The Project Gutenberg EBook of Lagrimas Abenoadas, by Camilo Castelo Branco

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Title: Lagrimas Abenoadas

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: October 12, 2007 [EBook #22977]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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Nota do transcritor:

    Foram corrigidos diversos erros tipogrficos menores, sem que seja
    feita qualquer meno desse facto. As marcas [NT] identificam as notas
    explicativas das alteraes importantes ao texto original.


OBRAS

DE

CAMILLO CASTELLO BRANCO

EDIO POPULAR

LI

LAGRIMAS ABENOADAS


VOLUMES PUBLICADOS

N.^o 1--Coisas espantosas.

N.^o 2--As tres irmans.

N.^o 3--A engeitada.

N.^o 4--Doze casamentos felizes.

N.^o 5--O esqueleto.

N.^o 6--O bem e o mal.

N.^o 7--O senhor do Pao de Nines.

N.^o 8--Anathema.

N.^o 9--A mulher fatal.

N.^o 10--Cavar em ruinas.

N.^os 11 e 12--Correspondencia epistolar

N.^o 13--Divindade de Jesus

N.^o 14--A doida do Candal.

N.^o 15--Duas horas de leitura.

N.^o 16--Fanny.

N.^os 17,18 e 19--Novellas do Minho.

N.^os 20 e 21--Horas de paz.

N.^o 22--Agulha em palheiro.

N.^o 23--O olho de vidro.

N.^o 24--Annos de prosa.

N.^o 25--Os brilhantes do brasileiro.

N.^o 26--A bruxa do Monte-Cordova.

N.^o 27--Carlota Angela.

N.^o 28--Quatro horas innocentes.

N.^o 29--As virtudes antigas--Um poeta portuguez... rico!

N.^o 30--A filha do Doutor Negro.

N.^o 31--Estrellas propicias.

N.^o 32--A filha do regicida.

N.^os 33 e 34--O demonio do ouro.

N.^o 35--O regicida.

N.^o 36--A filha do arcediago.

N.^o 37--A neta do arcediago.

N.^o 38--Delictos da Mocidade.

N.^o 39--Onde est a felicidade?

N.^o 40--Um homem de brios.

N.^o 41--Memorias de Guilherme do Amaral.

N.^os 42, 43 e 44--Mysterios de Lisboa.

N.^os 45 e 46--Livro negro de padre Diniz.

N.^os 47 e 48--O judeu.

N.^o 49--Duas pocas da vida.

N.^o 50--Estrellas funestas.

N.^o 51--Lagrimas abenoadas.



CAMILLO CASTELLO BRANCO


LAGRIMAS ABENOADAS


ROMANCE


QUARTA EDIO

1906

Parceria Antonio Maria Pereira

Livraria editora e Oficinas Typographica e de Encadernao

Movidas a electricidade

_Rua Augusta--44 a 54_

LISBOA


1906

OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAO

Movidas a electricidade

Da Parceria Antonio Maria Pereira

_Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1.^o andar_

LISBOA




A QUEM LER


QUE FELICIDADE  POSSIVEL SOBRE A TERRA: tal  o pensamento d'este
romance.

QUE FELICIDADE, CONFESSADA PELA CONSCIENCIA,  A UNICA VERDADEIRA:
quizera eu poder provar, assim como posso sentir.

QUE A FELICIDADE VEM A PREO DE LAGRIMAS, COMO A CONSOLAO DO
SALVAMENTO A PREO DAS AGONIAS DO NAUFRAGIO:  um paradoxo, talvez, para
os que no conhecem a verdadeira felicidade, nem choraram as lagrimas
abenoadas da resignao.

Este romance  religioso na essencia. Escreve-se ahi muitas vezes a
palavra DEUS. Evitam-se as imagens do deleite, o pasto de ociosos,
gastos do corao, e fallidos da alma. Os que buscam no romance qualquer
cousa que no sirva de nada para o espirito, no leiam este.

Eu espero achar entendimentos que m'o recebam, e coraes que m'o
agradeam.

Vereis ahi uma mulher, que no  uma chimera. Imaginei-a, primeiro, e
encontrei-a fra da imaginao, depois.

Maria, linda creatura da terra,  a rainha de dois diademas: um no co:
os anjos, seus irmos, tecem-lh'o das flores, que ella rega no mundo com
as suas lagrimas. Outro na terra:  a soberania da virtude, respeitada,
embora no compreendida, pelos homens que lhe acurvam o joelho.

Eu sou um d'estes.

E o meu romance  uma palavra d'esse cantico de louvor, que o espirito
no pde revelar aos que, no seu caminho, no parariam a
compreender-lh'o.

Meditemos este assumpto.

Ha ahi n'esse mundo material uma decidida negao para acompanhar o
espirito nas suas elevaes. Eu sei-o.

Um ou outro homem encosta a face  mo, abraa os horisontes com uma
vista scismadora, afina a harpa da sua alma pela toada sonorosa dos
pinhaes; compe das notas lugubres da tempestade a harmonia tetrica, e
desfigura-se, e poetisa, e parece no querer nada de commum com a fraca
natureza humana.  o sentimental.

O sentimentalismo, sem a religio,  uma mentira.

O que ahi vae de phantastico e espiritualista nos affectos,  uma
exigencia da epoca,  um encargo que a mocidade se impoz,  a preciso
de variar. Diga-se tudo:  a moda.

No porque a vida seja feliz, e a natureza do homem precise inventar
amarguras, para que a felicidade o no enjoe;

No porque o espirito, extenuado em sensualidades procure, no ideal,
respirar o elemento de vida, que lhe  proprio;

 porque as felicidades, saboreadas n'estes tempos no deixam no corao
motivo para um hymno. O homem, que no pde apagar na mente a faisca do
genio, que lhe desceu ao bero, ou mata a inspirao na orgia, ou
abysma-se com ella, por feretros e ossadas at materialisa'-la nas
frmas repugnantes de uma dor monstruosa.

E, se assim no fizer, o seu alade no tem sons, e o genio fallece-lhe
de impotencia. Mas o poeta quer este titulo; cantor quer a grinalda das
flores em troca da cora de espinhos;  preciso cantar.

Se lhe pedisseis, em vez de horrores, uma poesia banhada de luz celeste,
em que os mil reflexos de cima fossem as virtudes possiveis no mundo...

Se lhe pedisseis, em vez da pagina sempre negra da sua vida, as
alvissimas alegrias de uma virgem, que, a fugir de um mundo, que se lhe
pinta ingrato  sua alma candida, se refugia aos ps de Maria, Rainha
das Virgens, a pedir-lhe o co, como repouso inviolavel da innocencia...

Se lhe pedisseis a doura das lagrimas da pobre, que aconchega seus
filhos n'um envoltorio de andrajos, e ajoelha depois, entregando-os 
Providencia, para que, ao amanhecer, no sejam muito repetidos os seus
gritos de fome...

Pedi.

O poeta ha-de dizer-vos que a luz do co  esse oceano de luz, que banha
a terra, quando as arvores florescem e as arvores saudam ao alvorecer um
sol esplendido.

Ha-de falar-vos da virgem, arfando esperanas no seio immaculado, mas
esperanas todas d'aqui, todas embalsamadas pelo incensorio das paixes
terrenas.

O pobre, esse que vale bem a pena de uma poesia, de uma pagina de
romance,  sempre a victima da m organisao social, e de uma mentirosa
economia politica. V'-lo-heis invectivar o rico, com toda a iracundia
de uma inoffensiva estrofe; mas o pobre que continua nas palhas da
miseria, esse no recebe uma consolao em nome do futuro, do co, e das
promessas de Jesus Christo.  sempre o pobre recrutado para as fileiras
que guerreiam o rico.

Eu pensei, uma vez, na vastido de assumptos sobre que o sceptro do
talento extende o seu imperio. Chamando  reminiscencia o acervo de
leituras recreativas, que fiz, durante alguns annos, entrevi nos meus
tempos nebulosos o muito tempo consumido, os muitos volumes folheados, e
no poderei classificar-vos, em synopse de idas, uma s que me
prestasse ao espirito, ou ao corao, ou  cabea.

Aprendi o desengano no romance, antes que a sociedade m'o desse.

Libei na poesia do seculo a mentira, antes que o corao contaminado m'a
inspirasse.

Aborreci-me de mim e das minhas leituras, como se o livro e a poesia
fossem um sarcasmo para quem nas ms horas, lhe mendiga espairecimentos
para o espirito.

Vislumbravam-me no escuro das minhas idas religiosas uns clares
pallidos do que o romance e a poesia deveriam ser para adoarem muitos
infortunios. Mas, que me pedissem a ida formulada no livro! Faltava-me
a convico das virtudes do balsamo para saber applica'-lo  ferida.

No tinha eu provado ainda as douras da religio para sentar-me com a
taa do Evangelho,  borda do caminho, e dizer ao peregrino canado:

Bebe!......................................

Do-vos tedio estas minhas consideraes? No so vaidosas. Eu juro-vos
que me doeria muito se uma verdade, esboada com amplos contornos, no
valesse mais que uma mentira, alinhada com o ouropel de um desusado
estylo.

O que est dito  o prefacio do meu romance. Duas palavras resumem-n'o
laconicamente n'uma ida conceituosa.

Sei em que tempo escrevo, e comtudo, ouso nos estreitos limites de que
posso dispr, ajustar em molde christo um genero, raras vezes assim
tratado, quer pela costumeira da forma, quer pelo estylo, quer pelas
leis da escola.

Escrevo um romance, ou antes descanto em prosa uma virtude, porque no
desafinarei, em quanto possa, a lyra em que fiz soar algumas poesias,
unicas de que me no culpo, nem arrependo. As outras...

Se eu pudesse avaliar a vossa opinio, consolava-me de no ser enganado
pela minha consciencia de christo e de artista.

Porto--em 1853.




LAGRIMAS ABENOADAS




LIVRO I


I

Disseram muitos dos que estavam em redor de uma creancinha, na pia do
baptismo, que na face d'ella havia uma luz mysteriosa, como a projeco
de um cirio invisivel, que, n'aquelle instante solemne, allumiasse, nas
mos de um anjo, as cerimonias do sacramento augusto. Viso de boas
almas.

Era uma menina de nove dias.

Sua madrinha era Nossa Senhora da Conceio, fulgurante de mil lumes, no
seu docel de seda e prata, com as mos cruzadas sobre o seio, com os
olhos extaticos no co, como seguindo o trilho de estrellas por onde,
aos ps do Eterno, voejava o anjo da ANNUNCIAO.

Seu padrinho era um duque, vestido de ouro, com as suas insignias de
general em chefe, com o seu thesouro de condecoraes guerreiras a
cobrirem-lhe o peito, onde pulsava sangue de reis, que no valia mais,
por isso, em corao de homem.

Seu pae era um coronel, fidalgo dos que primeiro o foram n'esta terra,
valente como o primeiro e o ultimo da sua linhagem, e honrado como
aquelle de seus avs, que morrera desterrado, em Tanger, por no
denunciar o que lhe fra amigo desleal, embora traidor ao rei D. Joo
II.

Era o coronel... que vos importa o nome?!...

Sua me nascera dama de D. Maria I, crescera mimo de galanteria e
docilidade, emancipra-se donzella de todas as virtudes, casra-se,
mulher, exemplo das mais santas affeies de um marido, e fra me como
pde se'-lo a mulher, depois que a Virgem Maria alimentou um filho,
depois que Jesus Christo rehabilitou a fascinada da serpente, depois que
a filha de Eva entrou no seu reconquistado Eden, a colher a flor da
dignidade, regada pelo sangue do filho de Maria.


II

Este dia, jubilo de anjos, para os quaes os orvalhos do co, fecundando
as aguas do baptismo, geram na terra um irmo; jubilo de seus paes, que,
depois de quatro filhos, tinham um novo penhor de innocencia para, em
seu nome, agradecer, com labios puros, as esmolas do co; jubilo da
egreja catholica, que estremece de felicidade, quando entra em seu seio
um filho, que lhe gosta o leite da virtude, como sustento da
immortalidade: este dia amanheceu em 1827.

Maria era o incentivo de tanta alegria. Nos braos de sua me, com o seu
olhar errante pelas faces desmaiadas d'ella, que parecia sorve'-la com
os seus beijos, como se aquelles fossem os ultimos; Maria, a afilhada da
Senhora da Conceio estava alli asseverando o que tantos diziam da luz
mysteriosa, que na pia do baptismo, lhe illuminava a face.

A pureza dos anjos, no ser como a santidade do predestinado!? E o
justo, na ultima hora da sua passagem na terra, quando o anjo da
serenidade lhe alveja o rosto com as suas azas transparentes, no ser
como a creancinha immaculada, cuja alma vem brincar-lhe ao rosto com
toda a pureza e innocencia, que o halito creador lhe bafejou!?

A me de Maria chorava e as suas lagrimas desconsolavam o pae, que as
no queria ver n'aquelle dia, n'aquella hora, to faustosa, to de gala
para os parentes, que se abraavam em redor do leito.

Mas fossem calar-lhe o presentimento no corao! Digam  flr que no
penda amortecida sobre a haste, quando o sol se esconde! Digam s
lagrimas, que estanquem nos olhos, quando o que chora no sabe d'onde
ellas nascem, nem o que contempla sabe a linguagem do espirito, para
consola'-lo em seus presentimentos sobrenaturaes!

Porque  que aquella me no buscava o allivio no sorriso de seu marido?
Porque no olha ella para os seus? Que  to consolador ahi como a
presena de um marido amado, quando a fraca mulher quer desafogo?

No bastam allivios do mundo para essas ancias.

Deus! sim, para todas as afflices, para todos os presagios, para todos
os temores, para todas as mes que vaticinam desventuras a suas filhas!

Deus! E na sua imagem  que aquella me fitava os olhos. Depois, ao lado
de Christo, estava outra imagem: era Nossa Senhora da Conceio. Que lhe
dizia aquella pallida mulher, com sua filhinha nos braos? Ouviram-lhe
s as derradeiras palavras:

Minha Mae Santissima! entrego-vos a vossa afilhada!

Viram um sorriso nos labios de Maria. Seria um acto maquinal dos labios?
Porque  que os adultos no sorriem maquinalmente?... Lisongeiras
duvidas para o homem que pensa nos segredos do homem.


III

Decorreram sete annos.

Eu no devo aqui pintar um quadro de guerra. Seria salpicar de sangue a
tela onde me propuz traar uma figura grandiosa, com o colorido suave da
religio. Abomino a historia, se  fora lembra'-la a testemunhas
oculares. Ha ahi muitos escolhos que ludibriam os mais atilados pilotos.
Escandecencias politicas no se refrigeram com o orvalho do co. Se do
pulpito o hyssope muitas vezes as exacerba, que far d'aqui?!

E tomra eu que estas linhas, pallido reflexo do que ha de
incommunicavel no meu corao, accendessem o amor de Deus, apagando a
flamma das inimizades humanas! Tomra eu lagrimas e d, e paz e
esquecimento para os homens, que no devem aqui encher uma pagina de
odio n'um livro que aconselha a resignao. Durmam uns e outros o breve
somno, que vae do anoitecer da vida  alvorada do archanjo.
Ver-nos-hemos em volta do juiz, que, nos seus dias de ro entre a
humanidade pervertida, dissera:

S a mim pertence julgar os bons e os maus!

Bemaventurados os que esperam.


IV

1834!

Foi um anno de muitas lagrimas. Debaixo d'este formoso co esperdiou-se
muito sangue. As espadas teravam por duas causas, quando dois coraes
do mesmo sangue, na vanguarda de dois exercitos irmos, anciavam
aniquilarem-se. E, se, aps o ruido das armas, se fazia o silencio
tetrico da morte, prorompiam depois os gritos das mes, das viuvas e dos
orphos. Paiz, onde esta harmonia de angustias se levanta de milhares de
labios para o co, prova-se no supremo infortunio, e symbolisa o
holocausto de uma vingana tremenda.

Tremenda... como a de Gaza e Moab!

Que  dos teus edificios de marmore, cidade dos obeliscos!? dizia o
propheta das lagrimas.

No vedes em Portugal os fustes das columnas dispersas na ruina dos
grandes edificios?

No vedes!--Pois que tem esta terra de commum com Moab e Gaza?

Que tem?!

O enviado de Deus responderia:

Que  dos teus edificios de virtude, terra da honra e da probidade?

Que importam os coruchos de vossos palacios, Balthazares do tempo, se
l no est a cruz veladora das felicidades da vida?!

     *     *     *     *     *

Me de Maria, porque choravas tu?

As tuas lagrimas j no eram um mysterio;

     *     *     *     *     *


V

Uma vez, a esposa do coronel, com sua filhinha de sete annos, ajoelhava
diante da imagem da Senhora da Conceio e murmurava esta prece:

Virgem Maria, nunca a vossos ps caram mais afflictas lagrimas!
Attendei-me, Senhora, que eu sou uma fraca mulher, me de cinco filhos,
esposa de um homem, que  o amparo d'esta pobre familia, que vos
ajoelha! Vde,  Me dos afflictos, que o tumulo de meu marido  o
tumulo d'estes orphos, e o d'esta me desvalida, que no tem um palmo
de terra onde possa regar com suas lagrimas um fructo, que mate a fome
de seus filhos. Protegei-o,  Senhora, n'esta guerra desastrosa, em que
a cada instante ce um pae de familia, to desgraada como a minha! Eu
no vos peo as honras, e a subsistencia que meu marido ganhra no
servio da sua patria: o que eu vos peo  muito mais...  a vida de meu
marido, mas s a vida, sem a gloria de vencedor, sem o premio do seu
sangue derramado, sem mais outra riqueza que a do corao que elle tem,
e a resignao com que vs, consoladora do infortunio, e eu, esposa
extremosa, lhe adoaremos a desgraa! Os labios da vossa afilhada no
murmuram a orao de sua me, mas o seu corao  aquelle que vs lhe
dstes ha sete annos! Eu vos supplico em nome d'ella. Fazei que estes
olhos no sintam to cedo o travo das lagrimas, que chora sua me!
Piedade para todos ns!... amparo para meu marido... compaixo para
todas as mes atribuladas, que, n'este momento, vos pedem, como eu, a
vida de seus maridos...

E era esta a orao que os suspiros no poderam cortar. Assim simples e
angustiada, confirmava a verdade de uma grande dor que no escolhe
palavras, nem se atavia das pompas do estylo. Quem orou n'um d'estes
lances, sublimes no tormento, pela exploso da agonia com que se
refugiam no co, compreender o cunho pungente, marcando a mais
insignificante d'essas palavras, que proferiam os labios febris da
mulher consternada entre seus filhos.

E, depois, a me de Maria foi deitar sua filha, e, acalentando-a,
estremecia s vezes, como se os accessos de uma convulso a no
deixassem aquietar-se ao lado do seu anjo.  que a cada trom remoto da
artilharia, nas linhas de Lisboa, aquella afflicta esposa de um homem de
guerra sentia o vo da viuvez descer-lhe na face, e o luto da orphandade
envolver aquellas cinco existencias, para nunca mais se mostrarem no
mundo com direito a serem amadas por alguem. E os outros quatro meninos
aconchegavam-se no regao d'ella; fitavam-n'a, como os passageiros de um
barco em perigo fitam o semblante do homem a quem se confiaram; e, no
choro, modelado pelos gemidos de sua me, compunham uma consonancia de
vagidos, e brados, e soluos. Quando assim se soffre, a indifferena do
Eterno seria um cruel desengano para os infelizes, que se acolhem ao
abrigo das suas misericordias... No haveria Deus: a justia divina
seria uma astucia humana.

A orao  um respiradouro de espirito, quando a mo da desventura o
comprime at lhe abafar a derradeira esperana na terra. A orao no
tem nada com este mundo. Pedir a justia do co para as injustias da
terra e renunciar a toda a vingana,  pedir a felicidade de nossos
inimigos, porque Deus  misericordioso, e no precisa de fulminar o
poderoso para vingar o fraco. Orar  car de joelhos, e muitas vezes no
articular dois sons de uma supplica:  no atinar com a linguagem de
falar a Deus, porque a sciencia do mal, exclusiva do homem, s inspira
ao desgraado expresses para que os homens o compreendam. Aquella me
afflicta, quando orou, orava assim. Seu marido com o peito na frente de
regimento era o alvo das balas inimigas. Na sua frente um outro coronel,
escravo das suas convices, da sua honra talvez, e pae de familia
tambem, ouvia o zumbir da metralha, como halito da morte a afflar-lhe os
cabellos. Mas a me de Maria pedia por ambos; e, quando a orao assim 
feita, o espirito de Deus est nos labios do que ora.

Enxuga as tuas lagrimas, sorve as de teus filhos com teus beijos, me e
esposa, que o pae d'essas creanas, o homem, que traz no corao os
alentos de que te sustentas no mundo, no ha de a bala ou a espada
cortar-lhe os vinculos a que prendeste a tua melindrosa existencia.

No ha de, que teu marido entrou na guerra de irmos com o corao
enlutado, como em arena fratricida, e, ao ouvir o som rispido da
trombeta que mandava morrer matando, muitas vezes eleva ao Senhor o
espirito atribulado, supplicando-lhe a reconciliao dos portuguezes.

No ha de, que, nas vesperas angustiosas de uma peleja, teu piedoso
marido, refugiando-se dos cabos de guerra que tripudiam e blasphemam
farejando o sangue da carnagem do dia seguinte, ergue as mos ao Senhor,
supplicando-lhe que acceite no regao da sua misericordia, uma viuva
desvalida, filhinhos desamparados, aos quaes a mo do vencedor no
extender mo esmoler, seja qual fr o triumphante.

No ha de, atribulada me e esposa, porque as paixes clamorosas dos
impios no ensurdecem o co aos rogos de um justo, que lava com lagrimas
cada gota de sangue de irmos que lhe salpica a farda.

Expande o teu corao opprimido no seio de Deus, dolorida me.

Deixa rugir l fra o phrenesi dos odios civis, e acolhe-te, mulher
cortada de agonias, acolhe-te ao refugio da religio, respira ahi em
lagrimas a oppresso que os meigos carinhos de teus filhos no podem
consolar-te.

Ao mesmo tempo que oras no meio d'elles, o corao de teu esposo comtigo
se ala para a regio serena da paz e bemaventurana eterna. Sois duas
almas puras que se encontraram na terra, juntas ascendem a Deus na
orao, juntas ho de compartir as amarguras da pobreza, juntas ho de
receber a cora triumphal no dia marcado  recompensa dos que choram na
terra.

Assim lhe segredava o anjo da resignao alentos que a faziam confiar no
regresso de seu marido. Rodeada de seus filhos, a esposa do coronel,
fantasiava com Maria as venturas, que, ainda na pobreza, podem deliciar
coraes enriquecidos pelos dons da amizade. Maria, to joven e
innocentinha, compreendia as alegrias de sua me, e respondia a ellas
festejando a volta de seu pae, como se elle viesse j caminhando a
indemnisar-se dos trabalhos no goso da paz, no amor santo da familia,
nas donosas alegrias de uma obscuridade feliz.

Mas estas esperanas eram a cada hora desvanecidas pelas ms novas que
vinham do campo da batalha. O sobresalto da pobre me era constantemente
despertado aos trons da artilharia que jogava nas linhas de Lisboa.


VI

O coronel... (j no era coronel) o homem da honra e da coragem
amanheceu um dia  porta de sua mulher. Trazia nas faces aquella magreza
livida que o sopro das batalhas, e o enervamento da fome estampam no
rosto do vencedor, e do vencido. Vencido era elle. No trazia espada,
que a pureza, no aos ps do vencedor, mas sobre a acta de uma
capitulao, deixra ao bravo a consciencia da sua intrepidez. Nem uma
lagrima lhe escapou involuntaria dos olhos, quando, exauctorado e
desvalido, se collocou entre os derradeiros thesouros que lhe restavam:
sua esposa, e seus cinco filhos. Esses, sim, eram d'elle, eram de seu
corao como a virtude, emanao de Deus,  quasi sempre o unico
patrimonio do virtuoso.

E  por isso que no houveram lagrimas, que assombrassem n'aquelles
labios o jubilo do sorriso.  por isso que paes e filhos caram de
joelhos; e, no silencio de seus coraes, Deus sabe a aco de graas,
que lhe subira aos ps de seu throno n'aquellas extaticas elevaes de
alegria reconhecida.

Ao levantarem-se, abraaram-se, uma e muitas vezes; e quando as palavras
venceram a suffocao da surpresa, uma s voz, a de todos, exclamou:

Somos muito felizes! Bemdito seja Deus!


VII

Car de elevada jerarchia, quando os braos da religio no amparam o
infeliz na queda, deve ser morrer!

Altearmo'-nos a despeito de muitos, que no podem voejar tanto acima, 
provocar-lhes a inveja. Olha'-los em baixo, quando nos cospem o fel da
inveja, deve ser-lhes o maior dos castigos; mas, se d'ahi a mo de Deus
nos atira ao raso dos invejosos, se a desgraa nos marca, no meio
d'elles, um circulo onde rodar com o peso de affrontas, que a nossa
arrogancia enfardra... tal vida  a preexistencia do inferno.

Ha tres remedios para alliviar angustias de tal lance:

A resignao;

O cynismo;

O suicidio.

A resignao no  s o amparo d'aquelle que resvala no precipicio das
honras d'este mundo;  mais: a resignao no deixa car o homem, que
olha sempre, com temor, o despenhadeiro, em que de ao p de si se
abysmaram colossos, e ruiram edificios fundados sobre areia. Levantado
pela Providencia, o homem, que teme a Deus, no se julga, no vertice das
glorias, posto ahi pela mo do destino. Quem lhe promette o dia de
manh, vinculado aos acontecimentos de hoje? Quem lhe diz hoje que a
taa do seu mel ha de manh trasbordar de lagrimas? Quem affiana 
aguia, dominadora dos espaos, que, de mais alto, o aor se libra para
abate'-la nas urzes?

E, quando a nuvem do infortunio escurece aquellas alegrias, que formavam
o cortejo da nossa riqueza:--quando a sociedade nos retira os
contentamentos, vendidos pelo ouro, que perdemos... quem  esse destino
que accusamos? onde existe essa mentirosa fatalidade que nos humilhou?
onde encontraremos o primeiro acaso, que nos felicitra, e o segundo que
nos empobrecera? No ha lagrimas que suavisem as ferocidades da _nossa
sina_, nem ameaas que a forcem a desmentir-se? Ser obrigatorio o
punhal ou o veneno, porque _estava escripto o meu suicidio_!?...

A providencia  a aco da Divindade.

O grande da terra julgra-se grande na terra pela providencia. Era um
magestoso edificio aos olhos da humanidade, e fragil barro entre as mos
de Deus. Quando o sopro da desventura lhe assolou as columnas, o grande,
s, e proscripto das ovaes, _em que elle fra o menos laureado_, era
ainda o grande na desgraa, na esperana, na humildade, na renuncia, e
na confiana.

Esperava... o tumulo, e antes d'elle um saldo de contas com o mundo,
onde o rico deixa debitos enormes a solver.

Humilhava-se diante Deus, que o abatera, no como um cego destino, mas
como um decreto, sanccionado no co, cumprido na terra, e explicado no
dia das tremendas explicaes dos mysterios, incompreensiveis aqui.
Humilhava-se diante dos homens que nunca humilhra; diante d'aquelles,
que puderam abandona'-lo, mas no escarnece'-lo pelo seu passado
orgulho.

Renuncira quantas prerogativas o seu ouro lhe dera na sociedade;
quantas pompas lhe caam ao encontro na sua estrada de flres; quantas
esperanas idealisra, que mais o engrandecessem, na perspectiva do
mundo, sem adulterar as mercs do Creador.

Confiava na humildade da orao, no po de cada dia, no repouso
providencial de cada noite, porque no mundo nenhuma existencia vira
abandonada, nem a da ave que se levanta com a aurora, e louva ao
Creador, e vae procurar o alimento, que no deixou de vespera.


VIII

No  assim o cynico.

Herdra um thesouro que seus paes lhe prepararam; e preparra elle em
seu corao todos os elementos para augmenta'-lo.

Que o ouro augmenta, quando  lanado no cadinho da perversidade. E o
corao, ferido de avareza,  um segundo thesouro para quem herdou o
primeiro. O mais efficaz instrumento da caridade, o ouro, nas mos do
avaro, converte-se em ferro de dois gumes: um que lhe entra no proprio
corao, outro no corao que lhe pede o obulo.

 assim o cynico.

Em cada degrau da sua escala de grandeza espirrava o sangue das faces
que calcava. Entre elle, e um circulo de victimas, que o rodearam,
fascinadas pelo brilho da sua aurola, erguia-se o anteparo da
irreligio.

Quem lhe dra o sorriso feroz fra a impiedade.

Quem lhe alimentara as ancias de cevar-se em gosos, adubados em lagrimas
e sangue, fra a impiedade.

Quem lhe segredra os derradeiros segredos do crime, para que o enojo de
crimes repetidos lhe no esfriasse o amor sordido da vida, fra a
impiedade.

Quem lhe dissra que no tumulo para dentro no ha pobres para repellir,
nem coras de virgem para desfolhar, nem faces lagrimosas para cuspir,
nem amigos para vender a inimigos, fra a impiedade.


IX

E, depois, a mo de Deus despenhou o cynico.

No tremedal, onde cara, roeram-n'o os vermes dos cadaveres que elle
fizera.

E riu-se.

Cobriram-n'o os improperios, e os sarcasmos de tantos, que elle
enxovalhra, sacudindo-lhes s faces a lama das ruas com as rodas do seu
carro insultuoso.

E riu-se.

Teve que aceitar uma esmola, que, por escarneo lhe lanou ao chapo um
d'aquelles que lh'a pedira, em vo, anceado de fome.

E riu-se.

Bateu  porta de seus creados, que medravam nas prodigalidades do amo:
pediu um bocado de po, e responderam-lhe de dentro com uma gargalhada.

E riu-se.

Este  o cynico.

E quando lhe aconselharam o suicidio, riu-se, e riu at morrer porque a
morte de cynico  uma risada na blasphemia.


X

Lamentae o suicida, porque a sua ultima hora foi uma lucta horrivel
entre a desesperao, a incerteza, e, talvez a saudade.

Ao ver-se pobre no mundo, considerou-se o homem sem vida social; mas a
vida physica, onde as frechas do desprezo lhe rasgavam at o corao,
era-lhe uma algema insoffrivel a maneata'-lo ao poste da vergonha.

Feliz pelo destino, ou desgraado pela fatalidade, o Lucifer, despenhado
d'este co da terra, que a impiedade lhe deu, optou pelo tumulo entre
duas idas: pobreza e impotencia.

Impotente para vencer a sociedade que lhe no restituia o seu ouro, o
desesperado, aborrecendo a morte tanto como a vida, crava-se um punhal,
que nem elle sabe se o vinga dos homens, se o deita no tumulo, se o
sacrifica  justia de Deus.

O atheu pensra longas horas antes de erguer-se o patibulo; mas, nos
seus ultimos instantes, no era philosopho: era um algoz.

A desesperao enervra-lhe o entendimento, e robustecera-lhe o brao.

O cutello, no brao do algoz, no tem nada com o espirito. Um e outro
so machinas de morte.


XI

E o coronel ***, e sua esposa, e seus filhinhos eram christos. E oravam
na desgraa, e sorriam no infortunio, e esperavam.

Esperana, filha dos cos! eterno cantico dos anjos!... bemdita sejas
tu.


XII

E, quantas vezes, acarinhados pelas brandas lisonjas de uma esperana,
nos possuimos d'aquelle inoffensivo orgulho de felicidade, e to perto
nos persuadimos que ella vem com toda a formosura real de um bello
sonho? E quando assim nos apressamos ao encontro d'essa linda chimera,
gerada nas entranhas do infortunio, no ser to triste deparar-se-nos
uma nova desgraa?

Muito triste.  uma luz que se apaga. Um horisonte que se fecha. Uma
colheita de lagrimas na seara das esperanas.

E o sorrir da resignao, e o levantar das mos em fervente amor de
Deus,  a mais grandiosa attitude na desgraa. O infeliz  ento um rei
no throno das angustias. O manto de retalhos tem a magestade da purpura.
Ignacio, o mendigo de Monserrate,  maior que o gentil-homem de Loyola.


XIII

O coronel soffria muito; porque, a par do grupo querido de esposa e
filhos, nunca de seus olhos se afastava o aspecto da penuria.

 escuridade da indigencia no chega a luz do amor: deixar falar os
poetas.

Ha sentimentos de miseria que os sentimentos da gloria no podem
eclipsar. A felicidade tem exaltaes intermittentes de jubilo. Mas a
desgraa pensa sempre, fala sempre; vela  cabeceira do infeliz;
desperta-o com o aguilho de um sonho mau; desmente-lhe as illuses;
ri-lhe a cada esperana; embrutece-o; retre-lhe as expanses do
espirito.

Onde a desgraa emmudece com a consciencia do penitente, que se levanta
dos ps do ministro dos perdes,  na presena da cruz.

O coronel orava um dia com sua familia. Maria balbuciava as mesmas
palavras do pae, e parecia, com os olhos fixos n'elle, tomar-lh'as dos
labios como um beijo e um segredo de muita felicidade na muita
desventura.

A sua orao era a dadiva do Christo: era aquella, que pendera dos
labios divinos do Mestre como orvalho para todos os ardores, como
balsamo para todas as chagas, como herana de amor para todas as
geraes de ingratos.

Era esta a sua orao:


Padre nosso, que estaes no co, sanctificado seja o vosso nome; venha a
ns o vosso reino; seja feita a vossa vontade...


XIV

Alguem procurava o coronel. Amigo ou inimigo? O homem da honra nunca se
nega. O que fra christo antes de politico, e pedira a Deus a paz de
seus irmos, antes de mostrar-lhes, ao sol das batalhas, o lampejo de
uma espada escrava da obrigao, esse poude ser exauctorado de titulos
s grandezas, de direito ao trabalho, de po, e de liberdade, mas o
opprobrio no o desanima, nem o envergonha.

A valentia moral no tem capitolios na sociedade immorigerada; mas
tem-os na consciencia do proprio que a experimenta. Um homem assim,
decado do que fra, apresenta-se altivo de certa soberania que parece
um triumpho, ultraje dos oppressores.

O coronel, se tivesse a receber as felicitaes _vendidas_  sua patente
de general, talvez no consentisse que to depressa fosse aberta a sua
porta.

Abriram-n'a.

O homem que entrra, sem dar o nome, era uma figura que, sem articular
palavra, impunha silencio aos que o recebiam. Trajava pobremente.

Quem buscasse um modelo para a estatua da imagem do infortunio,
acha'-la-ia n'aquelle homem.

E, sorrindo, offerecia a mo ao coronel, que viera, chamado por sua
esposa, a contempla'-lo rodeado dos filhos, que pareciam perguntar-lhe
quem era o extranho hospede.

Aquelle silencio, precursor de lagrimas, no podia conter muitos minutos
coraes anciosos.

--Quem  o senhor? perguntou o coronel.

--Quem sou eu?! respondeu o desconhecido.--Trinta annos de clausura, e
alguns mezes de trabalhos desfiguram a face de um irmo!...

O coronel correra aos braos do hospede. Maria, organisao melindrosa,
que presentia j os calefrios de um enthusiasmo juvenil, estremecia
d'aquelle tremor nervoso, em que as lagrimas da alegria denunciam alma
vehemente, apaixonada por tudo que  grandioso. Sua me tomava a mo de
seu cunhado entre as suas, que pareciam erguidas em graas ao Altissimo.
As outras creanas volteavam alegres em redor do grupo, e figuravam
outros tantos anjos a solennisarem aquella festa na tristeza, e aquelle
jubiloso alvoroo do sangue, quando o espirito se confrangia na dr.


XV

Fr. Antonio dos Anjos fra um oraculo de sciencia, e um exemplo de
santidade no seu mosteiro. Filho de paes opulentos, de virtudes, herana
de avs corajosos de brao e espirito, o seu patrimonio de resignao
no pudera a politica espoliadora apregoa'-lo na praa. Affeito a
encaminhar, com mo segura, pelas margens do abysmo, os que a dr
extravira, o monge amparava-se na altura da dignidade de martyr. No
centro d'aquella familia, quem mais paz e alegria soboreava no corao
era elle. Elle, sim, que trinta annos havia, despira as galas do mundo,
e envergra o habito que desfigura as frmas do corpo, e as feies da
alma. Elle, sim, que trinta annos vivera pobre d'aquelle ouro que
afervora a adorao das multides; e, ento expulso da sua enxerga, e do
seu refeitorio, no geme a falta de um ouro, que nunca possuira.


XVI

--Quereis a historia dos meus trabalhos, no  verdade? perguntava o
monge, com sua sobrinha Maria sentada nos joelhos, e com dois dos outros
abraados.

--Sim, sim, queremos respondeu Maria com extranha vivacidade.

--No--replicou o coronel--no recordes penas que te no alliviam o
receio de outras maiores...

