombra de seus pampanos as
parreiras, aonde amadureciam na estao os mais formosos cachos de
moscatel e de ferral-tamara. Em volta da risonha morada, penduravam-se
as vinhas pelas encostas das collinas at s margens de um ribeiro,
toldado de salgueiros e chores que se torciam para beijarem a agua. Por
entre as vinhas apparecia em malhas o verde mais fechado das hortas
mettidas entre vallados de piteiras, em quanto ao lado sussurrava a
levada correndo pelas regueiras. Os pomares, copando-se, encantavam de
espao em espao os olhos offerecendo-lhes bosques fechados, e
embalsamando tudo em roda com sua fragrancia. Subindo pelos outeiros,
que ondeavam desde a planicie at s montanhas torreadas no extremo
horisonte, os troncos nodosos e robustos das oliveiras trepavam de
socalco em socalco at  cortina de pinheiros, cujas cabeas, de um
verde triste, a virao balouava l em cima meneando-as entre mormurios
ao cair da tarde.

A ribeira vinha de cima, e ora rebentando entalada, ora espraiando quasi
adormecida, na areia alva e fina do leito, despenhava-se mais abaixo com
estrepito, entrando no logar opulenta com as aguas recebidas. Aquelles
pampanos cingidos de arvoredos, aquelles valles viosos de hortas e
pomares; os variados tons que zebravam as encostas dos montes e
collinas, desde a esmeralda viva dos prados at ao louro cendrado das
paveias; os rosmaninhos e as boninas esmaltando as veigas; o rio
precipitando-se aqui, mais adiante correndo manso e limpido e depois
esperguiando-se sobre as relvas; de dia o sol inundando de luz dourada
todo o quadro, de noute o claro da lua tocando-o de meiga melancolia,
compunham um espectaculo de tanto enlevo que a vista fugia com a vontade
e com o corao para aquelles casaes debruados das collinas fazendo
nascer desejos de pedir pousada em algum d'elles, para vr romper o luar
por entre o arvoredo e de ouvir brincar a aragem com os ramos aos
primeiros raios brancos do alvor matutino.

Era sobre tudo ao anoutecer que a aldeia se animava. As chamins
expelliam o fumo em penachos caprichosos; os cepos estalvam no lume; e
as creanas, como enxame bulioso, brincavam defronte das portas. As
mes cosinhavam a ceia, em quanto os velhos e os mancebos descansando do
trabalho, aguardavam encostados, ou assentados, a hora proxima da
refeio e do repouso.

Que saudade causa no tumulto das cidades a ideia do pr do sol nas
aldeias! N'esta occasio, em que a fadiga do corpo como que faz mais
docil o espirito,  que o padre Vigario, desembocava de uma das
azinhagas com o seu Horacio, ou o seu Salustio debaixo do brao, e vinha
conversar o seu pedao com os ancios da terra, para saber as novidades,
e espreitar as rixas e discordias, afim de as compr. Correndo a mo
pela cabea das creanas, ralhando com umas, afagando outras,
informava-se de tudo, sanava as malquerenas, e conseguia pelo respeito
de seus annos e qualidades, que os moradores da parochia formassem uma
s familia. Mestre e passa-culpas eterno dos rapazes, estes, mal o viam,
voavam em bandos a agarrar-se-lhe  loba e s mos, por entre vozes e
saltos com uma algazarra, que dava rebate a toda a aldeia. No vero, nos
dias de maior calor, era sempre certo o prior,  tardinha, debaixo da
parreira, que lhe cobria a varanda, com o livro aberto e os oculos de
prata, que lhe escorregavam at  ponta do nariz. Lia e passeiava. De
tres, ou de quatro em quatro voltas, parava, batia na caixa de tartaruga
e sorvia com delicias uma pitada, deitando os olhos pelos canteiros a
vr se alguma flr carecia de rega, ou de amanho. Quando o sol declinava
punha na cabea o venerando tricornio, pegava da bengala de canna da
India e casto de prata, e sahia a tomar um pouco de ar. Era a phrase
modesta, empregada por elle para designar as suas marchas foradas de
legua, legua e meia, e s vezes duas leguas por montes e quebradas.

Quando o encontrei por acaso, e travei conhecimento com elle, poucos
homens vigorosos, na flr da edade, poderiam acompanhal-o no seu passo
largo e egual. Abordoando-se  bengala por costume e no por
necessidade, despejava caminho como andarilho mais valente. De estatura
elevada, secca, mas encorpada, carregava sem esforo com o peso de uma
velhice verde e alegre. Nos olhos cinzentos e vivos brilhava um toque de
finura risonha, e a bocca no pequena, mas engraada, animava o rosto e
dava-lhe expresso agradavel, avivada de constante jovialidade. A
brandura do animo correspondia s promessas da physionomia, e o tracto
intimo denunciava as prendas d'aquelle caracter, honrado, severo s
comsigo, inflexivel e incapaz de se torcer em pontos de consciencia ou
de melindre. Na convivencia com o padre Vigario, aprendi mais do que me
ensinariam muitos annos de leitura. Convalescente e magoado, devi-lhe a
saude do corpo, a saude e o conforto da alma.

Este velho desterrado por gosto e eleio sua em um canto do mundo,
n'uma aldeia ignorada, era mais sabio na sua humildade, do que muitos
que se pavoneiam de lidos e eruditos. Em dous preceitos unicos encerrava
toda a sua philosophia:--paciencia e amor. Com a primeira supportava os
trabalhos e os revezes sem desmentir a serenidade da alma; graas ao
segundo, o corao, purificado pelos annos, abria-se a todos os
sentimentos nobres, e palpitava com orgulho memorando as glorias da
patria. Fiado nos pronuncios do futuro mitigava a dr das desgraas
presentes, com as esperanas de melhor porvir, to crente e enthusiasta,
como se acabasse de entrar na epocha das illuses. Entendia e applicava
o Evangelho pelos affectos ardentes da sua alma, abraando como filhos e
irmos todos os afflictos e necessitados; e pelo amor, finalmente, no
perdoava mas agradecia as offensas, as injustias, e at as calumnias,
provaes da virtude, no se lembrando d'ellas seno para pagar o mal
com o bem.

Horacio, Salustio e Tacito eram os seus auctores mimosos, a par de
Cames, de Ferreira e de S de Miranda. Familiar com os escriptores da
antiguidade, e com os modernos de mais nome, seria preciso colhel-o
desapercebido, e espertar a veia natural e espirituosa da sua
conversao, para se apreciar devidamente os thesouros encobertos
d'aquella vasta erudio e os prodigios de uma memoria em verdade rara.
As citaes acudiam-lhe espontaneas; os ditos agudos e as anecdotas
encadeavam-se; as scenas e os quadros pintados com vivesa admiravel,
succediam-se e ligavam-se. Parecia que a sua voz ressuscitava de repente
os homens e as cousas, que as cinzas dos grandes vares de Roma e da
Grecia, dos heroes de todos os tempos e de todas as naes tornavam a
juntar-se, a tomar corpo e a animar-se e que os viamos mover e fallar
como se os estivessemos contemplando nos dias do seu esplendor. As
ruinas de Athenas, as do velho Lacio, os monumentos da meia edade, e os
episodios de epochas mais proximas, evocados pelo encantamento
irresistivel d'aquella imaginao creadora, como que volviam subitamente
ao primeiro sr, apparecendo uns em toda a formosura da arte classica,
erguendo-se outros pela religiosa inspirao da arte christ.

 noute era um prazer e um exemplo, observal-o sentado na immensa
poltrona de couro, com a ama  direita e o co somnolento  esquerda, a
velha cabeceando de rocca  cinta e engrolando Padres-nossos, o animal
piscando os olhos com uma orelha fita e outra derrubada. Dos dous
companheiros do sero o mais attento e sisudo era de certo o co!
Medindo sempre o dono com a vista, o mastim nunca perdia occasio de lhe
coar o focinho pelo joelho, quando suppunha o ensejo favoravel. O
bofete de pau santo e ps torneados, o candieiro de lato e a anarchia
dos papeis completavam o pitoresco painel do lar domestico. Passada uma
hora, o unico que no dormia era o Vigario; a sua penna continuava a
ranger sobre o papel, ao som dos roncos assobiados da tia Brizida.
Quando as palpebras se lhe faziam pesadas, o prior arrastava a cadeira,
mettia dous dedos na argola do candieiro, e recolhia-se ao quarto no
meio das recommendaes da ama sobre os perigos do fogo, sobre a falta
de cuidado no abafo, e sobre mil outros casos provaveis. Estas
recommendaes no se calavam, seno quando a respirao alta e
compassada do ouvinte convenciam a oradora do effeito suporifero da sua
eloquencia.

Em um d'estes seres, a que assisti, caiu o dialogo sobre no sei qual
de nossos reis, e o Vigario innocentemente deixou escapar o segredo das
suas vigilias. A curiosidade de comparar a escripta do solitario com o
seu talento de narrar, obrigou-me a pedir-lhe, sem attender a desculpas,
que me l-se alguns _Contos e Lendas_. Oxal que o leitor seja do meu
voto. Ainda me no arrependo do que disse d'elles ao auctor, que tremia,
como se a minha opinio valesse alguma cousa. No os reputei perfeitos,
longe d'isso, mas asseverei-lhe que seriam talvez folheados sem fastio.
Arriscaria um juizo temerario?!... No seu acanhamento o prior sempre
resistiu a apurar o manuscripto para a imprensa, e quando m'o entregou,
pouco antes da sua morte, foi com a final e irrevogavel condio de
nunca descubrir o nome do auctor, se me atrevesse a importunar os prelos
(assim se expressou) com as puerilidades de um velho creana. Possam os
_Contos e Lendas_ do padre Vigario, cuja ultima vontade estou cumprindo,
merecerem alguns momentos de atteno, no por si, mas pelas memorias
que recordam. Correm j sujeitos s vecissitudes da publicidade tantos
filhos espurios da mesma inveno, que mais esta, entrando no mundo das
lettras, no usurpar de certo logar, que pertena de direito s obras
primas dos poetas festejados. Em todo o caso, sem audacia no ha
fortuna. Lano-a  corrente!... A sorte ba, ou m que faa o resto!

Valle, 30 de septembro de 1866.




A TORRE DE CAIN

LENDA DO SECULO XI


I

De um bom irmo um mau christo

O monge comeou assim a sua historia:

No tempo em que os walis de Cordova tinham quasi todo o reino sujeito, 
que succedeu o que vou contar. Estava o conde D. Henrique a entrar por
dias, e com elle vinham boas lanas para o ajudarem a resgatar do poder
dos infieis as provincias de Portugal. A essa hora nos castellos da
fronteira no se descansava de dia, nem de noite; ninguem despia as
armas; e quer luzisse a manh, quer cerrasse a tarde, o claro das
almenras, ou o rebate das trombetas no consentia nem leve repouso aos
defensores da verdadeira lei. Nas ameias, ou no campo da peleja, no se
socegava um momento. Os melhores castellos ainda tinham a voz dos
descridos; muitas terras pagavam-lhes tributo; e as bellas tapadas do
Minho e do Alemtejo eram para elles correrem os veados, os ursos e os
javalis. Do marmore de nossas pedreiras arrancavam as columnas e as
ricas laarias de seus paos. Tudo na abenoada primavera d'este formoso
jardim chamado Portugal era dos sarracenos e em tudo punham o seu
deleite. Nas campinas floridas, em que a lua nasce suave como sorriso
infantil, e o ceu brilha radioso como olhar de virgem namorada, a
tristeza at parecia desmaiar o sol. Antes de o tragar o inferno, cujo
, o arabe sensual passava pelo paraiso, que nos tinha roubado! Por isso
a saudade do que perdeu lhe punge to viva hoje o corao!...

--E no havia cavalleiros, que lhes estalassem as lanas no peito,
bradando: esta terra  nossa! acudiu Martin Paes.

--Havia! redarguiu o frade. Mas eram poucos. N'aquelles dias de
captiveiro todos inclinavam a fronte, regando de lagrimas os sulcos da
charrua, guiadas por mos de escravos. Deus exalte o brao victorioso,
que nos deu outra vez a terra de nossos paes, que fez nossos, a casa em
que abrimos os olhos, o cemiterio aonde dormem os que nos amaram, a
arvore que nos cobriu com a sombra a infancia e a velhice, e a fonte que
ferve ao p do rosal!... N'aquelle tempo, quando o mouro passava,
baixavam todos a vista, porque elle era o senhor.

--Mas a terra havia de ser ento quasi um deserto, padre?

--No. As espigas douravam-se nas searas como agora; os campos
vestiam-se de relvas e de arvoredos; as noras gemiam nas hortas; e os
gados pastavam nos montes. Mas a terra, to alegre por fra, toda era
magoa e desconslo por dentro; porque a terra, em que smos escravos,
mesmo que seja a da patria, parece-nos mais s e vasia, do que um rmo.
A casa alheia, a courella que  de outro, e o fogo accso na lareira a
medo, fazem-nos chorar, porque nada d'aquillo  nosso, e hoje, ou
amanh, podem dizer-nos: se! O reino vivia, como vive agora; o que
estava morto era o corao do homem. Resplandecia o mesmo sol, corriam
as mesmas aguas, nasciam as mesmas flres; porm as creanas no
brincavam por baixo dos pampanos da vinha, como brincam estas; e a
donzella assustada, tremendo de se vr formosa, no se assentava
tranquilla, como aquella, debaixo da amendoeira em flr ouvindo
descantar o rouxinol por cima da cabea. O harem do sarraceno, aberto
diante d'ella, como um abysmo, fazia-a empallidecer. De um momento para
outro podia ser obrigada a escolher entre a deshonra e a morte.

--Que martyrio no seria a vida assim?!...

--Era! Foi!... Mas viveu-se, e por quantos annos!... O dia declina.
Faz-se tarde. Quereis que continue?

--Oh, de certo. Fallae!... Todos vos ouvimos.

--No tempo que disse, lavrava a discordia entre dous ricos homens nas
terras de Alem-Douro, afirmavam uns que por amor dos lindos olhos de
certa dama, juravam outros que por causa da aposta de um cavallo. De
seus castellos os dous inimigos, postos defronte, corriam o campo
talando vinhas, pomares e cearas, e mal um se descuidava, o outro,
assaltando-o, vinha logo acordal-o a ferro e fogo. Em suas mesnadas, ou
companhas de homens d'armas, ardia a guerra em toda a furia. Nos casaes
assolados de ambos, o solarengo ou o pastor nunca sabia se ao anoutecer
recolheria os frutos, e os rebanhos a salvo, ou se despertaria ao claro
das labaredas, para enterrar algum dos seus assassinado.

Por fim o cavalleiro mais velho accommetteu o pao acastellado do
contrario, e tomou-o  traio, deixando a cabea do senhor cravada nas
ameias. Aconteceu isto vespera de S. Joo, por alta noute, quando todos
festejavam o bemdito Santo com fogueiras, cantigas e follias. O
cavalleiro tinha um filho e um irmo. O filho de edade tenra; o irmo
temido pela indole e pelo brao. Entraram e sairam os annos assim; a
creana fez-se homem; e de parte a parte a averso das duas familias
cada vez crescia mais. O rio que as separava, tingiu-se de sangue por
muitas vezes, e os sinos no cessavam de dobrar na egreja pelos que
morriam. O tempo, que tudo gasta de dia para dia, parecia avivar mais
aquella rixa. A este tempo o herdeiro do cavalleiro assassinado era j
um mancebo louvado pela destresa nas armas e pela prezena gentil a
cavallo e nos sarus. Chamava-se D. Moo Ansures, e vendo-o passar,
esbelto e affogueado da carreira, com o falco no punho, as donzellas
sorriam-se e cravam, e os homens saudavam-o admirando a fiel imagem do
rico homem morto na vespera de S. Joo.

D. Moo ainda no dissera a mulher nenhuma: amo-te! Um dia, por
desgraa, viu a neta do senhor do solar inimigo, e logo o corao
esquecido da vingana guardou para sempre a doce imagem. O sangue do pae
derramado  falsa f, as malquerenas de tantos annos, as promessas da
meninice e da juventude, tudo d'ahi em diante se apagou da sua alma para
no vr outro sol, outra luz, seno a dos bellos olhos, que o tinham
feito seu captivo. Segredos de Deus! Do maior odio rebentou o mais
constante amor!... Correram mezes, e o affecto escondido saltou aos
olhos de todos. Os parentes lanaram em rosto ao mancebo a sua fraqueza,
mas a paixo pde mais, que as memorias do tumulo, que deixava sem
vingana. Por ultimo, cansados das guerras dilatadas, os rancores
cederam, e o casamento ajustou-se. Uma rosa veiu unir as duas casas
inimigas. O sorriso de uma dama veiu aplacar no sepulcro os que no
podiam dormir o somno eterno, e os que haviam jurado no perdoar.
Aprazou-se para vespera de S. Joo o ditoso enlace. Seria proposito, ou
acaso? N'esse dia contavam-se justamente quatorze annos, que o pae de D.
Moo de Ansures fra assassinado.

O homem pe e Deus dispe!

O cavalleiro morto tinha, como disse, um irmo, que lhe queria mais do
que  propria vida. Haviam nascido ambos vespera de S. Pedro, e escusado
fra procurar mais do que uma vontade e um affecto nas duas almas. D.
Inigo Lopes, era o nome do irmo mais novo, andava ausente. Acertou
chegar de longe, quando estavam pregando as taboas do caixo do infeliz.
A dr fez de D. Inigo uma estatua, e sete dias com sete noutes o viram
todos jazer deitado sobre a sepultura. Parece que a terra, comendo-lhe
os ossos do irmo, consumia ao mesmo tempo n'elle tudo que tinha de
humano. Quando rompeu a alva do oitavo dia, e se levantou, trazia a
cabea e as barbas brancas como neve. Envelhecra ali um seculo em sete
dias! Nem um lagrima nos olhos seccos! Nem um soluo do peito mudo.
Deixou sobre a campa espada e arnez, e levou s comsigo o punhal. Ao
entrar ainda fizera o signal da cruz, mas, saindo, Jesus! voltou as
costas ao altar. Os anjos nos defendam!

O que fez sete dias com sete noutes D. Inigo s e encerrado na capella?
Se alguem o soube foi a cova fria. Contavam, depois, que um monge na
ultima noute vira a pedra do tumulo erguida sem lhe tocarem, e um corpo
crescer da sepultura e a mo do morto apertar a mo do vivo. Illuses!
Quem vae nunca mais torna. O que no foi fabula, porque todos o
presencearam, foi ao oitavo dia rebentar com o primeiro raio de luz uma
rozeira do centro da cova, to viosa e robusta como se existisse ha
muitos annos. Que frescas rosas e que lindos botes nos ramos! Mas se
queriam apanhal-os por devoo, murchavam nos dedos; se tentavam cortar
uma pelo p, o sangue corria da haste como se corresse de veia aberta.
Em cada ramo abriam sete rosas brancas e sete rosas vermelhas. E que
outros tantos dias se contavam tambem desde que o corpo do valente
cavalleiro descera  sepultura trespassado de sete feridas.

Nunca mais se soube, ou se fallou de D. Inigo. Dizia-se que sete annos
com mais cinco vaguera como peregrino, pelos desertos, que Deus pisou,
comendo das ervas do monte, bebendo da agua das nascentes, dormindo s
inclemencias do tempo. Que vida penitente a d'aquelle Santo! Vozes do
mundo! O Senhor, que l nos coraes, ha muito que tinha desviado os
olhos d'elle. Com ser christo nascido nunca mais ajoelhra  cruz, ou
se encommendra  Virgem. Quasi ao cabo do longo desterro anouteceu-lhe
no deserto da Tentao ao atravessar pela terceira vez a Palestina.
Valha-nos Maria Santissima!... De repente as areias inflammaram-se em um
mar de fogo; o ceu cobriu-se de trevas; e nas pontas recortadas das
altas rochas danaram, crusando-se, milhares de luzeiros. Ouviu-se ento
na vasta solido do ermo um brado immenso. D. Inigo respondeu, e o
pacto, que ali firmou, foi to negro, que a lua tornou-se cr de sangue
e sumiu-se, que as estrellas esconderam tremulas a sua luz. O christo
acabva de vender ali a alma ao inferno pela vingana. Desde aquella
hora seguiu-o sempre por toda a parte, como a sombra segue o corpo, a
imagem do irmo assassinado. Ajoelhra ao poder de Satanaz, elle que no
se prostrra diante da cruz, e rasgando as veias afirmra o juramento.
Quando se ergueu soou o cantar do gallo por tres vezes no espao,
repetido pelos echos, e risadas tremendas, levantando-se das aguas
immoveis do Mar Morto, applaudiram a victoria do espirito do mal. O
reprobo escarneceu do passado. Uma blasphemia atroz saltou-lhe da bocca.
Mas elle que se ria de Deus e do inferno, estremeceu sentindo fugir-lhe
a terra debaixo dos ps, como horrorisada do peso do seu crime. Aos
primeiros passos o claro dos relampagos cegou-lhe a vista. O temporal
rebentava ao mesmo tempo no mar aonde as ondas se empolaram como serras,
no ceu aonde os troves estalavam uns apoz outros; na terra, que se
abria em voragens, e no deserto, aonde o furaco, bramindo, cavava
abysmos, e alteava montanhas, revolvendo em vortice as areias. Cedros
antigos, como os do Libano, desabavam de pancada. As feras, timidas que
nem cordeiros, acoutavam-se submissas nos povoados. Os homens elevavam
suas oraes a Deus pedindo-lhe piedade. Quando tudo se fazia humilde e
pequeno para a supplica, porque riria s o orgulho do culpado? D'ali em
diante no passou uma hora sem elle se despenhar mais e mais fundo no
precipicio. Raiava a manh um dia e curvado sobre a corrente do Jordo,
debruava o cantaro e enchia-o. As ramas das arvores enfezadas
torciam-se em toldo raro sobre a ribeira. A duas passadas de distancia
cara um velho desfallecido de sede e de fadiga. Bastava uma gota
d'aquella agua para lhe restituir a vida. D. Inigo negou-lh'a
entornando-lhe de proposito o cantaro diante dos olhos para lhe
exacerbar o tormento, diante dos olhos que estavam tragando de longe a
agua, que o maldito derramava zombando da sua agonia, e dizendo-lhe por
mofa: chama pelo teu Deus e pede-lhe uma nascente ao p de ti! O
Senhor no accudiu com prodigios ao seu servo. Quiz que expirasse
vencedor do inferno. Mas, desde aquelle crime, a sde intensa ateiada
nas entranhas do reprobo, nunca mais se aplacou. Os rios e as fontes
convertiam a fresquido em fogo para o abrazar. A gota de agua negada no
deserto pesra na balana do Senhor largos seculos de culpas.

Cumpridos doze annos, D. Inigo voltou, sem se saber como,  terra em que
nascera. Disseram que um cavallo da cr da noute, com os olhos todos
chammas, o trouxera em breves instantes da Judeia a Portugal. A cauda
varria o p, a respirao era toda fogo, e as crinas ondeavam ao vento.
Diante d'elle as mais altas montanhas encolhiam-se e tornavam-se
outeiros; o mar e os abysmos solidificados aplanavam-se; e no perpassar
do galope infernal os carvalhos inclinados tremiam e beijavam o cho,
flexiveis como juncos. Cavallo e cavalleiro no corriam, voavam! Debaixo
da ferradura magica as aguas tomavam a dureza do diamante: a terra
oscillava, e mil faiscas, saltando da cratera dos vulces, vinham coroar
o rei do fogo. Ao romper da aurora o corsel retrahiu-se, e estacou.
Apontava o dia no topo de uma cruz de pedra. No passou d'ali.  medida
que ia aclarando a manh adelgaavam-se-lhe as formas e do primeiro raio
de sol dissolveu-se desfeito em fumo.

Quando acabou de desapparecer tangia um sino. D. Inigo olhou e conheceu
o sitio. Estava junto da egreja aonde fra sepultado seu irmo. Ao
primeiro passo que deu, descerrou-se o portal por si mesmo; ao segundo
illuminou-se a capella repentinamente; ao terceiro as rosas vermelhas
cairam seccas e as brancas floriram juntas. Um cantico suave dentro
levantava o _Ave maris stella_. Estava aplacada a vingana do morto. A
f, porem, debalde chamava ali por Inigo; elle no a ouvia. A voz do ceu
em vo lhe offerecia o perdo; elle, surdo, no escutava a palavra de
misericordia! Orava n'aquelle momento a Deus, muito longe, um santo
hermita pelo maior peccador. Arrebatado em espirito, viu um homem
cuspindo por odio na cruz  porta de uma egreja. O anjo Custodio,
ajoelhado no cruzeiro, banhava de lagrimas as vestes luminosas; mas o
desacato gelou-lhe o pranto, e, cobrindo o rosto com as azas, subiu na
aragem at se perder nos raios dourados do sol nascente.

A tua clemencia, Senhor,  infinita! exclamou o justo. Haver perdo
para o que renega o teu Santo nome?

N'este ponto a viso sumiu-se; as portas da ermida fecharam-se com
estrondo; e uma voz, semelhante  da tempestade, bramindo nas selvas,
repetiu ao longe: _memento, homo, quia pulvis es!_


II

No ha gosto sem pesar

N'aquelle tempo, em terras de alem Douro, que rico homem era mais
poderoso e rico do que D. Ordonho, conde? Estendendo a vista dos eirados
do castello por valles, montes e campos, sabia que tudo era seu. A um
aceno trinta cavalleiros mettiam o p no estribo, e centos de homens de
armas e pees seguiam o seu pendo. Descendia da grande raa dos
primeiros lidadores das Asturias, raa de bronze nos odios, e de ferro
nas vinganas. A edade gasta os mais fortes, e aor velho no se remonta
s aguias. Quando na carreira o vento lhe sacudia as madeixas brancas,
D. Ordonho sentia que os annos no haviam passado em vo. S a neta, a
formosa Auzenda, unico amor da sua vida, podia distrahil-o das horas de
tristeza. Mais do que filha, porque duas vezes era o sangue da sua alma,
um sorriso d'ella quebrava-lhe a vontade, e uma lagrima s d'aquelles
olhos lindos, transformava em cordeiro o leo embravecido.

