The Project Gutenberg EBook of Noes elementares de archeologia
by Joaquim Possidnio Narciso da Silva

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Title: Noes elementares de archeologia

Author: Joaquim Possidnio Narciso da Silva

Commentator: I. de Vilhena Barbosa

Release Date: November 29, 2005 [EBook #17186]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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NOES ELEMENTARES

DE

ARCHEOLOGIA

OBRA ILLUSTRADA COM 324 GRAVURAS

E

UMA INTRODUCO

Do Sr.

I. DE VILHENA BARBOSA

Socio Effectivo da Academia Real das Sciencias

DEDICADA  MEMORIA DO ILLUSTRE ARCHEOLOGO

MR. A. DE CAUMONT

por

JOAQUIM POSSIDONIO NARCISO DA SILVA

Architecto da Casa Real, Socio correspondente do Instituto de Frana,
Honorario do Instituto Real dos Architectos Britannicos, da Sociedade
Franceza de Archeologia, da Sociedade Central dos Architectos de Paris,
correspondente da Academia Real de S. Fernando, fundador do Museu de
Archeologia em Lisboa, etc. etc. etc.

MEDALHA DO CONGRESSO ARCHEOLOGICO DE LOCHES
CONFERIDA NA SUA SESSO DE JUNHO DE 1869


LISBOA

LALLEMANT FRRES

6, Rua do Thesouro Velho, 6

1878




A SUA ALTEZA REAL

O SERENISSIMO PRINCIPE

*D. Carlos Fernando Pedro d'Alcantara*

DUQUE DE BRAGANA

*Com a mais respeitosa homenagem*

O. D. C.

*O humilde auctor d'este compendio*

JOAQUIM POSSIDONIO NARCISO DA SILVA.




INTRODUCO


I


No conheceram os povos da antiguidade a archeologia, pelo menos como
uma sciencia. Foi ignorada dos proprios gregos e romanos, no obstante a
sua brilhante civilisaco, e apezar dos primeiros lhe terem creado o
nome, composto de dois vocabulos seus: _archaios_, que quer dizer
antigo, e _logos_ discurso. E tanto a desconheciam, confundindo-a com a
historia, que alguns escriptores gregos e israelitas do principio da era
christ, deram o nome de archeologia a obras que tratavam simplesmente
da historia de povos, embora desde tempos remotos, ou que se occupavam
de antiguidades, mas limitando-se a descreverem os monumentos, sem
entrarem nas apreciaes e conjecturas, que levam o archeologo ao
conhecimento do viver dos povos da antiguidade.

Os generaes romanos, quando voltavam d'essas emprezas guerreiras que
accrescentavam ao imperio novas provincias, traziam mil objectos
preciosos, variadissimas manifestaes da arte e da industria dos
vencidos, curiosos utensilios e ricos ornamentos em marmore, bronze,
prata e oiro, obra de diversos povos, e differentes seculos. Pois os
romanos applaudiam e apreciavam essas preciosidades, que vinham
enriquecer a sua capital, constituindo-a um verdadeiro museu
archeologico, apreciavam-n'as, repito, smente como despojos arrebatados
aos vencidos pelas suas aguias triumphantes, como tropheus de victorias,
que glorificavam o seu nome, e estendiam o seu poderio.

Nem os vasos sagrados do templo de Jerusalem, preciosos pela materia e
ricos de tradies antiquissimas; nem os obeliscos do Egypto, padres de
to remotas eras; nem as famosas estatuas da Grecia, sublimes creaces
do genio humano em uma das quadras mais notaveis da historia geral da
civilisaco; nem estes, nem outros objectos archeologicos e primores
d'arte, que eram transportados a Roma a todo o momento, nos tempos da
sua grandeza, faziam meditar os romanos sobre as extinctas civilisaes,
que muitos d'esses objectos recordavam, com o intuito de devassarem os
mysterios da vida d'essas naes, sumidas nos abysmos do passado.

Pausanias, geographo e historiador grego que, nas suas longas viagens,
visitou a maior parte do mundo ento conhecido, vindo depois estabelecer
a sua residencia em Roma, no anno 170 do nascimento de Christo, escreveu
a _Descripo da Grecia_, na qual trata com minuciosidade de todos os
seus monumentos. Porm limita-se a descrevel-os como historiographo, sem
os estudar e apreciar como archeologo.

Baqueou o imperio romano ao duro embate dos barbaros do norte; e o mesmo
tufo, que o varreu da face da terra, apagou aquelle facho
resplandecente, que irradiava a luz da civilisaco para todas as regies
do orbe antigo, onde chegavam as armas da soberba Roma.

Succederam-se, portanto, a tamanho explendor as mais crassas trevas da
ignorancia e da barbaridade, em que a Europa esteve mergulhada durante
seculos, at que emfim raiou a aurora da regenerao social, renascendo
as letras e as artes. Foi ento que surgiram os primeiros ensaios da
archeologia. Dante e Petrarca, os illustres iniciadores da litteratura
moderna, foram tambem os creadores da sciencia archeologica, precedendo
a todos os sabios na investigao dos manuscriptos antigos, no
descobrimento e decifrao de velhas inscripes, e no estudo das
moedas, em que o segundo se occupou.

No tardaram a ter imitadores que procurassem desvendar, sob o p dos
seculos, os mysterios da historia. A descoberta de algumas pinturas
antigas, em excavaes casuaes, quando os espiritos j comeavam a
raciocinar sobre a theoria da arte, e quando j se principiava a
apreciar os monumentos da antiguidade como annaes do viver das geraes
passadas, foi um novo incentivo para os estudiosos, e um raio de luz nos
escurissimos caminhos da nova sciencia.

Uma coincidencia feliz veio dar maior impulso e mais auctoridade aos
estudos archeologicos.

Miguel Angelo Buounarotti e Raphael Sanzio d'Urbino assombravam Roma e a
Europa culta com os explendores do seu talento na pintura, na esculptura
e na architectura, quando Felix de Fredi descobriu n'aquella cidade, em
1506, entre as ruinas das Thermas de Tito, o famoso grupo de Laocoonte e
seus dois filhos envolvidos pelas serpentes. Enlevados n'este grande
primor da esculptura antiga, aquelles dois eximios artistas procuraram
com desvelada applicaco descobrir o nome do auctor d'esta maravilha da
arte, e a era em que foi executada. Caminhando de investigao em
investigao visitaram e estudaram attentamente as grandes ruinas da
architectura grega e romana, os restos preciosos da sua admiravel
esculptura e as inscripes lapidares.

Estes estudos foram to applaudidos, e to reconhecidas as suas
vantagens, que no tardou a fundar-se em Florena, sob o governo dos
Mdicis, a primeira escola publica d'antiguidades.

Tal foi o comeo da archeologia.


II


O exemplo de Miguel Angelo e de Raphael, teve imitadores pouco depois em
Frana, Allemanha, e outras naes, onde alguns homens estudiosos, no
cultores das artes, mas apreciadores das suas obras, se occuparam de
investigaes archeologicas, posto que em geral restrictas  numismatica
e  epigraphia.

Este segundo periodo da nova sciencia, que  denominado dos
_antiquarios_, abrange os fins do seculo XVI, todo o XVII e a primeira
metade do XVIII.

Portugal no foi indifferente a este progresso. Poderia dizer que n'este
passo, como em muitos outros, se antecipou s mais naes, pois que no
principio da segunda metade do sculo XV, D. Affonso, marquez de
Valena, filho primogenito de D. Affonso I, duque de Bragana, indo
acompanhar a Italia e Allemanha a imperatriz D. Leonor, filha d'el-rei
D. Duarte, e esposa do imperador d'Allemanha Frederico III, comprou e
reuniu durante a sua longa viagem muitos objectos d'antiguidade e de
historia natural, com os quaes, na sua volta  patria, organisou um
museu, que seu pae augmentou com varios cippos, lapidas e fragmentos
d'archeologia romana, descobertos no Alemtejo. Foi este o primeiro
museu, que se creou n'este reino, e creio que precedeu a todos os que se
crearam na Europa.

Todavia, apezar d'este estimulo, o estudo d'antiguidades s teve
principio entre ns passado um seculo; e foi de fra que ento nos veio
o incentivo.

Graas s intimas relaes do nosso paiz com as principaes potencias
maritimas da Europa, desde a entrada do seculo XVI, estabelecidas pelos
descobrimentos e conquistas dos portuguezes, que fizeram de Lisboa o
emporio das mercadorias do Oriente, o movimento scientifico, que lavrava
n'aquellas naes, no se demorava muito em se fazer sentir entre ns.
Porm no caso de que trato abreviou esse periodo, sem duvida, a viagem
de um nosso compatriota, que alcanou nas letras nome illustre. Andr de
Rezende, depois de ter cursado a universidade de Salamanca, e de ter
tomado capello em theologia, levado do desejo de se instruir, percorreu
a Frana e os Paizes Baixos, demorando-se em Paris e em Bruxellas. O
trato que teve n'estas cidades com alguns sabios, suscitou-lhe o amor
dos estudos archeologicos. Regressando  patria entregou-se com ardor e
perseverana a esses estudos, colligindo alguns cippos e outras lapidas
com inscripes romanas, que collocou no jardim da casa em que habitava
na cidade d'Evora, investigando e decifrando um grande numero de
monumentos epigraphicos do nosso paiz, e compondo por fim varias obras,
em que dava conta d'essas locubraes predilectas. Duas viram a luz da
imprensa, com o titulo de: _Historia das antiguidades d'Evora_,
publicada em 1553; e _Libri quatuor de antiquitatibus Lusitni_,
impressa em 1593, vinte annos depois da sua morte. D'entre as que deixou
manuscriptas sobre o mesmo genero d'assumptos, citarei: _Monumenta,
romanorum in Lusitanis urbibus_.