--No  assim...--tornou Frei Antonio--As afflices, que se recordam
com serenidade, parecem zombar das afflices por vir...

--Conte, conte... meu tio instou Maria com muita doura, dando  voz a
terna inflexo de uma supplica.

E frei Antonio, alegre como se contra apraziveis lances da fortuna,
contou assim o transito doloroso dos ultimos mezes da sua vida:

Viver trinta annos, vendo todos os dias o leito onde se espera morrer,
e a sepultura onde o repouso do corpo continuar, foi a minha vida do
mosteiro. Ao lado d'esse leito, e d'essa sepultura, vigia quasi sempre o
espirito, porque na terra nem ao justo  permittida completa
tranquillidade. Vigiar,  entregar ao espirito a guarda do corao; 
pr os olhos em Deus, alonga'-los ao mundo da esperana, enxugar-lhes o
pranto por homens, que o desprezam e o desprezam porque o no
comprehendem. A vigilia de um monge, tem, s vezes, dres, que ninguem
pde imagina'-las, sem sentir-se abrasado do santo interesse da
humanidade, que se espedaa.

No me viste sar da casa do nosso pae, meu irmo!... Eras creancinha,
e do colo de nossa me me deste um beijo, que me fez chorar, porque era
o ultimo, que me davas com labios de innocencia. Nunca mais te vi; mas
essas lagrimas, que te vejo agora, so as do meu irmo...  impossivel
que o no sejam. Sabias tu que eu existia?

--Sabia, mas ha doze annos que no tive novas tuas respondeu o
coronel.

--Ha doze annos...  verdade... Ha doze annos que frei Antonio dos
Anjos descera a um tumulo... O espirito vivia... mas o espirito do
penitente, vinculado pela expiao  imagem do seu crime, quebra os
vinculos do sangue, se os tem no mundo.

A voz do padre balbuciava estas ultimas palavras, cortadas de pausas,
que traam a sua serenidade contrafeita.

Seguiram-se o silencio, e a anciedade.

Frei Antonio,  custa de um grande sacrificio, e de uma penosa
recordao, explicou a seu irmo o extranho silencio de doze annos.

Doze annos tinham sido o prazo em que as noites eram veladas pelo
remorso do homem, que tentra uma vez quebrar a alliana que fizera com
a renuncia de todos os gosos terrenos. Doze annos de purificao para
quem se manchara, um minuto, na rebeldia aos estatutos da sua ordem,
fra um grande prazo, uma longa expiao, um zelo suicida, talvez!

 que os homens no o comprehendem. Doze annos de crimes, e um momento
de remorso... isso sim, que, se no em todos os criminosos, em alguns
pelo menos,  verosimil e explicavel.

Esses prodigios explica-os facilmente a philosophia materialista: no 
o remorso, nem os gemidos do bem torturado pelo mal, nem o temor de
Deus:  a organisao com seus mysterios. Mysterios na escola da
materia, onde a natureza, positiva e carnal,  tudo! Como  que da seiva
do erro se nutrem viosas as vergonteas da verdade? As luzes faiscam do
seio das trevas. Ha mximas preciosas que brilham ao claro dos
incendios philosophicos.


XVII

Frei Antonio continuou:

Entro pobre em tua casa, meu irmo; porm a desgraa  uma riqueza,
quando com ella suavisamos desgraas alheias. Contando-te as minhas
amarguras no adoarei as tuas?

--Deus--respondeu o coronel--suavisou-m'as antes de ti, meu irmo.

--Bemdito seja Deus!--tornou o padre--era essa a resposta que eu pediria
a Deus que te inspirasse!... pois bem... seja a minha historia um
passatempo... Peregrinareis comigo n'estes infernos da terra que os
homens crearam. Aqui me tendes com a tunica, e com esparto de Dante...
Serei para vs o que foi o poeta para a humanidade... recrear-vos-hei...

O frade afastra as bandas do capote, e deixra vr o habito de S.
Francisco. A magestade da sua postura excitra um calefrio respeitoso em
todos, e elle mesmo, tocado pela consciencia do effeito religioso
d'aquelle acto, no susteve a lagrima do enthusiasmo, que  sempre
revelao de espiritos ardentes. Maria, alma to cedo estreada na poesia
da dr, cedo principira a enlevar-se n'aquelles transportes, que a
tragedia excita em pessoas que vem o theatro pelos olhos da innocencia,
e no podem desmentir o que vem pelos calculos frios da razo. Maria,
pois, impressionra-se mais que seu pae e sua me da attitude pathetica
de seu tio. Mais tarde confessou ella que sentira dobrarem-se-lhe os
joelhos, e de certo ajoelhra, se frei Antonio lhe no tomasse as
mosinhas que pareciam ajustarem-se em adorao extatica.

Esta scena fra muda. O silencio  o desafogo das grandes emoes, que
nos abafam o espirito, enturvando-nos a razo. Parece que a consciencia
precisa digerir esses alimentos extraordinarios, que so a vida energica
das almas flexiveis.


XVIII

Proseguiu o frade:

Quando, ha quatro mezes, os religiosos de *** viram approximar-se a
hora de entregar as suas cellas  revoluo, ajuntaram-se para
deliberarem sobre a sua vida, como homens que d'ahi a pouco no tinham
posio alguma no mundo, que lhes valesse um bocado de po. Alguns eram
de casas remediadas, outros irmos de fidalgos, sacrificados ao partido
que lhes assegurava os seus privilegios; mas nenhum contava com asilo
seguro no tecto paternal, porque o temor da perseguio fazia-nos pensar
que eramos homens expulsos da familia, e da sociedade. Entregmo-nos a
Deus. E, depois, no meio de ns estavam uns homens cobertos com o nosso
habito, vivendo comnosco ha muitos annos, ajoelhando comnosco ao mesmo
crucifixo, e comendo comnosco no mesmo refeitorio. Eram os nossos
maiores inimigos. Velavam-nos desde matinas a completas; desde a orao
commum do cro at ao ultimo padre nosso rezado no isolamento da cella.
Eram como os pretorianos de Nero syndicando os actos religiosos dos
agapes de Christo. Chamavam-se liberaes, illustrados e amigos dos
homens. De Deus sabia eu que elles o no eram. Dos homens, cruel amizade
era a sua, que precisava enfeitar o seu altar com o sangue dos seus
companheiros!

Nos ultimos mezes da nossa communidade... deixae-me dizer-vos uma
prophecia amarga: nos ultimos mezes das ordens religiosas em Portugal,
apresentaram-se aquelles padres ao prelado, e pediram a sua liberdade.
Prevenindo alguma ligeira censura, em nome da regra do patriarcha,
lembraram ao guardio que o punhal era a arma do homem livre, quando os
algozes da humanidade no accediam aos augustos preceitos da razo
natural.

O prelado era um justo, que chegra aos oitenta annos, com os cilicios
nos rins, vergando sob o peso de austeridade, alliviando quanto podia
esse gravame dos hombros menos rijos dos seus subordinados. A morte,
porm, era-lhe menos afflictiva que o pesar de uma tibieza de
disciplina. A sua resposta foi simples:

Deixemos vir a mo da liberdade bater  porta do mosteiro e seremos
todos livres ento. Uns, livres para morrer no desamparo. Outros, livres
para viver de vergonha. Todos seremos livres. Em quanto a vs, meus
irmos, pedirei aos servos de Deus n'esta casa que peam ao Senhor para
vs as consolaes e a prudencia que no posso dar-vos. Retirae-vos, que
sou chamado ao cro.

Retiraram-se; mas, dois dias depois, ao amanhecer, foi aberta por
violencia a portaria. Alguns homens d'alli sahiram vestidos, e armados
como guerrilheiros. O padre porteiro, que subira  cella do prelado a
annunciar-lhe o acontecimento, encontrou um cadaver. Ao passar-lhe a mo
pela face topou um crucifixo inclinado sobre o seio. Ao agita'-lo,
humedeceu as mos no sangue que borrifra os lenoes. Gritou. Acudiram
os monges. Em volta do seu leito ajoelharam homens que choravam. No
tinham outra supplica, nem balbuciavam uma palavra. Um justo estava ali
morto: mataram-n'o seus irmos, em nome de uma liberdade, que no
consentiu ao venerando ancio a liberdade de viver mais alguns dias.

--Era preciso matarem-no para fugirem?--perguntou Maria com os olhos
turvos de lagrimas.

--No seria preciso, minha filha, mas as chaves do mosteiro so
entregues ao prelado: mataram-n'o, tirando-lh'as.

--Mas o crucifixo,--replicou ella quem lh'o poria sobre a face?

--Foi o moribundo a quem os assassinos deixaram tempo de pedir a Deus o
perdo dos seus matadores.

--Que acontecimento to triste, minha me!--exclamou assombrada a
menina, tomando entre as suas as mos de sua me. E continuou: Eu no
pensei que os homens podiam fazer isso!... Quem me dra o co para meus
paes e meus irmos!

--E para o tio padre, no, meu anjinho?

--Meu tio tem certo o co, porque tem soffrido muito, no  verdade?

--Muito, minha menina; mas no  j bastante o que tenho soffrido?

--Penso que sim... Eu no sei ainda a sua vida, mas lembra-me que meu
tio pde fazer que os homens sejam bons, dizendo-lhes historias que os
faam ter d dos que soffrem.

Olharam-se todos com admirao.  que Maria contava sete annos de edade;
e alguns mezes de soffrimento. Predestinao!?...


XIX

Ao anoitecer de um dia passado em oraes e suffragios por alma do
nosso chorado prelado--continuou frei Antonio--ouviram-se tiros ao longe
do mosteiro. Eramos quarenta e tantos os monges assombrados pelo terror
no sei se da morte, se das injustias da humanidade a quem no
offenderamos. A egreja, escura e silenciosa, afigurava-se-me um grande
tumulo, e um doce repouso. Ajoelhei. Ajoelharam todos. E lembra-me com
emoo o fervor d'aquellas preces murmuradas como a derradeira supplica
do que vae apparecer na presena de Deus. Os tiros avisinhavam-se, e o
alarido, ao principio confuso, era j perto um grito distincto: _morram
os frades! abaixo os ladres!_

Eram 23 de Outubro de 1833. Que noite aquella, santo Deus!...

As balas ouviamo'-las zumbir, e bater na parede da egreja, e nas
vidraas do zimborio. Todos os servos empregados na casa vieram
ajuntar-se s nossas oraes, acobertando-se com a proteco dos
ministros de Deus, como debeis mulheres, em semelhante lance, buscando o
invalido apoio de seus maridos. Ns no podiamos nada, quando 
debilidade de nossas foras moraes ajuntavamos a resignao, o abandono
de nossas vidas aos decretos da Providencia. Os paroxismos tinham sido
longos e trabalhosos. Uma hora de preparao para receber a morte, que
sentiamos avisinhar-se com a vozeria, e com os tiros, devera
quebrantar-nos o espirito, aniquilando-nos lentamente a esperana.

--E no tinham esperana nenhuma? Deus no podia salva'-los ainda?
perguntou Maria.

--Ns, minha filha, no pediamos a Deus a vida: pediamos-lhe a salvao,
a vida da alma. A morte no nos atormentava: poderia a natureza
estremecer em ns com o terror do ferro, que no'-la daria; mas o Eterno
manda que o espirito proteja as fraquezas da materia.  muito grande a
providencia do Altissimo! Quando a morte se nos apresenta como um
decreto irresistivel, sentimo-nos tanto mais longe da terra, tanto mais
perto da eternidade, quanto a esperana da vida nos foge, e o frio da
morte se chega. O que seria a morte do impio, apegada  vida, se no
fosse esta resignao providencial, este esquecimento proprio, este
mortal entorpecimento do corpo, antes que o espirito se deprenda das
algemas, que parecem aperta'-lo mais na hora final?... Maria, tu
entendeste-me?

--Penso que sim, meu tio. Deus quiz que a morte lhe parecesse um bem, em
comparao do mal que estava soffrendo: no  assim?

--Sim, meu anjo. Deixa-me beijar-te que s uma boa parte da indemnisao
que a misericordia divina me d pelos meus padecimentos.


XX

O mosteiro estava cercado de povo, attrado alli por um homem, que,
depois de conspurcar uma patente no exercito realista, e avexar com
despotismos os constitucionaes, viera buscar refugio entre ns.--Algumas
balas bateram contra a porta principal da egreja mas no puderam
vara'-la. Outras vinham, atravs das frestas, encravar-se nos altares.
Uma, batendo na lampada do SS. Sacramento, apagou-a, espargindo os
estilhaos de vidro sobre nossas cabeas. No se ouvia uma exclamao de
dentro, nem um ai afflictivo dos que alli rezavam ajoelhados, quando um
de entre ns proferiu em voz alta o acto de contrico. Ento, sim, as
lagrimas rebentaram de todos os olhos: o espirito resurgiu da prostrao
em que cara, e as vozes harmonisaram n'um murmurio profundo, arrebatado
e magestoso como um _de profundis_.

Os gritos de fra eram ameaas de morte, sem excepo de pessoa, seno
abrissem a portaria. Nenhum de ns abandonou a sua humilde postura de
martyr. Sentimos que se arvoravam escadas s janellas lateraes do
templo: ouvimos um machado, cem machados lascando as portas. O echo das
pancadas reboando pelas naves tinha em si um no sei que de terrivel,
que fazia arripiar os cabellos e gelar o corao!

Rasgada uma fenda na porta, entraram alguns poucos que franquearam as
portas  chusma de povo.

Era noite alta. No se via ahi um homem grave sobre quem pesasse a
responsabilidade d'esta sacrilega violencia. O relogio do mosteiro dera
onze horas, e nunca to melancholico me pareceu o som d'aquelle bronze,
que, havia quinhentos annos, chamava as turbas  orao, e n'aquelle
instante, assignalava a hora da carnificina dos ministros de Jesus
Christo. O tropel d'aquella gente denunciava uma multido grande.
Sentimo'-los approximarem-se amotinados, gritando, uivando, rugindo,
como tigres que partiram as grades da jaula, como possessos que deliram
na sede febril de sangue. E, topando-nos de joelhos, virados para Deus,
e quietos como phantasmas immoveis, pararam. Reinou um silencio de
minutos. O anjo bom d'aquelles homens calou-lhes por momentos o grito
sanguinario. O pensamento do bem, a ida de Deus passou-lhes pelo
corao instantanea e fugitiva como a restia do sol por entre as nuvens
torvas da tempestade. Os instrumentos do mal no podiam renunciar a sua
misso. Cada um de ns sentiu a mo de um inimigo arranca'-lo com
violencia  sua immobilidade. Um grito deu alento a todos os gritos.
_Morram!_ era o mais distincto, era o bramido sinistramente harmonioso
de muitas vozes. Senti algumas cronhadas d'arma acurvarem-me a cabea
para as lageas do altar, salpicado do sangue que me resaltra do nariz e
da boca. Dos meus companheiros ouvi alguns gritos que me pareceram de
estertor; e senti que alguns vinham arrastados.

No pude presencear as agonias de meus irmos mixturadas com as minhas.
Uma bayonetada, varando-me uma perna, fez-me perder os sentidos, e cahir
com a cabea no degrau do altar de Nossa Senhora, onde despertei
depois.


XXI

--No altar de Nossa Senhora... no altar de minha madrinha!... exclamou
Maria, com a face coberta de lagrimas.--E, depois, meu tio--continuou
ella--que lhe succedeu, quando tornou a si? No lhe fizeram mais algum
mal?

Os flagellos no tinham ainda principiado, minha querida menina. Tu
vers que a dr de um golpe, no punge tanto como o escarneo de uma
affronta moral. Quando recobrei o sentimento, pedi a Deus que me
fechasse os olhos, e logo em seguida lhe pedi perdo da minha supplica.
Compreendi nos meus padecimentos a expiao dos crimes da humanidade e a
redempo dos meus peccados. Fui ahi trazido a pontaps, quando o sangue
me escorrria da ferida. Fizeram-me, e aos meus companheiros, servir
canecas de vinho quella gente, que se movia em ondas pelos dormitorios,
bramindo na embriaguez do seu odio. Quando a custo me pude desviar do
tumulto, comprimi com o meu leno a ferida, e esperei ensejo de poder
fugir para morrer em paz debaixo de algum tecto piedoso. No pude. Ao
amanhecer fomos levados  casa do noviciado, e fechados  chave com
vigias  porta, para no tentarmos o arrombamento.

Olhavamo-nos com uma especie de idiotismo doloroso. No sabiamos
palavras de consolao, porque a amargura era extrema em todos. Em
tamanha afflico tinhamos s a linguagem da afflico: oravamos. E nem
um s reclinou a cabea no cho para adormecer a agonia. Parece que o
travo da morte, assim demorada, adora o corao de tantos infelizes.
Nunca eu senti em mim to santa, to divina a influencia do temor de
Deus. Esperava amanhecer na eternidade,  luz da justia eterna, e da
misericordia do Summo-Bem. A orao pelos meus inimigos era de um sabor
indizivel, de um allivio intimo, que tanto mais se prende  creatura
quanto ella se resigna nas tribulaes! Bemdito seja nosso Senhor Jesus
Christo, que por cada afflicto reparte uma faisca d'aquelle incendio de
caridade em que expirra na cruz, pedindo a seu Pae o perdo para seus
matadores!

Frei Antonio no pudera, se quizesse, represar as lagrimas. A sua
familia chorava, porque a voz convulsa, soturna, e sombria do padre,
entrava no corao dos ouvintes, como as ultimas palavras do sacerdote
no espirito do christo agonisante.

O sol--proseguiu o padre--coava pelas frestas do noviciado uma restia
pallida, que illuminava um crucifixo, esquecido pela populaa. Se cada
um de ns fosse particularmente consultado em seu corao, no momento em
que aquelle raio do sol nos allumiou, dissera a devoo fervente com que
saudou a luz do co, irradiando-se na effigie augusta do Creador do co
e da terra.

Decorreu uma hora, sem que o silencio nos fosse quebrado por alguma
voz. Julgmos abandonado o mosteiro como cidade viuva de seus filhos e
espoliada das suas alfaias. Um de ns foi  porta escutar, e desmentiu
as nossas conjecturas. Junto  porta resonavam profundamente as nossas
guardas.

Soaram nove horas, quando os primeiros echos reboaram pelos
dormitorios. Como atalaias nocturnas, os brados reproduziram-se,
reforaram e subiram ao alarido compacto com que principiaram. Os
vituperios vinham, como ondas sobrepostas, bater  porta do nosso
carcere.

A porta foi de improviso aberta. Mandaram-nos enfileirar. Cercaram-nos
como a animaes extranhos, que movem a curiosidade. Emquanto eramos
insultados por palavras de um outro menos soffrido e mais ultrajador,
cuspiam-nos na face, e arrancavam-nos os cabellos. As mulheres, com as
faces rubras do vinho, e com as linguas afiadas no sarcasmo villo e
truanesco do seu officio, soltavam-nos aos ouvidos risadas ferozes,
mixturadas com empuxes que nos davam ao capello, e aos cordes do
habito. Esta situao penosa e indizivel durou meia hora.

Mandaram-nos sar, escoltados, e fazer alto no pateo do mosteiro. Ahi
lanaram ao primeiro uma corda ao pescoo, que vinha encadeando um por
um at ao derradeiro monge. Depois mandaram-nos curvar o pescoo tanto
quanto fosse preciso para assentar uma albarda. Penduraram-nos algumas
campainhas ao pescoo, e mandaram-nos andar.

Caminhmos uma legua, e fizeram-nos parar para reconhecermos um cadaver
que se dizia pertencer ao brigadeiro realista Pessoa. Era effectivamente
o seu. Dias antes estivera elle em nossa casa, j de retirada para a
sua, visto que as foras sitiantes do Porto comeavam a dispersar.
Pedimos-lhe que se acautelasse porque os seus maus feitos tinham
excitado o odio, e a vingana. Respondeu-nos, que tinha um
salvo-conducto na sua honra, e na sua consciencia pura. A sua
consciencia no devia estar tranquilla... Este mau homem fra morto
n'uma ribanceira pedregosa que nos ficava ao lado esquerdo da estrada.

Caminhmos outra legua, e fomos mettidos n'uma cadeia, onde mal nos
podiamos mexer. As prises do pescoo affligiam-nos muito; e a sentena
de morte fra-nos lida quando entrmos, no caso de quebrarmos a
arreata como elles nos disseram.

No vos posso contar com miudeza que tormentos provmos durante vinte
dias que ahi vivemos. O frio, a fome, a insomnia, a falta de respirao,
todas as privaes que pode soffrer um homem, bemdito seja Deus,
complicaram-se ahi... Que padecimentos! A piedade tremia de
approximar-se do nosso infortunio. Homens bem trajados apiedavam-se; mas
temiam o povo esfarrapado. Algum boccado de po vinha atravs de
difficuldades, e no ardor da sede as lagrimas serviam-nos de refrigerio
aos labios queimados da febre.

No fim de vinte dias foi-nos dada a liberdade, sob a condio de no
caminharmos para o sul. A infraco d'esta lei implicava pena de morte.
Pensavam que viriamos procurar o exercito do sr. D. Miguel. A condio
era escusada para mim. Ministro de Deus, jurado  caridade e s
humilhaes, o meu brao, consagrado  elevao da hostia, no
levantaria o ferro contra homens, ou barbaros, ou portuguezes. Eu
maldigo em nome de Deus os meus irmos que borrifaram de sangue a tunica
legada pelos apostolos. A arma do sacerdote  o corao votado a
abrandar a justia do Altissimo, que faz dos homens o instrumento de sua
vingana contra homens. Se me chamassem ao mais perigoso de um combate
para acalmar, em nome de Deus e da caridade, as iras sanguinarias dos
partidos, eu cruzaria as balas, e as baionetas travadas, corajoso, como
um filho da patria, e um sacerdote de Christo. Viria, meu irmo, viria
ajoelhar-me na frente do teu regimento, e pedir-te em nome da tua esposa
e de teus filhos, que me deixasses fallar ao rei antes que mandasse voar
a morte das espingardas dos teus soldados.[1]

Ests anciosa pela continuao da historia, minha menina? Olhas tanto
para mim!... Tens entristecido com as desventuras do teu pobre tio?

--E tenho chorado... o tio no v?

--Vejo, vejo, menina. E sabias que no mundo havia homens que fizessem
assim padecer outros de quem no receberam alguma offensa?

--Pensei que no... Meu pae, e minha me, e meus irmos so todos to
bons, to meus amigos, to dados uns com os outros... e eu no conhecia
mais ninguem. E como  possivel ser-se assim to cruel, diga-me, meu
tio?

--Digo... direi, minha filha... mais tarde... Queres agora o fim da
minha triste peregrinao at  casa de teus paes?

--A tua casa, meu irmo--atalhou o coronel.

--Sim, sim, a sua casa, meu caro irmo--disse a esposa do coronel.

--Pois no somos ns todos a mesma familia?!--perguntou Maria com um
sorriso de candida alegria e admirao.

--Graas vos sejam dadas, meu Deus!---exclamou o padre.

     [1] Se Fr. Antonio ampliasse um pouco mais estas suas reflexes
     muito judiciosas, invectivaria os frades que, fra das linhas de
     Lisboa, despejavam fogo para os de dentro com uma coragem e
     disciplina digna de granadeiros da guarda imperial. Alguns d'esses
     estavam ahi provando pela pratica as theorias vociferadas do
     pulpito, desde 1828 at 1832. No foi mais do que lanar um
     correame sobre o habito, e substituir ao som da palavra incendiaria
     o som do arcabuz homicida. Se no recessemos desnaturalisar o
     romance pondo na bocca de frei Antonio censuras inverosimeis aos da
     sua politica, se  que elle tinha alguma alm da do Evangelho,
     seria elle o que nos poupasse o trabalho d'esta nota para que se
     no diga que o auctor acoberta um pensamento hostil  liberdade,
     afeiando o quadro inevitavel, no conflicto d'ella com o despotismo
     em paroxismo. A leitores de m f respondemos com a boa f de
     imaginarmos, antes de comear o romance, que os no teriamos...


XXII

Eramos vinte e dois homens abandonados  Providencia, ss com a nossa
desgraa, sem futuro e sem esperanas de alcanar um bocadinho de po
mendigado. Eis a nossa situao. Era foroso separarmo-nos. Companheiros
de noviciado, quasi amigos de infancia, condiscipulos, presos ao co e
ao sacrificio por um lao commum, affeitos a harmonisar as nossas vozes
em aco de graas, a dobrar os joelhos no mesmo cho, a comermos 
mesma mesa, a soffrermos ao mesmo tempo os flagellos que attrairamos
sobre ns, porque em todas as nossas frontes fra escripto o caracter
indelevel de nossa humildade... Eu no tento dizer-vos como foi amargo,
como foi chorado aquelle adeus... _para sempre!_ Antes o martyrio, e
que nos apartem! exclamava um em quanto outro, debulhado em lagrimas
nos braos de seus compaheiros, pedia um tumulo para todos ns! Foi um
lance cheio d'aquella nobre dr, que tanto honra o corao humano. O
supplicio da separao d'aquella pequena sociedade cujos membros, no
canados, no egoistas, amavam-se como virgens na esphera innocente dos
seus amores de collegio... podereis vs comprehende'-lo, meus amigos?
No! Deus quer que no!  sentir-se a morte, que parece deixar no
corao um alento de vida para o tormento da saudade; mas aniquila todas
as alegrias, todas as esperanas... que so a vida na terra.

E separmo-nos!... que irresistivel imperio tem a desgraa, meus
filhos! Recuavamos a cada passo para um novo adeus, para um novo gemido,
convulso, apertado na garganta, como se a dr nos fosse prohibida. Este
doloroso trance demorou-se muito. Alguem, condodo de ns, avisou-nos
dos rumores que corriam a nosso respeito na villa proxima. Dizia-se que
tencionavamos, reunidos, caminhar para onde nos fosse possivel pegar em
armas. A calumnia podia tudo ento. O odio foi fertil em pretextos...
Ora o amor da vida fez calar o grito da saudade. Demos o ultimo Adeus. O
ultimo... foi o ultimo, meu Deus!... Diz-me o corao que sim.

Entrei n'uma aldeia, onde fra prgar um anno antes. Pedi gasalhado na
casa de um lavrador. Foi-me negado. No instei. Fui  porta de um
jornaleiro: achei-a franca. Era assim o seu corao, porque o pobre, sem
vergonha nem pesar de o ser, tem uma alma cheia de bondade. Pedi-lhe
umas palhas: deu-me a sua cama, a sua manta e o seu lenol de estopa.
No lhe pedi mais nada: mas o pobre deu-me o seu caldo, o seu po
amassado em suor, e o seu apresigo, producto das economias da semana
para solemnisar o dia do descano. E adormeci abenoando o po do pobre,
em quanto elle, sentado ao lar, rezava o seu rosario, ou espertava a
fogueira para me ser menos sensivel a pouca roupa da cama; O pobre ser
sempre o eleito, o ente privilegiado para as virtudes praticas do
evangelho. Jesus Christo adoou-lhe o travo da penuria, dando-lhe ao
espirito o antegosto das riquezas que enthesoura no co.

Adormeci.

E alta noite, fui acordado em sobresalto pelo meu hospede. Ouvi tiros.
Que ? perguntei eu. No sei ao certo, senhor. Ha pedao que ouo
estes tiros, e estou com medo... Que venham ter comnosco? perguntei
eu. Sim, senhor; mas eu vou ver o que  respondeu o bom homem.

Eu quiz conte'-lo; mas elle convenceu-me da segurana da sua empresa.
Quando voltou, disse-me que tinham sido mortos dois frades do meu
convento em casa de um tal lavrador. Imaginae o meu terror. Quiz saltar
fra da cama, trocar o meu habito por alguns farrapos e fugir; mas o
jornaleiro estorvou-me com boas razes. A casa de um pobre, disse elle,
 mais segura. No a perseguem as grandes desgraas, porque tambem a
no procuram as grandes felicidades--disse eu na minha consciencia. Orei
por alma dos meus infelizes amigos, se o seu martyrio no era expiao
bastante de suas faltas.

Amanheceu, e tive mais informaes. Dizia-se que dois monges
desfigurados vieram bater  porta do lavrador que me tinha recusado a
entrada. A porta fra-lhes aberta, porque ninguem de casa os conheceu ao
principio. Recolhidos, foram logo conhecidos; mas era tal o seu
contentamento, e a sua linguagem que o lavrador adormeceu descanado com
os seus dois hospedes, que, por mais de uma vez, declararam com
arrogancia que j no eram frades. O lavrador no os comprehendeu. Mas,
alta noite, uma guerrilha forara a porta, entrra e matra os dois
desgraados que tiveram a louca ousadia de resistir com bacamartes,
depois de malogradas as suas razes. Surprehendeu-me esta noticia!
parecia-me um conto disparatado!

O jornaleiro arranjou-me um fato semelhante ao seu. Desfigurei-me.
Providencia de Deus! No instante em que me vestia, olhei para a ferida
que recebera na perna, e encontrei-a quasi cicatrizada!  quando o atheu
o reconheceria o anjo do Senhor, pensando as chagas da alma e do corpo
quelles que o confessam!

Sa. O quinteiro do lavrador estava a trasbordar de povo. Conheci que
os cadaveres estavam no centro.--Atravessei a multido, at junto do
carro onde os mortos estavam... recuei horrorisado! Senti preciso de
gritar: justia de Deus! mas cedi a um sentimento egualmente grande.
Do meu peito sau outro grito: misericordia, meu Deus!

Informei-me. Estes dois infelizes caminhavam para suas casas, com o
cofre das economias do convento. Eram os assassinos do venerando
prelado.

Aquelle sangue escrevera na face de taes homens uma lugubre sentena de
punio. Quem seriam os instrumentos de vingana? Ignora-se.

Meus amigos, erguei a Deus as mos, e os coraes. Oremos pelas almas
dos meus desgraados companheiros!

E oraram de joelhos. Maria tremia como de susto.


XXIII

No me demorei tempo algum n'esta aldeia--disse frei Antonio--Pedi ao
meu pobre bemfeitor que me guardasse o meu habito, e prometti pagar-lhe
o seu, que elle me deu com lagrimas de contentamento.

Caminhei incognito, pedindo esmolas. Atravessei dez leguas para o
norte, e assim assegurava cada vez mais a minha vida, no infringindo a
condicional de morte, se eu caminhasse para o sul.

O padre soltou aqui um sorriso de ironia inoffensiva e continuou:

Achei-me no Valle d'Aguiar, ermo de paz, de tristeza santa. Cercado de
montanhas pedregosas, a planicie abrange duas leguas, e perde-se na
pittoresca Villa Pouca d'Aguiar. To profundo foi o meu desalento quando
ahi me vi. Quanto depressa me afiz quellas varzeas, e quelle co que
parece firmar-se nas cristas das montanhas.

--E como vivias ahi, Antonio? perguntou o coronel.

Vivia  sopa de um lavrador... Pasmas, meu irmo.

--Entristece-me de ver a miseria a que pde descer um homem do teu
nascimento.

Do meu nascimento! disse o padre, sorrindo--O que  o meu
nascimento!... Essas jerarchias so filhas da nossa miseria; a desgraa
no conhece nem o fidalgo nem o jornaleiro... No me lamentes, meu
irmo. O homem s reconhece a sua dignidade quando vive pelo trabalho do
brao ou da intelligencia. Que maior nobreza querias tu que eu tivesse?
Eu antes queria grangear assim nobremente o meu po com o meu brao, e o
corao, cheio de vontade. E pensas tu que a sociedade estaria corrupta
pela jerarchia, se a ociosidade no estivesse em guerra constante com o
trabalho? Medita, meu irmo, e vers que este paiz tinha excrescencias,
que o obrigaram a deitar-se no doloroso leito de Procusto em que o
ouvimos gemer... e gememos todos.

--Deixemos philosophias. A minha querida sobrinha quer que eu lhe diga
como vivia...

--Isso j eu sei... era trabalhando...--atalhou Maria.

--Trabalhando, sim, por um salario de jornaleiro, e agradecendo ao
Altissimo a robustez com que me dotara sentindo-me at com foras para
poder lanar mo da enxada, e roar um carro de tojo. _Roar um carro de
tojo_  sentir a gente a cada instante a preciso de arrancar espinhos
que se cravam nas mos e nos ps.  ir com as gabelas s costas
empasta'-las no carro, arfar de canado, limpar com a manga de uma
vestia de borel a face alagada de suor, carrear outra e outra gabela,
durante um dia inteiro interrompido por uma hora do dia em que se come
um caldo de couves, e umas batatas salpicadas de sal. Ajoelhava a pedir
a Deus coragem, foras e resignao: no lhe pedia melhor po, nem
melhor vida. Sabei que o temor de Deus  uma renuncia, que a materia do
homem faz ao espirito, que  do Creador. A Providencia transfigura o
infeliz, ao passo que o infortunio lhe vae mudando em dr as lagrimas.
E, se no, dizei-me: quem me obrigou a mim a occultar o nome que poderia
alliviar-me de alguns rudes trabalhos de lavoura? No poderia eu ser
mestre de meninos? No tenho eu o meu caracter de ministro do altar, e a
minha pobre intelligencia para remediar n'um pulpito o ministerio
apostolico? Tinha, e vivia em terra que me daria proteco. E, com tudo,
nunca me escasseou o alento para trabalho mais pesado, nunca me senti
doente ao levantar-me da minha enxerga, antes de amanhecer, para vigiar
os fructos, em que me estava garantido pela omnipotencia do Senhor o
premio do meu trabalho. Os monges primitivos da minha ordem como  que
viviam? No cultivavam elles os seus campos, e no cosiam os pannos da
sua tunica?  que ainda ento no viera o privilegio e a classe
sanctifiar a inercia do corpo em virtude da varia cr dos sangues. Santo
Deus, como so pasmosos os caprichos que rebaixam a magestade do homem
trabalhador, alteando ao fastigio do acatamento o ocioso por merc de
uma herana!...


XXIV

Finda a guerra, expirava a condio da minha liberdade: caminhar sempre
para o norte. Comecei a soffrer saudades da minha familia. O corao
vaticinava-me que vs existieis. E, depois, a vontade era energica, e
irresistivel. Pareceu-me sobre-humano o estimulo. Despedi-me dos meus
bemfeitores. Rodearam-me os filhos, e chormos todos. Tra-me em algumas
palavras que soltei. Arrebatou-me a poesia d'aquelle adeus. Fitaram-me
com espanto: queriam pedir-me perdo... de que, meus filhos?
perguntei-lhe eu!... Deus permittiu que eu me desmentisse. Parti.

Trilhei os passados vestigios da minha jornada. Paguei o vestido que o
jornaleiro me vendera. Recebi o meu habito: bem o vdes; mas o capote?
perguntaes vs. O capote  a esmola de uma missa que devo s almas do
Purgatorio. A fome estorvou-me o passo muitas vezes nas sessenta e cinco
leguas, que nos separavam.  maneira do homicida, que foge  justia dos
homens, perdi-me por atalhos e devezas, que me dobraram o caminho. Os
ultrajes vexaram-me quando a fimbria do meu habito me denunciava.
Algumas vezes tive em resposta, pedindo, uma ameaa, uma insolencia, um
epitheto injurioso.

Est fechada a minha Illiada de lagrimas. Deixae-me engrandecer at 
valentia moral do bravo capito de Homero. Os cabellos branquearam-se-me
em tres mezes; mas venci a desgraa, porque nas mos do Omnipotente fui
instrumento de fortaleza.

Meus amigos, no quero que a minha historia descaia em sermo. Eis-me
comvosco. Somos todos pobres, no  assim?

--Ninguem  pobre, quando ama, meu irmo--respondeu a esposa do coronel.

-- uma grande verdade, minha irm--proseguiu o frade--o amor  uma luz
que no deixa escurecer a vida;  reflectida do astro eterno; irradia-se
de Deus. E  verdade que me estimaes como vosso? No vos obrigo 
resposta. Deus quer indemnisar-me. Estes meninos so os queridos do
Senhor: falam pelos labios da innocencia: v-se que me amam, e me
querem:  assim, Maria?

--Muito, meu querido tio!--E abraava-o com enthusiasmo e alegria, como
se quizesse consolar os pezares do venerando velho. E abraavam-n'o
todos.

Frei Antonio dos Anjos, com seus sobrinhos nos braos, ajoelhou,
exclamando:

--Graas vos sejam dadas, meu Deus! Destes o amor em recompensa ao homem
attribulado! Trouxestes o pobre velho pela mo ao seio da sua familia!
Provaste-o em todas as amarguras; e no consentiste que o fragil barro
fosse quebrado.