Os atalayas vigiam dos altos miradouros da torre de menagem. Os homens
de armas crusam-se nos eirados. Espreitam se rompe ao longe uma lustrosa
cavalgada, que se espera?

O sol j se escondeu de traz do ultimo outeiro; desmaiaram os
derradeiros clares no topo da cruz de pedra; levantou-se por fim a lua
sobre as campinas, e nenhum cavalleiro, ou sombra d'elle, se avista em
larga distancia ao redor.

No castello era vespera de noivado. Auzenda, a bella Auzenda, ia
casar-se com Moo Ansures. Estava por horas a festejada vespera de S.
Joo, e por horas tambem estavam a cumprir-se quatorze annos desde que
os monges negros rezaram o officio de finados em volta da tumba do
cavalleiro assassinado.

Porque se via Auzenda to pensativa olhando do seu balco para a cora
do outeiro, que fica defronte? Cordova e Granada, os dous Edens da
formosura, entre mil no se ufanavam de possuir perola de egual valia.
Aquella belleza era sem par. Sorria-lhe o ceu nos labios; ondeavam os
cabellos em tranas d'ouro soltas  briza; e os olhos azues, aonde amor
suspira, oh! quem podra vencel-os depois de vencidos por elles! Delgado
cinto aperta-lhe as roupas no corpo esbelto. O veu de tisso bordado ora
folga livre com o vento, ora desce em pregas graciosas sobre o seio
palpitante. Ao raiar da alva tinha saido. Os ps, como os da corsa
gentil, que a acompanha, fogem to leves, que mal trilham os musgos das
fragas na serra ingreme. As rozas accendem o rubor na face assetinada
desmaiando os lyrios. Boninas e cecens tecem a coroa silvestre pousada
na fronte. Ajoelhou  cruz solitaria, e a orao matinal subiu casta e
pura do corao ao throno do Senhor, no meio das fragrancias da aurora.
O vestido branco desenha confusamente as frmas, e visto de longe
fluctua nos vapores da madrugada. Dir-se-hia viso celeste que os raios
da primeira luz vo desvanecer. Ella a chegar, e um cavalleiro a correr
do lado opposto. O aor do Douro remata-lhe o capello de ao.  D. Moo
Ansures. Ajoelha a seu lado e juntos offerecem a Deus as premicias do
amor.

--Voltais logo? perguntou a donzella corando.

--Ao cerrar da tarde! responde mettendo-a na alma com o apaixonado
olhar.

--To tarde!?

--Quereis que fique? Mas o voto que fiz?!...

--No! Mas!...

--Ao cerrar da tarde, vivo ou morto, estarei aqui!

Separaram-se. Elle despediu o cavallo pelas gargantas da montanha, ella
seguiu-o com a vista, saudosa at desapparecer por traz do ultimo
outeiro.

Porque chora a bella Auzenda? O que lhe diz o corao?  por isso que a
donzella scismava sosinha ao cair do dia no seu balco? Seriam receios
de noiva a combatel-a, ou saudades de namorada? Baixou a tarde,
fechou-se a noute, e quando as estrellas comeavam a tremer na abobada
do ceu, recolheu-se suspirando. Quasi ao mesmo tempo soava a sineta da
atalaya. Donas, cavalleiros e pagens principiavam a entrar no castello,
attraidos pelos festejos. As armas reluzentes, as plumas de cres
diversas, os tabardos de matizes variegados deslumbravam, vistos  luz
dos fachos. O som das trompas, os latidos dos lebreus, os relinchos dos
cavallos, e as vozes dos pees animavam de mil ruidos alegres o quadro
do noivado. O conde Ordonho sobresaia no meio de todos pela estatura.
Era como o carvalho antigo abrigando os arbustos debaixo da sombra. O
seu brado vencia o estrepito.

--Pagens! Escudeiros! Fazei honra! exclamava cortejando os
recem-chegados com a bocca cheia de riso.

Falta, porem, um homem na festa e com elle tudo falta. A ultima hora do
dia, segundo sua promessa, deveria tel-o trazido aos ps de Auzenda, e
com a noute cerrada no chegava!... Do lado das montanhas no havia
rebate de mouros. As almenras apagadas no davam signal de inimigos.
Que motivo demorava pois o mancebo, quando o amor estava-o chamando to
meigo e desejado? Porque se ausentra n'aquelle dia, em que tantos
estremos o convidavam a no se apartar dos bellos olhos que o prendiam?
Um juramento sagrado! Um voto! Promettera a Deus, para expiar aos olhos
de todos a unio das duas casas, passar doze horas ajoelhado sobre o
tumulo de seu pae. Por isso deixra Auzenda junto da cruz de pedra ao
romper da aurora. Por isso as horas passavam e a saudade impaciente da
noiva as contava to vagarosas!


III

Deus seja comnosco

Na sala de armas do castello soam mil vozes de jubilo. Que luz faisca
das malhas pulidas e que reflexos, que cegam, saltam dos dourados
capellos! Cavalleiros moos fallam de amores, inclinados sobre os
estrados das donas e donzellas. Violas e doainas acompanham as coplas
dos trovadores. Mais adiante, em turbilhes de cem cres, em collos
ondeados e graciosos, giram e volteam as dansas, e o olhar furtivo de
alguns pares promette, em breve, dias semelhantes a mais de um solar.

Na vasta quadra apparelhada para o festim em quanto os convivas no
entram, o vento geme por entre frizos e laarias dos delgados
columnellos. A lua, alta no ceu, entorna pelos vidros cordos das
frestas golphadas de luz branca. De repente as trompas quebram o
silencio. Avizinha-se, e j se reflete nas paredes, o claro de muitas
tochas. Povoa-se a sala, innundada de luz subitamente. Os escanes
enchem as taas e fazem-as circular em roda. Saudes, acclamaes, e
vozes crusam-se, trocam-se e voam em confuso jovial de um a outro
extremo da casa. D. Ordonho parece remoado.  sua direita senta-se
Auzenda. Da esquerda um escanho vazio aguarda D. Moo Ansures. Defronte,
em outro escanho, tambem vazio, estaria o pae do noivo, se podesse
deixar a sepultura. Cobre-o um veu de luto.

A meio do banquete as dansas tornam a entranar os pares como grinaldas
vivas do festejo. Pelas portas abertas do alcacer enxameiam
incessantemente donas, cavalleiros e monges, convidados pela
hospitalidade quasi regia do rico-homem. As taas cheias de licor
espumoso correm de mo para mo. D. Ordonho, de p, ala a sua, e com a
fronte erguida brada:

-- paz dos christos!  ruina e confuso dos infieis! Uma longa
acclamao responde  sua voz: Assim findem todas as discordias entre
irmos!

Ainda no tinha pousado o vaso na mesa quando, voltando a vista, soltou
um grito. Os convivas olharam tambem e ficaram immoveis com as taas
suspensas.

No logar vazio destinado a honrar a memoria do pae de Ansures, appareceu
de repente um homem sentado. Vestia armas pretas com a viseira callada e
na cotta o aor bordado. Descalando o guante direito, e empunhando a
primeira taa cheia, ergueu-a lentamente.

--Bem fallado, conde Ordonho! (exclamou.)  paz da noute de S. Joo!..

No bebeu, derramou o vaso, e o vinho, maculando a toalha, tornou-se
vermelho e vivo como sangue. No sitio em que pousou a taa uma malha de
ferro em braza queimou a alvura do linho. Alou ento a viseira. Os
olhos, as feies o os modos eram exactamente os do cavalleiro
assassinado havia quatorze annos; porem os cabellos e as barbas brancas
lembravam, que por cima do seu corpo passra o frio da sepultura.

Alguns dos que o viram desejaram fugir, mas, petreficados por um poder
occulto, no poderam mover-se. O horror gelava a todos.


IV

Enterro por noivado

Aqui Fr. Munio fez uma pequena pausa. Depois proseguiu:

Dava meia noute. A sineta da hermida repicou tres dobres compassados. Ao
primeiro as dansas estacaram. Homens e damas, suspensos e petreficados,
ficaram immoveis como estatuas. Ao segundo os sons emudeceram nas cordas
das violas e alades. A ultima nota tremeu solitaria e reboou pelos vas
profundos das salas. Era surdo o sopro das trompas, e o canto dos
jograes transformou-se repentinamente em _dies ir_ que retumbou. Os
cabellos erriaram-se de horror. Ao terceiro dobre o castello tremeu e
vacillou dos alicerces, como se um terramoto o abalasse. Os eirados
jogaram, as torres inclinaram pendidas. E o cavalleiro negro? Ainda o
sino dobrava j tinha desapparecido. Que susto! Que pavor! Que immensos
clamores! Muitos intentaram fugir. Debalde! As portas, sem ninguem lhes
tocar, fecharam-se adiante d'elles. O portal macio gemeu nos quicios e
cerrou-se por si mesmo. Mos invisiveis alaram as dobradias.

Ai noute de S. Joo, noute aziaga! Valiam reinos os olhos que por amor
de ti choraram; a alcachofra benta ardendo no brotou a flor de
esperana; o palmito symbolico, em vez de rozas e de fructos, s ramas
de cypreste esfolhou sobre o leito do noivado. Nos paos do conde
ninguem se entendia. Estava sobre elles o poder do inferno. O suor frio
borbulhava nas faces dos cavalleiros, e o tremor dos mais ousados fazia
tinir a espada contra a espora. De repente raiou uma pluma de fogo na
escurido. Cresceu, alastrou-se e em breve as nuvens de fumo
enrolaram-se com as labaredas enroscadas nos grossos madeiros dos
tectos. Jesus! Acudi! O castello est a arder! Tudo isto se viu e se
obrou em um abrir e fechar de olhos. E as portas cerradas, e os eirados
to altos, e o fosso to fundo! N'este momento rompeu a lua outra vez o
toldo sombrio, que a velava, e o seu claro pallido lanou como um
sudario sobre o rochedo talhado a pique, que se aprumava a curta
distancia sobranceiro ao castello. As aguas, rebentando ali  sombra de
antigos choupos, ferviam de encontro s fragas, e despenhadas espumaram
batendo em caches no leito da ribeira, que l em baixo bramia
arremessada por entre a bronca penedia.

Aonde est D. Ordonho? Junto de Auzenda desmaiada! Com ella nos braos
por entre as chammas, que lhe crestavam o rosto, no correu, voou
baixando de andar em andar, at ao terreiro. Ahi, olhando, viu tudo
cerrado, as labaredas serpeando cada vez mais vivas e o castello pedra
por pedra quasi a desconjuntar-se. Os cavalleiros escondiam as lagrimas
envergonhados.

--Erusigis! Escudeiro!... A minha acha adamascada! clamou o senhor de
St. Olaia. Este pulso pode com ella. Nem diamantes a embotaram. Aqui
todos! gritou depois em grande brado.

Palpitou a esperana esmorecida nos peitos mais desalentados.
Ergueram-se as achas... Golpes de cem machados, rigor furioso de cem
robustos braos ferem a um tempo com ancia mortal a porta macia e
chapeada. O roble gemeu, o ferro chispou fogo, os gonzos tremem... Mas
nas taboas nem signaes dos finos gumes. Os machados, estalando, lascam
at aos cabos. Por cima do ruido das pancadas e do alarido das vozes
rompem risadas altas. D. Ordonho volveu os olhos. Na coroa do rochedo
campeia o cavalleiro negro. As aguas espumavam por baixo dos ps do
corcel; a mo direita brandia um facho; a esquerda s peava com as
redeas o cavallo preto, quasi no ar sobre o abysmo.

--Conde Ordonho! Esta fogueira faltava  tua festa do S. Joo. Accendi-a
eu. Pago as arrhas da formosa noiva.

--Maldito!...

--Esquecias j D. Pedro Ansures, morto por ti ha quatorze annos?! Chegou
o dia e a hora das ultimas contas. O sangue dos teus vingar o sangue
dos meus. Cumpriu-se o voto de Inigo Lopes.

Ditas estas palavras, como se o inferno as soprasse, as chammas em vagas
furiosas investiram o castello por todas as partes. D. Ordonho ajoelhou.
No hombro tinha reclinado outra vez o lindo corpo de Auzenda sem
sentidos. As faces desbotadas da donzella tocavam o rosto queimado do
velho; as tranas de ouro misturavam-se com as madeixas brancas; os
olhos languidos, em que expirava a doce luz da vida, cerravam-se
mortaes.

--Castigai-me, Senhor! bradava o conde, chorando como creana. O sangue
verteu-o esta mo culpada.... Feri a cabea do peccador saciado de annos
e de amarguras! Mas esta innocente! O que fez para acabar assim?...
Poupai-a em vossa justia!.

Dizendo isto apertava a neta contra o corao. O que no daria n'aquelle
instante o senhor de tantos vassallos e castellos por alguns palmos de
terra livre, por uma respirao pura da briza nocturna, que nos serros
vizinhos refrigerava as miserias do escravo?

O conde ergueu-se de novo. As almas viris podem vergar um momento, mas
no quebram... As maiores dores calaram-se diante da sua dr; o pranto
enxugou-se em todos os olhos; e os mais intrepidos estremeceram, vendo
passar muda e terrivel aquella vingana! Eil-o vai o velho fronteiro!
Nem capello de ao lhe cobre a fronte na, nem arnez lhe veste o peito
descoberto. Leva porem a morte escripta no rosto. O sombrio claro do
desespero reluz nas orbitas ensanguentadas. A voz emudeceu nos labios,
brancos e descorados. Deixai-o ir!  o castigo de Deus que se adianta!
Inclinai-vos!  o santo amor de pae que o inspira!

A aguia real no caiu logo. Varado o peito, sobe e perde-se nas alturas
para depois baixar inerte. Vai morrer longe da terra sobre as nuvens.
Que fogo ameaador na vista immovel! Que fria raiva no vo lento!
Guarde-se o falco. Primeiro perder a vida que o rei dos ares. Assim
era D. Ordonho!... A lua escondeu-se. A tormenta rugia ao longe. O vento
lastimava-se soturno. A distancia, nos outeiros e plainos, refletia-se o
claro avermelhado do incendio. O fumo em rollos salpicados de faiscas
estendia-se como toldo immenso. As aguas e o furaco confundiam os
bramidos. Os relampagos lambiam a crista dos montes. O trovo estourava
em estampidos medonhos.

A aza negra da tempestade varria a face da terra.... Que vulto 
aquelle, que as labaredas rodeiam emoldurando-o encostado ao arco no
eirado da torre Albarran? Fogem-lhe aluidas debaixo dos ps as lageas
abrazadas e no reca. Sobre a cabea crusam-se mil centelhas e no as
sente. Ao lado estalam e desabam os madeiros com fragor, racham-se e
abatem as paredes, e no as v! O temporal fustigando os cedros,
estronca-os; o raio, fuzilando, lasca os penhascos da montanha; as
torrentes, crescendo tumidas, inundam as margens como rios caudalosos.
Que escudo cobre, pois, aquelle homem que todos os perigos e horrores da
vida conjurados no o aballam? A desesperao! Que lhe importam ao
desgraado as ameaas do ceu, ou as ruinas da terra? Esconde no seio a
peior das mortes. Morrera em vida. O castello de seus avs ser o
sepulcro do ultimo descendente de uma grande raa.

Soltou por ultimo do peito um rugido immenso. A cr livida da ira
dava-lhe  face o aspecto de um cadaver. Encurva o arco, reteza a corda,
e a vista mede o espao. Ai do que aparar o tiro! A seta s espera um
aceno para voar sibilando ao seu alvo....

Tres vezes estalou o trovo, e tres vezes um lenol de fogo jorrou dos
ceus abertos. Soa distinctamente o galope de um cavallo. As ferraduras,
raspando as fragas, fazem saltar as faiscas umas atraz das outras. Armas
brancas, capello sem viseira, no peito o aor do Douro. Ser D. Moo
Ansures?  claridade dos relampagos,  luz do facho sacudido pelo
cavalleiro negro, viram todos o corsel do mancebo ennovelado sobre a
aresta do precipicio, quasi a escorregar pelas rochas aprumadas. Cavallo
e cavalleiro arquejam suspensos de um fio sobre o abysmo. O que Inigo
lhe disse, o que elle respondeu, ninguem o ouvio. O vento bramia forte.
Pouco depois descortinava-se D. Moo enristando a lana meio corpo
debruado para o precipicio, e o renegado arremeando o facho s aguas
para se rodear de trevas. O brao do Maldito alou de subito a espada e
o golpe descia j... quando uma seta passa assoviando. O mancebo vio
ento o seu inimigo rolar aos ps do ginete e logo apoz um corpo dobado
nos ares, resvalar, batendo nas pontas das rochas at se atufar
dilacerado e disforme nos caches da nascente, que espirram a grande
altura espuma e sangue.

Do castello, no eirado fronteiro, uma voz cheia e vibrante levanta
brados de triumpho, e por momentos avulta a estatura gigante do conde
Ordonho, cosida nas chammas, immovel e magestosa, com os cabellos soltos
ao temporal. Depois abateu-se a torre com grande estrepito, as
quadrellas alluiram-se, as traves accesas remoinharam e cairam, e entre
os destroos, como em leito tranquillo, o velho guerreiro adormeceu do
somno eterno. Honra ao que morre amortalhado em suas armas e envolto no
seu pendo! Ao cabo de sessenta annos de pelejas o fronteiro sepultou
comsigo a orgulhosa raa de riba d'Ave, e do seu castello s ficaram de
p aquella torre negra, que alem vemos, e a hermida aonde jazem os ossos
de Pedro Ansures.

--E D. Moo? perguntou Martim Paes.

--E Auzenda? acudiu D. Nuno.

D. Moo, cumprindo j de noute o seu voto, teve um presentimento, e,
cravando esporas no cavallo, despediu a carreira veloz por cabos,
fragas, e alcantis. J perto do castello, deu-lhe no rosto o claro do
incendio e viu-o arder. Apertando o corsel, correu como louco, e s
parou quando o facho do cavalleiro negro lhe cegou os olhos. O que
succedeu ento j vos contei. Apenas Inigo expirou, desfez-se o
encantamento. D. Moo buscou Auzenda. Encontrou-a, mas sem vida!
Levaram-a os monges  capella, puzeram-lhe na cabea uma cora de
cecens, e a terra comeu de quinze annos a formosura mais invejada das
Hespanhas.

D. Moo, desde esse dia, no viveu. A saudade matou-lhe a alegria, a
esperana, e a juventude. Nunca mais vestiu armas. O que iria pedir s
batalhas? A gloria? No tinha com quem a repartir. A morte? Para qu?
No a sentia j no peito? A liberdade da terra do seu bero? Ai! Nem
essa ideia mesmo podia fundir j os gelos d'aquelle corao!... Sombra
do que fra, o que fazia o desgraado n'este desterro cruel, sem
affectos, sem amigos, sem consolaes? Como o carvalho, que o raio feriu
na fora do crescimento debrua os ramos mirrados e se torce e definha
at cair, a dr e a memoria, verdugos implacaveis das existencias
desgraadas, minavam-lhe a vida, seccando-lh'a na raiz.

Sobre a madrugada o somno pousava-lhe a medo nas palpebras molhadas de
lagrimas. Ento a febre do delirio representava-lhe junto do leito a
doce imagem, que trazia no corao. Era ella! Via-a, como nos dias
ditosos. A mesma grinalda de flores do campo sustinha os cabellos louros
que fugiam em ondas; as mesmas roupas alvas desenhavam as formas
virginaes; nos olhos sempre a luz suave do amor, que o fizera to feliz;
nos labios aquelle sorriso em boto, que se abria casto como a rosa. O
mancebo queria estreitar a viso querida ao peito, e acordava, chorando,
porque s abrara o ar. N'este tormento agonisou por mezes at que
Deus, compadecido, lhe enviou a morte a um mosteiro humilde, aonde se
recolhera.

Quando o amortalharam, os monges acharam-lhe unido ao peito, sobre o
corao, um lao de cabellos; e no quarto de alva o frade, que ficra
orando a velar a tumba, contou depois que vira apparecer uma dama,
formosa como os anjos, e inclinar-se triste sobre o corpo. De dentro do
ataude saiu um brao, e ella, com a sua mo na mo do morto, passar-lhe
um annel no dedo e cingir-lhe a cora de boninas que trazia, na fronte
descorada. Um guerreiro de armas negras, e de estatura descommunal, por
tres vezes lutou para romper o circulo luminoso, que a rodeava, e outras
tantas, vencido por brao invisivel, se prostrou com a face no p do
templo. Eram as nupcias dos mortos, o noivado de Auzenda e de Ansures?
Era ainda a sombra de Inigo Lopes perseguindo na donzella o sangue
inimigo e a vingana contra o conde Ordonho? Altos mysterios de Deus.
Quem ousaria prescutar os segredos da sua justia, e os prodigios da sua
clemencia infinita?!




O CASTELLO DE ALMOUROL[1]

CONTO DO SECULO XVII


I

--Ai, Virgem Santissima! No ganha a gente para sustos! No bastava esta
praga dos castelhanos, que vem ahi, dizem, um poder do mundo d'elles
pelo Alemtejo abaixo?!  sr. Romo Pires, d'onde elles esto aqui 
nossa quinta  muito longe?

--No  nada perto, no, sr. Brizida de Sousa! Mas l diz o adagio: aos
que muito correm quebram-se-lhes as pernas... Socegue. O sr. conde de
Villa Flr anda com elles a contas e no  para graas.

--O sr. conde  muito bom senhor, bem sei, e de grande fama sempre ouvi
dizer... Mas se elle ficasse mal agora?

--Ficavamos ns peior, isso  verdade... Melhor o hade fazer Deus. Oh,
se meu senhor e amo fosse vivo!... No estava eu aqui posto ao canto
como um estafermo!...

--Ora no diga isso por quem . O sr. Romo j andou demais por essas
guerras e tragou bem maus bocados. Descanse, descanse, que o merece... O
que seria de mim ssinha n'estes palacios confusos, sem pregar olho ha
umas poucas de noites com medo... E que medo! Fantasmas e almas do outro
mundo!  sr. Romo Pires, diga-me: o demonio--salva tal logar--ter
poder de subverter comsigo no inferno corpo e alma uma creatura
baptisada e remida nas santas aguas?...

--Conforme! Se no estiver em estado de graa!...

--Credo! S. Braz e S. Joo! Meus ricos santos da minha alma, valei-me!
Subvertida em corpo e alma?! Deus de misericordia!... Sabe que mais?
Quero que me escreva j e j  sr. D. Magdalena, contando-lhe tudo
isto. Ella no pde consentir que a sua criada velha uma noite d'estas
desapparea nas garras do inimigo tentador do genero humano. Jesus!...
Diga-lhe que nos venha livrar d'este inferno, seno... eu c por mim
fujo! Primeiro a salvao da minha alma...

--Tambem eu no gosto nada d'isto, sr. Brizida. Mas animo forte e
corao  larga. O demonio parece que entrou de semana comnosco, e, pelo
que vejo, no leva geito de nos querer largar. Desde que viemos para
esta quinta...

--Desde que viemos... diz muito bem! Olhe, Brizida de Sousa me no
chamasse eu, se depois da primeira noite no mettesse um bom par de
legoas entre o demonio e quem se prsa de christ baptisada na freguezia
de Santa Catharina de Lisboa, nascida de paes catholicos, tementes a
Deus, e sem eiva, nem leiva de mau sangue!... Mas o amor, que tenho 
minha menina, coitadinha, tudo me faz supportar com paciencia... Espere!
No ouviu bulha? Assim a modo de ferros arrastados pelo sobrado?

--Nada. Foi cadeira, ou banco deitado no cho l em cima. De dia no 
que elles fazem das suas...

-- verdade. Guardam-se para a noite. Que noites, que eternidade de
noites, Senhor Deus de misericordia! Parece que nunca a gente lhes v o
fim. E que me diz ento a estas despedidas de maio e entradas de
junho?!...

--No so de convidar, sr. Brizida! Velho sou, mas no me lembro de
anno mais carrancudo. Chuvas, relampagos, troves e ventanias que levam
tudo pelos ares! Safa!

--E ns, coitados, n'este ermo, n'este desterro! Ai minha Senhora Santa
Barbara! se a tua serva e devota no deixa aqui os ossos, grande milagre
ser. Escute!... Agora no foi engano!... No ouviu risadas l em cima
no vo das casas?

--No  nada. So os rapazes do feitor jogando as escondidas.

--Pois, sr. Romo Pires, affirmo-lhe por minha alma, que em Lisboa,
quando minha senhora D. Magdalena me chamou e me disse: Brizida, a sua
menina anda fraquinha e enfezada, e o irmo tambem, os phisicos no
acertam com o remedio, e fr. Joo entende que estas tosses do peito,
assim teimosas, no se despegam seno com mudana de ares. Bem sabe, no
posso sair da cidade por estes dias mais chegados--e  assim, coitada,
por causa da sua demanda--acompanhe-me os meninos, e conte que fico to
socegada como se eu mesma fosse... Quando me disse isto, e eu lhe
beijei as mos pela merc, se podesse adivinhar o que nos esperava aqui,
asseguro-lhe que me encolhia como a tartaruga na concha; e viesse quem
quizesse... Isto no  palacio, nem quinta,  um verdadeiro inferno!
Deus salve a minha alma!

--A sr. Brizida no diz o que sente. Vindo a sr. D. Maria e o sr. D.
Pedro, ninguem a arrancava de ao p d'elles.

