Project Gutenberg's Saudades: histria de menina e moa, by Bernardim Ribeiro

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Title: Saudades: histria de menina e moa

Author: Bernardim Ribeiro

Editor: Delfim Guimares

Release Date: January 6, 2009 [EBook #27725]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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SAUDADES

HISTRIA

DE

MENINA E MOA




COMPOSTO E IMPRESSO NA
IMPRENSA
DE MANUEL LUCAS TORRES,
RUA DO DIARIO DE NOTICIAS, 87 A 93




*Trovas de Crisfal*, de Bernardim Ribeiro, 1 vol. broch. $30

*Bernardim Ribeiro* (_O Poeta Crisfal_), por Delfim Guimares, 1 vol.
broch. $80

*Thephilo Braga e a lenda do Crisfal*, por Delfim Guimares, 1 vol.
broch. $50

*A mscara d'um poeta* (_Bernardim Ribeiro_), por Slvio de Almeida, 1
vol. broch. $30

A PUBLICAR:

*clogas de Jano*, de Bernardim Ribeiro.




Coleco Horas de Leitura


BERNARDIM RIBEIRO

SAUDADES

HISTRIA

DE

MENINA E MOA

2. edio, revista

POR

DELFIM GUIMARES




1916
GUIMARES & C.--Editores
68, Rua do Mundo, 70
LISBOA




SAUDADES

(Historia de Menina e moa)

de

Bernardim Ribeiro

2. edio, revista

por

Delfim Guimares




ADVERTENCIA

(DA 1. EDIO)


Contribuir para a vulgarizao do adoravel volumezinho que torna
imorredoiro o nome de Bernardim Ribeiro, quer-me parecer uma boa aco.

Por isso, me encarreguei gostosamente de dirigir esta edio das
_Saudades_, tarefa que no  de molde a conquistar louros, mas que no
reputo banal nem despida de algum mrito.

Tratando-se de uma edio popular, entenderam os editores, e a meu ver
judiciosamente, que se no devia fazer uma simples reimpresso de
qualquer das edies conhecidas do livro de Bernardim, o que poderia ser
muito apreciado de eruditos e estudiosos, mas que condenaria,
fatalmente, o volume a uma existencia inglria.

Consultando as edies das _Saudades_, e seguindo, criteriosamente, os
textos; procurando interpretar o mais fielmente possivel a ideia de
Bernardim Ribeiro, e estudando com ateno as variantes que as diversas
edies salientam; modificando uma ou outra palavra cada em desuso;
aclarando uma ou outra passagem de compreenso embaraosa, e por vezes
quase enigmatica;--tornava-se mister preparar o original que servisse
para a factura d'esta edio, e que, sem alterar sensivelmente a
lingoagem inconfundivel da obra, e sem desvirtuar o pensamento do seu
autor, colocasse as _Saudades_ ao alcance do grande publico, tornando
conhecida, lida e estimada uma obra de peregrino brilho, um dos mais
belos flores da nossa literatura.

A esse trabalho meti ombros, e dispensei-lhe a melhor vontade e
carinhoso amor, procurando suprir o que me mingoasse em competencia 
fora de cuidado.

Como me sa da empreza, no sei, nem a mim cumpre averigu-lo.

Diz-me a consciencia que procedi com o zelo e a probidade com que se
haveria o artista que fosse chamado a retocar um quadro de mestre;
porque, embora esse artista fosse, como eu, dos mais modestos, todos os
seus cuidados havia de empregar para _se haver na justa grandemente_,
como diria o nosso Bernardim.

A edio ahi fica.

Julguem-na os que teem competencia para faz-lo.

Lisboa, 4 de agosto de 1905.

Delfim Guimares




SAUDADES

(Histria de Menina e moa)

DE

BERNARDIM RIBEIRO




CAPITULO I

Em que a donzela comea a sua historia


Menina e moa, me levaram de casa de meu pae para longes terras. Qual
fosse ento a causa d'aquela minha levada,--era eu pequena,--no na
soube. Agora, no lhe ponho outra, seno que j ento, parece, havia de
ser o que depois foi.

Vivi ali tanto tempo, quanto foi necessario para no poder viver em
outra parte.

Muito contente fui eu n'aquela terra; mas, coitada de mim, em breve
espao se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou, e para longo
tempo se buscava! Grande desventura foi a que me fez ser triste, ou a
que, porventura, me fez ser leda!

Mas depois que vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito
mgoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que
tive, que do mal que tinha.

Escolhi para meu contentamento (se em tristezas e saudades ha algum) vir
viver para este monte, onde o lugar, e mingoa da conversao da gente,
fosse como para meu cuidado cumpria: porque grande erro fra, depois de
tantos desgostos, quantos eu com estes meus olhos vi, aventurar-me ainda
a esperar do mundo o descanso que le nunca deu a ninguem!--Estando eu
aqui s, tam longe de toda a outra gente, e de mim ainda mais longe;
d'onde no vejo seno serras, de um lado, que se no mudam nunca, e do
outro agoas do mar, que nunca esto quedas, cuidava eu j que esquecia 
desventura, porque la, e depois eu, com todo o poder que ambas pudemos,
no deixmos em mim nada em que pudesse nova mgoa ter lugar,--antes
havia muito tempo que tudo era povoado de tristezas, e com razo. Mas
parece que, em desventuras, ha mudanas para outras desventuras; porque,
no bem, no as havia para outro bem; e foi assim que, por caso estranho,
fui levada a um lugar onde me foram ante os meus olhos apresentadas, em
cousas alheias, todas as minhas angustias; e o meu sentido d'ouvir no
ficou sem sua parte da dr.

Ali vi ento, na piedade que tive d'outrem, quam grande a devra ter de
mim, se no fra tam demasiadamente mais amiga de minha dr do que
parece que foi de mim quem me  a causa d'la; mas tamanha  a razo
porque sou triste que nunca me veio mal nenhum que eu no andasse em
busca d'le.

D'aqui me vem a mim a parecer que esta mudana, em que me eu vi, j
ento comeava a buscar, quando esta terra, onde me la aconteceu, me
aprouve mais que outra nenhuma, para vir aqui acabar os poucos dias de
vida que eu cuidei que me sobejavam. Mas n'isto, como em outras cousas
muitas, me enganei eu. Agora, ha j dous anos que estou aqui, e no sei
ainda tam smente determinar para quando me aguarda a derradeira hora!
No pde j vir longe!

Isto me ps em duvida de comear a escrever as cousas que vi e ouvi.

Mas, depois, cuidando comigo, disse eu que recear de no acabar de
escrever o que vi, no era causa para o deixar de fazer; pois no havia
de escrever para ninguem, seno para mim s. Quanto mais que, em cousas
no acabadas, no havia de ser esta a primeira: pois quando vi eu prazer
acabado, ou mal que tivesse fim?! Antes me pareceu que este tempo que
hei de estar aqui n'este ermo (como a meu mal aprouve) no o podia
empregar em cousa que mais de minha vontade fosse:--pois Deus quis que
assim minha vontade seja.

Se em algum tempo se achar este livrinho na mo de pessoas alegres, no
o leiam, que, porventura, parecendo-lhe que seus casos sero mudaveis,
como os aqui contados, o seu prazer lhe ser menos prazer. Isto, onde eu
estivesse, me doeria, porque assaz bastava eu nascer para minhas mgoas,
quanto mais ainda para as d'outrem. Os tristes o podero lr: mas ahi
no os houve mais, homens, depois que nas mulheres houve piedade;
mulheres, sim, porque sempre nos homens houve desamor: mas para las no
o fao eu, pois que o seu mal  tamanho que se no pde confortar com
outro nenhum. Para as mais entristecer, sem-razo seria querer eu que o
lessem las; antes lhes peo muito que fujam d'le e de todas as cousas
de tristeza, que, ainda com isto, poucos sero os dias que ho de poder
ser ledas,--porque assim est ordenado pela desventura com que las
nascem.

Para uma s pessoa podia le ser; mas d'esta no soube eu mais parte,
depois que as suas desditas, e as minhas, o levaram para longes terras
estranhas, onde bem sei eu que, vivo ou morto, o possue a terra sem
prazer nenhum. Meu amigo verdadeiro, quem me vos levou tam longe? Vs
comigo, e eu convosco, ss, sabiamos suportar nossos grandes desgostos,
e tam pequenos para os de depois! A vs, contava eu tudo. Como vs vos
fostes, tudo se tornou tristeza; nem parece seno que estava espreitando
j que vos fosseis. E para que tudo mais me magoasse, nem tam smente me
foi deixado, em vossa partida, o conforto de saber para que parte da
terra ieis, porque descansariam os meus olhos em levarem para l a
vista!

Tudo me foi tirado no meu mal; remedio nem conforto, nenhum houve ahi.
Para morrer mais depressa, me pudera isto aproveitar; mas, para isso,
no me aproveitou. Ainda convosco usou a vossa desventura algum modo de
piedade (dos que no costuma ter com nenhuma pessoa) em vos alongar da
vista d'esta terra; pois que, se para no sentirdes mgoas no havia
remedio, para as no ouvirdes vo-lo deu. Coitada de mim, que estou
falando, e no vejo eu agora que leva o vento as minhas palavras, e que
me no pde ouvir a quem eu falo! Bem sei eu que no era para isto a que
me agora quero pr; que o escrever alguma cousa pede muito repouso; e a
mim as minhas mgoas ora me levam para um cabo, ora para outro;
trazem-me assim, que me  foroso tomar as palavras que me las do,
porque no sou tam constrangida a servir o engenho, como a minha dr.
D'estas culpas me acharo muitas n'este livrinho: mas da minha ventura
foram las. Ainda que, quem me manda a mim olhar por culpas, nem por
desculpas?

O livro ha de ser do que vae escrito n'le. Das tristezas no se pode
contar nada ordenadamente, porque desordenadamente acontecem las.
Tambem, por outra parte, no se me d nada que o no leia ninguem; que
eu no no fao seno para um s, ou para nenhum; pois d'le, como disse,
no sei novas, tanto ha.

Mas, se ainda me est guardado, para me ser em algum tempo outorgado,
que este pequeno penhor de meus longos suspiros v ante os seus olhos,
muitas outras cousas desejo, mas esta me seria assaz.




CAPITULO II

Em que a donzela vae prosseguindo a sua historia


N'este monte, mais alto de todos, (que eu vim buscar pela soledade,
diferente dos outros, que n'le achei) passava eu a minha vida como
podia, ora em me ir pelos fundos vales que o cingem derredor, ora em me
pr, do mais alto d'le, a olhar a terra como ia acabar no mar, e depois
o mar como se estendia logo aps la, para acabar onde ninguem o visse.

Mas, quando vinha a noite, entregue a meus pensamentos, e via as aves
buscarem seus pousos, umas chamarem as outras, parecendo que queria
sossegar a terra mesma; ento eu, triste, com os cuidados dobrados com
que amanhecia, me recolhia para a minha pobre casa, onde Deus me  boa
testemunha de como as noites dormia!

Assim passava eu o tempo, quando, uma das passadas noites, pouco ha,
levantando-me, eu vi a manhan como se erguia formosa, e se estendia
graciosamente por entre os vales, e deixar indo os altos.

O sol, j levantado at aos peitos, vinha tomando posse dos outeiros,
como quem se queria assenhorear da terra.

As doces aves, batendo as asas, andavam buscando umas s outras; os
pastores, tangendo as suas flautas, e rodeados dos seus gados, comeavam
a assomar pelas cumiadas.

Para todos, parecia que vinha aquele dia assim ledo. S os meus
cuidados, vendo, parece, como vinha poderoso seu contrario, se recolhiam
a mim, pondo ante meus olhos para quanto prazer e contentamento pudera
aquele dia vir, se no fra tudo tam mudado; d'onde o que fazia alegre a
todas as cousas, a mim s teve causa de fazer triste!

E como os meus cuidados, para o que tinha a ventura ordenado, me
comeassem de entrar pela lembrana de algum tempo, que foi, e que nunca
fra, assenhorearam-se assim de mim que no me podia j sofrer a par de
minha casa, e desejava ir-me para lugares ss, onde desabafasse em
suspirar.

E ainda bem no foi alto dia, quando eu (parece que acinte) determinei
ir-me para o p d'este monte, que d'arvoredos grandes, e verdes ervas, e
deleitosas sombras,  cheio; por onde corre um pequeno ribeiro de agoa
de todo o ano, que, nas noites caladas, o rugido d'le faz no mais alto
d'este monte um saudoso tom, que muitas vezes me tolhe o sno; onde,
outras muitas, vou eu lavar minhas lagrimas, e onde, muitas, infinitas,
as torno a beber.

Comeava ento de querer cair a calma: e no caminho, com a pressa, por
fugir d'la, ou pela desventura que me levava a mim, trs ou quatro
vezes ca ali; mas eu (que, depois de triste, cuidei que no tinha mais
que temer) no olhei nada para aquilo, em que me parece que Deus me
queria avisar da mudana que depois havia de vir. Chegando  borda do
rio, olhei para onde haveria melhores sombras. Pareceram-m'o as que
estavam alm do rio. Disse ento que n'aquilo se enxergava que era
desejado tudo o que com mais trabalho se podia haver; porque no se
podia ir alem sem se passar a agoa, que corria ali mansa e mais alta que
na outra parte.

Mas eu (que sempre folguei de buscar meu dano) passei alem, e fui-me
assentar sob a espessa sombra de um verde freixo, que, para baixo um
pouco, estava.

Algumas das ramas estendiam-se por cima d'agoa, que ali fazia algum
tanto de corrente, e, impedida por um penedo, que no meio d'la estava,
se partia para um e outro lado, murmurando.

Eu, que os olhos levava ali postos, comecei a cuidar que tambem nas
cousas que no tinham entendimento havia fazerem-se dano umas s outras.

Estava d'ali aprendendo a tomar algum conforto no meu mal: porque assim
aquele penedo estava contrariando aquela agoa que queria ir seu caminho,
como as minhas desventuras no outro tempo costumavam fazer a tudo o que
eu mais queria,--que j agora no quero nada. E crescia-me d'aquilo um
pesar!

Ao cabo do penedo, tornava a agoa a juntar-se, e ir seu caminho sem
estrondo algum, antes parecia que corria ali mais depressa que pela
outra parte: e dizia eu que seria aquilo para se apartar mais
rapidamente d'aquele penedo, inimigo do seu curso natural, que, como por
fora, ali estava.

No tardou muito que, estando eu assim cuidando, sobre verde um ramo que
por cima da agoa se estendia, se veio pousar um rouxinol. Comeou a
cantar tam docemente que de todo me levou aps si o meu sentido d'ouvir.
E le cada vez crescia mais em seus queixumes, que parecia que, como
cansado, queria acabar, seno quando tornava, como que comeava.

Ento (triste da avezinha) estando-se assim queixando, no sei como, se
caiu morta sobre aquela agoa! Caindo por entre as ramas, muitas folhas
cairam tambem com la. Pareceu aquilo sinal de pesar, n'aquele arvoredo,
de caso tam desastrado.

Levava-a aps si a agoa, e as folhas aps la. Quisera-a eu ir apanhar,
mas pela corrente que ali fazia, e pelo mato que d'ali para baixo, cerca
do rio, logo estava, prestemente se alongou da vista.

O corao me doeu tanto, ento, em vr tam depressa morto quem d'antes,
tam pouco havia, vira estar cantando, que no pude ter as lagrimas.

Certamente que por causa do mundo, depois que perdi outra cousa, me no
pareceu a mim que assim chorasse de vontade; mas em parte este meu
cuidado no foi em vo; porque, ainda que a desventura d'aquela avezinha
fosse causa de minhas lagrimas, l, ao sair d'elas, foram juntas outras
muitas lembranas tristes.

Grande pedao de tempo estive assim embargada dos meus olhos, entre os
cuidados que muito havia que me tinham j ento, e ainda tero, at que
venha o tempo em que alguma pessoa estranha, com d de mim, com as suas
mos cerre estes meus olhos, que nunca foram fartos de me mostrarem
mgoas de si.

E estando assim, olhando para onde corria a agoa, ouvi bulir o arvoredo.
Cuidando que fosse outra cousa, tomou-me medo; mas, olhando para ali, vi
que vinha uma mulher; e, pondo n'ela bem os olhos, vi que era de corpo
alto, disposio boa, e o rosto de dona, senhora do tempo antigo.
Vestida toda de preto, no seu manso andar, e meneios seguros do corpo,
do rosto e do olhar, parecia d'acatamento. Vinha s, e tam pensativa que
no apartava os ramos de si, seno quando lhe impediam o caminho, ou lhe
feriam o rosto.

Os seus ps trazia por entre as frescas ervas, e parte do vestido
estendido por las. E, entre uns vagarosos passos que la dava, de
quando em quando colhia um cansado folego, como que lhe queria falecer a
alma.

Sendo cerca de mim e me viu, ajuntando as mos,  maneira de medo de
mulher, um pouco, como que vira cousa desacostumada, ficou; e eu tambem
assim estava,--no de medo, que a sua boa sombra logo m'o no consentiu,
mas da novidade d'aquilo que ainda ali no vira, havendo muito que, por
meu mal, tinha frequentado aquele lugar, e toda aquela ribeira.

Mas no esteve la muito tempo assim, porque, parece, conhecendo tambem
que estava com uma boa sombra, comeou a dizer, vindo ao meu encontro:

--Maravilha  ver donzela em ermo, depois que a minha grande desventura
levou a todo o mundo o meu...

E d'ahi a grande pedao, misturado j com lgrimas, disse:

--... filho!

Depois, tirando um leno, comeou a limpar o rosto, e a chegar-se para
onde eu estava.

Levantei-me eu ento, fazendo-lhe aquela cortesia, que la, com a sua, e
consigo mesma, me obrigava.

E la:

--O descostume grande, (me disse) ha muito tempo que vivo n'este ermo,
de ver pessoa alguma, me faz, senhora, desejar saber quem sois, e que
fazeis aqui, ou que viestes a fazer, formosa e s.

Como eu um pouco tardava em lhe responder, pela duvida em que estava do
que lhe diria, (parece que entendendo-me la) me tornou:

--A mim, podereis dizer tudo, que eu sou mulher como vs, e, segundo
vossa presena, vos devo ainda ser muito semelhante; porque me parece
(agora que vos lho de mais perto) que deveis ser triste, que vossos
olhos teem vossa formosura desfeita, e, ao longe, no se enxergava.

--Pareceis vs logo ao longe (respondi eu) o que sois ao perto; e no
vos saberia negar cousa em que de mim vos servisseis; que os vossos
trajos, e tudo o que vos eu lho,  cheio de tristeza, cousa a que eu
sou ha muito tempo conforme; e porque posso mal encobrir o senhorio que,
eu mesma, s longas mgoas sobre mim tenho dado, no me quero rogar,
antes vos devia ainda agradecer quererdes saber de mim o que quereis,
para ser ao menos meu mal escutado alguma hora!