Assim comearam estes estudos em Portugal; e do mesmo modo continuaram
n'esse seculo e no seguinte, restrictos todavia  poca do dominio
romano.

As naes que percorriam as vias do progresso com passo firme e resoluto
mostraram-se empenhadas no desenvolvimento dos estudos archeologicos,
desde o meiado do seculo XVII, fundando academias ou escolas, onde se
ensinava ou discursava sobre antiguidades.

Ento os adeptos da nova sciencia, sequiosos de emoes e buscando
alargar a rea dos seus estudos, visitam a Grecia, exploram o solo,
desenterram soberbos monumentos, escrevem e publicam em muitos livros os
resultados das suas investigaes.

Illustraram-se n'esta cruzada scientifica, principalmente, Jacob Span, e
Bernardo de Montfaucon, francezes, e Wheler, Joo Augusto Ernesti, Joo
Jorge Groevinus, Gronovius, allemes. Todavia nos seus vastos
repositorios de memorias e dissertaes, posto que tratem mais
particularmente das antiguidades gregas e romanas, j se occupam de
todas as partes da archeologia.


III


Este impulso fez-se sentir em o nosso paiz nos fins do primeiro quartel
do seculo XVIII. Fundando-se em Lisboa no anno de 1720, a academia real
de Historia Portugueza, foi-lhe commettido, juntamente com a tarefa de
escrever a historia de Portugal, o encargo de velar pela conservao dos
monumentos nacionaes, obstando a que se destruissem, ou fossem levados
para fra do reino, os objectos d'antiguidade, j descobertos, ou que
viessem a descobrir-se. Fundaram-se em Lisboa alguns museus de
antiguidades, sendo um no proprio edificio da academia (o palacio dos
duques de Bragana, na rua do Thesouro Velho), e os outros particulares.
Entre as muitas obras volumosas, escriptas pelos academicos, e impressas
por ordem da academia, contam-se algumas consagradas exclusivamente a
antiguidades nacionaes.

Em geral os espiritos, que se dedicavam a este genero de litteratura,
continuavam a concentrar todas as suas attenes nos monumentos romanos,
de que havia ento bastante copia no reino, e que estavam por
conseguinte muito ligados com a nossa historia. Entretanto houve
academicos que, saindo fra d'esse apertado circulo, encetaram estudos
inteiramente novos no paiz. Martinho de Mendona e Pina, em 1733, leu em
uma sesso d'aquella academia uma memoria sobre os _rudes altares_ a que
chamam _antas_ em Portugal. Este estudo publicado nas _Memorias da
Academia_, foi o primeiro trabalho litterario, que se fez entre ns
relativamente a monumentos prehistoricos.


IV


Na segunda metade d'esse mesmo seculo teve comeo o terceiro periodo da
archeologia, no qual obteve os fros de verdadeira sciencia. Abriu esse
periodo um dos mais talentosos e perseverantes filhos da Allemanha. Joo
Joaquim Winckelmann, nascido em 1717, e fallecido em 1768, que se elevou
pelo seu saber, de uma posio social muito humilde, a vice-reitor da
universidade de Halle, e a bibliothecario do Vaticano, foi o fundador da
esthetica moderna, e o creador do estudo philosophico e consciencioso da
arte antiga. Entre muitas obras, que lhe grangearam subida honra,
sobresae a _Historia da Arte_, que immortalisou o seu nome. N'esta obra
magistral, que dividiu em 6 livros, estabeleceu e sellou de um modo
incontroverso a alliana das artes com a archeologia, marcando a esta,
como norma e alvo a que deve mirar, seguir escrupulomente sob todos os
aspectos, pela apreciao do trabalho humano nas artes e na industria, o
desenvolvimento da civilisao nos seculos passados; e estabelecendo ao
mesmo tempo o methodo racional e claro para alcanar esse fim.

Teve grande importancia esta obra, no s por dilatar os horisontes da
nova sciencia, e abrir amplas vias aos seus cultores; mas tambem por
diffundir o gosto dos estudos archeologicos, graas  elegancia do seu
estylo,  lucidez dos seus argumentos, e sobretudo ao enthusiasmo com
que falla dos grandes primores da arte antiga, e dos evplendores da
civilisao grega e romana. D'essa benefica influencia originaram-se
alguns dos mais ricos museus de antiguidades, que hoje existem, e muitas
colleces partiticulares valiosas, que promoveram e facilitaram o
estudo.

Seguindo ousadamente os passos do erudito auctor da _Historia da Arte_,
assignalaram-se aps elle outros archeologos por distinctos servios
prestados  sciencia. O conde de Caylus classifica por ordem
chronologica os monumentos das differentes edades, e penetra o segredo
que produziu a maior parte das artes. O archeologo italiano Morcelli
cria um systema regular para a classificao das inscripes, conforme o
assumpto de que tratam, e para o estudo d'ellas, segundo o seu estylo. O
celebre numismata padre Eckhel, jesuita allemo, coordena methodicamente
a sciencia das medalhas;  qual o douto dinamarquez Rask accrescentou a
ordem alphabetica. O sabio philologo e antiquario padre Passeri,
italiano, que organisou o rico museu do gr-duque de Toscana, explica a
um numeroso auditorio sob o portico de Lanzi, em Florena, com mais
proficiencia do que o fizera Demspter, no seculo antecedente, os idiomas
e os monumentos da Italia, anteriores  fundao de Roma.

O descobrimento das ruinas de Herculanum deixra ajuizar de alguns usos
e costumes dos romanos ainda mal conhecidos. Porm quando em 1755 se
comeou a levantar a espessa mortalha, que envolveu Pompeia em seu leito
de morte durante 17 seculos, fazendo surgir do sepulchro uma cidade
romana com as suas praas, ruas e casas guarnecidas e adereadas
interiormente, como na hora fatal em que as cinzas do Vesuvio a
sepultaram no anno 79 da era christ, revelou-se aos olhos absortos dos
antiquarios a vida publica e privada do povo romano com todos os seus
usos e costumes, pois que s ento foi bem conhecida uma infinidade de
coisas e circumstancias, que eram inteiramente ignoradas.

Accentuando-se cada vez mais os progressos da archeologia, o abbade
Barthelemy, francez, reedifica a Grecia de Pericles, e Jorge Zoega,
antiquario dinamarquez, comea a erguer o veu que occultava  sciencia o
antigo Egypto. Napoleo Bonaparte emprehende a conquista d'este paiz, e
as aguias francezas triumphantes abrem ignotos caminhos  archeologia, e
patenteiam-lhe um immenso thesouro de preciosas reliquias da mais remota
antiguidade. Vivant-Denon reproduz com o seu lapis habil e delicado, os
soberbos monumentos do imperio dos Pharas, e copa com escrupulosa
exactido, dos muros ennegrecidos pelo embate de tantos seculos, esses
mysteriosos caracteres, que encerram, sob mil frmas emblematicas, seno
os annaes, a vida intellectual do antigo povo egypcio.

D'entre um grande numero de sabios, que illustram a archeologia com os
seus escriptos, Champolion descobre o alphabeto dos hieroglyphicos, e
assim preenche uma lacuna de seculos, que a historia tinha deixado no
esquecimento. Millin funda em 1792 o jornal _Magasin Encyclopedique_,
por meio do qual derrama e popularisa os estudos archeologicos; publca
varias obras importantes sobre esta sciencia, e um _Diccionario de
Bellas Artes_. Raoul-Rochette enriquece a litteratura franceza com o seu
excellente _Curso d'Archeologia_, e entre outras publicaes no menos
interessantes, que fazem conhecidos e devidamente apreciados alguns
sabios inglezes, italianos e allemes, Mr. A. du Caumont facilita e
popularisa o estudo d'esta sciencia com seu precioso _Abecedario ou
rudimentos da archeologia_.

Os livros d'estes homens, de espirito elevado, do um grande incitamento
s investigaes archeologicas; e as descobertas dos testemunhos
authenticos da existencia do homem na remotissima poca quaternaria,
trouxeram ao campo das discusses scientificas a origem da especie
humana, e o seu viver nos tempos prehistoricos. Colleccionaram-se e
patentearam-se ao publico os utensilios e instrumentos de que usaram os
homens na sua idade primitiva, e que se iam descobrindo em excavaces
casuaes ou feitas expressamente com esse intuito. E no tardou a
reconhecer-se a conveniencia de se reunirem em congresso os homens que
nos differentes paizes se dedicavam a estes estudos, para que da
exposio das suas investigaes, e das discusses de uma assembla to
competente e auctorisada, se projectasse luz nas trevas d'esse remoto
passado.

Coube a mr. Desor, distincto naturalista, a honra de ser o primeiro a
apresentar a ida de um congresso internacional de archeologia
prehistorica. Este pensamento enunciado em Paris, foi abraado com
enthusiasmo; porm antes que podsse ser realisado na terra, onde tivera
origem, antecipou-se a Italia a encetar estas controversias.

No outono de 1865 a sociedade das sciencias naturaes, reunida em
Spezzia, occupou-se dos tempos prehistoricos. No anno seguinte reunem-se
os archeologos de differentes paizes em Neufchatel, na Suissa, celebram
o primeiro congresso internacional de archeologia prehistorica; tratam
largamente do assumpto; ajustam e lanam as bases para a convocao do
segundo congresso, que d principio s suas sesses em Paris, no anno de
1867, ao mesmo tempo que se abre n'essa cidade a grande exposio
universal, com uma seco intitulada _Historia do trabalho humano_, onde
figuram productos variadissimos da industria humana de todos os paizes
do globo, e de todas as pocas at s primitivas da humanidade.

Desde ento entrou a archeologia em um periodo de verdadeira actividade
scientifica, protegida pelos governos das naes mais cultas,
reconhecida a sua importancia e justamente apreciada por todas as
pessoas illustradas, qualquer que seja o rumo dos seus conhecimentos.