--Tem razo. Ninguem! A ella creei-a, mamou o meu leite, e sua me no
lhe quer mais, no, deixe-me ter esta presumpo... A elle vi-o nascer,
e os primeiros braos, que o embalaram, foram estes que hade comer a
terra. To pequeninos os conheci, e to formosos e crescidos os vejo
agora, que no me posso costumar a crer, que um dia hei de ter o gosto
de os abraar homens!... Quando me ponho a olhar para elles, parece-me
s vezes que no pde ser, e que tudo isto  sonho...

--Ento!? Elles fazem-se homens, e ns fazemo-nos velhos. No ha
remedio. O mundo vae assim.

--Bem sei. Mas, no os acha muito delgados, muito afinadinhos? Dizem que
 da edade e do muito crescer, e que ho de encorpar depois. Deus
queira! So os negregados estudos, que me ralam o corpo e a alegria dos
meus meninos. A sr. D. Maria manhs e tardes inteiras  almofada,
bordando de branco, de matiz, e a ouro. E com que perfeio!... Que
dedinhos de fada aquelles! E o sr. D. Pedro?  mesmo uma dr de alma
vel-o dia e noite amarrado  banca dos livros, e que livros! Latins,
gregos, e no sei que outras trapalhadas de _retroricas_... Quem tem a
culpa de tudo, o culpado de tudo o que pde acontecer,  o teimoso do
sr. fr. Joo, que  fina fora quer o sobrinho sabio. Depois que
falleceu o pae, (Deus o tenha em gloria!) no se nos tira de casa, e
tanto ha de quebrar-me a cabea ao meu menino, que um dia tresl. Pois
olhe, sr. Romo Pires, v com o que lhe diz uma ruim cabea: mais vale
asno vivo, que doutor morto.

--O sr. fr. Joo, atalhou Romo Pires, aproveitando uma pausa da sr.
Brizida,  muito bom tio, e desde que morreu meu senhor e amo tem sido
um segundo pae para os meninos. Quer os sobrinhos prendados e de grandes
merecimentos. No lh'o levemos a mal. Sangue illustre e bens da fortuna
possuem elles...

--Por isso mesmo! No precisava atanazarmos tanto! No m'os deixa
respirar. Mestres d'isto, mestres d'aquillo, musica para aqui, dansa
para acol... latins, _pholosophias_, ai, que barafunda! Nem eu sei como
as pobres creanas no teem endoudecido. C por mim j o miolo ha muito
tempo me tinha dado volta, to certo como chamar-me eu Brizida de Sousa.

--Ninguem aprende sem trabalho. O sr. fr. Joo no  nenhum nescio...

--Nem eu lh'o chamo. Deus me livre. Nescio?... No convento e na crte
dizem que no ha outro doutor como elle.

--Pois ento deixe-o, que bem sabe o que faz. Estes sobrinhos so a luz
dos seus olhos, e depois to meigos, to applicados...

--De mais, de mais, para a edade, sr. Romo Pires. Assustam-me. No
parecem d'este mundo, nem d'este seculo. O sr. fr. Joo  muito
extremoso, e o que faz  por desejar o seu bem d'elles, mas, graas a
Deus, a casa  rica e no era preciso amofinar-me tanto os meus
meninos...

O dialogo de que acabamos de ser fieis e escrupulosos expositores, era
travado em uma antiga sala, vasta e pouco allumiada por estreitas
janellas, cujas vidraas de postigo mal deixavam coar o dia. Das paredes
em reboco pendiam farrapos soltos dos pannos, que as tinham forrado. Em
outras partes as colgaduras adheriam ainda aos filetes, e representavam
em suas pinturas desvanecidas figuras descommunaes, debaixo de arvores
ans, e no meio de arbustos e flores monstruosas. Os tectos, cujas vigas
lavradas inculcavam a paciencia de um artifice do XV seculo, subiam a
grande altura, enegrecidos pelo fumo da immensa chamin de pedra, ornada
de lees de marmore nas bases, e rematada com um brazo de relevo alto,
orlado de ramos de silvas e amoras.

O sr. Romo Pires, escudeiro de quasi setenta annos de edade, enxuto de
carnes, e amarello como uma cidra, erguia-se direito e aprumado como uma
das faias mais direitas da quinta. Nascra e fra creado desde a
infancia n'aquella casa, e no conhecera nunca outros amos seno D.
Vasco, e D. Magdalena. Acompanhra seu senhor, assim lhe chamou sempre,
em todas as campanhas da guerra da restaurao, pelejando esforadamente
ao lado d'elle, e assistindo aos cercos e batalhas mais notaveis desde
1642. A historia dos perigos, em que se tinha achado, e a narrao das
proezas de seu amo, enfeitada de episodios e commentarios, serviam de
saboroso pasto aos seres da familia, obrigada a engulir como artigos de
f todas as aventuras da nova Tavola Redonda, que a imaginao do
escudeiro entretecia na tela interminavel de sua cansativa Illiada.

A sr. Brizida de Sousa, que to avexada ouvimos queixar-se das
apparies, era matrona de mais de cincoenta annos. Baixa, rolia e
risonha, suas faces lisas, cheias e coradas ainda tinham a frescura de
duas maans rainetas. As feies, pouco accentuadas, e quasi infantis,
sumiam-se entre as roscas das nedias bochechas, e os seus ares beatos
brigavam na candura affectada com uma larga experiencia da vida. Toda
aquella pequena e buliosa matrona respirava aceio, cuidado, devoo, e
azafama. Collaa de D. Magdalena, e casada com um dos caseiros mais
abastados do morgado, depois ama de leite da filha primogenita da casa,
enviuvra sem filhos, nem saudades do estado, resumindo todos os
affectos nos seus extremos pela fidalga, e na idolatria das duas
creanas, que trazia sempre na boca e no corao.

Trajava por costume roupas escuras. As toucas alvissimas, caidas talvez
de mais para a testa, e o crte dos vestidos  beguina, affirmavam o
programma da sua virtude inaccessivel. Supersticiosa, e com a memoria
recheada de oraes, de vises, e de devotas crendices, o seu defeito
capital era occupar-se muito com as vidas alheias, enfiando um rosario
de conselhos a proposito de tudo, e mexericando, por indiscreta, amos,
criados, e hospedes, mas sem inteno ruim. Todos se encobriam d'ella,
quanto podiam, porm ninguem a aborrecia. Temiam-se da intemperana de
suas confidencias, mas confessavam a bondade do seu caracter, que era na
verdade excellente.

Romo Pires, tirando a estafada repetio de suas campanhas,
representava em tudo o opposto d'ella. Srio, como um santo,
embizourado, e quasi sempre com a aguda barba escondida na gargantilha,
se levantasse a vista e a curiosidade para os negocios dos outros,
cuidaria faltar a Deus, a si, e ao mundo. Sua boca era sagrada, e
segredo que lhe caisse no peito ficava sepultado n'elle profundamente.

Apesar d'estas qualidades contrarias e talvez mesmo pelas possuir, era o
conselheiro nato da sr. Brizida em todos os casos intrincados, e o
defensor convicto dos seus mdos e indiscries.--Boa alma! Boa alma!
respondia aos que a censuravam. Tem o defeito de fallar de mais, mas 
uma santa pessoa.--Brizida pagava-lh'o. Para escutar a milessima edio
das guerreiras epopeias do escudeiro, at fazia o sacrificio de
suspender a loquacidade propria!...

O sr. Romo Pires, amortalhado na eterna roupeta e n'umas calas cr de
pulga, esguio, comprido, e hirto, com um par de oculos de azelha montado
no cavallete do interminavel nariz, no desabotoava a seriedade do
rosto, nem dava ferias ao enfado chronico seno para sorrir  sua
comadre Brizida. Aquelles olhos verdes desbotados no se animavam seno
para festejar algum bom dito da matrona, cujas fallas assucaradas
contrastavam com a voz rouca e soturna do antigo campeo da
independencia portugueza. A predileco honesta, mas decidida dos dois
um pelo outro, no escapra aos criados, e todos acreditavam que, cedo
ou tarde, o vinculo matrimonial ainda viria apertar mais estreitamente a
unio de duas almas j to intimas.

A quinta, em que residiam havia duas semanas, situada na margem direita
do Tejo, estendia as matas e charnecas at  ribeira, que separa Paio
Pelle da villa de Tancos, da qual a casa, construida sobre uma colina,
distaria pouco mais de dois ou tres tiros de espingarda. Era palacio
antigo, talvez fundado por meiados do seculo XIV, accrescentado, e
reparado pelos fins do XVI. As ameias, j derrubadas em muitos lanos de
muro, proclamavam a sua velha e legitima nobreza. Duas alas terminadas
por torres fortificadas em tempos mais remotos, saindo fra do corpo
principal do edificio, formavam os lados do espaoso terreiro, rasgado
diante da fachada, cujas doze janellas de architectura irregular olhavam
para elle. No terreiro se tinham jogado cannas e corrido touros nos
anniversarios festivos dos senhores.

A casa era antiga, como dissemos, e estava muito velha. Nas juntas e
articulaes das pedras carcomidas cresciam tufos de viosas
parietarias. Uma arcada sombria, sustida por grossas pilastras,
resguardava as entradas das duas escadas, que subiam em volta de caracol
at ao primeiro andar. Outra porta, por baixo do centro da arcada, dava
serventia por uma rampa para os subterraneos allumiados ao rez do cho
por agulheiros. No piso nobre corria uma fileira de salas nuas, frias e
tristes, lageadas de ladrilho. Sobre os corredores por onde o ar e uma
luz escassa a custo circulavam, abriam as alcovas suas portas
envidraadas. Seguiam-se muitos aposentos, mais ou menos escuros,
crusados de passagens, de escadas furtadas, e de portas falsas, compondo
desde o andar terreo at aos vos debaixo dos telhados, uma rde
inextricavel, um verdadeiro labyrintho. A casa de jantar, forrada de
carvalho em molduras, prolongava-se  maneira de refeitorio entre dois
extensos corredores. Na extremidade de um d'elles baixava uma escada
para o jardim, na outra empinavam-se os degraus da escada, que ia para
os vos, os quaes por cima corriam em largura e comprimento da casa. As
torres communicavam-se com o corpo do edificio por duas portas esguias e
abobadadas, aferrolhadas havia longos annos. Os eirados, meio abatidos,
vertiam-lhes dentro em torrentes as chuvas caudaes do inverno.

O jardim, ornado de canteiros e de poiaes azulejados, com um tanque de
pedra no meio, e um satyro hediondo entornando a urna desforme, creava
algumas roseiras e craveiros degenerados entre urtigas, papoulas, e
malmequeres bravos. As hortas mais cuidadas pegavam com as terras de
po, cingidas de vallados altos, defendidos com pitteiras. O aspecto do
palacio era carregado de melancholia. Rodeado de solido justificava em
sua tristeza as queixas, que ouvimos  sr. Brizida. Porque escolhera,
porm, D. Magdalena aquelle rmo para abrigo dos filhos e dos criados,
quando tinha tantas propriedades mais alegres e reparadas aonde podessem
respirar, longe do bulicio da crte o ar do campo?

D. Magdalena descendia da familia illustre dos Coutinhos Noronhas, de
que fra tronco e progenitor o marechal Gonalo Vaz Coutinho, senhor do
couto de Leonil, e meirinho-mr por el-rei D. Fernando na comarca da
Beira. Formosa, discreta e recatada, perdera seu marido, D. Vasco
Mascarenhas, mestre de campo dos exercitos de D. Joo IV e D. Affonso
VI, havia tres annos, e ainda no enxugra as lagrimas da viuvez. Em
edade de merecer e de acceitar requebros, tinha-se recolhido na sua casa
de Lisboa, aonde no recebia seno as visitas de alguns amigos antigos
da familia, guiando-se em tudo pelos conselhos de fr. Joo Coutinho, seu
irmo, grande sabio, e doutor em canones e theologia, o qual se
encarregra de dirigir a educao litteraria dos sobrinhos.

D. Vasco Mascarenhas, to distincto pelo nascimento, como pelas
qualidades do caracter e do espirito, unira s propriedades de sua casa,
j mui rica, o senhorio da villa de Paio Pelle e do castello de
Almourol, que sua mulher lhe trouxera em dote, mas quasi sempre occupado
na crte com os negocios politicos e no servio activo das armas, s
duas vezes visitra de fugida aquelle solar desamparado, que principiava
a cair em ruinas, entregando o grangeio das terras e a cobrana dos
direitos do donatario, com excessiva confiana, diziam os murmuradores,
 probidade equivoca do feitor Paulo Rodrigues, camponez avido e ladino,
que mais as disfructava como usurario, do que as geria como
administrador. Avisada de que o palacio e as fazendas se arruinavam
n'aquellas mos viscosas, D. Magdalena resolvera ver por seus olhos o
verdadeiro estado das cousas, na companhia de seu irmo, fr. Joo
Coutinho, ficando para depois decidirem ambos o que julgassem mais
conveniente.

Outra razo serviu de estimulo para a partida dos filhos da casa,
dissimulada com o pretexto da necessidade da mudana de ares. Antigas
relaes de parentesco ligavam a familia dos Mascarenhas com o segundo
ramo dos Noronhas, cujo opulento morgado possuia grandes bens na mesma
comarca, aonde existia o solar dos Coutinhos. O logar do Arripiado, que
to vioso beija as aguas do Tejo, defronte de Tancos, com dilatados
campos e charnecas, pertencia ao velho D. Nuno, cujo filho unico, D.
Affonso de Noronha, saira da crte para o exercito do Alemtejo. D.
Affonso, illustre pelo bero, e j illustre pelo valor, vira crescer em
belleza, primeiro com assombro, depois com paixo ardente, sua prima D.
Maria de Mascarenhas, e no encobrira de seu pae o amor, que ella lhe
inspirava. D. Nuno confiou este segredo  ditosa me, e ella, no
podendo desejar casamento mais vantajoso, nem mais da sua escolha, antes
de dar o sim, quizera, comtudo, sondar disfaradamente as inclinaes da
donzella. Conheceu com alegria, que D. Affonso comera a apoderar-se
d'aquelle corao, que em sua innocencia principiava a balbuciar apenas
as primeiras e vagas aspiraes de um sentimento, que no sabia definir
ainda.

Corria o anno de 1663. D. Joo de Austria,  frente das armas
castelhanas, tentra o derradeiro esforo, invadindo Portugal com
dezeseis mil soldados, e os nossos generaes, juntando as foras, mal
conseguiram oppor-lhe cinco ou seis mil. A cidade de Evora, que devia
ser um dos baluartes da resistencia, accommettida no dia 14 de maio,
capitulra, depois de pouco honrada defeza. Este revez aggravou os
receios, e as partidas de cavallaria inimiga chegaram a insultar
Alcacer. D. Sancho Manuel convocra immediatamente os officiaes a
conselho, e s um voto, o d'elle, approvra a conveniencia de ferir a
batalha, que as ordens do governo prescreviam como remedio extremo. A
pericia de Schomberg, temendo como inevitavel o desastre, viu n'elle o
ultimo precipicio da independencia; mas a feliz temeridade do conde de
Villa Flor, fechando os olhos  prudencia, applaudia o encontro decisivo
dos dois exercitos, como o unico meio, embora desesperado, de salvar a
provincia e o reino da sujeio estrangeira.

O povo de Lisboa, assustado, furioso, e alvorotado nas praas, assaltra
as casas de Sebastio Cesar, do marquez de Marialva, e de Luiz Mendes de
Elvas. A todas as horas se aguardavam noticias da marcha das tropas, e
todos tremiam. Um lance repentino podia sepultar para sempre as
esperanas de Portugal!

A filha de D. Magdalena, D. Maria de Mascarenhas, mais velha desoito
mezes do que D. Pedro, seu irmo, contava n'esta epocha dezesete annos,
e sem vaidade merecia ser admirada como uma formosura completa. Talvez
que o unico seno de tanta belleza fosse a sua mesma perfeio
irreprehensivel. No rosto, graciosamente emoldurado pelas luxuosas
tranas, confundiam-se os lirios e as rozas na mais mimosa frescura. A
bocca, fina e espirituosa, crada como um boto nacarado, breve como um
suspiro, quando o sorriso a animava, tinha uma expresso adoravel. Nos
olhos pretos, que as assedadas pestanas cobriam s vezes de uma sombra
de enlevada melancolia, a luz serena raramente se inflammava, mas sua
tranquillidade languida deixava adivinhar, que se a paixo dormia ainda,
facil lhe seria, despertando, illuminar de subito e vivo fulgor aquellas
pupilas descuidadas. A mo parecia formada pelo modelo de uma estatua
primorosa. O p estreito e arqueado pousava-se to leve e elegante, que
a vista como que involuntariamente se alava a buscar nos hombros as
azas da Silphide. A voz tinha condo seductor. A estatura, um pouco
acima de ordinaria, e flexivel como a hastea de uma flor, tambem se
dobrava como ella, parecendo que o esbelto corpo de melindroso no podia
com o doce peso da fronte, em que as mil graas da primeira enamorada
primavera competiam umas com as outras sem se vencerem.

As posies e os gestos em sua desafectada singeleza respiravam a
attraco, que o calculo debalde se esfora por imitar. Tudo desmentia o
arteficio. O requebro das maneiras, o imperio irresistivel da vista e do
sorriso, e a magia arrebatadora das fallas e do semblante, nasciam
espontaneos, prendendo os sentidos e a admirao. A formosura da alma
ainda era maior, se  possivel. O corao retratava-se na fronte
limpida, e os infinitos thesouros de ternura e de abnegao, que por ora
concentrava nos extremos de filha e de irm, quando se abrissem a
affectos mais vehementes, promettiam todas as venturas ao amor ditoso. A
pureza mais casta, a da ignorancia sublime da infancia, vestia-lhe de
candura todos os pensamentos. O pejo era n'ella to sensivel, que
affrontado no s faria corar o rosto, mas o corpo. Compassiva e
caridosa sabia conciliar a altivez do sexo com a brandura da indole a
firmesa da vontade. Os dotes do espirito esmaltavam as qualidades
moraes.

Talvez no houvesse na corte dama ou donzella to instruida na lio das
boas letras. Os melhores livros de prosa e as obras mais acceitas e
castigadas dos poetas portuguezes, hespanhoes e italianos, escolhidos
por Fr. Joo, eram a sua companhia certa nas horas de repouso.

D. Maria presava em D. Affonso de Noronha todas as distinces, que o
exaltavam. Valia menos, porem, a seus olhos a illustrao do bero, do
que a elevao do caracter e a fidalguia das aces, que em edade to
verde quasi o haviam tornado um paladino. No seria mulher, comtudo,
seno a confirmassem n'este juizo a presena insinuante do mancebo, a
gentileza do seu porte e a nobre expresso da sua phisionomia. Os olhos
da donzella, sempre pensativos, encontrando os olhos vivos e rasgados do
primo, aonde riam as illuses da vida e da juventude, nunca fugiam
d'elles, seno a furto, e as rosas mais accezas das faces confessavam o
que tentaria encobrir em vo se acaso soubesse dissimular. Nunca os
labios dos dois tinham soltado uma palavra, que revelasse o que sentiam.
Amavam-se. A alma de um trazia sempre gravada a alma do outro, mas s a
eloquencia da vista, indiscreta s vezes, traira o segredo. D. Affonso,
no podendo por mais tempo calar a chamma, que o abrazava, tinha
declarado ao pae, momentos antes de metter o p no estribo e de partir
para a campanha, que este amor encerrava todo o futuro de suas
esperanas, entregando-lhe a sorte d'elle. Sabemos que D. Nuno no
perdera a occasio, e que D. Magdalena applaudia o enlace proposto.

A chegada repentina dos filhos de D. Magdalena, da aya e do escudeiro,
com alguns criados velhos, colheu de sobresalto o feitor Paulo
Rodrigues. Tomado de subito o manhoso camponez, soubera disfarar o
embarao e as apprehenses, mas custara-lhe a conformar-se com a
presena dos amos na casa, que havia tantos annos estava costumado a
olhar mais como sua do que d'elles. Mandou varrer e aceiar  pressa duas
salas e algumas alcovas do andar nobre, para os hospedar, recolheu a
mulher e os filhos nos vos do palacio, e ainda se lhe carregou mais a
viseira quando soube que a senhora e Fr. Joo Coutinho poucos dias se
demorariam atraz da familia.

No primeiro dia reinou profundo socego, mas na segunda noute, mal a
ultima pancada do sino batera as doze horas, romperam as diabruras nos
quartos da aya e de Romo Pires. Apagaram-se todas as luzes de repente
por si mesmas. Estalaram nos corredores risadas infernaes. Soaram ruidos
de ferros e cadeias arrastadas. S ao alvorecer  que tudo desappareceu.

O escudeiro, lembrado dos antigos feitos, apesar do tremor, que lhe
sacudia os membros, quiz fazer e fez cara feia ao demonio. Na terceira
noute levantou-se da cama, engrolando Padres Nossos e Ave Marias,
petiscou lume, accendeu uma vela, abriu a porta de manso e saiu ao
corredor, quasi em vestido de banho, mas com a comprida espada nua
debaixo do brao. Depressa se arrependeu. Aos primeiros passos um sopro
forte apagou-lhe a luz, bramidos roucos e proximos gelaram-lhe o sangue,
e um claro momentaneo e sulphurio mostrou-lhe, envolto no sudario, um
spectro descummunal e ameaador.

Esta horrenda viso deu-lhe com os brios em terra; e, virando costas ao
inimigo, logrou refugiar-se no seu catre com a cabea debaixo das
roupas, acto de valor, em que a sr. Brizida de Sousa o acompanhava
conscienciosamente havia muitas horas. Pela manh os dous velhos
pareciam desenterrados.

O aposento aonde D. Maria de Mascarenhas dormia e uma criada, no foi
mais respeitado, e a donzella, transida de susto, contou em vigilia
continuada as longas horas, que medeiaram at ao amanhecer. D. Pedro
ainda padeceu mais. Acordando sobresaltado ao impulso de mos brutaes e
no meio de escurido profunda, sentiu-se arrancar do leito e balouar
dentro das cobertas entre uivos e rizadas.

Paulo Rodrigues, pelas oito horas veio saber da saude dos amos, e,
ouvindo da sua bocca a lastimosa historia dos tormentos e perplexidades
nocturnas, contentou-se com encolher os hombros, e observou serenamente,
que em vida de seu pae, j tinham muito m fama as casas do andar nobre.

As noutes seguintes no foram mais tranquillas. Os espectros e duendes
tinham de certo reservado aquellas espaosas salas, e os corredores,
para theatro de suas diabruras. Dir-se-hia at que o tempo conspirado
com elles os ajudava a augmentar o pavor dos hospedes. Rebentaram as
trovoadas de maio to carrancudas e violentas, que os ceus se abriam em
relampagos, e a terra tremia com o rebombo dos troves. As chuvas caiam
to impetuosas que as estradas ficaram convertidas em leitos de
torrentes e as terras baixas em lagoas. O Tejo, cheio e empolado,
alagava as margens, e suas aguas batiam enfurecidas contra os penedos
sobre que se ergue o castello de Almourol, salvando por cima do caes em
caches de espuma. Ao oitavo dia acalmaram-se as tempestades, mas
redobraram de fora os maleficios nocturnos, com terror, e espanto summo
dos recem-chegados.

Avexados, tremulos e fra de si, reuniram-se todos e determinaram mudar
a residencia para os aposentos do castello, que no tinham desabado
ainda minados pelos seculos e pela indifferena; mas o feitor, que
estabelecera n'elles uma filha casada, dissuadiu-os do proposito,
ponderando que as salas e os quartos do velho edificio dos Templarios,
alem de frios e de mais nus, que os do palacio, no eram menos
perseguidos de vises. Por horas mortas, exclamou elle, as almas dos
cavalleiros tornavam aos sitios, aonde tantos annos os corpos tinham
vivido. Nas guaritas de pedra, pelo adarve das muralhas, e nas salas de
abobada, espectros cobertos com o manto branco, ornado da cruz vermelha
da famosa milicia religiosa, appareciam repentinamente, e no silencio da
noute sentia-se o tinir das grevas e sapatos de ferro sobre as lageas e
ouvia-se a voz das sentinellas. At raiar a aurora no se calavam na
sala de armas as vozes, as rizadas, e as blasfemias. Escutando esta
descripo horrifica, Brizida de Sousa e Romo Pires olharam
consternados um para o outro, e depois de se persignarem devotamente,
no querendo precipitar-se de Scylla em Carybdes, preferiram supportar
as travessuras menos estrondosas dos duendes da quinta. Escreveram
entretanto a D. Magdalena, pedindo-lhe que os tirasse d'aquelle
purgatorio o mais cedo possivel, ou que viesse sem demora em companhia
do Sr. Fr. Joo desalojar os espiritos diabolicos, cuja audacia zombava
da agua benta e exorcismos do Vigario de Tancos. Os dous honrados servos
confiavam que a grande sciencia do frade doutor e as virtudes do habito
de S. Domingos sairiam victoriosas com certeza da rebeldia de Satanaz e
da maldade dos seus accessores.


II

Em 1663 campearam ainda intactas as muralhas, as torres, e a crca
exterior da fortaleza reconstruida no anno de 1170 por D. Gualdim Paes,
defronte de Tancos.[2] Cinco seculos, passando por cima d'ellas, no
haviam desconjuntado as quadrellas gigantes, nem alluido o cimento
indestructivel, que mesmo ainda agora parecem desafiar a aco do tempo
e o brao infatigavel dos demolidores. A ordem do Templo, transferida de
Castro Marim para Thomar, a sde da sua victoriosa milicia, estendera
rapidamente pela Estremadura os membros robustos. Affonso I,
liberalisando-lhe doaes e privilegios, e enriquecendo com largos
senhorios os monges soldados, confira quasi exclusivamente ao seu valor
a guarda e defeza dos territorios conquistados n'ella. Ega e Soure,
Pombal e a Redinha hasteavam as cores do Templo. A Cardiga, Ceras, e
outras povoaes, cobriam-se tambem com as dobras do famoso estandarte
bipartido[3]. As chaves das duas entradas da provincia estavam nas mos
dos cavalleiros. Defronte da moderna Constana, na confluencia dos dois
rios, o castello do Zezere cortava o passo aos agarenos da Beira Baixa,
em quanto, surgindo do meio das aguas, o castello de Almourol fechava o
caminho aos walis do Alemtejo e da Andaluzia.