LIVRO II


I

Tinha custado muito sangue, esterilmente derramado a soluo de um
problema que, havia muitos seculos a humanidade procurava resolver: a
miseria. O processo escolhido em cada seculo para o mesmo resultado,
tinha sido identico: a guerra ao rico, em nome do proletario. A unica
situao real, que os homens podem consolidar no marulho fervente das
suas utopias,  conciliar pelo soccorro-mutuo duas idas que parece
repellirem-se: a pobreza e a felicidade. Mas esta situao que as
escolas da philosophia materialista chamavam absurdo, realisa-se pelo
dogma da Associao que  a traduco da fraternidade, que o
christianismo afervora:  a felicidade do homem do trabalho sem attentar
contra o rico. To sublime ida, to grandes factos teem-se operado n'um
grande centro, que, inspirado por Deus, irradia uma luz evangelica por
todos os homens.

Enlaar n'um abrao voluntario a pobreza e o contentamento, esposar
estes dois predicados que luctam rancorosamente no corao da
humanidade, amiga'-los, move'-los a dulcificarem-se, identifica'-los
para que o divorcio os no desligue n'um repelo desesperado: tal
prodigio, um consorcio assim s na pratica do soccorro-mutuo pela
associao pde operar-se, porque  a genuina traduco do Evangelho que
Jesus nos deixou recommendado.

O incredulo do christianismo e da associao ao passar na sua carruagem,
assaltado de cuidados, pela porta do operario, sente-se affrontado pelas
risadas alegres que l vo dentro d'aquelle soto raso com o cho. Tal
homem no possue o capital que mais felicidade produz. No sabe que a
religio e o soccorro mutuo so o incentivo do trabalho. Compreende,
apenas, que o trabalho  o capital unico do proletario. Julga elle que o
artifice alquebrado de vigor, no fim do dia, atira com o corpo s palhas
do repouso para mentir no somno aos flagellos do dia futuro. No sabe
que o amor em todo o tempo, em todas as edades, e em toda a hora do dia,
 quasi um exclusivo do pobre. No sabe que o artista  pae,  esposo, 
christo, e possue um thesouro de affectos que o deixam  beira do
tumulo para entrarem no seio de Deus, como paga de um emprestimo
contrado para adoar as amarguras da terra. No sabe que o
soccorro-mutuo derivado do trabalho faz a tranquilidade do homem
laborioso.

A familia do coronel... era como a familia do artista. Alli, a pobreza
tinha sorrisos, a resignao um triumpho, e os desgraados um exemplo. O
coronel ensinava primeiras lettras. Fr. Antonio dos Anjos ensinava
latim. A esposa do coronel com quatro filhos entranavam cordes para
dragonas e pennachos. Maria, aos oito annos, copiava musica e fazia
flores.

--O trabalho! meus filhos, o trabalho!--exclamava padre Antonio,
extendendo em veneranda postura o brao sobre a mesa, em redor da qual
uma familia alegremente saboreava um parco jantar.

Estariam elles esquecidos do seu passado? como puderam amoldar-se
aquelles espiritos s angustiadas urgencias, ao passadio mesquinho de
operarios? A soberba da educao no se rebella contra a lei oppressiva
da necessidade?

No. O anjo de Deus viera sentar-se no limiar do infeliz, e o demonio do
orgulho no pde tramar as conspiraes do ocio contra a familia
laboriosa. Frei Antonio era o anjo dos alentos, da resignao, e das
esperanas. Venturas que elle via no futuro, ninguem as via; mas
acreditavam-nas todos, porque as suas promessas tinham a uno da
prophecia. E no era calculando eventualidades politicas, nem thronos
arruinados, nem batalhas feridas no seio da patria, que frei Antonio
aventurava promessas. D'onde a inspirao lhe vinha no sabia elle
dize'-lo; mas o santo homem nunca, se levantava dos ps da cruz, que no
trouxesse aos seus uma palavra de esperana, um vaticinio mysterioso.

-- o co que o tio nos promette...--dizia Maria, sorrindo para sua me,
e recortando a folha de um lyrio.

--E que melhor promessa, minha filha?--respondeu a me sem levantar os
olhos do seu trabalho.

--Queres dar a tua lio, menina?--perguntou frei Antonio, anediando os
cabellos negros de Maria.

--Sim, meu tio, mas sem despegar do trabalho, porque tenho grande
tarefa. Hoje ha de, permittindo Deus, ficar prompta esta flor; disse-o a
me... seno... o tio bem sabe...

--Seno o que, minha filha?--perguntou a me.

--Seno...--tornou Maria sorrindo com graciosa malicia--no merendo.

--O teu sorriso faz-me chorar...--disse a me, limpando os olhos, e
violentamente sorrindo.

--Temos lagrimas? Ora vamos...--atalhou o padre, dando s palavras um
tom de risonha ameaa.

--No, que minha me  assim!--tornou Maria.--No pde mesmo a gente
fingir que  infeliz! Permitta Deus que todos se julguem to venturosos
como eu. Tenho pae que amo tanto, e me que mais no posso amar! sou to
feliz!... Minha me no podia ser tambem assim, se achasse a ventura no
meu amor?!...

-- minha filha... exclamou a me.--Obrigas-me a pedir-te perdo...
Castiga-me Deus pelos labios da innocencia... Sim... eu sou muito
feliz...

E abraou-a impetuosamente como impellida por um amor que a
transportava.

O coronel viera testemunhar este lance. Parou respeitosamente diante do
grupo, em que avultava o padre levantando machinalmente as mos para o
co, jubiloso de um sorriso todo alegria, todo luz, que parece
scintillar no semblante do justo. E o mais  que as lagrimas vieram
solennisar aquelles extremos de alegria! Choravam ambas, me e filha,
com as almas afinadas pela mesma emoo, pelo mesmo enthusiasmo no amor.

Frei Antonio antevia a nova organisao economica e social que ha de
corrigir suavemente as velhas imperfeies da sociedade.

--Me, filha, e todos ns--dizia o coronel--seremos felizes com as
vossas inspiraes.

--O contrario seria um crime, meu irmo!--respondeu frei Antonio,
tomando-as ambas, abraadas ainda, entre os seus braos.


II

A vida d'esta familia correra assim tres annos. O dia de hoje, empregado
em grangear a subsistencia do de manh, promettia a mesma
tranquillidade nos dias successivos. E assim passavam.

Frei Antonio era o mestre de Maria. A educao litteraria, que lhe dava,
no era simples. Apaixonado pelos seus, e pelo esplendor da sua patria,
frei Antonio affeiora o espirito de sua sobrinha aos moldes graves da
poesia portugueza do seculo 16.^o Fizera-a decorar a historia nos cantos
das epopas; afinra-lhe o gosto no arrebatamento d'aquelle genio, que
deu lies de resignao aos desgraados. Cames era mais que um poema
decorado por Maria. A cada verso era interrompida, e o poema tornava-se,
commentado pela eloquencia do padre, um fecundo manancial de moralidade.
O sabio no se contentava com o amor exclusivo da sua litteratura. Frei
Antonio amava alguns livros francezes, e os italianos de todos os
seculos. Maria aos dez annos conhecia as duas linguas, e lia, nas horas
vagas desoccupadas da noite, com percepo admiravel. As suas lies no
interrompiam o trabalho das flres. Em quanto de entre os dedos lhe
brotava a rosa, incendiavam-se-lhe as faces, lindas como a flr, pelo
calor nervoso com que expunha episodios de historia, adaptados  sua
intelligencia pelo estylo energico do seu tio. Seus irmos, mais velhos
que ella, porfiavam em imita'-la, e sentiam-se feridos no amor proprio,
quando a viam voar pelo mundo da intelligencia, defeso  sua. Maria era
um prodigio--dizia o pae:--era foroso reprimi'-la na audacia das suas
duvidas sobre motivos religiosos, porque frei Antonio com horror 
superstio e fanatismo no tolerava seno a religio na sua maior
pureza. Maria, tinha uma razo, capaz de perder-se por muito energica
accrescentava o mestre.

Maria, aos doze annos, mostrava singular desenvolvimento de compreenso.
No se lhe difficultavam as entidades ideaes da metaphysica, e
leccionava seus irmos na arte de pensar, como se ao seu espirito
descessem do co revelaes das que encaminham a razo direita ao alvo
das verdades eternas. O juizo, porm, essa faculdade, que no tem ainda
o nome na sciencia do corao, esfrira-lhe o enthusiasmo, que, dois
annos antes, lhe acalorava a infantil eloquencia. Havia tristeza na
amostra do seu talento. Parecia violentar-se quando a estimulavam a
revelar a sua opinio em objectos de sabedoria. At no queria ser
galardoada com applausos, e crava, se a faziam inveja de seus irmos.
Pedia que a deixassem no seu officio de florista, dando-se por contente
do pouco que sabia, pois pouco bastava a uma mulher, que no podia
repousar a cabea, e adormecer no seio da sciencia. A formosa artista
tivera um piano, em que dedilhava os seus primeiros ensaios, quando seus
paes o venderam. Tomara a peito um peso enorme de trabalho, esperando
accumular dinheiro que lhe restituisse o seu piano; e conseguiu-o,
quando o seu nome se fez celebre, n'aquelle genero de enfeites, que a
moda pagava caros.

Em casa do coronel de ***, at esta epoca, nunca se reuniram a um ch
pessoas extranhas. Aquellas portas fecharam-se: o habito applaudiu essa
deliberao forada pelas circumstancias; e, quando estas mudaram, no
foi levemente alterada a sabia economia, que tanto concorrera para a
felicidade d'aquella familia.

No obstante, o nome de D. Maria dos Prazeres no esquecia nos grandes
circulos, nos sales do luxo e da moda. A esse nome estava vinculado o
prestigio de uma familia illustre, nublada pelas tempestades politicas.
Pintava-se com traos exagerados, talvez, a transio da opulencia para
a miseria; faziam-se romances, mais ou menos idealisados pelo gosto da
epoca; contavam-se assombros de um genio que o infortunio acanhava, em
forada obscuridade. Ninguem vira de perto D. Maria dos Prazeres,
ninguem a encontrra fra da rua por onde ia  egreja; mancebos, porm,
que precisavam interessar na sociedade, canada de logares communs,
diziam que a tinham ouvido um minuto, dois minutos, cinco minutos,
maravilhados da sua formosura, e pequenos diante da sua eloquencia.


III

O nome de Fr. Antonio dos Anjos vulgarisou-se com o de sua sobrinha. A
ligao de mestre e discipula apregoava as duas pessoas com egual
elogio.

Um fidalgo de Lisboa quiz conhecer o egresso. Achou-o semelhante aos
gabos, que o engrandeciam. Honrou-o com attenes e obsequios, que
occultavam um fim honesto. O fidalgo tinha um filho de dezoito annos,
rebelde aos rudimentos das boas sciencias, mas em demasia versado n'esta
alchymia do mundo, em que o libertino devora primeiro o cabedal da sua
virtude, e sacrifica depois a virtude alheia, como o escravo infeliz
d'aquelle prestigio queimava no cadinho a sua subsistencia, e seduzia
depois os outros a empobrecerem-se.

Fr. Antonio, instigado pela caridade que lhe impunha a salvao de um
naufrago, acceitou a empresa, recusando a feliz perspectiva que devia
remunerar-lhe o seu trabalho.

O padre considerou-se imprudente em annuir, quando viu a funesta
impresso que tal noticia causou em sua sobrinha, particularmente.
Roubarem-lhe o anjo da infancia, quando, adulta, mais carecia d'aquelle
esteio a que o seu corao se acostumava, era penalisa'-la com saudades
inconsolaveis: era uma crueza, no de um extranho, mas de seu tio, que
no tinha preciso de assoldadar-se ao po alheio. Esta sua queixa,
justificada com profunda tristeza, e continuas lagrimas, pungia o
corao do velho at ao extremo de o lanar no leito da doena. Era
irremediavel a promessa indiscreta: a palavra de honra, que lhe fra
pedida pelo fidalgo: a obrigao que se impoz de arrancar 
libertinagem, que dominava grande parte dos antigos fidalgos, um mancebo
perdido.

Maria, quando viu adoecer seu tio, ministrou-lhe o balsamo da ferida.
Ella mesma, repesa da severidade de seu amor, pede-lhe que v repartir
com os necessitados o po da sciencia e da virtude, que, to farto
repartia com ella.

--Era peccaminoso o meu egoismo!...--lhe diz--No pude vencer-me! O meu
corao  impetuoso. Meu tio no quiz remediar-me este defeito,
reprimindo-me a dedicao com que, ha seis annos, correspondo  sua
amizade. Ambos somos culpados; mas eu sou mais... Fui precipitada.
Lembrei-me que era abandonada, por ser esquecida algumas horas do
dia!...  forte creancisse, no , meu tio?

--Eu!... esquecer-te... minha filha!...--balbuciou o padre.

--Bem o disse eu!  muito meu amigo... leva a minha imagem no seu
corao para onde fr... tem-me ao seu lado nas suas oraes... responde
ao meu corao que lhe pergunta a adivinhao d'estes segredos que eu
tenho aqui, e s meu tio me adivinha...  tudo isto... sim, meu caro
tio?

--Sim, tudo, minha menina.

--Oh meu tio!--continuou ella exaltada--no nos podemos separar. A
intelligencia  um fio electrico. Ha vibraes na minha alma, que, se
meu tio as no ouvisse, seriam perdidas, como as notas de uma harpa
tocadas pelo vento em cima de um sepulchro deserto. Meu pae, e minha
me, e meus irmos, quero-os para o amor, quero-os para o corao, morro
pela sua felicidade se m'o exigirem; mas o meu espirito precisa de
alimento, a minha intelligencia quer um pasto ideal que no acho aqui,
se meu tio me desampara. No v que foi um impulso providencial, que o
trouxe aqui salvando-o de tantas mortes que lhe embaraaram o caminho?
Eu no tenho sido ingrata a Deus: ergo-lhe as mos todos os dias,
reconhecida, humilde, mas venturosa de ter nascido sua sobrinha!... No
me faa persuadir que Deus olha com indifferena as minhas preces...[2]

--Maria, interrompeu o padre, tu no pensaste o que dirias antes de
vires ao meu quarto!... Magoaram-me as tuas ultimas expresses... No me
pareceram tuas...

E Maria arquejava sem desafogo. Parecia no escutar o tio.

     [2]Nem sempre  inverosimil a linguagem figurada. Mais de um
     critico, a estas horas, se indispe contra as hyperboles de Maria,
     aos quatorze annos to espevitada! Pois creiam que no  justo o
     seu reparo. Se lhes eu tivesse dito que Maria convivera nas salas
     onde o lyrismo do corao no tem nada a fazer com a vida
     positivissima que l se vive, em linguagem chan e desenflorada de
     figuras inuteis, tinham razo sobeja para dizerem que nunca por c
     toparam d'estas donzellas Ciceros ou donzellas Gongoras, como
     quizerem. Attendam, porm, ao facto, se no teem a experiencia:
     mulher instruida, ou presumida de instruco, se lhe falta o trato
     que precisa o estylo segundo as circumstancias, fala assim, e
     escreve assim. Aquella filha de Manuel de Sousa e D. Magdalena de
     Vilhena, que o immortal Garrett faz morrer de vergonha, em _Fr.
     Luiz de Sousa_, era, com menos sete annos, muito mais espirituosa,
     e, se querem, mais desnatural. O inverosimil  algumas vezes
     verdadeiro, assim como

          _Le vrai peut quelque foi n'tre pas vraisemblable._
                               (Boileau, _Art. poet. c. 3.^e_).

--Vem c, minha filha--continuou elle, extendendo-lhe a mo, com um
sorriso affavel--vem c. Que queres tu de mim? No queres que eu v
fazer um bom filho, e um bom cidado?

--V, v, meu tio!--exclamou ella, com energia.

--No achas to sublime a misso confiada por Deus ao padre velho, que
no tem outra herana a legar-te, seno a memoria da sua beneficencia?

--Sim, sim...  o que ha de superior a tudo... ao amor,  vida, 
esperana... Sim, sim...d-me esse irmo em crenas, veja-o subir para
Deus, impellido pela sua palavra inspirada... eu pedirei por elle;
trocaremos as nossas oraes; elle pedir por mim, porque a converso de
um perdido enche o co de alegria e faz exultar os anjos!... Elle ha de,
inspirado pelo co, compreender, como ns j compreendemos, desde que
vivemos artistas, o que  o amor de Deus e a virtude do trabalho.


IV

Frei, Antonio mudou a residencia para casa do fidalgo. Alvaro da
Silveira era o educando. So precisas algumas linhas do caracter d'este
mancebo.

Nascera rico: primeira desgraa, quando um pae, herdeiro de opulencia e
libertinagem, sente a preciso de transmittir a seu filho a herana,
qual a recebera. Acalentado em bero de ouro, quando os primeiros annos
lhe deram a convico da sua individualidade, reclamou a sua emancipao
dos carinhos maternos, que lhe eram pesados, e extremos do pae que o
enojavam por muito repetidos. O elogio acompanhava-o sempre em todas as
suas tentativas de independencia. Quando de seis annos rasgou o _A_,
_B_, _C_, na presena de um professor, que o contrariava, seus paes
riram-se do galhardo heroismo da creana, e exultaram de ve'-lo assim
brioso em to verdes annos. Quando aos oito annos o viram espancar a
ama, que lhe prohibia apedrejar uns meninos pobres, que lhe pediam po,
disseram-lhe que era feia aquella aco em menino fidalgo, e deram-se os
parabens, a occultas, de to corajoso rasgo. Quando aos dez annos o
ouviram pedir dinheiro para gastar em seus caprichos de creana,
preliminares de lastimaveis depravaes de mancebo, deram-lhe dinheiro,
com a condicional de no car do cavallo, nem guiar o carrinho por
passagens mal gradadas. Quando aos quinze annos....

Seus paes atiraram-n'o ao tremedal de todos vicios. Deixaram medrar a
planta da m inclinao no clima proprio, naquella atmosphera de Lisboa,
onde os miasmas da corrupo lavravam desde que alguma classe degenerou
pela ociosidade, e pelos vicios da velha organisao social. A arvore
lavrou raizes at onde seus paes no previram, por mais que amigos e
extranhos lhes abalassem o corao d'aquelle profundo somno de um
affecto criminoso. As immoralidades do filho estamparam um estigma de
opprobrio nas faces dos paes. O jogo, contrariedade unica e pungente,
que na sociedade encontrava o libertino, arruinaria a fortuna d'uma
familia, de muitas familias opulentas se Alvaro da Silveira no
attendesse aos conselhos, s primeiras admoestaes de seu pae. Foram
baldadas. Alvaro ouviu-as com enfado, om soberania, com desprezo, e
satisfez a irritabilidade de sua m indole, conduzindo  porta de seu
pae novos credores e novas vergonhas.

E, depois, a intelligencia d'este mancebo era um repositorio de todos os
vicios, sem ao menos quinhoarem do ouropel da urbanidade que parece s
vezes modificar a torpeza com que nos enojam em um licencioso, estupido
e villo. Alvaro era grosseiro no crime. Indignava os muitos que lhe no
eram somenos em dissoluo mas menos brutaes que elle. As pustulas
n'aquelle cadaver mostravam-se ao claro do vicio com todo o asco. O
homem perdido parecia renovar emoes, e satisfazer o instincto,
provocando  nausea uma sociedade cujo abandono lhe accendia um desejo
impotente de vingana.

Fr. Antonio dos Anjos fra chamado para preparar este homem a conhecer a
honra, levando-o pela vereda da religio.


V

Alvaro da Silveira no fra prevenido. A presena do sacerdote,
apresentado por seu pae, moveu-lhe uma curiosidade selvagem. Parecia-lhe
um sonho aquella viso extraordinaria, aquelle encontro to disparatado
com a sua vida, o seu olhar idiota era eloquente ao mesmo tempo.
Revelava uma interrogao natural e desculpavel:--que me quer este
homem?

Fr. Antonio, limitado ao seu ensino de portas a dentro, e alheio  vida
de Lisboa, no conhecia cabalmente a historia do seu discipulo. Os
traos que o pae lhe revelra eram logares communs da mocidade
desenfreada. No  crivel que o padre bem informado, tentasse a empresa
de conquista'-lo para a virtude. E quem pde avaliar a coragem
religiosa?

Alvaro sorriu, voltou as costas ao mestre, levando em galhofa o que lhe
no parecia cousa de serio alcance. Este grosseiro procedimento magoou
momentaneamente o padre; mas, repreendido pela caridade, aquietou
depressa os irritamentos do amor proprio. Foi ento que o pae, to
culpado como desditoso, desenrolou o sudario das desenvolturas de seu
filho. Chorava, arrependido do mimo com que o perdera, e perguntou
ancioso se seria possivel salva'-lo da sua ruina total.

Fr. Antonio no conhecia limites  sua confiana em Deus. Convicto das
mercs visiveis que recebera da omnipotencia do Senhor, sentiu-se
illuminado de uma f que lhe affianava um prodigio. A peleja travada,
em nome da virtude, com o espirito do mal, tinha muitas vezes triumphado
de uma parte da humanidade, revoltada contra um s homem. Exemplos de
maiores maravilhas alentaram o sacerdote. Desde esse momento, afervorou
as suas preces ao Senhor, a cujo aceno a virtude, morta no corao do
impio, surgiria como a lagrima do remorso nos olhos de Magdalena.


VI

Esse dia de estreia para a misso do padre, foi mais um decorrido nas
immoralidades do discipulo.

No viera a casa, durante o dia, e metade da noite. Parece que tudo
dormia no palacio; quando Fr. Antonio sentiu o rumor de um cavallo no
pateo. Orava ainda, fra do leito, ajoelhado, com o leno ensopado em
lagrimas de dorida saudade. A imagem de sua sobrinha no lhe consentia o
repouso, de noite; obrigava-o s tribulaes de um amante desprezado. E,
ento, o ministro de Deus recolhia-se em orao, com a vehemencia de uma
esperana infallivel no refrigerio do co.

A essa hora, pois, chegava a casa Alvaro da Silveira. O seu quarto era
immediato ao do sacerdote. Entrou assobiando as reminiscencias das
cavatinas theatraes, e reclamou em brados imperiosos a ceia. Os servos
pontuaes como escravos aos caprichos rapidos dos patricios da Roma dos
imperadores, affluiam a servir o amo, que ordinariamente punia uma certa
demora com a ameaa formal de quatro chicotadas. Conduzida a ceia,
repellira os creados com desabrimento e ficra ssinho trauteando e
comendo promiscuamente.

Alvaro acabava de cear, esquecido da apresentao do padre, quando ouviu
na porta um toque.

--Entre quem !--bradou elle.

Quem quer que era cumpriu. A presena veneranda de Fr. Antonio, um passo
dentro do quarto, era uma impresso nova para o mancebo!
Involuntariamente sentiu curvar-se-lhe o pescoo  cortezia grave com
que o sacerdote o saudra.

--Ento ainda a p?!--perguntou Alvaro.

--Ainda a p, e Deus sabe se me deitarei... As horas da noite so as
horas da orao. Parece que o ermo e o silencio excitam a conversao do
espirito com Deus... E v. ex.^a recolheu-se agora, no  verdade?

-- verdade...--respondeu o mancebo com um embarao, que revelava a sua
extranheza n'estes dialogos.

--Precisa repousar--tornou o padre--Eu, como estava a p, quiz dar-lhe
as boas noites. Agora recolho-me pedindo a Deus o seu descano, como
condio da vida, para amanh abrir os olhos  luz que bem pde no
alvorecer para ns. Fique v. ex.^a com Deus.

E retirou-se. As ultimas palavras de Alvaro pareciam syllabas
desarticuladas. O frade ferira-lhe um orgo ainda virgem d'aquellas
impresses. Aquelle _memento_, quella hora, por aquelle homem,
acordra-lhe o mais nobre dos pensamentos, que o materialismo lhe
adormecera nos gelos do corao: DEUS. Os confusos projectos do dia
seguinte aturdiam-se-lhe na cabea, como alvoroados pelo prego da
morte, que mandava calar os designios humanos na presena do destino
eterno.

O abalo fra vehemente, mas pouco duradouro. Alvaro da Silveira
adormeceu.  que o som vibrado na corda da religio, devia esvaecer-se
entre o estrondo das paixes ruidosas, como o vagido da creana no
alarido das turbas amotinadas.


VII

Alvaro da Silveira costumava tocar a campainha depois do meio dia,
quando alguma empresa impertinente lhe no assaltava o precioso somno da
manha.

Fr. Antonio, prevenido, foi visitar sua familia, cuja ausencia lhe
parecia longa e incomportavel. Antes de sair trocou algumas palavras com
o dono da casa pedindo-lhe que entregasse a Deus a regenerao de seu
filho.

Quando entrou na sala, sua sobrinha estava ao piano. P ante p
firmou-se onde de longe podia contempla'-la, e surpreende'-la com
palmas. Reparou que o papel de estudo no era musica. Esperou. De
improviso, ao som melancolico das teclas casou-se uma melodia triste,
profundamente triste, como as convulses de um longo gemido. Aquelle
papel continha a letra do canto. Que versos seriam aquelles?

E o canto parou com a ultima nota do acompanhamento. Maria firmou os
cotovellos nos braos da cadeira, e escondeu o rosto entre as mos. s
vezes corria as mos pela testa, e deixava-as pender enlaadas sobre o
regao. As suas posturas eram todas afflictivas.

--Que tens, minha filha--murmurou o padre caminhando para ella.

Maria ergueu-se arrebatadamente; correu aos braos do tio, e no teve
exclamao que revelasse o alvoroo d'aquella surpresa.

--Cantavas como um anjo--continuou o padre, acariciando-lhe a face
pousada no seu hombro--mas to melancolico era o canto e a musica!...
Nunca te ouvi ainda esta lamentao! Vejamos que poesia  esta!...

--No, no, meu tio!,..--atalhou Maria, querendo affavelmente desvia'-lo
do piano.

--Porque no? Mysterios para o teu amigo que t'os adivinha no corao?
Segredos para o teu mestre, Maria!

--No  segredo...  vergonha...--exclamou a linda menina com a voz
entrecortada--Esses versos fui eu que os fiz..

--E tens reservado para ti esse dom? Quando disseste ao teu velho tio
que fazias versos?--disse o padre sorrindo com meiguice.

--Eu no sabia que o eram... Nem sei se o so...--balbuciou Maria,
crando, e procurando fugir de estar presente  leitura.

Fr. Antonio levou-a pela mo ao piano. Tomou da estante a poesia, e leu:

      PRESENTIMENTO

        Minha paz no infortunio,
      Minha alegria na dr,
      Quem m'a dra, qual a tive,
      Qual m'a dstes, vs, SENHOR!

       Desbotou-se-me nos labios
      Meu sorriso to singelo...
      E eu com elle premiava
      Tanto amor, tanto desvelo!...

        Tanto amor, que eu vos pedia,
      Do que os anjos tem nos cos,
      Para amar meus paes, meu tio,
      Como vos amo, meu Deus!

        No scismei outras venturas,
      Outros gosos no pedi:
      Fui to rica na pobreza...
      Na pobreza empobreci.

        Senti lagrimas no rosto...
      Sei que tenho aqui no seio
      Escondida uma tristeza
      Que de vs, meu Deus, no veio!

       Deu-m'a o mundo?... sim... daria...
      Mas que mal ao mundo fiz!?
      Serei eu de alguem inveja?
      Pois que eu no seja feliz!

        Volva o tempo da penuria,
      Quando eu fiz a pobre flor,
      Que me dava um po regado
      Com meu pranto e meu suor.

        Dae-me as noites no dormidas
      De trabalho e de alegria;
      Meu orar na madrugada,
      Quando, to feliz, me erguia.

        Oh meu Deus! se a humilde serva,
      No votaste ao soffrimento,
      Abafae lhe a voz, que a punge,
      D'um cruel presentimento!

Fr. Antonio lera commovido essas singelas quadras, cujo toque de
sentimento no pde enternecer-nos, talvez. Nos labios d'elle, tremulos
e nervosos, a poesia soava como um canto funebre. Que tristeza no
declamar! Poderia ter-se como uma elegia  innocencia de Maria? Por Deus
que no. O hymno, que transluzia da nuvem escura da sua tristeza, era
como a luz do relampago que aclara, de repente, um amplo espao: era a
luz electrica das intelligencias privilegiadas; o abalo do presentimento
que quer sar do circulo do mysterio: a adivinhao do futuro.

--Que  o que entristece a tua vida, Maria?--perguntou Fr. Antonio.

--J me lembrou se seria a muita felicidade, meu tio.

--No te compreendo... abre-me o teu corao sem reserva... Serias
culpada se fingisses a teu tio as razes do teu soffrimento...

--No posso mentir-lhe, meu tio... No sei ainda o que  fingimento...
nunca na minha vida menti a alguem. Eu no sei porque estou triste. O
meu corao no m'o diz, e a minha tristeza nasce-me do corao,
esconde-se l como um segredo afflictivo... E eu que mais hei de
dizer-lhe, meu caro amigo? Que peo muito a Deus que me no quebre este
calix de amargura, se a sua divina vontade ordena que eu o exgote.

Maria enxugava as lagrimas copiosas, que pareciam esfriar-lhe o calor
febril das faces. Fr. Antonio, contemplativo, olhava para a sobrinha
silenciosa, como querendo ler-lhe no rosto a ultima palavra d'aquella
revelao confusa.

O coronel entrou na sala, e correu a abraar seu irmo, e dar a mo a
sua filha, que lh'a no beijara ainda. Maria, surpreendida, quiz, 
custa de um sorriso violento, converter em alegria aquella saudao; mas
a dr de filha  necessario que seja peccaminosa para esconder-se aos
olhos de pae. O coronel e sua esposa velavam as tristezas de Maria como
lhe velariam perigosa enfermidade. Consultaram mutuamente os seus
temores; e a severa experiencia do mundo alguma vez lhes inspirou bem
tristes receios. Aos quatorze annos ha melancolias no corao de uma
virgem, que apenas tem de mysterioso a tendencia irresistivel, que Deus
lhe imprimiu para o ideal de um amor terreno, que, no altar da
innocencia, recebe uma adorao, seno semelhante, ao menos perfumada
com o mesmo incenso do amor divino. E a me de Maria recordava-se da sua
infancia, e perguntava a seu marido se as lagrimas da filha seriam as
precursoras de alguma paixo infeliz. Era indiscreta a pergunta. No se
dera nunca o incentivo de suspeita. A vida de Maria no tinha um
instante mysterioso a seus paes. Trabalho e orao--no tinha outro
desvelo desde o amanhecer at  ultima beno pedida a seus paes.

Maria, valendo-se da conversao do pae com o tio, retirara-se da sala.
O coronel assim o queria, para consultar o irmo, homem de Deus, que via
o corao dos outros com os olhos puros da probidade. Mas no so esses
olhos os mais penetrantes para devassar segredos, que se escondem no
corao apaixonado pelo mundo. Quem adivinha as luctas intimas do
espirito, escravisado aos caprichos das paixes,  o homem das paixes,
encanecido na amarga experiencia d'ellas. Bem pudera Maria dos Prazeres
agonizar nas tribulaes de um amor criminoso, e sua morte ser um
mysterio para o padre que no sentia acordar em sua alma o echo dos
gemidos de sua sobrinha. O amor de Deus preenche todas as necessidades,
responde a todas as aspiraes do corao de um justo. No  o justo de
uma longa vida irreprehensivel quem pde arrancar ao penitente, que se
lhe ajoelha, uma revelao pungente, que o pejo emmudece nos labios. 
necessario profunda'-la com a sonda das proprias agonias.  necessario
adivinha'-la no espirito do penitente, a favor de um symptoma que revela
outro, de uma palavra solta que vae prender-se  explicao de um longo
silencio. E esta dolorosa syndicancia no pde exerce'-la a simples
theoria das paixes.


VIII

A arte, que ensina a levantar o vo das paixes silenciosas, era
desnecessaria para Maria. A virgem no tinha segredos para alguem.
Podesse ella entender a transfigurao da sua alma, a magua confusa dos
seus novos pensamentos, que, bem feliz, pediria conselhos e consolaes
 sua familia.

--Mas aquelle silencio!...--dizia o coronel, replicando s santas
convices do padre, a respeito da innocencia de sua sobrinha.

--Aquelle silencio...--dizia frei Antonio, consultando a consciencia,
que lhe respondia de prompto--aquelle silencio...  a falta de palavras
com que possamos fazer sentir aos outros uma ida, que s a Divindade
nos compreende... As horas de tua filha no so empregadas como d'antes
na orao, no estudo e no trabalho?

--So, de certo, e mais continuadas na orao. D'antes orava em commum.
Agora, encontramo'-la na hora do descano, ajoelhada no sanctuario; mas
vejo-a perturbada, quando reza. Ha lagrimas, e at aqui s lhe viamos o
sorriso de consolao... Parece que n'aquelle orar, ha a supplica do
perdo para o crime que a accusa.

-- impossivel!--exclamou o padre, energicamente commovido.--
impossivel... no quero que em minha sobrinha se esconda um crime... uma
falta!  uma injuria, meu irmo! Peccaste contra a innocentinha, e
feriste-me a mim, que tenho formado aquelle corao, que Deus me confiou
para crear-lhe um anjo.

--Meu irmo... no te afflijas... isto em mim  um receio.

A interrupo do coronel era tardia para evitar a exaltao nervosa do
padre. As lagrimas davam-lhe ao rosto uma religiosa magestade.
Assombrava-o o terror de uma conjectura cruel, como se visse car 
voragem do vicio a virtude, que elle, com sua propria mo, collocra em
throno to perto do co. O coronel, tambem commovido, sentia-se
nobremente exaltado pelo modesto orgulho de ter uma filha, cuja
innocencia merecia to fervorosa defesa. Abraando seu irmo, parecia
pedir-lhe carinhosamente desculpa do zelo paternal, que lhe inspirara
receios por aquella que pertencia menos a seu pae, que a seu mestre. O
lance era sublime; e o sentimento de ambos, vibrado na mesma corda, e
acalorada pelo mesmo amor, elevava-se at Deus em orao de graas por
Maria, anjo que lhes fra dado como galardo  paciencia de muitos
soffrimentos.


IX

Quem poderia consolar a triste nas suas amarguras?

Quem pde c da terra dissipar a nuvem, que escurece a face de uma
estrella?

Quem pde, ao descair da tarde, reverdecer a corolla da flor desbotada
pelas sombras da noite?

O futuro  o presente perpetuo da Divindade. Mas o espirito que se
enlucta, sem lamentar a viuvez de illuses perdidas, veste-se de negro,
como a virgem violentada a desposar no altar das lagrimas uma tribulao
futura.  o presentimento.

Para as almas provadas em supplicios immerecidos, mas secretamente
providenciaes, o presentimento no  uma palavra sem significao.

O cantico de Maria, cadenciado pelas quadras do seu hymno, era a unica
resposta, que ella podia dar se lhe perguntassem:

--Anjo, porque soffres?


X

Decorreram algumas horas, e Fr. Antonio no podia demorar a sua visita.
Alvaro da Silveira, fiel a seus habitos, deveria despertar ao meio dia.
O padre retirou com uma saudade profunda, e uma dr nova. A ultima
afflico de um justo quer Deus que seja a agonia do pensamento. A vida
n'elle  uma cadeia de pesares, que tem no esquife o ultimo lo. Fr.
Antonio, feliz com esta certeza, poderia fraquear na primeira lucta com
o soffrimento, mas a sua queda era sempre de joelhos aos ps da cruz. E
esta foi a sua postura, apenas entrou no quarto que lhe fra dado em
casa de Silveira.

A orao foi-lhe interrompida pelo toque da campainha. Esse som, que
provocava pragas aos servos da casa, como signal de estar acordado o
tigre familiar, foi para frei Antonio um despertador da orao em favor
d'aquelle, que to longe de Deus, sem um decreto do co, mal poderia ser
l encaminhado pela debil mo de um peccador. E, terminada a orao, o
padre chamou o creado, que saa do quarto de Alvaro, e mandou a s.
exc.^a pedir licena para fazer-lhe companhia ao almoo. A resposta,
qual era de esperar, deferiu a humilde supplica, e Frei Antonio,
insinuante de brandura e civilidade, apresentou-se, pela terceira vez,
ao seu educando.

A face d'este homem tinha uma alegre severidade, que no podia fitar-se
sem respeitosa sympathia. Alvaro da Silveira ao ve'-lo sentia uma
impresso extraordinaria, como no sentira na presena d'algum homem
celebre em valentia, em talento, em devassido, em prodigalidades, e em
riqueza. A distinco da virtude ou do _fanatismo_, como elle dizia da
religio, parecia-lhe uma cousa nunca vista na boa sociedade! Para no
deixar-se vencer pelo panico da religio, Alvaro da Silveira dava-se uma
explicao muito natural d'aquelle phenomeno: era a falta de convivencia
com a classe dos padres.

Na verdade o jesuitismo e a hypocrisia pelos seus abusos interesseiros,
tornando a religio instrumento innocente de uma politica facciosa, tem
dado causa a todos os homens de consciencia conspirarem a expulsa'-los
como vendilhes do templo. Essa a razo por que os falsos religiosos
blasphemam quando presentem que uma minima centelha da razo illumina o
campo da religio que elles pretendem pr em trevas. Todo o homem
sensato e smente religioso soffre uma intima dr quando os falsos
religiosos impellem os ignorantes, e alguns immorigerados como Alvaro da
Silveira, a irem lanar-se na impiedade, fugindo da hypocrisia, que
elles no sabem discernir da purissima religio do crucificado.