V


Portugal no tem tomado a parte activa, que lhe cumpria tomar, como paiz
civilisado, e a quem tanto deve a moderna civilisao, n'aquelle
movimento scientifico. Todavia, no se pde dizer que lhe tenha ficado
estranho.

Varias memorias, publicadas pela academia real das sciencias de Lisboa,
provam que esta corporao se occupou, desde a sua instituio, de
assumptos archeologicos, relativos  historia do paiz. Alm disso
n'estes ltimos annos tem havido entre ns no poucos escriptores que se
tem dedicado aos estudos archeologicos, e d'entre estes, alguns zelosos
investigadores do que diz respeito aos tempos prehistoricos.

Temos sido muito descuidados na formao de museus archeologicos, e 
uma vergonha que no tenhamos um unico estabelecimento d'este genero,
digno de ser exposto aos olhos dos estrangeiros illustrados que visitam
o nosso paiz. E maior vergonha  que no exista, podendo e devendo
existir, independentemente do recurso s excavaces muito dispendiosas.
Era bastante para constituir um museu de objectos archeologicos e
artisticos, muito rico e variado, os milhares de objectos, producto do
trabalho humano, em diffrentes edades, de remotas eras, em oiro, prata,
bronze, vidro, barro e pedra, descobertos nas provincias do reino,
sobretudo na Estremadura, Alemtejo e Algarve, desde o seculo XV, em
excavaces casuaes, e muitos objectos preciosos e alfaias dos extinctos
conventos.

Por iniciativa, e pde dizer-se por unico esforo do sr. J. Possidonio
Narciso da Silva, fundador e presidente da real associao dos
architectos e archeologos portuguezes, deu comeo esta associao no
edificio da egreja gothica e arruinada do extincto convento do Carmo,
onde se acha estabelecida, a um museu archeologico. Carece, porm, de
muitas condies para preencher os fins a que so destinadas similhantes
colleces, sendo uma das principaes, a organisao scientifica e
chronologica, e conveniente collocao dos objectos alli reunidos. Devo
accrescentar, porm, que achando-se alli todos os objectos accumulados e
apertados por falta absoluta d'espao; aquella organisao e conveniente
collocao esto dependentes de uma obra importante e despendiosa; a
cobertura das naves da egreja.

Guardam-se em differentes estabelecimentos publicos de Lisboa, Porto e
Evora, diversidade de objectos archeologicos e artisticos, que se
estivessem reunidos formariam uma colleco mui curiosa, e de certa
importancia. Tambem so dignas de meno as colleces de fosseis,
instrumentos e utensilios prehistoricos da seco geologica, no edificio
do extincto convento de Jesus.

       *       *       *       *       *

Pois que fui mais prolixo do que desejava no quadro historico, que fica
traado, procurarei ser conciso nas noes geraes da sciencia
archeologica, noes que mr. Du Caumont julgou desnecessario explicar
n'este livro.

A archeologia  a sciencia que tendo por fim, como o indica o seu nome,
o estudo da antiguidade, nos ensina a conhecer o viver dos povos antigos
por meio do exame e apreciao dos monumentos, que nos deixaram, e de
todos os objectos, que d'elles nos restam como manifestao do seu
engenho e do seu trabalho.

A historia narra os successos, indica-lhes as causas, e aponta-lhes as
consequencias. Julga do caracter e indole dos povos, e dos individuos
que mais se assignalaram; e trata dos monumentos, como provas que
mostram o seu desenvolvimento intellectual e industrial, e tambem como
testemunha d'aquelles successos.

A archeologia examina attentamente todos os productos materiaes, que os
antigos povos nos legaram, e d'esse estudo minucioso, comparativo e
philosophico, faz resaltar o conhecimento das idas, da religio, dos
usos e costumes, do desenvolvimento industrial e artistico, emfim do
viver dos povos, aos quaes esses productos pertenciam.

Portanto a archeologia faz importantes servios  historia, no s
esclarecendo-a, com a luz que derrama onde tudo  trevas, mas tambem
completando-a com uma infinidade de noes e de objectos reaes, que nos
apresentam um quadro verdadeiro da vida intima dos povos da antiguidade,
que sem os esforos dos archeologos seriam ignorados ou apenas
conhecidos superficialmente.

A archeologia divide-se em tres partes, que a seu turno se subdividem:
1.^a _litteraria_--2.^a _artistica_--3.^a _usual_. Comprehende a
primeira toda a sorte de monumentos em que ha inscripes, quaesquer que
sejam os seus caracteres e a materia que os contenha. Subdivide-se em
_paleographia_, _diplomatica_ e _epigraphia_. A _paleographia_ ensina a
decifrar as antigas escripturas em pergaminho ou em outra substancia com
caracteres alphabeticos, ou ediographicos, ou signaes emblematicos, como
os hyeroglyphicos dos egypcios, ou outros convencionaes. A _diplomatica_
indica o modo de conhecer, pelos caracteres internos e externos, a
authenticidade dos documentos. A _epigraphia_ trata da interpretao das
inscripes gravadas em pedra, em metal, ou em qualquer outra materia.

A _archeologia artistica_ trata de todos os monumentos da antiguidade,
taes como edificios religiosos, civis e militares, e todos os generos de
obras d'arte.

Subdivide-se em _archeologia monumental_, que diz respeito s obras
d'architectura, d'esculptura e de pintura; em _iconographia_, que  o
estudo dos bustos e dos retratos dos personagens historicos; em
_numismatica_, ramo consagrado ao exame das moedas e medalhas; em
_glyptographia_, que trata das pedras gravadas, representando quaesquer
figuras; e, finalmente, em _archeologia usual_, que abrange toda a
qualidade de alfaias, utensilios e instrumentos sagrados, domesticos,
militares, funerarios, etc.

So estas as divises scientificas da archeologia. Porm, considerada
relativamente s grandes pocas da vida da humanidade, pde dividir-se
em _archeologia prehistorica_, dedicada ao estudo das edades primitivas
do homem, das quaes no restam memorias escriptas, nem gravadas, nem
tradicionaes, existindo por unicos vestigios da sua passagem na terra
alguns rudes monumentos, e utensilios e instrumentos no menos toscos e
grosseiros, encontrados em escavaes: em _archeologia dos antigos
imperios orientaes_; em _archeologia classica_, ou _greco-romana_; e em
_archeologia christ_, que comprehende o periodo desde o nascimento de
Christo at  renascena das artes e letras.

Emfim a archeologia  uma sciencia to lata e complexa, que ainda
precisa, para satisfazer cabalmente a sua importante misso,
soccorrer-se a outras sciencias accessorias como so a _linguistica_, a
_paleontologia_, a _geologia_, a _anthropologia_, e a _ethnologia_.

J. DE VILHENA BARBOSA.





PROLOGO


N'este seculo, em que a civilisao tem caminhado progressivamente nas
principaes naes, no podia esquecer por mais tempo um estudo que
consiste em investigar o modo como comera a existencia da raa humana
desde o bero at o seu simultaneo desenvolvimento, no s dos objectos
necessarios para a defeza exterior, como em relao aos usos domesticos
e habitaes: conseguindo-se por este curioso estudo formar juizo seguro
cerca da existencia interior do viver e dos costumes dos primitivos
habitantes da terra.

Depois do cataclismo que passou o planeta em que existiram, e das lutas
encarniadas e continuas das differentes raas, as quaes se disputavam
tenazmente a posse do territorio mais fertil e mais ameno, tendo muitas
d'essas raas j desapparecido do mundo por inteiramente destruidas, e
em outros se tenham confundido os elementos das suas respectivas
nacionalidades, pois que nenhum d'elles nos deixou a historia escripta
d'esses tempos remotos; a sua existencia rude e aventurosa no lhes
proporcionavam o poderem cultivar a intelligencia, nem suavisar os
costumes, para se dedicarem ao aperfeioamento intellectual: portanto,
s pelos vestigios da sua imperfeita industria, os quaes se acham
encerrados entre as camadas successivas da terra, s por diversos
fragmentos, elles nos poderam revelar a sua vida social, e nos mostraram
o grau de sua nascente civilisao. Assim formulmos a historia, ainda
que incompleta nos primitivos tempos da terra habitada, e descobrindo os
segredos d'essa existencia, saberemos quaes foram os esforos da
intelligencia humana desde o seu alvorecer.

Quando os romanos se impozeram aos outros povos, e em repetidas
conquistas ampliaram o seu dominio no antigo mundo, invadiram o
territorio d'essas raas indigenas, e depois de renhidas batalhas o
povo-rei subjugou-as, hasteando entre ellas a aguia romana; porm
n'essas pocas j havia historiadores que nos deixaram as narraes de
taes feitos: assim o estudo d'esses acontecimentos, no  to difficil,
porque no precismos de ir inteiramente  crusta terraquea pedir-lhe os
seus segredos.

A invaso dos barbaros do Norte veiu depois desapossar os romanos de
suas conquistas, e a destruio que ella causou foi total, e de tal
modo, que aos actos do elemento da parte mais feroz d'essas hordas se
ficou chamando _vandalismo_. Se um cataclismo terrestre havia, pois,
feito desapparecer antes os vestigios dos povos mais antigos do mundo,
os barbaros do Norte no foram menos prejudiciaes por aniquilarem a
civilisaco que os romanos haviam plantado na Europa.

Todos conhecem a decadencia do Baixo-Imperio: as guerras continuas; o
desprezo e o esquecimento da instruco; at que appareceu um homem de
animo forte e de intelligencia superior, que, apoderando-se do poder,
formou um novo imperio, e pela sua sabedoria e por suas victorias
alcanou a gloria de haver feito reviver o explendor da civilisao na
Europa.