As ruinas, que vemos hoje debruadas sobre o rio, contam aos que sabem
interrogal-as mais de uma pagina da epopeia portugueza. Assentada sobre
um ilheo quasi oval de rochedos sobrepostos, amontoados talvez ali
caprichosamente pelo impeto de violenta irrupo vulcanica, as elevadas
torres do velho castello, que as voltas do Tejo ora encobrem, ora deixam
descortinar de longe, erguem-se mutiladas e enegrecidas pelo halito
mirrador dos seculos. Grinaldas de heras penduram-se em festes das
ameias desmoronadas, ou se arraigam em tufos virentes nos intersticios
dos pannos rotos das muralhas. O arrojo d'aquelles penedos, to
arremessados que o dedo de uma creana parece sufficiente para os fazer
escorregar com o muro que os cora, para o leito do rio, espanta os
olhos sobresaltados d'aquelle equilibrio ousado e quasi milagroso.
Areias accumuladas, e alguma terra de alluvio formam o solo, aonde
cravam as raizes os choupos, os salgueiros e os chores, cujos troncos
torcidos se penduram de cima das fragas at roarem as aguas com as
ramas descabelladas. Piteiras enormes orlam em algumas partes os
penhascos aprumados, ou rebentam das fendas das rochas meio
precipitadas. Uma vegetao activa e luxuosa veste de verdura aquelle
cahos de moles immensas sustidas ha seculos no meio da ameaa constante
de uma quda instantanea.

No anno em que passaram os successos, que refere esta veridica historia,
o aspecto do sitio era sim bronco e alpestre, como a natureza o formou,
mas a assolao no o havia visitado ainda, agravando-lhe a melancolia.
Do lado do occidente quatro torres circulares, levantadas como
sentinellas de granito a egual distancia umas das outras, alavam as
frontes torvas e j tostadas do tempo. Entre a segunda e a terceira
rasgava-se a porta actualmente intransitavel do castello, com a sua
volta de ogiva e grossos batentes de castanho chapeado. No meio do
guerreiro edificio avultava a torre de menagem, e logo adiante, em curto
intervallo, outra quadrada tambem, com os eirados cingidos de ameias.
Uma janella ornada de lavores em ramos, aberta a dois teros da altura,
esclarecia os aposentos do segundo piso, em quanto da parte oriental
duas frestas do mesmo estyllo davam claridade  sala de armas. Cinco
torres guarneciam o lado do nascente. Ahi a muralha subia a grande
altura, acompanhando as sinuosidades do terreno. O caes ficava ao sul, e
o fosso natural, que rodeava os muros, agora cego de entulho, corria
profundo e despenhado. No interior da fortaleza, aonde tudo hoje so
ruinas e pedras soltas, enroscadas de ervas e de silvas, e aonde os
cactus silvestres brotam gigantescos, era o pateo espaoso por onde se
entrava para os andares. Raras e esguias frestas allumiavam aquelles
aposentos, pouco espaosos, mas enfeitados de altas e ricas laarias. Em
1663 a obra da destruio principiava a annunciar-se apenas. Apesar de
nuas, as salas ainda conservavam sua bellesa severa, e nos eirados e
adarves, se no alvejava havia mais de tresentos annos o manto branco
dos templarios, se algumas heras, trepando, se balouavam  merc do
vento, e se as torres e muralhas mostravam j a cr adusta, que  para
os monumentos o que so as cs nos velhos, um testemunho irrecusavel de
que viram e viveram muito, no se tinham esmorecido, comtudo, nem
apagado ainda nenhuns dos vestigios dos grandes dias de lucta. Almourol
no meio do Tejo, similhante a um tito com metade do corpo fra das
aguas, ainda podia ameaar forte e intacto, os que ousassem arriscar-se
ao alcance de seus tiros. Firme e inexpugnavel cuidava no vigor de sua
robusta velhice zombar dos seculos, como as creanas zombam dos annos,
bem alheio de suppor, que na transio da edade grave para a decrepidez
sua decadencia seria rapida, e que, espectro de granito, suas ruinas
diriam s geraes indifferentes da nossa poca, que eterno e grande s
 Deus!

Em uma das salas baixas da velha torre de menagem, toda de abobada, e
ornada de mobilia rustica, estavam assentados, um defronte do outro, os
dois ricassos da terra, ligados pelos vinculos do parentesco, e mais
ainda pelas raizes de interesses reciprocos. O feitor Antonio Rodrigues
ajudava piedosamente seu genro e consocio Pedro Lavareda a ingorgitar
copiosas libaes de um vinho, que escaldaria outras goelas menos
estanhadas. Sobre a grande mesa de pau santo e ps torneados, que servia
de altar aos dois zelosos sacerdotes do Bacho d'aquelles contornos,
avultava um alentado cangiro de barro, bojudo, e cheio at  boca.
Principira a anoutecer, e uma candeia enorme de tres bicos, similhante
a monstruoso aranhio, allumiava a casa escassamente. Duas espingardas,
carregadas e engatilhadas, jaziam ao canto, promptas para servir 
primeira voz.

Antonio Rodrigues era corpulento, espadado, e reforado. Faces largas e
cheias, bastante rolias, pescoo curto e taurino, cabea enterrada
entre os hombros, peito amplo e bombeado, e pernas grossas e firmes
denunciavam n'elle o vigor de um atheleta unido a uma saude
inexpugnavel. Inculcava apenas sessenta annos, mas os visinhos do seu
tempo punham-lhe mais dez sem receio de erro, e acertavam. Mas era uma
velhice verde e jovial, que no se inclinava ao peso dos annos, que o
trabalho no desfallecia, antes reanimava, e que promettia, assim viosa
e robusta, chegar a um seculo completo, rindo-se dos catharros, dos
rheumatismos, e ainda mais da apoplexia fulminante prognosticada pelo
douto Esculapio, o licenceado de Tancos, seriamente amuado por nunca ter
de receitar nem um xarope quelle cliente invulneravel s chuvas, aos
frios, e a todas as temeridades, a que um mancebo se no atreveria
impunemente!

Antonio Rodrigues trajava  camponesa, com aceio, mas sem basofia. Gibo
e calas de baeta escura, carapua de l, e o inseparavel varapau
ferrado na ponta constituiam o uniforme do activo Triptolemo. Uma grenha
de cabellos grisalhos, crespos e bastos, descia a affrontar-lhe a testa,
pouco sulcada de rugas. O sorriso enroscava-se perenne nos beios
grossos e crados. Conservava intactos ainda, e brancos de jaspe, como
os de um tubaro, todos os dentes. A barba baixava em andares sobre o
peito, e os olhos castanhos, pequenos, e maliciosos, afogados em
gordura, dir-se-hiam que espreitavam tudo, meio encobertos. A voz
aflautada causava espanto saindo d'aquelle corpo. Finalmente, o nariz
grosso e cravejado de botes vinosos, rubros como rubins, assumia
dimenses quasi phenomenaes. A expresso da phisionomia era dubia. O
observador no primeiro relancear apenas notaria a beatitude do comilo
repleto e do bebedor insaciavel. Attentando melhor, e, comparando o
olhar, o gesto, e o riso mudaria porem logo de conceito, divisando
debaixo d'aquella mascara de Sileno herculeo as feies moraes
significativas da astucia, do egoismo brutal e desentranhado, e de uma
cubia incapaz pela avidez de transigir com a honra, com a consciencia e
com o dever.

Pedro Lavareda representava o antipoda de seu digno sogro e tio quanto
aos dotes physicos. Um hellenista contemplando-os, tomaria um pelo
alpha, e o outro pelo omega. O genro, magrissimo, quasi esqueleto,
assustava os que o viam com o receio de que um dia lhe saltassem os
ossos das tibias e dos femurs soltos das ligaduras. Braos de polipo,
terminados por mos e dedos eternos, hombros agudos sobre os quaes o
fato dansava como posto em cima de um cabide, rosto comprido,
escaveirado, e macilento, acompanhado das melenas esguias de um cabello
ruivo e aguado, testa na que chega quasi  nuca, peito e ventre
espalmados, olhos vesgos, tortos, encovados, mas vivos ou surrateiros,
boca rasgada quasi at s orelhas, e beios finos e desbotados,
compunham a lugubre, carrancuda, e exotica pessoa do lavrador mais
atilado, avarento e sem escrupulos d'aquellas immediaes. Parecia fraco
e a desfazer-se; mas as pernas delgadas, como fusos, podiam andar
legoas, os braos escamados encobriam uma fora alem do commum, e os
olhos vesgos s viam torto para os negocios alheios.

Retrato vivo do aspecto mortificado de um franciscano penitente, o
velhaco ria-se tanto para dentro como o feitor Antonio Rodrigues se ria
para fra. Uzurario de nascena, hypocrita por indole e verdadeira
voragem de liquidos e solidos, digeria como um abestruz e bebia como um
areal. Quando conversava, sempre em fallas manas, sabia chamar a tempo
uns frouxos de tosse e umas lagrimas de defluxo, que o ajudavam muito a
engulir metade, e s vezes duas teras-partes das palavras, e  inutil
accrescentar, que as palavras engulidas eram sempre as que o podiam
comprometter ou aproveitar aos outros. Quando o caso o requeria, Pedro
Lavareda, o valetudinario sadio, convertia-se n'uma cascata de prantos.
Tinha as glandulas lacrimaes devassas e chorava como um crocodilo. Ai
dos innocentes que se deixavam orvalhar e amolecer por elle!... Ficavam
quasi sempre sem camisa. No meio d'aquelle rosto afiado erguia-se um
promontorio immenso. Era o nariz adunco e aguado na ponta, que descia
quasi a beijar o labio superior. Este nariz, delgado e membranoso,
rematava a semelhana que tinha aquella cara com o focinho da fuinha.
Esquecia notarmos que Antonio Rodrigues exercia com applauso geral as
funces de procurador de dous conventos de freiras, de quatro
irmandades, e que seu genro accumulava com outros arrendamentos
lucrativos a arrematao dos dizimos e premicias da comarca.

--Os de Payo Pelle pagaram por fim? perguntou o feitor ao genro pousando
o caneco despejado em cima da mesa.

--Com lingua de palmo. Elles conhecem-me, sr. tio! respondeu Pedro
Lavareda com um sorriso avinagrado.

--Bem bom!... Sabes o que me d cuidado agora, homem?  esta gente aqui
mettida. Tomara vel-os pelas costas.

--Pois acabe de os empurrar para a rua, que no deixam c saudades!
redarguia o outro com meio sorriso acido.

--Isso  facil de dizer, mas... Ao cabo de tudo, Pedro, bem vs, os
donos da casa so elles!...

--Que vo comendo as rendas e que nos deixem. To ms so ellas!...

--Hum! Podiam ser melhores... Esse  o meu receio. Trazemos isto muito
de rastos, Pedro, e alguma lingua ruim lh'o disse j ou lh'o ha de
dizer.

--Invejas! fallatorios!... acudiu o genro entre dous frouxos de tosse.

--Pois sim!... Olha, no seria melhor offerecermos um nadinha mais pelas
terras e ficarmos com ellas de pedra e cal, do que arrebentar-nos a
castanha na boca uma d'estas manhs?!

--Nanja eu, tio! Sangue ninguem m'o tira  boa feio, e o dinheiro 
sangue...

--Mas homem!?...

--Deixe l, sr. sogro, no se metta a abelhudo aonde o no chamam, e
deixe ir a agua ao moinho. J alguem fallou em lhe levantar a renda da
alcaidasia?...

--No.

--Pois no faa andar o carro adiante dos bois, e corao  larga. O que
for soar.

Houve um minuto de pausa. Antonio Rodrigues coava a nuca com o
indicador e o dedo mdio da mo direita por baixo da carapua, e rufava
sobre a taboa da meza com todos os dedos da mo esquerda. As roscas da
barba sumiam-se-lhe na golla alta do gibo, e os olhinhos, homisiados
entre as palpebras meio cerradas, luziam vivos e scintilantes como os do
gato matreiro que espreita a presa. Pedro Lavareda, menos apprehensivo
na apparencia, limpava os olhos chorosos com um quadrado de panno de
linho, em quanto a unha tigrina de um dos dedos da outra mo raspava uma
nodoa conhecida e teimosa do calo sobre o joelho. Ambos meditavam e se
entendiam sem fallar. O feitor de repente levantou meio corpo de cima do
mocho de pinho em que se assentava, colheu o cangiro pelas azas,
sopesou-o por um instante, e emborcando-o, encheu os dous canecos de
loua. Levou depois o seu  boca, encurvando lentamente o brao, e
despejou-o em poucos sorvos, emquanto o sobrinho, coleando primeiro a
lingua pelos beios, libou com mais vagar e com gestos de amador
consumado o nectar, que espumava na grosseira taa.

--Rapaz, isto no vai bom!... tornou Antonio Rodrigues com um suspiro.
Anda mouro na costa, que eu bem o sinto e c sei os botes com que me
abotou-o. Esta gente de Lisboa aqui no gosto nada d'ella.

--Ora, tio deixe-se de scismas!... De que tem medo? A aya  uma tonta,
uma pga douda. O escudeiro no passa de um espantalho de pardaes, e os
meninos.... leram tanto que tresleram. Mostre-lhes um campo de cevada
nascida de oito dias e ver se no lhe dizem que  trigo.

--Mas atraz da pga e do espantalho tenho muito medo que venha o
milhafre!...

--Qual milhafre?!...

--O frade!... murmurou o feitor em voz abafada e com signaes de
verdadeiro susto.

--E ento se vier?!... L no seu breviario! O Sr. Fr. Joo Coutinho sabe
muito de leis e de casos, mas de lavouras no creio...

--Nisso te enganas.  capaz de dar sota e az ao mais pintado!. Creou-se
no campo e administrou muito tempo os bens do convento.

--Ah! Ah!...

--E tenho meus longes de que, mais dia menos dia, ahi o temos pela pra
com a Sr. D. Magdalena.

--Mau ser!... rosnou entre dentes o sobrinho declarando com a unha do
polegar crua guerra a uma verruga, que lhe ornava a ponta do nariz. Mu
ser, tio!.... Mas no havemos de perder o somno por isso. Dizia no
mosteiro, aonde me ensinaram, o padre mestre Fr. Hilario, que para todo
o genero de peccado deixou Deus remedio na sua egreja...

Houve nova pausa. Os dous olhavam um para o outro calados mas pouco
satisfeitos.

--Ento que dizes, homem?!..

--Se o frade vier....  pl-o ao fresco, em vinte e quatro horas.

--Ests mangando, sobrinho?!.. Pl-o ao fresco? O irmo da senhora, o
tio dos meninos?!...

--Tal e qual. Nem mais, nem menos!! Sacudil-o e depressa.

--Ora! Bugalhos, sr. meu genro!... Sacudil-o?!. Como?...

--Mettendo-lhe medo.

--Ao sr. Fr. Joo, que  rijo como ferro e valente como as armas?!.. Vai
dormir, Pedro, isso  somno.

--Sim sr., metter-lhe medo, porque no?...

--Com as almas do outro mundo, aposto, como tens feito  lambareira da
aya e ao nescio do escudeiro? atalhou Antonio Rodrigues com uma rizada
de escarneo.

--Com as almas do outro mundo, sim senhor!... Cuida que o frade no
foge?... Hade vel-o em camisa no pateo, mais branco do que os lenoes da
cama.

--Deixa-te de historias, Pedro!... As vises com o frade no pegam. O
que apanhas  algum tiro.... e olha que  caador que no erra.

--Pois deixe-o ser. Fico por mim. Entregue-me o negocio, e ver....

--Emfim, l sabes as linhas com que te coses... Mas toma sentido comtigo!
O frade  ladino, sei que vem desconfiado de ns, e tenho muito amor 
pelle.

--Socegue. Eu tambem no tenho odio  minha. Diga-me: se Fr. Joo vier,
aonde o mette?

--Aonde o metto?!.. Porqu?

--Preciso saber.

--No quarto verde talvez...

--Nada! D-lhe o quarto dos armarios.

--Mas!...

Houve outra pausa. O feitor olhava suspenso coando sempre a nuca. O
genro ria-se para dentro, raspando a nodoa do calo.

--Tu no me dirs o que intentas fazer, Pedro? Tenho medo de ti e do teu
risinho.

--Pois no tenha. Hade tudo correr como um brinco, louvado Deus e sua
me Maria Santissima.

--Mau!... Se me resmungas nomes de santos temos maroteira e grande!...
Pedro!... Toma cuidado! Nem uma beliscadura, nem uma picada de agulha no
sr. Fr. Joo.... No  por elle,  por mim. Nada de graas pesadas! No
me quero ver na cadeia comido de ps e mos. Leve antes a brca as
terras.

--Ai, tio!.. No se faa teimoso, e no esteja calumniando as minhas
intenes.. Valha-me a Senhora Sant'Anna.

--Mau! Tornas aos santos!... Que  isto?...

--So passos.

--E vozes... Chega  fresta e v!

Pedro Lavareda obedeceu.

Um vento rijo e chuveires puxados com fora bateram-lhe na cara, apenas
abriu o pesado caixilho, e arriscou a cabea para espreitar o que se
passava no rio. O devoto personagem recolheu  pressa o interminavel e
esganado pescoo, rosnou duas interjeies apimentadas, e, enrolando um
leno por cima da gola do gibo, tornou a affrontar, porem mais abrigado
d'esta vez da furia do aguaceiro. Decorridos instantes de attenta
observao, metteu-se para dentro, cerrou o caixilho, e veiu sentar-se
defronte do tio, com os sobr'olhos e a bocca franzidos. Trazia estampada
no afunilado rosto uma verdadeira elegia.

--Ento?!... disse o feitor j sobresaltado com a mimica tetrica do
sobrinho.

--Fallai no mau, apparelhai o pau!...  o frade!..

--Hein!? bradou Antonio Rodrigues, pondo-se de p de um pulo e
enterrando a carapua at aos hombros. O frade?!.

--Em corpo e alma! Escripto e pintado!... Tem razo, tio. Anda mouro na
costa.

--Vem a Senhora D. Magdalena?...

--No. Vem elle s. Isto leva agua no bico, sr. meu sogro.

--No te dizia eu, Pedro?... E agora?...

--O dito, dito. Contas com Jorge e Jorge na rua.

--Sabes que mais, homem? Vai-me cheirando tudo isto muito a chamusco.
No gosto nada da vinda do sr. Fr. Joo assim com este segredo....
Receio....

--_Valaverunt galhetas_, sr. meu tio! como ns diziamos no convento!...
O caso est feio, e d'esta vez a raposa bem podia ficar sem rabo!..
melhor, porm, o ha de fazer Deus e sua Me Maria Santissima, minha
madrinha!... Primeiro do que tudo enxuguemos outro caneco. Este bom
vinho alegra a vida e faz crear alma nova. Bom! Agora, a p! V receber
o sr. Fr. Joo, que ha de vir cansado e aborrecido da jornada.

--E tu?...

--Eu... Fico para pr em ordem umas cousitas. Escute, meu tio! D ao sr.
Fr. Joo o quarto dos armarios.  essencial.

--Porqu?...

--Pela bocca morre o peixe!... Depois ver. Adeus! No faa esperar sua
reverendissima e encommende-me nas suas oraes  minha devota Senhora
Santa Anna...

--Mau!... Ahi tornas tu com a ladainha dos santos!... Pedro!... Olha
l?.. Cuidado com a pelle do sr. Fr. Joo!

--V descansado, tio, no hade haver novidade. Vem ceiar?

--Venho.

--At logo.

E os dous consocios e parentes separaram-se.


III

--Com que ento solto anda o demonio por estes palacios confusos, e
afllictos nos vemos com as suas diabruras, Brizida de Souza!?.. Muito me
contam! Mau  isso!... E voss que diz, Romo Pires? Parece ainda mais
pasmado do que esta boa velha!... Vamos l, sr. Antonio Rodrigues,
diga-me: aonde  o quartel general de Belzebut? Ha de saber de certo. 
de casa!

--Eu, sr. fr. Joo!... Sei s que no se pde parar aqui da meia noite
em diante!..

--Ah! sabe isso!?... Ja no  pouco! Pois eu lhe digo: cuidei que sabia
mais. Acho-o to rolio e anafado, que vejo que engorda com os sustos.

--O sr. Fr. Joo gosta de brincar, mas em passando uma noite aqui!...

--Ai, meu Jesus da minha alma! Anjo bento de Nossa Senhora
Apparecida!...  da gente botar a fugir, ou de perder o juizo! exclamou
a sr. Brizida, pondo as mos.

--Ento o sr. Antonio Rodrigues cr que esta noite haver ensaio geral
de Satanaz e da sua crte, para festejarem a minha chegada?... Muito
bem! C estamos. _Cor contrictum et humiliatum deus nom despiciet!_
Pelejaremos com as armas espirituaes, que so as melhores, e com as
temporaes, que tambem servem em certas occasies! Mas como vamos de
ceia?.. No barco o mau tempo fez-nos jejuar, e sinto-me capaz de tragar
um carneiro assado! E o vinho, aquelle bom vinho de 1655, ainda haver
por c uma gota d'elle? Ha de haver. O sr. Antonio Rodrigues, o melhor
copo de Tancos e seus arredores, aposto que no est desprovido de
munies de guerra?

Antonio sorriu e coou a nuca.

--A ceia est ao lume, e no se demora tres credos. Quanto ao vinho....
esteja vossa reverendissima descansado.

--Sempre estive. Diga-me, Brizida, achei muito pallida a sr. D. Maria.
Ella tem passado peior?...

--No, sr.! Peior no. Mas, com o susto d'estas noites sem somno, a
minha rica menina tem perdido as cres. Ella  to delicadinha, to
fraca!..  sr. fr. Joo, a menina no podia ler um nadinha menos, mais o
sr. D. Pedro, e respirar mais algum ar em Lisboa?

--No pode, no senhor!... acudiu o frade em voz de trovo. Meus
sobrinhos no se educam para espantalhos de sala!... E voss  muito
atrevida em se metter a dar conselhos aonde a no chamam!...

--Ai doce Jesus do meu corao! Que disse eu para ouvir uma repostada
assim?!.. Sabe que mais, sr. fr. Joo? No sou moura, nem perra, nem
captiva. Po em toda a parte se come; e se no fosse o amor dos meus
meninos, por esta (e beijou os polegares em cruz) que no aturava uma
hora mais n'esta casa!

--Est bom, Brizida de Souza, est bom! No se inflamme. Sabe que a
estimo, que todos em casa lhe queremos muito.... mas no me toque n'essa
crda. Sei que me acusam de apoquentar os pequenos com os estudos, e que
elles no teem uma tosse, uma febrita, de que se no torne logo a culpa
aos meus livros!...

--Vale mais asno vivo, do que doutor morto! resmungou a velha ainda
irada e incorregivel.

--Mas eu  que no quero na minha familia asnos.... vivos, ou mortos,
mulher!--bradou o frade fazendo-se cr de purpura e sorvendo duas
pitadas com o ruido de um furaco..--Safa! Voss  capaz de fazer perder
a paciencia ao proprio Job!... Bem! No fallemos mais n'isto, e no faa
caso dos meus repentes.... Sabe que no sou to mau como pareo e que
trago sempre no corao os meus dois rapazes...

--Sei! Sei! Por isso digo a todos: o sr. fr. Joo berra, esbraceja,  um
destemperado, mas passa-lhe logo. Co que ladra no morde. Livre-nos
Deus de uns sonsinhos que no quebram um prato, mas que ferram o dente
calados....

--Obrigado pelo elogio!... ou antes pela boa inteno. Chame os
pequenos. A ceia ha de estar na mesa; e protesto que me atiro a ella
como Santiago aos mouros!.. Vamos.

A ceia correu farta e alegre, e Antonio Rodrigues foi homem de palavra,
regalando o hospede com algumas garrafas de vinho maduro, que F. Joo
proclamou rival do melhor que se podesse beber  meza de el-rei. As
proezas gastronomicas do erudito dominicano tinham assombrado o proprio
feitor, cujo estomago insondavel sepultava sem incommodo alimentos de
todas as qualidades, e se carregava de quantidades que eram o espanto e
maravilha dos que assistiam s suas repetidas campanhas pantagruelicas.
D'esta reputao merecida Antonio Rodrigues viu-se obrigado a arrear
bandeiras. O padre mestre no comia, devorava, no bebia, absorvia!
Regando de copiosas libaes cada iguaria rustica, absolvendo as
indigestas com um exorcismo culinario, fazendo desaparecer do prato as
menos pesadas com milagrosa rapidez, dir-se-hia que a fome iberica e
peninsular, a fome de dentes caninos e apetite insaciavel, tomra a
figura corpulenta d'aquelle frade, para realisar em Tancos uma
verdadeira razzia. Tudo tem de acabar, porm, e Fr. Joo, exalando um
suspiro, e cruzando as mos sobre o volumoso ventre, deu a empreza por
concluida, murmurando com os olhos meio fechados, e a voz ainda
suffocada do esforo: _Deus nobis hc otia fecit!_

O reverendo, na meia somnolencia em que se deixou ficar, recostado no
espaldar de couro da vasta poltrona, com as faces afogueadas, e o
barretinho de seda preta derrubado sobre a orelha esquerda, no
offerecia de certo a imagem dos piedosos e extenuados monges, que em
epochas de mais f edificavam os fieis com o exemplo de sua vida frugal
e contricta. Parecia mais um hippopotamo encalhado, do que um devoto
filho de S. Domingos. Os instinctos animaes prevaleciam, e a fadiga de
uma digesto laboriosa fazia arfar aquella machina de mastigao
continua. D. Pedro e D. Maria contemplavam o tio com a admirao sincera
de creaturas delicadas, que semelhantes excessos no s confundem, mas
atterram. Brizida persignava-se e enfiava os burgalhos do seu rozario em
orao atribulada, esperando ver desabar de um momento para outro o
padre coloal fulminado por um ataque apopletico. Romo Pires ainda no
podera articular palavra, embuxado com a vista da voracidade incrivel do
irmo do seu amo. Antonio Rodrigues, cujos olhinhos matreiros semelhavam
no brilho duas scentelhas, desfazia a nuca raspando-a desesperadamente
com a unha, e dizia comsigo, que o frade, medindo as foras pela
alimentao, devia prostrar um touro com um murro, e abrir um tigre em
dous, como o faria qualquer mastim faminto ao gato descuidado, que lhe
caisse debaixo das prezas.