--Pois dizei-m'o (me tornou la) que ficardes-me devendo ouvir-vos eu,
nova maneira  tambem de me obrigardes; mas assim me pareceis vs, que,
de vos ser obrigada, folgo muito ainda.

Satisfazendo-lhe eu ento, disse:

--Sou uma donzela que n'este monte, da banda d'alem d'este ribeiro,
pouco ha que vivo, e no posso viver muito. N'outra terra nasci,
n'outra, de muita gente, me creei, d'onde vim fugindo para esta,
despovoada de tudo, seno s das mgoas que eu trouxe comigo! Este vale,
por onde correm estas agoas claras, que vdes, os altos arvoredos de
espessas sombras sobre a verde erva, as flores que por aqui aparecem, e
a seu prazer se estendem, ribeira d'esta agoa fria, doces moradas e
pousos das ss deleitosas aves, so tam conformes a meu cuidado, que o
mais do tempo em que o sol anima a terra passo aqui, e, ainda que me
vejaes s, acompanhada estou.

Muito ha que tenho andado este caminho: nunca vi seno agora a vs. A
grande solido d'este vale, e de toda esta terra por aqui derredor, me
faz ousar vir assim, mulher... formosa, bem vdes j que no! E pois no
tenho armas para ofender, para me defender para que me seriam j
necessarias? A toda parte posso j ir, segura de tudo, seno s do meu
cuidado; que no vou a nenhum cabo que le no v aps mim. Ainda agora
estava eu aqui, s, olhando para aquele penedo (mostrando-lh'o eu ento
d'ali) a ver como ele estava contrariando aquela goa que queria ir seu
caminho. Ante os meus olhos, sobre aquele ramo que a cobre, se veio pr
um rouxinol, docemente cantando. De quando em quando parecia, que lhe
respondia outro, l de muito longe.

Estando le assim, no melhor do canto, caiu morto sobre aquela goa,
que o levava tam depressa que o no pude eu ir apanhar.

Tamanha mgoa me nasceu d'isto, que me recordei de outras minhas, de
que tambem grandes desastres foram causa, e levaram-me onde eu tambem
no podia ir buscar-me... (A estas palavras se me arrasaram os olhos de
goa, e fui-me com as mos a les.) Isto, senhora, fazia quando vs
aparecestes, e o fao as mais das vezes; porque, sempre, ou chro, ou
estou para chorar!

Eu, que lhe tinha j respondido, detive-me um pouco cuidando como lhe
preguntaria outro tanto d'la: maiormente da causa que foi das suas
lagrimas quando no pde, seno muito tarde, dizer: filho.

la, cuidando que, porventura, eu no queria dizer mais, disse:

--Bem se v n'isso, senhora, que sois d'outra parte, e ha pouco que
estaes n'esta, pois dos desastres que n'este ribeiro acontecem vos
espantaes. Ha uma historia muito falada n'esta terra, por aqui derredor,
que muito ha que aconteceu. Lembra-me que era eu menina, e ouvia-a j
ento contar a meu pae, por historia. Agora, ainda folgo de cuidar n'la
pelos grandes acontecimentos e desventuras que n'la houve. E ainda que
nenhum mal alheio possa confortar o proprio de cada um, parte de ajuda
me  saber, para o sofrimento, que antigo  fazerem-se as cousas sem
razo, e contra razo. De boa vontade, pois parece que ainda a no
ouvistes, vo-la contarei; que, segundo entendo, devem-vos aprazer as
cousas tristes, como vs a mim me dizeis.

--O sol (lhe respondi eu) vae alto, e eu folgaria muito de a ouvir,
pela ouvir a vs, e depois por saber que no busquei embalde esta terra
para minhas tristezas, pois tanto ha que se costumam n'ela. Outra cousa,
senhora, vos quisera eu agora preguntar; mas fique para depois, que para
tudo haver tempo, ainda que a historia, como dizeis,  de tristezas, e
no poder durar tam pouco como o dia.

--Os dias so agora grandes (me tornou la) e no podero les nunca
ser tam pequenos que eu, com todo o meu poder, vos no fizesse a vontade
n'les, assim sou, senhora, paga por vs; mas olhae o que quereis
antes.

--Porque  cousa em que vs folgaes ainda agora de cuidar (lhe respondi
eu) no pde ser pouco para desejar ouvir. Fique o que eu d'antes
quisera para depois, ou para sempre; que s de o eu querer lhe deve vir
isto. No tomeis de aqui que eu no folgarei de ouvir a historia, porque
isto pudera ser se no fra de tristezas, para que eu vou achando, j
agora, o tempo curto, tanto folgo com las. Por isso, contae-a, senhora;
contae-a, pois  de tristezas... Gastaremos o tempo n'aquilo para que
parece que no-lo deram,--a vs e a mim.





CAPITULO III

Da conta que a dona d  donzela de sua vinda quela terra


Coitada de mim (comeou la) que, para me magoar, busco ainda
desventuras alheias, como se as minhas no bastassem; que so tantas
que, muitas vezes, n'este despovoado, eu mesma ando espantada de mim,
como as posso sofrer!

Por isso, vos no parecia sem causa triste; que assim o sou eu que, se
o soubesseis, ainda muito mais vo-lo pareceria do que cuido que
parecerei no aspecto; porque a longa dr, que ha j muito tempo que eu
passo, tem o cansado d'este meu corpo tam acostumado a sofr-la, que, j
agora, vive n'la.

Este  um dos queixumes grandes que eu tenho do corpo, que no ha cousa
para que le, por longo costume, no seja.

Assim ha j muitos anos que eu no vivo para mim, e que vim para estes
ermos, fugindo das gentes para quem s anoiteceu e amanheceu...

Muito me aprouve achar-vos tambem conforme  minha tristeza; porque nos
consolaremos, ambas desconsoladas:--que isto vae assim como quem 
doente d'alguma peonha, e se cura com outra.

Quando vos eu  primeira vista vi, em o apartamento de toda a gente
(que n'esta terra ha muito) e o muito que tambem ha que eu no via n'la
cousa com que falasse, me moveu  alterao, e no pus em vs os olhos,
tanto, como depois que vos falei; e, quanto mais vos lho, mais acho que
vos olhar. As passadas palavras vossas me dizem que deveis ter o corao
altamente agravado.

Nas mgoas que as lagrimas teem feitas no vosso rosto (que para esse
efeito parece que no foi dado) entendo eu quam dada deveis ser aos
cuidados, porque no costumam las fazer-se sem razo.

Vejo-vos moa; ainda ereis para viver no mundo. Mal haja a desventura
que tam cedo comeou em vs, e tam tarde acaba em mim!

Muito folgaria de me contardes vossas tristezas, uma a uma, que assim,
como vos eu ouvi, no me bastou mais que para me magoar. Mas, pois vs,
senhora, assim fostes servida, eu sou contente.

E j que no pudestes escusar desventuras, folgo em que vs folgueis de
encobrir vossos males,--que o pesar ha este bem: Inda que no aproveite
para doer menos, aproveita para se sofrer melhor.

Isto  assaz para as tristes das mulheres, que no teem remedios para o
mal, que os homens teem; porque, n'esse pouco tempo que ha que eu vivo,
tenho aprendido que no ha tristeza nos homens. S as mulheres so
tristes; que as tristezas quando viram que os homens andavam de um lugar
para outro, e, como as mais das cousas, com as continuas mudanas, ora
se espalhavam ora se perdiam, e que as muitas ocupaes lhe tolhiam o
mais do tempo, tornaram-se s coitadas das mulheres,--ou porque
aborreceram as mudanas, ou porque no tinham para onde lhe fugir.

Porque, certamente, segundo as desventuras so desarrazoadas e graves,
aos homens se haviam de fazer; mas, quando com les no puderam,
tornaram-se a ns, como  parte mais fraca. E assim  que padecemos dous
males, um que sofremos, e outro que se no fez para ns. Os homens
cuidam outra cousa, mas o que das mulheres no cuidam les?! Logo,
costumaram ter em pouco as suas tristezas. Mas se las, por isso, teem
razo de serem mais tristes, sab-lo- quem souber que mgoa  manter
verdade desconhecida!

A isto no pude eu suster um cansado suspiro de dentro d'alma; e la,
sentindo-o (com quanto o eu encobri) estendeu a sua mo direita, e,
tomando a minha, com dissimulao, suspeitosa, tornou a falar para mim,
dizendo:

--Quando eu era da vossa edade, e estava em casa de meu pae, nos longos
seres das espaosas noites do inverno, entre as outras mulheres de
casa, umas fiando, e outras dobando, muitas vezes, para enganarmos o
trabalho, ordenavamos que alguma de ns contasse historias, que no
deixassem parecer o sero longo; e uma mulher de casa, j velha, que
vira muito e ouvira muitas cousas, por mais ancian, dizia sempre que a
la pertencia aquele oficio, e, ento, contava historias de cavaleiros
andantes.

E, verdadeiramente, as afrontas e grandes aventuras (que la contava) a
que se les punham, pelas donzelas, me faziam a mim haver d
d'les,--porque cuidava eu que um cavaleiro convenientemente armado
sobre seu formoso cavalo, pela ribeira de um rio, de gracioso campo
passeando, podia ir tam triste como uma delicada donzela, em alto
aposento, encostada a seu estrado, entre paredes, s podia estar,
vendo-se de altos muros cercada, com tantas guardas,--feitas para tam
pequena fora. Mas, para lhe tolherem as vontades, fizeram grandes
defezas, e, para lhe entrar o desgosto, muito pequenas.

Mais maneiras teem os cavaleiros para se mostrarem mais tristes do que
so; e muito menos teem as donzelas para se mostrarem mais tristes do
que parecem aos homens.

Ao menos, se eu, depois que soube muitas cousas, pudera tornar atraz,
menos me houveram de magoar do que me magoaram. Que tambem se deve
esperar da dr aquilo para que cada um a tem; de outra maneira, no se
devia la ter.

Digo isto, senhora, porque pelo lugar onde suspirou vosso corao, (que
vs de mim, quanto podieis, vos quisereis encobrir) suspeito eu que
d'alguma grande sem-razo deveis trazer o cuidado magoado; porque a
vossa edade no era para viverdes nos matos. Se os homens no
costumassem agravar donzelas, muito fra de sentir; mas, das cousas
costumadas, quem se deve agravar?!

Muito bem vos posso dizer isto (ainda que o conhecimento entre ns seja
pouco) porque sou mais velha que vs, e porque  verdade, para que se
no deve esperar tempo, como para as outras cousas.

Quantas donzelas comeu j a terra com a saudade que lhe deixaram
cavaleiros, que come outra terra, com outras saudades?!

Cheios so os livros de historias de donzelas que ficaram chorando por
cavaleiros que se iam, e se lembravam ainda de dar de esporas a seus
cavalos, porque no eram tam desamorosos como les.

N'este conto, no entram s os dous amigos de que  a historia que ha
pouco vos prometi. N'les, ss, cuido que se encerrou a f que em todos
os outros se perdeu; e creio que por isso ordenaram outros homens de os
matarem  traio, maldosamente, porque se no pareciam com les.

O mal no smente aborreceu o bem, como quisera ainda que o no houvera
ahi.

Lembra-me que, quando meu pae contava a vileza da maneira que tiveram
os falsos cavaleiros, para matarem os dous amigos, dizia que muito
folgara de a no ouvir para a no saber, pois no viera em tempo para
deixar de ir  terra magoado, porque j gerao d'les no havia ahi.

Mas, se muito para sentir foi a morte dos dous, muito mais para sentir
foi a das duas tristes donzelas, que a desventura trouxe a tanta
desdita, que no smente conveio aos dous amigos tomarem a morte por
las, mas ainda conveio tomarem-na las por si mesmas.

Os dous amigos, no que fizeram, cumpriram para com las, e para consigo
mesmos, aquilo a que eram obrigados pelas leis da cavalaria que
mantinham; las s cumpriram para com les, o que eu creio que  de
maior estima; porque las, por outros, no fizeram aquilo, e les, por
outras, deveriam-no fazer.

Assim, como de pessoas que fizeram mais, se deve tambem a morte sentir
mais, ainda que a mim egualmente me doem umas e outras: las, porque
eram mulheres, e les, porque eram homens...

Isto digo eu, para vs, e para mim, porque meu filho tambem era homem,
como les.




CAPITULO IV

Das palavras que a dona com a donzela passou


Com estas palavras comearam as lagrimas a correr pelas suas faces
abaixo, e la, soltando a fala, seguiu dizendo:

--Perdoar-me-eis, senhora, que, por minha edade, bem vos posso chamar
filha, se muitas vezes me virdes fazer isto, ainda que a vs vos no
devem as lagrimas ser estranhas, pois tanto folgastes de buscar lugares
ss como estes onde estaes, que j em outro tempo, dizem, foram cheios
de mui nobres cavaleiros e formosas donzelas; e ainda agora, por aqui
algures, as moas que guardam gado acham pedaos d'armas, e joias de
grande valia;--o que parece que faz este vale de mais triste sombra que
outro nenhum.

No sei, este desconcerto do mundo, onde hade ir ter. Em tempo, foram
estes vales muito povoados, e agora muito desertos; costumavam gentes
andar n'les, agora andam animaes ferozes. Uns deixam o que outros
tomam! Para que eram tantas mudanas em uma s terra?

Mas parece que tambem a terra se muda como as cousas d'la. A esta,
porque passou o tempo em que foi leda, veio este em que havia de ser
triste.

De muito povoada, e de edificios reaes enobrecida, tornou-se a povoar
de altos arvoredos, como a natureza os produzia.

Ainda em alguns sitios d'este vale esto algumas antigas arvores, que,
pelo muito decurso de tempo, e descostume de como foram creadas, parecem
j d'outra plumagem diferente d'aquela de que deviam ser quando,
ajudadas de pomareiras mos, las produziam seu perfeito fruto.

Tudo quanto ha n'este vale  cheio de uma lembrana triste para quem
tiver ouvido o que dizem que aconteceu n'le, e o que foi j em outro
tempo; que pareceria ento que no era para vir a este de agora.

Mas tudo  assim. Emfim, fazem-se umas cousas para outras, para que se
no faziam.

Mal cuidariam os dous amigos, quando aceitaram a empreza de guardar as
aventuras d'este vale (para s aprazer s formosas duas donzelas) que
era para tanto seu desprazer d'las... E, tambem, mal cuidaram las,
quando aquele dia (da grande desventura) se vestiram, e enfeitaram
ricamente, para verem os dous cavaleiros amigos, que era para os no
verem mais!

Trazem-nos os nossos fados no sei qu ante os olhos, que temos as
cousas diante, e no as vemos...

Tudo anda trocado, que no se entende; e assim nos veem tomar as mgoas
quando estamos mais assegurados d'las, que nos doem, a um mesmo tempo,
o bem que perdemos, e o mal que depois cobramos!

Aqui deu la um grande suspiro, e esteve como se quisera dizer outra
cousa: e tornou dizendo:

--Mas tempo  de cumprir o que vos prometi, pois bem vejo que muito ha
hoje que me leva a minha dr aps si.




CAPITULO V

Do que Lamentor passou n'aquela parte onde foi aportar com a sua nau, e
da batalha que teve com o cavaleiro da ponte e do que mais lhe sucedeu


De reinos estranhos, dizem que veio n'um tempo passado ter a estas
partes um nobre e famoso cavaleiro.

Aportou, cerca d'aqui, em uma nau grande, carregada de muita riqueza,
e, sobretudo, de duas formosas irmans, a uma das quaes le mais que a si
queria. Para que la no sentisse a saudade de sua terra, trouxeram a
outra irman, donzela, mais pequena que aquela por quem le vinha buscar
terras estranhas.

Contam que las eram filhas de um poderoso senhor, como depois, com o
tempo, se suspeitou, pelos muitos cavaleiros andantes que pelo mundo
foram espalhados n'aquela epoca. Mas esta historia ser longa.

Aportando Lamentor (que assim se chamava) n'estas partes, como digo;
havida inteira informao da terra, e da gente d'la, porque, como le
viesse da maneira que vinha, no queria fazer seu assento em nenhum
lugar muito povoado; e, saindo um dia pela manhan da nau, com todas as
suas riquezas, comeou a caminhar por este vale acima,--que para tudo
tinham j seus criados feito o concerto necessario.

Em umas ricas andas, que Lamentor na nau trouxera, iam as duas irmans;
porque a maior vinha quase no fim do tempo da prenhez.

A manhan era graciosa. Parecia que assim se acertou, para a terra mais
lhes contentar. Ia o ano no ms d'abril, quando florescem as arvores, e
as aves, que at ento estiveram caladas, comeavam a andar fazendo os
gorgeios do outro ano, pelo que, por entre o arvoredo d'este vale (bem
podeis cuidar quejando seria ento, pois agora  tanto) estavam las
tomando recreio, ora n'uma cousa ora em outra.

Tudo buscava Lamentor para que sua senhora e a donzela sua irman, de
alguma maneira, perdessem a saudade de sua terra, e o enjo do mar.

Sendo les cerca de uma ponte, que ahi perto ainda est, e querendo-a
passar, lhe disse um escudeiro que no comeo d'la estava:

--Senhor cavaleiro, se quereis passar, convem que faaes, uma, de
duas:--ou que confesseis que o cavaleiro que mantem esta passagem quer
bem com mais razo que ninguem, ou o determinar a justa.

--Muitas cousas havia mister de saber (lhe respondeu Lamentor) quem
houvesse de responder a essa pregunta: e como se pde saber se quer le
bem com mais razo sem ouvir primeiro onde, ou como o quer? Mas, por
agora, d'isso eu no curo: porque a mim basta-me saber que, por mais
razo com que le queira bem, eu o quero mais que le, e que todos os do
mundo. Isto que sei, certo de mim, me escusa saber mais d'le que a
condio com que le guarda esta ponte. A razo que tem para isso,
guarde-a para si; que, para le, poder ser que parea a maior do mundo.
Deveis, bom escudeiro, dizer-lhe que faria bem em deixar-nos passar,
antes que o julgue a justa.

O escudeiro, que j olhra para as andas, e nunca cousa tam bem lhe
parecera, lhe tornou:

-- escusada, para le, essa embaixada, porque est tam ufano, que no
pde agora ninguem com le (e na verdade tem causa); porque far d'aqui
a oito dias trs anos que le mantem este passo, sem achar cavaleiro que
o vencesse, sendo o mais esforado d'les que por toda esta terra ha. E
ento se acaba o praso que lhe foi dado por uma donzela, a mais formosa
que n'estas partes se sabe, filha do senhor d'aquele castelo que ali
vdes, em que la lhe prometeu seu amor, sendo esta ponte por le
guardada com a dita condio. Mas se le fosse sabedor da companhia que
vs trazeis, com razo deveria temer agora, mais que nunca; mas eu no
lh'o posso ir dizer, que j outras vezes lhe levei assim embaixadas, e
le tornava-me m resposta: e sucedendo depois  sua vontade m'o deitava
em rosto, como que a minha teno ficasse, pelo seu acontecimento,
culpada.