Mas, a seu pesar, a entrada de Fr. Antonio, e as palavras urbanas, e
poucas, com que o saudra, continuavam a impressiona'-lo.

--Dormiu v. ex.^a socegadamente, no  assim?--perguntou o padre.

--Deliciosamente--respondeu Alvaro, apertando cortezmente a mo do
sacerdote.--E v. s.^a como se deu no seu novo quarto?

--O melhor possivel. Um egresso, affeito a dormir na casa de um
lavrador, acharia boa pousada em todos os logares debaixo do co. Uma
boa cama no abona sempre uma noite deliciosa ao que se deita n'ella. O
melhor gasalhado, senhor,  o que nos d a consciencia quando
francamente se abre para receber-nos, e velar-nos o somno com o anjo da
paz. Deus defenda v. ex.^a de revolver-se um dia nos espinhos, que
perturbam o somno do mau, deitado em leito de cortinas douradas.

--Ento v. s.^a--tornou Alvaro--tem andado por casa de lavradores? Eu
cuidei que os frades eram ricos, e amigos das commodidades. Pelo menos 
o que se diz por ahi...

--Os frades, senhor, no s eram ricos, mas tambem opulentos; procuravam
todas as commodidades, gosavam todas as delicias, todos os prazeres que
podem ser desfructados na vida material da terra. A ociosidade e a
riqueza perverteu-os. As excepes choravam tal aberrao. Como que
olvidados do co mergulharam-se n'uma politica inconveniente e injusta.
Em pena de Talio, a politica por elles hostilisada, por todos os meios,
to obstinadamente, puniu-os expulsando-os das casas que no deviam mais
pertencer-lhes.

Estava na mesa o taboleiro do almoo. Fr. Antonio pedia licena para
servir o discipulo.

--Ento v. s.^a no almoa?--perguntou Alvaro, offerecendo ao hospede
uma chavena, no recebida.

--Almocei j, sr. Silveira.

--Com o pae, no  verdade?

--No, senhor: com a minha familia.

--Ento v. s.^a tem familia em Lisboa?

--Nasci em Lisboa, e tenho uma familia numerosa.

--Naturalmente pobre...

--Naturalmente, no, sr. Silveira; mas Deus indemnisou-a. Deu-lhe o amor
do trabalho, e a noite e o dia, para grangear o po de uma hora. Tem
sido feliz, penso eu. O temor de Deus  a coragem com que se vencem os
infortunios...

Alvaro, com a chavena esquecida na mo, escutava-o religiosamente. A
novidade da linguagem, e o gesto religioso apraziam-lhe, e creavam-lhe
desejos de ouvir o padre longo tempo.


XI

--A sua familia  conhecida?

Esta pergunta de Alvaro da Silveira  textualmente o inquerito
galhardamente fidalgo, que a nobreza d'estes reinos faz, antes de deixar
approximar-se por algum desconhecido, duvidosamente inscripto no livro
dos costados. Perde-se-nos o estylo; mas, desgraadamente, tudo que 
ridiculo traz inadas certas classes, e no sabemos, quando se faro
srias, quando se approximaro um dia as familias, de modo que no
possamos sem offender a Deus, perguntar a nosso irmo se seu pae 
conhecido...

--A minha familia--respondeu frei Antonio--foi conhecida; mas no  de
lamentar que seja hoje obscura. Mal d'ella se quizesse manter as vans
regalias da sociedade, que v. ex.^a chamou conhecida! Penso que a minha
familia no  conhecida.

--Mas deve estar aparentada...--replicou o fidalgo, instando nas
perguntas inauferiveis da pragmatica heraldica.

--Creio que sim... O coronel ***...

--J sei--interrompeu Alvaro--pois no!...  muito fidalgo, e est
aparentado com boa gente; mas no apparece. Ento v. s.^a  tio de uma
menina muito falada?...

--Muito falada!?--atalhou o padre com sobresalto.

--Sim, senhor, dizem que  poeta, romantica, e muito linda.

-- virtuosa, senhor Silveira. No lhe conheo outra qualidade, que
valha a pena de mencionar-se. V. ex.^a j viu poesias ou romances, ou o
retrato de minha sobrinha?

--No, senhor, mas creio que no  mentira o que se diz. A opinio de
virtuosa tambem a tem; se no falei de virtude,  porque no sei
verdadeiramente o que  virtude; mas acredito que ella  uma excellente
menina a todos os respeitos.

--A virtude, meu caro senhor,  a censura pratica do crime. Sabe v.
ex.^a o que  crime?

--Tambem no--respondeu Alvaro com uma vaidosa entoao de
espirito-forte.

--Eis ahi--disse Fr. Antonio sorrindo--uma violencia que est fazendo 
sua alma, sr. Silveira. V. ex.^a disse que minha sobrinha era dotada de
bellos attributos. Falou pela bca da fama, e chamou-lhe poeta,
romantica e formosa. Se minha sobrinha, apesar d'estas decantadas
prendas e dons, que a sociedade encarece tanto, fosse m filha, e m
irm, poderia ella cegar os olhos da sociedade com a sua formosura e
talento, para que lhe no vissem os defeitos...

--De certo no.

--Ento  verdade, que a sociedade reprovaria o procedimento de minha
sobrinha?

--Creio que sim.

--E v. ex.^a?

Alvaro ficou suspenso, e balbuciou, depois:

--Eu... eu... naturalmente...

--Juntava a sua voz  opinio publica--interrompeu o padre--embora v.
ex.^a no antipathisasse com os actos repreensiveis de minha sobrinha.

--Assim  sempre--disse Silveira, com uma forada resoluo.

--E assim ser sempre, porque ha um juiz incorruptivel, chamado a
verdade. As sentenas d'este juiz, embora fulminem as paixes
desatinadas, so sempre recebidas, seno pelo espirito de uma sociedade
gasta e immorigerada, ao menos por a consciencia d'essa sociedade. Ora a
innocencia  invulneravel ao contagio da corrupo, como a lampada do
templo s exhalaes pestilenciosas dos tumulos. A consciencia  o
pregoeiro das sentenas que a verdade profere, e v. ex.^a,
insensivelmente, apregoa. Ser necessario dizer-lhe eu que sentimento 
esse que se serve de v. ex.^a, como de uma machina para se exprimir?  a
virtude, sr. Alvaro,  a virtude que faz realar os dons de minha
sobrinha, que lhe d a soberania de um anjo, que o crime no pde
encarar sem curvar-se servilmente:  a virtude, galardo ao principio do
bem, que triumpha na lucta incessante com o principio do mal. A verdade
no se desmente porque  o Evangelho identificado nos coraes, e
Christo ha dezoito seculos, encarnado na humanidade...

Alvaro parecia alegrar-se conforme ia perdendo o terreno, diante de um
to generoso como irrespondivel adversario.

Como se anciasse pela continuao da resposta do padre, quando este se
calou, tambem Alvaro no teve uma syllaba, das que se pedem 
philosophia irreconciliavel, para responder.

--Cr na virtude, sr. Silveira?--perguntou o padre com summa bondade e
modestia.

--Tinha-me dito que o crime e a virtude eram relativos--respondeu o
mancebo com ar de quem desacredita as doutrinas de um mestre que
respeita.

--Tinham-lhe dito, senhor, que a consciencia universal era uma mentira.
Mentiram-lhe cruelmente, porque v. ex.^a no podia, sem horror, encarar
um filho que matou seu pae; um homem que trau o seu bemfeitor; um juiz
que entregou um innocente ao carrasco; um seductor que atou uma pobre
mulher a um poste de ignominia eterna. V. ex.^a no pde, com
indifferena, apertar a mo a este homem, no  assim?

--De certo: eu sou um extravagante, um vicioso, mas detesto infamias...

--Que todo o mundo detesta; mas o mundo onde a luz da verdade venceu as
trevas do erro, que a palavra do Christo condemnou.

--Mas diga-me v.^a sr.^a... no dizem que ha paizes onde os paes matam
os filhos, e os filhos os paes, legalmente?

--Houve, e haver ainda. Mas sabe v. ex.^a o que  permittido ahi pela
lei?  justamente o que  reprovado pelo christianismo.

--Mas a consciencia no se revolta contra taes actos sem que seja
preciso que o christianismo os declare criminosos?

--Revolta, sim. Quando as virgens indianas se lanavam nos tumulos dos
maridos, ou nas fogueiras legalmente accesas, as lagrimas, vencendo a
coragem da superstio religiosa, desciam nas faces de uma familia, que
seria injuriada se no cedesse em holocausto a desgraada viuva. Os
gritos d'esta eram os gritos da consciencia contra a lei barbara; eram a
adivinhao da verdade denunciada pelo filho de Deus. Os filhos, que
matavam os paes, eram algozes que a lei fizera, como entre ns a lei faz
um carrasco. Poderemos ns argumentar contra a piedade, contra a
virtude, e contra o amor porque um justiado morre entre os braos de um
homem, que executa a sentena de um juiz?! Persuade-se alguem que o
homicidio legal, na consciencia do algoz,  um acto de amor e caridade?

--Penso que no.

--Pois bem, senhor Silveira; respeite a sua propria dignidade, j que os
homens sem crena, sem Deus e sem esperana, lh'a quizeram aviltar,
dizendo-lhe que o crime e a virtude so relativos...

Fr. Antonio fez meno de levantar-se e continuou:

--Tenho-o talvez privado dos seus divertimentos...

--No, senhor... pelo contrario tem-me dado momentos de muita
satisfao...

--Encho-me de prazer, se o consegui... E como tenho a honra de ser
hospede de v. ex.^a...

--Mestre...--interrompeu Alvaro com alegria sincera.

--No posso acceitar esse lisongeiro titulo;--_amigo_, se v. ex.^a me
quizer honrar com este parentesco.

--No me embaraa... Tenho muito prazer em que esteja...--disse Alvaro,
apertando-lhe cordealmente a mo.

--Tenho obrigaes a cumprir para com Deus: no faltar tempo proveitoso
para os meus deveres com o proximo. No sabe v. ex.^a que os padres teem
um breviario, que a cada hora do dia lhe recorda o dever de orar por
aquelles, que no cedem alguns minutos  orao? Filhos de Deus, pedimos
uns pelos outros; e Jesus Christo beneficiou-nos com a riqueza da prece,
com este patrimonio commum a todos os irmos... E no  isto uma
consolao para os que so atheus por contagio e no por convices;
fanaticos e supersticiosos por ignorancia e por estupidez?

--A respeito de atheismo... tenho... minhas... duvidas...--disse Alvaro
com palavras entrecortadas por aquella pausa emphatica, semelhante 
ironia dos sabios, segundo a moda.

--Pois bem... Temos zelo e vontade para acertarmos... Deus hade
conceder-nos o tempo, que  o desengano de todas as duvidas... At outra
occasio...

E retirou-se contra os desejos de Alvaro. Mas fr. Antonio conhecia o
corao do homem. Chamara-o Deus para uma empresa trabalhosa. A fora
descia-lhe do co. No era em si que elle confiava.


XII

Mal o padre sara, entrou Gonalo da Silveira. Era o pae que procurava o
filho: cumprimentou-o com a sua habitual frieza: mas o que de outras
vezes era proposito, poderia ento suppr-se distraco. Alvaro
absorvido nos seus pensamentos, quaesquer que elles fossem, parecia
meditar uma das suas heroicas faanhas, sobresaltado, como quem recua
diante de algum perigo assustador. Julgara-o assim o pae, julga-lo-iam
assim os domesticos, e os cumplices, elle proprio, talvez, se se visse
n'um espelho.

--Que tens?... pareces-me somnambulo!?--disse o pae.

E Alvaro affavelmente respondeu:

--Pelo contrario: estou acordadissimo... muito accordado, penso eu.

--Falaste com o egresso?

--Sim, senhor.

--Que te pareceu?

--Um homem bom, virtuoso e extraordinario.

-- realmente... que a virtude tornou-se em nossos dias uma appario
extraordinaria, e milagrosa,.. Gostaste d'elle?

--Quem me dera ser o que elle ...

--Isso  que  extraordinario, meu filho--exclamou o velho.

--Amar um bem, que no podemos possuir,  to proprio do homem... Que
acha o pae de extraordinario, n'este meu desejo:

--Muito, muito, meu caro Alvaro!... Tu hontem no falavas assim...

--Tambem meu pae no amava a formosura de minha me, antes de
conhece'-la... A virtude  como a virgem, que um homem estragado v na
vertigem de uma orgia, mas no pde ama'-la sem approximar-se realmente
do original d'essa sombra phantastica. Sabe meu pae o que eu amo em
padre Antonio?  a transparencia d'aquella face, que deixa vr um bello
corao. Amo-lhe a paz, a firmeza, a confiana com que censura os
crimes, sem irritar o amor proprio do criminoso. Amo-lhe a independencia
com que falla, e a soberania com que responde. Parece que Deus o manda
falar!  um bello caracter! A sociedade, se conhecesse este homem,
adorava-o!

O jubilo de Gonalo da Silveira era um delirio. Parece que lhe no
ouvira as ultimas palavras. A emoo sublimra-se at s lagrimas.
Alvaro tocado por uma scena, que nunca elle se julgra capaz de
estimular, recebera seu pae nos braos, com vehemencia, com transporte,
com amor de filho, sentimento para elle novo!


XIII

Do abalo  converso vae um grande espao, eriado de espinhos, que,
primeiro, medram nas lagrimas, e, no fim, se transformam em flores.

Amar a virtude no  esposa'-la. Rainha de dois mundos, com formosura
immortal, a sua posse custa muitos sacrificios. No estrado do seu
throno, pisam-se as paixes do mundo. Os labios, que a saudam, devem ter
sido abrazados pela orao contricta.

Os olhos que a contemplam, devem ter sido manancial de lagrimas
purificadoras das maculas hediondas do vicio.

Mas ha muito que soffrer desde o amor  posse.

Alvaro da Silveira enamorou-se do anjo do bem, que lhe transluzira de
entre a nuvem com que o ministro de Deus lhe escondia um novo mundo.
Agitra-se-lhe o sangue no corao, e, no scepticismo, a esperana, que
 a vida do espirito. Sentia-se com mais vida, mais alentos e idas
novas. Aprendera a pensar. Mas o pensamento  o gerador das convices;
e as convices so absolutamente um dom exclusivo da verdade; e a
verdade  a perpetua conversao de Deus com o homem. Para Alvaro
existia DEUS!


XIV

A incredulidade tem um sorriso de escarneo para estas transfiguraes.
Erma do corao, e fistulada nas entranhas pela podrido do epicurismo,
ri-se, ri-se, ri-se como um demente a quem ninguem contesta o direito de
rir.


XV

Fr. Antonio dos Anjos concluira a sua reza. Gonalo da Silveira esperava
anciosamente o ensejo de visita'-lo. Mal ouviu passos no quarto, entrou.
Riam-se-lhe as feies, e pulava-lhe o corao na face. O sacerdote
achou-se nos braos do velho pae, que soluava expresses de
reconhecimento.

O padre maravilhava-se.

--Pois a que devo eu esta commoo de agradecimentos?--perguntava elle
enternecido.

--Salvou meu filho!--exclamava o fidalgo, beijando-lhe as
mos.--Amenisou-me a velhice... Deu-me um bom fim de vida, e uma boa
morte. Vs arrancastes meu filho do mau caminho.

Era bem justificado o pasmo de frei Antonio! Gonalo da Silveira
contara-lhe o que vinha de passar com Alvaro. Exagerra, talvez, as suas
expresses, as palavras do filho, os elogios do mestre, e as esperanas
da sua boa alma. Frei Antonio, que no podia attribuir-se a rapida
mudana do neophito, agradecia tacitamente a Deus o raio luminoso de
graa que fizera baixar ao corao escuro do convertido. Depois, quando
a commoo do contentamento serenou em Silveira, o padre, magestoso como
um propheta, apontou para o crucifixo.

-- alli--exclamou com uma voz vibrante e pathetica.-- alli, que v.
exc.^a deve ajoelhar e agradecer.

Gonalo da Silveira ajoelhou. Pouco mais atraz ajoelhra o padre.

O lance era sublime, o que ha de mais sublime debaixo do co. Adorar com
mais fervor, s os anjos na presena immediata do Altissimo!

Alvaro entrava no quarto do padre, cuja porta ficra meio aberta. Ao ver
seu pae n'aquella postura extranha, e mais atraz, o vulto immovel do
levita, recuou machinalmente.

Que sentimento o fez recuar? No saberia elle dize'-lo! Susteve-se
irresoluto. Ergueram-se os que oravam, e ambos olhavam para a porta.
Viram Alvaro, que parecia ceder ao pejo. Pejo! um tal sentimento nas
faces petrificadas pelo gelo da libertinagem! Pejo no mancebo, que se
vangloriava de um cynismo inalteravel!

--No quer entrar na sua casa, sr. Alvaro?--perguntou Fr. Antonio,
collocando-se cortezmente fra da porta do quarto.

--Vim perturba'-lo...--murmurou Alvaro, hesitando entrar.

--No era possivel...--O espirito quanto mais se avisinha de Deus, menos
cede s perturbaes... Ns oravamos com f, e ardor. E, demais, a
entrada de v. exc.^a no podia distrair-nos para mal.

Alvaro tinha entrado.

Agitou-se uma conversao variada entre as tres pessoas. Fr. Antonio,
que vivera na casa do agricultor nas provincias do norte, falava de
agricultura. Gonalo parecia versado n'este ramo, e applaudia os
melhoramentos, a que elle devia um duplicado rendimento das suas grandes
propriedades. Alvaro escutava, pela primeira vez, um discurso serio,
especialmente sobre agricultura, que elle ignorava desde a estao das
sementeiras  das colheitas. E no parecia enfastiado, com quanto
guardasse um justificado silencio na materia.

Era j outra a conversa. Frei Antonio estudava a maneira de entreter a
atteno do discipulo. Falou d'esta litteratura amena, que se tornou
universal por ser perigosa, por ser destruidora dos costumes, e dos
estudos srios. Falou de romances, como falaria de livros canonicos.

Conhecia-os como um vigilante examinador da origem da immoralidade.
Alvaro conhecia alguns e honrava-os com a posse privilegiada de uma
pequena estante que decorava no seu quarto. Fr. Antonio reparava nas
encadernaes de marroquim douradas, e nos titulos com que os
licenciosos _Paulo de Kock_ e _Pigault Lebrun_ assignalaram os seus
thesouros de libertinagem, escandalos da prevertida arte de imprimir.

Alvaro que no podia impugnar os argumentos do padre, e tivera a
louvavel modestia de ouvi'-lo apenas, no quiz deixar-lhe plena gloria
de triumpho, sem uma observao que elle julgava um golpe certeiro:

--Mas sua sobrinha--diz elle-- romantica...

--Que  ser minha sobrinha romantica?--atalhou o padre, sorrindo.

--L romances, escreve romances, pensa como nos romances... emfim, no
vive, nem pensa, nem fala como a maior parte das mulheres...

--Ora ahi est uma definio de mestre!--disse o padre, soltando uma
risada que parecia um motejo, se no fosse sua.--O romancista deve ser
uma coisa bem extraordinaria!--proseguiu elle, batendo levemente no
hombro do discipulo.--Quem me parece romantico, segundo a arte,  v.
exc.^a, sr. Alvaro.

--Eu!?--interrompeu Alvaro com innocente admirao.

--Sim, meu caro senhor. No pde assim fazer-se uma ida to singular de
uma pobre rapariga, sem contempla-la pelos olhos de uma imaginao
maravilhosa! Minha sobrinha  uma artista que trabalha muito para
sustentar-se, e vestir-se. Ora isto  muito positivo, muito trivial,
muito commum com a vida do pobres, onde nunca entrou a palavra romance.
Minha sobrinha nas horas furtadas ao trabalho, l os livros que eu
escolhi para a sua cultura espiritual, mas todos elles conselheiros da
virtude, da probidade, da paciencia, e do temor de Deus. A sciencia
profana, que eu affeioei s necessidades do seu espirito,  muito
pouca, porque, se fosse muita, seria um desperdicio de tempo, e de
canceira inutil. A sciencia de ser boa filha, boa esposa e boa me,
limita-se a muito poucas regras; e uma mulher no precisa outra
sciencia. Minha sobrinha no leu ainda romances. Sabe que existem
enredos torpes, escriptos em bella linguagem, como os cadaveres fetidos
envoltos nos velludos prateados da ea; mas os seus dedos no levantaram
ainda esse envoltorio de podrido. Minha sobrinha fala esta linguagem,
seno geral, a melhor que os filhos podem aprender para falarem a seus
paes, porque minha sobrinha conhece apenas o metal de voz de sua
familia...  isto que v. ex.^a chama mulher romantica?

Alvaro demorou a resposta.

--Eu pensava--balbuciou elle--outra cousa... O mundo engana-se muito nos
seus juizos.

--Pois--tornou o padre com tristeza--que juizos so os do mundo a
respeito d'ella?

--Eu lhe digo... O mundo chama romantica uma mulher, como muitas
mulheres, que os romances nos pintam. Por exemplo, uma virgem, que vive
n'um sonho continuado; que v anjos onde as mulheres prosaicas no vem
nada; que scisma em continuas tristezas, ao lado dos que vivem n'uma
continua gargalhada; que busca a solido, encosta a face pallida  mo
direita, como a estatua da melancolia, e se devora incessantemente sem
poder explicar o motivo por que se devora.  o ideal que a mata;  a
febre d'uma paixo indefinivel que a consome,  a esperana de um sonho,
de que no acorda;  finalmente, a poesia, o romantismo.

Frei Antonio ouvira religiosamente este harmonico de palavras, que
algumas vezes lhe pareceram desapegadas, e vasias de sentido.
Respeitador das conveniencias, fez calar a verdade austera, que o
mandava pedir uma definio logica de todo aquelle espiritualismo, de
toda aquella linguagem refolhuda. Absteve-se da sua auctoridade, e
transigiu discretamente.

--Sero esses--diz elle--os predicados da mulher romantica; mas o que eu
posso conscienciosamente asseverar a v. ex.^a,  que minha sobrinha est
to longe de ser romantica, quo longe de compreender a definio que o
meu amigo acaba de dar.


XVI

Duas occorrencias vieram interromper a pratica: um creado, entregando
uma carta a frei Antonio dos Anjos; outro participando a chegada do sr.
conde de ***, que procurava Alvaro da Silveira. Este fez um gesto de
enfado, e sau. Aquelle, pediu licena, e abriu a carta. Gonalo da
Silveira retirou-se menos alegre, mas esperanado na mudana de seu
filho.

Em quanto o padre l a carta, entremos no quarto de Alvaro.


XVII

O conde de *** era um homem de trinta annos, typo de galhardia na
libertinagem, esbelto, gentil, apesar de resequido, na face, por certa
aridez da dissoluo, que requeima o corpo, ao passo que o vio da alma
vae fenecendo.

O aor, pairando sobre a avesinha desprevenida, apenas viu que um rapaz
de quinze annos transpozera o limiar do grande mundo, abateu o vo,
aferrou-o com as garras das paixes licenciosas, e desappareceu com a
presa atravs de uma atmosphera, onde o veneno se respirava pelo filtro
do prazer. Alvaro da Silveira foi a presa.

Muitos dos mais apontados em certa sociedade libertina de Lisboa, mescla
de beaterio, hypocrisia, e despejo, quando viram Alvaro da Silveira
ligado ao conde de ***, disseram: est perdido! E quem o no diria?

O conde tinha uma instruco mediana, que puzera ao servio da sua
immoralidade. No seu principio, quando a favor do seu nascimento, era
bem recebido nos sales de Lisboa, o conde insultava graciosamente a s
religio e a piedade. Lera com pertinacia alguns d'esses livros immoraes
e grosseiros aos vinte annos, para grangear um bom cabedal de motejos
contra a religio, e emancipar-se com elles de uma leitura a que
sacrificava as longas horas da noite, como um sobrinho que se violenta,
em noite de orgia, a ficar em casa com o velho tio, porque  esse o
preo de uma herana, que deve,  farta, indemnisa'-lo depois.

Aos vinte e cinco annos sabia tudo quanto era preciso para insultar a
Deus em nome de uma sciencia impia. Apostolo infatigavel da
immoralidade, no respeitava sexo, nem edade, quando vibrava a ironia,
pungente como uma frecha de fogo, ao seio da moral christ. A donzellas,
a mes, a creanas, a velhas, a religiosas, e a devassas falava sempre
no mesmo estylo. Se acontecia ser mal recebido, assumia uma auctoridade
pedagogica, dava-se um ar de respeito, e justificava o que dissera em
tom de mofa discursando contra o christianismo que elle dizia sepultado
para sempre no tumulo que lhe abrira a sciencia.

Alvaro da Silveira descreu espontaneamente. No deu trabalho ao
companheiro, nem quiz profundar uma questo que lhe no importava. A
negao formal era a ultima palavra da impiedade constituida em
sciencia. A Alvaro bastava-lhe saber essa ultima palavra.

Todavia, a assiduidade da companhia, e o habito de escutar o seu amigo
em polemicas, animadas pela f de uma parte, e da outra pelo orgulho,
deixaram-lhe uma tintura scientifica de atheismo.

Alvaro no recebera de seus paes educao religiosa. Esta falta
desmentia a classe d'onde viera. A jerarchia dos brazes em Portugal,
com quanto viciosa, parece gloriar-se com o seu privilegio de f, e de
virtudes christs... _extra-muros_. A educao ahi  mais religiosa que
scientifica:  mais para Deus que para o mundo. No  milagre encontrar
c fra o representante de oito seculos de heroes virtuosos e bravos,
enxovalhando-se na lama das covardias e das torpezas: mas raro
encontrareis no colo materno, uma creana de sangue _illustre_, como l
se diz, cuja primeira palavra articulada no seja DEUS.

Alvaro da Silveira era uma excepo; o instrumento--quem sabe?--de um
acto providencial.


XVIII

Os esplendidos festins da depravao no se fechavam para alguem. Ponto
era que o conviva fosse bem apresentado, e fechasse os labios da critica
com mordaa de ouro. J sabeis que Alvaro era rico, e quem o levou pela
mo at o ultimo degrau da escada da immoralidade, fra um conde to
rico e to nobre como elle.

Este homem pavoneava-se de ter conquistado um nome, que exprimia uma
seita. Chamavam-lhe cynico, e elle gloriava-se do nome. A sociedade
nunca o maltratra, mas elle dizia que tinha uma vingana solemne a
tirar da sociedade. Algoz da honra de muitas familias, a sua guilhotina
era a calumnia, quando no podia mostrar as mos salpicadas do sangue
das victimas. Velava alta noite a porta de um amigo, que o recebera de
dia, para que os passageiros, ao ve'-lo, o considerassem amante de sua
irm. Quando o murmurio do descredito chegava aos ouvidos do pae, que
rejeitava a mo de um traidor que o visitava, o conde no tinha duvida
em offerecer galhardamente a esse pae uma pistola, ou um florete. Se o
ancio recuava diante da morte, ou da ida do abandono em que ficava sua
familia, o cynico ria-se-lhe na face, e chamava-lhe _cobarde_ nas
praas, ou nos sales.

Assim como conduzira pela mo Alvaro da Silveira s bachanaes, mais de
uma virgem fra conduzida por elle  ultima estao da licena. E,
depois, o maldito de Deus, e dos homens, aprazia-se de contemplar o
desenfreamento d'essas mulheres, como se fossem feras, restituidas  sua
liberdade.

Estas linhas, esboadas  pressa e com repugnancia, traam a physionomia
moral do conde que entrra para o quarto de Alvaro da Silveira.


XIX

A carta que Frei Antonio recebera, era de sua sobrinha. Era este o seu
conteudo:

Pedi licena a meus paes para escrever-lhe, meu caro tio, e sorriram 
minha supplica. Como no pude adormecer a noite passada, trabalhei e
conclui a ultima encommenda de flres que tinha. Graas ao Senhor, j
vieram novas encommendas; mas eu sinto-me fatigada dos braos, e no
posso continuar. No espirito sinto eu muita vida, e no posso nem quero
vencer esta consoladora fora que o impelle para meu tio. Penso que o
no verei hoje; mas... cedi agora  maneira commum de se exprimir a
gente... eu vejo meu tio em todos os instantes e logares... Deixa-me
escrever uma verdade, que no teria foras de dizer-lhe?... Deus quer
que meu tio seja o prisma por onde eu devo contempla'-lo. Ser isto uma
fraqueza de razo, ou uma liberdade peccaminosa? Peccado seria eu calar
este pensamento, que o meu querido mestre pode repreender.

Estou triste, como ha pouco. Eu adivinho alguma infelicidade. Sinto-me
com tanta coragem para ella!... Mas a natureza humana, e especialmente o
espirito da mulher, e especialmente o meu espirito,  muito fraco.
Espero tanto em Deus!... tanto em Maria Santissima!... e parece que uma
voz, nem humana, nem divina, me diz que fuja, que trema, que recue ao
combate do infortunio contra a paciencia! Muito triste  isto, meu caro
tio! A minha vida tem faltas, que eu devo expiar? Porque m'as no dizem,
se me amam?!

Persigo-o muito, eu bem o sei! No o deixo em paz, quando to
necessaria lhe  para estudar a grande lucta em que est empenhado! No
sei as foras do seu discipulo, mas eu admiro mais a converso de Santo
Agostinho que as victorias de Alexandre. Aqui estou eu a fazer-me
vaidosa e sabia diante de meu tio, que tambem conhece a minha humilde
ignorancia!...  que estou affeita a conversarmos como escrevo.

E a minha melancolia? E os meus versos? Nem me disse se tinham as
syllabas todas, ou quantas deviam ter mais! Nem valia a pena... Adeus,
meu extremoso amigo! Meu pae, e minha me, e meus irmos esto muito
saudosos. No se esquea um instante da sua familia que o ama tanto como
a sua sobrinha

                                                             _Maria._

--Coitadinha!...--murmurou padre Antonio, dobrando a carta--s um anjo!


XX

O conde tomra uma postura comica de pasmo, quando Alvaro entrou no
quarto. Alguma cousa o impressionra; mas em homens taes as impresses
so fugitivas, e frouxas, porque no ha ahi enthusiasmo, nem grandeza
n'essas almas cadas do sublime para o raso dos sentimentos grosseiros e
triviaes.

O procedimento do seu amigo devia maravilha'-lo. Era extraordinario!
Apenas entrou no quarto, Alvaro extendera-lhe friamente a mo, e
mandra-o sentar-se com um gesto, muito significativo de fastio. Que o
hospede lhe era aborrecido, bem o denunciava elle no franzir da testa,
onde por fora vem  luz da physionomia sentimentos que a delicadeza
quizera algumas vezes abafar.

--Doe-te a cabea?--perguntou o conde.

--No... doe-me o espirito--respondeu Alvaro.

--As dres do espirito, matam-se com _espirito_... mas  de vinho...
Bebe... Obriga a materia a pensar de outra maneira, como diz _Rousseau_.

--E diz _Rousseau_ que a materia pensa?--perguntou Alvaro, com um
sorriso motejador.

--Que duvida!... A materia organisada, chamada homem,  uma cousa que
pensa. Quando pensa mal, isto , quando nos apoquenta, modifica-se a
materia, imprimindo lhe uma aco nova. A maneira de modifica'-la 
simplicissima. Disseste que estavas triste, no  verdade?

--Sim.

--Pois bem: bebe cognac, come fiambre, afoga-o em vinho de Setubal, que
 de mais a mais um triumpho patriotico sobre o _Champagne e Bordeus_.
Seja o que fr o bolo alimenticio, que alojas no estomago,  materia:
esta, posta em contacto com a materia que pensa, altera-a; e d'esta
alterao chimica e physiologica resulta um novo ser pensante, uma
solemne pirraa  tristeza.

O conde esperava merecer uma risada com a sua dissaborida theoria. Foi
para elle uma segunda surpresa o silencio de Alvaro da Silveira. N'este
silencio transparecia o desprezo a que nos movem as chufas desengraadas
de um truo, _invita Minerva_, que nos noja, quando pensa recrear-nos. O
conde no estava affeito a estas decepes. O orgulho doa-se. Alvaro
seria o ultimo de quem elle devia esperar um mau acolhimento.

--Agora vejo eu--disse elle contrafazendo o pejo, que mais acertadamente
chamariamos _despejo_.--Agora vejo eu, que o teu cerebro de hoje
conspira contra a tua felicidade de hontem... que tens tu, mancebo
gentil? A brisa da noite desfolhou-te a rosa, que te embalsamava o
olphato do corao? Sonhaste alguma virgem de olhos garos, que no
pudeste realizar em materia corrente e sonante n'estes reinos?

Alvaro, nem um sorriso! Era demais para _tanto espirito_! O conde s
agora compreendeu que os seus ditos causticavam a paciencia do
discipulo. Este, apesar de molestado, no queria ser incivil. O
predominio do conde sobre o seu genio no estava inteiramente extincto.
Era-lhe necessario justificar-se de algum modo. Qualquer evasiva podia
servir-lhe; mas a transfigurao do seu caracter, n'aquelle momento, no
lhe permittia uma mentira. Bem podera Alvaro queixar-se de um
padecimento physico, e tinha bem justificada a sua indolencia para as
caricias folgazs do conde; mas no o fez assim, e, se consultarmos o
corao humano, ouviremos um applauso  franqueza que depois ostentava
Alvaro.  que, se, por ventura, um sentimento novo acorda em ns desejos
bons, o primeiro d'esses desejos  communicar aos outros uma felicidade,
que tanto menos egoista, tanto mais perfeita se nos afigura. A passagem
da indifferena para a observancia da religio revela-se sempre com
esses symptomas. O zelo de um neophito manifesta-se mais corajoso e
ardente que o apostolado de um orador feito, e encanecido em desalojar a
impiedade dos seus ultimos reductos. E depois, no espirito illuminado
pela effuso rapida e imperceptivel da graa divina, ha um desejo forte,
uma vaidade santa de attrair espiritos contumazes, de curvar os joelhos
arrogantes, e de vencer razes, cuja pertinacia nos parece impossivel na
presena dos argumentos que humilharam a nossa. O que ento se d na
alma  uma paixo sublime. A eloquencia do que fala, convicto de
verdades que lhe promettem uma aspirao immortal, parece um emprestimo
da linguagem dos anjos. Ei'-los ahi, de repente, credulos, os apostolos,
que extendiam ha pouco as redes no lago de Gethsemani, e surgem agora
entre os interpretes da lei, nas praas da Galila, falando linguas que
nunca ouviram.


XXI

Alvaro da Silveira sentira-se capaz de converter um impio. Ha pouco
ainda, balbucira as primeiras palavras de f, e cr-se j robusto para
vibrar a funda contra o gigante do materialismo cuja arrogancia no
vencem foras de homem, sem o impulso divino, que arrojra a pedra que
prostrou o gigante philisteu.

--Que tens tu?--repetiu o conde.

--O que eu tenho--respondeu Alvaro-- o desejo de um amigo; mas queria
um amigo, que nascesse n'este momento, e n'um momento me comprehendesse.
No podes avaliar-me, conde. Se pudesses, ser-te-hia bastante uma s
palavra...

--Pois bem--replicou o conde--diz ao menos essa palavra... ou diz sequer
tres palavras conceituosas como as de Cesar...

--Ora attende-me. Tendo ns vivido sempre juntos nunca me persuadi que
pudesse estar to longe de ti como estou agora.

--Sers tu romantico?! atalhou o conde dando-se uns ares grutescos de
espanto.

--Se ouvisses--tornou Alvaro sorrindo--a definio que ha pouco ouvi do
que  ser romantico, e se concordasses com ella, respondia-te que estava
romantico.

--Pois quem anda c por casa a dar definies? Teu pae deu agora n'essa?

--No foi meu pae... Meu pae o que soube foi definir a minha posio.

--Apre! Ests mysterioso como o boi Apis! Vou-me embora, que no sei ler
geroglyphos humanos. Palavra de honra! Soletra l o conceito d'essa
charada, do contrario vou-te mandar preparar quarto na enfermaria de S.
Jos.

--Ento queres saber quem define os homens e as cousas c em casa?

--Quero conhecer esse escolastico; deve ser um monstro de paciencia
humana!

-- um padre!

--Um padre? exclamou o conde, erguendo-se, e apertando as mos 
cabea--um padre em casa de Alvaro da Silveira! Malagrida em 1844 a
fazer exercicios espirituaes contra os exercicios da materia!...


XXII

N'este momento, abriu-se a porta do quarto. Os que a abriram eram o pae
de Alvaro, e fr. Antonio dos Anjos.