--_Deus nobis hc otia fecit!_ tornou a repetir Fr. Joo depois de uma
pausa de alguns minutos, recuperando a costumada viveza e
agilidade.--Podemos dizer com verdade que ceiamos como uns padres!..
Minha sobrinha! No gostei de a ver to triste. Que nuvem pesa sobre
esse corao? So receios, ou saudades?!.. Socegue que o hade ver so e
escorreito....

--Quem, meu tio? atalhou a donzella distrahida.

--Pois quem hade ser seno aquelle cavalleiro andante que se despedio de
ns e que hade voltar um dia d'estes coberto de louros.... Entendeu-me
agora?

--Oh, meu tio!... acudio ella fazendo-se vermelha como uma roza.

--Est bom! Est bom! No digo mais nada.... Romo Pires sabe que os
castelhanos tomaram Evora, e que a estas horas ho de estar as mos com
o nosso exercito?.. O que diz vossa sapiencia?.. Quem vence?!..

--Essa  boa, sr. padre mestre! Quem deve vencer! O sr. conde de Villa
Flor.

--Deus o oua! Bom  ter f!.. Mas!--E a larga fronte do frade
enrrugou-se aprehensiva, em quanto os sobrolhos descahiram a ponto de
lhe cobrirem quasi as palpebras superiores--_Deus super omnia_!
murmurou.

Seguiram-se alguns instantes de silencio. De repente a porta abriu-se
com estrondo, e a longa, a defecada pessoa de Pedro Lavareda entrou
impetuosamente pelo aposento, com os olhos espantados, as faces
contraidas, e os cabellos ruivos espetados, representando a imagem viva
do terror e da consternao.

--Os castelhanos!... Os castelhanos!... Elles ahi vem!...

A esta voz de pavor, e de immenso pavor, todos se acharam de p, no
menos assombrados do que parecia estar o nuncio da nova atterradora.

--Os castelhanos!?.. gritou Fr. Joo, saltando da cadeira e empunhando
machinalmente um basto enorme, especie de clava, que o acaso lhe
mostrou encostado a um canto.

--Os cas... te... lha... nos! gemeu Brizida, faltando-lhe os joelhos e
erguendo as mos.

--Os castelhanos?! exclamou Antonio Rodrigues, arrancando da cinta a
longa navalha de ponta e de mola e floreando-a como uma espada, em
quanto Romo Pires sacudia da bainha a durindana decrepita e preguiosa.

D. Maria, branca de cra e silenciosa, encostou-se  mesa para no cair.
D. Pedro, pelo contrario, com o rosto mais animado, os olhos reluzentes,
e a fronte levantada, apertou o punho da pequena espada de crte, e deu
alguns passos como se quizesse sair ao encontro do perigo.

--Os castelhanos?! tornou a bradar Fr. Joo. s armas! sr. Antonio
Rodrigues chame os criados!... Faamos de Tancos e de Almourol uma
segunda Aljubarrota!...

Dizendo isto limpava a testa inundada de suor, e fulo de raiva e de
impaciencia batia o p como o corsel insofrido escarva o cho desejoso
de soltar a carreira.

--Mas no seria bom, meu tio, sabermos primeiro o que ha, quem deu a
noticia, e aonde esto os inimigos? observou D. Pedro em voz mansa e com
extrema serenidade.

--_Do manus!_ _Rem acu tetegiste, puer!_[4] gritou o frade sentando-se
commovido e ainda tremulo. Famos conselho! Sr. Antonio Rodrigues, em
primeiro logar: quem  e como se chama este correio de ms novas?..

-- meu genro e meu sobrinho. Chama-se Pedro Lavareda.

--Ah! Ah!. Pedro Lavareda!?. Nome incendiario e perigoso em pessoa mais
secca do que um cavaco!.. Mas vamos ao que importa. Chegue  falla o sr.
Pedro.... Lavareda! Quem lhe deu a m noticia que nos trouxe?...

--Um almocreve do Crato, que saiu de l a bom fugir!...

--E que disse o almocreve?...

--Que os nossos foram derrotados, que ficaram todos ou quasi todos no
campo, e que as guardas avanadas de D. Joo de Austria estavam a entrar
no Crato!...

--Ah! Parece-me carnificina de mais!.. E aonde se deu a batalha?

--No m'o soube dizer.

--Hum! E o seu almocreve aonde est?...

--Partiu, caminho de Lisboa.

--Oh! E no sabe mais nada?

--Mais nada, sr. padre mestre.

--Pois sr. Pedro.... Lavareda, o seu nome queima!.. Quer um conselho de
amigo?...

--Se vossa reverendissima tiver a caridade de m'o dar!..

--Tenho sim, senhor. Mande passear o seu almocreve, durma sobre o caso,
como ns vamos dormir, e creia que amanh acorda convencido de que
engulio uma peta mais comprida do que a sua pessoa, o que j no 
pouco.

Os olhos felinos de Pedro, se fossem punhaes, teriam varado o frade, mas
como o no eram, contentaram-se com a expresso humilde e hypocrita de
uma annuencia servil, ao passo que os labios franzidos arremedavam
soffrivelmente um sorriso boal.

--_Macte puer!_ gritou Fr. Joo, batendo no hombro de D. Pedro. Tiveste
mais juizo tu s, do que ns todos!... Isto  mentira e mentira mal
armada. Os hespanhoes no Crato!... Uma batalha sem logar sabido!... Um
almocreve invisivel!... Meninos, soceguem! Tia Brizida, alma at
Almeida! Romo Pires, enfie-me na banha esse eterno chifarote, espanto
e censura viva das espadas de hoje!...

--Ento vossa reverendissima j no quer que ponha de aviso os criados?
disse Antonio Rodrigues, que tivera tempo de trocar algumas palavras com
o genro, colloquio, que apesar de curto, no escapara a Fr. Joo.

--No, senhor. Deixe-os descansados! Bem bastam logo as almas do outro
mundo!... Sabe que mais? Sinto-me moido, e uma boa cama depois de uma
boa ceia  o melhor remedio para estas molestias. Aonde  o meu quarto?

O feitor esgueirou um volver de olhos interrogador ao sobrinho, que lhe
respondeu com um aceno quasi imperceptivel de cabea, e, pegando em um
macio castial de prata denegrido, precedeu a especie de procisso de
toda a familia at ao aposento, aonde o douto dominicano havia de passar
a noute. A porta abria-se no topo do comprido corredor do centro; a
camara de D. Pedro ficava-lhe  esquerda, e o pequeno camarim de Romo
Pires  direita. Mettiam-se de permeio dous quartos fechados, e
seguia-se a sala aonde D. Maria dormia, tendo ao p o leito de Brizida
de Sousa. O aposento, aonde Antonio Rodrigues conduzia Fr. Joo, nada
inculcava de notavel. Era uma casa vasta, de tres janellas, duas de
peitos e uma sacada, cujas paredes abertas em partes conservavam ainda a
par de largos pedaos das colgaduras de couro, que em melhores dias as
tinham ornado, altos e grandes armarios de pau santo. Os tectos altos e
enegrecidos e o pavimento carunchoso, gemendo e estalando com o peso dos
passos, atestavam a velhice e o desamparo. Um leito antigo, enorme, com
sobreceu e cortinas out'rora verdes, um velador de pau santo arruinado,
e um contador, ainda mais antigo, completavam com tres, ou quatro
cadeiras coxas dos ps, ou mutiladas dos braos, a mobilia nada commoda,
nem opulenta. Cousa singular! N'este quarto, em que a destruio minava,
e esfarelava tudo, as unicas cousas intactas e bem conservadas eram
alguns paineis grandes, retratos de corpo inteiro de guerreiros, damas,
e monges, pintados a oleo, e mettidos em soberbas molduras de carvalho,
lavradas de talha alta.

O padre mestre rodeou com os olhos toda a casa, e perguntou,
sorrindo-se, ao feitor, se ella passava por ser tambem vexada pelas
almas do outro mundo. Antonio Rodrigues abaixou a sua immensa e redonda
cabea, e Brizida benzeu-se devotamente.

--Bem!... N'esse caso  preciso estar armado e vigilante para a batalha!
Se escaparmos aos castelhanos do Crato, no quero que acabemos nas
garras dos trasgos e diabretes de Tancos. Sr. Antonio Rodrigues, faz
favor! Mande trazer para aqui o meu alforge, que ficou na sala de
entrada. Sr. Pedro Lavareda (exquisito nome (!))  bom caador por
certo, e hade ter uma espingarda de mais. Eu tambem gosto de dar o meu
tiro de manh cedo s perdizes e s calhandras por essa charneca. Conto
levantar-me com o sol, e dar um passeio pelas fazendas, para tornar a
ver estas terras em que no ponho os olhos ha um bom par de annos. Para
no ir com as mos abanando levarei a sua espingarda... No a heide
tratar mal, descanse!..

--Essa  boa, sr. Fr. Joo! A espingarda, eu, e tudo o que mandar esto
s ordens de vossa reverendissima....

--Muito obrigado!... Olhe no se esquea de me trazer um frasquinho de
polvora.

O tio e o sobrinho sairam, e o frade, chamando de parte a D. Pedro e a
Romo Pires, e pondo as mos no hombro de cada um d'elles, disse-lhes em
voz baixa:

--_Latet anguis!_ Anda aqui novello! Este sr. Lavareda, com aquella face
compungida de Longuinhos, parece-me fino como um alambre... Os dous,
elle e Antonio Rodrigues, o tio e o sobrinho, esto conjurados contra
ns... Porqu e para qu? O tempo o dir. Olho vivo, pois, Romo Pires!
Se lhe apparecer viso, ou espectro, receba-m'o s cutiladas. Eu c
espero a p firme os que vierem visitar-me, e a agua benta, que lhes
deitar, hade chamuscal-os de vras.... Muito bem!.. Ahi vem os dous
velhacos.

De feito o sogro e o genro chegavam, um com o alforge, e o outro com a
espingarda e o frasco. Fr. Joo fallou um pedao com elles, sempre com a
boca cheia de riso, pedio uma candeia grande para se allumiar at pela
manh, e despediu-se de todos, sem dar mostras da menor desconfiana.

--O padre prega-t'a na menina do olho, sobrinho! Toma conta! disse
Antonio Rodrigues com o rosto carregado.

--Veremos, sr. meu tio.

--Guarda-te de elle te pr as mos.  capaz de estourar um boi.

--Melhor o far Deus!

--Boas noutes.

--Santa Anna e minha madrinha Nossa Senhora o levem na sua Santa guarda.

--Sentido! Nem uma beliscadura!

Em quanto os dous honrados camponezes conversavam em voz baixa no fim do
corredor, Fr. Joo Coutinho passava revista minuciosa ao quarto e
parecia ficar inteirado de que as paredes e os armarios no encobriam
portas falsas, nem os sobrados alapes. Abrindo o alforge depois, tirou
de dentro um par de pistolas. Verificou a carga de ambas, renovou as
escorvas, e passando  espingarda, carregou-a com todo o cuidado,
metteu-lhe uma bala, e pousou-a engatilhada  cabeceira da cama. Feito
isto foi  porta p ante p, descerrou-a de manso, e em passo subtil
encaminhou-se ao camarim de Romo Pires, aonde se demorou. 
volta--davam onze horas--achou tudo como o deixara, rezou pelo seu
breviario, e despindo s o habito, abafou-se, conchegou as colchas,
recostou a cabea, e, decorridos instantes, os roncos assobiados de um
somno profundo annunciavam que tinha esquecido os castelhanos do Crato,
as almas penadas, e os virtuosos manigrepos ruraes, cuja lealdade no
julgra de bons quilates.

Teria repousado duas horas, quando despertou sobresaltado. O leito,
pesado e macio, arfava, balouado como um barco sobre vagas inquietas.
O frade entre-abriu os olhos. A vela do castial estava em um tero, e a
luz da candeia brilhava esperta. O quarto continuava deserto e
silencioso. Entretanto o leito no parra de dansar, e, facto mais
singular ainda! a roupa da cama fugia de vagar, sem apparecer mo, ou
brao que lhe tocasse. Fr. Joo deixou-se ficar, tomando smente uma
posio que lhe consentisse saltar ao cho de um pulo para travar a
lucta com os duendes e spectros. Tinha as duas pistolas sobre o velador
 cabeceira, e a espingarda ao p. Entretanto, apesar de animoso e
resoluto, o suor principiava a borbolhar-lhe na testa, e um calefrio
suspeito a correr-lhe a espinha dorsal.

--Isto no vae bem! Queria antes ruido, grilhes arrastados.... a scena
do costume. Esta calada e estes empuches invisiveis.... sinceramente
sera de fazer tremer as carnes, se eu no soubesse!... Credo!.. L se
foi a roupa at aos ps da cama.... No gosto da graa! Que  aquillo?
As pinturas andam!?.. Oh!...

Aqui poz termo ao soliloquio, e sentando-se na cama, com os poucos
cabellos, que lhe restavam, erriados em volta da calva, com as feies
contrahidas e a boca pasmada, cravou as pupilas cinzentas e dilatadas no
painel, que lhe ficava fronteiro e que representava um cavalleiro da
edade mdia coberto de toda a armadura, mas com o rosto sem viseira e os
olhos ameaadores. Aquella figura severa, como que destacada da moldura,
parecia mover-se por si lenta e lugubremente. Fr. Joo quiz duvidar do
testemunho dos sentidos, e convencer-se de que era victima de uma
illuso. Esfregou as palpebras, beliscou os braos para despertar a
sensibilidade, mas o retrato continuava a adiantar-se, e um sorriso
tetrico como que lhe franzia os beios. Ao mesmo tempo os ouvidos
afiados do dominicano colheram, no sem grande pavor, o som amortecido
de ferros que rangiam, e um gemido longo e soturno, semelhante ao gemido
doloroso de afflictivo estertor.

--_Vade retro, Satanaz!_ murmurou saindo da cama cheio de terror. _Ne
nos inducas in tentatione!_

Apenas soltra a meia voz estas palavras, um sopro, semelhante a furaco
medonho, engolphou-se pelo quarto, e apagou de golpe as duas luzes.

Fr. Joo recuou at s cortinas do leito, e sentiu vergarem-lhe os
joelhos, e fugir-lhe o animo. Estendendo a mo nas trevas machinalmente,
encontrou uma das pistolas pousadas sobre o velador, e os dedos
apertaram tambem machinalmente a coronha.

De repente um claro sulcou a escuridade, enchendo o aposento de luz
sulphurea, e no meio de chammas lividas, surgiu e cresceu uma forma
gigantesca envolta nas dobras de sudario branco e fluctuante. Esta
figura descommunal, cuja cabea era uma caveira, lanava chispas pelas
cavidades dos olhos, e acenava com os longos ossos de esqueleto. O frade
tremeu, e acudiram-lhe aos labios descorados as preces e os exorcismos
recommendados pela igreja contra os maleficios infernaes. Mas as armas
espirituaes no produziram effeito, e, apesar da perturbao momentanea,
tornou a tomar corpo no seu espirito a ideia de que podia ser aquelle
espectaculo uma visualidade, ensaiada para zombar da sua boa f.
Revestindo-se, pois, de valor e deciso, apontou rapidamente ao vulto,
que tinha diante, a pistola, que no largara da mo, e disparou-a.
Observando que o tiro no causra abalo no phantasma, pegou depois na
outra pistola, e com pontaria mais segura desfechou o gatilho. Uma
risada estridente respondeu ao estrondo da exploso, e o spectro,
mostrando as duas balas, arremessou-as ao cho, aonde o padre mestre as
ouviu rolar. Logo em seguida o claro sumiu-se de subito, espessas
trevas envolveram o quarto. Fr. Joo, quasi desmaiado, caiu em uma das
cadeiras proximas do leito, tolhido por um tremor geral em todos os
membros, e paralisado na falla e nos movimentos pelo mais profundo
terror.

Ao mesmo tempo as hostilidades diabolicas no eram menos activas e
violentas nas camaras dos outros hospedes. Romo Pires, apenas se
deitra, e escondera a cabea debaixo da roupa, com premeditao pouco
em harmonia com os brios de suas falladas campanhas, sentio
apagar-se-lhe a luz, e puxarem-lhe pelos ps o magro e aprumado corpo
at o estatelarem de pancada e sem d nas taboas do sobrado. O grito de
mdo e de dor, que soltra estremunhado, teve em resposta um cro de
risadas em falsete. Brizida de Souza acordou espavorida ao frio gelado
de um verdadeiro regador de agua que lhe entornavam sobre a cabea, e
saltando por a casa em roupas menores, e com a boca escancarada, para
bradar, era comida no ar por mos pouco caridosas e nada leves, que de
empurro em empurro a levaram aos tombos at ao corredor, aonde veiu
encontrar em anagua o honrado escudeiro, tiritando de susto e com uma
das mos em cada face esbofeteada pelos duendes, com vigor que bem
accusava uma fora sobrenatural. D. Maria, encolhida e semi-morta de
pavor, no padecera seno o terror de ouvir estalar ao p do leito
gargalhadas dissonantes, e arrastar ferros.

No quarto de D. Pedro, os trasgos haviam sido menos felizes, porque
tinham chegado mais atrazados. Dotado de animo varonil e reflectido,
sereno em presena do perigo, e pouco disposto a acreditar na
interveno dos poderes infernaes, o mancebo, resolvera velar a noute
sem se despir, e com a espada nua ao lado, tinha-se entregado  leitura
de um livro novo, que em breve lhe absorveu a atteno. Feriu-lhe de
repente o ouvido a matinada das investidas no corredor e nos aposentos
proximos. Apagando a luz, e empunhando a espada, aguardou silencioso.

A sua porta abriu-se de feito, pouco depois, e pareceu-lhe aperceber
dous vultos na escurido. Deixou-os adiantar, seguiu-os, e quando um se
debruava sobre o leito vasio, e o outro, assoprando n'um buzio tirava
d'elle sons roucos e medonhos, caiu s pranchadas sobre o musico do
Averno, ao qual o instrumento escapou dos dedos, e que, amedrontado,
principiava a revolver-se pela casa, gritando como um simples mortal
derreado por uma sova. O outro phantasma volveu logo em auxilio do
agredido, mas uma cutilada de D. Pedro, aparada no brao ao que pareceu,
deitou-o pela porta fra como um vendaval, em quanto o companheiro
tomava o mesmo caminho, mas de rastos e gemendo.

D. Pedro, decorridos instantes, feriu lume, accendeu a vela do castial
e a candeia, e examinou attentamente o campo de batalha. Jaziam no cho
um buzio dos usados pelos ranchos da apanha da azeitona, um lenol com
lagrimas de tinta encarnada, e uma caveira de papelo pintada de
amarello.

O mancebo sorriu-se. Aquelles despojos eram o corpo de delicto e ao
mesmo tempo documento vivo da conspirao tramada. Algumas gtas de
sangue, caidas no pavimento desde metade da casa at  porta,
provaram-lhe que um dos actores do drama nocturno retirara ferido e
assignalado. D. Pedro pegou no castial, e seguindo o rasto de sangue
pelo corredor, notou que parava no topo, aonde s existia uma parede
grossa, sem nenhuma saida apparente. Informado do que desejava
verificar, voltou atraz, e encaminhou-se ao camarim de Romo Pires. 
porta viu duas figuras brancas ajoelhadas. Deteve-se um pouco at se
affirmar. A velha aia e o dorido escudeiro, ambos de joelhos, e ambos
transidos de medo e de frio, esgotavam um defronte do outro todo o
vocabulario de rezas e de interjeies atribuladas, sem se atreverem a
volver aos aposentos. D. Pedro, no podendo suster o riso, fallou-lhes,
animou-os, e, mandando-os acabar de vestir, passou a visitar a camara de
Fr. Joo.

O frade ainda jazia na mesma posio. Conservava-se quasi exanime na
ampla cadeira. Vendo entrar o sobrinho com o castial em uma das mos e
a espada nua debaixo do brao, estremeceu, e esbugalhou os olhos, mas
no se moveu.

D. Pedro aproximou-se da mesa, accendeu a outra vela, e sem proferir
palavra examinou cuidadosamente o aposento. Nenhum indicio! O inimigo
triumphante no deixra despojos. Terminado o exame, poz o castial em
cima do velador, collocou a espada ao p do castial, e, volvendo para
junto da cadeira, d'onde o tio, como paralysado, observava tudo
silencioso, disse-lhe:

--Mas o que foi isto?!..

Fr. Joo respondeu com um suspiro, e, correu a mo pela testa ainda
inundada de suor.

--Estas pistolas disparadas, estas balas no cho!.. No me dir o que
succedeu?!...

Outro suspiro mais alto.

--Por onde entraram elles?...

O dominicano, que a vista do sobrinho ia reanimando a pouco e pouco,
meneou a cabea com tristeza, fez um esforo para levantar meio corpo da
cadeira, e apontou com o dedo para o quadro, cuja figura vira minutos
antes soltar-se da moldura, e encaminhar-se para elle.

--Ah!... Foi por esta porta?... observou o sobrinho, pegando no castial
e correndo a luz por todo o quadro de cima abaixo. De repente exclamou:
Olhe?!

--O que? disse o frade, pondo-se de p, mas to abatido e tremulo, como
se acaso se levantasse convalescente de longa enfermidade.

--Venha meu tio, e veja!

De feito um dos enfeites de talha mais elevado movia-se como um boto
debaixo dos dedos do mancebo, e a pesada moldura, cedendo  presso,
abriu-se lentamente.

--Ah!.. exclamou fr. Joo.

--Aqui tem a porta!... e o segredo de tudo.

--Velhacos! bramia o dominicano irritavel, recuperando repentinamente as
cres, a elasticidade dos membros, e a viveza dos olhos. Mas abaixando a
vista, deu com as duas balas das pistolas ainda no cho, e uma nuvem
torrou-lhe outra vez o rosto. Mostrando-as ao sobrinho narrou-lhe o que
succedera e ouviu da boca do mancebo a historia da sua lucta com os
duendes. Fr. Joo ficou mudo e suspenso por momentos, semelhante a um
immenso ponto de interrogao.

--Saiu d'aqui depois de carregar as armas?... perguntou D. Pedro.

--Cinco minutos quando muito. Cheguei ao camarim de Romo Pires.

--Foi o que bastou. No mexeu na espingarda? Est certo?

--Como de te estar vendo.

--E metteu-lhe uma bala de calibre?

--Seguramente.

--Muito bem, quer vr?

E D. Pedro, pegando na vareta, descarregou a arma, tirando as buxas e a
polvora. Da bala no achou noticia.

--Ah! tratantes!.. rugiu o frade, fechando os punhos, e rangendo os
dentes, plectorico de colera.

--Podiam atirar-lhe com tres balas aos ps em vez de duas! Tinham tido o
cuidado...

--De mas empalmar?! Sobrinho! Juro que ho de pagar-m'o caro!... S
atazanados!

--D licena que lhe d um conselho?...

--Dize, rapaz. Ests um homem, e tens mostrado valer mais, do que ns
todos.

--Se quer apanhar o rato na ratoeira, no faa bulha.

--Bem! Bem! _Do manus! Qui nescit dissimulare nescit regnare_, acudiu
fr. Joo, esfregando as mos. Ah! patifes! O que elles se tero rido 
minha custa!...

--Deixe! Riram-se hoje? Amanh choraro! Bas noites meu tio. Socegue,
que bem o precisa.




A CAMISA DO NOIVADO


I

    Assi que bem podem dizer deste rei D. Pedro, que nom sairom em seu
    tempo certos os ditoos de Solon, filosopho, e d'outros, alguns dos
    quaes disserom, que as Leis e justia erom como teias de aranha nas
    quaes os mosquitos pequenos, caindo, so reteudos e morrem em ella,
    e as moscas grandes e que som mais rijas, jazendo em ellas rompem-as
    e vo-se.

                      Ferno Lopes. Chron. de El-rey D. Pedro. Cap. IX.

Houve tempo em que o monte hoje esquecido de Algoo, na provincia de
Traz-os-Montes, erguia a cabea soberba acima dos outros logares. As
muralhas de cantaria grossa e as torres quadrangulares do antigo
castello, debruadas sobre um precipicio despenhado, concordavam com a
melancolia do sitio e com as sombrias tradies, de que as memorias do
povo o entristeciam. Dos altos eirados, como do cimo de um ninho de
aguias, a vista, relanceando, abraava toda a campina, mosqueada aqui de
arvoredos e soutos, rasa de urzes e charnecas alm, e empolada mais
adiante em collinas, que ligadas, e mais ou menos suaves, se seguiam at
beijarem o cinto de cabeos alpestres, ultima barreira dos horisontes.
Ao sop da montanha, aonde se abria o valle mais fundo, estrepitava uma
torrente. Era o Angueira bramindo entalado na bronca penedia do leito.
Mais ao longe, na coroa dos cerros, os pinheiros meneavam as copas
verde-tristes, e os ciprestes solitarios balouavam ao vento as pontas
esguias. Por ultimo, ao largo, j quasi aonde no enxergavam os olhos,
recortavam-se de um lado os topes cinzentos da serra de Seabra na
fronteira castelhana, e do outro as cristas dentadas das alturas de
Nogueira, toucadas de gelos eternos.