--Ora, pois, determine-o a justa, disse Lamentor, olhando j para as
andas.

Tirando ento, de um tiracolo, o escudeiro uma corneta, tocou-a.

Dahi a um pouco, deixou-se sair d'um espesso arvoredo, que alem da
ponte estava, um cavaleiro bem armado, a cavalo, e vindo direito para a
ponte, ali houveram ambos justa, de que meu pae contava muitas cousas de
grande esforo e valentia, que vos eu no contarei; porque, ainda que as
mulheres folguem muito de ouvir cavalarias, no lhes est bem
contarem-nas, nem las parecem, nas suas bcas, como nas dos homens que
as fazem.

Mas, comtudo, dissera-vo-las eu, se me lembrassem inteiramente; porm,
no me lembra seno que contava meu pae que romperam trs lanas, e 
quarta caiu o cavaleiro da ponte; e com a queda grande do encontro (que
tambem foi grande) ficra sem se poder levantar por um pouco.

Lamentor se apeou rapidamente. Quando chegou junto d'le, o achou sem
fala, e, descobrindo-o, lhe pareceu como morto. Mas, d'ahi a um pouco,
acordou, todo mudado na cr, e levantando os olhos para Lamentor, que
sobre le estava, com um suspiro:

--Ai! ai! cavaleiro,--lhe disse. Que vos nunca vira, prouvera a Deus,
ou que ao menos vos no tornra a ver!

Lamentor houve d'le d, maiormente de suas lagrimas, que lhe viu; e,
tomando-o pelo brao, o ajudou a erguer, dizendo:

--Do amor, senhor cavaleiro, nos podemos queixar com razo; que, assim
como vos le a vs fez aqui guardar esta passagem, me fez a mim
fazer-vos dano. De vo-lo ter feito, me pesa como homem; que,
fazer-vo-lo, foi como namorado. N'outra alguma cousa de vosso
contentamento vo-lo emendarei, quando mandardes.

O cavaleiro da ponte, que assim o viu comedido, bem lhe pareceu razo
de lhe agradecer aquela vontade; mas tamanha era a dr que tinha no
corao que no pde acabar de forar a sua. Comtudo, porque era de alta
criao, lhe disse, como desculpando-se:

--O amor demasiado no vive em terra de razo, mas eu irei tomar
vingana d'le n'outras, alongadas d'esta, onde no veja cousa com que
os meus olhos descansem; ainda que esta vingana bem me psa,--pois que
ha de ser de mim e de meu cuidado?!

E assim se virou para outro lado, e deu a andar pelo vale abaixo. E
como le da queda grande que dera ficasse mal-tratado, e (segundo depois
pareceu) quebrasse alguma cousa de dentro, no foi muito pelo vale
abaixo, porque, acabando o seu escudeiro de tomar o cavalo, comeando
d'ir aps le, o alcanou perto d'ali: e achando-o j lanado no cho,
de bruos, foi para o erguer, e viu que le era em estado de morte.

Comeou a chor-lo amargamente, e Lamentor, que o ouviu, deu a correr
para l. E vendo que estava o escudeiro com seu senhor, como morto, nos
braos, desceu-se prestesmente, e foi-se para le; e vendo-o no
derradeiro termo de sua vida, e como desmaiado, lhe comeou a dizer:

--Que  isto, senhor cavaleiro?... Esforae! que  este o passo
verdadeiro para que tomastes a ordem de cavalaria.

E le, acordando, ps os olhos em Lamentor, e estendeu-lhe,
vagarosamente, a mo direita, como em signal que parecia de paz. E, com
uma voz cansada, disse:

--Ao esforo, se me le pudera valer, perdora eu tudo; pois me falece
agora, quando a mim tanto cumpre viver...

E com a fora que fez para dizer isto (como homem que tinha alguma dr
grande de dentro) foi-se-lhe o folego, e, cerrando os seus olhos, ficou
como passado d'este mundo. Mas, d'ahi a um pouco, os tornou a abrir, e
fazendo meno com o rosto para aquela parte onde estava o castelo da
donzela por quem guardava a passagem, e que todo aquele vale descobria,
e levando para l os olhos,--parece que lembrando-lhe que no tinha j
mais de oito dias para acabar o praso que lhe fra assinado, e como
cousa que lhe mais magoava--ainda disse estas derradeiras palavras:

-- castelo, quam perto ainda agora estava de vs!

E, com isto, deixaram-se-lhe os seus olhos ir, cansadamente, cerrando
para sempre.




CAPITULO VI

Em que se diz a razo por que o cavaleiro da ponte sustinha aquele
passo, e de como sua irman ali veio ter


Chegadas eram j ali as andas com as duas irmans, e toda a outra gente,
e vendo como o cavaleiro da ponte (que desarmado j o rosto tinha) era
de formosura, e presena extremada, e ainda mancebo, todos ficaram muito
tristes de tamanho desastre.

Lamentor, que via como o escudeiro estava lanado aos ps de seu
senhor, tristemente chorando, havendo d'le compaixo (porque, assim na
pratica que com le tivera havia pouco, na ponte, como n'aquilo, lhe
parecera de boa maneira e de criao) foi-se para o consolar; e
tirando-o para fra d'ali, d'onde estava chorando, lhe disse:

--At nas cousas proveitosas, a temperana  muito louvada; os choros
no aproveitam para nada; por isso,  muito mais necessaria n'les; nem
os choros se devem ter seno como cousa que se no pde escusar. Vosso
senhor faleceu como cavaleiro; e ainda vos digo que as pessoas que lhe
bem-queriam no devem estar tristes; antes se devem alegrar muito,
porque foi de tam alto corao que no pde suportar ser vencido,--que,
s-lo ou no, est na ventura.

--D'esta desventura minha, pois fico s (disse o escudeiro, chorando)
no me psa tanto por mim, senhor, como por ser tomada por quem .

--Os cavaleiros por amores, tornou Lamentor (desejando saber o que este
era), tudo lhes est bem fazer.

--Em lugar, lhe respondeu o escudeiro, que lhe seja agradecido; mas o
meu senhor, sobre todas as cousas do mundo, queria bem a uma donzela,
que no tinha para le mais armas que a formosura; porque a vontade
(segundo la mostrou) nunca foi d'le, antes disseram algumas pessoas de
sua casa que no dia em que la concedeu o praso chorou muitas lagrimas,
e que nunca o concedera se no fra por seu pae, que era tam afeioado a
meu senhor (e com razo) que, ao cabo de longo tempo, alcanou isto de
sua filha, e ainda  hora de sua morte.

Todos ficaram espantados d'ouvir isto, porque o cavaleiro da ponte era
formoso e se houvera na justa grandemente.

Lamentor, a quem isto pesou muito, pelo esforo que le na justa lhe
vira, com grande melancolia, disse:

--Consolae-vos, que amor nunca perdoou desamor; tarde ou cedo, vereis
vingana.

O escudeiro, chorando, e tornando-se a lanar aos ps do seu senhor:

--Ai! senhor cavaleiro, disse, para a morte no ha ahi vingana!

Lamentor o tornou a erguer, dizendo-lhe: que, para o chorar, haveria
tempo; que por ento curasse de entender no que havia de fazer.

O escudeiro lhe disse que iria, d'ali a uma jornada, onde estava uma
fortaleza de seu senhor, em que vivia uma sua irman viuva, a quem a le
dera para lhe comer as rendas enquanto que le seguia as aventuras: e
d'ahi viria o concerto para o levarem ao jazigo de seus antecessores; e
que, por ento, deixasse Lamentor ali um seu escudeiro, que o guardasse.

O sol ia j declinando, e era tempo de repousar: mrmente quem do mar
sara.

E porque, no muito longe d'aquele lugar, e da ponte, estava um assento
gracioso d'arvoredo, e corria por entre le agua, ordenou Lamentor de
ali jantar, e assim o fez depois, dizendo ao escudeiro que queria ir
repousar n'aquele lugar; que lhe daria as andas em que o levassem, e
que, se mais lhe cumprisse, de boamente o faria.

O escudeiro, tendo-lh'o em merc, disse que assim fosse.

E, comeando-se de ordenar tudo, sucedeu por acaso que a irman do
cavaleiro da ponte, que sabia que no havia mais que oito dias para se
acabar o praso em que seu irmo (que la muito queria) todo o seu
contentamento tinha posto, determinra vir ali com grandes pompas e
atavios, como aquela que devia, por amor e obrigao, acompanh-lo at
ao fim,--porque tinha la por certo que o acabaria le com grande honra,
pois tanto tempo mantivera sua aventura que no havia j cavaleiro em
toda essa parte que por ali no tivesse passado.

E acertou ento de vir: e, vendo aquele ajuntamento e as andas, no
soube que dizer; mas logo lhe deu o corao uma volta, e, chegando-se
com presteza, viu o escudeiro, que la bem conhecia, andar chorando.
Preguntou-lhe que cousa era aquela. Olhou, e viu o irmo jazer j sobre
uns panos ricos, que Lamentor lhe mandara pr, e, apeando-se
apressadamente, foi correndo para le. Lanando os seus toucados por
terra, comeou a ir, arrancando cruelmente os seus cabelos (que longos
eram), para onde o corpo de seu irmo morto jazia, dizendo:--Para a dr
grande, no se fizeram leis!

Isto dizia la, porque era costume muito guardado n'aquela terra, que
ficara d'outro tempo, sob grandes penas probido, no se pr mulher
nenhuma em cabelo, seno por seu marido.

Chegando a le, o abraou muitas vezes, e o beijou, dizendo:

--Irmo meu, que morte foi esta, que assim vos levou tam depressa, que
vos no pude falar? Quam enganada me trouxe, do vosso castelo at aqui,
a desventura?! Que desconcertos da fortuna so estes? Para verdes
outrem, tomaveis vs esta empreza; e eu para vr a vs parti de casa: e
tudo era para no vrmos o que desejavamos!... Triste de mim, que,
quando vs, com outro rosto, fostes correndo a abraar-me, dizendo:
D'aqui a trs anos, senhora irman, haverei a causa do mundo mais
desejada, e, com vossa licena, que mais quero logo me deu n'alma. E
disse-vos: Que largo praso, esse, para quem o recebe; parece at que
quem o pe o no pe para outra cousa! Mas vs, que para isto quisestes
este bem, como que no folgaveis de me ouvir aquilo, me tornastes: O
grande amor assegura esta demanda. Inda mal, muitas vezes, porque foi
tam grande! Mas no me comer a mim a terra com esta dr, sem fazer, com
todo o meu poder, que custe o largo praso alguma cousa quela que tanto
custou a vs e a mim!

As duas irmans, que j tinham descido para darem as andas, se foram
para la, e, tomando-a entre si, comearam a agasalh-la,  maneira de a
quererem consolar,--que a lingoagem d'aquela terra no a sabiam.

la, com alta voz, chorando, disse: Deixai-me, senhoras, chorar meu
irmo, pois no tem outrem que o chore.

Chegou-se Lamentor, que sabia a lngoa, e andra todas as partidas do
mundo, e disse:

--Os cavaleiros, senhora, que em feitos d'armas acabam, como vosso
irmo, no devem ser chorados como os outros homens; porque les acham o
que buscam. Vs, senhora, posto que muita causa tenhaes para ser triste,
pela perda que perdestes n'ele, que era o melhor cavaleiro d'esta terra
toda, tendes tambem muita razo para louvar a Deus por ele ser tal.
Deixae o pranto, e vde o que mandaes que se faa; que parece, senhora,
escandalo curardes mais de vossa dor que de vosso irmo, emquanto o
tendes diante de vs.

N'isto, chamou o escudeiro, para que lhe dissesse o que estava d'antes
ordenado. E la o houve por bem, e fez-se assim.

E puseram o cavaleiro da ponte sobre as andas, em ricos panos; e a
irman, chorando, pediu que a metessem com ele. Lamentor a tomou por um
brao, e a donzela (porque a irman no podia) pelo outro, e puseram-na
dentro. E querendo Lamentor soltar os paramentos das andas, como causa
de tanto d, se chegou mais para la, e disse estas palavras:

--Ainda que o tempo, senhora, seja para outra cousa, como no sei
quando vos tornarei a ver, de mim sabei, como certo, que podeis fazer a
vosso servio; o mais, sabereis do escudeiro.

E la no tornou resposta, que ia toda coberta, lanada j sobre o
rosto de seu irmo, chorando.

Ele soltou os paramentos, e assim se foram.




CAPITULO VII

Como, depois de partida a irman do cavaleiro da ponte, por aprazer
aquele lugar a Lamentor, ordenra fazer ali seu assento


Tristes ficaram todos por aquela desventura; mas Lamentor, que no
esquecia quem trazia consigo, limpando os olhos das lagrimas que aquela
partida assim lhe fazia, veio para onde sua senhora estava com a irman,
com estas palavras:

--Agora nos podemos, senhora, ir; que na mortalha alheia no temos mais
que fazer.

E, tomando-as, cada uma por sua mo, mandou os seus para aquele lugar
que d'antes lhe parecera bem, dizendo-lhes o que haviam de fazer
entrementes.

Foram-se ento todos pr sobre a ribeira d'este rio, olhando para le.
Falando em outras cousas, estiveram ali um pouco, porque o mais depressa
que ser podia foi armada uma rica tenda, e preparado de comer, que tudo
vinha em grande abastana.

Repousaram at bem tarde, que as andas tornaram. E por no serem j
horas para caminhar, se deixaram ficar ali aquela noite,--que a fortuna
tinha j ordenado que fosse para sempre.

Belisa (que assim se chamava aquela senhora que vinha prenhe), emquanto
ali estiveram, antes que as andas viessem, adormeceu; e, acordando um
pouco agastada, viu junto de si Lamentor, e lanando-lhe, amorosamente,
os braos sobre o pescoo, esteve assim pensativa por um pouco.

E le, vendo que la sonhra, pelo desacordo com que acordra, lhe
preguntou:

--Que cousa, senhora, foi essa?

--Sonhava, senhor (lhe respondeu la) que estvamos, vs e eu, ambos
presos de um fio; e que eu cortava-o, e que vos no via mais.

Lamentor, no lhe pareceu seno que lhe atravessavam aquelas palavras o
corao (como na verdade assim foi) e assim le, com isto que em si
sentiu, se entristeceu grandemente.

Adivinhava-lhe, parece, a alma o seu mal. E no pde tanto dissimular
que o no conhecesse la, e disse-lhe:

--Que  isto, senhor, que assim vos mudastes com o que vos disse?

Mudando le o proposito em cousa que tambem lh'o mudasse a la, para
lhe escusar alguma imaginao, pelo perigo em que vinha da prenhez, lhe
respondeu, dizendo:

--Hei-vo-lo, senhora, de confessar, ainda que n'isto force minha
condio,--que nem dizer-vo-lo, nem cuid-lo quisera. Houve melancolia.
Perdoae-me, que de vs no se pde la haver. Mas como os sonhos no
venham seno do que a gente traz na fantasia pareceu-me (porque me
dissestes que sonhaveis que me no vieis mais) que era desconfiar do que
vos quero, e de mim,--sendo vs bem segura de ambas as cousas, ou de
cada uma.

--la, com a boca cheia de riso, que bastava para o desagastar (se le
aquilo cuidava) se chegou mais para le, dizendo-lhe:

--Bem longe viera eu buscar essa desconfiana! Eu vos perdo. Parece
que  este dia aziago, que tantos desastres acontecem n'le!

N'isto, e em outras cousas, passaram aquele dia, emquanto houve sol,--o
qual com mais prazer se havia de pr, do que amanheceu, pelo que
ouvireis.




CAPITULO VIII

De como a Belisa vieram em crescimento as dores do parto, e, parindo uma
criana, faleceu


Vinda a noite, repousando j todos, Belisa se comeou de agastar
levemente; mas, crescendo-lhe a dr cada vez mais, houve de chamar por
sua irman.

Acordando la, que perto em uma cama dormia, lhe contou Belisa como a
dr lhe ia em crescimento. A senhora Aonia (que assim se chamava a
irman) acordou as mulheres de casa, e uma dona honrada, que de parteira
sabia muito, e para isso a trouxera Lamentor; porque, quando partira, j
Belisa era prenhe; e se no fra porque se no podia j encobrir, no a
trouxera le assim a terras estranhas: mas, na necessidade, o amor no
achou outro melhor remedio que o desterro.

Belisa, que a Lamentor queria sobre todas as cousas do mundo, disse,
para as outras, que a ajudassem a tirar do leito em que jazia para a
camilha de sua irman, para o no acordarem, que estava cansado do
caminho. Assim se fez, o mais de manso que puderam.

Grande parte da noite passaram a fazer remedios para a dr de Belisa.
Mas a senhora Aonia, que via sua irman cada vez com mais agastamentos:

--Quereis, senhora irman (lhe disse) que chamemos meu irmo?

--Para tomar paixo, (lhe disse la) no o chameis vs; que prazer a
Deus que se me ir esta dr: e isto, ao menos, ganharemos d'la.

--Assim praza a Deus (falou a dona honrada, d'acol d'onde estava)
porque no vejo nenhum sinal, senhora, de parirdes tam cedo. Deve ser
isto do caminho ou da mudana de terra.

Porm, era j manhan quase; e a dr no amansava, antes se fazia maior,
e comeavam-lhe a vir uns agastamentos e desmaios ao corao. A primeira
vez que lhe isto veio, suportou-o la; e a outra vez tambem; mas quando
veio a terceira, em tamanho crescimento lhe veio, que lhe tolheu a fala,
um pouco.

Tornando la a si, olhou para sua irman, dizendo-lhe que j agora lhe
pesava de o no chamarem. E porque n'isto se comeou a sentir melhor,
tornou depressa para sua irman, que j ia para o chamar, dizendo:--Mas
no o chameis, que, parece, me acho melhor.

Um pedao grande, esteve ento Belisa desagastada. E porque uma rica
camisa que tinha vestida estava mal-tratada dos remedios que sobre o
corao lhe punham, para as mulheres, disse:--Vistam-me a mim outra
camisa, que, se morrer, no v pelo menos assim.

A senhora Aonia se ps a chorar, com estas palavras.

Olhando para la, Belisa, lhe vieram as lagrimas aos olhos; e,
querendo-lhe dizer alguma cousa, a dr no a deixou, que ento comeou
mais apertadamente que d'antes.