A presena do sacerdote devia augmentar o pasmo comico do conde; mas a
impresso foi diversa. Este homem do grande mundo perdia muito da sua
altivez sarcastica, se no tinha em redor de si um rancho que lhe
applaudisse as chufas. A unica pessoa de sua confiana, n'aquelle
momento, era Alvaro, mas este apostata do grande tom no era hoje o
homem de hontem. E, por tanto, o desenvolto conde na presena do padre
sentiu-se embaraado, como devera sentir-se o padre na presena de tres
cavalheiros da fora moral do conde.

Frei Antonio dirigiu sua humilde saudao ao cavalheiro, que no
conhecia. Alvaro apresentando-lh'o, disse:

--Tenho a honra de lhe apresentar o meu amigo conde de ***.  mais velho
do que eu, mas posso dizer affoutamente que sabe menos do que eu da
verdadeira sciencia.

--A verdadeira sciencia--disse o padre-- um exclusivo de Deus, e no
tem academias c na terra.

--Concordo absolutamente na negativa--disse emphaticamente o conde.

--Ento em que  que concordas? perguntou Alvaro.

--Em que no se sabe nada a respeito da verdadeira sciencia.

--E em que  que no concorda, senhor?--interrompeu frei Antonio, com
risonha benevolencia.

--No exclusivo divino em que vossa reverendissima monopolisa a
sciencia--responde o conde sorrindo sardonicamente  palavra
reverendissima.

--No me parecem respeitosas as palavras da resposta--retorquiu o
padre--mas nem por isso hesitarei em fazer-me comprehender melhor, para
depois avaliar a opinio de v. ex.^a. Quando eu disse que a verdadeira
sciencia era um exclusivo de Deus, poderia fazer-me entender melhor se
dissesse que o objecto do estudo que promettia consequencias seguras de
principios certos,  Deus. Se v. ex.^a quizer insistir na primeira
intelligencia que deu s minhas palavras que a verdadeira sciencia  um
exclusivo da divindade, porque s Deus  omnipotente...

--Assim reza a cartilha do padre Ignacio--interrompeu o conde com
acatamento ironico.

-- verdade--replicou o padre--a cartilha do padre Ignacio, que v. ex.^a
citou em ar de mofa, assim o diz e deve dize-'lo, porque essa cartilha,
por onde estudam os meninos, contm as verdades eternas como ellas foram
recebidas pelos sabios e illustrados doutores da egreja. E como 
possivel que no se bem aos ouvidos de v. ex.^a esta minha linguagem,
buscada de emprestimo na cartilha do padre Ignacio, eu no poderei,
falando-lhe a sciencia de Deus, empregar os termos que a falsa
philosophia emprega contra Deus.

--V. s.^a faz uma grave injustia  philosophia. Sem a
philosophia--disse o conde, assumindo um ar de sria profundidade--sem a
philosophia no poderiam os padres da seita christ seduzir o espirito
dos homens, a ponto de convencer alguns menos reflectidos, da divindade
do christianismo.

--E por tanto--acudiu o padre--deixe-me v. ex.^a concluir que a
philosophia  uma mentira, por isso que os padres da seita christ, como
v. ex.^a gratuitamente appelida a egreja catholica, se serviram d'ella
astuciosamente para convencer os menos reflectidos. Ora pergunto eu
agora, quaes so os mais reflectidos?

--So os que vem as cousas pelos olhos de uma raso illustrada!

--Mas a raso illustrada no  a philosophia?

-.

--Logo a raso illustrada  uma mentira, por isso que a philosophia 
uma mentira, que seduz os menos reflectidos a julgarem divino, o que no
passa de uma humana impostura. Pde v. ex.^a elucidar-me n'esta grave
questo, que no vem resolvida na cartilha do mestre Ignacio?

O conde embaraado, e surprehendido pela argumentao escolastica do
padre, parecia engasgar-se n'uma resposta, cuja frivolidade lhe estava
bem denunciada no rubor que lhe subia  face. Este rubor era a
arrogancia despeitada. Frei Antonio, repeso de assolar to cedo o fragil
edificio do seu adversario, remediou o mal que, segundo a sua humildade,
tinha feito, dando elle proprio a mo ao fraco contendor.

--Estou como v. ex.^a persuadido--disse elle--que ha uma philosophia 
qual faria grave injustia, se no dissesse que muito lhe devemos por
nos ter aplanado algumas difficuldades em sciencia. Estas difficuldades
vencidas serviram a causa de Deus, e confirmaram verdades claras que a
razo humana julgra mysterios. Citar-lhe-ei um exemplo. Ha um seculo
escreveu-se contra o christianismo, e disse-se que a religio assim
chamada era um encadeamento de embustes desde Moyss at Jesus Christo,
desde o Genesis at o Evangelho. Os que assim escreviam eram
philosophos, sr. conde?

--De certo, porque os que assim escreveram foram Voltaire, d'Alembert,
Holbac...

--E outros muitos que no  fora citar. Pois, senhor, esses reputados
philosophos disseram que Moyss era uma impostura, por isso que a
philosophia no podia consentir que a relao dos successos da creao
do mundo, descripta no Genesis, fosse verdadeira. Passados annos, as
academias scientificas, especialmente a sociedade de Calecut,
expressamente organisada para testificar ou destruir o testemunho de
Moyss, declara que  impossivel compreender a cosmogonia, isto , a
formao do mundo, sem admittir as infalliveis bases de sciencia,
escriptas ha cinco mil annos nos livros do povo hebreu. Agora pergunto
eu se devemos julgar philosophos os primeiros que negaram Moyss, ou os
segundos, que, partindo das veredas da incredulidade para o caminho
recto da sciencia, declararam, aps cem annos de progresso em sciencias
naturaes, que a narrao do Genesis era a unica admissivel em verdadeira
philosophia. Se acreditamos os primeiros a sciencia  uma mentira, por
isso que tanto mais progride tanto mais se afasta da verdade. Se
acreditamos os segundos, os primeiros eram os mentirosos, e por tanto eu
proclamarei a philosophia progressiva como aquella que conduz ao
conhecimento de Deus, tanto quanto  possivel s indagaes da limitada
razo do homem.

--A razo do homem no  limitada--retorquiu o conde.-- razo do homem
 que devemos o vasto terreno da sciencia, grangeado pelos esforos
d'esses homens que conquistaram verdades axiomaticas, sem as armas do
Evangelho, e sem as esterilisadoras argucias da theologia. A razo do
homem  amplissima e immensa com Deus, porque Deus  a razo.

--No estamos j na questo que discutimos--tornou o padre.--V. ex.^a
devia destruir os meus argumentos, provando-me que os verdadeiros
philosophos eram os do seculo passado que desthronaram Moyss do seu
prestigio de legislador inspirado directamente de Deus. Devia provar-me
que a sciencia moderna, restaurando as tradies da historia antiga, e
restituindo Moyss ao patriarchado das primitivas verdades, era uma nova
impostura, ou a continuao d'aquella sordida ignorancia que Voltaire
combateu triumphantemente, segundo a maneira por que v. ex.^a v as
cousas. E, estando eu muito convencido da impossibilidade que v. ex.^a
ha de encontrar em provar-me as theses que lhe apontei, vou responder 
apologia que fez  razo do homem.

No ha duvida que a razo humana procura todos os dias tirar, em
sciencia, novas consequencias de velhos principios; e effectivamente
esse incansavel trabalho do espirito humano, ancioso de progredir, tem
conseguido tudo isto que nos maravilha nas sciencias e nas artes. J v
v. ex.^a que eu concedo grandes fros, e sublimes honras  razo; mas,
j que to opulenta a considero, no terei escrupulo em pedir-lhe que me
explique os principios de que ella tira as suas consequencias
scientificas. Pedirei aos chimicos, que me expliquem o seu grande
principio axiomatico da affinidade. Responde-me v. ex.^a em nome
d'elles?

--Eu de certo no, porque ninguem soube dizer o que era affinidade.

--No  tanto assim. Os chimicos dizem que a affinidade  a fora que
attre as moleculas de differente natureza. Respondem assim, porque
observaram a combinao d'essas moleculas; mas queria eu que me fosse
explicada a natureza d'essa fora, o segredo d'esse movimento de corpos
inertes, sem que a mo do homem lhe imprima tal movimento.  a
attraco dizem os physicos, mas o que  a attraco? D'onde vem a
fora impulsiva que faz girar o globo que habitamos em redor de um outro
globo, que no conhecemos?

--No temos preciso de conhecer at  evidencia esses segredos da
creao.

--Mas v. ex.^a concede que o Creador no os ignora?

--Seria um absurdo no o conceder.

--E a razo humana no pde conhece'-los?

--J disse que no.

--Mas v. ex.^a disse que Deus  a razo humana! Eu sinto grandes
difficuldades em combinar a sua these com as consequencias que se tiram
d'ella. Se a razo humana  Deus, o homem  forosamente divino pela
celeste razo que o illumina. Se o homem, com a sua razo, no pde
profundar os segredos da creao, eu no posso conceder que Deus, pelo
facto de modificar-se em razo unindo-se  humanidade, reservasse para
si certos mysterios como Deus, e cedesse a si proprio o conhecimento
de certas e determinadas verdades como razo.

--No combinamos em principios, meu caro senhor, e d'ahi vem a
desintelligencia em que estamos nas consequencias. Eu vou explicar-me
com clareza: Eu digo que a razo do homem  uma emanao de Deus.

--Mas eu no entendo, sr. conde, o que , e como se opera essa emanao
de Deus. Deus  indivisivel; Deus  inalteravel; Deus  immutavel. No
posso, por mais abstractas que sejam as minhas intuies, imaginar que a
emanao de Deus no seja uma parte de Deus; e, por tanto, no concebo
como essa parte seja substancialmente diversa do todo. Deus considerado
em si, segundo v. ex.^a,  omnisciente, e v os segredos da sua obra:
Deus, convertido em razo pelo effeito da emanao, segundo os mesmos
principios, perde os attributos de Deus omnisciente, e restringe-se ao
conhecimento de algumas verdades, por meio das quaes  impossivel
conhecer os mysterios, que ha perto de seis mil annos, os homens debalde
tentam descortinar.

--Pois v. s.^a no admitte que todo o ser creado  uma emanao de Deus?

--No, senhor, no admitto.

--Essa  boa! Pois a creao no  uma produco de Deus?

--E a produco  por ventura uma emanao? A estatua de barro que se
das mos do esculptor  uma emanao de esculptor? Deus incorporeo
poderia materialisar-se nas massas inertes, que foram producto de sua
omnipotencia, tanto como o homem que foi feito  sua imagem?

--Ahi est um grande embarao para mim. No comprehendo como o homem
corporeo foi feito pelo modelo de Deus incorporeo.

--A imagem de Deus, sr. conde,  a alma, no  o involucro material da
alma. Memoria, vontade, intelligencia so os traos d'essa physionomia
espiritual affeioada pelo typo divino. Attribuimos  memoria tudo o que
sabemos, diz S. Bernardo, posto que esta sciencia no seja a causa de
nossos pensamentos; attribuimos  intelligencia, e algumas vezes 
memoria, tudo o que o pensamento nos mostra verdadeiro; imputamos 
operao da vontade tudo o que reconhecemos ser bom e verdadeiro pelo
soccorro da intelligencia. A memoria nos assemelha ao Pae, a
intelligencia ao filho, a vontade ao Espirito Santo. Seja-me permittido
citar Santo Ambrosio, em quanto v. ex.^a invoca os textos de Voltaire.
Do mesmo modo que Deus, diz elle, creador do homem  sua semelhana, 
caridoso bom e justo, doce e soffredor, puro e misericordioso... assim o
homem foi creado para possuir a caridade, ser bom e justo, doce e
paciente, puro e misericordioso. Quanto mais o homem sente em si essas
virtudes, mais se approxima de Deus, e mais semelhana tem com elle.
Mas, se ulcerado pelo crime e pelo vicio, elle se afasta e degenera
d'esta nobre semelhana com o seu Creador, descer  realidade d'estas
palavras escriptas em predico bem desgraada: O homem no compreendeu
a sua elevada posio; comparou-se aos irracionaes, e assemelhou-se a
elles.

--Parece-me muito metaphysica a sua explicao, sr. padre. Eu gosto da
geometria em todas as demonstraes, e no admitto verdades sem
evidencia mathematica. O seu Santo Ambrosio e S. Bernardo explicariam
perfeitamente a semelhana do homem com o seu Creador, mas foi n'esses
tempos em que falavam s turbas credulas, que juravam em suas palavras
sem entende'-los. Hoje  muito perigoso esse assumpto, e no me consta
que desde o seculo do grande Rei, desde Bossuet at Frayssinous, algum
orador christo torture a intelligencia do seu auditorio, querendo 
fora persuadir-lhe que o homem foi creado  semelhana de Deus!

--V. ex.^a no tem obrigao de ter lido tudo; mas tambem a no tem de
calumniar Bossuet. Se a memoria no me falha, eu lhe cito as palavras
textuaes do grande orador: Faamos o homem; e proferidas estas
palavras, a imagem da Trindade appareceu. Ostenta-se luminosa na
creatura racional: semelhante ao Pae tem o ser; semelhante ao Filho tem
a intelligencia; semelhante ao Espirito Santo tem o amor; semelhante ao
Pae, e ao Filho, e ao Espirito Santo, tem, no seu ser, na sua
intelligencia, e no seu amor uma mesma felicidade, uma mesma vida. Feliz
creatura, e verdadeiramente semelhante, se ella se occupa unicamente
d'elle! Ento, perfeita no seu ser, na sua intelligencia, e no seu amor,
conhece quanto , ama quanto conhece: seu ser e suas operaes so
inseparaveis; Deus torna-se a perfeio do seu ser; a nutrio immortal
da sua intelligencia, e a vida do seu amor... Ditosa creatura, se sabe
conservar a sua felicidade!

--Esta  a doutrina de S. Bernardo, de S. Ambrosio, de Bossuet, de
Frayssinous, e de todos aquelles que bebem o leite da f no seio da
esposa de Jesus Christo.

--No duvido; mas no compreendo. O que eu sei  que repugna com a menos
desenvolvida razo a semelhana espiritual do homem com Deus. Eu conheo
homens to degradados da honra, to hediondos de crimes, que reputra-me
blasphemo se os considerasse semelhantes no typo divino.

--Ha de ter paciencia de escutar-me com a atteno de philosopho, se no
pde prestar-me outra.--A revelao figura-nos o homem, no s como o
mais perfeito de todos os seres animados, mas ainda como o rei da
natureza, para o qual foram feitas todas as cousas. Por ella aprendemos
que Deus fez o homem  sua imagem e semelhana, para que presidisse ao
universo. Sabemos ainda que, depois de dar-lhe uma companheira, disse a
ambos: Crescei e multiplicae, enchei a terra da vossa posteridade,
submettei a vossas leis tudo o que respira; pois tudo  feito para vs.
Vs o fizestes senhor de todas as vossas obras!--exclama o
psalmista--todos os entes vivos so submissos ao seu imperio, e
destinados para seu uso.  verdade que a escriptura varia a linguagem,
quando lembra ao homem a sua construco de terra, que em terra se
tornar. Assim era necessario para suffocar os orgulhos do corao. No
, porm, o longo viver sobre a terra que constitue a dignidade do
homem. No  sobre a terra, que a felicidade lhe sahir ao encontro.
Creado para Deus e para a eternidade, s no seio de Deus, e no seio da
eternidade poder ser feliz d'esse goso inalteravel que no se finda. 
aqui onde comea a cadeia de objeces por parte da incredulidade. Nega
primeiramente que o homem fosse feito  semelhana de Deus. Quem quizer,
porm, convencer-se d'esta verdade, observe com atteno o modo como a
alma exerce suas funces, e o dominio que ella tem sobre o involucro de
materia inerte, que lhe obedece: Consideremos a variedade infinita das
nossas idas, a rapidez com que ellas se formam, a communicao por
intermedio da palavra, a fidelidade da nossa memoria, esse presentimento
que raras vezes nos engana, tudo parece approximar-nos da suprema
intelligencia, que abraa de um lance o co e a terra, as passadas, as
presentes e as futuras revelaes da humanidade. A alma, quando furiosas
paixes a no agitam,  capaz de reprimir seus desejos; de acalmar seus
movimentos desordenados, de dirigir sua vontade, e ahi se observa uma,
posto que imperfeita, imitao do imperio que Deus exerce sobre todos os
seres. O sentimento que ella tem de sua immortalidade, seu olhar
penetrante nas profundidades do futuro, e suas esperanas anciosas alm
do tumulo, so indicaes do seu destino, assignalado por Deus.

--Essa imagem de Deus--atalhou o conde--est bem degenerada; e, se o no
est, Deus  um ente bem imperfeito.

--Concordo--tornou o padre--que no  muito semelhante esta imagem do
homem imperfeito com a do seu perfeito Creador; era-o, comtudo, no
momento da creao; foi o peccado que o desfigurou. Mas se o homem
degenerou por causa do peccado, lapso da sua innocencia primitiva, foi
depois regenerado pelo sangue do Salvador, e, assim resgatado, tornou-se
pela graa filho de Deus. O homem, no estado de innocencia, devia
dominar-se, dominar as creaturas todas, e viver perfeitamente com Deus,
seu creador. Eu quereria poder aqui especificar a substancia da alma,
para satisfazer plenamente s duvidas do sr. conde, mas, se eu posso
provar que a sua espiritualidade est provada pela sua origem, devemos
convir que tudo mais nos  desconhecido. Porque Deus soprou o barro que
amassra, no se segue que a alma humana  uma poro de Divindade, como
os antigos egypcios acreditavam: esta supposio levar-nos-ia ao
pantheismo, de todos os systemas o mais insensato. Deus  um espirito, o
espirito  indivisivel; e, recebendo cada homem no halito creador uma
poro de Divindade, cada homem seria um Deus. O que devemos entender do
sopro de Deus no  uma emanao da substancia, mas sim a creao de uma
substancia semelhante, isto , espiritual, mas nunca identica ao Supremo
Espirito.

--No existe entre o corpo e essa substancia espiritual uma unio
real?--interrogou o conde.

--Certamente, existe, porque o corpo  o instrumento de que a alma se
serve para obter o conhecimento dos objectos.

--Mas qual  a natureza d'essa unio?

--Essa questo no pde ser solvida pelos homens:  um mysterio
d'aquelles em que a Divindade se manifesta com mais magestade ao debil
entendimento da humanidade. Se, porm, no  possivel chegar  ultima
consequencia d'essa pergunta, no  difficil provar-lhe que uma tal
unio existe. A alma possue sobre o corpo a soberania e a independencia
da vontade; rege-o pelo pensamento, sem comprehender a disposio dos
rgos que rege, e sem que perceba a potencia que move e anima as
fibras. Sabe, por ventura, v. ex.^a explicar-me a natureza de certas
operaes incognitas, que se passam em si? Sem a degradao produzida
pelo peccado, este imperio da alma no acharia estorvos no seu
exercicio; mas, no estado actual, a vontade  muitas vezes vencida pela
resistencia dos sentidos.

--Pois bem, tornou o conde--eu ponho de parte a esteril preteno de
querer saber onde est a alma, e peo que me diga, sr. padre, que culpa
tenho eu no peccado de Ado, para estar pagando as suas dividas? Isto
parece-me uma flagrante injustia!

--Deus  soberanamente sabio, bom, e misericordioso; disse-nos que o
peccado de Ado era uma herana de culpa para todos os seus
descendentes; devemos acredita'-lo. So-nos desconhecidos os motivos
d'esta responsabilidade; mas no se segue que possamos, como ignorantes,
alcunhar de injusto o Altissimo. N'este mundo ha alguma cousa
semelhante. Diz-se que as faltas so pessoaes, e que a vergonha de uma
aco criminosa deve s recair n'aquelle que a pratica. E, quando um
crime estrondoso se d que  o que ns fazemos? perseguimos com odio e
com desprezo o condemnado e a familia do condemnado, at lhe cortarmos
os vinculos que a prendem  sociedade. No quero dizer que Deus sinta
estas repugnancias proprias dos homens, porque no sabemos o motivo
porque elle produziu obras, que apenas podemos contemplar; o que dizemos
 que Deus  infinito, eterno, e que a pena do peccado, para estar em
proporo com a sua natureza, deve ser eterna e infinita. No estado de
innocencia, o homem tinha a luz da sua intelligencia, e, degradado pela
culpa, cau nas trevas; de senhor absoluto da sua vontade tornou-se
escravo dos sentidos; pelo repouso e felicidade que possuia, trocou a
tristeza e o tumultuar das paixes, que o infelicitaram: em logar da
vida espiritual e eterna, encontrou a vida material e a morte.

O conde atalhou as razes do padre, espreguiando-se rudemente, abrindo
a boca, esfregando os olhos, com a mais sensivel ostentao de escarneo.
Fr. Antonio sorriu-se com bondade, e disse para o pae de Alvaro:

--Eis aqui como a philosophia do orgulho, esta rainha comica do mundo,
responde aos que lhe perguntam pelos seus fros de realeza...

--No  isso, sr. padre--interrompeu o conde.-- que eu passei uma noite
pouco orthodoxa e no posso digerir o succo nutriente da sua theologia
sem dormir algumas horas, para restabelecer a boa harmonia entre as
funces do entendimento e as dos sentidos. Bem sabe v. s.^a que os
apostolos dormiram, e mais era Christo quem lhes pediu que velassem. Ora
eu no tenho a audacia de comparar-me a Cefas, e vossa reverencia no
quer de certo tambem comparar-se ao Mestre... Meus senhores, a minha
noite comea agora... Vou dormir, naturalmente sonharei com S. Joo
Chrysostomo, e S. Bernardo... Boas noites.


XXIII

As argucias galhofeiras do conde no agradaram a algum dos ouvintes.
Alvaro pareceu vexar-se d'aquella despedida, mais insultuosa que
engraada, ao padre. Este, porm, supposto que vexado, no se denunciou
pelo mais ligeiro gesto de enfadamento. A coragem para receber
impassivel as ironias sarcasticas da incredulidade, dera-lh'a a
desgraa, e aconselhra-lh'-a a caridade.

Na ausencia do conde, Alvaro e seu pae esperavam do padre palavras
resentidas; e maravilharam-se quando lhe ouviram dizer com profunda
compaixo:

--O desgraado precisa muito das oraes de um justo!... Quem me dra
s-lo para que a luz do co lhe descesse ao espirito, antes que o
desalento do mundo lhe aconselhasse a religio como refugio das extremas
desgraas da vida! Oh! quando isso acontecer... muito infeliz deve elle
ter sido!...

Desde este momento apertaram-se os vinculos de piedade, de sympathia
religiosa que prendiam Alvaro e o frade. O mancebo vira a vergonhosa
retirada do seu antigo mestre de atheismo, e decidira-se de corao a
favor do modesto triumpho do humilde padre. Como espirito illuminado
pela f, Alvaro precisava formar a sua razo pelos elementos de uma
philosophia que Fr. Antonio lhe dissera existir, mas que no era aquella
do seu amigo conde.

O estudo attencioso, reflexivo, e continuado tornou-se a vida, quasi
invariavel, do educando. Uma transio, assim rapida, assentava o padre
que no podia, sem interveno divina, explicar a improvisa regenerao
de um homem, que deixra no mundo mil incentivos de paixes que o no
tinham enfastiado ainda.

A vergonha da virtude, que no pudera vingar n'um corao ulcerado de
vicios, principiou a desabrochar flres que enfeitavam a converso do
mancebo d'essas galas de educao, que parecem vindas do bero e
herdadas dos paes. Era o imperio da religio, e unicamente da religio.

Fr. Antonio dos Anjos, vaidoso com razo da obra, cujo instrumento elle
fra, no cessava de agradecer ao Altissimo a escolha que fizera de um
peccador para a converso de outro peccador, para quem o remorso seria
tardio.


XXIV

Na grande roda, falava-se muito da converso de Alvaro. Infelizmente,
porm, esta converso tomaram-na irrisoriamente a maior parte d'aquelles
que se occupavam d'ella, por no terem um caso semelhante de que se
occuparem. Os da sua plana, particularmente, pareciam vexados da
religiosidade do seu antigo camarada, que to bellas esperanas dava de
correr parelhas no cynismo philosophico do conde.

Na incerteza de semelhante boato, muitos vieram procurar Alvaro, e
acharam-no prompto sempre a recebe'-los; se, todavia, os seus hospedes
tentavam chama'-lo ao assumpto, que ali os trouxera, Alvaro contava-lhes
uma historia assim resumida:

Eu era discipulo do conde ***, assim como vs o sois. Casualmente o meu
mestre de philosophia falsa encontrou-se com outro que me dizia ser o
mestre da verdadeira philosophia. Disputaram por algumas horas: o
primeiro, quando se viu esmagado no seu orgulho, fugiu, cantando um
hymno em seu triumpho, mas um hymno injurioso ao modesto vencedor.
Sabeis o que depois me fez alistar na escola do frade, e fugir  escola
do conde? Foi, talvez, muito pouco: vi que o frade pediu a Deus a
converso do conde que o insultra, e insultra a Deus.

Os que o ouviram diziam depois: Aquelle pobre Alvaro endoudeceu!...
Coitado!... Seria uma paixo infeliz? Seria desorganisao do
cerebro?... Seria alguma grande perda no jogo?




LIVRO III


I

Eram passados seis mezes depois que frei Antonio dos Anjos tomra a seu
cargo a educao de Alvaro. Este mancebo, vivendo uma vida quasi de
recluso e de immobilidade corporal, fazia grande violencia ao corpo, se
bem que  alma no fazia nenhuma.  que a materia, posto que sujeita 
vontade do espirito, adquire certos habitos, que no seguem facilmente
as modificaes do espirito, principalmente quando estas so bas e
aquelles mos.  como o relevo aberto no marmore pela mo do homem, cuja
imperiosa vontade no pde desfigur'-los sem que a mo os destrua.

E a passagem da vida agitada para a meditao sedentaria fra em Alvaro
rapida, talvez de mais. Fr. Antonio conhecia a inconveniencia d'esta
transio; mas superior a taes receios, o religioso esperava que, na
converso do seu discpulo, se operasse um continuado milagre.

A Providencia, porm, imprimira no espirito do mancebo o impulso da
graa, e deixra-o ssinho na lucta do bem e do mal, para que as fadigas
do seu triumpho lhe fossem expiaes das cobardias em que se deixra
vencer.

Ao cabo de seis mezes, Alvaro da Silveira dera sensiveis mostras de um
abatimento, no de espirito, no de coragem, mas d'essa languidez de
todos os orgos, que parece o canasso de uma febre intermitente. A
melancolia fizera-o mais concentrado, mais solitario, e at mais
aborrecido de si e dos outros. O estudo no lhe valia j de distraco,
nem as praticas eloquentes do mestre lhe captivavam o espirito. Quasi
sempre fechado no seu quarto, Alvaro, por fim, repellia os alimentos que
lhe levavam, e carregava o sobrolho s admoestaes que o pae ou o
mestre lhe faziam. Frei Antonio quiz ver n'este estado critico os
elementos ainda no inflammados de uma reaco. Tremeu com a ida de no
vingarem os fructos da boa semente que elle, com tanto esmero e tanta
esperana, cultivra n'aquelle corao desbravado, ao que parecia, dos
espinhos da impiedade. Orou fervorosamente, pediu com anciedade a
tutella do co para aquelle orpho de pae, de amigos, e de mestre que
pudessem ampara'-lo na sua recada no abysmo, d'onde parecia ser salvo.
O santo homem chegra a persuadir-se que os seus trabalhos seriam
inuteis, porque o senhor queria puni'-lo da vaidade que elle tivera em
faze'-los proveitosos.


II

N'este conflicto de doridos pensamentos em que a alma do padre andava
trabalhada, inspirou-lhe a sua afflico um pensamento que longas e
veladas noites lhe alvoroou o espirito, antes que seus labios o
proferissem.

Fr. Antonio lembrou-se de conduzir Alvaro  sociedade; leva'lo elle
proprio ao mundo, e buscar ahi em roda de pessoas que se interessassem,
tanto como elle, na regenerao d'aquelle mancebo.

Mas as relaes do egresso eram muito poucas, e quasi se limitavam s do
parentesco, e s novas que adquirira na casa em que vivia.

Onde elle, cheio de confiana, poderia apresentar seu discipulo era em
sua casa, na roda de sua familia, onde desde 1834 no tinha entrado uma
pessoa extranha dessas que so apresentadas pelo seu nome, pela sua
posio, ou pelo seu dinheiro. Ahi, porm, vivia uma menina que no
sabia ainda distinguir o homem que nascera bom, e bom perserverra, do
homem que fra mau e parecia bom.

A consciencia do padre no lhe aconselhava confiadamente esse passo,
cuja firmeza era toda responsabilidade sua, porque bem sabia elle que
Alvaro da Silveira, apresentado ao coronel, seria recebido como filho,
e, apresentado a Maria, seria recebido como irmo.

E foi por isso que em sua alma se debateram com violencia dois
sentimentos oppostos: a confiana e a preveno.

Ou porque do co lhe descesse a inspirao, ou porque as propenses de
sua indole lhe fizessem ver a face do bem empanada pelo vo da maliciosa
suspeita, frei Antonio convidou Alvaro para acompanha'-lo a casa de sua
familia, onde, se quizesse, encontraria as affeies que se encontram
n'uma familia recolhida, que, de ordinario, parece desvelar-se em
communicar aos extranhos a felicidade de amor que lhe trasborda do seio.

Alvaro, sem fingir-se, no apreciou muito o convite, mas no se recusou
a elle. O habito de obedecer aos insinuantes conselhos do padre foi
talvez o unico movel, que o fez acceitar um offerecimento, que lhe no
promettia distraco  profunda tristeza que se lhe entranhra no
espirito.

Frei Antonio compreendera esta hesitao, e n'ella viu um prospero
agouro. Seriam illuses de uma boa alma?


III

O padre prevenira sua familia da proxima visita que lhe era destinada. A
me de Maria, to innocente como sua filha, e to confiada na prudencia
de seu cunhado como na de seu proprio marido, recebeu a noticia com
jubiloso assentimento. O coronel fitou em seu irmo um olhar de
interrogao, que devia ser uma pergunta intima, que os labios tinham
medo de balbuciar: Por ventura nada receias tu, meu irmo? Sabes que ao
p de minha filha s pde sentar-se um anjo como ella? Tens a certeza de
que esse mancebo entra em minha casa como no sanctuario da honra? Frei
Antonio lra estas perguntas nos olhos de seu irmo, e, como se
precisasse de empregar a palavra que o coronel no ousava pedir-lhe, o
padre apertou-lhe a mo com ternura, e murmurou a meia voz: No
temas!... tu s honrado, tua mulher  uma santa, tua filha  um anjo...
Eu serei um peccador, mas no sereis vs os que haveis de expiar as
minhas culpas... No temas, meu irmo.

Maria, quando a nova lhe foi dada, experimentou uma sensao, d'essas
raras sensaes que no ho de ter nunca na terra uma palavra fiel que
as defina. Ao ver que nos labios de sua me estava um riso de
beneplacito e contentamento, Maria sorriu tambem machinalmente, e ficou
silenciosa, durante a longa conversao que se travra a este respeito.

Recolhida, comtudo, ao calado abrigo do seu quarto, ao mystico colloquio
das suas tristezas com a imagem de Maria Santissima, a melindrosa menina
consultava-se, com doloroso interesse, no que seria essa nuvem escura de
melancolia, que viera turvar-lhe o espirito, quando ouviu dizer que
Alvaro da Silveira, por cuja converso tantas vezes ella orra, ia ser
recebido como amigo no seio de sua familia.

Esta interrogao era como as consultas que ns fazemos do nosso proprio
destino; era como a anciedade v de levantarmos a cortina do nosso
quadro de existencia d'aqui a annos. Maria quando uma vez escrevera uma
poesia intitulada _presentimento_, dissera tudo quanto podia dizer, vira
o futuro quanto podia ve'-lo, caminhra atravs da vida quanto podia
caminhar; e, como se os passos lhe canassem, parou, chorando.  que o
seu poema fra uma prophecia de lagrimas nunca represadas.


IV

A appario de Alvaro em casa do coronel impressionou extranhamente
aquella numerosa familia, cuja maior parte no se recordava de ver na
sua sala um extranho.

Maria foi como sua me cumprimenta'-lo, e, pela hesitao em que ia,
pudera julgar-se que a violentavam. O acanhamento das suas maneiras, a
inflexo tremida das suas poucas palavras, denunciariam uma inculta
rapariga d'aldeia, a quem por passatempo aparamentaram de vestidos
senhors. Na grande roda seria fertil assumpto de risos e gracejos.

Alvaro, por uma d'essas incoherencias da natureza humana, revelava um
acanhamento quasi semelhante ao de Maria. A preveno em que o vimos a
respeito d'ella, o conceito sublime que a religio lhe ensinra a fazer
das suas virtudes, e, mais que tudo, a belleza d'essa menina, que elle
nunca encontrra nos bailes, nem, semelhante a ella, se recordava ter
visto outra, foi por ventura tudo isto a extranha emoo que o
sobresaltou e collocou, como costuma dizer-se, n'uma falsa posio.

E, demais, quem sabe se assim ficam explicados os embaraos de Alvaro?

Qual de ns no teve na vida uma situao semelhante, d'onde melhor
possa ver a de Alvaro da Silveira?

Quem  o homem forte e senhor de si, quando a virtude e a formosura,
illuminando a mulher de um santo prestigio, lhe fascinam os olhos da
face e os da alma?

E, quando o espirito, purgado das fezes da irreligio, contempla a
mulher virtuosa como a depositaria de sentimentos que mais genuinamente
simulam o amor de Deus,  to natural esse enlevo, esse culto, essa
idolatria no homem que poude encontrar um anjo, onde no esperava j
encontrar seno estimulos de paixes materiaes!...

Nem se explica de outra maneira a surpresa de Alvaro na presena de
Maria dos Prazeres.

A virtude tem uma fascinao particular sobre o homem, que no desceu,
na escala da depravao, a ponto de negar a existencia de coraes
immaculados. Anojado de estudar a mulher, modelada nas frmas
invariaveis do salo, onde todas so semelhantes a cada uma, Alvaro da
Silveira, abaixou os olhos diante da primeira mulher, que, em outros
tempos, poderia abater-lhe o orgulho.

Foi n'esse respeitoso silencio, n'esse involuntario acanhamento de
maneiras, que o mancebo justificou a regenerao do seu caracter. Mezes
antes, se o tivessem apresentado a Maria, ve'-lo-iam empregar todos os
recursos da eloquencia, adaptada a todas as mulheres do grande mundo
intimamente persuadido de que aquella, deslumbrada pelos ouropeis da
phrase, saudaria em sua alma a appario de uma sympathia ardente pelo
genio, pelo talento palavroso, e pelos arrebiques da lingua estudada.

O coronel, attencioso observador da approximao de Alvaro, gostou do
pejo com que sua filha foi recebida. Frei Antonio a quem competia
encetar uma conversao em que respirassem aquellas duas almas
retradas, principiou a elogiar modestamente as qualidades do seu amigo.
Alvaro, silencioso, principiava a affligir-se da sua absoluta
esterilidade de idas, quando, em boa civilidade, lhe convinha agradecer
o acolhimento com que era especialisado n'aquella casa. No se
acreditaria esta perplexidade, se cada qual no pudesse justifica'-la
com um momento semelhante na sua vida.

Alvaro achou a inspirao na propria fraqueza, que o mortificava.
Voltando-se para frei Antonio, com as faces rosadas, disse com voz
tremula:

--Eu creio que perdi na solido os habitos do mundo, meu caro mestre.
Nem j sei falar, e era d'antes um falador importuno!... A sua familia
deve fazer de mim uma ida triste...

--Porque?--interrompeu a me de Maria, com insinuante delicadeza.

--Porque, minha senhora?--retorquiu Alvaro--porque me acho aqui coacto,
entrei aqui grosseiramente, como um saloio que vestiram de casaca, e de
um modo que v. ex.^a de certo no esperava receber um hospede que vive
na roda onde as etiquetas chegam a ser enfadonhas pela demasia de
reparos.

--Ora, sr. Alvaro--interveio o coronel--ns sabemos o que so essas
cortezias, e palavreados da tal roda, que v. ex.^a frequentou. Minha
filha Maria, essa no as sabe de certo; mas pouco lucrariam, ella, se as
aprendesse e v. ex.^a se lh'as ensinasse. Aqui, a unica pessoa
exigente--continuou o coronel, sorrindo--exigente das genuinas etiquetas
da crte  talvez v. ex.^a que de l vem. Tenha, porm, paciencia, se
nos encontra sem o polimento com que se envernizam os mimosos da
fortuna, alegres sempre e sempre cuidadosos de ensaiar-se, quando a
ociosidade os enfastia, na arte de agradar. Aqui tem v. ex.^a as idas a
respeito dos galhardos faladores de salo, que, segundo ouvi dizer, por
ahi se chamam _fazedores de espirito_. Sejam l o que forem, eu aprecio
muito a economia de palavras com que v. ex.^a abriu as relaes com esta
familia ignorada. At por generosidade, nenhum hospede, chegado a esta
casa deve exigir de ns os tratamentos apurados de uma refinada
delicadeza. No os sabemos, nem poderiamos sustenta'-los. Tudo isto vem
a serenar a impaciencia com que o sr. Alvaro da Silveira parece
queixar-se das idas, que lhe no abundaram, quando tivemos a honra de o
receber.