A idade media foi fecunda em acontecimentos, que prepararam os povos
para aguardarem uma era, em que os seus direitos e a sua civilisao
triumphassem das arbitrariedades e dos vexames que soffriam; depois
surgiu o renascimento das lettras e das artes, que foi o prenuncio da
nova civilisao.

Fica, portanto, reconhecida a necessidade de um estudo especial dos
fragmentos e das ruinas dos antigos para formarmos, como j dissemos,
justa ida dos usos, costumes e crenas dos primeiros habitantes do
mundo, e principalmente dos que existiram na Europa, muito mais
interessante para ns, por vivermos no territorio occupado por elles.
Poderemos d'este modo dirigir os nossos especiaes estudos para a
Lusitania, e entrar nas mais minuciosas investigaes com respeito aos
tumulos, s fortificaes, aos templos, aos ornatos, s habitaes, a
tudo emfim que determina e constitue a sciencia da archeologia, com a
qual supprimos a falta da historia escripta.

Foram os allemes, os inglezes e os francezes os primeiros que trataram
d'essas curiosas investigaes; e os sabios que se dedicaram a taes e
to uteis estudos, principalmente Mr. de Caumont, e outros, que
publicaram obras de grande merito, so dignos da nossa admirao e do
nosso reconhecimento, porque, procurando as origens da industria humana,
nos revelaram interessantes conhecimentos, que no s serviram para
coordenar a historia das pocas mais remotas, mas tambem para estimular
o desejo de conservar as antiguidades que estavam dispersas e
desprezadas, attestando ignorancia e incuria.

Em Portugal nunca se pensara n'este ramo de instruco, posto que em
alvar de 14 de agosto de 1721 se ordenasse que se fossem colligindo as
informaes indispensaveis e se adquirissem objectos antigos, que
facilitassem o estudo da archeologia, porm ficou em letra morta; e
tanto assim que s em 1864 se organisou o primeiro museu archeologico,
por iniciativa da pessoa que escreve estas linhas, fazendo o governo
para esse fim a concesso das ruinas da monumental egreja gothica do
Carmo, de Lisboa, onde tambem depois estabelecemos em annos successivos
um curso cerca da historia geral da architectura.

Como quer que seja, a sciencia da archeologia no fra cultivada entre
ns methodicamente, e por isso no deve estranhar-se que no apparecesse
at hoje, em Portugal, alguma obra elementar que auxiliasse o seu
estudo. Para supprir tal falta, ousamos ns mandar imprimir um resumido
trabalho, que comprehende a descripo dos objectos antigos, desde a
edade de pedra at ao seculo XVII, tomando para norma a notavel obra do
sr. de Caumont, o qual, alm de distinguir-nos com a sua apreciavel
amisade, nos auctorisou a servirmo-nos dos seus admiraveis trabalhos; e
j que nos  licito honrar-lhe aqui a memoria gloriosa, sejam estas
paginas consagradas ao illustre fundador da sciencia archeologica em
Frana, como levantado a um dos testemunhos da nossa venerao.

No volume, que vamos publicar, e cujos fundamentos lanmos haver sete
annos, esto illustrados corn gravuras numerosas, mais de 300 no texto,
as passagens em que se tornava indispensavel esse meio de observao;
seguindo, quanto possivel, a obra do sr. de Caumont, como j indicmos,
procuramos ao mesmo tempo amplial-a com as explicaes das antiguidades
encontradas em Portugal, interessando assim ainda mais os nossos
compatriotas.

Suppomos que este livro poder ser tambem de proveito nas nossas
escolas, onde  to geralmente reconhecida a necessidade de livros
especiaes, que fallem aos alumnos de assumptos que so hoje do dominio
de uma educao liberal; assim se tornaro adeptos do estudo e da
sciencia archeologica, que lhe fornece as primeiras bases, para que
sejam outros tantos propagandistas da conservao da nossa arte e das
nossas preciosidades archeologicas.

Apezar de ser trabalho complexo e difficil, no s para a nossa limitada
intelligencia, mas tambem pelos escassos recursos de que podemos dispor
para uma publicao d'esta ordem, o nosso vivo desejo de divulgar o
gosto pela archeologia, de satisfazer ao constante empenho em estimular
o estudo d'esta sciencia indispensavel para bem avaliar a historia da
arte em Portugal, sirva comtudo de attenuante s faltas que houvessemos
de commetter. E tambem, digamol-o, ficam aqui os cimentos de obra mais
perfeita e de maior tomo para os que possam lanar-lhe hombros mais
robustos e intelligencia mais apurada. Os que prezam o trabalho e amem o
estudo relevem a nossa ousadia, e deitem-a  conta da boa vontade e da
sinceridade com que sempre tentmos bem servir a patria.

17 de Maio de 1877.





NOES ELEMENTARES DE ARCHEOLOGIA

       *       *       *       *       *

CAPITULO I

*Tempos prehistoricos*


Chamaram _prehistoricos_ aos tempos antigos de que no existe historia
escripta.

Desde os tempos mais remotos, apparece um longo periodo sem historia
escripta, nem elementos positivos, durante o qual tentamos encontrar o
progresso e o desenvolvimento da humanidade, unicamente por vestigios
mais ou menos incompletos.

O archeologo tem que tomar a penna do historiador e procurar deduzir
algumas _probabilidades historicas_, com observao escrupulosa dos
factos averiguados. Os antiquarios modernos tem-se dedicado com
entranhado amor a este genero de investigaes.

Estabeleceram na historia pertencente  existencia do homem, _anterior
s pocas conhecidas_, tres grandes phases, ou estancias, a saber:

    Idade de Pedra
    Idade de Bronze
    Idade de Ferro

A fundio, ou reduco dos metaes,  uma operao difficil, que foi de
certo por muito tempo desconhecida: os povos atrazados na civilisao
deviam fabricar os objectos de que tivessem necessidade para a propria
defensa e para a caa, assim como para os usos communs da vida,
empregando pedras rijas, como  o silex (pedreneira), os ossos dos
animaes, ou a madeira.

O extraordinario numero de descobrimentos feitos nos diversos paizes,
principalmente em Frana, na Suissa, na Inglaterra, e na Dinamarca,
confirmou esta supposio.

As colleces dos museus contm quantidade consideravel de pontas de
frechas, facas, machados, feitas com pedreneira e em rocha rija: grande
numero de instrumentos de osso, ou de pedra, se tem achado em
differentes partes, e esses instrumentos conservam-se quasi intactos
dentro do solo, onde estavam occultos. O periodo secular em que os
metaes no estavam ainda em uso recebeu, pois, a denominao de _idade
de pedra_.

As melhores qualidades de rochas para fabricar os instrumentos
cortantes, eram o silex (pedreneira), _felds-pathicas_, o _petrosilex_
verde, e algumas variedades de _porphyro_; porm o silex tem sido, como
parece, a pedra mais constantemente empregada, e talvez a mais facil de
preparar a forma requerida.

Seguramente, se dermos com certa precauo uma martellada sobre um
fragmento de silex, de forma alongada, esse silex estalar, e a pedra
que se desligue tomar logo a forma conoidal; ficar chata de um dos
lados, mostrando do outro uma aresta viva. Podiam-se fazer por este
modo facas de pederneira, de que em diversas localidades se tem
encontrado centenares de modelos.

[Figura 1]

Fazendo-se estalar esta qualidade de pedra repetidas vezes com certa
habilidade, podem-se fabricar machados, pontas para flechas e outros
instrumentos do genero d'aquelles de que apresentamos os desenhos n'esta
pagina.

Os objectos pertencentes  _idade de pedra_ e  _idade de bronze_ tem
sido encontrados, principalmente nos _tumulos_, nas cidades _lacustres_,
em algumas _cavernas_, antigamente habitadas.

Examinemos os depsitos que indicamos, porque nos offerecero, segundo
recentes exploraes, matria variada e curiosa para o nosso estudo.


*Tumulos*

Os tumulos ou sepulchros, compem-se d'um recinto central formado de
pedras de rocha de grande dimenso, no qual se entra geralmente por um
corredor de egual construco, estando tudo encerrado em immenso monto
de pedras e terra.

Quer fosse porque estivesse com imperfeio o recinto central encerrado
no meio do outeirinho factcio; quer, o que parece mais natural, porque
se servissem _da terra_ ou _das pedras dos tumulos_ em poca posterior,
muitas vezes foram encontrados os pedregulhos que formam a parte central
sem a terra que os cobria e quasi completamente separados; ento n'este
caso chamavam-se Antas (dolmen).[1]

[Figura 2: Vista exterior de um tumulo]

Os defuntos eram depositados com os seus corpos inteiros e em geral
apresentavam-os _sentados_ e encostados nas paredes do recinto central,
tendo junto de si os machados e outras armas de pederneira; algumas
vezes vasos de barro toscamente fabricados, e outros objectos de uso
commum.

Veja-se o desenho n.^o 2, de um tumulo completo; o n.^o 3, um tumulo
aberto com dolmen; o n.^o 4, um dolmen completamente desguarnecido; e o
n.^o 5, a perfeita Anta de Guitames, em Vianna do Castello.

[Figura 3: Vista interior de um tumulo]

[Figura 4: Dolmen central de um tumulo]

Varios antiquarios tinham tomado os dolmens desguarnecidos de tumulos
por _altares druidicos_, porm ao presente esta ideia est quasi
desprezada, por falta de provas positivas.

O cobre com liga que lhe d maior rijeza, foi empregado depois da
pederneira, ou conjunctamente com ella, quando os nossos antepassados
aperfeioaram esta industria e conheceram o modo de derreter os metaes.