Aquela dona honrada, que a via mais agastada que nunca, disse que seria
bom erguerem-na de todo; e querendo-a sua irman tomar por um lado, se
virou Belisa para la, dizendo-lhe:--No sei que ha-de ser isto!

Mas tamanhos foram os agastamentos, e tam apressados, que no houve ahi
acordo para a erguerem de todo, e ficou como assentada. E, emfim, foi
assim a desventura que em breve espao a ps no extremo da morte.

E j, a la, lhe ia falecendo a fala, levantando os olhos para sua
irman, como foradamente, disse:--Chamem-no; chamem-no!

Foi a senhora Aonia, chorando desoladamente, chamar Lamentor, que no
mais alto sno dormia, dizendo-lhe:--Acordae, senhor; acordae, que vos
levam Belisa!

Ergueu-se apressadamente Lamentor, levando a mo a um terado, que
junto da cabeceira tinha; mas vendo chorar todos derredor da cama de
Aonia, e Belisa, a quem tinham erguida at aos peitos, como passada
d'este mundo,--abraando-a, se chegou para la, dizendo:

--Que cousa foi esta, senhora?

E as lagrimas enchiam, com estas palavras, todo o rosto seu e o d'la.

Levantou ento Belisa, cansadamente, uma mo, com a manga da camisa
tomada, para lhe limpar os olhos; mas, no seguindo la j a sua
vontade, se lhe deixou a tornar a cair para baixo. E la, pondo os olhos
fitos n'le: No mais, disse, para sempre! E, d'ahi, os foi cerrando,
vagarosamente, como que lhe pesava de o deixar assim.

Lamentor, que isto no pde ver, caiu para o outro lado, como morto, e
assim esteve um grande pedao.

N'este meio tempo, ouvindo a dona honrada chorar uma criana na cama; e
cuidando o que era, atentou, e achou uma menina recem-nascida, que
chorava muito.

E, tomando-a ento nos braos, com os olhos no enxutos, disse assim:

-- coitadinha de vs, menina, que chorando vossa me nasceis! Como vos
criarei eu, a vs, filha estranha, em terras estrangeiras? Mal v ao dia
em que assim saimos do mar, para passar toda a tormenta na terra!

Mas, como entendida que era, ordenou de a curar, tomando a tarefa toda
sobre si; que bem via que Lamentor, e a irman, outro maior encargo
tinham. E, assim, mandou o que se havia de fazer, e proveu sobre tudo.




CAPITULO IX

Do pranto que Aonia fez pela morte de sua irman Belisa


A senhora Aonia (lembrando-lhe o que vira fazer  dona viuva sobre o
corpo de seu morto irmo, que o devido costume ao tempo do luto lhe
parecia ento,--posto que em sua terra se no usasse) pondo-se sobre o
corpo de sua irman, rasgando os toucados dos seus formosos cabelos, que
longos eram,  maravilha, a cobriu toda, e tambem a Lamentor, que la
bem cuidou que era falecido; que pelo grande bem que le queria a sua
irman, leve lhe foi isto de crer, vendo-o da maneira que via!

Depois de muito cansada, em alta e dorida voz, comeou por estas
palavras:

--Triste de mim, donzela de pouco tempo, desamparada em terra alheia,
sem parentes, sem ninguem, e sem prazer! Como vs, senhora irman, me
pudestes deixar s, tam longe e em tal lugar?! Para vos tirar a saudade,
me dizieis vs que vinha eu c: e vs, para m'a dar a mim, vinheis!...
Malaventurada de mim! Para outros fados, cuidava eu que me criava a mim
minha me, e la foi a enganada, e eu a que hei de pagar agora o engano!
Quam sem-razo tamanha, senhor cavaleiro, me  feita diante de vs! De
quantas donzelas por vs foram amparadas, eu s estava para o no ser!
Coitada de mim! Que farei? Onde me irei?...

E assim se lanou sobre o corpo de sua irman.

Mas, ao invocar o cavaleiro, Lamentor a ouviu, como por sonhos; e
tornando em si, viu diante tantas mgoas que ficou sem fala um pouco; e
vendo logo como se matava toda a senhora Aonia, esforou-se para a ir
ajudar, para que tam cruelmente se no matasse, dizendo:

--Esforae-vos, senhora, pois a fortuna quis que um tam desconsolado
vos console!

E foi-a a erguer; e, querendo-lhe falar, lhe faleceu a fala.

Ali, houveram ambos mui triste pranto, e entre si se diziam, um ao
outro, palavras de muita mgoa, comeadas pela dr, rotas pelo pranto.

E era j manhan clara.

E acertou assim que, quela hora, chegava um cavaleiro  ponte, e vinha
de longes terras buscar aquela aventura, por mandado d'uma senhora que
lhe queria bem a le: mas le a la devia-lhe mais do que lhe queria.

No achando ninguem na ponte, e ouvindo perto d'ali tam grande pranto,
pareceu-lhe algum misterio, ou alguma cousa de dr.

Deu a andar para onde era; e, vendo uma rica tenda, e ouvindo muita
gente, dentro e fra, chorando, preguntou a um servidor, que topou, que
cousa era aquela. E le lh'o contou.

E, apeando-se le ento, (mandando primeiro adiante o escudeiro de
Lamentor) muito mensurado e humildemente, entrou aps le.

E entrando, e vendo a senhora Aonia, que em grande extremo era formosa,
soltos os seus longos cabelos que toda a cobriam, e parte d'les
molhados em lagrimas, que o seu rosto por alguma parte descobriam, foi
logo trespassado do amor d'la, sem haver quem, por parte d'outrem,
fizesse defeza alguma; e como o amor viesse juntamente com a piedade,
parecia que vinha la s; mas, quando se descobriu, eram j conhecidas
tantas razes por parte da senhora Aonia, que no tam smente lhe
esqueceu a outra, mas no lhe lembrou mais seno para lhe pesar do tempo
que gastra em seu servio.

D'esta maneira, foi le preso do amor da senhora Aonia; e, depois, veio
a morrer por la.

Este foi um dos dous amigos de que  a nossa historia. E, por isto,
costumava meu pae dizer que tornra o amor d'este cavaleiro a morrer na
paixo onde se levantra. Mas, para isto, seu tempo lhe vir.




CAPITULO X

De como Narbindel, vindo a combater com o cavaleiro da ponte, vendo o
pranto que se fazia na tenda de Lamentor, entrou dentro para o consolar


Dito era j a Lamentor que o cavaleiro entrra: mas le no no viu
seno quando j o achou junto de si, dizendo-lhe palavras de consolao.

Lamentor as recebeu d'le o melhor que pde, mais por lhe no dar causa
de se deter muito, que por estar para isso. Mas, depois de estarem um
pouco, vendo Lamentor que le no fazia meno de se ir, foradamente,
lhe disse:

--Senhor cavaleiro, a vossa visita vos tenho em merc. Praza a Deus
que, em outra mais alegre, vo-la pague! Ns vimos de jornada, como
sabereis. As pousadas no so maiores do que vedes; no ha ahi outra
casa seno esta, para a tristeza e para ns. Deveis-vos, senhor, ir para
onde ieis; no tomareis ao menos parte em tanto luto, porque as mgoas
alheias tambem doem a quem as v. Perdoae-me, que no tenho agora outra
cousa em que vos sirva a vossa boa vontade.

O cavaleiro, passando os olhos pela senhora Aonia:

--Eu no tenho d'onde ir d'aqui, lhe disse.

E, parece que lembrando-lhe que a havia de deixar, cairam-lhe umas
ralas lagrimas pelo peito.

Mas, como le visse que ali no tinham mais do que aquela tenda, e
outra pequena, bem lhe pareceu que no podia caber ali n'aquele tempo
gente estranha, ainda que le--no seu corao--j o no era. Erguendo-se
ento, seguiu sua fala, dizendo:

--D'este luto, senhor, no me pde a mim j caber pequena parte, para
onde quer que v. De boamente vo-lo ajudra a passar; mas emfim, vs,
senhor, cavaleiro sois: e mais, pois vindes de longe terra, (como soube
de um servidor vosso) no deve ser este o primeiro que tendes visto;
porque, nas suas mesmas terras, os que nunca se mudam d'llas, no se
podem escusar de ver luto cada dia, e cada hora do dia!

E dizendo-lhe mais que visse o que lhe mandava, se despediu d'le, com
os olhos postos na senhora Aonia, e assim foi um poucochinho, que a
tenda no lhe deu mais lugar; mas, quando se houve de virar todo, com
muita dr sua os arrancou d'ali.

Assim se saiu da tenda; e assim o deixaremos, para seu tempo.




CAPITULO XI

De como se deu sepultura ao corpo de Belisa, e do pranto que com le fez
Lamentor


Lamentor se tornou a seu pranto,--que muita causa tinha le para isso.

Mas, estando le, e a irman, assim por um grande espao de tempo, que
ia j o Sol para o meio-dia, a dona honrada (que ama se chamou depois,
pela criao da menina) como era j idosa, era de muito saber, e
chegando-se para onde ambos estavam no seu pranto:

--Senhores, (comeou a dizer) para o pranto, muito tempo vos ficar,
que a desventura parece que  n'esta terra como na nossa. Deixai as
lagrimas, que no  agora tempo para vs, senhor, no parecerdes
cavaleiro; nem para vs, senhora, parecerdes tanto mulher. Lembre-vos
que a tristeza  de todos; que tamanho mal foi o nosso que no tam
smente o hemos de ter, mas ainda nos havemos de consolar uns com os
outros. E, pois temos a dr para sempre, domo-nos, sequer, como de ns
que ficamos vivos. A sepultura  devida aos mortos: ho-se de fazer as
cousas necessarias; olhai que  o derradeiro dom da vida! Termos o corpo
da senhora Belisa mais tempo sobre a terra, parecer fazermos-lhe fora
no mais pouco de sua partida; e porventura se deve la desgostar de lhe
negarmos o seu descanso quando no nos hade pedir mais cousa alguma.

Acabadas estas palavras, que no foram ditas sem muita dr de todos,
tomou la  senhora Aonia, como sobraada, e a levou para a tenda
pequena, que chegada quela estava; e d'ahi tornou por Lamentor, e
tambem o ajudou a ir para l. Depois, entendeu em concertar o
necessario.

Mas Lamentor no quis que levassem o corpo de Belisa para outra parte,
antes mandou que ali, onde falecera, fosse a sua sepultura; porque logo
assentra em sua vontade de nunca mais, emquanto vivesse, se mudar
d'aquele lugar. E assim o fez.

E porque, nos reinos d'onde les vinham, se costumava, antes que
mandassem os corpos mortos  terra, virem todos os parentes a
beijarem-nos nas faces, e os familiares nos ps, e o parente mais
chegado por derradeiro de todos (parece que faziam aquilo como saudao,
para que aquela transmigrao fosse como em boa hora), quando tudo foi
acabado, a ama veio chamar Lamentor e a senhora Aonia, que foi prestes
lanar-se sobre as faces de sua irman.

E, beijando-a muitas vezes, levantou a voz, dizendo:

--N'outra terra, muitas tivereis vs que fizeram isto, mais que
n'esta!

E aqui comeou a rasgar o seu formoso rosto.

E todos levantaram um triste pranto.

 maravilha, cada um lembrava a sua dr, e assim a iam beijar nos ps.

Lamentor, a quem mais doa onde ainda nunca outra cousa lhe doera,
depois de muitos suspiros arrancados d'alma, olhando pelo que devia
fazer, pelo costume, d'esta maneira disse:

--Senhora Belisa, como vos hei de saudar, eu? Por mim, deixastes vs
vossa me, vossa terra, vossos amigos e parentes! Quem vos pde apartar
de mim, em terras estranhas, para me fazerdes tam triste?! No me
querieis vs a mim, tamanho bem? Como me deixastes s? Mas alguma
desventura me houve inveja, que o que vs me fazieis para ser o mais
ledo cavaleiro do mundo--para eu ser o mais desgostoso o fazieis vs!...
Malaventurado cavaleiro, que para vs, senhora, estava ordenada uma
sepultura em terra alheia, e, para minha vida, duas! Mas a vossa ter o
corpo; e a minha: vida e alma! No era mais rijo, senhora, o fio que nos
prendia a ambos? Como o cortastes vs, sem mim? No vos lembrou que era
eu o que vos no havia de ver mais? Mas pedistes, senhora (me disseram)
que vos levassem de junto de mim, para me no tirarem do repouso; e
outrem tirava-m'o estando longe de vs. No bastou a minha desventura
haver de ser mais triste do mundo, mas ainda a maneira como me veio o
havia tambem de ser! No me chamaram seno para vos no ver; e ainda
ento vos doestes de mim, que quisereis limpar-me as lagrimas, e a minha
desventura no o queria. Faleceu-vos a mo; como que vos deixava, sendo
j senhora da vossa vontade a morte. E, com os olhos derradeiros postos
em mim, me fostes mostrando que, com a alma, se vos ia tambem a vontade.
Mas devidos eram os meus anos a este vosso caminho; mas mais o era eu s
tristezas! E, pois fico para las, o melhor  ficar sem vs!

E, com isto, cumpriu o costume.

Mas a ama, que via no haver ali outrem sobre quem recaisse o cuidado
das honras derradeiras, seno a la, arredando Lamentor e a senhora
Aonia, tomou uma rica toalha nas mos, e, lanando-a por cima do rosto
de Belisa:

--Agora para sempre (disse) vos cumpre olhar para o ceu, onde la,
bem-aventuradamente, est; que isto  terra! Quem a amar, pois j la a
deixou, parece que errar ao bem que lhe quiser.

Palavras eram estas de muita consolao, se soubera a dr presente
consolar-se.

Mas assim a enterraram.

Deixemos aqui as cousas de Lamentor (que foram muitas e extremadas as
que le fez, pelo muito que a Belisa queria), porque como este conto
seja dos dous amigos, agravo se lhe far, ao muito que d'les ha para
dizer, gastar-se n'outrem alguma parte do tempo.




CAPITULO XII

Do que sucedeu ao cavaleiro, que saiu da tenda, vencido do parecer e
formosura da senhora Aonia


Torno-vos ao cavaleiro que saiu da tenda, tam triste que no pde
alongar-se muito d'ali; e, apeando-se, sentou-se ao p de um freixo que
cerca d'aquelle ribeiro e da ponte estava. E, para pensar mais  sua
vontade, mandou o seu escudeiro, arredado d'ali, que desse de comer ao
seu cavalo na ribeira d'aquele rio, porque logo se temeu de le o ver
assim, e cair em alguma suspeita que fosse contar a Cruelcia (que era
aquela por quem viera ali, como ouvistes), porque todos os seus lhe eram
muito afeioados; e como la quisesse a le muito grande bem, les no
se podiam ter que lh'o no mostrassem todo em as obras; d'onde nascia
irem-lhe les a dizer e contar tudo o que le passava.

Assim o que le fazia por bem lhe saa s vezes em mal; que para
tamanho bem lhe la queria que no podia deixar de ouvir, pelo tempo,
cousas que a magoassem; nem tambem le no as podia deixar de fazer,
pelo pouco que lhe queria. Como, de feito, assim, por derradeiro, lhe
foi isto causa, a la, de triste fim.

Mas, sentado o cavaleiro ao p do freixo, esteve por longo espao
revolvendo muitas cousas na fantasia.

E, quando se lembrava do que a Cruelcia devia, parecia-lhe sem-razo
deix-la; por outra parte, lembrando-se de quam bem lhe parecera Aonia,
parecia-lhe desamor no lhe querer bem.

Tinham-no assim, entre ambas, formosura e obrigao, a ver quem o
levaria; mas, por derradeiro, pde mais a de mais perto.

Costumava dizer meu pae que fra vencida a obrigao, como cousa que
lhe no vinha de direito o pago no amor, e vencera a formosura, como
quem s de amor se pagava.




CAPITULO XIII

Em que se diz quem fosse Cruelcia e do que o cavaleiro passou com seu
escudeiro


Era Cruelcia uma de duas filhas a quem sua me mais que a si queria, e
de boa formosura; mas obrigou tanto este cavaleiro, com cousas que fez
por le, que o endividou todo nas obras. No lhe deixou nada, tam s
para que lhe devesse a formosura. Parece que lhe quis tamanho bem, que
no sofreu a tardana de o ir obrigando pouco a pouco: deu-se-lhe logo
toda. Obrigou-o assim, mas no no namorou.

Coitadas das mulheres, que, porque vem que as namoram os homens com
obras, cuidam que assim se devem las tambem namorar; e  muito pelo
contrario,--que aos homens namoram-nos desdens e presunes. Aps uma
brandura de olhos, aspereza muita de obras.

Isto de seu natural lhes deve vir; porque so tam rijos que parece no
terem em muito seno o que trabalham muito.

Ns outras, brandas de nosso nascimento, fazemos outra cousa; porm, se
les comnosco entrassem a juizo, que razo mostrariam por si? O amor,
que , seno vontade? No se d, nem se toma por fora. Mas, como quer
que seja, ou pela desventura das mulheres, ou pela ventura dos homens,
sentena  dada em contrario; que a les os venam esquivanas; e boas
obras--a las!

Esta s maneira puderam ter para os namorarem, se no foram namoradas
d'les.

Mas, ao amor, quem lhe por lei?

Porm, este desagradecimento dos homens--que  o seu nome
verdadeiro--trouxe muitos desventurados fins, como vereis n'este
cavaleiro em que falmos.

E no foram vos os rogos que Cruelcia fez, com as mos erguidas ao
Ceu, pedindo d'le vingana.

Comtudo, assentou le, por derradeiro, de a deixar; porque, alm de lhe
parecer a senhora Aonia a mais formosa cousa que vira, pareceu-lhe
tambem (por vir de longes terras, e ser n'aquela estrangeira) que mais
depressa haveria seu amor. Esta esperana (ainda que bem visse le que
era de longe) comtudo grande ajuda foi ento para acabar de assentar e
confirmar, ou de fazer muito grande, o bem que lhe queria; porque isto
vae assim, como quando algum amparo tolhe o sol:--se o toma em cheio, 
muito maior a sombra que o amparo que a faz.

Assim, os que bem querem; porque as esperanas, por pequenas que sejam,
tomam sempre em cheio, ou parece que tomam, os estorvos que tolhem a
cousa bem-quista; fazem o amor muito maior do que las so; d'onde veem
depois os cuidados que com a morte, ou longa tristeza, se possuem, como
foi n'este cavaleiro, que j no cuidava seno de ver como se apartaria
do seu escudeiro, de maneira que, depois de apartado, lhe no causasse
suspeita alguma d'aquele lugar, para le mais  sua vontade gosar d'le.