V

Em quanto o coronel prendia os olhos attenciosos de Alvaro, Maria,
cobrando novos alentos d'aquella especie de familiaridade adquirida
pelas franquezas de seu pae, levantava os olhos meio timidos para frei
Antonio, que at ento no desvira os seus das faces encarnadas de sua
sobrinha. Alvaro continuou com o coronel um dialogo sobre o assumpto das
etiquetas, que ambos julgavam, umas vezes, indispensaveis, e, outras,
fastidiosas, em quanto Maria, convidada por seu tio, foi sentar-se
contrafeita ao piano e suspendeu a travada conversao dos dois, que 
primeira corrida do teclado, levaram instinctivamente os olhos e os
coraes para o rosto incendiado da formosa menina.

O que ella tocou no se recordava Alvaro de o ter ouvido. A meia voz
perguntou  me de Maria a que opera pertencia aquelle rico trecho de
musica. Em resposta teve um sorriso de modestia, a que o mancebo achou
duvidosa explicao, e, pouco depois compreendeu, quando frei Antonio,
alma franca, e sem reservas de falsa modestia, declarou que a musica era
de sua sobrinha. Maria crou, e apressou-se a declarar que no era
absolutamente original aquella composio modelada por alguns fragmentos
de musica, que ouvira no orgo das Theresinhas. A evasiva no era de
todo inexacta. Maria, affeioada  musica do templo, nas suas
composies, procurava sempre como texto as notas que mais lhe afinassem
com o profundo sentimento de terna melancolia, que a dominava, nos
ultimos mezes da sua existencia.

Frei Antonio estava sendo penoso  natural modestia, filha do pudor, que
a cada instante, se manifestava no rosto purpurino de sua sobrinha.
Homem extranho s mil conversaes com que a sociedade consome as horas
em inutil trocadilho de palavras, entendia que o mais judicioso
passatempo, e at o mais commodo ao espirito de sua educanda, devia ser
a litteratura. Por isso chamou a campo sua sobrinha, e obrigou-a pela
obediencia a entremetter-se em questes, que o proprio Alvaro de bom
grado no quizera quinhoar, com receio de no sair-se bem. Maria, quando
os primeiros terrores se desvaneceram, era sublime aos olhos do hospede,
que a no concebera to elevada a respeito de certas cousas, que se
dizem, quando a auctoridade dos annos, gastos em aprender, lhes d um
tom de certeza que, quasi sempre, ajusta mal com a natural simplicidade
de uma senhora.

Falava-se em romances. Frei Antonio dos Anjos empenhava os seus vastos
recursos scientificos em condemnar esse genero de leitura. Alvaro
abraava a opinio de seu mestre, e citava-se a si como victima das
perniciosas leituras da sua infancia. O coronel e sua esposa applaudiam
a rejeio dos romances. Maria, porm, e s ella, cheia de humildade,
sem levantar os olhos dos dedos rosados, que se distraiam correndo a
bainha do leno, contrariava as opinies dos inimigos dos romances,
depois que a cada um ouvira as razes, mais ou menos fortes, com que a
leitura do tempo era votada ao exterminio. A sua argumentao era
concisa, e quasi sempre balbuciante d'aquelle temor to proprio em annos
verdes, em presena de um extranho, de um pae, e de um sabio.


VI

Uma hora de convivencia entre pessoas, que sinceramente se communicam em
francas manifestaes do que so,  bastante para a familiaridade, para
a estima, e para isto que o corao ambiciona, este bem-estar, nascido
da confiana, inteira e desprevenida, que depositamos em uma roda de
amigos. Raro, porm, estas rodas se deparam. _Amigo_  uma palavra
profanada pelo uso, e barateada a cada homem que se nos apresenta, como
a _palavra de honra_, que por ahi anda desvirtuando a honra e a amizade.

As delicias da conversao, expansiva como a confidencia, e
despreoccupada como a ingenuidade, essa no se conhece nos sales, onde
o epigramma recebe os louros da eloquencia, e o espirito acerado e
cortante conquista as ovaes do talento. A murmurao, bem salgada de
ironias galhofeiras,  a ranha das conversaes, coroada pelo diadema
da hilaridade, que, muitas vezes, no poupa o primeiro da roda, que se
retira, nem o dono da casa, que fica, pela sua parte, cotejando os
vicios dos seus hospedes _espirituosos_.

D'esta feio eram as praticas, em que Alvaro da Silveira, adestrado
pelo conde de *** primra como bom artista de _equivocos_, e
trocadilhos, em que o sarcasmo acre e engenhoso, pegava delicadamente
pelos cabellos da victima, e a empalava nos tractos da zombaria, iguaria
saborosa, a unica, talvez, para os paladares estragados.

Era, pois, uma novidade para o seu espirito aquella franca exposio de
sentimentos, de mais a mais interessantes pelo lado da intelligencia, e
sympathicos para o corao de todos, e especialmente do mancebo, que se
extasiava, na presena de um talento de mulher, flr aberta em
exhalaes de um novo perfume, para elle, que nunca a vira to bella e
to fascinadora no dom da palavra.

Maria compartira de sentimento de confiana, que viera dissipar os
temores de Alvaro. Sem a candura, e a innocencia, na franca exposio
das suas idas cerca de romances, Maria no diria tanto, nem se lanra
to seguramente na opinio contraria  de todos. A sincera menina,
ingenua como as suas intenes, viu no mancebo, que to aceite era aos
seus, um amigo digno de se lhe dizer tudo o que, em cousas litterarias,
se diria a frei Antonio dos Anjos.

Alvaro da Silveira estava sendo digno da sua confiana. E tanto o era,
que uma nobre vaidade lhe alegrava o espirito, ao ver-se, to depressa,
merecedor da franqueza com que o recebiam, e da irmandade, com que Maria
dos Prazeres lhe respondia aos seus argumentos na questo em que todos
se interessavam.

Frei Antonio era um sabio; mas os sabios de todas as posies sociaes, e
particularmente os sabios creados no claustro, sustentam prejuizos, que
as mediocridades lhes combatem com as debeis armas de uma sciencia
superficial. Frei Antonio pensava mal dos romances, por que lera um ou
dois, ou mil d'esses que por ahi envergonham a arte, e indignam o pudor.
Alvaro da Silveira, que devorra tudo quanto os ultimos annos tinham
creado de mais licencioso na litteratura franceza, odiava ento os
romances aos quaes erradamente imputava os seus desvios. O coronel e sua
mulher jurava nas palavras de frei Antonio. Maria, porm, que no lera
romances, nem mostrra o mais leve desejo de os ler, apresentava na
defesa de tal leitura o instincto da adivinhao, a presciencia do
talento, que um relampago, s vezes, parece alumiar de improviso.

--Eu no sei--dizia ella--como os romances possam perturbar a minha
tranquillidade! Que  o que elles dizem? Contam a vida como ella ;
matam as illuses de quem a suppe melhor; antecipam o conhecimento da
realidade? Isso que tem? Um bom mestre, encarregado de levar pela mo o
discipulo na estrada do mundo, cheia de precipicios, que  o que faz
seno apontar ao innocente os abysmos, que se escondem debaixo das rosas
seductoras? Que  o que tem feito meu tio a meu respeito? no 
levantar-me a cortina do que so segredos para mim, e mostrar-me a
triste realidade do que por ahi ha, apenas agradavel aos olhos da
innocencia? Eu penso que o romance, espelho fiel das boas e ms
situaes da vida, no pde fazer-me desejar o que  vicio, nem
aborrecer o que  virtude...

--Mas se o romance--interrompeu Alvaro--descreve o crime com as bellas
tintas da seduco?

--No importa, o escuro do quadro l est no crime: as fezes do absyntho
l esto no fundo do calix--retorquiu Maria--no sei se digo a verdade:
mas imagino que ha nos romances um mau principio, que s deve prejudicar
as pessoas, que os lem com o corao arruinado, e os olhos fartos j de
ver a realidade de tudo o que ha mau.  natural que o romance, para
fazer bons certos actos do seu heroe, precise de aniquilar a moral
religiosa d'esses actos, e justifica'-los pela moral da falsa
philosophia. Isto me tem dito meu tio muitas vezes, e eu tenho pensado,
outras tantas, na influencia que poderiam exercer sobre o meu espirito
essas ms doutrinas, revestidas de seductoras falsidades. Nenhuma, creio
em Deus e em mim, que no. Mal de mim, e da minha f, se o primeiro
incredulo, com talento de bem escrever, e falsificar a verdade, pudesse
alvoroar a minha consciencia, a ponto de destruir com a pagina de um
livro o que eu recebi pela educao, pela meditao, e pelo estudo!...
Tomra eu saber tudo o que o mundo tem de bom e de mau... que me
dissessem a flr em que a aspide se esconde, e o espinho que muitas
vezes, soffrido com resignao, nos pde dar depois momentos de prazer.
O que eu acho triste e perigoso  crescer, tocar a altura em que a
intelligencia raciocina, e o corao se emancipa dos descuidos da
mocidade, ser mulher, entrar no mundo, julga'-lo a continuao do seio
de sua familia, e ter de perguntar a cada instante  cabea, que no
sabe, at que ponto so razoaveis os preceitos do corao...

Maria foi de improviso tocada pelo receio de se ter excedido. Crou, e
abaixou os olhos, como se sua me lhe significasse, em um gesto, o
desgosto de ouvi'-la.

Alvaro, suspenso dos labios d'ella, fascinado pelo som d'aquella voz,
que parecia exercer o imperio do silencio sobre o corao de todos,
sentia-se elevado a um assombro de admirao, onde quasi sempre o
respeito profundo, ou o amor repentino se assenhoreiam do talento e do
espirito.

Era um amor, que nascia, e respirava uma atmosphera embalsamada de
perfumes, amor, que nunca, em suas passadas affeies, lhe cora no
corao a vida suavissima da paixo tranquilla, sem sobresaltos de
remorso, sem temores de culpa, e sem receios de insultar a Deus ou aos
homens. No corao de Maria, o que se passava era uma sensao de
ternura, o desabrochar de uma nova flr de amizade para offerecer a
Alvaro, como a offertaria a um seu irmo, que viesse de longe, pela
primeira vez, reconhecer a sua irm. Se, todavia, lhe perguntassem o
segredo mais intimo da sua existencia desde aquelle dia, ella no teria
nenhum a revelar. O mais que poderia accrescentar ao que a sua familia
sabia do seu corao, a respeito de Alvaro,  que desde o dia, em que o
viu, as suas oraes por elle foram mais repetidas, mais fervorosas, e
mais tocadas pelo interesse de uma amiga, que quizera gloriar-se de ter
concorrido para a regenerao de um anjo.


VII

 primeira visita succederam outras.

Alvaro realisra as esperanas do padre. A sombria tristeza, que
assustra o mestre, cedeu a uma alegria doce que sorria no semblante do
discipulo. O pae d'este, compartindo no contentamento do filho, quiz
tambem conhecer o asylo de paz santa onde Alvaro fra encontrar a
felicidade, que o mancebo dizia no ser cousa impossivel na terra, desde
que visitara a obscura familia de frei Antonio.

Redobrou o prazer do padre. O velho fidalgo foi acolhido como pae de um
moo que era alli estimado como parente e recebido sem vislumbre de
suspeita m. As noites passavam rapidas para todos. Cousas pequenas,
passatempos quasi pueris, entretinham velhos e moos. Silveira, to
zeloso da honra do coronel como elle proprio, espionava as intenes de
seu filho, como quem receia que a virtude no esteja ainda to enraizada
n'aquelle corao juvenil, que o torne frio para os mil encantos de
Maria dos Prazeres.

Eis aqui um dialogo entre o pae e o filho, quinze dias depois que
frequentaram juntos a casa do coronel.

--Parece-me que s feliz, Alvaro.

--Sou, meu pae, sou muito feliz. Se eu dissesse que no sou, era ingrato
a Deus.

--Pois, filho, s digno das mercs que Deus te faz. Pe da tua parte a
fora e a virtude para continuar a Merece'-las. A virtude, Alvaro, a
virtude. Nunca te esquea esta palavra: seja sempre a tua ancora, se a
tempestade vier depois da bonana...

--Nunca a esquecerei, meu pae. Cada dia se me dobram as foras para
vencer o mal. As reminiscencias do passado affligem-me e envergonham-me.
Em quanto eu olhar assim para o homem que fui, nunca me ser preciso
luctar com as tempestades, em que o refugio est na ancora da virtude.

--Pois sim, filho; mas por mais risonho que esteja o co e calmoso o
mar, no largues nunca a ancora: tem-a sempre apertada ao corao,
porque  l d'onde rebentam as maiores tempestades.

--No corao? Eu creio, pae meu, creio que  nas tempestades do corao
que se morre...

--Se a virtude nos no vale...

--A inteno com que me diz essas palavras...

-- boa, Alvaro;  a inteno com que um bom pae aconselha um bom filho,
e at um mau filho. Que perda para todos ns se o corao que se te
renova hoje, meu filho, obedecesse a uma impresso das que se no deixam
vencer por pequenas resistencias...

--Fale, fale, meu pae... tenho preciso de ouvi'-lo porque preciso que
me anime a falar-lhe.

--Adivinhei a tua alma?

--No sei o que vae dizer-me... Quer-me falar da...

--Da filha do coronel... quero falar-te d'esse anjo que nos tem captivos
a ambos, e nem eu sei qual de ns daria mais depressa a vida para que
nunca um desgosto por nossa causa lhe banhe de lagrimas a face.

--Que desgosto podemos dar-lhe, meu pae?

--Que sentes por ella, Alvaro?

--O pae adivinhou-me... _ um anjo que nos tem captivos a ambos_; mas o
meu captiveiro  cheio de consolaes,  uma priso que me no custa
desgostos nem frenesis... No v que sou to feliz assim? Se me do a
liberdade, fazem-me desgraado. Am'-la...

--Am-la!?...--interrompeu o pae com sobresalto.

--Am'-la, sim, pois no  isto am'-la? O que sinto, o que senti,
vendo-a uma s vez, tem alguma semelhana com tudo o que me fez
vertigens do corao n'outro tempo? Am'-la, sem que eu lh'o diga,
ador'-la, com a devoo dos justos, recolhe'-la em segredo  minha
alma, e to em segredo que nunca ella possa temer uma s palavra menos
innocente que todas as nossas conversaes... ama'-la, assim, meu pae,
provocar as tempestades do corao?

--, filho.

--? ento, meu Deus, no ha virtude que resista ao impulso de uma
mulher! O homem, que quizer viver em boa paz com o co, ha de renunciar
a tudo que est na terra proclamando a grandeza de Deus. A religio, que
nos no veda o amor, est em contradio com a virtude...

--No est, Alvaro. A religio creou um sacramento para santificar o
enlace dos coraes que se inclinam para um fim justo, para uma unio em
que a virtude  o vinculo de cuja quebra ha tremendas contas a dar, e
grandes expiaes a soffrer na terra.

--Pois bem, meu pae...

Alvaro sustra o pensamento que vinha aos labios, em quanto as lagrimas
se mostraram.

--Diz, Alvaro. Tu ias dizer alguma cousa que te fez chorar. 
sensibilidade ou arrependimento?

--Melhor  que o no diga, meu pae... Eu preciso estudar-lhe o corao.

--De D. Maria dos Prazeres? no  necessario, filho. O corao d'essa
menina no  um livro fechado,  um espelho. V-lh'o na face, nas
palavras, na educao...

--No  o corao de Maria dos Prazeres.

--Pois qual?

--O de meu pae.

-- o corao de um pae... que mais queres que te diga?

--Gosta de Maria dos Prazeres?

--Se gosto!... No te tenho eu dito que o coronel no deve queixar-se
das injustias dos homens em quanto lhe deixam o throno d'aquella filha?

--O pae quereria ter uma assim?

--Quizera assim dar-te uma irm, filho... Oh se queria!...

--E uma esposa?--disse Alvaro balbuciante.

O pae no respondeu. As palpebras cerraram-se-lhe, que era esse o seu
costume na meditao. Com os dedos da mo direita comprimiu o labio
inferior, tirando por elle. Passou a mo esquerda por entre os cabellos;
e, depois de alguns segundos, disse:

--Queria.

--Queria assim dar-me um esposa?

--Queria. E serias tu digno d'ella?

--No ouso responder.

--Pois medita.

Silveira ergueu-se. Tomou a mo do filho, e apertou-lh'a com commoo,
dizendo-lhe como quem profere um juramento na presena de Deus:

--O homem que maltratar aquella mulher deve dar terriveis contas da sua
crueldade. Medita, Alvaro.

E deixou-o.


VIII

Ao mesmo tempo, Maria dos Prazeres, e sua me, tinham o seguinte
dialogo:

--Se tivesses uma amiga muito do corao, minha filha, no terias pesar
se ella te adivinhasse um segredo que tu deverias ter-lhe confiado?

--Pesar... conforme, minha me... Ha segredos...

--Que se no dizem a uma amiga?

--Que se no dizem por que se no sabem dizer...

--E sentir, sim?

--Porque me faz semelhante pergunta, minha querida me? No se queixe de
mim, no?

--Pois eu vou queixar-me, Maria?!

--Falou-me em pesar... e eu comeo a senti'-lo...

--De que?

--Se eu pudesse... se eu soubesse dizer-lhe o que sinto... Deus sabe que
o meu corao  incapaz de se esconder aos seus olhos, e mais depressa
se esconde aos meus.

--Nada tens dito a teu tio, filha?

--De que?... diga, me, eu que devia ter dito a meu tio?

--Tudo o que sentes hoje, assim como lhe dizias tudo o que se passava em
tua alma.

--E eu sei!...

--Sei eu, Maria. Olha, filha.. O amor de tua me, de teu pae, de teu bom
tio, de teus queridos irmos  um amor immenso; , eu e tu sabemos que
; mas... olha... ha no teu corao espao para mais amor... Cras,
Maria? Vs como a tua alma vem falar-me no teu semblante?

Pois porque no, se essa alma  a minha, a da minha filha que no pde
estar calada diante de mim, ainda que os labios se no abram! Sei tudo,
Maria. Agora, se no queres que te fale como me, aqui me tens como
amiga. Vamos... levanta para mim os teus olhos... conversemos ssinhas.
Tu amas Alvaro. A tua melancolia  amor. Esse crar, quando no accusa
uma culpa escondida,  amor. Na tua edade, se o contentamento foge do
corao,  que no cabem l os gosos serenos da innocencia, mixturados
com as esperanas vagas, com os desejos desconhecidos, com as saudades
de no sei que recordaes de uma outra vida em que todas as nossas se
povoam de anjos.

Ha um mez, filha, no me entenderias esta linguagem. Hoje sou eu a que
falo por ti, e cada palavra que me ouves,  um peso que te levanto de
sobre o corao, no ? Assim  que tu querias falar-me, e eu
desopprimo-te, explicando a confisso que tens nos labios, e no
confessas. Pois bem, Maria, louvores sejam dados  tua bella alma! A tua
sensibilidade no pde ser s da tua familia: deve extender-se a tudo
que te rodeia.

Eu esperava isto desde o momento em que vi entrar n'esta casa um homem
protegido pela confiana de meu cunhado. Sem virtudes, Alvaro no seria
aqui trazido; e, sem virtudes, Deus no quereria que tu sentisses por
elle a sympathia que prende a innocencia  honradez. Poderei enganar-me
eu, que sou velha? Posso, filha... E que fars tu que s creana?
Estaremos ambas enganadas, amando-o ambas. Porque eu tambem o amo,
filha; estou familiarisada com elle, vejo-o aqui entrar sem me sentir
constrangida. Custa-me a crer que o conheo ha to pouco tempo!...

E teu pae? Fala-me d'elle com certo interesse que me parece
providencial. Nunca me disse que reparasse nas tuas aces, nem
reflectisse nas palavras de Alvaro. E eu, reflectindo, ainda lhe no
ouvi uma que desdiga das primeiras. Sempre a mesma bondade, o mesmo
acanhamento honesto, a mesma docilidade, e no sei que interesse de
filho por mim, e de irmo por ti. Teu tio, cada vez mais alegre com
estas relaes; teu pae, nem a mais ligeira sombra de desconfiana; teus
irmos querem-lhe como a ti; o pae d'elle quer por fora que sejamos
seus parentes, e diz-me que veiu saber entre ns o que era a felicidade
domestica... Jesus!  impossivel que tudo isto seja engano!

Oh minha filha, o teu corao  puro, e eu quero ouvi'-lo mais a elle
do que ouvir-me a mim. Diz-me se no agouras uma grande felicidade para
ti, e para os teus? Confessa-me o que pensas quando ests triste... Diz,
diz, Maria...

A filha atirou-se a chorar ao seio da me. Balbuciava palavras sem
sentido. O corao batia forte, e o tremor convulso dos braos, em redor
do collo de sua me, suppria a falta de expresso.

Assim as encontrou frei Antonio entrando sem se annunciar.


IX

--N'esta casa chora-se mais do que se reza--disse o padre.

--No so peccaminosas as nossas lagrimas, meu irmo...--disse a me de
Maria.

--Pois ento dizei-me por que choraes.

--Logo, logo...

Maria beijou a mo do tio, e saa, enxugando as lagrimas.

--Onde vaes tu, menina?--disse o velho.

--Vou trabalhar, meu tio.

--Havemos de falar logo.

Ella saiu, e o frade disse a sua cunhada:

--V chamar seu marido e venha com elle.

O coronel entrava n'este momento.

--Ei'-lo aqui. Ora vinde c ambos; temos muito que dizer e que pensar.
Dizei-me c: o que vos diz o corao a respeito de Alvaro?

--Bem; parece-me um bom moo.

--E o vosso, minha irm?

--Tenho-lhe affeio de me, estou familiarisada com elle como se o
conhecesse desde creancinha.

--E sabeis o que Maria pensa a respeito d'elle?

--Soube-o--disse a cunhada--no momento em que meu irmo entrou. As
lagrimas que viu nos olhos d'ella eram a confisso do seu segredo.

--Pois que disse ella?--atalhou o coronel.

--Nada, quasi nada... Vendo que eu lhe adivinhava o corao,
lanou-se-me ao pescoo, chorando. Disse quanto podia dizer.

--Ama-o, em summa--disse o frade--No admira; o moo  digno d'ella, e a
Providencia quer que se amem...

--E que tem ella que esperar d'esse amor?--interrompeu o coronel.

--Tem que esperar as consequencias de uma affeio approvada por seus
paes...

--Se elles a approvarem, meu irmo.

--Pois tu reprovas o amor da tua filha a Alvaro da Silveira?! Eu fico
por elle... Quereis melhor fiador? Dou-vos a virtude de Maria. Se a ns
no defendermos, defende-se ella.

--Sabes pouco do mundo, meu irmo--redarguiu o coronel.

--No sei muito, no; mas o que  preciso saber para o nosso caso, sei-o
de auctoridade certa, que  o presentimento bom que me d resoluo. O
pae de Alvaro diz-me que seu filho quer Maria para sua esposa, e elle
pede-a para sua filha. Que respondeis?

--Eu respondo que sim, que lh'a dou com toda a vontade, com todo o
corao--disse a me de Maria.

--E eu--disse o coronel--respondo que estudes bem o caracter d'esse
moo, e quando, passados mezes, no vier algum accidente inopinado
alterar a opinio que tens do seu merecimento, virs ento consultar a
minha vontade.

--Dizes bem, meu irmo--tornou o egresso--Penso ter-me enganado, e ainda
agora ca em mim, e na fraqueza dos meus juizos. Disseste bem: eu
conheo pouco do mundo.

--E no sabes--continuou o coronel---que certos homens, sem serem
hypocritas, apparecem inesperadamente bons; s vezes uma pequena
alterao no seu modo de pensar, produz grandes mudanas na vida
exterior. Eu recordo-me de um grande phenomeno na minha vida de mancebo.
Aos dezoito annos era eu rapaz desenvolto, vicioso, desobediente a
nossos paes, e desprezador de alguns deveres bem sagrados. Amava o
escandalo estrondoso; e a publicidade das minhas loucuras desvanecia-me.
Vi esta mulher, que  tua cunhada, e amei-a. Os paes d'ella eram
exemplares de virtude, e quem houvesse de merecer-lh'a devia ser
virtuoso. O talvez menos habilitado para lh'a pedir era eu. Resolvi ser
hypocrita; deu nos olhos a minha improvisada virtude, e consegui levar a
nova da minha converso ao conhecimento da familia de minha mulher.
Senti augmentar-se o meu amor ao passo que a violencia, que eu me fazia
para ser bom apparentemente, ia deminuindo. At cheguei a convencer-me
de que os virtuosos sem mascara eram felizes. Pedi minha mulher, e
concederam-m'a. Casei... e depois...

--Foste sempre um bom marido...--interrompeu ella.

--Se tu o dizes, devo acredita'-lo, e a consciencia tambem me diz que o
fui; porm, a explicao da minha reforma tem alguma cousa singular.
Fiz-me bom por orgulho, primeiro. Os nossos conhecidos, e
particularmente os meus rivaes, diziam que eu te faria desgraada.
Entrou o meu amor proprio no combate, e tu foste feliz. Quando o mundo
j no reparava nos meus actos, e calava envergonhado os seus
vaticinios, era eu teu amigo, teu verdadeiro amigo, sentia-te muito
dentro do corao, e j no poderia, se quizesse, expulsar-te de l.
Appliquemos o conto: Alvaro da Silveira, com quem sympathiso, foi o que
tu sabes, meu irmo.

Ainda no ha quatro mezes que o encontraste entregue aos prazeres de um
gosto pervertido. Em poucos dias mudaste-lhe as inclinaes; mas o
aborrecimento em que o viste, deu-te receios de que o teu balsamo fosse
inefficaz. Conduziste esse homem a minha casa; conheci que Maria o
impressionra, e, depois de dois mezes de frequencia constante, Alvaro
quer casar com minha filha. Quando se ama, meu irmo,  facil fingir
dois mezes uma virtude que no tem raizes no espirito, e as que tem
smente no corao morrem, quando o amor acaba. No duvido que Alvaro
ame extremosamente minha filha; mas receio que no seja amigo d'ella:
cousas muito diversas, cuja diversidade s bem se conhece dos trinta
annos em deante. Um casamento rico no me lisongeia. Habituei-me a esta
pobreza, e sou feliz, no sei at se alguma vez o fui mais do que hoje.
Maria tambem  feliz. V, sem deslumbrar-se, os esplendores da
sociedade. Sentiu privaes em creana, e hoje, no as sentindo,
agradece a Deus uma prosperidade que seria indigencia, se ella tivesse
conhecido a abundancia, o fausto, e as demasias de prazeres e dissabores
que sua me conheceu. No a casemos para a fazermos rica. Se esse moo
pde dar-lhe ao espirito novos gosos, seja elle embora seu marido; eu,
porm, no creio que elle possa communicar-lhe o que no sente.
Estuda-o, meu irmo; estuda'-lo  esperar. Entretanto Maria aprender de
sua me as lies que deve receber uma menina que vae ser mulher.


X

Frei Antonio era esperado anciosamente de Alvaro. Dos labios do frade
pendia a sua felicidade. Fra elle encarregado por Silveira de propor ao
coronel o casamento, com que o pae queria recompensar as virtudes de uma
familia,  qual devia a regenerao de seu filho.

O egresso recebera com tristeza o enthusiasmo do discipulo.
Esperemos--foi a sua unica palavra. Alvaro sentiu-se ferido no seu
amor-proprio, e experimentou um abalo do seu genio. Se o padre soubesse
ler nos olhos o corao, veria mover-se a areia sobre que fra levantado
o edificio da virtude de Alvaro.

O velho Silveira no se doeu menos das reflexes do coronel.
Irritra-lhe a sua fidalga susceptibilidade. Pretextando-se incommodos
de Alvaro, suspenderam-se alguns dias as visitas.

Maria, porm, extranha aos reparos de seu pae, no vendo em tres noites
seguidas Alvaro, denunciou a impaciencia da saudade.


XI

Silenciosa em sua magua, Maria deixava-se adivinhar, mas no gemia, nem
perguntava a causa do ar sombrio de seu pae. Esperava anciosa as noites,
via entrar seu tio s, e nem por um lano de olhos lagrimosos lhe
perguntava que mal fizera ella a Alvaro.

A pena, porm, era grande, e sem desafogo. Maria sentiu a desdita que
presentira, um anno antes; compreendeu a significao amarga d'aquelles
singelos versos que fizera nascer uma musica triste, filha da sua
imaginao.

Adoeceu, sem queixar-se; cau no leito, quando j no podia esconder de
seu pae a febre constante que a extenuava.

Veiu o medico do corpo, e conheceu que a dor estava na alma. Frei
Antonio sabia que ella podia morrer d'aquella febre. Foi, com sua
cunhada ao p do leito de Maria, e disse:

--Menina, o nosso amigo Alvaro vem hoje visitar-te, se tiveres foras,
se da cama e vem agradecer-lhe o cuidado; se no, outro dia ser.

Aumentou o rubor nas faces das enferma. Voou-lhe um innocente sorriso de
ventura nos labios. Parou-lhe de repente, a vertigem do sangue.
Reappareceu-lhe o sol do corao, a florescencia da phantasia, o co dos
seus extases, e a claridade radiosa do seu ar balsamico. Era a que fra,
quando se lanra a chorar de feliz nos braos maternaes.


XII

E dizia o coronel a seu irmo:

--Deus me livre de ser cruel para minha filha... Os homens muito
experimentados na desgraa vem tudo pela face peor. Pde ser que sejam
dignos um do outro. Casem embora, e queira o co que eu me arrependa mil
vezes de ter agourado mal d'este casamento. Diz a Alvaro que lhe dou
minha filha, e diz-lhe mais--que vae com ella a minha vida, vida que eu
lhe dou, pois antes quero perde'-la, se hei-de um dia v'-la infeliz.
Que elle me mate, antes de fazer chorar Maria as primeiras lagrimas de
arrependimento.

--No sabes como elle lhe quer...--disse o padre.

--Tambem eu queria muito s flores em quanto o vio d'ellas no
desmaiava na minha mo. Depois, que valia uma flor sem perfume, sem
seiva, amarellecida? Via-a car sem d, folha a folha, e, descuidado
d'ella por amor das outras, punha-lhe em cima um p indifferente.
Compreendes o que  o homem, meu irmo? Melhor o compreenders assim;
no t'o quero pintar na linguagem propria... Na mo de Alvaro ser Maria
o que as flores foram na minha?


XIII

Foi restaurada a confiana entre as duas familias. Consentiram-se
expanses sem testemunhas aos dois amantes.

A nuvem que lhes encobrira alguns dias o bello horisonte do seu destino,
afervorra-os para mais da alma saudarem a reappario, para mais se
quererem.

Alvaro apressava o enlace. O coronel no o retardava nem o accelerava.
Entrra-lhe profundamente a desconfiana na alma. Sua mulher tentava em
vo destruir-lh'a. O frade chegava at a considera-la peccaminosa e
ingrata aos favores do co. Maria nem sequer imaginava que podia ser-se
infeliz na situao d'ella; e contristava-se por no ver seu pae alegre
como todos.


XIV

Frei Antonio foi o ministro do sacramento. Abenoou-os na capella de
Alvaro da Silveira. A um dia de jubilo, seguiram-se muitos dias de
felicidade intima. Em casa, porm, do coronel, chorava-se muito. Faltava
alli a alma d'aquella familia. Os irmos de Maria, alguns ainda
creanas, estavam affeitos ao seu regao, s suas lies, e s suas
carinhosas repreenses. O coronel no queria ver a cadeira em que Maria
se sentava, o piano, o aafate da costura, tudo que parecia chorar com
elle a falta da sua dona. Sentava-se a familia triste e taciturna em
redor da mesa. Olhavam todos, sem consolar-se, para o logar de Maria, e
rompiam de todos os olhos as lagrimas. Erguiam-se, vendo o pae
erguer-se; apenas a me ficava, com o corao partido, dando o exemplo
da resignao, e consolando com palavras animosas, esforo mais intenso
na dr que a dr de todos. Ao oitavo dia a esposa veiu visitar sua
familia. Foi recebida em alvoroo. Queriam beija'-la todos ao mesmo
tempo. Os irmos mais novos perguntavam-lhe se ficava para sempre.
Maria, entre risonha e lacrimosa, repartia-se em affagos por todos,
desejando alguns instantes de solido com sua me.

--s feliz, minha filha?--perguntava-lhe o coronel.

--Sou, meu pae, quanto se pode ser, longe dos seus. Falta-me l esta
familia; ainda no pude, nem poderei considerar-me desligada d'esta
casa. Parece-me at que sou mais d'aqui, e que a outra  uma casa de
emprestimo.

O coronel voltou-se para sua mulher, e disse:

--Sentias isto quando casaste comigo? Tinhas assim saudades de tua
familia?

--No...--disse a me de Maria.

--Ento...--tornou o coronel--tua filha  menos feliz do que tu foste!
No goso da abundancia tem occasio de sentir saudades da pobreza que
deixou.

--O pae--replicou Maria--engana-se, ou no pde sentir como sente uma
mulher. Minha me havia de sentir o que eu sinto;  que j se no
lembra... Pois haver felicidade que me faa esquecer a minha familia?!
Eu no sei o que  abundancia nem pobreza. Ainda no pude ver a
differenca que vae do que deixei ao que hoje tenho, seno pelo corao.
Sou feliz com Alvaro, mas seria mais feliz se Alvaro vivesse como irmo
dos meus irmos, aqui...

Alvaro entrava n'este momento, repartindo por todos amabilidades,
chamando manos a seus cunhados, queixando-se de que o no tenham
visitado, convidando-os para o seu camarote, offerecendo-lhes as suas
carruagens.

--Cousa notavel!--dizia o coronel, tirando  parte frei Antonio que
tambem concorrera  primeira visita de sua sobrinha.--Cousa notavel! As
maneiras acanhadas de Alvaro desappareceram. Todos aquelles modos, a
munificencia com que nos dispensa os seus favores, tem um ar de
orgulhoso triumpho que me intimida. Ha alli alguma cousa que parece
dizer. Casei com vossa filha pobre, e tenho a fidalga generosidade de
vos querer elevar com ella! No te parece?

--Parece-me que ests contaminado da m f do mundo.


XV

Felicidade, o que s tu? Engano providencial que nos alimentas na
alternativa do desejo e do desengano. Amiga cruel que nos foges com a
esperana, apenas os labios sentem o travo do absyntho que a taa do
prazer esconde no fundo.

Quem te encontrou n'esta vida, felicidade? O que eras tu, quando eu te
via espargindo flres desde o meu obscuro cantinho at aos imaginados
horisontes do meu destino?

O que s tu hoje, phantasma severo que desdobras o teu manto negro sobre
a esperana, que, momentos antes, mandaste luzir no meu despertar de
infeliz?

Felicidade, o que sers tu, se no s a filha dos homens, morredoura
como elles, soberba do teu nome, embaindo, com a mascara do opulento, os
pobres que te esperam, cavando, cada vez mais fundo, no corao do
ambicioso, o vcuo da cobia, chegando aos labios do sequioso, que te
busca na terra, a esponja acerba do desengano?

Porque te no vejo eu debaixo do docel dos principes da terra?
Enfloraste os beros de Carlos I e Luiz XVI: porque deixaste borrifar de
sangue no cadafalso as tuas grinaldas?

Busquei-te no seio da familia laboriosa, que aceitou humildemente a
condemnao do eterno trabalhar, do suor copioso das fadigas. No
estavas l. O brao trabalhador enervou-o a fome, no anno da
esterilidade, e as creancinhas d'esse homem, sem cobia de mais po que
o necessario  sua familia, vagiam pendentes dos seios aridos de sua
me.

Busquei-te na mediocridade honesta, na alegria da independencia. Era
falso esse existir na vida. A mediocridade anciava sar da sua esphera;
a alegria da independencia era um sonho de infelizes servos; a
independencia era uma situao mentirosa como o teu nome.

Estarias tu na gloria das batalhas? Se fizeste Cesar o primeiro de Roma,
porque o no salvaste do punhal de Bruto?

Na gloria da virtude? E a cicuta de Socrates? e a guilhotina de
Malherbe? Como estremaste os destinos de Sneca e Nero? de Virginia e
Aggripina? Quando s tu o galardo da virtude, a socia fiel do nobre
espirito, o premio benemerito do corao immaculado?

Na gloria da sabedoria?