[Figura 5: Anta de Guitames (Minho)]

Os principaes objectos de bronze, foram os _machados_, as _pontas das
lanas_, as _espadas_, os _punhaes_, as _facas_, os _anzoes_, as
_fouces_, os _alfinetes_, os _anneis_, os _braceletes;_ estes objectos
fundidos, muitas vezes com formas elegantes, apresentavam em todos os
paizes o mesmo feitio, tanto na Dinamarca como em Frana, e na
Inglaterra; e isso nos convence de que os typos tradicionaes, talvez
imitados do mundo antigo pelas naes civilisadas, e trazidos para a
Europa occidental em poca que no se pode fixar, foram reproduzidos sem
alterao, em moldes apropriados.

[Figura 6: Fachada do Dolmen de Bournan]

[Figura 7: Plano do Dolmen de Bournan]

Esta poca importante da historia dos progressos da humanidade rasgou
bom horisonte no prolongado periodo prehistorico: d'ahi proveio a
denominao de _idade de bronze_. O difficil era saber-se, por induco,
quando e como o bronze apparecera nos paizes septentrionaes.

Ha annos, o sr. Worsa e os antiquarios dinamarquezes publicaram que
os tumulos da idade de pedra continham compartimentos centraes, conforme
descrevemos; nos quaes se depositavam os cadaveres sentados, com os
joelhos juntos  barba e os braos cruzados no peito; em quanto os
tumulos da idade de bronze no apresentavam esse compartimento
reservado, sendo construidos com grandes pedras e os outeirinhos,
compostos de terra e de pequenas pedras, no encerravam cadaveres, mas
tamsomente as cinzas dos finados, depositadas em vasos de barro; muitas
vezes appareciam acompanhados de objectos de bronze e s vezes de ouro.
Inferia-se d'estas differenas, que os instrumentos de bronze haviam
sido trazidos por uma raa que invadira, absorvera e talvez aniquillara
a indigena; raa que teria costumes diversos, armas superiores e
civilisao mais adiantada que a subjugada.

Acceitando-se este facto, a idade de bronze seria inaugurada na Europa
occidental por um povo conquistador em poca desconhecida.

Os objectos de barro no nos guiam suficientemente n'esta explorao. Os
que foram achados com os instrumentos de bronze so de fabrico
grosseiro, mal cosidos, e por seu feitio, ornatos e as substancias que
os compem, simelham-se muito com os vasos de barro achados nos
sepulchros que encerravam unicamente objectos de pedra. N'esses diversos
tumulos raramente se viam vasos com azas;  forma dos gargalos parecia
no ser conhecida, nem o seu uso; consistindo apenas a ornamentao em
linhas em direces diversas; ou ponteado concavo, ou emmoldurado em
xadrez.

Alm d'isso, a pederneira era ainda de uso geral na idade de bronze, e
muitas vezes se tem encontrado objectos de pedra e instrumentos de
bronze nos mesmos tumulos; facto que poderia explicar-se admittindo-se
que servira successivamente para sepultura em differentes povos.

Acharem-se cinzas no logar dos cadaveres sentados, pareceu sufficiente
caracteristico da idade de bronze, pois que nos tumulos, que encerravam
objectos de metal, havia poucos exemplos de se fazer enterramento na
posio _sentado_, e essa pratica caracterisa a idade de pedra.

Tem-se, comtudo, encontrado na mesma sepultura esqueletos sentados na
proporo de 20 por cento, talvez como demonstrao, segundo o sr.
Lubbock, dos ultimos representantes das geraes passadas que tivessem
apego aos antigos usos.


*Habitaes lacustres*

Precisamos de expr, em primeiro logar, o que se entende por cidades
_lacustres_.

Ha annos notava-se em muitos lagos da Suissa, abaixo do nivel natural
das aguas, estacarias em grupos consideraveis; o dr. Keller, de Zurich,
socio da sociedade de archeologia franceza, estudou com atteno esses
vestigios, que por grandissima diminuio das aguas ficaram visiveis; e
declarou depois, que os primeiros habitantes da Suissa estabeleciam por
vezes as suas casas em cima da agua, como praticavam algumas tribus da
antiguidade, e at como fazem ainda alguns povos modernos. Tal
descobrimento causou sensao entre os antiquarios; muitos observadores
se dedicaram depois com grande solicitude a explorar o fundo dos lagos,
nos logares das cidades lacustres indicadas pela presena da estacaria.
Estas investigaes foram proficuas. Poderam-se tirar, servindo-se de
dragas, grande numero de fragmentos de objectos de barro, e outros
utensilios, os quaes, comparados com os que foram encontrados nos
tumulos, reconheceu-se pertencerem tambem a identica civilisao.

Varias outras estancias lacustres foram depois descobertas na Suissa;
contaram-se at 32 no lago de Constance; 46 no de Neufchtel; alm das
que se viram nos de Genebra, de Inkwill, de Pffikon, de Luissel etc.,
etc. Ainda que nem todas pertenam  idade de bronze ou de pedra, e que
muitas paream ser do tempo da idade de _ferro_, e do periodo romano,
todavia o maior numero  das idades de pedra e de bronze.

Os museus de Lausanna, de Genebra, de Neufchtel e outros, tem
colleces completas dos objectos chamados _lacustraes_, por causa de
terem sido conservados por sculos debaixo das aguas.

Os habitantes das cidades lacustraes achavam sem duvida recursos
alimentcios na pesca, mas estabeleceram as suas habitaes sobre a agua
para se collocarem ao abrigo dos ataques das feras, ou dos roubos das
tribus visinhas. Era facil separar inteiramente essas povoaes fluviaes
levantando para isso as pontes, que lhes serviam para communicarem com
as margens.

Segundo o estudo das ossadas dos animaes recolhidos pela draga, e de
diversos fragmentos, conheceu-se que ento j havia seis especies de
animaes domesticados que deviam servir para o alimento dos habitantes; e
entre essas, encontraram-se restos de veados, bois, de duas formas,
porcos, ces, cabras e cavallos, notando-se porm que havia poucos
vestigios do cavallo e da cabra.


*Cavernas*

As excavaes dirigidas por varios geologos em diversas localidades,
deram em resultado encontrar-se nas cavernas consideravel numero de
objectos devidos  industria das raas primitivas, incluindo as da poca
do diluvio, assim como os machados de pederneira, toscamente fabricados,
e outros instrumentos de silex e osso, e em parte envolvidos com ossadas
de animaes giganteos, que j hoje no se encontram.

Os objectos de silex e osso, pela maior parte, parece pertencerem 
idade de pedra, e provirem das epocas mais remotas da humanidade. Mas
deve notar-se que sempre apparecem misturados com esses utensilios do
homem, restos de animaes, que se no encontram hoje, e que pertencem 
formao do terreno _quaternario_, considerado at ento como anterior
ao apparecimento do homem.

O descobrimento de uma queixada humana no saibro do Moulin-Quignon,
proximo de Abbeville, na Frana, veio estratigraphicamente confirmar
taes conjecturas e indicaes. Embora isto seja do dominio da geologia e
da paleontologia, os factos novamente averiguados so de summo
interesse, pois que comprehendem a ida de indeterminada e espantosa
antiguidade em que o homem vivia no estado quasi selvagem: no 
difficil acreditar que assim acontecesse, quando pensarmos na situao
actual dos povos de Africa central, dos naturaes da America, quando foi
descoberta, e dos habitantes das ilhas da Oceania. O homem que vive
isolado, sem communicao com os povos mais adiantados que elle, poder
ficar muito tempo no mesmo grau de civilisao; como aconteceu em o
nosso continente antigo, em quanto os romanos levavam o luxo at o
extremo, havia ento em o Norte, onde j chegam hoje os caminhos de
ferro, povos semi-selvagens que no tinham participado em cousa alguma
dos progressos do povo rei; e comtudo deviam depois repartir entre si os
seus despojos e gosar da sua civilisao.

Podemos, portanto, admittir que houve por longos annos na Europa, nas
margens dos rios, uma raa de caadores e pescadores, e que nos bosques
existiam o _mammouth_, _o rhinoceronte_, animaes que podiam resistir 
baixa temperatura que n'essa poca era propria em nossa regio.
Julga-se, com fundamento, que tal raa de homens vivia como succede hoje
entre alguns esquimaus, e como os laponios viveram seculos antes.
Acrescentaremos que a flora fossil parece mostrar que as modificaes
occorridas na forma por effeito das mudanas climatericas, tiveram os
seus equivalentes no mundo vegetal antigo.

Os principaes monumentos dos tempos prehistoricos so, conjuntamente com
os tumulos, dos quaes j tratamos:

Os _peulvans_ ou pedras cravadas na terra;

Os monumentos compostos com pedras similhantes, taes como os
_alinhamentos_;

Os circulos formados de pedras, e os recintos simplesmente de terra.

As pedras oscillantes so pedras de extraordinario peso sobrepostas a
outras e collocadas em equilibrio, mas que ao menor impulso se fazem
mover: existem algumas em Frana, porm na Inglaterra o maior numero. No
Alemtejo, proximo de Alter do Cho, ha uma d'esta qualidade.


*Pedras erguidas*

[Figura 8: Pedras Erguidas]

As pedras erguidas[2] que se designam egualmente com os nomes de
_Menhirs_, _Peulvans_, _Pedras cravadas_, etc., so pedras toscas de
forma esguia ou conica implantadas verticalmente na terra, como se
collocam os marcos. A sua altura varia desde 2 a 6 metros, ou mais; s
vezes esto cravadas de maneira que a extremidade menos grossa fica para
baixo, e a mais volumosa para cima, como se estivessem sustentadas n'um
pio. Outras esto simplesmente postas no solo, em logar de serem
cravadas na terra, porm,  preciso no confundir estas pedras com
vrios pedregulhos _erraticos_, ou que se encontram em posio vertical
e podem estar assim naturalmente collocados.