Desejava tanto este apartamento, porque bem sabia le que havia de
sofrer mal o ver-lhe deixar Cruelcia; porque era da criao d'la, que
lh'o dera para o acompanhar, e nunca outra cousa le lhe dizia seno que
a havia de tomar em matrimonio,--porque era de alto sangue, e herdava
terras onde le podia repousar os derradeiros dias da vida, que no
deixam tomar armas com honra.

Mas, emfim, cuidando o que determinou, o chamou, e fazendo-lhe um
discurso largo, entre outras cousas, lhe disse que lhe no parecia bem
ser le mesmo que levasse  senhora Cruelcia a nova da aventura que no
achra, vindo por amor d'la; mas que seria bem levar-lh'a le, e
dizer-lhe que da sua mofina quisera le que fosse outrem o portador.
Que, para la, no podia le ir em companhia de novas tristes; e que o
esperaria no castelo, que perto d'ali estava, at tornar a trazer-lhe
recado se queria la p-lo n'outra aventura, pois aquela, assim, no se
pudera acabar.




CAPITULO XIV

De como, partido o escudeiro do cavaleiro da tenda, entrou em
pensamentos de como se separaria d'le, e mudaria o nome


Partindo o escudeiro com o recado (enganado le, e para quem o levava)
ficou o cavaleiro s, e comeou a entrar em pensamentos de que maneira
mudaria o nome, para que no fosse sabido onde estava, nem se pudesse
saber para onde ia; que tanto se senhoreou, n'aquele pouco tempo, o amor
d'le, que a si mesmo queria j, em parte, deixar.

Mas, lembrando-lhe n'isto que n'outro tempo lhe dissera um adivinhador
que, quando le mudasse a vida e o nome, seria para sempre triste, ficou
um pouco mais pensativo; mas tornando logo a fazer menos conta d'aquelas
cousas, como incertas, e, comtudo, no querendo ir de todo contra las,
por outras muitas que tinha ouvido pensou em trocar as letras do seu
nome. De maneira que, assim, o no mudaria, nem tentaria os fados.

Mas le no viu que isto era engano tambem dos fados.

Estando le assim n'este pensamento, acertou, por acaso, que um mateiro
vinha do mato pelo caminho que ia ter  ponte, e vinha em cima de sua
besta, como deitado, e mal coberto com um enxalmo. Parece que andando
le, despido, cortando a lenha, atera-se algum fogo perto do seu
vestido, e lh'o queimra; e ento o mateiro, por lhe querer acudir,
descuidra-se de si, e o fogo fizera-lhe algum dano, em partes de seu
corpo.

E, a direito do cavaleiro, topou com outro mateiro, que para o mato ia,
que lhe preguntou, vendo-o vir assim sem lenha, para que fra ao mato,
respondendo-lhe o mateiro queimado, falando-lhe galego, estas ss
palavras:

--Bim n'arder.

Olhou o cavaleiro para o barbarismo da letra mudada na pronunciao de
_b_ por _v_, e pareceu-lhe misterio; porque ele era aquele que tambem se
fra a arder,--quis-se chamar assim d'ali vante.




CAPITULO XV

De como Bimnarder soube de um servidor de Lamentor que este ordenava
fazer ali uns paos e do mais que lhe aconteceu com a sombra que lhe
apareceu


No passou muito que, por aquele lugar, no viesse um dos servidores de
Lamentor, que atravessava para o castelo.

Quando Bimnarder soube d'le que Lamentor tinha ordenado fazer ali uns
paos grandes, e morar n'les toda a sua vida, algum repouso mais deu
isto a Bimnarder; que, d'antes, a pouca certeza que tinha da estada de
Aonia n'aquela terra lhe dava grande fadiga ao pensamento.

Mas, afrouxado da parte d'este cuidado, entrou n'outro:--do que faria
de si, e para onde se iria; no qual esteve at a noite, sem poder
assentar nada consigo. Porque se o ir-se d'ali para outra parte, lhe era
j grave; ficar, parecia-lhe impossivel cousa poder-se esconder do seu
escudeiro.

Combatido assim de uma cousa e de outra (ainda, porm, sem determinao
nenhuma) ergueu-se,--como forado da noite, mais que da vontade.

Buscando o seu cavalo, onde o deixra o escudeiro, no o achou.
Tornando-se ento para o freixo onde antes estivera, para d'ali olhar se
fra beber a este rio, mas no o vendo nem sentindo em nenhuma parte,
encostou-se ento assim ao freixo, pensando,  primeira no cavalo. Mas
no tardou que logo no tornasse ao seu verdadeiro cuidado, imaginando,
parece, a senhora Aonia na fantasia, afigurando-se-lhe v-la da maneira
que a vira. E, de piedade amorosa, lhe estavam vindo as lagrimas aos
olhos.

Estando le assim, todo ocupado d'aquela doce tristeza, sentiu como que
alguem junto de si.

Olhando, com o luar que ento fazia, viu uma sombra de homem de
estatura desproporcionada (de nosso costume) estar perto d'le.

A subita novidade o moveu  alterao, mas, como esforado que era,
lanando mo  sua espada cobrou ousadia de lhe preguntar quem era; e
vendo que, comtudo, se calava, se ps a mover para le, j com a espada
arrancada, dizendo:

--Ou me dirs quem s, ou o saberei eu.

--Est quedo, Bimnarder (chamando-o assim por seu nome)--lhe disse a
sombra--que inda agora foste vencido de uma donzela chorando!

Deteve Bimnarder o passo, espantado de aquilo que ainda ento cuidava
le que o no sabia ninguem; mas tornando logo a querer-lhe preguntar de
onde o sabia, a meia palavra, olhou... e viu aquela sombra que,
virando-se para umas moitas grandes, que 'hi cerca estavam, se ia
metendo por entre las, pouco a pouco. E assim se encobriu e
desapareceu.




CAPITULO XVI

De como, estando Bimnarder muito pensativo no que faria, viu de subito
vir o seu cavalo fugindo d'uns lobos que o queriam matar


Ficando Bimnarder com o pensamento cheio do que aquilo seria, comeou
de ouvir um estrondo grande que vinha pelo mato para onde ele estava. E,
inda bem o no ouvia, quando, correndo por ante si, viu passar o seu
cavalo, e uns lobos aps le, e aps les, de longe, vinham correndo uns
ces com grande grasnada.

E, ao saltar d'este ribeiro, caiu n'le o cavalo. E, chegando os lobos,
comearam a mord-lo por todas as partes, de maneira que, comquanto
prestemente Bimnarder acudiu, j le era morto.

E no tardou nada que uns pastores, que perto d'ali tinham a malhada do
seu gado, ao filar dos ces, vieram ali ter, afigurando-se-lhe ser morta
alguma rs; e, achando Bimnarder assim agastado, comearam-no a querer
consolar com palavras e modos rusticos, oferecendo-lhe pousada por
aquela noite.

Aceitou le, ainda que no desejava ento companhia; mas pelas horas o
fez, e tambem porque logo cuidou que, quando os pastores fossem no seu
rebanho, no lhe haviam mais de tolher o tempo ao pensar,--que para les
no se fizera a noite seno para dormir.

Foram assim ao fato de uma grande manada de vacas (que todas estavam
alevantadas, com o alvoroo dos ces e medo dos lobos) metendo-se os
pastores e Bimnarder por entre las, que lhe iam fazendo lugar, e
escornando umas s outras.

E, assim, saindo d'entre las, estava uma fogueira grande junto de uma
choupana de sebes, cortiada por cima. E junto d'esta, ao fogo, jazia
deitado, sobre rama verde espalhada, um pastor j de todo branco, que
maioral era do fato; e tinha sua cabea encostada sobre um tronco de
madeira; e uns rafeiros ainda pequenos lanados em parte por cima do
velho pastor, e outros, grandes, com as cabeas estendidas sobre le.

E, em pastores chegando, ergueu le a cabea um pouco, e, como homem
que era avisado em semelhantes casos, descansadamente comeou a
preguntar pelo que se passava. Contando-lhe les que no era nenhuma rs
morta, tambem lhe contaram do cavaleiro que traziam.

Ergueu-se le ento assentado, e fazendo-lhe lugar na rama de sua cama,
lhe rogou que se fosse assentar. E assentado Bimnarder, e assentados
todos derredor d'aquella fogueira, pediu o velho maioral a Bimnarder que
lhe contasse como aquele desastre lhe acontecra.

Contou-lh'o le, brevemente, por lhe satisfazer: como andando o seu
cavalo pastando vieram aqueles lobos, e mataram-lh'o, primeiro que lhe
pudesse valer.

Ao que, comeou com uma fala retumbada a falar o pastor, como que o
queria consolar n'aquela mofina, dizendo:

Os desastres que acontecem com os animaes ferozes n'este vale,  cousa
espantosa, e, para quem o souber, mais leves de sofrer, se a companhia
em isto d consolao! N'uma noite de inverno escura, sendo eu mais novo
que agora, diante dos meus olhos, me tomaram a minha vaca bragada (me
d'est'outras bragadas, que tenho'inda agora) e mataram-na. Pois tinha eu
ento ao p de mim o rafeiro malhado, e a rafeira branca sua me,
armados os pescoos ambos, que nunca me achei com les, em lugar tam
ermo nem em noite tam trabalhosa, que no estivesse seguro como na
metade do dia; mas ento pouco aproveitavam les a mim, que bradava a
coitada da vaca, e bramia tam doridamente que, em breve espao, ajuntou
quanto gado tinha, que estava,  la f, a um bom pedao d'ali. E j
aqui, onde agora estou, me vieram no claro dia matar quantos bezerrinhos
tinha, que inda no eram para andarem com as mes.

--E porque ests ento aqui, pastor honrado?--lhe disse Bimnarder.

--Nunca vistes outra cousa, lhe disse o pastor, no ha o haver seno
onde ha o perder. A terra  abastada de pastos; e, assim como cria o
bom, cria o mau. J ouvi dizer a um grande homem, que era dado s cousas
do outro-mundo, falando na povoao d'esta terra (que, ainda que a vdes
assim, por partes, metida a mato,  de pastores, em muita maneira,
povoada) que isto era uma das maravilhas da natureza: de uma mesma terra
nascerem duas, tam contrarias uma  outra. E isto no era s nas
alimarias, mas nos homens:--que no ha maus seno onde ha os bons, e no
ha ladres seno onde ha que furtar. Mas, quanto a mim, no sei qual 
pior para ns outros, pastores:--na terra de pouca ervagem perece-nos o
gado  fome, e c n'est'outra, matam-no-lo. Assim, em toda a parte nos
vae mal. Mas ns outros somos, emfim, como dizem que so todos os outros
homens (e vs, senhor cavaleiro, o sabereis): podemos melhor sofrer o
mal que nos faz outrem que o que ns fazemos a ns outros mesmos. Os
danos da terra fraca, porque est em nosso poder sairmo-nos d'la, no
os podemos sofrer; os da outra, que no est em ns vedarmo-los,
sofrmo-los como podemos. Assim, tambem digo eu, senhor cavaleiro: no
vosso caso, no estejaes agastado; descansae, e tornae tudo  culpa da
terra.

Estas palavras, a Bimnarder, pareceram bem; e, se no fra porque era
contar o pastor a verdade de sua vida, cuidra le que no eram estas
palavras de pastor; mas o que cada um passa, facilmente o sabe bem
contar; e, por isso, no lhe tornou resposta mais que umas palavras em
sinal de agradecimento d'aquele bom conforto, fazendo meno de querer
repousar; o que vendo, o velho pastor mandou a todos que se calassem, e
que dormissem. E foi feito assim.

E comearam em breve espao os pastores a roncar, estirando seus
rusticos membros, uns para c, outros para l, como ao sno aprazia.

S Bimnarder no podia repousar, tendo no corao a quem le no doa.
E quando a todos a escura claridade das estrelas aconselhava o sno,
d'le o tinham desterrado os seus cuidados.

Antes, com os olhos postos para aquela parte d'onde viera (segundo
parecia, com o corpo s)  senhora Aonia, ausente, le a ouvia chorar.

E em a longa noite esteve assim, 't que aquele cansado corpo adormeceu
aquela parte dos sentidos sobre que tinha algum poder. Sonhos e
fantasias ocuparam a outra.

Mas, depois de um pouco de sno, acordou le, todo banhado em lagrimas,
porque sonhra, chorando, que o levava d'ali, por fora, a sombra que
vira d'antes. E correndo-lhe, por isto, muitas cousas pelo pensamento,
assentou consigo de se no ir d'aquela terra, 't vr o que podia ser
d'le n'aquele cuidado, que o assim tomra, e assim o seguia.

D'esta maneira, cuidava le que no iria contra aquilo que, porventura,
lhe adivinhava o sno, se o fizesse.

Tamanho desejo tinha de se no ir nunca d'ali, que tudo lhe parecia que
lh'o aconselhava; e, de muitas maneiras que cuidou, n'esta assentou por
derradeiro: despedir-se cedo d'aquele velho maioral, e ir-se a algum
lugar perto d'ali, onde mudasse os trajos, e tornasse a assentar vivenda
com le, que grande rebanho lhe parecia que trazia.

E, ainda que muitos mancebos lhe visse, a pouquidade da soldada faria
com que lhe no fosse sobejo qualquer pastor.

E assim o fez.




CAPITULO XVII

De como Bimnarder assentou vivenda com o maioral do gado, e do que a
donzela passou com a dona em sua historia


Eis Bimnarder pastor de vacas,--que no houve ahi nada impossivel no
amor grande.

Muito tempo passou le n'aquela vida, com maus dias e piores noites;
porque Lamentor, no comeo logo do seu assentamento, mandou fazer
primeiro umas casas para recolhimento, no mais; e a muita gente que era
vinda para as obras, pela labutao grande que tinha, por causa da
grande pressa que Lamentor dava a las, tolhia a saida das mulheres,
pelo que Aonia no apareceu um grande tempo, para Bimnarder, ao menos,
ter aquele contentamento que a vista dos olhos d queles que do mais
carecem.

Conheciam-no, porm, j todos os de casa, e chamavam-lhe o _pastor da
flauta_, porque le costumava traz-la sempre, pois para remedio da sua
dr a escolhra, depois de se desconhecer.

Tambem assim, muitas vezes, ora pela ribeira d'este rio, e outras horas
por estas altas assomadas (que fazem, como vdes, mais gracioso este
vale) andava tangendo, e cantando em palavras pastoris. Este s
contentamento lhe era algum conforto para o seu mal, e para desabafar o
seu corao, que tam ocupado de profundos e muito penosos pensamentos
trazia.

Muitas cousas sabia meu pae, suas, que arremedavam de pastor, e tinham
as cousas de alto engenho, ou, mais verdadeiramente, de alta dr, postas
e semeadas tam docemente por outras palavras rusticas, que quem bem
olhasse facilmente entenderia como foram feitas.

E, assim, tinha mais outra cousa, a meu fraco juizo e parecer:  que o
bom pastor, n'aquela baixeza de estilo, pela impresso da presuno que
punha, e de si mostrava, como que via mais depressa haverem d'le
compaixo todas as pessoas que o ouviam, tanto pde a imaginao em
todas as cousas.

Mas, de todas, uma s me vem  memoria, e lembra-me que dizia meu pae
que le a cantra, e ouvira-lh'a a ama da menina.

Por certo, parece que assim o ordenou a ventura para que Aonia fosse
sabedora de seu cuidado, j quando le de todo andava desesperado; e,
no se podendo d'ali apartar, ordenava, andando desvairadas cousas de
si, que desvairadamente o atormentavam.

Tambem, para que tudo fosse como cumpria  desventura que estava
ordenada, aconteceu que a velha ama era natural d'esta terra, e, n'outro
tempo, quando era moa, parece que um mercador muito rico e
gentil-homem, (que viera d'aquelas partes d'onde Lamentor) por asos e
visinhanas, houvera o seu amor; e com dadivas grandes, e promessas
maiores, a levra de sua terra, de casa de seu pae, que a tinha muito
estimada e guardada, mais ainda do que a seu estado convinha; mas tudo,
pela sua formosura d'la, era bem empregado.

Era ensinada a livros de historias, pelo que era j ento sabida, e
depois, quando velha, o foi muito mais.

E, dizem que, chegando ambos  terra do mercador, por grandes
desventuras, o veio la a perder, ainda quando moa e formosa. Mas
ficando assim em terras estranhas, movida de compaixo, a me de Belisa
a recolhera para sua casa, d'onde ainda lhe estava ordenado este outro
desterro para a sua terra.

De como a levou le, e o la perdeu, se conta um grande conto.
Deix-lo-ei agora, porque tenho outro caminho tomado, ainda que, entre
os homens, todos os caminhos vo ter a fim de mulheres; mas, pois moraes
n'esta terra, outra hora nos veremos, e contarvo-lo-ei ento, se por
ventura vos ficar desejo de ouvi-lo.

--Ainda, senhora (me no pude eu ter que lhe no dissesse) que eu tinha
j posto em minha vontade nunca ter desejo nenhum, este quero eu
ter,--que tanto podem as cousas vossas comigo; e mais, pois  conto de
mulher, no pde deixar de ser triste. E, d'esta maneira, tambem em
parte no irei contra meu proposito; porque desejando ouvir tristezas,
no se pde isto verdadeiramente chamar desejo, que s o desejo deve vir
d'aquilo com que se haja de folgar. E, se tambem acontece o contrario,
ser porque tambem o desejo engana muitas vezes, como todos os outros
sentidos.

--Ns outras, tristes, (me tornou la ento) chamaremos logo a este
desejo desgosto; porque no se deve espantar ninguem de ver mudadas as
palavras ou o entendimento d'las, nas pessoas em que se mudaram tambem
muitas outras cousas, que no dissera nem cuidra ninguem que se podiam
mudar.

E tambem, filha e senhora, ainda que me vs vejaes assim, j em idade
em que as tristezas passadas no deviam ser-me causa de mais que de
haver tudo por nada, e julgar o presente pelo passado, e, emfim,
estim-lo assim; comtudo, tamanhas foram as causas que me fizeram
triste, que o sofrimento d'las, e o longo tempo, no me faz sentil-as
menos. Pensando n'isto, muitas vezes digo eu que no pde ser seno que
quando a fortuna ordenou desgostar-me, para que a vida no sobejasse 
dr, as compassou, parece, ambas assim, que no fosse uma maior que a
outra; e venho a entender n'isto que no se acrescenta mais a minha dr
que a vida. E perdoae-me ir-vos assim saltar a falar de mim, tendo ainda
por cumprir o que vos prometi. Que a sua dr traz a cada um assim.
Tambem os meus feitos: indo para fazer uma cousa, fao outra. E a mim,
muitas vezes, d'esta maneira, me sou eu mesma em vergonha.