Entraste, por ventura, na alma do philosopho, que tentou levar as
multides ao teu sanctuario? Orvalhaste-lhe a aridez do espirito
abraseado em ancias de achar-te aqui? Dste a Cicero, teu apostolo
inspirado, a resignao na morte? Estar o teu busto levantado sobre as
ossadas de centenares de homens prodigiosos, poetas que fizeram seculos,
honras perpetuas das naes, pisados pela desgraa, mortos de fome de
po e de ti, que lhes mandaste arrastar a mortalha por toda a vida?

Passars ao menos uma primavera, no corao da virgem, que te chama do
co, que te cr filha de Deus, que se acolhe ao teu regao como a asylo
inviolavel de innocentes, que te v na ternura maternal, que te beija
nos labios de seus irmos, que te respeita nas palavras ungidas de um
velho, que te abraa soffrega na idolatria de um amante, que aperta ao
seio todos os teus dons, cingindo-se ao seio do esposo estremecido?

No, maldita da esperana, tu no ests entre ns. Existirias na terra,
se entre os homens e Deus no estivesse o infinito.


XVI

--Maria vive triste...--dizia padre Antonio dos Anjos a sua
cunhada.--No diga isto a seu marido, minha irm. Poder-me-hei ter
enganado, e no lhe antecipemos um dissabor.

--E porque no vem ella a nossa casa?!--perguntou a me afflicta.--Ha um
mez que nos no visita, disse aos irmos que no tornassem l sem ella
os chamar... Alvaro j a trata mal? j a no amar?!

--Alvaro vive triste como ella. Encontram-se poucas vezes; ainda se no
deram as mais ligeiras desavenas entre elles; mas o silencio quando nos
reunimos todos  mesa,  profundo entre ambos. Fogem de encontrar-se nos
olhares; e, sem causa proxima, as lagrimas caem s vezes sobre o prato
de Maria. O pae de Alvaro pergunta-me o que tem seu filho. Interroga-o,
e elle responde-lhe que no tem nada. Eu interrogo Maria, e ella pede-me
que rogue a Deus por ella.

-- pois muito desgraada a minha filha!--exclamou a lagrimosa
senhora--Fomos ns que fizemos a infelicidade d'ella. Fui eu, fui eu s!
Era eu quem devia destruir-lhe este amor no seu principio. Fiz o
contrario... Dei-lhe azo para que tudo me confessasse, applaudi-lhe o
puro sentimento que a levava ao corao de um homem que eu julgava digno
d'ella; animei-a at a proferir palavras que o pudor lhe no deixava
sar do corao! Minha pobre filha,  tua me quem te fez infeliz! Que
direi eu a meu marido, quando elle me pedir conta da felicidade do nosso
anjo, d'aquella santa que tantas lagrimas nos enxugou, e ns no podemos
enxugar as d'ella... Podemos, podemos...--proseguiu ella com
exaltao.--Que venha para a nossa companhia; v, meu irmo, v
dizer-lhe que o corao de sua me s pde achar allivio ao seu remorso,
sentindo-a chorar no meu seio... V, v, antes que meu marido saiba que
ella vive assim... Traga-m'a, pde ser que meu marido se no queixe na
presena d'ella... No se lembre que ella  casada... No ha lei divina
que obrigue uma mulher a ser victima de seu marido...

--Basta, minha irm!--interrompeu com brandura o padre--No multiplique
com o seu amor de me os soffrimentos de Maria... Ella no se queixa.
Quer que a sua dr seja um segredo para seu proprio tio, e bem sabe que
minha sobrinha me fez o confidente das suas alegrias e pesares... Pde
ser que esta sombra de melancolia seja uma nuvem. No vamos ns
precipitadamente desafiar uma tempestade, que nem se quer nos ameaa. O
anjo do Senhor est ao p de Maria, e um desgosto passageiro  muitas
vezes uma experiencia que Deus manda para a purificao das suas
escolhidas. Confiana na justia divina, minha irm. Alvaro tem de
responder hoje s perguntas de seu pae, e talvez s minhas. Pde haver
n'esta melancolia de ambos uma causa dada por ambos. O silencio de Maria
faz-me suspeitar que ella no tem bastante confiana na razo da sua
tristeza. Pde ser que a demasiada saudade dos seus, manifestada ao
marido, o tenha desgostado. Se tal fr,  preciso dizer a minha sobrinha
que o sacramento do matrimonio opera uma suave mudana nas ligaes de
familia. O amor de esposa tem uma santidade superior ao de filha:
augmentam as obrigaes, e vem com ellas o dever do sacrificio. Eu
conheo pouco do corao humano; mas o de Maria sinto-o pensar, e
sentir, e desejar dentro do meu. Maria deve amar e ama deveras seu
marido; porm esse amor sem fausto, sem bailes, sem theatro, sem
jantares, e sem visitas importunas e ociosas ser-lhe-ia mais grato, mais
em concordancia com o seu natural. Ora, pois, minha irm, menos
lagrimas, e mais reflexo. Repito que no diga a seu marido que eu vim
aqui fazer-lhe o mal que no imaginava.


XVII

O velho Silveira chamou seu filho, e disse:

--Que tristeza  a tua, e a da tua mulher, Alvaro?

--No falemos n'isso, meu pae. O soffrimento calado  o mais nobre, o
soffrimento irremediavel  creancice expo'-lo  piedade dos outros.

--Soffrimento irremediavel!? De que soffres? Ests arrependido de casar
com esta menina que adoravas tanto?! Aborreces... enfastiou-te este
anjo?!

--No me enfastiou... receio que venha a enfastiar-me... Est bom, meu
pae, mudemos de pratica. Para onde vamos ns a ares este anno?

--Que modos so esses, Alvaro! Entrou outra vez em ti o demonio da
perdio!? Foi, pois, uma mentira, uma impostura, uma infame astucia a
tua emenda?

--No dou motivo para semelhantes suspeitas, meu pae. O meu proceder 
hoje como era ha quatro mezes. Ouvi'-lo-hei, senhor, mas v. ex.^a no me
accuse sem fundar a sua accusao.

-- possivel que j no ames Maria?!--replicou o pae--Em que desdiz
ella do que tu e eu esperavamos, Alvaro?

--Pois eu no a amo?! O pae que quer que eu faa? Ser-me-ha preciso
trazer ao collo minha mulher para o persuadir de que a amo?! Eu no sei
fazer carinhos piegas... Creio que ella no dir que a trato mal, nem a
privo dos seus prazeres...

--Que prazeres! Pois a pobre menina raras vezes sae do seu quarto, raras
vezes, ha quinze dias a esta parte, se encontra comtigo... que prazeres
lhe ds, Alvaro?  isto o que tu planizavas quando me pediste que
empenhasse ao coronel a minha palavra de honra como abono do teu
procedimento para que elle te no negasse a filha? Vejo que preparas
para os meus ultimos dias uma grande deshonra, e um grande remorso! Com
que cara me apresentarei ao coronel logo que elle saiba os surdos
padecimentos da nobre menina, que no solta um gemido queixoso!
Explica-te, Alvaro; no te offendo, sequer, pedindo-te, como pae, uma
explicao d'essa frieza para com ella... O que  isto?

--Pois eu obedeo, senhor, respondendo em toda a verdade da minha alma.
Creia que soffro, respondendo assim; mas eu preciso dizer a terrivel
verdade que me esmaga o corao. Maria no  a mulher, que eu devia
procurar. Enganei-me. Foi um desencontro, uma desgraa, uma horrivel
illuso! Eu no sou digno d'ella. Fui atraioado pelo amor que Maria me
inspirou; julguei-me capaz de occupar, toda a vida, o corao com a
posse d'ella. O demonio venceu. Sinto-me enfastiado; tenho o gelo da
indifferena na alma, violento este sentimento amargo a confessar as
virtudes de minha mulher: vejo-a formosa, reconheo que  um anjo, mas
no posso, ao p d'ella, passar um quarto de hora sem fastio. Parece que
o meu arrefecimento lhe passou  alma. Vejo-a triste, responde-me
chorando se lhe pergunto que motivos tem de tristeza, evita-me quando eu
fao sobre mim um grande esforo em mostrar-lhe agrado... Em fim, meu
pae, no era eu o homem que devia fazer a felicidade d'esta mulher...
Sou incapaz de a maltratar, terei com ella todas as attenes de irmo;
mas...  necessario que deixe de sentir o que sinto... A violencia 
inutil... o amor no se crava no corao como quem crava um punhal...
Basta-me o meu infortunio de no poder ama'-la. Os desgraados como eu
so amaldioados pela sociedade, e Deus sabe se elles no so mais
dignos de piedade que de maldio!... No poder ama'-la como a adorei ha
tres mezes! Isto  angustioso, meu pae! Por quem , no me aggrave as
minhas dres com as suas censuras... No receie nada por ella... Eu
tirarei da delicadeza todos os pretextos para que ella se capacite de
que ainda a amo.  uma piedosa mentira em que meu pae, por meu bem, e
d'ella, e de todos ns, deve consentir, e at empregar a sua influencia
auxiliadora. Consiga v. ex.^a que ella saia do quarto, que v aos
theatros, que v aos bailes, que frequente as nossas immensas relaes,
que aprenda na sociedade com outras mulheres a esquecer os infortunios
domesticos, que eu farei o mesmo...

-- uma alliana infame, que tu queres que eu proteja?--interrompeu o
velho.

--Como _alliana infame_!--redarguiu o filho.

--Sim! consentes a tua mulher...

--O que? queira dizer, meu pae!

--Tenho vergonha de o proferir!...

--Ento no me comprehendeu, ou me julga um homem destituido de honra.
Lembre-se que sou seu filho, senhor! Eu no quero fazer com minha mulher
allianas infames. Quero que ella no faa consistir a sua felicidade
smente na minha convivencia de todas as horas, e de todos os instantes.
Quero que ella reparta os seus desejos, e as suas idas por tudo que
possa dar-lhe uma distraco honesta, e concedida s senhoras da sua
posio. No quero que o seu amor  solido me force, me algeme a um
gosto que no tenho. Estamos na sociedade, eu sou um rapaz, e quero
viver para a sociedade. Gosar no  offender a Deus, como lhe incutiram
a ella. Nunca a levei aos theatros, aos bailes, a uma visita, que no
tivesse primeiro que destruir-lhe os preconceitos com que a crearam.
Est sentada ao piano, ou ao bastidor: quer meu pae que eu esteja alli
constantemente ao p d'ella, repetindo-lhe as phrases canadas de um
amor de conveno?  hypocrisia com que no posso...

O velho voltra as costas ao filho, e confundira as lagrimas com as de
padre Antonio que se fizera annunciar.


XVIII

Alvaro falra pela bocca de todos os maridos maus ou infelizes, quando a
libertinagem os no cura do veneno do desgosto com o veneno da deshonra.
Era de certo o enojo, esse desfallecimento de alma incuravel, esse
morrer do amor que nunca mais resuscita, quando a mulher que o causa 
esposa, e quando o homem que o recebe no tem a fora de virtude que
converte a piedade em estima.

A paciencia de Maria azedava ainda mais o desgosto de Alvaro, porque as
lagrimas em silencio eram a mais pungente censura que ella podia fazer
ao seu procedimento.

A melancolia do padre, cuja convivencia elle afastava, e o sobrecenho do
pae, irritavam-n'o at ao frenesi de raiva s algemas que lhe queriam
lanar  sua liberdade.

O padre aconselhava-lhe os bailes, e os passatempos que a sua indole
apreciava. Pedia  sobrinha que o acompanhasse para compartir dos
prazeres de seu marido; mas a pobre menina, se alguma vez accedia ao que
lhe era imposto como dever de mulher casada, ia levar  sociedade o
espectaculo da sua tristeza, e dar incentivo de arguies, umas justas,
outras exageradas ao procedimento de Alvaro da Silveira.

Menos instada por seu marido, e por seu tio, e por seu extremoso sogro,
que lhe era segundo pae, deixou de sar, e mui raras vezes visitou sua
me, porque no podia mentir s suspeitosas perguntas de seu pae, a
respeito da felicidade que o marido lhe dava.

Alvaro, pouco a pouco, foi-se absolvendo de seus deveres, e respeitos 
sociedade. Estudou o viver e o sentir dos maridos no circulo das suas
brilhantes relaes, e viu que entre tantos havia s um que pudesse
atirar-lhe uma pedra. Entendeu que podia ser-se um homem importante aos
homens, e importante s mulheres, embora casado, embora propenso a
esquecer-se todos os dias que o era. Relaxados os deveres, seguiu-se a
tibieza nas apparencias do decoro, e da delicadeza, ultima ferida que
uma mulher com dignidade pde receber de um mau marido.

O seu antigo amigo conde de *** foi reintegrado na sua particular
estima. Era j recebido no seu quarto, era o seu confidente em segredos
dignos de ambos, era tudo o que pde ser um amigo intimo, menos relao
de sua mulher. Maria regeitra com imperio, pouco natural ao seu
caracter humilde, a apresentao do conde. Ouvira falar d'este homem em
casa de seu pae, ao tio, e ao sogro, de modo que lhe ganhou asco, e no
podia vencer o sobresalto com que ouvia annunciar um tal nome, que seu
proprio marido, tres mezes antes, banira das suas relaes.

Na primavera d'esse anno, Alvaro partiu com o conde, e outros de egual
porte para o campo, em busca de touros para as corridas do campo de
Santa Anna. Demoraram-se vinte dias n'essa gloriosa expedio digna dos
netos de Vasco da Gama e de Affonso de Albuquerque... Durante esse
tempo, Maria no teve de seu marido um bilhete, nem uma saudade. De
volta, Alvaro achou sua mulher gravemente enferma d'essa molestia que
entra no corao, e filtra de l o veneno da morte por todas as fibras.

Disse-lhe palavras consoladoras, instigadas pelo espinho do remorso,
palavras calculadas na frieza do seu desamor; mas a ida satanica da
viuvez entrou-lhe na alma com a esperana de uma felicidade imprevista.

 horrivel! mas no duvideis... Olhae de redor de vs...


XIX

Foram aconselhados a Maria ares do campo. Sau de Lisboa para Collares,
acompanhada por seu tio, e dois creados. Alvaro partira para Villa
Franca, e de uma quinta, muito conhecida nos arrabaldes d'aquella villa,
fazia as suas excurses  caa, em que entreteve um mez, distrado de
tudo; e embebido no seu affecto remoado ao inseparavel conde.

Entretanto, Maria dra largas ao corao abafado. Padre Antonio sabia a
causa do soffrimento, mas affectava extranheza, para no auctorisar
queixumes de mulher casada. Fazia grandes rodeios aconselhando a sua
sobrinha a resignao, porm, simulando, sempre, que no conhecia motivo
para tristeza to inconsolavel.

Uma vez, Maria, canou na lucta comsigo mesma, e fixou no tio os seus
grandes olhos arrasados de lagrimas. Era um olhar de soffrimento que
reage, uma accusao ao homem que concorrera para o seu infortunio, e
parecia impor-lhe a violencia da mudez, a morte surda sem a inoffensiva
respirao de uma queixa.

Frei Antonio entendeu-a, e disse:

--Fala, minha querida sobrinha, accusa-me, e depois pediremos ambos ao
Senhor que nos d melhor vida a ambos.


XX

A mulher de Alvaro da Silveira balbuciou:

--No o accuso, meu tio; peo-lhe smente que me deixe chorar.  bem
pouco pedir; mas eu sinto um grande conforto n'este unico prazer dos
infelizes.

--O da orao  maior, minha sobrinha...--atalhou o padre.

--Pois eu no oro, meu tio?  quando sinto mais dentro do corao a
doura das lagrimas. Ou pea a Deus paciencia para soffrer at ao fim,
sem que a minha familia o saiba; ou pea que se digne tocar o corao de
meu marido, choro sempre, e fico sempre mais desopprimida.

--Mas os teus dias so sempre eguaes, filha. Ests cada vez mais
abatida, mais magra, e mais febril.

--Que importa o corpo? O que eu recebo de Deus  a fora da alma... A
morte no lh'a peo, por que sei que no faria com ella a felicidade de
Alvaro...  impossivel que o remorso o no castigue depois... Isso  que
eu no queria... O Senhor me livre de ser o instrumento das torturas
d'alguem... E, se eu morresse, a nossa pobre familia soffria muito...
minha me, seguir-me-ia, e os meus irmos pequeninos nos braos de meu
pobre pae... matal-o-iam com carinhos...  por isso que eu no peo a
morte...

--No peas, Maria. Diz-me o corao que ters melhores dias da tua
existencia, e que eu hei de ve'-los ainda.

--Oxal... e como sero esses dias, meu tio?

--Ser quando teu marido voltar ao que era quando te queria tanto.

--Pois esse amor pde por ventura tornar?

--Pois no pde, filha?! Ests passando por uma dolorosa provao; 
impossivel que no recebas n'este mundo o premio da tua constancia.
Assim como Alvaro passou do mal para o bem, e depois recaiu no mal, o
anjo, que o alumiou uma vez, ha de alumia'-lo outra, minha sobrinha.
Quando menos o esperarmos, estar comnosco, para nos restituir o bom
corao que nos roubou. Cr, e ora, minha filha. Oremos ambos. As nossas
supplicas sejam por elle, e deixemos ao senhor apiedar-se de todos,
quando a sua bondade quizer.


XXI

Padre Antonio, horas depois, enviava um proprio com uma longa carta a
Villa Franca. Era um humilde requerimento ao corao de Alvaro.
Lembrava-lhe, com delicadeza, os seus deveres. Contava-lhe o viver
attribulado de sua sobrinha, pedia-lhe encarecidamente que viesse
v'-la, ou consentisse que algumas pessoas da familia d'ella a
acompanhassem no ermo em que vivia.

O fidalgo recebera a carta no pospasto de um festim em que se
banqueteavam os caadores, commemorando as faanhas venatorias do dia. O
conde de ***, chamado por Alvaro a conselho redigiu e escreveu a
resposta  carta, visto que o seu amigo, turbado de vinho, apenas tinha
entendimento para conhecer que o frade o incommodava, como parapeito dos
tiros de sua mulher. A resposta, por tanto, foi simples e peremptoria.
Alvaro agradecia muito os pios conselhos do padre, sentia muito os
incommodos de sua mulher; recusava, porm, acceder  convivencia pedida,
e approveitava a occasio para observar a sua reverendissima que a sua
pertinaz assistencia em casa d'elle Alvaro era pouco delicada,
provando-se que no havia n'essa casa meninos para educar. Terminava,
ordenando que sua mulher se recolhesse a Lisboa quanto antes, visto que
os ares campestres no conseguiam alliviar os seus padecimentos.

Esta carta foi lida a Alvaro, que deu no hombro do seu secretario uma
sonora palmada, como signal de applauso e gratido.


XXII

Frei Antonio fra assistir ao trespasse de um moribundo, e no estava em
casa quando chegou o conductor da resposta. Foi Maria que recebeu a
carta, e vendo a letra inesperada de seu marido, sobresaltou-a tanto o
prazer, que nem sequer reflectiu para abri'-la.

Leu... E mal viu as ultimas linhas. Entrou em tremuras, escondeu a carta
no seio deixando uma parte visivel; luctou como querendo segurar o
alento que lhe fugia; mas debalde. Padre Antonio ergueu-a desmaiada de
um canap, quando voltou. Tirou-lhe do seio a carta; leu-a, e tornou a
insinua'-la sem a sobrinha dar f. Esta, recuperando os sentidos, viu ao
p de si o tio, com ar risonho, trahindo-se em algumas palavras
confortadoras; mas a pobre senhora, de momento a momento, levava a mo
ao seio para certificar-se de que a carta lhe no fra tirada.

--Ento o que foi isso, minha filha?--perguntou o padre.

--Um desmaio, resultado da grande fraqueza que tenho, de um passeio que
dei longo de mais para as minhas foras...

--Pois tu saste, Maria? No enganes o teu tio.

Aqui, Maria crava, e o frade vinha logo com o remedio, fugindo para
outra ida.

Depois de uma hora em que dois coraes angustiados estiveram a
enganar-se mutuamente, padre Antonio abraou sua sobrinha; e disse:

--Olha, menina, o extremo do soffrimento no se pde dizer qual , nem
quando chega; por isso no direi ao certo que as nossas penas esto a
passar por serem culminantes. Mas  de f para mim, filha, que isto
assim no pde demorar-se muito. A piedade do Altissimo est por
instantes a amercear-se de ns. Maria, fica no teu quarto; pensa n'essa
carta que tens no seio, eu vou pensar tambem; e, passada uma hora
estaremos juntos. Antes, porm, de decidir, Maria, pede ao senhor a luz
da graa.

Maria ficra como engolfada em profundo pasmo com a mo no seio. O frade
sara.


XXIII

Passada uma hora e um quarto, foi a sobrinha, atemorisada pela falta,
que entrou subtilmente no quarto de seu tio. O velho estava de joelhos
diante de uma cruz. Sentiu-a entrar, voltou um pouco a face, e disse:

--Espera um bocadinho, menina; eu falo-te j.

Maria ajoelhou ao p d'elle.

--Pois sim, oremos juntos: disse o padre--se j resolveste, pede comigo
ao Senhor que mude a tua teno, se ella no  do seu agrado.

Decorridos alguns minutos ergueram-se ambos.

--Pensei, meu tio--disse Maria.

--E ento?

--Creio que Deus permitte a minha vontade: o tio me dar a certeza da
minha f, se no se oppuzer.

--Pois diz, filha.

--Eu fujo a meu marido.

--Como? foges a teu marido?!--atalhou o velho espantado.

--Acolho-me ao seio de Deus, para morrer tranquilla.

--Entendi; minha filha!--exclamou elle com jubilo abraando-a.--Queres
dizer que entras n'um convento.

--Sim, sim.

--Foi a minha ida, quando orava...

--Sim? ento, bemdito seja Deus!--disse Maria erguendo as mos com
arrebatamento.--J vejo que o Senhor approva a minha resoluo. Eu pedi
muito  Virgem que lh'a inspirasse, meu tio. Vou para as Therezinhas.
Tenho l muitas amigas que me ho de fazer digna de orar com ellas.
Trabalharei para viver em flres, em recorte de papeis, em tudo, por que
pouco me basta. Poderei ve'-lo todos os dias, meu tio, e verei meus
paes, e meus irmos. Se Alvaro um dia me quizer, elle ir procurar-me, e
eu serei sempre o que sou e o que fui. No lhe tenho odio, no tenho.
Sei que elle ha de ser ainda muito infeliz, e talvez seja eu, depois de
meu tio, quem lhe restitua a boa alma que elle tinha quando o conheci.

--Tu choras. Maria?--interrompeu o padre carinhosamente--Levas saudades
de Alvaro, no levas?

--Saudades? no sei que sentimento  este!... parece-se mais com o da
compaixo.  como se eu dissesse: podiamos ser ambos to felizes!.. e
assim no se sabe qual de ns ser o mais desgraado!  o que eu sinto,
meu tio. J v que o estimo ainda como se fosse um meu irmo perdido de
vicios, que maltratasse sua familia, e que eu tivesse conhecido enchendo
de carinhos minha me e meus irmos. Lembra-me que elle era to amigo de
todos! entrava na nossa casa como se fosse nosso... agradecia tanto o
nosso bom agasalho, sem saber que ns ficavamos sempre tristes quando
elle nos deixava...  porque eu choro, meu tio... Isto  saudade do que
elle foi, e compaixo do que .... Paciencia... Vou para as
Therezinhas... Imaginei-me sempre l desde creana, no se lembra? No
tempo em que eu cantava aquellas palavras tristes, pensava tanto em
pedir a minha me que me deixasse entrar no convento, ainda que fosse
como creada...

--E hoje, Maria... talvez... tenhas de entrar como creada...

--E isso que tem, meu tio?! Pois nas Carmelitas no entravam tantas
senhoras distinctas que faziam a cozinha s semanas? Que tem que eu seja
creada? Alvaro no pde envergonhar-se d'isso; porque ha muitas
situaes vergonhosas para um marido, mas esta--a de servir--no  uma
d'essas... pois no?

Maria crou proferindo algumas d'essas ultimas palavras. Fr. Antonio
depois de abraa'-la, disse:

--Eu vou para Lisboa, minha sobrinha. Falarei com a prioreza; veremos
como has de entrar; antes, porm d'esse passo,  preciso que escrevas a
Alvaro.

--Pedindo-lhe consentimento?

--Sim.

--Se m'o nega?! no vou?

--Vaes, Maria. A petio  a humildade da esposa; mas a fuga  o ultimo
direito da victima. Onde ha algoz no ha marido.


XXIV

Era assim a carta de Maria a seu marido:

Foste enganado por uma chimera, Alvaro. No era eu a mulher digna do
teu amor. Quando vi apertar-se o teu corao  dr do arrependimento,
tive mais compaixo de ti do que de mim. Eu, pobre mulher, posso soffrer
e chorar, sem ser vista. Tu, Alvaro, nascido para os prazeres do mundo,
cuja privao o meu amor no podia recompensar-te, soffrerias muito, se
no tivesses animo de affastar com a ponta do p os deveres, e esquecer
que eu sou, ao mesmo tempo, tua escrava e tua tyranna.

Felizmente que adoptaste o melhor expediente.

Penso que as distraces, longe de mim, te deixam sentir as douras da
liberdade. s, talvez, feliz. Se o s, Alvaro, olha que esse bem peo-o
eu constantemente a Deus para ti. No te deixes vencer jmais do
remorso. Os meus padecimentos, bem o sabes, no se alliviam em queixas.
Nunca te pedi explicao da tua frieza, nem te dei uma palavra
aborrecida por outra. At as lagrimas te escondia, no  verdade? Se me
surpreendias chorando, antes queria mentir-te uma inveno, que
exacerbar-te com as minhas lastimas o pesar de me teres dado o direito
de te arguir. Quando assim se soffre, Alvaro, no ha ida de vingana,
nem se aceita com prazer a expiao de quem nos mortifica.

Vamos tratar da tua felicidade, meu caro irmo. Deixa-me dar-te este
titulo que tem tanto do affecto como da razo. Entre ns j no existe o
grande amor, que me parece ser inflexivel aos dictames do juizo. Podemos
suavemente caminhar cada um para seu lado, sem voltarmos as costas com
arremesso.  o que eu queria, e espero consegui'-lo, porque, sendo eu
to fraca, a fora que sinto para dar um passo em teu bem,  Deus que
m'a d, e dar-m'a-ha at ao fim.

Deixo-te mais livre do que vives, Alvaro. Vou entrar n'um convento, e
vou pobre como vim para tua casa. Sentirei l que s meu marido, porque
no cessarei de orar por ti, e offerecer em desconto das minhas e das
tuas faltas o tempo que Deus me der de vida.

Conheo que nasci para a solido e para os prazeres ignorados da vida
obscura. Esta consciencia e a absolvio de algumas cruezas do teu
caracter para comigo. Tu precisavas de uma mulher que te disputasse na
sociedade uma parte da tua gloria. Querias, talvez, abrilhantar-me aos
olhos dos outros com o reflexo da tua luz. E eu, educada na pobreza e na
simplicidade, no pude, por mais que quiz, contrafazer a minha indole.
Fui arrastada pelo dever aos raros bailes onde me levaste; voltava de l
contente com a esperana de estar ssinha comtigo, e muitas vezes me
deixaste ssinha com a minha saudade; e tornaste aos bailes a aproveitar
as horas que eu te aguava com a minha inexoravel melancolia.

Era ento que eu te lastimava, por teres sido enganado pelo corao,
quando me dizias que a vida no ermo, s comigo, era o teu sonho de
ventura, e amaldioavas o brilho perfido da sociedade que te no deixra
mais cedo ver o que  este mundo, com os olhos da razo.

Se me no tivesses dito isto, Alvaro, eu seria muito culpada por
aceitar o sacrificio da tua liberdade. Fomos enganados ambos. Pensava eu
que era verdadeiro o teu fastio dos prazeres ruidosos e vos; cuidei at
que o meu maior merecimento para ti estava no desprezo com que eu ouvia
l fra do meu cantinho o bulicio da vida opulenta. Aqui est porque eu
no te peo perdo de ter querido ser, contra a vontade de meu bom pae,
tua mulher. D'esta culpa quem me ha de perdoar  o pobre velho, e eu
conto com a bondade da sua alma.

Aqui tens, pois, o meu destino, Alvaro. Vou para um convento; no devo,
porm, sahir de tua casa sem praticar este acto de humildade, rogando o
teu consentimento. Quasi certa de que m'o ds, vou fazer os meus
ligeiros preparativos. Ainda no disse tudo, Alvaro... Se um dia
sentires a penosa necessidade de falar a alguem que te diga palavras de
allivio, procura-me, vae sem receio de encontrares uma queixosa. Eu
farei quanto puder em teu bem contra o mal que o mundo te houver feito.
Chamarei  tua alma as reminiscencias do que ella foi, quando eu t'a
mereci, furtando-a s outras paixes. Vae procurar-me, Alvaro, e achars
sempre uma irm.

De tudo o que te disse n'esta longa carta, deves tirar a certeza de
que, muito longe de odiar-te, estimo-te, sou tua amiga, offereo a minha
vida pelo dom da tua ventura; mas quizera, Alvaro, que essa ventura no
fosse mentirosa. A que presentemente gosas no pde ser duradoura, nem
filha do espirito.

Adeus.

                                                       Tua mulher

                                                _Maria dos Prazeres._


XXV

Maria entrou no quarto do padre. Estava elle ajuntando n'um sacco os
seus livros, e uma pouca de roupa branca.

--J escreveste, filha?! Vamos ver a tua cartinha...--disse elle
continuando o seu servio--Eu estou aqui ajuntando estes farrapos, e
estes quatro livros. A nossa bagagem, Maria,  to pequena, que a pde
um frade velho transportar debaixo de um brao. Ora vamos l; l a tua
cartinha.

Maria leu, affectando serenidade. No podia, comtudo. De instante a
instante, havia embargo de soluos, lagrimas pertinazes, e alteraes na
cr. Padre Antonio tomou-lhe das mos a carta, e leu-a em voz alta.

--Est muito boa--disse elle, afagando as faces de Maria--Vou mandar o
proprio a Villa-Franca. manh por noite, est c a resposta. Eu virei
ento saber qual ella foi.

--Pois meu tio, j hoje me deixa?!--interrompeu Maria com vehemencia.

--Pois ento, menina? A minha licena acaba logo que a trouxa esteja
prompta. Eu no extranho isto... Quando me mandaram sar do meu convento
que era a minha casa, sa logo; agora mandam-me sar de uma casa, que
no  minha, que hei de eu fazer? Sar mais depressa ainda, se 
possivel, e sacudir  sada da porta o p dos meus sapatos. De mais a
mais, bem sabes que preciso falar  madre prioreza das Therezinhas no
teu agasalho, que ainda no sabemos como ser, e todo o tempo  pouco...
Nada de lagrimas! Pelo amor de Deus, recebem-se todas as amarguras com
olhos enxutos. O merecimento aqui no  chorar,  rir para o co. Ha uma
s causa justa para lagrimas, Maria: vem a ser a offensa a Deus, que 
Pae, ou aos homens, que so nossos irmos. D'estes peccados, absolvo-te
eu, menina, que os no tens. A offendida s tu, e, por conseguinte,
perdo para os homens, e orao de graas ao Senhor.


XXVI

Alvaro da Silveira recebeu a carta, quando saa para Santarem, onde o
esperava um brilhante sarau, em que era rainha uma nobre dama que se
deixara ferir do nobre caador. Era, portanto, muito improprio o ensejo
da carta, cuja generosidade tinha para elle o valor odioso de uma
accusao mascarada. Foi esta a opinio do seu amigo conde.

Alvaro respondeu vocalmente que mais tarde responderia por escripto. O
portado, industriado pelo padre, replicou humildemente que no voltava
sem resposta, ou signal de ter sido recebida a carta. Perguntou-lhe
Alvaro quem lh'a tinha dado. O creado falou a verdade. Pois esse
hypocrita ainda l est? exclamou irado o fidalgo... Leva--continuou
elle--ahi vae o signal de que recebi a carta.--E entregou-lhe, aberta,
a carta de sua mulher.

Tal foi a resposta que Maria recebeu. Diga quem puder as lagrimas que
este desprezo lhe custou. O frade respeitou-as tanto, que em logar de
consola'-la com a paciencia, eloquente sempre em seus labios, chorou
tambem.

--Vamos, filha--disse elle por fim.

--J?! de noite?--reflectiu ella.

--Tens medo, Maria? A noite vae melhor ao estado da nossa alma...
Chegaremos de madrugada  tua nova casa. Passars o dia no locutorio com
a nossa familia.

--Pois est tudo arranjado?

--Tudo, Maria, tudo providencialmente arranjado. Vaes ser hospeda da
sr.^a escriv, em quanto eu no posso por meios certos que Deus me ha de
deparar comprar-te uma cella no convento. Depois, o teu trabalho
dar-te-ha uma subsistencia certa. Fallaremos, fallaremos... Vamos
embora.

Maria foi, quasi desfallecida, encostada ao hombro do padre, at
entrarem n'uma sege de praa que os esperava no porto. Grande, porm,
foi a surpresa da attribulada senhora, quando ao entrar na sege, foi
apertada por uns braos que s podiam ser de me pelo afago com que lhe
bebiam as lagrimas da face.

O choro de ambas embargava as palavras soluadas. O que ellas, porm,
queriam dizer-se era pedirem-se perdo mutuamente; a me  filha, por
lhe haver afervorado e absolvido o amor a Alvaro; a filha  me porque
fraqueava no martyrio, e, sem pedir-lhe conselho, abandonava aos juizos
da sociedade a explicao da sua fuga, talvez bem infamada.


XXVII

A sege parou defronte do mosteiro.

Rompia a manh. To lindo estava o co, to balsamico o ar ao p do
arvoredo do convento, as aves deleitavam tanto o corao, o mrmuro
despertar da natureza to meigos arrobos filtrava ao seio de Maria, que,
enlevada em mudo regalo, docemente lhe marejavam nos olhos as lagrimas
de um contentamento infantil, se no eram antes o respirar suavissimo da
abafao angustiosa em que penra.

Aberto o porto exterior, frei Antonio entrou com sua cunhada e
sobrinha. Algumas religiosas desceram  portaria, e levaram comsigo me
e filha, felicitando esta com grandes jubilos, e inventando graas para
a desassombrarem da sua tristeza. Sabiam-lhe bem a maguada vida, e a
virtude santa, aquellas servas do Senhor. A Me de Jesus, protectora
sempre invocada de Maria, tocou talvez o corao das carinhosas freiras
que parecem porfiar qual mais mimos e agrados far  querida hospeda.

D'ahi a pouco volveu ao mosteiro Fr. Antonio com a familia toda. O
coronel esmoreceu d'aquelle seu grande animo vendo a magreza cadaverica
da filha. O velho, alimpando as lagrimas, fez que nenhuns olhos ficassem
enxutos. Diante d'aquella magestosa dr, no houve uma s pessoa que
tivesse espirito para consola'-lo. O padre, esse, o que mais ali soffria
talvez, abaixava humildemente a cabea diante de seu irmo, como quem
confessa a maior culpa de tamanha desventura.

Uma das religiosas, querendo consolar, censurou sem asperido, ainda
assim, o proceder inhumano de Alvaro da Silveira.

Maria fez um gesto de desagrado, e, sentindo amargamente que lh'o no
entendesse a freira condoida, disse:

--Alvaro da Silveira  meu marido, minha senhora. Deus  que julga as
nossas aces... Eu preciso a piedade de toda a gente; mas no queria
que ella custasse a Alvaro a sua condemnao. Meu marido no  mais
feliz que eu. Por isso que estou muito certa d'isto, peo s senhoras
d'esta casa que roguem a Deus por elle, quando lhe rogarem por mim.

Ficaram como assombrados todos os animos, e apiedados todos os coraes.
Ninguem, durante aquelle dia, proferiu o nome de Alvaro.

 tarde houve um adeus de muito chorar; mas, ao dia seguinte, l estavam
os irmosinhos e a me da secular, e o tio padre, uns para chorar com
ella, outros para distrai-la com as suas innocentes graas.


XXVIII

Maria trabalhava em flores, em costura, em tudo que fazia independente o
seu parco passadio; e, desde o segundo dia, orao e trabalho
alternavam-se, afra as horas das lagrimas, que eram de noite, ssinha,
a occultas das consolaes, s vezes importunas, das amigas--que todas o
eram.

Frei Antonio foi um dia mui alegre ao locutorio, e disse isto a Maria:

--O pae de Alvaro foi hoje a nossa casa, attribulado que fazia d! 
homem honrado, e quer-te como a filha. Sabia tudo, e abraou-se a teu
pae, pedindo-lhe compaixo para o mais desgraado dos paes. Queria
vr-te, no se afoutava a vir sem licena nossa. Concedemos-lh'a todos
com muito prazer. D'aqui a pouco est comnosco, filha. Pede uma grade
para o receberes.