[Figura 9: Alinhamentos de pedra era Ardeven]

_Alinhamentos_.--Os alinhamentos so formados de pedras esguias. As
pedras, alinhadas com mais ou menos regularidade, mais ou menos
intervallos entre si, formam algumas vezes uma nica fileira. Umas
tambem se encontram postas em duas, tres, quatro ou maior numero,
conservando-se em linhas parallelas. Estas especies de avenidas
pedregosas so delineadas commummente na direco de Leste a Oeste, ou
do Norte a Sul.

Outras vezes as pedras so substituidas por trincheiras ou fossos de
terra. Tem-se encontrado em algumas partes, posto que raramente,
terrados parallelos na direco de Leste a Oeste, e do Norte a Sul, que
apresentam, em quanto  disposio, muita analogia com os alinhamentos
de pedras e parece terem tido o mesmo destino.

Os alinhamentos de pedras mais notaveis e mais vastos que se conhecem em
Frana, so os de _Karnac_, de _Ardeven_, e de _Penmarch_. Compem-se de
mais de 1:200 pedras toscas em 11 filas parallelas com 763 toezas de
comprimento, e 47 de largura. As mais elevadas tem 18 a 20 ps, e as
mais pequenas 4 a 5. Ha entre ellas algumas de volume to extraordinario
que lhes avaliam o pezo em 70 a 80 milheiros.

Os alinhamentos de _Ardeven_ esto dispostos regularmente em filas
parallelas, tambem na direco do Norte para o Sul, e no espao de 3
kilometros de extenso.


*Circulos*

Outra combinao de pedras erguidas toma a forma de circulos, que tem
sido designados pelo nome de _cromlecks_.[3]

[Figura 10: Circulo de pedras]

Os maiores d'estes circulos existem em Inglaterra; um d'elles, o vasto
circulo de Avebury, em Wiltshire, est totalmente destruido; porm ainda
houve quem o visse quasi completo por 1713; compunha-se de 660 pedras, e
achava-se situado no meio de uma planicie, ficando-lhe o terreno em
declive de todos os lados, como pode vr-se na gravura junta.

[Figura 11: Restaurao do monumento d'Avebury.]

O circulo exterior era formado de 100 pedras de 15 a 16 ps de altura,
collocadas a 27 ps umas das outras; tinha perto de 1:300 ps de
diametro, e via-se cercado de profundo fsso, contornado exteriormente
por larga trincheira de terra.

Este grande circulo continha dois circulos mais pequenos, compostos cada
um de dois renques concentricos de _peulvans_, do qual um tinha 30
pedras, apresentando um diametro de 466 ps; e o outro 12 pedras, com o
dimetro de 186 ps.

O monumento de Stone-Henge[4] est situado a 6 milhas de Salisbury, em
uma eminencia, na proximidade da qual se encontram muitos _tumulos_; 
composto de 4 circulos concentricos, dos quaes os dois maiores so
circulares, em quanto os outros dois mostram a forma um tanto elliptica.

[Figura 12: Vista de Stone-Henge, proximo de Salisbury]

O circulo exterior tinha quasi 97 ps de dimetro; e compunha-se
primitivamente de 30 pedras erguidas com altura de 10 a 12 ps,
collocadas a 1 metro de distancia umas das outras; estas 30 pedras
sustentavam egual numero de impostas ou pedras collocadas
horizontalmente que se ligavam nas extremidades e formavam d'este modo
uma especie de balustrada tosca.

O segundo circulo ficava a 9 ps do precedente, era formado de 29 pedras
esguias sem impostas, e por metade da grandeza das do circulo exterior:
apenas 19 estavam erguidas haver 38 annos.

O terceiro circulo, a 13 ps do precedente, apresentava uma illipse
tendo o pequeno eixo 52 ps, e o maior quasi 55; formado por
_trilithos_[5] de grande dimenso, o mais elevado, dos quaes tinha 22
ps de altura.

Finalmente, o circulo central tambem um pouco elliptico, compunha-se de
20 _peulvans_ com a altura de quasi 6 ps.

[Figura 13: Disposio dos renques de pedras em Stone-Henge]

Na extremidade oriental do oval, dentro do ultimo circulo, havia uma
pedra medindo 16 ps de comprimento e 4 de largura, posta em plano na
terra, e que se suppe serviria de altar.

As pedras esguias que compunham estes quatro circulos eram quasi todas
mais largas na base que no vertice; tinham sido cravadas em cavidades
abertas em rocha de natureza graphite, e havia o cuidado de as
consolidarem calcando-as com fragmentos de pederneira em volta das
cavidades.

Um largo fsso de 30 ps, collocado entre duas trincheiras, formava o
quinto recinto circular  roda das pedras do circulo exterior.

A Dinamarca, a Noruega e a Suecia, conteem certo numero de _cromlecks_,
quasi todos circulares ou ellipticos, apresentando geralmente uma pedra
no centro, que se suppe ter servido de altar.[6]

Acredita-se que estes monumentos nem sempre foram usados nas ceremonias
religiosas.[7] Na infancia dos povos, os logares consagrados ao culto
deviam servir tambem para tribunal de justia, assim como para ponto de
reunio dos conselhos patriarchaes ou de notaveis, que tratavam dos
interesses da nao, das eleies, das inauguraes, etc.

Em o Norte, os nobres reuniam-se antigamente dentro de recintos
circulares formados de pedras, para elegerem os seus principes, at a
promulgao da Bulla de Ouro pelo imperador Carlos IV, em 1356. O
circulo de pedras, no qual Eric foi proclamado rei da Suecia, existe
ainda proximo de Upsal; uma grande pedra toma o centro, como em outros
recintos d'aquelle paiz. Outrotanto se praticava na Irlanda e na
Escossia.

Taes so os principaes monumentos de pedra dos tempos prehistoricos.
Accrescentemos que o vulgo lhes attribue origens fabulosas, como obra de
um ente colossal chamado _Gargantua_; que a tradico os tem indicado
como encerrando preciosos thesouros; abrigos de fadas, de almas do outro
mundo, e dos espiritos que as acompanham!


*Recintos formados com terra*

Estes recintos consistem em um _vallum_ de terra, s vezes misturada de
seixos, circumdando extenses mais ou menos consideraveis e cujas formas
so mui variadas. Poder-se-hia attribuir essa especie de claustros 
outra poca do que a que corresponde aos tempos prehistoricos, se no
houvesse tumulos encerrados no _vallum_, ou levantados proximo d'elles,
o que faz suppr que sero contemporaneos.


*Architectura dos tempos prehistoricos*

Pouco sabemos acerca de qual seria a architectura anterior ao dominio
dos romanos. Presume-se porm que nas primitivas construces
empregariam a madeira e o barro.

As habitaes eram circulares, construidas com madeiras e vimes
enlaados.

No interior faziam as divises com terra; o telhado formavam-n'o de
ripas de carvalho ligadas com massa de argila e palha cortada, conforme
os vestigios encontrados na Gallia, na Bretanha, na Germania, em
Hespanha e Portugal.

De investigaes feitas em Frana e na Inglaterra, conheceu-se que
muitas habitaes dos celtas tinham antes a forma oval do que redonda, e
algumas vezes rectangular; mostravam alicerces de pedra secca, e muitas
eram construidas em nivel inferior ao solo que as circumdavam, quer
fosse para se resguardarem dos rigores do clima, ou quer para no darem
s paredes altura consideravel.

Estas casas estavam em relao com a simplicidade dos costumes; deviam
ter um s andar, e apresentavam uma s abertura, que servia de porta e
janella.

Em todas a forma era egual, mas as dimenses divergiam. O numero e a
grandeza das casas deviam corresponder  cathegoria e opulencia dos
possuidores.

Os gaulezes abastados tinham sempre junto de si squito para o qual
necessitavam de grandes habitaes. Escolhiam portanto o terreno para
ellas nos bosques e perto dos rios, ou em eminencias, afim de servirem
egualmente de fortalezas para a propria defensa.


*Utensilios e instrumentos diversos*

Em poca, que no podemos determinar, os nossos antepassados souberam,
que o estanho combinado com o cobre produzia uma liga mais rija e mais
pesada que estes dois metaes separados; as analyses que o celebre
mineralogista Clarke repetidas vezes fez em Inglaterra, e aquellas que
se fizeram em Frana, demonstraram que sobre 100 partes quasi todos os
bronzes antigos contem 12 de estanho e 88 de cobre; porm que esta
proporo no  constante, e que a quantidade de estanho ou de chumbo
combinada com o cobre, varia s vezes desde 4 at 15 por 100.

Mr. Clarke verificou que os antigos bronzes descobertos na Grecia, no
Egypto e em algumas partes da Asia,[8] continham a mesma quantidade de
estanho (88 e 12): sendo esta a proporo necessaria para se obter o
_maximum_ de densidade resultante d'estes dois metaes.

Os machados de bronze, que tem sido encontrados em grandissimo numero em
toda a parte e que se vem em quasi todas as colleces,[9] apresentam
entre si differenas notaveis; os typos que damos so os mais
conhecidos. Estes machados teem um olhal nos lados, e existem de
diversos tamanhos; as faces lateraes so de feitio de uma folha
lanceolada sobre o comprido, na qual se v o vestigio da junco das
duas peas do molde em que o instrumento foi vasado.

Em Portugal descobriu-se um muito singular, no s por suas grandes
dimenses, mas por ter _dois olhaes_, o que o torna raro no seu genero.

[Figura 14a]

[Figura 14b]

[Figura 14c]

[Figura 14d]

Estes machados deviam encavar-se de duas maneiras: n'uns, o cabo entrava
de espiga n'uma cavidade central _a_, _b_; n'outros, dar-se-lhe-hia a
forma de palmeta para entrar nos dois lados do instrumento no logar
preparado _c_; algumas vezes as bordas delgadas e salientes que formavam
a parte cca ficavam reviradas sobre si, por modo a formar uma especie
de calha _d_, apropriada para conservar a parte encavada.