--No podeis vs j, senhora, fazer cousa ante mim que haja mister
perdo de mim; antes, quanto mais vossas cousas lho, me vae parecendo
que no viestes aqui seno para vos eu ouvir; que, at agora, costumava
eu andar espantada, de mim para comigo, como podia durar tanto uma dr
depois d'acabada a causa d'la, e como a no gastava o tempo, como as
outras cousas todas que n'le ha! E, porque eu no via isto na minha
mgoa, tornava dando a culpa d'isto a outrem, porque, pela ventura, me
era forado tornar a dar a mim maior pena... Ou... que digo eu, pela
ventura?... E aqui, indo eu para dizer outra cousa mais, se me ps
diante o pouco conhecimento d'entre ns ambas, e calei-me,--assim como
que me no quisera calar. la, docemente, dissimulando porventura,
(segundo no fim de sua fala me pareceu) seguiu dizendo:

--Das culpas que alguem d a quem bem-quer, sempre lhe ficam as penas
d'las, e com razo; que vos no quereria eu a vs bem se vos eu o pior
desse: mas antes me espanto ainda de, quem quer bem, como pde culpar a
quem o quer; seno que, torno a dizer eu, que pdem fazer isto, pela
pena que lhes fica; que a la tomam les, como por vingana da fora que
se fazem n'isto a si mesmos. Tambem, senhora, fui moa como vs; culpei
j alguem contra minha vontade. Causa de grandes desgostos me foi,
muitas vezes, no me poder eu escusar a mim mesma s de culpar outrem.
Foram desvarios de amor. Ha isto n'le, como ha outras sem-razes
infindas, sofridas como le quis, que't n'este nosso sofrimento ps
tambem cousas que se no sofrem seno pela ventura!

E, a esta palavra, tirou os olhos de mim, como que queria dizer que no
me entendia, pois lh'o eu queria encobrir. E a mim, que me pareceu mau
ensino, a uma senhora, dona e triste, que me tanto dava de si, negar-lhe
parte de minhas tristezas, pois lh'as j d'antes quisera significar,
disse eu ento:

--Cuidae de mim, senhora, o que quiserdes; que, assim, me parece que
sois desgostosa; que esta maneira  melhor que todas para saberdes a
verdade da minha vida, que toda  uma longa queixa.

--Fazeis bem (me tornou la) que essa maneira  tambem a melhor para
vo-lo eu no ousar perguntar, que tambem afeioada vos sou j. E, pois
ha de ser tam triste, no na quero antes ouvir. Por isso, tornaremos ao
conto. Ele acabado, faro de ns as nossas tristezas  sua vontade, que
tambem se desejam contadas, como os prazeres. Mas, o conto, foi assim
como agora direi:




CAPITULO XVIII

Em que a ama d razo  donzela da cantiga de Bimnarder


Disse (se vos lembra) que uma s cantiga me lembrava, que dizia meu pae
que lhe ouvira a ama,--e foi d'esta maneira.

Comeava a cair a calma, e havia pedao que o pastor da flauta estava
assentado  beira d'este ribeiro, sobre um torro, olhando para a parte
contraria, d'onde a ama acertou por acaso de vir. Estava tangendo de
mansinho a flauta, para consigo.

Estando le n'isto, deixra-se vir um rebanho de vacas, correndo,
apressadas da mosca. Passando por le, se foram meter na goa at aos
peitos; e, deixando le ento de tanger, ficou como pensativo um pouco,
porm, sem tirar a flauta d'onde a d'antes tinha, como transportado.

Olhou para isto a ama, e quisera-lhe dizer que tangesse, que bem lhe
parecera d'antes. Mas, estando para lh'o dizer, comeou le ento a
tocar a flauta, docemente, de maneira que fez detena a ama.

Parecendo-lhe cousa triste, e mais que de pastor, deu-se toda a
ouvi-lo, seno quando le, depois de um pedao grande, soltou a flauta,
e comeou assim:

      P'ra todos houve 'hi remedio
      P'ra mim s no no houve ahi:
      Inda mal que o soube assi.

      Fogem as vacas p'ra a goa,
      Quando a mosca as vae seguir;
      Eu s, triste em minha mgoa,
      No tenho a d'onde fugir:
      D'aqui no me posso eu ir,
      Estar no me cumpre aqui,
      Que o que eu quero no o ha 'hi.

      Entretanto a calma dura,
      Tem esta fadiga o gado,
      A manhan pasce em verdura,
      A tarde em o seco prado;
      Dorme a noite sem cuidado,
      Pois tudo achou para si.
      Descanso, eu s o perdi.

      A mim, nem quando o Sol sae,
      Nem depois que se vae pr,
      Nem quando a calma mr cae,
      No me deixa a minha dr.
      Dr, e outra cousa maior,
      Convosco hoje amanheci,
      Convosco honte' anouteci.

      Crendo que assim findaria,
      Dei-me todo ao que padeo:
      Um dia leva outro dia,
      Por um mal, outro conheo.
      Se o fim responde ao comeo,
      Ai! quam mal que me provi,
      Que no comeo o fim vi!

      Se nasci p'ra meu mal vr,
      E no p'ra v-lo acabado,
      Melhor fra no nascer,
      Que vr-me desesperado.
      E, pois que n'este cuidado
      Me traz tam cego aps si,
      Inda mal que o soube assi!

Fim

      Entre lagrimas e prantos,
      Nasceu o meu pensamento.
      Cresceu, em tam pouco, tanto,
      Que  mais alto que o tormento!
      Passa o que passo ao que sento.
      Mal faz quem me esquece assim
      Que aps mim no ha outro mim.




CAPITULO XIX

De como conta a ama  senhora Aonia o que vira fazer ao pastor acabada a
cantiga


Em dizendo este derradeiro verso, parece que no podendo le j suster
as suas lagrimas, calou-se, como estorvado d'las; e, entendendo-o a
ama, pelo soltar da flauta, e tomar da aba do gabo para limpar-se,
tamanha paixo a comoveu que no pde ter as suas, l onde estava, e
sempre lhe falara, se no fra que vinham cham-la j de casa.

Foi forada a levantar-se la, e foi-se, ocupada toda a fantasia
d'aquele pastor, pois algum grande misterio lhe pareceu.

E como o que est ordenado de ser, logo traga asos consigo, entrando a
ama em casa, e topando Aonia s,  boa-f, sem mau engano, se ps a
contar-lhe tudo, e a jurar-lhe e tresjurar-lhe que no podia ser pastor.

E, porque j Aonia entendia a lingoagem d'esta terra muito bem, lhe
disse a ama a cantiga. E quando lhe veio a contar como o pastor, com
aquelas derradeiras palavras, deixara cair a flauta no cho, e com a aba
do gabo (que de burel era) se limpara das lagrimas que com las lhe
vieram; e, acabando de limpar-se, olhara para a aba, que com ambas as
mos tinha, e como (parece) lembrando-lhe do que la era, ou no sabia
porque, encostara o rosto a la, assim entre as mos, como estava; e,
aps um grande suspiro, se deixara estar assim, e assim ficara quando
la viera, que, pela chamarem n'este meio tempo se tornara tam triste
como havia muito tempo que o no fra por causa alheia... E
encheram-se-lhe  velha ama os olhos d'goa, em dizendo cousa alheia.
E assim se virou para outro lado, e foi-se fazer cousas de casa.

A senhora Aonia, (que ainda ento era donzela d'entre treze a quatorze
anos) sem saber que cousa era bem-querer, de umas lagrimas piedosas
regou as suas formosas faces, e, sobre las, os sentidos primeiros lhe
inclinou, tanto podem, algumas horas, as cousas ouvidas!

E, se no fra que era la moa, facilmente o entendra logo; mas, no
o entendendo, mil vezes n'aquele dia tornou a pedir  ama lhe dissesse,
ora a cantiga, e ora como estava o pastor.

E, por acerto, perguntando-lhe uma vez de que feies era, lhe disse a
ama:

--Eu j outras vezes o vi, de bom corpo, e de boa disposio; a barba
um pouco espessa e um pouco crescida que a le traz, parece que  aquela
a primeira ainda. Os olhos brancos, de um branco um pouco nublado; na
presena, logo se enxerga que alguma alta tristeza lhe sujeita o
corao.

Lembrou a Aonia s tornar-lhe a perguntar quando foram as outras vezes
que o vira.

Disse-lhe ento a ama que o pastor se vinha pr derredor d'aquelas
casas sempre, e s vezes se punha a falar com os oficiaes, e outras
andava defronte (na ribeira d'aquele rio) pastorando o seu gado. E este
era o pastor a que todos chamavam o da flauta, que conhecido era de
todos.

No o conhecia Aonia, porque nunca saira fra. Mas como ento logo ps
na sua vontade de olhar para le, e de buscar maneira para isso,
(tamanho d lhe fez ouvir d'le o seu canto) enganada assim d'aquela
falsa sombra de piedade, toda aquela noite seguinte no pde dormir. Mas
no que j fosse declarada consigo, nem debaixo d'aquele desejo
determinasse nada; porm, ardia em fogos de dentro de si.

E porque de todo o ponto se acabasse isto de confirmar de todo, ainda
bem no era manhan, saindo a ama da menina a uma varanda  maneira
d'eirado (que sobre uma parte das casas estava, e fra feita, logo no
comeo, para despejo) viu o pastor estar s, sobre a borda d'este rio,
no muito longe do lugar onde o la vira o dia antecedente,--que ali
estava o freixo onde se ele ps a primeira vez que saira da tenda, onde
tambem viu a sombra, como vos disse, e ali foi onde depois veio a
morrer.




CAPITULO XX

Da peleja que o touro do pastor teve com outro alheio e de como o matou;
a qual Aonia estava vendo do eirado


E como assim o viu, foi logo diz-lo a Aonia, correndo, tamanha pressa
dava j a fortuna ao desastre, ou era vinda a hora que se no podia
alongar. E, como lh'o houve dito, ocupou-se em negocios de casa.

Levantou-se Aonia, e deitando s uma roupa grande sobre si (que, em
camisa, estava ainda na cama) se foi ao eirado, e viu-o estar virado
para aquela mesma parte. Mas, vendo-se Aonia no eirado, e vendo-o,
lembrou-se logo de que ia toucada de um arrodilhado s, como se erguera;
e ou por no parecer que se erguera ento, ou j para no parecer mal,
lanou uma manga da camisa sobre a cabea, e se deixou estar assim.

E, n'isto, comearam as vacas, pascendo, a rode-lo n'aquele lugar onde
le estava, que era uma maneira d'outeiro pequeno.

Andando pascendo las, umas para c, e outras para l, deixou-se de
outra manada vir um touro grande e medonho, urrando, e lanando de
quando em quando a terra sobre as ancas; e, d'outras vezes, parecia que
a queria comer, meneando a cabea para uma e outra parte.

E, chegando s vacas, comeou tam feramente a pelejar com outro seu
egual, que espanto fazia a la, l onde segura estava d'les, no mais.

E, andando assim, comearam de se ir chegando, com grande peleja, para
o lugar onde le estava. Mas vendo la que no se mudava le, nem tirava
os olhos d'aquela parte onde olhava, antes parecia (segundo estava
segura) que os no via, seno que isto no era para crr; quando la, de
todo em todo, viu que os touros se iam chegando a le, ficou esmorecida;
e, tornando a si olhou. E, com o espao que se metia em meio,
tolhendo-lhe os touros a vista d'ele, parecendo-lhe que o tomavam
debaixo, caiu para o outro lado, como morta.

Vendo Bimnarder aquilo (que para outro lado no olhava) deu-lhe logo no
corao o que era; e ainda que le tivesse muitas razes para o duvidar,
ou no o haver por certo, (pois de sua vontade, Aonia, no era sabedora,
que le soubesse) comtudo creu; porque assim o quis o bem-querer grande;
que todas as cousas duvidosas fossem mais certas, ou por mais certas se
crssem.

E, cobrando fora da melancolia que houvera, pelo que suspeitou, com um
cajado grande que tinha na mo, atirou ao touro alheio, que j a melhor
do seu levava, e quis a sua dita que lhe quebrasse uma perna. E,
lanando-se rijo e acordadamente para ele, o levou por um dos cornos. E
como Bimnarder fosse de muito grandes foras, e com a ajuda do seu
touro, que por instinto natural conheceu o socorro (e lhe tambem
comeou, por sua maneira, a ajudar) prontamente deu com o outro em
terra; e virando-lhe a cabea para o ar, o deixou que se no pde bulir.

Viram isto todos os de casa, que ao estrondo grande, e urros dos
touros, acudiram; e foram todos espantados do esforo grande do pastor,
e no falavam de outra cousa.

A ama, que tambem o viu, foi-se em busca de Aonia, para lh'o contar;
mas, no a achando na camara, lembrou-se que estaria no eirado. Indo l,
a achou deitada.

Chegando-se a la, a viu como passada d'este mundo, e, dando um ai
grande, lanou a mo ao seu rosto; mas, ao brado, acordou Aonia, como
cansada.

E, parece, como trazia o pensamento ocupado do pastor, foi-se-lhe
afigurar o que receava, pois cuidou que o que fazia a ama seria com d
do pastor, que assim tambem chorava la quando lhe contava o que fizera
le o dia antecedente. E a primeira palavra que lhe disse foi:--E o
pastor?...

Descansou a ama com isto que lhe ouviu, parecendo-lhe que esmorecra
la por ver a afronta tamanha em que se pusera o pastor, como  costume
das mulheres.

Mas n'la era outra cousa maior, que estava ainda ha bem pouco tam
longe de poder ser como la de o poder ento cuidar.

Mas tudo j pde ser; ao longo tempo, no  nenhuma cousa nova.

Contou-lhe ento a velha ama tudo o que passara o pastor. E, tornada em
suas foras, se ergueu Aonia, e puseram-se ambas um pouco a olhar para o
touro, que no cho jazia.

Estava ahi muita gente, dos oficiaes da obra e de casa; e se no fra
pela vergonha que havia Aonia de a verem, que era em extremo bem
acostumada, no se fra la d'ali. Mas comtudo foi-se, j um pouco tam
declaradamente contra sua vontade, que o entendeu la; porm como era
aquele o primeiro cuidado, no lhe pareceu de todo o que foi, seno que
j consentia la a si mesma cuidar que, se le no fosse pastor, logo
lhe quereria bem.

Recolheu-se Aonia para a camara, a vestir-se; e, em se recolhendo,
acertou de vir de fra uma mulher de casa, que tambem, parece, saira a
ver a peleja dos touros; e, entrando na casa onde ficara a ama, comeou,
um pouco alto, a falar-lhe, dizendo:

--Quereis vs, senhora ama, saber?

Aqui, calou-se, como muito maravilhada.

A esta palavra, que Aonia ouviu, se ps a escutar detraz da
guarda-porta da camara.

--Qu! O pastor? lhe tornou a ama.

-- uma maravilha grande, lhe respondeu a mulher. Deveis saber (no sei
se vos lembra) que este pastor  um cavaleiro que n'aquela ante-manhan,
que a Deus prouve levar Belisa para si, chegou aqui e falou a Lamentor.
Eu me acertei de estar ento ahi, e o vi sair da tenda com os olhos
cheios da senhora Aonia, e d'agoa; e, todo o tempo que ahi estivera
d'antes, sempre a olhou de uma maneira como que no podia outra cousa
fazer, e que no desejava fazer outra cousa. Que vos hei de dizer?!
Verdadeiramente, me pareceu que se ia le ento como que lhe ficava ahi
o corao. E, por isto que entendi, sa logo aps le para ver onde ia;
e le foi-se sentar junto de um freixo grande que ali est, onde foi a
peleja dos touros. Eu no olhei mais o que le fizera, nem o tempo era
para isto disposto, seno agora, que fui ver aquilo que le fez; e, em
lhe pondo os olhos, deu-me logo a sombra d'le, e tomei isto por mais
misterio; porque, quando ento, estava eu bem fra de cuidar n'le; por
esta imaginao subita que me veio, tornei a atentar mais n'le, e vi
que no podia tirar os olhos de c. E, quando vs vos fostes do eirado,
ficou triste, mais que d'antes. Quanto a mim, bastou aquilo para
confirmar a minha presuno; porque le era aquele, como Deus  Deus!

Era esta mulher um poucochinho lingoareira; porm, era avisada, se o
alguem era. Mas, pelo outro defeito que tinha, quis-se a ama encobrir
d'la; e, posto que aquilo tudo logo se lhe assentasse na alma, para o
desfazer, disse-lhe que se fosse d'ali; que la conhecia aquele pastor,
e, por lhe ver um dia tanger uma flauta bem, perguntra por le, e
disseram-lhe que era filho do maioral de uma grande manada de vacas e
gado que n'este vale anda.

E assim se despediu d'la; porm, a velha ama ficou crendo, por que bem
sabia la que os acertos em todas as cousas podiam muito, e no
querer-bem mais que em todas las.




CAPITULO XXI

De que maneira Bimnarder se viu com Aonia


Aonia, que estava escutando, ouviu toda esta pratica; e, comquanto a
ama contradissera a outra, la o creu. E no fra isto nada, seno que,
aps a crena, foram todas as outras cousas que as crenas, n'estes
casos, costumam trazer aps si; que logo teve desejos, pensando em
querer-bem; e j no havia dia nem hora que le fosse certo de sua
vontade para que se no apartasse d'ali por algum desastre, que la
comeou a recear,--porque o verdadeiro bem-querer no pde estar muito
tempo sem receios.

Vdes aqui como se namorou esta donzela de Bimnarder, que pareceu cousa
feita de acinte; porque ambos se comearam a querer-bem sob uma sombra
de piedade; e como haviam de acabar ambos de uma mesma
maneira,--comearam assim tambem, ambos de dous, de uma!

Aonia, logo que se determinou consigo, no pde mais descansar.

E como le tivesse por costume vir sempre por derredor d'aqueles paos
(que sumptuosos se faziam,  maravilha), por uma fresta alta, que na
camara onde la dormia fra feita s para o lume, se subiu Aonia,
sabendo que le andava ahi.

E, como o viu, com os desejos que tinha de o ver, e com o que consigo
tinha assentado, pareceu-lhe no tam s assim como le era, mas como la
queria que fosse.

Depois de o la estar olhando um pouco, bem  sua vontade, porque le,
ainda que contra a fresta com o rosto acertasse ento de estar, acertou
tambem de estar olhando para o cho, pensativo como costumava, teve la
tempo para o ver bem. Mas, depois de um pedao bom, no suportando no
ser vista por le, fez que falava com alguma pessoa de casa.

A isto, olhou Bimnarder, e, conhecendo-a, transportou-se, e lhe caiu o
cajado no cho.

Levou Aonia contentamento d'aquele desacordo, que bem o viu. E esteve
assim mais um pouco; mas no pde tanto forar-se que a vergonha natural
de donzela (ainda tam moa, e tam guardada, como la era) no pudesse
mais que o seu desejo, e tirou-se depressa da fresta.