De tarde, quando comeava a escurecer, o nevoeiro, trepando das margens
do rio em cllos deseguaes, enroscava-se como fumo nas quebradas, e
envolvia n'uma cortina de vapores os mais elevados cumes. Este veu
caprichoso, cujas dobras sacudia a briza, ora se despregava, deixando
entrever confusamente os vultos, ora condensado cerrava tudo em volta do
solar.

Affirmavam os velhos, que as horas de crepusculo e de nebrina eram
tambem as horas dos feitios. Uma princeza encantada junto da fonte de
S. Joo guardava os thesouros enterrados de certo magico. Linda como as
estrellas, a maldade do encantador condemnara-a a arrastar-se todo o
anno em figura de serpente. S na vespera do festejado santo,  meia
noite, quando as follias riam mais alegres na aldeia,  que o fado mau
se quebrava at ao alvorecer. Mal repicava a sineta do campanario, a
moura, banhando-se tres vezes na ribeira, e depondo sobre uma penha as
escamas luzentes, volvia ao antigo ser, resplandecendo n'ella a
formosura rara de uma belleza admiravel.

Assim a tinham visto alguns mais felizes assentada debaixo dos velhos e
copados ulmeiros  beira do tanque, meiga, contemplativa, e vestida de
branco, desnastrando as tranas com um pente de ouro, e cantando aos
espiritos do ar com to maviosa voz, que se cortava o corao de a
ouvir.

Accrescentavam ainda, que da aldeia alguem a vira j inclinada sobre o
espelho da fonte, caindo-lhe as lagrimas em fio na agua. Uma corsa da
cr da aucena, esbelta, e veloz como a seta, acompanhava-a. Se quella
hora qualquer lograsse fallar  moura antes de tornar  frma de
serpente, alcanaria da bella captiva, que era fada, as primeiras tres
cousas que lhe pedisse; mas os acasos ditosos so raros, e em cem annos
pelo menos no havia lembrana de nenhum. A corsa velava, ao menor ruido
batia os ps, e desatava a carreira, e n'um instante desapparecia tudo,
como sonho, sem outro signal mais, do que certo fervor ligeiro nas
aguas, e uma leve nebrina por entre as arvores.


II

Nos dias d'esta veridica historia governava el-rei D. Pedro, chamado o
_Justiceiro_, e tres annos depois o reino parecia outro. Poderosos e
humildes, ricos e pobres, todos eram tratados do mesmo modo, quer
punisse, quer premiasse. Os bons sabiam que o rei os amava como filhos,
os maus tremiam diante da sua face, porque o castigo de suas mos seria
vingador como a ira de Deus, e rapido como a impaciencia dos opprimidos.
No seu tempo a lei era de um s rosto e a pena no coxeava atraz da
culpa. Entre o crime e a expiao no se interpunham annos, promessas,
ou favores. Devedor honrado, o principe ajustava logo a sua conta a cada
um, e pagava-a immediatamente. S aos moradores de Algouo, coitados! 
que ainda no chegra a boa sombra do justiceiro, mas assim mesmo
sentiam sua f to viva n'elle, que nas maiores afflices a voz de
todos era sempre: Valha-nos aqui el-rei D. Pedro! Por fim valeu, e o
caso devia ser escripto com lettras de ouro pela penna d'aquelle honrado
e singelo chronista Ferno Lopes, mais poeta do que toda uma arcadia, e
grande pintor de vultos e de cousas.

Ainda ento se aninhava a povoao de Algouo em volta do castello,
construido para a defender, e da egreja, que estendia sobre as campas a
sombra misericordiosa dos braos da sua cruz. Por ambas as encostas at
 cora da montanha, aonde se erguiam as torres do solar com os engenhos
armados nos eirados, e as ameias sempre vigiadas, subiam as casinhas da
aldeia, pendurando-se, umas cingidas de verdura, outras negras e
arruinadas de velhice, estas mudas e desertas a desabar, aquellas alvas
e remoadas dissimulando a pobreza com os ares quasi festivos!! Deus
nos livre de to mau senhor! era o voto dos burguezes de Miranda,
compadecidos da escravido dos moradores de Algouo, e ainda no diziam
desgraadamente toda a verdade. Ali o suor de sangue regava os banquetes
da sala de armas e as pompas quasi regias do rico-homem. O pranto da
viuva e as lagrimas dos orphos molhavam suas mos, sempre aladas
contra a miseria dos desditosos para destruir o tecto, que lhes abrigava
o bero, e revolver s vezes at o cho sagrado do cemiterio aonde
repousavam seus paes, avs, e irmos.

O mordomo trazia de cr os sulcos de cada arado, e o pezo de cada rez. A
vontade do amo e a cubia dos servos deixavam mendigos  noite os que
tinham amanhecido remediados!

D. Sueiro descendia dos senhores de Biscaya. N'aquella raa o sangue
nobre confundia-se com a chamma infernal do espirito das trevas desde o
casamento de Diogo Lopes com a Dama-p-de-Cabra. Verdadeira, ou
fabulosa, a alliana dos altivos bares com os demonios tinha sido
fertil em crimes. N'uma epocha, em que a lana e a espada cortavam as
contendas, calando as leis, e calcando os direitos, os cavalleiros de
Algoo excediam os mais ferozes na braveza, e na crueldade ferina. Vr
correr prantos, e derramar sangue, para elles era um deleite. Pizar aos
ps dos cavallos as searas maduras, ou atassalhar nos dentes das
matilhas o rebanho, unica riqueza do lavrador, parecia o verdadeiro
objecto das estrondosas caadas, em que talavam campos e vinhas a
pretexto de montear lobos e javardos. D. Sueiro foi o ultimo d'esta
familia impia. Tres esposas, em seis annos, haviam passado do leito
nupcial para o tumulo, sem nenhuma lhe deixar penhor de to mal agourada
unio. Rosas pallidas, a melancolia d'aquelles muros, desbotando-as em
flor, fanava-as logo? O segredo no transpirou dos labios gelados das
victimas; mas sabia-se que os sorrisos do amor nunca lhes tinham
alegrado a vida. Desceram ao sepulcro, tristes e silenciosas como
existiam d'esde o dia em que haviam entrado aquellas sombrias portas. D.
Sueiro no soltra um suspiro! Se uma lagrima congelada n'aquelle
corao de marmore veio tremer na palpebra, essa lagrima fundia-se
queimada pelo orgulho. O povo accusava-o. A nodoa do homicida
estampava-se na fronte maldicta. O crime das tres esposas fra a
esterilidade. O ferro, ou o veneno, rompera o lao conjugal. A sepultura
quebrra o vinculo apertado no altar! Era calumnia? Era verdade? Quem
sabe! Mas as noites de Sueiro Lopes podiam espantar os mais ousados.


III

Tinha fama de grande monteiro o castello. Ml o dia despontava, saltava
logo no cavallo, e a galope, por saras e estevaes, por montes e
campinas, no meio dos caadores, entre risos, juras e brados, corria at
 noite. Uma tarde, na primavera, levantou-se-lhe um veado quasi nas
terras de um colono, e a despeito das supplicas do velho, ces e
corseis, salvando valados, e calcando pavas, arrazaram em minutos o
trabalho de mezes. Sobre as vozerias, latidos, e relinchos soavam, sem
cessar, os gritos de cavalleiro: Avante! Sus! Aboca! Tocavam buzinas,
estalavam lategos, o tropel, ennovelado desappareceu atraz da pista.
Garcia de Marnel, o dono do campo, fra o melhor besteiro dos sitios. O
mais rijo arco dobrava-se, como vime, em suas mos, e a seta da sua
aljava atravessara sempre o alvo. De avs a netos esta robusta e
laboriosa raa lanra raizes profundas no solo, remido pelo seu brao.
Os mais fundos affectos prendiam-a  terra rta e lavrada com o suor do
trabalho. Na choupana do pequeno casal tinham-lhe nascido viosas as
primeiras esperanas, tinham-lhe alvorecido os castos amores da esposa e
dos filhos. No altar da egreja haviam sido abenoadas as promessas de
mutua ternura; e agora debaixo da cupula frondosa dos lamos,  sua
porta, o av, no inverno dos annos, sentia-se renascer nas graas
infantis da neta, mimosa e unica vergontea, que sobrevivia dos ramos
decepados pela morte no velho tronco da familia. Garcia amava tudo isto
com o ardor calado, mas intenso das almas viris, retemperadas pelo
infortunio.

A pobreza honrada nunca lhe curvara a cabea, nem o peso da enxada lhe
desfallecera o brao. A dor, ferindo-o tres vezes no mais vivo do
corao, a dor mesmo no lhe prostrra o animo. A esposa, por tantos
annos alegria e conforto de suas fadigas, tinha-o deixado a meio caminho
da vida para ir esperal-o na manso de paz. Dois filhos, amparo da sua
velhice, orgulho da sua alma, ceifados em flr seguiram a me, em quanto
o ancio desgraado, s e de joelhos no via a seu lado no desterro da
vida, rmo de consolaes, seno a infancia fragil e graciosa de
Silvaninha, duas vezes filha, por que duas vezes era o sangue do seu
sangue. Inclinado sobre tres tumulos, e trazendo sempre diante de si as
sombras da morte, converteu-se-lhe a ternura, com que amava a neta, em
um extremo louco e quasi delirante. S esta saudade, s este amor o
prendia ainda ao mundo, mas com tal encanto, que muitas vezes pedira a
Deus que lhe dilatasse os dias para no se unir aos que o chamavam do
ceu, seno depois de a ver mulher e feliz.

Quando Sueiro Lopes lhe pisou aos ps dos cavallos os fructos de um
anno, o sangue do velho, remoado pela ira, pulou nas veias; as faces
cavadas corram de subito, e os olhos despediram dois relampagos. Saindo
ao encontro do cavalleiro, a voz e o corpo tremiam, mas no de mdo.

Aquelle campo era o dote da neta, e s por causa d'ella  que supportava
o peso aborrecido de setenta annos de fadigas. Senhor! Senhor! dizia
elle correndo e clamando, tendes o atalho da esquerda! Ruim caada
contra um velho e uma donzella! O rico homem no respondeu. As matilhas
e os cavallos, precipitando-se, partiam  rda d'elle, envoltos em
nuvens de p, e o afflicto lavrador, de p e coberto, tinha lanado mo
das redeas do corsel.

Um brado rouco denunciou a raiva do senhor. Depois o ltego, silvando,
cingiu o corpo do velho, em quanto o ginete fogoso empinando-se-lhe
ameaou o peito com s patas Fra! rugiu o cavalleiro. Eis a paga do
conselho! Garcia desviou-se quasi cego de dr, e Sueiro, cravando as
esporas nos ilhaes, voou  redea larga por cima das hortas e ceras,
bradando: Sus! Abca!

O aoute infamante no cortou o corpo, cortou a alma ao desgraado.
Recuando para a porta, como o tigre, e medindo a distancia com as
pupilas inflammadas, poz os olhos com ancia no arco e na aljava. Um
rujido surdo expirava ao mesmo tempo  flr dos labios. A vida do homem
orgulhoso e mu estava  merc d'aquelle arco. Tomou-o e encurvando-o
ajustou a seta. O que no intimo peito diziam o desespero e a colera era
medonho. O rosto no o encobria. Ao apontar o tiro a vista ardente
elevou-se ao ceu. Pedia perdo, ou auxilio?

De repente baixou-a magoada sobre a casinha humilde. Uma voz fresca e
melodiosa cantava dentro. Duas lagrimas rebentaram ento dos olhos
seccos do velho; os braos descairam. Quiz vencer-se e resistir, no
pde. O arco fugiu-lhe das mos, e a bocca murmurou:

Fra matal-a tambem a ella! Enxugando depois as palpebras entregou a
Deus o castigo do oppressor.

Mas a desgraa entrra no seu campo com Sueiro Lopes.

O mordomo do castello veiu depois, e consumou a ruina. Desde que fra
aviltado, Garcia no parecia o mesmo homem. A ferida occulta minava-o.
Falecia-lhe a alma e com ella os brios para o trabalho. Os visinhos,
acudindo ao choro da neta, vieram encontral-o morto debaixo de uma
oliveira plantada pelo mais novo dos filhos. A terra, dote da pobre
orph, confiscada caiu nas mos de um sobrinho do mordomo, e Silvaninha,
sem parentes, e protectores, teria morrido de frio e de fome se lhe no
valesse a caridade dos amigos do besteiro. Um deu-lhe a casa e o
sustento; outro vestiu-a; e muitos, captivos de sua gentilesa,
soccorreram-a, cada qual com o que podia. No entanto crescia a donzella
em edade e formosura; mas  medida que os annos corriam, o rosto pallido
e os olhos verdes entristeciam-se. Muitas vezes deslisavam-se-lhe pelas
faces as lagrimas e no as entendia.  que o po da esmola, mesmo dado
com amor, sempre trva na bocca do infeliz! Ao declinar do dia, olhando
para o tecto da casinha, de que fra desherdada, apertava-se-lhe o
corao por medo tal, que tinha pena de viver, e que sentia saudades da
sepultura, aonde seu av descansava, aonde todos os seus dormiam!


IV

Sete annos eram passados desde a tarde em que os moradores de Algoo
tinham lanado sobre o corpo de Garcia do Marnel os ultimos punhados de
terra. Sueiro Lopes, n'esse intervallo, tres vezes casado, e outras
tantas viuvo, cada vez se havia feito mais aspero e cruel.

Mal raiava a manh as buzinas acordavam logo as solides. Assim que a
noite se fechava, as frestas ponteagudas da torre de menagem,
illumminando-se, reverberavam o claro das tochas do festim. Os gritos,
as risadas, as blasphemias da alegria ebria espantavam os que vinham
perto do castello. Os vicios do senhor avivaram-se com os annos. Os
deleites pareciam-lhe mais doces regados de lagrimas e de sangue. O
abutre j no empolgava s a vida e os bens dos villos; abrazado em
ardor impuro cevava a sensualidade na honra das filhas da aldeia.
Rindo-se do temor de Deus, arrastava sem piedade pelo lodo de amores
infames a innocencia das mais formosas e a virtude das mais honestas. Um
sorriso, um olhar d'elle era como a fascinao do reptil. Por onde
passava, as flores mais frescas, e mais puras caiam desmaiadas.

Silvana contava deseseis annos. Mimosa e esbelta, o setim das faces
realava a terna pallidez, que revestia de tanto enlevo a brandura
contemplativa dos olhos verdes e transparentes, aonde a alma retratava
os mais suaves affectos. O vivo carmim dos labios abotoando as rosas da
bocca, redobrava os encantos ao sorriso meigo, tornando irresistivel o
requebro e a graa virginal da phisionomia namorada. A voz, fresca e
melodiosa, insinuando-se no corao, era o seu maior attrativo.
Recolhida pela caridade da aldeia, e desvalida, para quem havia de
levantar a vista ou a quem podia confiar o segredo, que a fazia palpitar
de esperana, quando se mirava no cristal da fonte? Vel-a e cubial-a
foi tudo a mesma cousa para o rico-homem. Elle, que a um aceno imperioso
sujeitava as mais isentas, podia suppor acaso que Silvaninha lhe desse o
no fugindo a suas caricias? Mas s primeiras palavras o rubor do pejo
incendiou em chammas o rosto da donzella e nas pupillas de esmeralda
fuzilou a ira. Soltando as mos envergonhada e offendida, furtou-se s
garras do aor. A raiva enlouqueceu o cavalleiro. Um juramento
saltou-lhe da bocca por entre sorrisos lividos.

--No sers esposa sem primeiro seres amante! Pedirs de joelhos o que
hoje engeitas! Sei atalhar os rodeios  corsa. Sei aonde o golpe fere
seguro!

Deus do ceu compadecei-vos de Silvana! Ella mal o escutou. Tremula e
soffocada no suspendeu a carreira seno  porta da cabana aonde morava
a velha Aldona, conselho e consolao de toda a aldeia. As linguas
maldizentes affirmavam, que a velha no era decrepita, nem mendiga, mas
fada, e que sabia ler nos astros e adivinhar nas aguas. Contavam
prodigios do seu poder! Alguns chegaram a asseverar at, que ella e a
serpente encantada tinham nascido irmans, e se juntavam em colloquio 
meia noute. Quando a donzella appareceu, Aldona, sentada em um penedo
diante da porta, acabava de espiar a roca; viu-a e sorriu-se. Enrolou
depois a estriga, puxou o fio, e  medida que o fuso girava, e que a
linha se enrolava, meneava a cabea, como se estivesse vendo, ou
ouvindo, a muito longe dos sentidos cousa de seu gosto.

--Deus vos salve, filha! exclamou por fim. Sei o que vos traz assim
assustada. O aor cubiou a rolinha? Havia de ser! Estava escripto l em
cima, e o que ha de acontecer muita fora tem. Conta-me tudo. O que te
disse? O que lhe respondeste?

Quando Silvana terminou, redarguiu a velha:

--Louvado Deus! Vem perto a hora e o dia. O destino pode mais que o
homem. A aguia real j a estou vendo voar. Dentro em pouco temos grandes
novidades, filha! Apesar de agudas, as garras do aor no ho de
ferir-te. Vai d'aqui  fonte da moura e dize que sim a quem l
encontrres. No te demores. D'onde se no espera vem o remedio. Has de
ser feliz!

Ditas estas palavras, abysmou-se em to profundo scismar, que parecia
morta. No quiz saber mais a donzella. Voou  fonte com a f viva dos
quinze annos e da esperana. Ao p do primeiro lamo parou e tremeu. No
vira a serpente, nem a corsa encantada, mas vira um mancebo robusto e
gentil, filho do mais abastado cavalleiro villo das cercanias. Porque
lhe esmorece a ella de subito a vermelhido das faces affrontadas da
corrida? porque lhe bateu o corao no peito to atropellado? Tello
Vasques, o melhor besteiro depois da morte de Garcia do Marnel, era o
noivo que as raparigas das cinco aldeias visinhas disputavam com mais
inveja. Debalde! A vista d'elle no se baixra para nenhuma, nem a sua
bocca se abrira para dizer uma palavra terna  mais galante. Silvaninha
fra a sua primeira e unica paixo. Combateu-a e calou-a por muito
tempo, com receio dos pais, mas por fim, no se podendo conter,
decidiu-se, e veiu ao logar pedir-lhe a mo. Ninguem sabia o segredo do
mancebo seno Aldona, porque d'essa nada se escondia. E a donzella?...
Tinha-o adivinhado nos olhos, que buscavam os seus, e no proprio
corao, que, alvoroado, lhe dissera pela primeira vez o que era amor.
Quando parou, Silvana sentira mais, do que vira, que Tello estava alli.
Sem foras para se adiantar ou para retroceder, subiu-lhe s faces o
rubor em ondas, e a vista no ousou despregar-se do cho. O tremor
convulso que a agitava fazia-lhe arfar o seio.


V

Tello Vasques no estava menos enleado. Corou tambem, e a vivesa natural
dos olhos pretos esmoreceu meio offuscada pela sombra das pestanas.
Encobrindo que a esperava, quiz saudar Silvana; mas a voz negou-se-lhe,
e uma especie de deslumbramento turvou-lhe a vista. A mo suspensa, a
cabea inclinada, o gesto cheio de timidez retratavam a vontade presa do
enlevo sem fora para dissimular, e ainda menos para combater. Assim
ficaram por minutos. Immoveis, calados, contemplando-se, e fallando s
com o corao. A felicidade era to grande, que no achavam termos que a
pintassem. Quem encostasse a mo ao peito do robusto besteiro,
sentindo-o pulsar agitado, logo conhecia que o amor o fizera seu. Quem
escutasse o palpitar ancioso do seio de Silvaninha no precisava
perguntar-lhe se tambem amava!

Em redor d'elles tudo era paz e serenidade. Por cima o ceu puro
recortando-se por entre a cupula frondosa das arvores. Ao lado a agua,
sussurrando preguiosa, saltava em arroios mansos, ou sumia-se nas
relvas que aveludavam o cho. Mais longe, a pequena levada afundava-se
com estrepito pelas fendas musgosas dos penhascos debruados sobre o
valle. Em baixo, no fim da encosta, uma verdadeira alcatifa de hortos,
de pomares, e de campos viosos, contrastando com o arvoredo sombrio,
que entristecia ao largo a paisagem. Depois, a perder de vista, a cr
arida e melancolica das charnecas desatando-se at aos cabeos da serra,
cujos cimos o sol dourava despedindo-se entre nuvens. Uma brisa louca,
mas amena, doudejva na campina, ramalhando as folhas, brincando com os
arbustos, empolando e acamando as ervas dos prados. Os rouxines nas
moutas rompiam em trinados os deliciosos gorgeios. A cigarra casava a
voz estridula com o coaxar das rs. As sombras, delgadas ainda,
comeavam a fechar-se sobre o valle, emquanto os raios do dia amorteciam
a pouco e pouco no viso dos outeiros, escurecendo o fino azul do
firmamento e o verde fresco das arvores e plantas.

Quando a ternura mutua os deixou respirar, a donzella, volvendo em si
primeiro, e desabotoando o meigo sorriso, ergueu o dedo em ar de
travessa ameaa e disse:

--Vs aqui, Tello! A esta hora, em sitio por onde poucos passam! Que
quereis que digam da pobre Silvana, que no tem seno o seu nome?...

A voz era queixosa, e no irada. O timbre harmonioso avivou no peito do
mancebo o ardor da paixo. Depois os olhos sorriam animados de malicia
to innocente, que Tello leu n'elles mais do que esperana, leu amor. De
repente ficou outro. Pegando-lhe na mo, e beijando-a, a voz
soltou-se-lhe, e a vista, cobrando valor na vista d'ella, tornou-se to
eloquente, to avida de ternura, que ella baixou outra vez as palpebras.

--Silvana! exclamou arrebatado. Quiz Deus que nos amassemos, e que um
no podesse viver sem o outro. Meus paes consentem. Ds-me o sim?

O jubilo transformou a phisionomia da donzella. Depois o carmin das
faces sumiu-se, e as lindas pupillas, um momento radiosas, molhando-se
de lagrimas, lanaram sobre o rosto as sombras da mais resignada
tristesa. Sem retirar, ou entregar a mo, que o mancebo prendia nas
suas, a neta de Garcia do Marnel, esquecido o conselho de Aldona,
respondeu singelamente:

--Tello, no vos darei j o sim; no quero arrepender-me. O filho de
Ayres Vasques, do mais abastado morador da terra de Miranda, no deve
escolher a sua noiva entre as donzellas mais pobres e desvalidas de
Algoo. Amo! Porque hei de negal-o? Mas pelo muito amor  que receio
acceitar. O que ha de trazer em dote a orph sustentada pela caridade
dos visinhos seno lagrimas e saudades d'aquelle cho, aonde dorme sem
vingana, porque ninguem lh'a deu, ou pode dar, o velho que duas vezes
foi seu pai, e que por ella morreu de dr? No, Tello! No pode ser!

Fallando assim, tremula e consternada, mal reprimia o pranto. O mancebo
admirava-a silencioso. As lagrimas deslisando-se, os olhos que a dr
fazia irresistiveis, e a voz procurando encobrir com dissimulada firmesa
a magoa intima, por tal modo lhe realavam a formosura, que o besteiro
no sabia se era anjo, ou fada, a que estava adorando ali captivo de mil
attractivos. Attraindo-a, depois, com impeto, e unindo-a ao peito, elle,
o homem forte, o filho de uma raa leal e rude, como o seculo em que
vivia, sentiu rebentar o pranto, e no se envergonhou de o deixar
correr.

--A tua vontade, Silvana, ser a minha! disse por fim. Mas por amor te
quero, e no  justo que por amor te perca. O que vale dizer a bocca
no, se os olhos, mau pesar teu, esto dizendo sim? Dizes que o dote que
me trazes  de lagrimas e pobresas? Nunca fui mais rico. Estas lagrimas
piedosas da filha promettem venturas ao marido. E a puresa d'esse
corao  o teu maior thesouro. Hontem no podia viver sem ti, hoje
morria se te perdesse. Silvana!... No n'o escondas! O senhor tentou-te
de amores, e jurou vingar-se dos despresos? Socega! Deus ser comnosco.
O meu arco no erra. A seta vae sempre aonde a mando!

No cedeu ainda a donzella, mas Tello no se enganra: o corao
desmentia a bocca. Afinal deu o sim, cobriu o rosto, e accsa em pejo
desappareceu como se toda a aldeia a estivesse vendo. Ficou ajustado,
que no seguinte dia iria Tello ao solar pedir licena a Sueiro Lopes. Os
noivos sem ella no podiam receber-se na igreja de Algoo, e Silvana
desejava tanto que seus amores fossem abenoados, aonde o tinham sido os
de seu pai e seu av, que o besteiro no ousou contrarial-a. Altos
juizos de Deus! Mal previa o orgulhoso descendente dos senhores de
Biscaia que por causa dos olhos verdes de uma donzella pagaria todas as
culpas da sua gerao, todos os crimes da sua vida.


VI

Era domingo. Tudo repousava na aldeia. Sobre a tarde um cavalleiro,
correndo a redea larga, subia a ladeira torcida por entre os penhascos
que findava  porta do castello. Atraz, mas longe, uma vistosa quadrilha
de monteiros, de guarda-coz verde e cintos de couro, passou rindo e
folgando, em quanto os moos de monte sustinham das trllas as matilhas
impacientes, cujos saltos e latidos formavam condigno acompanhamento aos
alaridos dos caadores. No meio do prestito jovial uma azemola conduzia
atravessado em duas varas o corpo de um javardo, victima enorme e
cerdosa sacrificada depois de aturada fadiga e renhido combate, segundo
attestavam os golpes, com que suas navalhadas presas tinham descosido os
mais valentes e fugosos ces.