*Moldes para machados*

Os machados de bronze foram sem duvida fundidos em moldes compostos de
duas peas symetricas, pouco mais ou menos como os que ainda hoje so
empregados na fundio das colheres de estanho.

[Figura 15: Molde aberto]

[Figura 16: Molde fechado]

 provavel que alguns d'estes moldes fossem de terra ou de pedra; porm
o maior numero dos que se conservam nos museus so de bronze, fundidos
egualmente como os machados.

O primeiro molde para machados celticos que chamou a atteno dos sabios
foi descoberto na Inglaterra em 1779. Encontraram-se depois em muitas
partes da Frana, principalmente na Normandia.

Estes moldes compem-se de duas peas ccas, que se podem juntar e unir
sem se desconcertar, por meio de uma parte saliente chamada _macho_ que
est na virola do molde de uma das peas, e se encaixa na fenda
praticada na virola da outra pea.

_Espadas de bronze_.--As espadas de bronze compem-se de lamina e cabo
(punho). So de folhas direitas, chatas, mas reforadas no centro da
lamina, e s vezes ainda com bojo no espao comprehendido nos dois
teros da folha. Cortam dos dois lados e tem ponta aguda.

A largura de lamina quasi sempre  de pollegada e meia ou duas
pollegadas na parte mais larga, sendo a sua maior grossura de um quarto
de pollegada.

No punho ainda algumas tem os pregos de bronze que haviam servido para
segurar a guarnio.

As espadas eram tambem fundidas, e o metal identico ao empregado nos
machados.

[Figura 17]

_Punhaes de bronze_.--Estas armas parecem-se com as espadas, exceptuando
a lamina que  mais curta. O comprimento de alguns  de 10 a 14
pollegadas, e a largura da folha de 2 a 21/2 pollegadas na base.

_Pontas de lana_.--Juntamente com as armas que descrevemos,
encontram-se de vez em quando pontas de lanas e objectos que foram
considerados como especies de virolas ou ferragens para guarnecer a
parte inferior da hastea.

_Rodeias ou collares (torques)_.--Affirmam alguns historiadores que os
gaulezes traziam collares ou _torques_, como tambem braceletes e argolas
nos braos.

[Figura 18]

O collar era egualmente usado pelos gregos e romanos, e outros povos;
talvez no haja outro ornamento de uso mais antigo, nem mais geral.

Deve-se distinguir entre os _torques_; em primeiro logar, os que so
formados de muitas peas encadeadas e enfiadas em especie de rosarios de
perolas grossas de ambar, de azeviche, de vidro colorido, etc., como se
encontraram dentro de alguns _tumulos_; e depois as cadeias, cujos elos
so de ouro ou bronze. Em segundo logar, os _torques_, compostos de uma
unica pea de metal (ouro, bronze, etc.) arqueada de maneira a formar
circulo do diametro mais ou menos consideravel, e muitas vezes com
lavores. Em muitos _torques_ as duas extremidades da pea metalica no
esto soldadas, porm o metal offerece bastante flexibilidade para
facilitar mettel-as nos punhos, podendo-se unir ou abrir,
independentemente do fecho; outros _torques_ no apresentam nenhuma
d'estas formas.

[Figura 19]

Appareceram tambem chapas de ouro bastante delgadas com feitio de
meias-luas, porm cujas pontas estavam arqueadas de modo a formarem
circulo quasi perfeito. Vem-se, aos lados e nas extremidades de algumas
d'estas peas, festes e molduras.

[Figura 20]

O pequeno intervallo que separa as duas pontas do crescente no nos faz
suppr que este enfeite servisse para se trazer em volta do collo;
provavelmente ficava suspenso por uma corrente.

Alguns instrumentos achados por varias vezes nos sepulchros, ou junto
dos dolmens, em Frana e mais frequentemente na Irlanda, consistiam em
hastea de ouro arqueada tendo nas duas extremidades um disco, em alguns
chato, em outros levemente concavo.

[Figura 21]

Ignora-se absolutamente para que uso seriam destinados.

Finalmente, o objecto seguinte, uma especie de _gargantilha_ formada de
uma folha de ouro mui delgada, foi achado em Frana em diversas
localidades.

[Figura 22: Collar de ouro descoberto em Frana]

As _moedas_ chamadas _celticas_ so provavelmente em parte
contemporaneas dos ornamentos ou enfeites que descrevemos acima.


*Objectos de barro*

So tanto mais difficeis de se distinguirem os _objectos de barro
celticos_, com excepo dos que se tem encontrado nos _tumulos_, quanto
em algumas partes esto muitas vezes misturados com outros similhantes
aos do tempo dos romanos; visto que os mesmos sitios foram habitados
antes e depois da conquista de Cezar na Peninsula.

[Figura 23]

Os objectos de barro descobertos nos _tumulos_, so formados de terra
preta, mal preparada e com pequenos seixos, o que produziu massa pouco
solida. Os seus fragmentos so frageis, e no foram cozidos
sufficientemente; a parte quebrada no mostra arestas vivas, mas sempre
cheias de cavidades. As superficies d'essas peas, tanto na parte
interna, como na externa, tem cr quasi egual  do ferro ferrugento;
porm na parte interna  de negro carregado. Expostas  aco do lume
tomam exteriormente a cr avermelhada do tijolo; em quanto no interior
ficam negras, e mais frageis depois d'esta operao.

[Figura 24: Vasos achados nos tumulos de Inglaterra, Hollanda e outros
paizes]

Esses vasos no parece terem sido feitos com auxilio do torno, e no
apresentam nenhum moldado ou borda; foram unicamente alisados na parte
exterior com um objecto qualquer, que lhes deu lustro irregularmente, de
maneira que mostram na superficie altos e baixos, mais ou menos lisos,
conforme vai indicado na gravura junta.

Os que foram encontrados nas cidades _lacustras_, mostram inteira
similhana e caracter no fabrico. A massa no est solidamente ligada,
por ter algumas partes de pederneira; a cr  preta ou cinzento escuro.
Esta massa tem pouca consistencia; quando est secca quebra-se
facilmente, e pode-se desfazer entre os dedos; se a molharmos,
dar-nos-ha a apparencia de bocados de cortia velha que estivesse por
muito tempo exposta  chuva. As suas formas indicam a infancia da arte,
excepto os fragmentos onde se descobre o uso do torno; os demais
pertenceram a objectos que parece foram vasados em moldes e polidos 
mo, ou lavrados com algum instrumento. Reconhece-se na superficie
exterior de alguns fragmentos o trabalho de uma especie de plaina. Os
ornamentos compem-se de filetes imperfeitos, e em pequenos riscos junto
 borda do orificio.

[Figura 25: Outros vasos achados nos tumulos]

Entre os objectos de arte que enumeramos, s vemos os instrumentos cuja
materia unicamente podia resistir  aco do tempo; os moveis de madeira
que teriam as habitaes gaulezas no conseguiram chegar at os nossos
dias. Os lagos de certo conservaram-nos muitos objectos, e at pedaos
de tecidos que recentemente nos esclareceram alguns pontos relativos 
industria d'esses povos, antes da occupao do territorio da Gallia
pelos romanos, porm so ainda dados incompletos para se formar cabal
ida do estado da industria.

Terminamos este rapido esboo, apresentando o quadro synoptico das
antiguidades que servem de assumpto ao primeiro capitulo.