Porm, no estando ainda bem em baixo, tornou a espreitar se se fra
le, e tornou-se logo a tirar.

Tambem quisera la tornar outra vez e outras, mas no pde tantas vezes
decidir-se a fazer o que no devia.

Veio a noite n'aquele dia mais cedo, para Aonia, do que nunca outra
viera. Deus sabe como la aquela tarde passou! Mas no quero aqui contar
muitas cousas, que, por querer-bem, se fazem de maneira que se no podem
dizer. A velha e honrada ama, que, com o que suspeitou, entendeu o
desassocego de Aonia, que diferente foi logo para quem atentasse n'isso,
andava triste, e desgostosa, em parte de si, pelo que lhe contara d'le.
E, por isso, o sentia muito mais, e quela ceia no pde comer.

Mas, recolhidas que las foram quela camara da fresta, onde dormiam, e
pondo-se a ama a tratar da menina que creava, como costumava,--como
pessoa agastada de alguma nova dr, e quis tornar s cantigas; e comeou
la ento, para a menina que estava tratando, a cantar-lhe um cantar 
maneira de solau; que era o que, nas cousas tristes, se costumava cantar
n'estas partes, e dizia assim:


ROMANCE

      Pensando-vos estou, filha;
      Vossa me me est lembrando:
      Enchem-se-me os olhos d'agoa...
      N'la vos estou lavando.

      Nascestes, filha, entre mgoa.
      Para bem inda vos seja,
      Pois em vosso nascimento
      Fortuna vos houve inveja.

      Morto era o contentamento,
      Nenhuma alegria ouvistes;
      Vossa me era finada,
      Ns outros eramos tristes.

      Nada em dr, em dr creada,
      No sei onde isto ha de ir ter...
      Vejo-vos, filha, formosa,
      Com olhos verdes crescer.

      No era esta graa vossa
      Para nascer em desterro.
      Mal haja a desaventura
      Que ps mais n'isto que o erro!

      Tinha aqui a sepultura
      Vossa me, e mgoa--ns;
      No ereis vs, filha, no,
      Para morrerem por vs.

      No ouvem fados razo,
      Nem se consentem rogar;
      De vosso pae hei mr d,
      Que de si se ha de queixar.

      Eu vos ouvi a vs, s,
      Primeiro que outrem ninguem;
      No foreis vs, se eu no fra;
      No sei se fiz mal, se bem!

      Mas no pde ser, senhora,
      Para mal nenhum nascerdes,
      Com esse riso gracioso
      Que tendes sob olhos verdes.

      Conforto mais duvidoso
      Me  este que tomo assi;
      Deus vos d melhor ventura
      Do que tivestes 't aqui!

      A Dita e a Formosura,
      Dizem patranhas antigas,
      Que pelejaram um dia,
      Sendo d'antes muito amigas.

      Muitos ho que  fantasia;
      Eu que vi tempos e anos
      Nenhuma cousa duvido,
      Que tudo  sujeito a danos.

      Mas nenhum mal no  crido;
      O bem s  esperado?
      E na crena, e na esperana,
      Em ambas ha 'hi cuidado,
      Em ambas ha 'hi mudana!




CAPITULO XXII

De como Bimnarder, estando na fresta da camara de Aonia, se ps devagar
a ouvir a ama


O pastor da flauta (que no era pastor) teve n'aquela noite maneira de,
com um pau que colheu, arribar  fresta; e j estava n'la quando
comeara o solau.

Bem conheceu na limpeza das palavras, e na pronunciao d'las, que a
ama era natural d'esta terra, e avisada; por onde logo receou que, se
no tivesse n'la ajuda, teria grande estorvo.

Encomendou-se  sua sorte.

Acabou a ama de tratar da creana, que no foi tratada sem muitas
lagrimas d'ambas, d'la e de Aonia, que penteando-se esteve entretanto,
segundo sentiu Bimnarder,--que le nada de dentro podia bem divisar,
pelo impedimento de um pano que diante da fresta estava, para amparo
d'la.

Acabada a menina de tratar; apagando o lume, se deitaram las; e,
porque a ama tinha sua suspeita, fez que dormia, para espreitar a Aonia;
e Aonia, porque tinha seu cuidado, no podia dormir, e ora se revolvia
para uma parte, e ora para outra; e outras vezes, aps um socego de um
pouco, (colhendo folego) dava um baixo suspiro longo,  maneira de
cansada d'aquilo que acabara de pensar.

Esteve tudo a ama notando por um grande pedao.

E j Bimnarder estava para descer, cuidando que era outrem a que fazia
aquilo, seno quando a ama comeou assim a falar para a senhora Aonia:




CAPITULO XXIII

Do singular conselho que deu a ama  senhora Aonia pelo que suspeitou
dos seus amores


No dormis, senhora Aonia? E que ser, senhora, se no podeis dormir?
Parecendo-me vae que esta nossa vinda aqui para desastres foi, e no
mais; mas assim de longe os ordena a ventura, que logo ao comeo se no
podem conhecer.

Mal cuidara eu o que havia de acontecer  senhora Belisa, quando,
aquela noite, depois de dormirem todos, nos levantamos ns ss,
caladamente, e pelo laranjal do jardim (que com a espessura do arvoredo
fazia ento mais escuro) passmos cheias de medo, e vs pegada a mim,
toda tremendo, fomos sair pela portinha falsa que acol, no mais escuro
lugar d'le, estava, onde achmos a Lamentor aguardando-nos j havia
pedao, todo cheio de esperanas tam longas que, emfim, haviam de vir a
ser, assim, esperanas, no mais!

Por isso, cumpre a todas as pessoas (e s donas, senhora, muito mais
cumpre, pois so as que aventuram mais) que, ao principio das cousas,
olhem onde las podem ir parar; que no ha nenhuma tamanha, que no
comeo d'la, se lhe no possa resistir, ou deixar sem trabalho; que
muitos rios grandes ha ahi que, onde nascem, se podem impedir com um p,
ou levar para outro ponto; e no meio d'les, ou depois que colhem
foras, todo o mundo junto os no poder tolher ou mudar. Chama uma agoa
a outras agoas, e um erro a muitos erros... Em pequeno espao, crescem
de maneira que se no podem depois deixar!

Gravemente, e com muita prudencia, devia cada um cuidar se o que faz,
ou o que determina fazer,  cousa honesta e que convenha; que, se lhe
sae bem, todos lh'o teem a bem, e se no, ainda que o mundo lh'o tenha a
mal (o que muitas vezes acontece, porque, mal-pecado, j as cousas no
so julgadas seno pelas saidas d'elas) no tem ao menos de que se
queixar consigo.

E grande bem , a meu ver, excusar a pessoa as inimizades entre si,
pois no ha lugar c n'este mundo que defenda a ninguem de si mesmo.

Pode-se tolher inimigo e inimiga, frio e chuva; cuidado, pode-se tomar,
e tolher--no.

J quem faz o que deve, saindo-lhe como no deve, no quero afirmar que
lhe no dar paixo; que a perda de qualquer proposito (ainda que seja
desarrazoado) a d. Mas, assim, digo que se lhe der paixo, dar-lhe-
sofrimento para la.

Bem-aventurado se pde chamar, n'esta vida, quem tem dr que se
suporte; pois, segundo parece, no se pde viver sem la, assim como
assim.

Nos amores cuidar alguem que no  isto necessario, e que no 
costumado; cuido eu que no poder ser mais necessario. Em todas as
cousas se deve haver respeito ao como e ao quando, e ao porque ou para
que se fazem, para se no errarem. Maiormente se deve ter este respeito
nos amores, pois so to sujeitos aos erros, que mais mal contado seria,
ao caminhante rico, se fosse desprevenido pelo lugar que de ladres 
seguido, que por outro que o no fosse; porque n'este, se lhe
acontecesse algum desastre, culparia a ventura; mas n'aquel'outro
culparia a si, que so culpas mais graves de perdoar.

Por isso, senhora, vos peo que aprendaes de mim, que vi culpas, e os
danos d'las, porque assim como toda a pessoa, no bem,  mais amiga de
si que d'outrem, assim tambem no mal (quando acontece que haja algum
desvario consigo)  mais inimiga de si que de ninguem.

E isto no  para espantar, porque  inimigo de casa, como dizem.

Ainda mal, muitas vezes, que me foi necessario que vo-lo dissesse,
porque o soube para vo-lo dizer!

Quereis antes, senhora, no ser contente que arrependida.

E aqui, fazendo a ama uma pausa, no para acabar, mas sim para
descansar (que vontade tinha j de lhe dizer tudo) sentiu dormir Aonia.

E, cuidando que fosse fingido, esteve um pedao espreitando-a, e, por
derradeiro, pondo-lhe a mo, e bulindo-a, se certificou que dormia.
Parece que, cansada do trabalho no acostumado, adormeceu. la era moa,
e nunca se vira n'outra...

A ama, ainda que isto lhe fizesse duvidar do passado comtudo, pelo que
passara j por la, pareceu-lhe o que era, porque no ha cousa que traga
mais certo o sno s moas que a dr grande: e s velhas tira-lh'o.

E com esta fantasia, em que a ama se afirmou, adormeceu tambem.




CAPITULO XXIV

Em que se conta o mais que a ama passou com a senhora Aonia cerca de
Bimnarder


Bimnarder, que todo aquele tempo passou como Deus sabe, vendo que assim
se calavam, no soube que determinar; porque to magoado ficou das
palavras da ama, pelo dano que temeu de lhe fazerem, que se lhe turvou o
juizo, e no soube dar saida nenhuma quele calar.

E assim enleado, cerca do que seria, esteve at que a manhan o levou
d'ali, bem contra sua vontade; porm, no se pde ir para longe d'ali.

Da mgoa d'le, no vos quero contar. Era homem; poderia com la. Mas
da coitada da Aonia (a quem as boas palavras da ama no aproveitaram
mais que para se guardar d'la) vos contarei:

Ergueram-se pela manhan, e, posto que a ama tentasse Aonia, dizendo-lhe
se ouvira a noite passada o que lhe la contara, la dissimulou
altamente. Pela sua idade, e pelo amor de creao que lhe a ama tinha,
creu logo de todo, e pelo socego de Aonia, feito por acinte, o acabou de
confirmar, e houve o passado por nada. Pareceu-lhe que seria o
desassocego de moas: que s vezes, por mocidade, fazem cousas que no
fariam em outra idade, ainda que n'isso fosse todo o seu desejo.

Assentando a ama n'isto, meteu-se na ocupao de casa (que era grande)
porque sobre la carregava tudo; pelo que a Aonia ficou lugar e tempo
que bastava para pensar mais  sua vontade, e para fazer com que
Bimnarder fosse certo d'la.

Pondo cofres sobre cofres, fechando a porta da camara primeiro,
dissimulando fazer alguma cousa, se subiu  fresta. E, ainda bem no era
n'la, viu Bimnarder, que no estava longe d'ali, nem tam perto que a
conhecesse logo: pelo que se deixou estar um pouco, para se afirmar
melhor.

la, que no suportou j aquela tardana, lanando uma manga da camisa
fra da fresta, fez que o chamava.

Chegou le com presteza, e, vendo-a, ficou assim sem lhe poder dizer
nada. Mas Aonia, que estava j determinada consigo, ousou falar-lhe
primeiro, mas no o que la quisera, porque no pde a tanto decidir-se.

E, mudando o proposito n'aquilo que se acertou, lhe disse:

--Aqui andaes, pastor, cada dia, sempre!

--Essa fresta, lhe respondeu le, no est ahi, senhora, de noite
tambem?

Aonia, que o entendeu, muito de manso lhe tornou:

--Est, ajudando a palavra com o abaixar dos olhos, que de todo ento,
ao dizer d'aquilo, ps n'le.

E no na entendera Bimnarder, se no fra por isso, mas no lhe tornou
le resposta. la, n'isto, desceu-se, porque se lhe afigurou que buliam
na porta da camara; e, tornando os cofres a seu lugar, se foi abri-la,
e, no achando ninguem, quisera tornar para a fresta, seno quando,
n'isto, eis vem a ama com outras mulheres de casa.

De maneira que todo aquele dia, no teve outro tempo mas logo,
n'aquelas palavras que lhe o pastor dissera, entendeu que eram para que
tambem olhasse de noite para le. E, com esta esperana que se deu a si
mesma, passou aquele dia, que tambem Bimnarder passou com sua esperana,
que tomou d'aquela palavra derradeira que lhe la falou, com os olhos
mais que com outra cousa!

Mas no cuidara le, me parece a mim (dizia meu pae), que havia de ser
para tanto como lhe saiu, pelo pouco que entre ambos era passado.

Porm, por isso estava mais certo, me tornou a mim a parecer, (dizia
meu pae) porque como a ventura venha mais em todas as cousas que tudo,
quem s a tiver no ha mister de mais.




CAPITULO XXV

De como Bimnarder, pela fresta do aposento de Aonia, lhe falou


Como aconteceu a Bimnarder que, vindo a noite, pondo-se  fresta, como
as passadas fizera, sentiu-as deitar, e, d'ahi a um grande pedao, j
quando estava desesperado, ouviu pela casa andar de mansinho, e prem
alguma cousa contra a fresta.

Estando com o sentido pronto, n'isto sentiu que subia alguem, e no
crendo que fosse tanto (como acontece na vista das cousas muito
desejadas, e esperadas muito), antes receando que fosse algum desastre,
abaixou-se prestes, e deixou-se estar ao p da fresta.

Aonia levantou o pano, e, com o escuro que fazia, no viu ninguem.

Comtudo, deixou-se assim estar um pouco e, no sentindo nada, duvidou
de todo, e, indo para descer, disse:

--Parece que foram s palavras!

Conheceu-a, na fala, Bimnarder. Dizendo:

--No foram, nem sero, subiu depressa  fresta.

E la tambem o conheceu, e subindo, chegando le, e querendo-lhe falar,
disse la muito devagarinho:

--Que me perdoeis!

N'isto, comeou a chorar a menina, e, acordando, a ama se ps a
embal-la, cantando-lhe; mas, no se querendo la acalentar, se ergueu a
ama, dizendo:

--No sei se acharei lume, que esta criana sente alguma cousa.

E, desde que abriu a porta da camara, se foi  outra casa das mulheres,
a procurar lume.

Aonia, que viu no haver remedio, querendo-se, depressa descer, chegou
o rosto muito  fresta dizendo:

--Ide-vos embora, que no pde ser mais.

--De vs, lhe respondeu le, me no posso eu ir assim. E isto,
tremendo-lhe a fala.

E la, que houve d d'le, querendo soltar o pano, amparo da fresta,
no se pde ter que lhe no desse de si alguma presena, e disse-lhe:

--Pelo que fiz por vs, julgae o que tinha para vos dizer; e perdoae-me
(que vos no posso pagar em mais) o soltar d'este pano.

E assim o soltou, descendo-se muito depressa, e concertando tudo.

Quando tornou a ama, j a achou deitada.




CAPITULO XXVI

De como Bimnarder, estando na fresta de Aonia, adormeceu, e se lhe
foram, por sonho, os ps, e caiu


Deixou-se Bimnarder ficar  fresta, e ali esteve at pela manhan, que
tam ocupado lhe ficou o pensamento d'aquelas palavras que lhe Aonia
dissera, em se indo, e da maneira como lh'as dissera, que uma cousa e
outra no lhe dava a mais vagar, nem tam s para se lembrar de fugir ao
tempo.

Mas como le no tivesse a noite antecedente dormido, nem o dia que se
seguiu, ento, como descansado de alguma parte de seus cuidados,
adormeceu, no j por os ter menos, mas como acontece a quem traz alguma
cousa que muito deseja, e anda, entretanto aquele desejo o traz, sem
poder repousar, mas, depois que alguma segurana lhe vem de o ter
cumprido, repousa e dorme, como se o alcanra.

E no podemos dizer que seja ento menor o desejo, que antes, com
razo, deve ser maior.

Assim foi Bimnarder, que, parte de cansado, e parte de contente,
transportou-se, parece, tanto em seu cuidado, que se lhe foram, por
sonhos, os ps e as mos, e caiu no cho, com o pau aps si.

E, ao cair, lavou toda em sangue aquela parte do seu rosto, que
d'aquela banda da parede parece que levou; de que muitos dias esteve mal
depois.

Mas nenhumas cousas grandes se acabaram seno por meio de grandes
desastres como aqui vereis; porque esta queda foi causa de Bimnarder ver
o que, pela ventura, nunca vira.




CAPITULO XXVII

De como a ama, sentindo de noite o estrondo da queda, o que sobre isto
fez quando foi manhan


Mais diz o conto que a ama (que a menina no a deixra mais dormir)
sentiu todo aquele estrondo. E Aonia, que no dormia, tambem o ouviu, e
cuidou logo o que temeu; porm, dissimulou grandemente, porque j se
guardava da ama.

Mas la, que j tambem estava descuidada de Aonia, foi suspeitar outra
cousa: que seria alguem d'aquelas obras, porque muita gente andava ahi,
e, porventura, viria espreitar por aquele lugar o que las de noite
faziam, que bem sabia la que os homens tudo ousavam fazer de noite.

E, ainda bem no foi manhan, foi derredor da casa, e achou sinaes por
onde confirmou sua suspeita; e logo mandou tapar a fresta a pedra e cal,
contando tudo, da maneira que o la cuidou, primeiro a Aonia, que lh'o
ouviu com tamanha mgoa, que mr trabalho cuido eu que levaria em lh'a
encobrir que em a sofrer consigo: porque o sofrer faz-se por vontade, e
a outra cousa contra la.

Mas, este remedio tolhido a Aonia, deu-lhe causa para buscar outro
maior; e chamando a uma mulher de casa, que Enis se chamava, avisada, e
de quem se podiam bem fiar grandes cousas, e assegurada no segredo,
pelas melhores maneiras que pde, contando-lhe seu corao, lhe disse
que fosse ver se andava pela ribeira d'aquele rio o pastor da flauta; e,
se o no visse, que preguntasse a algum outro pastor por le.

Fel-o la assim; e soube que jazia doente em um monte perto d'ali, onde
morava a mulher e filhos do maioral do rebanho em que le andava. E,
tomando la em sua companhia um homem de casa, determinou ir l, porque
tamanha vontade conhecia em Aonia, que no pde fazer menos.

Chegou depressa ao monte; e preguntando pelo pastor da flauta, lh'o
foram mostrar l, em uma casa de palhoa, por detraz das outras, onde
le estava. E ficando les ss, que assim buscou la maneira, lhe
descobriu inteiramente ao que ia.

Bimnarder, que logo a creu, porque era mulher, sobre a cabeceira onde
pobremente estava encostado, se lhe deixaram cair umas ralas lagrimas,
causadas d'entre contentamento e muita dr,--que de ambas as duas
costumam las s vezes vir, as quaes fizeram certa a Enis do grande bem
que le a Aonia queria; e no lhe esqueceu contar-lh'o la depois.