Soavam as buzinas a brava alegria das florestas, e o tropel ruidoso,
trotando, recordava as proesas dos sabujos mais atrevidos, e resava,
entre chufas e galhofas, a orao funebre do pingue eremita, que todos
haviam corrido sem parar desde a madrugada at ao pr do sol.

D. Sueiro, que se apartra d'elles ao p da fonte da moura, era o unico
serio e silencioso. Contra o seu costume, a trompa de prata pendia muda,
e nem o ardor da carreira, nem as iras do javali, varado pelo seu
venabulo, lhe arrancavam os sons festivos, que era sempre o primeiro a
levantar. Que magoa, ou que remorso entristecia o senhor de Algoo? Nas
trevas, nas horas atormentadas das noites sem somno, apparecera-lhe a
viso terrivel, com que na raa de Biscaia a sombra de Diogo Lopes
avisava a cabea da familia de estar proximo o dia dos ultimos e tardios
arrependimentos? Ao p da fonte apeiou-se, e, com a cabea entre as
mos, alongou a vista at aos montes fronteiros. O olhar vago e perdido
dizia que o espirito no se achava ali. De repente rangeram e estalaram
os ramos junto d'elle, e do meio dos loureiros saiu uma figura. Ao ruido
o rico-homem levou a mo ao punho da espada, inculcando sobresalto sem
receio. O mdo nunca entrra n'aquelle peito inaccessivel  piedade.

--Quem s? O que buscas? bradou irado, medindo com os olhos torvos o
robusto e esbelto mancebo, que de arco frouxo na mo, e frechas passadas
no cinto, se lhe descobria subitamente.

Este no se alterou. Vendo perto de si o homem, que tantas lagrimas
accusavam, assomou-lhe s faces morenas um leve rubor e as pupillas
negras faiscaram duas chispas. Sueiro Lopes apertou com mais fora os
copos da espada.

--Sou o filho de Ayres Vasques, o de Miranda, e a vs buscava!

A firmesa do tom e a conciso da resposta desagradaram ao cavalleiro.
Brilharam os olhos mais sombrios, e um sorriso mau encrespou-lhe os
beios.

--O que vem pedir o filho de Ayres Vasques ao senhor de Algoo, fra do
seu castello, n'este logar deserto?

A ironia salpicava de escarneo as palavras pronunciadas com desprezo.

--Venho dizer-vos, redarguiu o besteiro, aspero e frio, que vive em
vossas terras a donzella que ha de ser minha mulher.

--Ah! S isso?! E  bonita e moa a tua noiva? Por fora a conheo
ento. Como se chama?

Fallando assim, o tom e os modos de Sueiro estillavam tal veneno, que as
furias do ciume se levantaram no peito do mancebo. Conteve-se, porem, e
retorquiu:

--A mais formosa da aldeia.  a Silvana do Marnel.

--A Silvaninha? A perola de Algoo? Dal-a a um javardo de Miranda?! Pes
alto o pensamento, villo. Muito alto! Manjares de senhor no se do a
servos.

Foi Deus, ou o anjo custodio, que suspendeu o brao a Tello. A mo
procurou a seta mais aguda no cinto, e os olhos chammejantes apontaram
no peito do rico-homem o logar do tiro. O cavalleiro percebeu, mas
disfarou. Continuando a pungir o mancebo com mofas, proseguiu:

--Sabes, Tello, que pelos olhos verdes de Silvaninha dera eu o melhor
cavallo e o melhor arnez, e que um beijo d'aquella bocca pagaria o
resgate de um baro? Cuida o villo que eu havia de enterrar na sua
posilga a roza dos nossos sitios?

--Senhor! bradou o besteiro, tremulo de colera e de ciume.

--Fora! exclamou Sueiro Lopes, mettendo o p no estribo e sacudindo o
ltego no ar. Arreda! ajuntou vendo-o adiantar direito e pallido, com
mil ameaas nos olhos e no gesto. Arreda, ou por meu bisav te juro, que
tantas noutes dormirs na cisterna do meu castello, que de l te
arranquem cego e doudo!

--Veremos! articulou o besteiro retesando o arco. S Deus sabe aonde vs
dormireis hoje!

O cavalleiro ja tnha cravado esporas no corsel, e comera a levantar o
galope, quando lhe chegaram aos ouvidos estas palavras. Escutando-as,
parou o cavallo de repente, e voltando rijo sobre Tello, sem baixar a
vista sobre elle, disse-lhe rindo affrontosamente:

--Villo! No has de ir queixoso, olha bem! No dia em que Silvana tecer
de fios de ortigas, nascidas na sepultura do av, duas camisas para mim,
dou licena que se chame tua mulher.  uma joia por um ceitil! uma das
camisas ser o meu brinde de noivado, a outra desejo-a para me enterrar
com ella no dia seguinte. At l que no vos torne a ver a ambos!

A esperana acabou de fallecer no peito ao mancebo. Fez-se branco,
fugiu-lhe a luz da vista, e sentiu-se to prostrado, como se o sangue se
lhe esvaisse todo. Quiz fallar e correr, mas os ps arraigavam-se ao
cho. A mo inerte no se erguia. A dor immensa tinha-lhe quasi
suspendido a vida. Quando volveu a si para olhar em roda, avistou ao
longe na planicie o vulto do cavalleiro maldito, e pareceu-lhe ouvir
estalar ainda as risadas do seu escarneo. Tello elevou ento ao ceu a
vista toldada de lagrimas e caiu em um scismar profundo. Desceu a noute
sem elle dar por si; soprou o vento da serra nas arvores sem elle o
sentir; e as primeiras gotas da chuva, nuncias da tempestade,
orvalharam-lhe a cabea nua, sem o despertarem da amargura. Ao rebombo
dos troves  que acordou, e que principiou a afastar-se com passos
vagarosos do sitio, aonde o amor cercado de illuses lhe sorrira alegre,
e aonde deixava calcadas e desfeitas as melhores esperanas da
existencia.


VII

--O aor encontrar a aguia. Sinto-a j voar! No chores, Silvana, sers
feliz. Diz-to quem o sabe! Tello!.. A frecha do teu arco pode descansar
na aljava. Esta noite,  meia noite, ide ambos ao cemiterio da igreja.
Ajoelhai e rezai sobre a sepultura de Garcia. Como as ortigas crescem e
esto n'ella viosas! Quando sair o luar, Silvaninha, colhe-as a duas e
duas, e traz-m'as no regao  fonte da Moura. Vespera de S. Joo ha de
torcer-se o fio. As duas camisas no ho de faltar. A semana que vem
ser a do noivado e a do enterro. Ouvis dobrar o sino? A aguia no
tarda. Enxugai os olhos.

E a velha Aldona, dizendo isto, ria-se com aquelle ar que fazia da
feiticeira a amiga de todos os afflictos. D. Sueiro puzera por condio,
que s daria o sim, se a donzella lhe fiasse e tecesse de ortigas da
sepultura do av duas camisas.

--Queres acompanhar-me, Tello? atalhou a donzella suspirando.

--Por que no fugimos ns? acudiu elle a meia voz.

--Por que ninguem foge  sorte! tornou a velha, erguendo-se e sustendo a
mo alva e breve de Silvana entre as suas. No vos demoreis.  meia
noite, ao romper da lua, todos tres na fonte da Moura!

Era j escuro, e as estrellas comeavam a scintillar. Suspirava a
virao por entre as folhas das arvores, que no cemiterio cobriam de
sombra as sepulturas. As relvas altas ensurdeciam os passos. A roza
silvestre entrelaava-se com as verbenas e com os goivos. Ao lado da
egreja, entre rosmaninhos, erguia-se uma cruz de pau; tinha entalhado um
arco no topo. Ali repousava de setenta annos de edade e de fadigas o av
da donzella. Segundo afirmra Aldona, uma sera de ortigas vestia o
cho. Como o pranto se corre pelas faces de Silvana ajoelhada! Como a
orao sobe pura e fervorosa de seus labios ao regao dos anjos, que vo
depor aos ps do Senhor! Mais afastado, Tello, tambem de joelhos, orava
com ardor; mas aquelle peito, menos brando, mistura com as preces vozes
de vingana. Por fim levantou-se a donzella, e beijando a terra aonde o
p dos que amra se volvera ao p, principiou a cumprir as ordens de
Aldona. A duas e duas foi apanhando as ortigas. Quando acabava chispou
no outeiro mais proximo a labareda da primeira fogueira, e soou na voz
de bronze do sino o primeiro repique. A lua rompia de traz da serra, e o
seu claro branco allumiava toda a campina. Era a hora aprazada. O
mancebo deu a mo a Silvana. Tinham ambos tantas cousas dentro d'alma,
que nenhum fallou em todo o caminho.

Quando chegaram no viram seno uma serpente, fugindo por cima dos
penhascos, e uma corsa branca pulando por entre as arvores. A velha
Aldona appareceu de repente ao p da fonte, e acenou-lhes. Recebendo
das mos da donzella as tres regaadas de ortigas, banhou-as outras
tantas vezes na agua encantada, pronunciando algumas palavras a meia
voz. Passados minutos tirou-as do tanque reduzidas a feveras finas, como
o fio que tece a aranha. Tres dias decorreram. Em todos elles no cessou
de girar o fuso da velha.

No quarto dia dobou-se a linha; no quinto metteram-se as meadas no tear.

Quando a semana pendia s de poucas horas, Sueiro Lopes passou a cavallo
pela choupana, olhou, e viu Aldona  porta, cozendo com Silvana uma
tela to branca e transparente, que deslumbrava.

--Guarde-vos Deus! disse detendo-se. Que estais cosendo com tanta
pressa?

E o cavalleiro no tirava a vista dos dedos afilados da donzella que
voavam sobre a costura.

--Estamos cumprindo um voto! redarguiu a velha sem levantar a cabea.
Aquella  a camisa do noivado, esta  a camisa do enterro. Ortigas do
cemiterio nos deram o fio, e boas fadas nos teceram o panno. Em tres
dias estaro acabadas e em tres dias veremos tambem a noiva no altar e o
morto no caixo.

Ouvindo-a, o rico-homem mudou de cr e largou as redeas ao cavallo. A
velha, vendo-o correr, exclamou, meneando a cabea:

--Corre! Que mais corre o destino! Ao que ha de ser ninguem escapa!


VIII

Os sinos do presbyterio repicam depois da missa. O povo acotovela-se 
saida do estreito portal, e mais de um moo airoso, de rosto bronzeado,
distrahe a vista furtiva e faz corar de jubilo a donzella, cujos olhos
cheios de reticencias recordam os juramentos da vespera. O ruido dos
ps, o borburinho e os alaridos das creanas, saltando pelo adro, animam
de ar festivo a scena popular. Em quanto o Reitor, curvo e triste, se
encaminha de vagar para a sua morada, estendendo a beno pelos aldeos,
Silvana, sempre pallida, ampara no brao delicado o corpo de Aldona. Os
villos desbarretam-se diante d'ellas, como diante do pastor; as
mulheres acodem a saudal-as; e os rapazes, suspendendo as travessuras,
tomam-as por intercessoras de suas peties. Encostado a uma oliveira
antiga, Tello, de braos crusados, e com o arco a tiracollo, no
desprega a vista namorada da neta de Garcia.

Mas antes das duas trilharem o sitio onde ella as est esperando, um
homem de estatura elevada, semblante jovial, e gestos impetuosos,
apressando o passo, adianta-se, e chega primeiro.  simples o seu trajo.
Guarda-coz de ipre verde desenha o corpo robusto, e a monteira do mesmo
estofo, sem plumas, assenta com desgarre fragueiro sobre os cabellos
pretos, cujos anneis se debruam sobre o cabeo da golla. Era de villo
o vestido, mas o garbo e o porte inculcavam condio mais nobre. Nas
pupillas inquietas, e por vezes desvairadas, retrata-se a indole
ardente, prompta na ira, facil nos arrebatamentos.

As sobrancelhas, densas e arqueadas, a nuvem que tolda a espaos a
serenidade da phisionomia, a par da tristeza, que lhe sobe em ondas
rapidas ao semblante, denunciando saudades intimas e incuraveis, avivam
as feies de um caracter afeito a dominar, de um corao ferido de
golpe irreparavel, de uma mo que no combate das paixes nem sempre ha
de conservar-se lucida, resultado de passados soffrimentos.

Afagando com a mo direita as compridas barbas, e concertando com a
esquerda o cinto, de que pende a adaga e uma trompa, este homem, que no
pde contar ainda quarenta annos, e que entrra na egreja sem nenhum dos
fieis se lembrar de o ter visto nunca, comeou  saida a fallar com uns
e com outros, fazendo perguntas aos mais velhos. Rompendo depois por
entre o povo veiu collocar-se no sitio, aonde o descobrimos diante de
Aldona e Silvana, to proximo de Tello que este no perdeu palavra do
que disse. Sem saber porque, o besteiro, de ordinario cioso e assomado,
em logar de se affrontar, estimou quasi a ousadia do monteiro. Parecia
que um presentimento occulto lhe insinuava, que se decidia n'este
momento a sua sorte. Era to grande n'elle a tranquillidade de animo,
como se a noiva adorada estivesse debaixo da proteco d'aquelle que
duas vezes chamra pae. A velha Aldona, apenas divisara o hospede,
exclamou como rejuvenescida de repente:

--Filha! No t'o affirmei? A aguia real saiu do ninho. A hora vem perto.
Ouve o que te disser, obedece ao que te mandar, succeda o que succeder.
Muita f em Deus e na justia de Elrei D. Pedro.

--No  a f que me falta, redarguiu melancholica a donzella,  a
esperana, me!... Elrei est longe e to alto, que no podem vencer de
certo metade do caminho as queixas da orph.

--Quem sabe, donzella? atalhou o monteiro, adiantando-se, e admirando a
formosura de Silvana. Pegando-lhe na mo, ajuntou:

--El-rei D. Pedro, filha, v e ouve de longe. Conta-me tuas magoas.

Fallando assim, o tom da voz era brando. Tello, que o contemplava,
sentiu renascer a esperana, e insensivelmente socegou do maior cuidado.
Ora pallida, ora crada, a neta de Garcia narrava no emtanto a morte
dolorosa do av, as lastimas da sua infancia, e os amores infames que a
perseguiam. As palavras pintavam a sua alma. Mais compadecida, do que
vingativa, procurava atenuar as crueldades do senhor. Quando terminou, o
desconhecido, sorrindo-se, e soltando-lhe a mo, disse:

--Descansai! Est perto El-rei D. Pedro.  como se vos ouvisse. Mandai a
Sueiro Lopes a camisa da mortalha, no a pediu de balde! Se o cavalleiro
fr desleal, ou se vos quizer tirar por fora, enviai-me este signal.
Deus e El-rei sero comvosco!

Ao mesmo tempo entregou-lhe a trompa de prata e virando-se para Tello,
accrescentava:

-- o vosso noivo?.. Merece-vos? Escolhestes bem?!... No creis,
Silvana! Se o besteiro fr o que mostra em pouco ha de fallar-se d'elle
em Miranda. Adeus! No vos esquea!... Ao primeiro perigo, um recado e o
signal. O mais fica para mim.

Dito isto o monteiro sumiu-se por entre as arvores, e Tello estava aos
ps da noiva, que Aldona animava, annunciando-lhe proximo o termo de
seus pezares.


IX

Quando Tello, ao cair da tarde do outro dia, trepava a p a ladeira do
castello de Algoo, vinha descendo o mordomo, seguido dos homens d'armas
escolhidos. O mordomo era o cego executor da vontade de Sueiro Lopes;
alma negra do senhor, aonde alcanra com o brao deixra sempre
vestigios dolorosos. Passando pelo besteiro de Miranda, que o aborrecia,
o villico (era o seu titulo n'aquelle tempo) no pde conter o sorriso,
rosnando por entre dentes: quantos vo que no voltaro! O noivo de
Silvana desprezou o riso, e continuou o caminho; mas  porta
despediram-o asperamente, respondendo que Sua Merc repousava, e que
ninguem o despertaria para dar audiencia a um villo. A principio Tello
pde sopear a ira, mas a pouco e pouco a altercao irritou-o, e
levantou a voz. Sueiro Lopes assomou de repente  porta. Inteirado do
motivo da disputa, virou-se para o besteiro, e perguntou:

--A que vens aqui?

--Trazer o que mandastes e pedir o cumprimento da promessa! redarguiu
elle friamente.

O senhor empallidiceu. Um estremecimento, que no soube vencer,
sacudiu-lhe os membros. Lembrou-se da tela alvissima e transparente, que
vira na choupana de Aldona, e tremeu pela primeira vez da sua vida.
Depressa se recobrou e medindo o mancebo com indizivel escarneo,
replicou:

--Pedi-te duas camisas fiadas e tecidas com os fios das ortigas da
sepultura de Garcia, uma para o teu noivado, outra para a minha
mortalha. Palavra de cavalleiro no quebra! Se cumpriste, no hei de
faltar. As camisas?...

--Eil-as! acudiu o besteiro. Ortigas deram o fio e fadas teceram o
panno.

Era o mesmo que j lhe respondera Aldona. A maravilhosa tela, que o
noivo de Silvana desdobrou diante de seus olhos, na finura admiravel bem
mostrava no ser obra de mos humanas. Pegando na mortalha D. Sueiro
tremia. Sobre o peito, em lettras cr de sangue, viu as iniciaes de seu
nome e pondo o estofo contra a luz, retrataram-se-lhe as feies das
tres esposas que tinham passado ao tumulo do seu leito.

--Bem! exclamou. Silvana  tua se a achares. Quanto  mortalha....
Veremos esta noite quem a veste!

No esperou por mais o besteiro, e partiu, apressando o passo, caminho
da choupana de Aldona. Um presentimento vago advertia-o de perigo
incerto. A tristeza opprimia-lhe o peito; e todavia, a ba nova, que
levava, devia alegral-o. A noite fechou-se escura. O tempo tinha mudado.
Rugindo no pinhal o vento arrancava por entre as ramas das arvores
gemidos lugubres. No cu apagavam-se as estrellas umas apz outras
debaixo do pesado toldo de nuvens, e a lua encobria-se de todo por cima
do ultimo outeiro. Sem saber porque, sentiu-se Tello desalentado. Elle,
o melhor caminheiro dos arredores, o besteiro mais destro dos contornos,
deu por si mais de uma vez arrastando os passos e tremendo. Quando
chegou  choupana, achou a casa rma e a porta arrombada, e acabou de
crer que os pressagios no mentem. Bastava olhar para dentro para
adivinhar uma scena violenta. A lampada ardia ainda junto do lar, e luz
mortia deixava ver os escanhos partidos, os vasos de barro pisados, as
arcas espedaadas. O pobre catre de Aldona, despido de roupas, jazia em
um feixe. O mancebo parou, e de balde quiz ligar as ideias. O golpe
inopinado tinha-lhe quebrdo as foras. Nem o animo, nem a razo se
prestavam a ajudal-o.

Fra rapto? Fra vingana mais atroz? A mudez da cabana no respondia!
Saltaram-lhe ento as lagrimas, e a dr foi to penetrante, que a no se
encostar cara desfallecido. Occorreram-lhe as palavras de Sueiro Lopes,
e percebeu-as tarde. Silvana tinha sido roubada pelos servos do
Castello, e quella hora entrava talvez as portas do Alcacer, que para
ella eram as portas do sepulchro. _ tua se a achares!_ dissera o
roubador. A quem iria Tello pedir justia? Luctando com a agonia sentiu
que ia enlouquecer. Mas, louco, o que restava  donzella seno a morte
depois da infamia? No auge da desesperao, erguendo as mos, bradou
atribulado: Senhor! A vingana  mais vossa, do que minha! No
embainheis a espada da justia!

No meio d'estas vozes pousou-lhe de leve a mo de uma mulher no hombro.
Olhou. Viu Aldona. Um signal imperioso atalhou em seus labios o grito
que iam soltar. Guiando-o calada, a protectora de seus amores chegou a
um logar deserto, e apontando para um cavallo ajaezado, preso ao tronco
de uma arvore, disse-lhe rapidamente:

--Monta!

O besteiro obedeceu. Entregando-lhe ento a trompa de prata, a velha
ajuntou:

--O mordomo de Sueiro Lopes entrou aqui e leva roubada a tua noiva.
Corre, que por tua felicidade corres, e no pares seno na villa de
Miranda. Busca os Paos do conde e apeia-te. Se te perguntarem quem s,
dize que procuras o senhor. J o viste.  o monteiro d'esta manh.
D-lhe a trompa, conta-lhe o succedido, e faze o que te mandar. Antes de
sol nado estaremos todos juntos outra vez. As duas camisas tero
cumprido o seu fado.

O mancebo, atonito, viu-a desapparecer, e largando as redeas, partiu
direito  villa.


X

Como o Douro vae fundo e impetuoso! Como se arremessa irado contra os
penedos do seu leito! Que troves rebramam as aguas despenhadas em
cascatas contra as penhas, que lhe opprimem a furia da corrente! Como a
noute se cobre de luto quasi de repente de minuto para minuto! Aos
bramidos do vento responde o estampido longinquo da tempestade. Os
relampagos fuzilam sobre as eminencias.

L em cima, nos penhascos fragosos, que villa  aquella, cujas torres
negras estrellam vivas luzes pelas frestas ponteagudas? Seguindo a
margem do rio, Tello Vasques no sente fadiga; o brioso corsel devora a
distancia. Batia a hora de se alarem as levadias, quando o mancebo
atravessa pontes e estradas, enfia ruas e villas, e pra no terreiro,
defronte dos Paos do conde e da torre de menagem. Apeia-se, e sobe os
degraus a dois e dois at ao portal da primeira sala. Os guardas
intentam detel-o; mas sem voltar a cabea, e continuando, responde:
busco o senhor! Ninguem o suspende. De corredor em corredor, de aposento
em aposento chega  sala de armas. Entre os cavalleiros, que passeiam,
divisa o monteiro desconhecido com o mesmo guarda-coz ainda.

Grossas tochas em armeis de ferro illuminam a vasta quadra. Corpos de
armas brunidas, achas, montantes, lanas e adagas entrelaadas em
caprichosos ornatos enfeitam as columnas, cujos capiteis lavrados
sustentam os fechos da abobada. O monteiro, apercebendo Tello,
encaminhou-se para elle. O mancebo vinha to soffocado, que pde dobrar
apenas o joelho e offerecer-lhe a trompa. Foi preciso que elle sorrisse
para o besteiro narrar o successo, que o trazia quella hora.
Concluindo, o moo ergueu as mos, e com a vista inflammada bradou:

--Levai-me aos ps de El-rei D. Pedro. Dizem que no conhece grandes,
nem pequenos. A donzella, que roubaram,  pura e santa como a mais pura
e nobre de vossas filhas. No deixeis sem castigo o rico-homem por ella
ter nascido no bero de um villo!

 medida que o besteiro fallava, a phisionomia do desconhecido mudava de
aspecto. Os olhos pretos dilatados chammejavam, e o semblante, rosado e
jovial, empallidecia, torvo de severidade. Arquejava-lhe o peito. O
gesto infundia medo at nos que se achavam distantes. Quando Tello poz
termo a suas queixas, e levantou a vista, recuou assustado. A expresso
dos olhos do seu protector era terrivel. Ensanguentados e delirantes
mais se assimilhavam s pupillas encandeadas do tigre, do que a olhar
humano. A voz cheia, mas presa, gaguejando, fallava to convulsa, que
pouco se entendia. Adiantando-se, o desconhecido clamou em grandes
brados:

--Loureno Gonsalves! Acudi! Um rico homem furtou a mais linda de minhas
filhas!

O brado, e a immensa colera, revelaram tudo ao mancebo. Loureno
Gonsalves era o corregedor da crte. Ninguem ousaria chamal-o assim
seno el-rei. Tello prostrou-se cheio de esperana.

--Segue-me! Affonso Madeira! o meu cavallo enfreado  porta! A minha
capellina de ao! Gonsalo Vasques de Goes, escrivo da Puridade! Chamae
os desembargadores, relatae-lhes o feito, e lavrae a sentena. Por alma
de Ignez de Castro!... Pelo seu amor! murmurou mais baixo. Antes de
nascer o sol haver um criminoso de menos no meu reino, e mais uma
justia de minhas mos no livro de suas chronicas!

Fallando assim enlaava a capellina, calava as luvas de gamo, e com o
aoute cingido, desprendia a acha de armas mais pesada.

O besteiro seguiu-o sem proferir palavra. Os cavalleiros montavam, e uns
apoz outros galoparam para o alcanar. El-rei ia deixando atraz do
cavallo o proprio Tello Vasques, e cego de ira mettia-se pelas terras de
Algoo. Por cima d'esta vertiginosa carreira a chuva cahia em torrentes.
A procella abria os ceus em clares lividos, desarraigando as arvores
annosas. Quando D. Pedro assomava diante da porta do castello, um vulto
surgiu, que tomou-lhe as redeas, convidando-o a apeiar-se. De um salto
estava em terra e levantando a cabea via as frestas da torre
illuminadas. O vulto travou-lhe do brao, e disse:

-- ali!

--Vamos! redarguiu o principe, e seguiu-o sem desconfiana.

Uma entrada falsa, alm do fosso, cedeu  chave e ao impulso.

--Ide agora e Deus seja comvosco! disse a mesma voz.

Ouvindo vozes e risadas no andar superior, o amante de Ignez de Castro
subiu. No topo da escada de caracol, a scena que se lhe representou
excitou-lhe ainda mais a colera. Perderia o terror salutar do nome
Justiceiro se perdoasse aquelle crime.