E, ditas estas e mais algumas palavras da alvoroada Maria, o velho
Silveira chegou-se ao locutorio, dizendo que queria abraar sua filha. O
claustro negava-lhe satisfazer tal desejo e d'ali foi para uma grade
onde foi pathetica a scena. Maria no se queixava, ao mesmo tempo que o
velho amaldioava o filho. Ella, ento, punha as mos supplicantes,
pedindo-lhe que levantasse a maldio de sobre o infeliz Alvaro.

Siveira apertava a mo do padre, e dizia:

--Com este nobre e santo corao recompensa o Senhor todos os
padecimentos de uma familia; esta virtude, porm, exacerba a minha
magua, porque eu sou pae de um monstro, e este anjo  victima d'elle,
e... talvez minha. Fui eu que lh'a pedi, sr. padre Antonio...

Occorriam ento as pacientes reflexes de Maria, querendo absolver todos
os que promoveram o seu casamento. E, sem affectao de virtude, a
christ de corao e ensino, dizia que mais devia agradecer a Deus as
provaes em que puzera a sua f, e a sua esperana no premio celestial.

Silveira quiz saber que vida era a da sua nora. Contou-lh'a o padre. O
velho, pasmado de tanta resignao, quiz logo alli chamar a prioreza
para dizer-lhe que n'aquelle mesmo dia, a esposa de seu filho era uma
secular com fartos meios de subsistencia, e com todas as regalias
possiveis n'um convento.

Maria atalhou a liberalidade do sogro, dizendo que no acceitaria um
ceitil em quanto pudesse trabalhar.

Foram, pois, baldados esforos de sogro e tio. No havia, com razes,
demove'-la do seu proposito. As que se lhe davam eram frivolas. Silveira
queria que sua nora tivesse alli a grandeza do seu nascimento. A isto
replicava ella que nascera mui pobre, e cria que o sar da sua
obscuridade fra infelicitar-se, e rebuscar novas pompas seria reincidir
na desgraa voluntariamente. S no trabalho esperava allivio--dizia
ella; e por misericordia pedia que a deixassem com os seus recursos,
porque a aptido para o trabalho fra o seu inexhaurivel patrimonio.




LIVRO ULTIMO


I

Desde 1835 at 1842, a historia de Alvaro da Silveira  a historia de
todos os homens perdidos.

A recluso de sua mulher, no principio, recebeu-a como um ataque aos
seus direitos de marido, e quasi esteve, por orgulho, a requerer um
divorcio, ou, ainda mais, a annulao do casamento.

Outras idas vieram desenlea'-lo d'esta preoccupao periodica. O seu
amigo conde chasqueava-lhe a demasiada susceptibilidade, dizendo-lhe que
poucos maridos deviam tanto  fortuna, que por to suave processo, o
descartra a elle do tropeo conjugal.

O velho Silveira sau d'este mundo, um anno depois que Maria entrra no
convento ralado de penas, infamado pelas immoralidades de Alvaro, que,
de collaborao com o conde, redigira os famosos estatutos para a
chamada _sociedade do delirio_. Ao estrondo das primeiras impudencias, o
pobre pae correu a querer salvar o filho. Foi recebido com desdm, e
repellido com o desprezo s suas instancias. O velho corao no podia
com o golpe. Morreu sem filho ao p do leito, quasi desamparado dos
parentes que o inculpavam na educao licenciosa de Alvaro. Quem lhe
ministrou as consolaes do trespasse, foi um extranho. Frei Antonio dos
Anjos, ao qual o senhor de uma grande casa disse  hora da morte, que as
dissipaes de Alvaro no lhe tinham deixado seis vintens para mandar
dizer por sua alma uma missa.


II

O marido de Maria viajava ento por Frana, onde lhe foi a nova da morte
de seu pae. Alvaro melhorava de meios, porque os recursos, que seu pae
lhe dava com quanto superiores ao rendimento de sua casa, no bastavam 
dissipao.

Veiu prestes a Lisboa tomar conta dos seus vinculos.

Procurando um usurario que lh'os acceitasse como hypotheca de alguns
contos de ris, ninguem os queria por mais do valor dos rendimentos de
tres annos, porque a magreza livida de Alvaro aterrava os agiotas.

Um mercieiro, antigo creado de seu pae, sabendo que o fidalgo barateava
 usura os seus bens, apresentou-se-lhe para acceita'-los como hypotheca
de uma somma quasi egual ao valor d'elles.

Alvaro abenoou o seu destino, e receoso de que o mercieiro se
arrependesse, apressou o contracto.

O comprador, porm, clausulou que em sua mo ficaria uma certa somma
para acudir s necessidades da esposa do vendedor, se ella um dia as
sentisse. Alvaro acceitou essa hesitao maravilhado de que o inepto
logista no pedisse a assignatura consentanea de sua mulher!

Este mercieiro conhecia frei Antonio dos Anjos. Captivo do benevolo
interesse d'elle, o padre fra-lhe contando os infelizes acontecimentos
d'aquella casa. O velho creado de Gonalo da Silveira, quando soube que
seu amo expirra, quasi desamparado, sem seis vintens em dinheiro para
uma missa, chorou, e protestou valer ao filho, quando o soccorro lhe
aproveitasse depois de uma lio amarga.


III

Em 1842, Alvaro fugindo aos credores de Pariz, de Londres, de Madrid, de
onde quer que desbaratou o seu e o alheio, appareceu em Lisboa pedindo
ao mercieiro que lhe valesse. A desgraa quebrra-lhe a soberba. Alvaro
pedia com humildade, se no era antes relaxamento, soccorro ao creado de
sua casa. O logista deu-lhe a quantia que ficra, como em deposito, para
ser dada a Maria, dizendo que ella a mandra entregar a seu marido.

Recebeu-a com indifferena, e consumiu-a obscuramente em uma roda que
no era a sua, na convivencia de individuos que, smente no abysmo da
desgraa, sem honra, se encontram.

Padre Antonio dos Anjos no sabia dizer a Maria, onde seu marido estava.
O mercieiro  que no perdeu de vista o filho de seu amo, com a mira de
levanta'-lo, quando elle abrisse os olhos no extremo car de perdio.

Foi elle, pois, quem deu ao frade miudas novas de Alvaro de Silveira.
Umas vezes recebia dos parentes uma dadiva, como esmola. Outras,
achava-se entre a gentalha, buscando nas fezes sociaes esquecer os
explendores que dissipra. Eis ahi que chegava a mo mysteriosa do
logista.


IV

Um dia, Alvaro da Silveira quiz annullar o contracto feito com o
desconhecido bemfeitor. Aconselharam-n'o que a aco de dolo devia ser
intentada por sua mulher contra o comprador fraudulento dos vinculos.
Alvaro escreveu a sua mulher uma carta, onde se via um espirito
embrutecido pela desgraa, um ar de cynica indifferena, no affectada,
porque  ella o caracteristico do homem a seus proprios olhos
desprezivel. N'esta carta, pedia Alvaro a Maria que o coadjuvasse a
resgatar os bens de que dependia a farta subsistencia de ambos.

Maria respondeu que no podia demandar o comprador de uns bens que ella
nunca julgra seus. Accrescentava que os unicos bens de sua posse eram a
propriedade do trabalho; e o resultado d'elle reparti'-lo-ia irmmente
com seu marido, se elle o acceitasse. O padre quiz ser portador d'esta
carta.

Alvaro no poude evitar a presena do tio de sua mulher. Estava elle
vivendo em um quarto de emprestimo na casa de um homem, que lh'o
offerecera, no conhecido seu. A providencial espionagem do mercieiro
preparra-lhe esse quarto, ao mesmo tempo que o avisavam das intenes
de Alvaro, cerca dos rendimentos comprados.

Eis aqui o que disseram Alvaro e o padre.

--Que futuro ser o seu, sr. Alvaro?

--A continuao do presente, quando sua sobrinha no queira tirar-me
d'elle.

--Minha sobrinha?!

--Sim. Se minha mulher annullar a escriptura que assignei do trespasse
dos meus rendimentos por vinte annos...

--J viu o que minha sobrinha lhe diz.

--Ento, seremos ambos desgraados, e eu mais de que ella, porque fui
creado na opulencia, e ella...

--Na miseria: pde v. ex.^a acabar a phrase que nos no envergonha.
Maria offerece a seu marido um quinho da sua miseria.

--No entendo...

--Reparte com seu marido o salario de seu trabalho.

--Est zombando? Que pde minha mulher repartir?

--Migalhas.

--Eu no vivo de migalhas, nem queria que ella vivesse. Agradeo-lhe
esse offerecimento que me faz. Se  castigo com que me pune, bem
castigado estou, sr. frei Antonio. Diga-lhe que aos desgraados da minha
especie perda-se, porque a necessidade  um supplicio infernal para o
homem que teve.

--E, comtudo, a honra na pobreza rehabilita o desgraado.

--No  n'este tempo, nem n'esta sociedade... E, de mais, eu no sou
deshonrado. Tenho gasto muito, tenho dissipado tudo, mas esse muito,
esse tudo era meu.

--Tem v. ex.^a orgulho do seu feito!

--Tenho; tenho legitimo orgulho de ter fugido  sociedade antes que ella
me repellisse.

--E se ella o abraasse na sua pobreza?

--O senhor no conhece os homens. Se os conhecesse, sua sobrinha seria
hoje a feliz virtuosa que foi.

--E , se no feliz, virtuosa... mais, pela paciencia, e pela
esperana...

--Esperana!...

--Esperana, sim, de o ver rehabilitado perante ella e o mundo. Oua-me,
sr. Alvaro. Comece hoje a ser amigo de sua mulher, se pde. Ver o que 
um anjo. Ver como ella o faz esquecer da sua posio infeliz n'este
mundo. Aquelle poder de Deus, que as minhas mos indignas no souberam
empregar na sua regenerao, ver v. ex.^a o que  nas mos da
pobresinha recolhida de Sant'Anna. Queira ve'-la, que ella no lhe
fugir. V ve'-la. No cuide que tem de pedir perdes, accusando-se de
ingratides e crueldades. V como se no tivessem corrido seis annos sem
se verem, sem se escreverem. A sua salvao  ella que a tem no thesouro
da nobre alma que Deus lhe enche todos os dias de conforto e
esperana...

Alvaro escutra o longo discurso do padre, sem quebrar-lhe a successo
de palavras qual d'ellas mais tocante.

Frei Antonio por fim, abraando-o com carinhosa effuso, perguntou:

--Vae, sr. Alvaro?

--Irei, se assim o quizer.

As muitas lagrimas de Maria, as de sua familia, as oraes religiosas
que pediam a Jesus Misericordioso a regenerao de Alvaro, comearam a
florir, para fructos abenoados.


V

O padre separra-se no caminho, por suppor que a sua assistencia
constrangeria Alvaro na presena de Maria dos Prazeres. Alvaro, porm,
desde que se viu s, e  porta do mosteiro, desanimou.

No foi o receio de ser accusado de ingrato e cruel que o susteve. Essas
accusaes j o frade lhe tinha dito que as no ouviria. O que lhe
esfriou o alvoroo com que ia, foi um sentimento de vergonha de si
proprio. Acostumado a deixar-se sempre guiar, sem combate, pelas
primeiras impresses, boas ou ms, Alvaro, depressa annuira a procurar
sua mulher, e mais depressa foi vencido pelo orgulho que lhe dizia
quanto elle ia ser pequeno diante de sua mulher.

A soberba apraz-se, s vezes, escarnecer as suas victimas, depois que as
acha despenhadas na miseria.  quando ella se converte em castigo duro,
tormento incomparavel. Em quanto rico, Alvaro, mordido pela serpente da
soberba, acudiu  dr da chaga com o balsamo do ouro, essa alavanca
poderosa do capricho e da vingana. Pobre, a ferretoada da vibora
entrava-lhe at ao corao, e d'ahi lavrava ulcerosa, porque a miseria
constante lh'a estava descarnando sempre.

Por isso o pobre orgulhoso ser entre os mais desgraados o primeiro. Se
Deus se no amercear das angustias, que espedaam o homem cado em
miseria do alto da grandeza, o inferno das dres indescriptiveis estar
no corao d'esse Lucifer despenhado.


VI

Maria recebeu esta carta:

 o teu amor, ou a tua piedade que me chama, Maria? Se amor...! como
hei de eu acredita'-lo? que fiz eu que te no merea odio? onde pde
estar esse amor, depois de seis annos de ingratides, e esquecimento, a
peor de todas?! Esquecimento, no. Lembravas-me, Maria, e sabes quando,
e com mais amargura? Quando me sentia car. A cada empurro que o
destino, ou o Deus da vingana, me dava para este abysmo, era ento que
eu te via, despenhada por mim, vendo-me car; mas que differena entre
as nossas quedas! Eu a precipitar-te e um anjo do co a erguer-te para
onde a minha alma desesperada no pde j desafogar as suas afflices!

--No pdes amar-me, Maria, no pdes. A compaixo, se outro affecto me
no tens, essa no a acceito. Alm de certo extremo de infortunio, est
o egoismo na desgraa, o desprezo da piedade v se no  antes
humilhadora. Deixa-me esperar a mrte, n'este lodaal em que vivo. A
esperana no pde mais entrar em minha alma. Adeus.

                                                            _Alvaro_.


VII

As lagrimas de Maria desfaziam as linhas que ella escreveu, em seguida 
leitura d'esta carta. A penna obedecia ao ardor do corao. Era a
primeira vez que ella o escutava, e lhe obedecia sem consultar primeiro
o padre.

Era assim a resposta que Alvaro recebia pelo mesmo portador:

Vem, meu amigo. Deus te guie o corao que a sua divina mo abriu ao
arrependimento. Tu s ainda muito rico: do thesouro de amor que te dei,
e tu rejeitaste, no dissipei um s dos carinhos com que heide
restituir-te..., restituir-te, no digo bem, com que heide dar-te uma
felicidade nova, nunca experimentada. O infortunio fez-te bom. Tu
precisas de mim e eu hoje tenho um santo orgulho de ser a unica pessoa
que tens por ti, um corao amigo. Esse egoismo na desgraa  uma
soberba blasfema. Deus no te desamparou, meu amigo. Se de mim no
queres consolaes, vem ao menos ver como eu choro a perda das tuas
esperanas.

                                                             _Maria_.


VIII

O orgulho de Alvaro succumbiu. No dia seguinte, procurou Maria. Desta
vez, no o abandonou o animo  porta do mosteiro. A primeira pessoa que
viu no pateo foi o seu mestre, o tio de sua mulher.

Eram oito horas da manh. Frei Antonio entrava no templo para
sacrificar, e convidou Alvaro a segui'-lo, porque Maria estava no cro,
e, s depois da missa, viria ao locutorio.

O abstrahido moo, entrou ne egreja e ajoelhou. Maria soltra, no seio
de uma amiga, um _ai_ que o denuncira. A amiga, electrisada pelas
lagrimas felizes da secular, pediu  prelada se lhe consentia que
tocasse o orgo durante a missa. Obtido o consentimento, fez soar,
magestosa de tristeza, tristeza suavissima que dulcifica as lagrimas, a
musica do _Te-Deum laudamus_.

Na fronte de Alvaro eriaram-se os cabellos: a felicidade
trasbordava-lhe do seio em lagrimas, corria-lhe o corpo o calefrio do
arrebatamento, esse phenomeno inexplicavel que tantas vezes abala as
organisaes delicadas.


IX

Soube-se logo a causa da perturbao de Maria. A prelada quiz saber
porque chorava assim. A docil senhora no podia nem devia esconder o
motivo das suas lagrimas. Pediu uma grade para receber seu marido, e a
prioreza, ensinada pelo corao que adivinhava os desejos de Maria,
pediu-lhe para acompanha'-la  grade. A mulher de Alvaro apertou-a ao
seio com alvoroo de contentamento.

--Venha comigo, minha me,--disse ella--Eu preciso que elle oua as
palavras que Deus manda ao seu corao. D-lhe a elle a felicidade no
infortunio como m'a deu a mim. No espero que elle me d um amor como eu
o esperava antes de experimentar as angustias do desprezo; mas se for
possivel converte'-lo ao temor de Deus, elle ha-de estimar-me, e com a
minha estima soffrer os trabalhos da vida, sem a impaciencia que o faz
blasfemar. Oh! meu Deus! elle  to novo e to desgraado! Que longa
vida de desesperao ser a d'elle, se no conseguirmos mostrar-lhe que
se pde ser pobre e feliz!

A prelada pediu cinco minutos de espera. Recolheu-se em orao ao seu
oratorio, e voltou com o sorriso de esperana para Maria, e a confiana
em Deus no corao.

Entraram na grade.


X

Alvaro estava em p, com os olhos fitos na porta por onde Maria devia
entrar. A prioreza, apenas entrou com a secular pela mo, disse mui
affavelmente:

--Eu no esperei que me apresentassem o sr. Alvaro para ter o prazer de
cumprimenta'-lo. Conheci n'esta casa suas tias-avs, conheci sua me, e
seu pae e toda a sua familia. At conheci um anjinho do co, que me
disseram ser esposa de v. ex.^a Tratei de averiguar se era verdade. O
mundo dizia que sim, o anjinho tambem dizia que sim, e eu disse sempre
que no, porque no acho natural que o possuidor de um thesouro, vindo
do co, o lanasse de si. Teima a minha Maria em dizer que  sua, e eu
digo que no pde ser seno de quem eu quizer. Agora  minha filha e no
pde ser sua esposa, sem que v. ex.^a m'a venha pedir com todas as
formalidades de noivo.

--E dar-m'a-ha v. ex.^a?--perguntou Alvaro correspondendo com
jovialidade  graa risonha da prelada.

--Dou-lh'a--replicou a prelada--com uma condio. H de vir viver ao p
de ns.

--Como, minha senhora?!

--Ha-de vir viver comnosco. Aposto que est l fazendo seus entes de
razo contra a violao do claustro? Eu lhe digo, meu genro, uma freira,
que tem uma filha como esta, d um testemunho de que se deixou arrastar
por alguma d'essas paixes feias que so a origem d'estes anjos to
lindos! V. ex.^a est-se rindo?! Ento oua-me agora seriamente, e esta
Maria, que est chorando e rindo ao mesmo tempo, escute tambem. O sr.
Alvaro vem viver comnosco, no  bem comnosco, porque entre a nossa casa
e a sua ha uma parede. Ento j sabe para onde vae?

--No, minha senhora; espero as ordens de v. ex.^a.

--Vae para casa do nosso capello, que  um egresso chamado Antonio dos
Anjos, um santo, que foi algum tempo mestre de uma creana traquinas,
que andou por esse mundo de Christo a fazer travessuras, e me dizem que
ainda aqui ha-de vir para ser muito meu amigo, e talvez para me pedir
contas de um corao que eu, sem sua ordem, recolhi ao meu, para ambos
pedirem juntos ao Senhor das misericordias a redempo de um escravo do
mal, to digno de ser o que eu sei; e Deus quer que elle seja.

Maria rompeu em soluos e lagrimas. A prelada tomou-lhe para o seio a
face, como se afagasse uma creana. Alvaro estava immovel, com os olhos
rasos de lagrimas postos no sympathico grupo da encanecida prioreza e da
ainda formosa Maria.



XI

--Assim a chorar (continuou a freira mudando para o tom jovial) no
podemos combinar as nossas escripturas de casamento, nem as precedencias
que ho de dar-se antes de se unirem os meus filhos. O sr. Alvaro ha de
estar dois mezes na companhia do nosso capello: ha de vir todos os dias
a esta grade almoar com a sua velha sogra e com a sua futura esposa; ha
de vir todas as tardes saber como est o rheumatismo da decrepita
prelada, e traduzir-me do francez um sermo do padre Massillon, porque
eu j no posso ler. Quando no estiver para ler  velha, ha de me
contar o que viu nas suas viagens. Para tornarmos bem amena esta santa
vida que projectamos, ha de vir para esta grade o dote que eu dou 
minha menina:  um piano, e ella ha de perder o seu natural acanhamento
e tocar umas musicas tristes que levam a consolao ao espirito, e
trazem de dentro um tributo de lagrimas aos olhos. Ora, pois, meu genro,
responda se est pelas condies que eu acabo de propor-lhe.

--Minha senhora...--balbuciou Alvaro.

--No est?!--interrompeu a prelada.

--Se estivesse ao p de v. ex.^a... beijar-lhe-ia essa mo, que sinto no
corao arrancando-me os espinhos que m'o rasgavam. Deixe-me verter este
pranto que  uma respirao de homem que se salva da morte de asfixia.
Respondam as minhas lagrimas, senhora, eu no posso dizer mais nada.

--Eu vos agradeo, meu Deus!--exclamou a freira erguendo as mos, e
ajoelhando, com a face pendida para o seio. Fra como um toque celeste o
d'aquella transio do sorriso para a humildade magestosa d'aquella
postura, em que Alvaro e Maria pareciam absorvidos, contemplando-se, e
contemplando-a, mudamente.


XII

Fr. Antonio dos Anjos, sabendo que a prelada o mandra entrar na grade
passados alguns minutos, chegou no ensejo em que a veneranda senhora
limpava as lagrimas.

--So lagrimas de felicidade...--exclamou ella--Venha compartir do nosso
jubilo, Fr. Antonio. Ahi tem o seu discipulo, que vem do mundo mais
instruido do que foi das suas lies. Traz a sciencia da desgraa, e
entende que para ser um sabio completo s lhe falta a sciencia da
resignao. Essa  que o padre capello lhe ha de ensinar. J sabe que o
seu quarto ha de ser mobilado por mim, e conforme fr do meu agrado?
Pois ha de ver como uma freira caduca tem ainda o gosto apurado. Hoje ha
de remediar-se com a cama que o padre lhe der; amanh ha de ter um
quarto que nem um palmito. Os quadros ho de ser os que a minha filha me
deu; so flres que significam o aroma que vae da orao at Deus; so
um cosinho que  o symbolo da amizade;  uma cruz que significa o
throno onde todas as angustias so coroadas soberanas da gloria
eterna... em fim, so obras de muito lavor e de muita paciencia,
desbotadas quasi todas pelas lagrimas. Ora pois, est tocando ao cro;
eu vou l pedir a Deus que abenoe a escolha que fiz de um genro, e a
minha filha, que est mais para chorar, qual quer, vir enxugar essas
lagrimas aos ps da cruz, ou ficar aqui?

Maria no respondeu. Frei Antonio interrogou com os olhos a vontade de
Alvaro, e conheceu-o opprimido.

--Vo, vo--disse o padre--Ns voltaremos.

--Maria!--disse Alvaro--eu ainda te no ouvi uma palavra. Seja s uma...
diz-me: perdo-te.

Maria exclamou entre soluos:

--Deus sabe que nunca te accusei; se me tivesse queixado com ira,
pedia-te perdo agora.

--, pois certo, meu Deus?--disse Alvaro.

--O que?--perguntou a prioreza.

-- certo que  possivel a felicidade para mim?


XIII

Alvaro da Silveira hospedou-se em casa do capello. As suas horas eram
repartidas conforme o programma da prioreza. Frei Antonio j no ousava
confiar em si, e suffocava sempre a alegria do corao que exultava com
a rehabilitao de Alvaro.

Maria, porm, acreditava-o, e a prelada tambem. Alvaro parecia feliz com
ellas, feliz com o padre, feliz com a leitura em que empregava o tempo
livre.

Ninguem lhe falava no seu passado, nem elle proferia palavra que
despertasse recordaes. Tambem no falava no futuro, e, se Maria
vaticinava delicias na pobreza, o melancolico moo revelava um
soffrimento doloroso como a vergonha ou como o remorso.

O passadio de Alvaro era superior s posses do egresso. Um dia perguntou
elle se a capellania consentia tanto. Frei Antonio respondeu que podia
muito o trabalho de Maria. Alvaro chorou, ergueu-se da mesa, e exclamou:

--Estou punido, meu Deus!


XIV

Alvaro, procurando Maria, disse-lhe:

--No abusarei das tuas bondades, anjo. Vivo do teu trabalho,
agradeo-te de joelhos a esmola, e no posso continua'-la a receber.

Maria soltou um grito do corao e disse a Alvaro que a no matasse.

--De joelhos sou eu que te peo, meu amigo--exclamou ella--que me no
abandones. Recompensa-me do muito que soffri, permittindo que eu sinta a
santa felicidade de trabalhar para ns ambos. Oh! tu no sabes avaliar
que ventura  esta! Se tivesses nascido pobre como eu, se tivesses
ajudado com o teu talento a comprar o po de teus paes e teus irmos,
no tinhas a crueldade de me roubar este prazer.  Alvaro, diz-me que 
certo viveres para mim e para a esperana de melhores dias. Diz-me que
entre a minha alma e a tua no ha uma linha de distancia que separe as
nossas ultimas migalhas de po.


XV

Passados dois mezes encontraram-se frei Antonio e o mercieiro que tinha
emprestado dinheiro sobre os rendimentos da casa de Alvaro.

--J sabe tudo?--perguntou o padre.

--Sei tudo--disse o lojista--O rapaz est outro. Vae ver sua mulher
todos os dias, e ouvi dizer que chorava os seus peccados. Que faz elle
agora se est arrependido? Porque no tira a pobre senhora do convento?
Que se arremedeiem com pouco, e vivam juntos.

-- pouco de mais o que elles tem para viverem.

--Eu darei o que lhes faltar; mas requeiro debaixo de juramento que
nunca a minha proteco seja sabida por algum d'elles.

Oito dias depois, Maria dos Prazeres, ou dos Anjos como a chrismaram no
convento, para que o sobrenome no fosse uma falsidade, saiu do convento
para uma pequena casa, onde seu marido a esperava com a face inundada de
lagrimas felizes.

Aquelle viver dos tres era um santo frenesi de amor; Vinham compartir
d'aquella alegria o coronel, a me de Maria, seus irmos, e at a
prioreza quiz acompanhar sua filha para lhe conter (dizia ella) os
impetos amorosos da lua de mel. O padre estava sempre em continua aco
de graas. Ria e chorava ao mesmo tempo o bom do velho. No arrebatamento
da alegria abraava a prelada que tinha sempre um equivoco mui engraado
que dizer-lhe n'esses expansivos abraos: riam-se todos e o coronel
rejuvenescia da intempestiva velhice.

--Quem d os meios para esta casa?--perguntava elle.

--A providencia de Deus--respondia o irmo.

--D'onde vem este dinheiro no principio de cada mez?--perguntava Maria.

--Da Providencia de Deus--replicava o tio s repetidas instancias.


XVI

Alvaro da Silveira inspirava receios de reincidencia ao padre. A sua
primeira converso parecia sincera e firme, e o anjo do bem abandonra-o
s presas do vicio resurgente. A segunda, semelhante  primeira, com
quanto abonada pela experiencia de duras penas, poderia, chegando ao
extremo, no vingar. Fr. Antonio temia o tempo, tremia em segredo; e no
ousava dizer os seus temores  sobrinha ou  irm.

O marido de Maria, penetrando o corao do padre, dissera-lhe:

--Conhea o corao humano, meu caro bemfeitor. A minha converso
religiosa foi um abalo que devia parar. Eu era um homem que achava
pequeno o mundo. Scismra muitas vezes na eternidade, quando voltava com
enojo as costas aos vicios satisfeitos. O meu espirito, immergido no
lodo, no podia voejar acima do que os olhos abrangiam, e os sentidos
confirmavam. Refazia-me novamente de foras para a libertinagem,
procurava-lhe com cynica avidez as faces novas e, desesperado de
encontra'-las, invocava outra vez a ida confusa do meu destino.

Quando frei Antonio me appareceu, a minha alma era um vacuo horrivel.
Ouvi-o, era a primeira vez que a voz de um homem respondia s minhas
perguntas a Deus. Affiz-me a considera'-lo um justo, alteei-me onde os
seus vos me chamavam, e sentia rejuvenescer a minha alma de vio e
alentos nunca experimentados. Maria, este anjo de Deus, fez que o meu
corao se purificasse ao mesmo tempo que o espirito se regenerava. O
amor que lhe dei, immenso e fervoroso, no era mentira; nem podia
s'-lo, por que a mentira no se sustenta  custa do sacrificio da
liberdade.

O amor d'ella era para mim uma emanao do amor divino. No dia em que
aquella ardente f nos divinos preceitos se entibiasse, arrefeceria
tambem o amor a sua sobrinha. Estavam vinculados ambos os affectos:
dependiam um do outro. A religio era como a lampada suspensa no meio do
templo que reflecte o seu claro em todos os altares. Logo que se
apagou, fizeram-se trevas em todas as minhas affeies nobres, em todas,
at vergonha senti de haver tido remorso dos meus vicios. Foi por isso
que a sua presena, padre Antonio, me aborrecia, que os conselhos de meu
pobre pae me enfastiavam, e que as lagrimas de minha mulher me levavam
desde o desagrado at ao odio. Isto foi horrivel, mas verdadeiro.

Como a luz da religio se extinguiu em minha alma, no sei. Lembra-me
que me assaltaram saudades de uma sociedade que me ridicularisava a
converso e o casamento. Saudades de uma vida mesclada de tedios e de
alegrias. Necessidade de alargar o circulo de ferro que me apertava a
respirao. Era o crime que me visitava com todas as suas galas
perfidas. Era o anjo mau da tentao que triumphava, pintando-me
insignificante de espirito, de fortuna, e de belleza uma mulher que
parecia violentar-me a adquirir os seus habitos mesquinhamente caseiros
e de baixa condio.

Ultrajei a minha pobre victima com o desprezo, e depois pensei que a
mataria com o abandono. Fui um infame dos infames que se no definem.

Nenhum homem experimentou affrontas semelhantes s que eu devorei.
Todos os meus haveres hypothequei-os ao vicio, e ao crime. Nunca tive
uma alegria de alma por um punhado de ouro. Arrojava-o com desesperao
aos abysmos onde me diziam que era possivel arrancar-se das mos do
diabo uma sentena de prazer novo. Nunca, nunca! Tocaria a ultima balisa
da indigencia, se o meu fausto no apparentasse uma riqueza. Pedi
quantias, algumas das quaes no pagarei jmais, porque estou pobre, e
outras paguei-as com o vilipendio merecido de um carcere.

Algumas vezes vi uma sombra veneranda, padre Antonio, e pavorosos
sonhos eram aquelles em que eu via minha mulher a expirar-lhe nos
braos.

Revivia-me ento a necessidade de gritar pela misericordia divina; mas
o grito de contrico era suffocado por um riso blasphemo. Quando o
infortunio  superior s foras humanas apaga-se a luz da razo, fica o
espirito na escuridade da demencia, e j no ha alma que se refugie na
esperana de uma vida melhor.

Hoje, sim, frei Antonio. J no  uma organisao susceptivel de
impresses que obedece  eloquencia da sua palavra religiosa. Hoje  o
desgraado, que sente no corao fendido de golpes o poder do balsamo
divino, ministrado pela mo d'aquella que victimei. O perdo da martyr 
o que me est testemunhando a misericordia do co. Vejo n'ella a
omnipotencia de Deus: no a procuro nos livros, no a preciso da
argumentao; no quero que me combatam com o raciocinio a impiedade que
o meu corao rejeita. Creio em Deus, meu caro mestre, creio no co,
creio no inferno, creio em tudo que preciso crer para car de joelhos
aos seus ps, e supplicar-lhe que no duvide um momento da minha
rehabilitao.

Padre Antonio recebera-o nos braos, soluando palavras de beno, e de
felicidade inexprimivel.


XVII

N'um dia de 1839[NT], frei Antonio  chamado a casa de Joaquim Nunes; o
lojista, antigo creado de Gonalo da Silveira. Vae, e acha-o enfermo.

--Sr. frei Antonio--disse o merceeiro--chamei-o para me ajudar a saldar
as minhas contas com o mundo, para levar diante de Deus os meus livros
de raso sem nodoa. Estou muito doente, e no espero nada da medicina. O
que eu tenho a dizer-lhe, no  o receio da morte que m'o faz dizer. Ha
dias que eu preparava esta occasio, e oxal que sendo a vontade de
Deus, eu sobrevivesse  resoluo que tomei. Ora diga-me; como se porta
o sr. Alvaro?

--Melhor do que as minhas ambies.

--J no teme que elle torne ao caminho da perdio?

--Confio em Deus, no  n'elle, nem em mim, confio em Deus que no.

--Elle sabe que sou eu o que lhe dou as mezadas?

--No sabe: cumpri religiosamente a sua vontade.

--Deve ter dito muito mal do avarento creado de seu pae...

--Nem uma palavra, desde que est em minha companhia. Parece que
confessa com o seu silencio gratido  mo generosa que o soccorre.

--Ora diga-me, sr. fr. Antonio, envergonhar-se-ha elle de vir visitar um
creado antigo da sua casa, doente?

-- senhor, isso  duvidar do corao de meu sobrinho; essa licena
estava eu para pedir-lh'a...

--Pois que venha, e venha tambem sua mulher, desejo ve'-los, e o mais
breve que possa ser.


XVIII

No mesmo dia, Alvaro, Maria, e frei Antonio dos Anjos visitaram o
merceeiro Joaquim Nunes.

As lagrimas inexplicaveis deslisavam copiosas pelas faces do enfermo.
Maria, cuja sensibilidade respondia logo  dr extranha, acariciou o
velho, e fez que Alvaro esquecesse a diminuta repugnancia que sentia em
afagar um homem que possuia os seus bens, e o imaginaria capaz de
humilhar-se para rehav'-los.

--Estou quasi s--disse o lojista---Tenho sido s toda a minha vida, e
agora sinto necessidade d'uma familia. Queria eu pedir  sr.^a D. Maria
e ao sr. Alvaro, e ao sr. fr. Antonio que me deixassem ir morrer a casa
do filho de meu amo. Fazem-me a caridade de me acceitar em sua casa?

--Deus permitta que as suas foras o deixem ir para a nossa
companhia!--exclamou a sobrinha do padre.

--Poucas foras tenho; mas transportar-me-hei n'uma cadeira, e o sr.
padre Antonio tomar conta das chaves d'esta casa. O meu commercio
acabou; no devo, e os que me devem fram riscados dos meus livros. Os
meus negocios da vida esto fechados. Agora queria morrer vendo duas
pessoas felizes ao p de mim, e tendo  minha cabeceira um santo homem
que me ajude a pedir a Deus o perdo das minhas culpas. Se eu vencer a
doena, viveremos todos, ponto  que o sr. Alvaro tenha a bondade de
sentar  sua mesa um homem do povo que foi escudeiro de seu pae.

Alvaro apertou-lhe, commovido, a mo. Maria, do outro lado do leito,
limpava-lhe com o seu leno o suor que lhe inundava a fronte e fr.
Antonio, com palavras de jubilo, annunciava ao enfermo que no morreria
ainda para testemunhar e ter quinho na felicidade de seus sobrinhos.


XIX

Joaquim Nunes passou para a residencia de frei Antonio.

Nos primeiros dias a sua doena recrudesceu, consequencia do abalo
physico e moral da mudana.

Depois, um ar de melhora fez crear esperanas aos facultativos.
Esperanas no mentidas fram essas, porque ao cabo de um mez de
alternativas, o enfermo entrou em convalescena, e veiu a
restabelecer-se.

No primeiro dia que sau a passeio, de sege, trouxe comsigo um
tabellio.

Chamou  sua presena os consortes, e fez ler um testamento, em que
instituia Alvaro da Silveira e sua mulher seus universaes herdeiros. O
testamento foi alli rasgado e o tabellio lavrou uma escriptura de
doao de todos os seus bens a Alvaro e sua mulher, com a condio de o
alimentarem na sua companhia. As especies sommadas dos bens doados
excediam a meio milho.


XX

Esta dotao no alterou a felicidade d'aquella familia. Correram muitas
lagrimas de alegria, mas essa alegria era a da gratido, era o expansivo
respirar das quatro nobres almas que alli se vincularam n'uma s
vontade.

E a vontade de Joaquim Nunes respeitavam-n'a todos. Quiz elle que Alvaro
fosse viver no palacete de seu pae, quiz que revivesse o antigo fausto
d'aquella casa, quiz que a familia de Maria fosse a de todos.
Cumpriram-se os seus bons desejos.

A felicidade d'esta numerosa familia  indescriptivel. At 1849, em que
todos viviam, nenhum d'aquelles semblantes fra annuveado pela tristeza.

Alvaro  um modelo de honra. Frei Antonio um santo, que est
constantemente agradecendo ao Senhor o galardo de tamanhas angustias.
Maria, a amiga intima da baroneza de Amares, como o leitor a veria no
HOMEM DE BRIOS,  um anjo que anda em cata de soffrimentos para
consola'-los. Joaquim Nunes no centro d'aquella familia,  um homem
adorado, que, em 1849, jogava a bisca de nove com o coronel.

Bemdito seja Deus que tem estes apostolos a glorifica'-lo na terra!


FIM


     [NT] Nota de Transcrio: No original aparece 1839, apesar de no
     estar coerente com a linha temporal do romance. O ano de 1849 
     referido mais adiante na obra pelo que deve ser esta a data
     correcta.






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