Ali estiveram ambos um grande espao de tempo, e Bimnarder contando-lhe
tudo do comeo; e detiveram-se tanto que foram suspeitando mal da
tardana, se fra em outro lugar; mas a vida do monte no cria
suspeitas, como no cria de quem se suspeite mal.

Mas, comtudo, detiveram-se ainda ambos n'esta pratica menos do que
ambos quiseram, por causa do homem que Enis trouxera.

Tornada la onde Aonia estava, lhe contou tudo, cousa por cousa, que
no ficou nada por contar.




CAPITULO XXVIII

De como, estando da queda Bimnarder muito doente, Aonia buscou maneira
por onde o fosse visitar


Veio assim, por acerto, que perto d'ali havia uma ermida de uma santa
de grande romagem, e era ento, no outro dia, a vespera do seu dia; e a
ama e as mulheres de casa ordenaram ir l.

Havida licena de Lamentor para Aonia, e postos a caminho, (que a p
podiam bem andar) ao passar pelo monte, se chegou Enis a Aonia, e
disse-lhe que ali era, porque iam j concertadas.

N'isto, fez Aonia que cansava. A ama disse logo que repousasse um
pouco. Mas, d'esta vez, no teve la maneira para ir aonde Bimnarder
estava. Foi l Enis.

De tornada, fizeram ali grande detena. Buscando achaque de querer l
ir para detraz das casas, levando Enis consigo, houve tempo para Aonia
entrar onde le estava ento deitado, contra a outra parte da parede,
chorando, porque no vira Aonia ao passar, que bem se pudera le erguer.
E como isto perdra, cuidava tambem que havia de perder a tornada;
porque um mal nunca lhe viera sem outro, pelo que estava no maior pranto
do mundo para consigo.

Entrada Aonia, deteve-se um pouco, e sentiu que le chorava, e
suspirava baixo, de maneira que como, n'aquilo, se forava a si mesmo.

la, para vr se poderia saber o porqu, que tudo desejava saber d'le,
deteve-se ainda mais: mas le com pensamentos muitos, que sobrevinham ao
choro, mais o acrescentava do que o diminuia.

Assentando-se ento Aonia na borda d'aquela sua pobre cama, lhe ps a
mo, e quisera-lhe dizer alguma cousa, mas no pde, que lhe faleceu o
espirito.

Virando-se Bimnarder, e vendo-a, tambem lhe faleceu o seu.

Estiveram assim ambos um grande pedao sem se dizerem nada um ao outro:
e le com os olhos postos em Aonia, e Aonia postos os seus no cho,
porque, em se virando Bimnarder, tomou vergonha. Levando-os assim 
terra, cobriu-se-lhe o seu formoso rosto de um tanto de cr, alem da
natural; e costumava dizer meu pae (porque parte d'esta historia em seu
tempo se soubera) que no parecia seno que viera aquela cr como para
ajudar ainda mais Aonia contra Bimnarder, tam formosa a la, formosa,
fizera.

Mas, estando assim n'isto les ambos, e no estando les ambos ali,
chegou Enis muito de rijo  porta, dizendo que se queriam j ir, e que a
mandavam chamar.

Assim, foi foroso levantar-se Aonia, e ir-se, e Bimnarder vr tudo, e
ficar.

Mas Aonia, que bem via os olhos de Bimnarder como ficavam, tomou uma
manga de sua camisa, e, rompendo-a, para remedio de suas lagrimas lh'a
deu, significando, na maneira s como lh'a deu o para que lh'a dava;
pois parece que a dr grande que sentia no lh'o deixou dizer por
palavras; mas, em lh'a dando, ps os olhos nos seus, dizendo-lhe s
assim:

--Pesa-me, pois a minha ventura, ou desventura, no quis que vos eu
deixasse de magoar com o que eu no quisera.

E estas palavras lhe disse j fra da porta.

E com las, e com o que sentiu ao dizer d'las, duas a duas, lhe
comearam as lagrimas a correr dos seus formosos olhos, e pelas suas
faces formosas abaixo lhe iam fazendo carreiras por onde iam, que
Bimnarder a tanto pranto convidou quanto era a razo d'le, pois perdia
a vista.

Foi tanto o choro, que no lhe bastavam os seus olhos s suas lagrimas,
pelo que lhe no pde ento dizer nada. Mas Enis, apressando Aonia com a
fala, e com as mos, quasi puxando-a, e levando-a j, virou-se para le
Aonia, dizendo:

--Levam-me!

E, deixando-se ficar toda com os olhos, se foi assim, enlevada, at
que, com a parede das outras casas, passou alem.

Apartada que la foi de Bimnarder, le no se pde ter que pela outra
banda da sua casa se no saisse para aquela parte d'onde se podia ver o
caminho que las levavam; e ali esteve olhando, entretanto a terra lhes
deu lugar, e depois, um grande pedao, em quanto poderiam bem chegar a
casa; pois, parece, folgam tambem os olhos com a presuno, e descansam
em olhar para aquela parte onde est, ou vae, aquilo que podiam ver, se
no fra a fraqueza d'les, ou o impedimento d'alguma cousa.

Mas como lhe pareceu que estaria j em casa, lembrou-se logo do lugar
onde la estivera na sua cama assentada, e com grande pressa se tornou
para l.

E, entrando, foi-se ali pr, onde la estivera d'antes.

Consigo estava fantasiando a Aonia; ora lembrando-lhe como aquilo
fizera, ora como aquel'outro.

Depois, tomando aquela parte da manga, que lhe deixra, se punha a
chorar com la, de mistura com palavras tristes, como que as houvesse
la de entender.

N'isto passou aquela doena, em que grandemente foi visitado por Enis;
e sarou depressa.

E, d'aqui at que lhe aconteceu a desventura que vos contarei, se
passaram tempos e outras infindas cousas; porque os paos de Lamentor
acabaram-se, e pelo apartamento do lugar onde les estavam, Aonia e a
ama, com outras mulheres de casa, iam passar tempo  ribeira d'este rio,
onde Bimnarder sempre andava.

Mas nenhuma cousa ha n'este mundo em que se deva ninguem muito fiar;
que aquela grande segurana em que Bimnarder estava, em lugar tam ermo,
lhe no pde durar, como agora vereis.




CAPITULO XXIX

De como Lamentor casou Aonia com o filho de um cavaleiro seu comarco, e
do que Enis aconselhou a Aonia que fizesse


E foi assim que a donzela, por quem morreu o cavaleiro da ponte, (como
vos hei contado) veio tristemente a acabar por aso da irman viuva que o
levou nas andas.

E sucedeu no castelo um filho de um cavaleiro muito valido e rico
n'esta terra, que, por meio de visinhos, desejou a Aonia para mulher, o
que foi depressa acabado, pela igualdade d'ambos n'aquilo em que a
quiseram aqueles em que estava o _praz-me_ do casamento.

Mas, pelo luto de Lamentor, e pelo apartamento de sua vida, no o soube
Aonia seno no dia antecedente quele em que a haviam de levar para o
castelo,--que em sua casa no queria Lamentor ver prazeres, e bem lhe
pareceu que se no desconcertaria Aonia do esposo; porque era bem posto
cavaleiro, e, dos bens do mundo, abastado; e por isso tambem escusava
dizer-lh'o ento. Mas no foi assim; que Aonia toda aquela noite passou
em um grito.

Se no fra Enis, que do seu segredo era sabedora, morrra ou se fra
por esse mundo; mas la a consolou, e, com muitas esperanas que lhe
deu, no tam smente a susteve, que no fizesse de si nada, mas antes
ainda lhe fez ser contente d'aquela vida e desej-la; porque lhe dizia
que, como os casamentos ocupavam aos homens, poderia la ter a liberdade
que quisesse; e, com resguardo, faria o que de sua vontade fosse, o que
no poderia fazer na casa onde estava.

Este conselho foi tomado sem Bimnarder saber, porque a brevidade do
tempo no deu lugar para isso; mas concertaram-se ambas que ficasse Enis
para lh'o dizer ao outro dia, e, depois, mandaria por la, porque logo
determinou pedi-la a Lamentor.

E veio aquele outro dia; e, como Bimnarder no guardasse outro gado,
ainda bem no era manhan, j le andava pela ribeira d'este rio; e viu
vir muita gente a cavalo, e passar a ponte dirigindo-se para os paos de
Lamentor.

Mas no teve ento a quem preguntar o que seria aquilo.

Comtudo, no se tirou d'ali, porque logo se lhe revolveu o pensamento,
e inclinou a vontade a quer-lo saber; que, pela maior parte, o que ha
de ser, d primeiro sempre na alma; e se andassemos de sobre-aviso
facilmente entenderiamos tudo, ou parte, do que nos est para vir.




CAPITULO XXX

De como Fileno, o marido de Aonia, desejoso de a ter em seu poder, a
levou de casa de Lamentor muito acompanhada


Descidos os de cavalo, estiveram por grande espao com Lamentor; e,
depois, comearam saindo uns atraz dos outros, fazendo maneiras de
prazer.

E, n'isto, viu Bimnarder donas a cavalo, e viu o fio da gente
encaminhar-se para a ponte; pelo que teve ensejo de preguntar a um pagem
que cousa era aquela.

Disse-lh'o le, seguindo seu caminho; mas Bimnarder no o acabou de
crer, tamanho abalo fez no seu cuidado.

Porm, olhando, viu a Aonia, e com la, da parte esquerda, o seu
esposo, que conhecido ia nos trajos e na comunicao da pratica que
entre ambos levavam; porque tudo, como derradeira cousa, olhava
Bimnarder, e muito bem viu!

E Aonia nunca se virou para aquela sua banda, que continuada sempre
d'la era; mas antes, porque ia inclinada para aquela parte onde o
esposo ia, pareceu-lhe a le que o ia muito mais do que la ainda ia, e
que o fazia por acinte. E isto  natural, pois quando uma pessoa vos cae
n'um erro, todas as cousas, que depois faz, tomais  pior parte, como
aqui aconteceu.

Ficou Bimnarder tam maguado que d'ahi a mais de uma hora no cuidou de
nada. E, ao cabo d'la, virando-se para outra parte, se foi; e no no
viram mais.

N'aquele dia  tarde, veio Enis busc-lo; e, no no achando, preguntou
por le; e disse-lhe outro pastor (que por acaso acertra ento de estar
perto d'le, olhando tambem a gente) que, depois d'la passada, estivera
le um grande pedao sem se mudar do lugar d'onde estava e sem tirar os
olhos do cho, como homem pensativo, em sua maneira. E tanto que le
mesmo olhra para isso, e quisera-lhe falar, seno quando le, n'isto,
virra para outro lado, e, pela ribeira, dando a andar apressadamente,
desaparecra, e nunca mais o vira. E j le mesmo fra ao monte de seu
amo preguntar por le, para que viesse pastorear seu gado, que andava
desmandado, e no o acharam; e que, do monte, tambem o foram buscar por
todo este mato, e pareceu a todos que seria ido, porque le nunca tal
costumou; e j outrem andava com o seu gado.

Ficou Enis toda fra de si; e logo cuidou que lhe no cumpria ir ver
Aonia, nem viver com la, pois saira tam mal o seu conselho.

E, tornada para casa, ordenou dilatar a sua ida por alguns dias, para
ver se sabia novas de Bimnarder.

Entretanto, no sabendo nenhumas, e apressando-a Aonia para que lh'as
levasse, determinou, comtudo, ir; porque, por outra via, cuidou para
consigo que com pouco trabalho se lhe tiraria por ento Bimnarder do
pensamento; que os casamentos,  primeira vista, parecem outra cousa; e
senhoras, que d'antes foram presas de amor, logo aos primeiros dias
esqueceram todo o passado; mas depois, por cousas e desgostos, que
nascem da culpa do longo tempo, ou conversao que traz menospreso,
tornaram muitas vezes s lembranas do primeiro.

Porque n'isto, que Enis consigo cuidou, quis obedecer a Lamentor, que
j, a pedido de Aonia, mandava que a levassem.

Que vos hei de dizer?

Ainda bem no chegavam, afastou-se Aonia com la, mas, sabido o que se
passava, chorou muitas lagrimas e maldisse o dia em que nascera.

Enis, que era avisada, e via que, pois o mal no se podia curar, se
devia dilatar, lhe fez uma fala d'esta maneira:

--Deixemos, senhora, o pranto, que d'le no se vos podem seguir seno
dous males muito grandes. Um,  que mataes a vs com o choro; e quando,
porventura, vier Bimnarder, no vos quereria achar assim, e ser esta
ento maior ofensa para le; porque est'outra tem desculpa, e esta no a
ter para le, seno se lhe quiserdes dizer que desconfiaveis d'le, que
monta tanto como cuidardes d'le mal. Ora vede l, senhora, convosco, se
podereis dar a culpa a quem quereis tamanho bem! Pois, afra isto,
tendes ainda outro mal: que correis risco de se saberem vossos prantos,
e, como les sejam tomados em tempo de bodas, no se poder deixar de
suspeitar d'eles mal. E, por aqui, tolher-se-vos-, porventura, o que
pde ser em algum tempo, o que eu espero; porque as lagrimas de
Bimnarder no podiam ser sem vos le querer muito grande bem, que lhe
no doesse muito o que fizestes; e no lhe pde doer muito o que
fizestes que, n'algum tempo, no queira saber o como ou porque o
fizestes;--porque o bem-querer grande faz sentir muito os escandalos
recebidos, e cr-los em parte, quanto baste para o sentimento ser maior
do que pde ser. Mas, porm, sempre deixa uma duvida l na crena, para
experimentar n'algum tempo, tarde ou cedo, segundo a dr grande ou
pequena lhe d lugar. No pde ser que aquilo que vs, senhora, sabeis,
no faa duvidar Bimnarder do que fizestes, at se le desenganar por si
mesmo. Ou, se isto no  assim, no ha verdade no mundo nem nos homens!




CAPITULO XXXI

Em que se diz a grande dor que sentiu Aonia em seu casamento


Estas palavras desagastaram a senhora Aonia algum pouco, mas no de
todo; que, na verdade, se a deixaram estar s, e ter tempo para
perseverar n'este cuidado, no creio eu que la pudera durar muito.

Mas era esposada de ento, e umas cousas e outras no na deixavam nunca
s; espalhavam-se os cuidados.

Assim, la, pouco a pouco, foi-se acostumando a viver d'outra maneira;
que as ocupaes de casa, e a desconfiana, ou desesperana, que foi
tendo de Bimnarder, lhe fizeram indo ter nas cousas passadas uma sombra
de esquecimento, com que la pudera viver todas as horas da sua vida
descansada ou menos cansada, se em alguma cousa d'este mundo houvera
segurana.

Mas no na ha; que mudana possue tudo!...




INDICE


CAPITULO I--Em que a donzela comea a sua historia

CAPITULO II--Em que a donzela vae prosseguindo sua historia

CAPITULO III--Da conta que a dona d  donzela de sua vinda quela terra

CAPITULO IV--Das palavras que a dona com a donzela passou

CAPITULO V--Do que Lamentor passou n'aquela parte onde foi aportar com a
sua nau, e da batalha que teve com o cavaleiro da ponte, e do que mais
lhe sucedeu

CAPITULO VI--Em que se diz a razo por que o cavaleiro da ponte sustinha
aquele passo, e de como sua irman ali veio ter

CAPITULO VII--Como, depois de partida a irman do cavaleiro da ponte, por
aprazer aquele lugar a Lamentor, ordenra fazer ali seu assento

CAPITULO VIII--De como a Belisa vieram em crescimento as dres do parto,
e, parindo uma criana, faleceu

CAPITULO IX--Do pranto que Aonia fez pela morte de sua irman Belisa

CAPITULO X--De como Narbindel, vindo combater com o cavaleiro da ponte,
vendo o pranto que se fazia na tenda de Lamentor, entrou dentro para o
consolar

CAPITULO XI--De como se deu sepultura ao corpo de Belisa, e do pranto
que com le fez Lamentor

CAPITULO XII--Do que sucedeu ao cavaleiro, que saiu da tenda, vencido do
parecer e formosura da senhora Aonia

CAPITULO XIII--Em que se diz quem fosse Cruelcia, e do que o cavaleiro
passou com seu escudeiro

CAPITULO XIV--De como, partido o escudeiro do cavaleiro da tenda, entrou
em pensamentos de como se apartaria d'le, e mudaria o nome

CAPITULO XV--De como Bimnarder soube de um servidor de Lamentor que este
ordenava fazer ali uns paos, e do mais que lhe aconteceu com a sombra
que lhe apareceu

CAPITULO XVI--De como, estando Bimnarder muito pensativo no que faria,
viu de subito vir o seu cavalo fugindo d'uns lobos que o queriam matar

CAPITULO XVII--De como Bimnarder assentou vivenda com o maioral do gado,
e do que a donzela passou com a dona em sua historia

CAPITULO XVIII--Em que a ama d razo  donzela da cantiga de Bimnarder

CAPITULO XIX--De como conta a ama  senhora Aonia o que vira fazer ao
pastor, acabada a cantiga

CAPITULO XX--Da peleja que o touro do pastor teve com outro alheio, e de
como o matou, a qual Aonia estava vendo do eirado

CAPITULO XXI--De que maneira Bimnarder se viu com Aonia

CAPITULO XXII--De como Bimnarder, estando na fresta da camara de Aonia,
se ps devagar a ouvir a ama

CAPITULO XXIII--Do singular conselho que deu a ama  senhora Aonia, pelo
que suspeitou de seus amores

CAPITULO XXIV--Em que se conta o mais que a ama passou com a senhora
Aonia, cerca de Bimnarder

CAPITULO XXV--De como Bimnarder, pela fresta do aposento de Aonia, lhe
falou

CAPITULO XXVI--De como Bimnarder, estando na fresta de Aonia, adormeceu,
e se lhe foram, por sonho, os ps, e caiu

CAPITULO XXVII--De como a ama, sentindo de noite o estrondo da queda, o
que sobre isso fez quando foi manhan

CAPITULO XXVIII--De como, estando da queda Bimnarder muito doente, Aonia
buscou maneira por onde o fosse visitar

CAPITULO XXIX--De como Lamentor casou Aonia com o filho d'um cavaleiro
comarco, e do que Enis aconselhou a Aonia que fizesse

CAPITULO XXX--De como Fileno, o marido de Aonia, desejoso de a ter em
seu poder, a levou de casa de Lamentor muito acompanhada

CAPITULO XXXI--Em que se diz da grande dr que sentiu Aonia em seu
casamento




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    *Historia Ilustrada da Grande Guerra*, cada volume. $30

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Bernardim Ribeiro

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