Era espaoso o aposento. Um lampadario allumiava parte d'elle; o resto
mergulhava-se em meia escurido. No centro da sala, em um leito, com as
mos ligadas, jazia Silvaninha. Duas voltas de leno sobre a bocca at
os ais lhe suffocavam! S os olhos, os lindos olhos, banhados de
lagrimas pediam a Deus a morte, remedio extremo da infamia. Sueiro
Lopes, defronte, sorria-se medindo com a vista a queda lenta da areia
d'uma ampulheta. A seu lado o villico silencioso corria os dados sobre a
mesa. A tela da mortalha, fiada e tecida com as ortigas do tumulo,
estava nas mos do cavalleiro, e suas palavras, ironicas como punhaes,
atravessavam o peito da infeliz. Estranho ao remorso, o neto dos
senhores de Biscaia cevava na formosura captiva o furor dos zelos.

--Porque choras, Silvana? Dera hontem o melhor arnez e o melhor cavallo
por um sorrir de teus olhos. Pedi-te amor e respondeste no. A tua
prenda foi esta mortalha! Que te acudam agora as fadas, que a teceram, e
os anjos porque chamavas! Brada pelo besteiro villo, que preferiste ao
rico-homem! Grita por el-rei D. Pedro! Por forte que seja o seu brao as
portas chapeadas d'este castello ainda so mais fortes. Em esta areia,
que est por instantes, cahindo toda...

Faltou-lhe a voz. A mo erguida do villico deixou tambem rolar o ultimo
dado. Ao limiar estava el-rei D. Pedro, e nos olhos d'elle brilhava um
claro terrivel. A pesada acha reluzia em suas mos.

--Traidor! bradou o principe. Mentes! O brao de D. Pedro quebra e rompe
todas as portas. Vais ver!... Villo! ajuntou fallando ao villico. Solta
as mos e a boca a essa donzella. Ninguem se mova! Sueiro Lopes, conta
bem os gros de areia da tua ampulheta.  o tempo que te dou. Vais
comparecer na presena de Deus!

O orgulho indomito do cavalleiro no cedeu. Empunhando a adaga, e posto
que pallido, sempre firme e seguro, voltou-se para D. Pedro e redarguiu:

--Quem d aqui ordens e ameaa? O verdugo de Pero Coelho e de Alvaro
Gonsalves? O rei carrasco, falso  sua alma e  alma de seu pae?
Imaginas que farei como os outros cavalleiros? Estou no meu solar, e a
quem entra de noite e  m f chamo-lhe inimigo! Villico! Aperta os
laos da captiva. No alto e no baixo, irado e pagado, no entrego o
castello seno a Deus. A mim, homens d'armas!

--Deus  justo! clamou el-rei, cuja furia no conhecia limites. O
matador de tres mulheres levanta-se contra o seu rei. O perseguidor
cruel de donzellas nega-me o preito e menagem. Bem! Morrers como villo
s mos dos teus villos. No mancho em tal sangue o ferro da minha
acha. Villos! bradou imperioso aos servos do senhor que tinham acudido.
Sou D. Pedro! Sou o rei! Esse que ahi est, rebelde e traidor,
prendei-m'o em quanto os meus no chegam!

A presena e a voz do filho de Affonso IV infundiam terror. Os homens
d'armas temiam, mas no amavam Sueiro Lopes. A ordem foi cumprida.
Depois de curta e desesperada resistencia, o cavalleiro ficou  merc de
el-rei.

--Passae um lao na cadeia do lampadario, ponde um escanho para elle
subir, e cingi-lhe o n na garganta! proseguiu o soberano indignado.

--Sou rico-homem por foro de Hespanha. A afronta da morte vil, car
sobre vs e sobre todos os filhos d'algo. Pedir-te-ho contas d'ella,
verdugo! gritou o cavalleiro estorcendo-se.

--A Deus as darei, e a mais ninguem! O desleal que violenta donzellas
no  cavalleiro. Quebro-te a espada e o foro com o meu sceptro.

Momentos depois, D. Sueiro estava em cima do escanho, e o villico
enrolava-lhe o lao. Commovida e tremula, Silvana lanou-se supplicante
aos ps do rei. Debalde! D. Pedro, desviando-se, perguntou ao paciente:

--Pedes perdo a Deus e ao teu rei?

--No!

O p do principe tombou o escanho e a morte cortou as ultimas palavras
do cavalleiro.


XI

A tropeada de muitos cavallos, soando a par do alarido e vozes do
castello, annunciou  aldeia alvoroada a vinda do monarcha. Tello
Vasques apparecia  porta quando Sueiro Lopes expirava.

--Besteiro! Por teus olhos vs que me no chamam em vo o Justiceiro.
Corrias como noivo e como esposo... apesar d'isso cheguei primeiro! A
justia do rei ainda andou mais veloz do que o amor!

Horas depois, a camisa do enterro servia de mortalha a Sueiro na
capella, e os noivos recebiam a beno nupcial, tendo el-rei D. Pedro
por seu padrinho.

Fallou-se muito no besteiro de Miranda, mas o que no esqueceu nunca foi
a justia que fizera em Algoo a severidade do monarcha.

O castello devolveu-se  cora, e parece que fra doado depois ao
primogenito de Tello e de Silvana. Pelo menos assim se disse, e se foi
verdade ou fabula, no sei. El-rei D. Pedro era to capaz de fazer
cavalleiro um villo, como de justiar como villo um cavalleiro.




ULTIMA CORRIDA DE TOUROS EM SALVATERRA


I

O Senhor D. Jos, primeiro do nome, era em Salvaterra um rei em frias.
A verdade  que os maldizentes notavam, em segredo, que Sua Majestade em
Lisboa estava sempre ao torno e o marquez de Pombal no throno. O
proloquio fundava-se na habilidade mechanica do monarcha como torneiro,
e no caracter dominador do marquez como ministro.

Vecejavam os campos em plena primavera. A amendoeira cobria-se de
flres, os bosques enfolhavam-se, as veigas vestiam-se e matisavam-se, e
a brisa doudejava indiscreta arregaando o leno  donzella que passava,
ou roubando um beijo  rosa perfumada. Tudo eram alegrias e canticos...
os rouxinoes nas moutas, o corao nos amores, e a naturesa nos sorrisos
ao sol esplendido que a dourava.

Uma tourada real chamra a crte a Salvaterra. Os fidalgos respiravam
n'estas occasies menos opprimidos. No os assombrava to de perto a
privana do ministro. Os touros eram bravos, os cavalleiros destros, o
amphiteatro pomposo, e o cortejo das damas adoravel. O prazer ria na
bocca de todos. Por cumulo de venturas o marquez de Pombal ficra em
Lisboa, retido pelo conflicto com o embaixador de Hespanha.

Contava-se em segredo nos recantos do palacio o dialogo travado entre o
enviado castelhano e o secretario de estado portuguez, louvando-o uns em
alta voz, para os ecos d'aquellas paredes repetirem o elogio,
crucificando-o outros sem piedade, para saciarem os odios. As devotas e
os fidalgos puritanos eram pelo hespanhol, e pediam a Deus que os
rebates da guerra proxima despenhassem o plebeu nobilitado. Os
magistrados e os homens de capa e volta, defendiam o marquez e
respondiam com meios sorrisos s fogosas jaculatorias dos zelosos do
throno e do altar. O marquez de Pombal tinha-se negado com firmesa s
concesses exigidas imperiosamente pelo governo castelhano.

--Muito bem, atalhou o embaixador, um exercito de sessenta mil homens
entrar em Portugal e far...

--O qu? perguntara o marquez sorrindo-se com a tremenda luneta
assestada e no tom mais indifferente.

--Far entender a raso e a justia de el-rei, meu amo, a Sua Magestade
e a vossa excellencia! redarguiu meia oitava acima o hespanhol, suppondo
o ministro fulminado.

Sebastio Jos de Carvalho franziu as sobrancelhas, carregou a viseira,
e cravando a vista e a luneta no diplomata, retorquiu-lhe friamente:

--Sessenta mil homens muita gente  para casa to pequena, mas, querendo
Deus, el-rei, meu amo e meu senhor, sempre hade achar aonde possa
hospedal-a. Mais pequena era Aljubarrota e l couberam os que D. Joo de
Castella trouxe. Vossa excellencia pde responder isto ao seu governo.

E, levantando-se para despedir o embaixador, accrescentou:

--Bem sabe vossa excellencia que pde tanto cada um em sua casa, que
mesmo depois de morto so precisos quatro homens para o tirarem!

O embaixador sau jurando por _Dios y la Virgen Santisima_ e o marquez
preparou-se para a guerra. O caso  como dizia o nosso Zeferino na
_Sobrinha do Marquez_, que Sebastio Jos de Carvalho foi um grande
ministro e que fez muito pela nao. Hoje ha menos quem responda assim 
lettra s ameaas dos estrangeiros. Berra-se muito, dorme-se a somno
solto ao som dos hymnos patrioticos, e depois salva o castello de
madrugada e est salva a patria!

O marquez de Pombal presava as artes e protegia e animava as classes
medias. Esse pouco, que o reino progrediu deveu-se a elle. Se a
industria nunca acabou de sair da infancia a culpa quasi toda foi dos
maus governos que succederam ao seu, e tambem do povo que no quiz
trabalhar deveras... Mas vamos aos touros reaes. D'esses  que o
ministro no gostava nada. Queria-os ao arado e no  farpa, e
parecia-lhe melhor, que os toureadores, sendo fidalgos, servissem o
Estado com a penna ou com a espada, e, sendo mechanicos, que lavrassem,
tecessem e ganhassem honradamente a vida, enriquecendo-se a si e 
nao.

Mas el-rei D. Jos, cedendo em tudo ao marquez, quanto aos toiros no
admittia reflexes. N'isto era rei a valer e Bragana legitimo. Os
fidalgos sabiam-o e por isso disfructavam dces prazeres--a satisfao
do gosto nacional, e a contradico da vontade do ministro. Desatendel-a
sem perigo e pela mo do soberano era para elles um deleite e um
triumpho.

N'estas funces no vigorava a severidade das ultimas pragmaticas.
Outro motivo de jubilo. Quem queria podia arruinar-se em luxuosos
vestidos, enfeites e toucados. As bordaduras e os recamos de oiro, os
veludos e sedas de fra, talhados  franceza, resplandeciam constellados
de perolas e diamantes. Por cima dos mais ricos trajos e das mais
vistosas cres desenrolavam-se os anneis ondeados das empoadas
cabelleiras. As damas ostentavam as graas de seus donaires e tufados, e
emoldurando o bello oval dos rostos nos penteados caprichosos sorriam-se
para os gentis campeadores, e seus olhos cheios de luz e de promessas
estimulavam at os timidos.

Correram-se as cortinas da tribuna real. Rompem as musicas. Chegou
el-rei, e logo depois entra pelos camarotes o vistoso cortejo, e v-se
ondear um oceano de cabeas e de plumas. Na praa resoam brava alegria
as trombetas, as charamellas e os timbales. Apparecem os cavalleiros,
fidalgos distinctos todos, com o conto das lanas nos estribos e os
brazes bordados no veludo das gualdrapas dos cavallos. As plumas dos
chapeus debruam-se em matisados cocares, e as espadas em bainhas
lavradas pendem de soberbos talins. Os capinhas e forcados vestem com
garbo  castelhana antiga. No semblante de todos brilha o ardor e o
enthusiasmo.

O conde dos Arcos, entre os cavalleiros, era quem dava mais na vista. O
seu trajo, cortado  moda da crte de Luiz XV, de veludo preto, fazia
realar a elegancia do corpo. Na golla da capa e no corpete sobresaiam
as finas rendas da gravata e dos punhos. Nos joelhos as ligas bordadas
deixavam escapar com artificio os tufos de cambraeta alvissima. O conde
no excedia a estatura ordinaria, mas esbelto e proporcionado, todos os
seus movimentos eram graciosos. As faces eram talvez pallidas de mais,
porm animadas de grande expresso, e o fulgor das pupillas negras
fuzilava to vivo e por vezes to recobrado, que se tornava
irresistivel. Filho do marquez de Marialva, e discipulo querido de seu
pae, do melhor cavalleiro de Portugal, e talvez da Europa, a cavallo, a
nobreza e a naturalidade do seu porte enlevavam os olhos. Elle e o
corsel, como que ajustados em uma s pea, realisavam a imagem do
centauro antigo.

A bizarria com que percorreu a praa, domando sem esforo o fogoso
corsel, arrancou prolongados e repetidos applausos. Na terceira volta,
obrigando o cavallo quasi a ajoelhar-se diante de um camarote, fez que
uma dama escondesse torvada no leno as rosas vivissimas do rosto, que
de certo descobririam o melindroso segredo da sua alma, se em momentos
rapidos como o faiscar do relampago podesse alguem adivinhar o que s
dois sabiam.

El-rei, quando o mancebo o comprimentou pela ultima vez, sorriu-se, e
disse voltando-se:

--Por que vir o conde quasi de luto  festa?

Principiou o combate.

No  proposito nosso descrevermos uma corrida de touros. Todos teem
assistido a ellas e sabem de memoria o que o espectaculo offerece de
notavel. Diremos s que a raa dos bois era apurada, e que os touros se
corriam desembolados,  hespanhola. Nada diminuia, portanto, as
probabilidades do perigo e a poesia da lucta.

Tinham-se picado alguns bois. Abriu-se de novo a porta do curro, e um
touro preto investiu com a praa. Era um verdadeiro boi de circo. Armas
compridas e reviradas nas pontas, pernas delgadas e nervosas, indicio de
grande ligeireza, e movimentos rapidos e bruscos, signal de fora
prodigiosa. Apenas tocra o centro da praa, estacou como deslumbrado,
sacudiu a fronte e escarvando a terra impaciente, soltou um mugido feroz
no meio do silencio, que succedera s palmas e gritos dos espectadores.
Dentro em pouco os capinhas, salvando a pulos as trincheiras, fugiam 
velocidade espantosa do animal, e dois, ou tres cavallos expirantes
denunciavam a sua furia.

Nenhum dos cavalleiros se atreveu a sair contra elle. Fez-se uma pausa.
O touro pisava a arena ameaador e parecia desafiar em vo um contendor.
De repente viu-se o conde dos Arcos firme na sella provocar o impeto da
fra e a hastea flexivel do rojo ranger e estalar, embebendo o ferro no
pescoo musculoso do boi. Um rugido tremendo, uma acclamao immensa do
amphiteatro inteiro, e as vozes triumphaes das trombetas e charamellas
encerraram esta sorte brilhante. Quando o nobre mancebo passou a galope
por baixo do camarote, diante do qual pouco antes fizera ajoelhar o
cavallo, a mo alva e breve de uma dama deixou cair uma rosa, e o conde,
curvando-se com donaire sobre os ares, apanhou a flor do cho sem
afrouxar a carreira, levou-a aos labios, e metteu-a no peito. Investindo
depois com o touro, tornado immovel com a raiva concentrada, rodeou-o
estreitando em volta d'elle os circulos at chegar quasi a pr-lhe a mo
na anca.

O mancebo despresava o perigo e pago at da morte pelos sorrisos, que
seus olhos furtavam de longe, levou o arrojo a arripiar a testa do touro
com a ponta da lana. Precipitou-se ento o animal com furia cega e
irresistivel. O cavallo baqueou trespassado e o cavalleiro, ferido na
perna, no pde levantar-se. Voltando sobre elle o boi enraivecido
arremessou-o aos ares, esperou-lhe a quda nas armas, e no se arredou
seno quando, assentando-lhe as patas sobre o peito, conheceu que o seu
inimigo era um cadaver.

Este doloroso lance occorreu com a velocidade do raio. Estava ja
consummada a tragedia e no havia expirado ainda o echo dos ultimos
aplausos.

De repente um silencio em que se conglobavam milhares de agonias,
emudeceu o circo. Rei, vassallos e damas, meio corpo fra dos camarotes,
fitavam a praa sem respirar e erguiam logo depois a vista ao ceu como
para seguir a alma, que para l voava envolta em sangue.

Quando o mancebo, dobado no ar, exhalava a vida antes de tocar o cho,
um gemido agudo, composto de soluos e choro, caiu sobre o cadaver com
uma lagrima de fogo. Uma dama desmaiada nos braos de outras senhoras
soltra aquelle grito estridente, derradeiro ai do corao ao rebentar
no peito.

El-rei D. Jos, com as mos no rosto, parecia petrificado.

A crte d'esta vez acompanhava-o sinceramente na sua dr.

Mas o drama ainda no tinha concluido. Quem sabe?! O terror e a piedade
iam cortar de novas magoas o peito a todos.

O marquez de Marialva assistira a tudo do seu logar. Revendo-se na
gentileza do filho, seus olhos seguiam-lhe os movimentos brilhando
radiosos a cada sorte feliz. Logo que entrou o touro preto carregou-se
de uma nuvem o semblante do ancio. Quando o conde dos Arcos sahiu a
farpeal-o, as feies do pae contrairam-se e a sua vista no se
despregou mais da arriscada lucta.

De repente o velho soltou um grito soffocado e cobriu os olhos,
apertando depois as mos na cabea. Os seus receios haviam-se realisado.
Cavallo e cavalleiro rolavam na arena, e a esperana pendia de um fio
tenue! Cortou-lh'o rapidamente a morte, e o marquez, perdido o filho,
luz da sua alma e ufania de suas cs, no proferiu uma palavra, no
derramou uma lagrima; mas os joelhos fugiam-lhe tremulos, e a elevada
estatura inclinou-se vergando ao peso da magua excruciante.

Volveu, porm, em si decorridos momentos. A livida pallidez do rosto
tingiu-se de vermelhido febril subitamente. Os cabellos desgrenhados e
hirtos revolveram-se-lhe na fronte inundada de suor frio como as sedas
da juba de um leo irritado. Nos olhos amortecidos faiscou instantaneo,
mas terrivel, o sombrio claro de uma colera, em que todas as ancias
insofridas da vingana se accumulavam.

Em um impeto a presena reassumiu as propores magestosas e erectas
como se lhe corresse nas veias o sangue do mancebo que perdera. Levando
por acto instinctivo a mo ao lado, para arrancar da espada, meneou
tristemente a cabea. A sua boa espada, cingira-a elle proprio ao filho
n'este dia que se convertera para a sua casa em dia de eterno luto!

Sem querer ouvir nada, desceu os degraus amphiteatro, seguro e resoluto
como se as neves de setenta annos lhe no branqueassem a cabea.

--Sua magestade ordena ao marquez de Marialva, que aguarde as suas
ordens! disse um camarista detendo-o pelo brao.

O velho fidalgo estremeceu como se acordasse sobresaltado, e cravou no
interlocutor os olhos desvairados, em que reluzia o fulgor concentrado
d'um pensamento immutavel. Desviando depois a mo, que o suspendia,
baixou mais dois degraus.

--Sua magestade entende que este dia foi j bastante desgraado e no
quer perder n'elle dois vassallos... O marquez desobedece s ordens de
el-rei?!...

--El-rei manda nos vivos e eu vou morrer! atalhou o ancio em voz
aspera, mas sumida. Aquelle  o corpo de meu filho! e apontava para o
cadaver. Est ali! Sua magestade pde tudo menos desarmar o brao do
pae, menos deshonrar os cabellos brancos do criado que o serve ha tantos
annos. Deixe-me passar, e diga isto.

D. Jos vira o marquez levantar-se e percebera a sua resoluo. Amava no
estribeiro-mr as virtudes e a lealdade nunca desmentidas. Sabia que da
sua bocca no ouvira seno a verdade, e a ida de o perder assim era-lhe
insupportavel. Apenas lhe constou que elle no accedia  sua vontade,
fez-se branco, cerrou os dentes convulso, e, debruado para fra da
tribuna, aguardou em ancioso silencio o desfecho da catastrophe.

A esse tempo j o marquez pisava a praa, firme e intrepido como os
antigos romanos diante da morte. Dentro do peito o seu corao chorava,
mas os olhos aridos queimavam as lagrimas quando subiam a rebentar por
elles. Primeiro do que tudo queria a vingana.

Por impulso instantaneo, todo o ajuntamento se poz de p. Os semblantes
consternados e os olhos arrazados de agua exprimiam aquella dolorosa
contenso do espirito, em que um sentido parece concentrar todos.

Deixae-o ir ao velho fidalgo! A magoa, que o traspassa, no tem egual. O
fogo, que lhe presta vida e foras,  a desesperao. Deixae-o ir, e de
joelhos! Saudae a magestade do infortunio!

O pae angustiado ajoelhou junto do corpo do filho e pousou-lhe um osculo
na fronte. Desabrochou-lhe depois o talim e cingiu-o, levantou-lhe do
cho a espada e correu-lhe a vista pelo fio e pela ponta de dois gumes.
Passou depois a capa no brao e cobriu-se. Decorridos instantes estava
no meio da praa e devorava o touro com a vista chammejante,
provocando-o para o combate.

Cortado de commoes to crueis, no lhe tremia o brao, e os ps
arraigavam-se na arena como se um poder occulto e superior lh'os tivesse
ligado repentinamente  terra.

Fez-se no circo um silencio gelido, tremendo e to profundo, que
poderiam ouvir-se at as pulsaes do corao do marquez se n'aquella
alma de bronze o corao valesse mais do que a vontade.

O touro arremette contra elle... Uma e muitas vezes o investe cego e
irado, mas a destreza do marquez esquiva sempre a pancada.

Os ilhaes da fra arfam de fadiga, a espuma franja-lhe a bocca, as
pernas vergam e resvalam, e os olhos amortecem de cansao. O ancio
zomba da sua furia. Calculando as distancias, frustra-lhe todos os
golpes sem recuar um passo.

O combate demora-se.

A vida dos espectadores resume-se nos olhos.

Nenhum ousa desviar a vista de cima da praa.

A immensidade da catastrophe immobilisa todos.

De subito solta el-rei um grito e recolhe-se para dentro da tribuna. O
velho aparava a peito descoberto a marrada do touro, e quasi todos
ajoelharam para resarem por alma do ultimo marquez de Marialva.

A afflictiva pausa apenas durou momentos. Por entre as nevoas, de que a
pupilla tremula se embaciava, viu-se o homem crescer para a fera, a
espada fuzilar nos ares e logo apz sumir-se at aos copos entre a nuca
do animal. Um bramido, que atroou o circo, e o baque do corpo agigantado
na arena, encerraram o extremo acto do funesto drama.

Clamores unisonos saudaram a victoria. O marquez, que tinha dobrado o
joelho, com a fora do golpe levantava-se mais branco do que um cadaver.
Sem fazer caso dos que o rodeiavam, tornou a abraar-se com o corpo do
filho, banhando-o de lagrimas e cobrindo-o de beijos.

O touro ergueu-se, e, cambaleando com a sezo da morte, veiu apalpar o
sitio aonde queria expirar. Ajuntou ali os membros e deixou-se cair sem
vida ao lado do cavallo do conde dos Arcos.

N'esse momento os espectadores olhando para a tribuna real estremeceram.
El-rei, de p e muito pallido, tinha junto de si o marquez de Pombal,
coberto de p e com signaes de ter viajado depressa.

Sebastio Jos de Carvalho voltava de proposito as costas  praa
fallando com o monarcha. Punia assim a barbaridade do circo.

--Temos guerra com a Hespanha, senhor.  inevitavel. Vossa magestade no
pde consentir que os touros lhe matem o tempo e os vassallos. Se
continuassemos n'este caminho... cedo iria Portugal  vela.

--Foi a ultima corrida, marquez. A morte do conde dos Arcos acabou os
touros reaes emquanto eu reinar.

--Assim o espero da sabedoria de vossa magestade. No ha tanta gente nos
seus reinos, que possa dar-se um homem por um touro. El-rei consente que
v em seu nome consolar o marquez de Marialva?

--V!  pae. Sabe o que ha de dizer-lhe...

--O mesmo que elle me diria a mim, se Henrique estivesse como est o
conde.

El-rei sahiu da tribuna, e o marquez de Pombal, entrando na praa em
toda a magestade de sua elevada estatura, levantou nos braos o velho
fidalgo, dizendo-lhe com voz meiga e triste:

--Senhor marquez! Os portuguezes como vossa excellencia so para darem
exemplos de grandeza d'alma e no para os receberem. Tinha um filho e
Deus levou-lh'o. Altos juizos seus! A Hespanha declara-nos a guerra, e
el-rei, meu amo e meu senhor, precisa do conselho e da espada de vossa
excellencia.

E travando-lhe da mo, levou-o quasi nos braos at o metterem na
carruagem.

D. Jos I cumpriu a palavra dada ao seu ministro. No seu reinado nunca
mais se picaram touros reaes em Salvaterra.



    [1] A prematura morte do illustre auctor d'este livro no lhe
    permittiu concluir este admiravel romancinho. As paginas, porm,
    escriptas representam um tal primor de litteratura, que fra falta
    imperdoavel condemnal-as  obscuridade. Os amadores de boas letras
    de certo nos agradecero a resoluo tomada de no os privarmos de
    alguns momentos de no muito vulgar leitura.

                                                               EDITOR

    [2] O castello de Almourol j figurava na epocha da dominao dos
    romanos. D. Gualdim restaurou-o das ruinas e povoou a terra por
    carta de foral.

                                      ELUCIDARIO. Tom. II p. 346--374.

    [3] A bala ou bandeira do Templo era bipartida de branco e preto
    com a cruz vermelha no centro e a lenda: _non nobis, sed nomini tuo
    da gloriam_.

    [4] Concordo. Puzeste o dedo na difficuldade, menino.




DE NOITE TODOS OS GATOS SO PARDOS

Por L. A. REBELLO DA SILVA

Remette-se FRANCO DE PORTE para a provincia.

Correspondencia a Mattos Moreira & C.. LIVRARIA EDITORA. Praa de D.
Pedro, 68, Lisboa

PREO 600 RIS

LISBOA

TYP. EDITORA DE MATTOS MOREIRA & C.

67, Praa de D. Pedro, 67

1873





End of Project Gutenberg's Contos e Lendas, by Lus Augusto Rebelo da Silva

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assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