        *MAPPA SYNOPTICO DAS ANTIGUIDADES PREHISTORICAS*

+-----------------------------------+---------------------------------------+
|                                   |                                       |
|         *Nomes especificos*       |             *Caracteres*              |
|                                   |                                       |
|                                   |                                       |
|          {conicos                 |Outeirinhos artificiaes de forma, e    |
|_Tumulos_ {                        |de dimenses differentes, compostos de |
|          {ovaes                   |pedra e de terra, com _dolmens_ no     |
|                                   |centro.                                |
|                                   |                                       |
|         {erguidas                 |De forma esguia. Firmadas verticalmente|
|         {                         |na terra como se fossem marcos.        |
|_Pedras_ {                         |                                       |
|         {assentes                 |De forma indeterminada. Simplesmente   |
|         {                         |collocadas sobre o solo sem estarem    |
|                                   |cravadas no cho.                      |
|                                   |                                       |
|_Trilithos_                        |Duas  pedras verticaes sustendo outra  |
|                                   |horisontalmente.                       |
|          {                        |                                       |
|          {simples                 |Uma mesa de pedra collocada sobre      |
|          {                        |pedras postas de cutello, em numero    |
|          {                        |de 3, 4 ou 6.                          |
|_Dolmens_ {                        |                                       |
|          {compostos               |Grande mesa de pedra composta de       |
|          {                        |muitos pedaos, sendo, pelo menos, 6 o |
|          {                        |numero dos pontos de apoio.            |
|                                   |                                       |
|                                   |_Nota_. Os mais collossaes d'estes     |
|                                   |dolmens formam galeria ficando abertos |
|                                   |n'uma das extremidades; costumam ser   |
|                                   |designados de _avenidas cobertas_.     |
|                                   |                                       |
|               {simples            |Um ou dois renques de pedras em linha  |
|               {                   |recta.                                 |
|_Alinhamentos_ {                   |                                       |
|               {compostos          |Quatro, cinco e algumas vezes at onze |
|               {                   |ou doze renques de pedras formando     |
|               {                   |avenidas parallelas.                   |
|                                   |                                       |
|_Pedras postas em grupo_           |Accumulao de pedras, sem ordem,      |
|                                   |mais ou menos consideravel.            |
|                                   |                                       |
|                   {simples        |Composto d'um s renque de pedras      |
|_Circulos formados {               |cravadas ou assentes.                  |
|com pedras_        {compostos      |                                       |
|                   {               |Formados de muitos renques de pedras.  |
|                                   |                                       |
|_Recintos cercados de terra, ou de |De diversas formas.                    |
|pedras_.                           |                                       |
|                                   |                                       |
|    H {                            |                                       |
|    A { Vestigios de casas         |Logar de cabanas redondas, ovaes,      |
|L   B {                            |algumas vezes rectangulares, indicadas |
|O   I {                            |por alicerces de pedra tosca sem       |
|G D T {                            |argamassa ou to smente pelo          |
|A E A {                            |abaixamento do solo.                   |
|R    {                            |                                       |
|E    { Subterraneas               |Galerias e casas cortadas na rocha.    |
|S   E {                            |Excavaes diversas.                   |
|    S {                            |                                       |
|                                   |                                       |
|      {   { Punhaes e facas        |Um pedao de silex cortado de maneira  |
|      {   {                        |a apresentar uma folha aguda, com dois |
|      {   {                        |gumes, e armado d'um cabo.             |
|      {   {                        |Folha de silex sem cabo.               |
|      {   {                        |                                       |
|      {   {          { para frechas|Pequenos dardos, dos quaes o           |
|      {   {          {             |comprimento varia desde meia pollegada |
|      { E { _Pontas_ {             |at duas                               |
|      {   {          {             |                                       |
|    I { M {          {para rojes  |Dardos quasi similhantes aos           |
|    N {   {          {             |precedentes, porem mais sobre o        |
|    S {   {          {             |comprido.                              |
|    T {   {                        |                                       |
|    R { P { Martellos              |Pea quer redonda dos dois lados, quer |
|    U { E {                        |d'um lado smente.                     |
|    M { D {                        |                                       |
|    E { R { Pedras para fundas     |Redondas ou ovoides, de 2 a 3 polegadas|
|    N { A {                        |de diametro.                           |
|    T {   {                        |                                       |
|    O {   { Machados               |Convexos para o centro, cortados em    |
|    S {   {                        |aresta viva nos bordos, acabando de um |
|      {   {                        |lado em ponta romba, e de outro em     |
|      {   {                        |gume, o qual descreve uma poro de    |
|      {   {                        |ellipse.                               |
|    D {                            |                                       |
|    I {   { Machados               |De formas diversas similhando-se mais  |
|    V {   {                        |ou menos a uma cunha.                  |
|    E {   {                        |                                       |
|    R { E { Frmas para machados   |So duas peas symetricas, que depois  |
|    S { M {                        |de reunidas a parte cca mostra o      |
|    O {   {                        |feitio do machado.                     |
|    S {   {                        |                                       |
|      { B { Espadas                |Folhas direitas, chatas, de dois gumes,|
|      { R {                        |acabando em ponta.                     |
|      { O {                        |                                       |
|      { N { Punhaes                |Quasi similhante s espadas na forma,  |
|      { Z {                        |porm com menor comprimento.           |
|      { E {                        |                                       |
|      {   { Cabeas de rojes      |De forma lanceolada tendo um           |
|      {   {                        |engrossamento no meio.                 |
|                                   |                                       |
|         { compostas de peas      |Correntes metallicas.--Perolas de pedra|
|         {                         |de cr-alambre, formando rosario.      |
|_Torques_{                         |                                       |
|         { de uma s pea          |Argolas metallicas mais ou menos       |
|         {                         |grossas muitas vezes com               |
|         {                         |lavrados.--Chapas do feitio de meia    |
|         {                         |lua.                                   |
|                                   |                                       |
|Ornamentos diversos                |Em bronze e em ouro, com lavrados.     |
|                                   |                                       |
|Loua de barro                     |Muito fragil, mal cozida, composta de  |
|                                   |terra preta mal preparada e cheia de   |
|                                   |pequeninos seixos.                     |
|                                   |                                       |
|Moedas                             |Em ouro, em prata e em bronze.         |
+-----------------------------------+---------------------------------------+




CAPITULO II

*Era gallo-romana*


Entreapparece-nos um dos mais amplos horisontes da historia dos povos
occidentaes na conquista do imperador romano Cesar. Nos _Commentarios_
d'este grande general temos perfeita ida do estado da Gallia na poca
da conquista; conhecem-se tanto os grandes factos que consumou, quanto
se inferem as consequencias que d'elles advieram  civilisao.

Cesar encontrou a Gallia dividida em tres naes principaes: os Belgas,
os Celtas e os Aquitanios.

O imperador Augusto, que pretendeu organisar o governo regular nos
paizes conquistados, formou tres novas provincias d'essas tres regies.

Segundo esta diviso, foram desannexados e encorporados na Aquitania 14
povos da Celtica; alm de dois que passaram do Norte para a Belgica.
Assim ficou modificado o territorio dos primitivos povos d'esta parte da
Europa.


*Vias de communicao*

Comearemos a nossa revista dos monumentos da grande poca romana,
descrevendo as vias publicas ou as grandes estradas; tanto mais que
foram as primeiras obras que o povo rei executou e de que nos deixou
vestigios.

As cidades e as estancias eram accessiveis por meio de estradas solidas,
ou caladas. Nos intervallos que separavam estes estabelecimentos uns
dos outros,  que principalmente se encontravam vestigios das vias
romanas. Seguiam em geral linhas rectas, excepto quando obstaculos
naturaes, como as montanhas, os barrancos profundos, as lagas, se
oppunham a isso, e prolongavam-se tanto quanto possivel nas planicies,
afim de evitar os terrenos pantanosos.

Alm das estradas principaes, que communicavam uma cidade com outra,
havia os caminhos vicinaes, _viae vicinales_, que conduziam s aldeias,
e estabeleciam relaes entre estas e as cidades. No eram alinhados
como as primeiras, nem feitos com egual esmero.

Nas estradas mais bem executadas, a primeira camada, ou a mais funda,
compunha-se de pedras collocadas em raso, s vezes assentes com
argamassa, mas em geral postas simplesmente umas sobre as outras: era o
que chamavam _statumen_. Em algumas vias, as pedras do _statumen_ eram
postas de cutello e com inclinao, como explicaremos quando fallarmos
das paredes construidas em espinha de peixe.

A largura ordinaria das vias romanas era de 15 a 20 ps. As bordas das
partes alteadas no se conservam em muitas localidades; arruinaram-se
por modo que no apresentam hoje sufficiente largura para um carro poder
passar; e em certos pontos aproximam-se mais de um fsso, que de uma
estrada.

Os caminhos romanos atravessavam os rios sobre pontes, e vaus calados.
Em grande numero de localidades, encontram-se os alicerces das pontes,
ou dos vaus, debaixo da agua, seguindo a directriz das antigas vias. Em
certos casos o trilho era estabelecido sobre travessas de madeira.

_Columnas itinerarias_.--Os caminhos romanos eram divididos por marcos
situados em espaos regulares, e com inscripes que indicavam o numero
de leguas ou de milhas, comprehendido entre as diversas povoaes.

As capitaes serviam de ponto central para marcar as distancias em todo o
territorio.

_Os marcos milliares_ tinham 5 a 6 ps de altura; eram de frma
cylindrica; chamavam-se milliares, _milliaria_, ou simplesmente
_lapidas_.

D'aqui provem as phrases to frequentes nos auctores antigos, _ad
primum_, _secundum_, _tertium lapidem_, a primeira, a segunda e a
terceira pedra, ou s _ad primum_, _secundum_, _tertium_, etc. ficando
subentendido _lapidem_ ou _milliarium_.

A segunda camada, chamada _ruderatio_, era formada de pedras britadas de
dimenso menor que as anteriores.

A terceira camada, _nucleus_, compunha-se, ora de cal misturada com
fragmentos de telha pisados, ora de areia misturada com argila.

[Figura 26: Columna milliar que existe em Frana]

Seixos inteiros, apertados uns contra os outros, ou postos simplesmente
em leito de areia grossa, _glarea_, formavam a quarta e ultima camada,
chamada _summa crusta_.

Era excepcionalmente nas cidades, aldeias ou nos paizes pantanosos, que
formavam a _summa crusta_ com calada de pedras cubicas ou polygonaes
irregulares.

Em geral, serviam-se para estes trabalhos dos materiaes que encontravam
na localidade, ou a pequena distancia; smente os mandavam buscar mais
longe quando eram de m qualidade no terreno das obras.

Em muitas partes, as vias antigas foram alteadas do solo, e um _agger_
servia de base  calada. Estes _caminhos alteados_ conservam ainda o
seu nivel superior em espaos muito extensos, e so faceis de
reconhecer.

As estradas antigas eram tambem cavadas, como se as preparassem para o
leito de um rio. As excavaes em algumas partes podiam ser consequencia
do uso prolongado de viandantes e vechiculos; porm, em outras, foi
visivelmente praticado com o fim de tornar mais suaves as subidas muito
ingremes.

[Figura 27: Torre de Pirelonge]

O uso das columnas milliares data do anno 183 antes da era christ. Foi
determinado em lei proposta por C.S. Graccho, e depois ampliada s
provincias do imperio.

As inscripes collocadas n'estas columnas foram primitivamente
laconicas; indicavam apenas o numero de milhas comprehendidas de uma a
outra localidade. Augusto foi o primeiro que mandou gravar os seus nomes
e qualificaes nos marcos levantados por sua ordem, e os successores
seguiram-lhe o exemplo.

_Pyramides_.--As vias romanas no eram smente guarnecidas pelas
columnas itinerarias; aos seus lados viam-se tambem torres massias, ou
pyramides, ora circulares, ora quadradas.[10]

Consideravam-se essas pyramides como tumulos; mas a maior parte parecia
terem sido levantadas para ornar os caminhos, ou antes dedicadas a
Mercurio, como deus protector das estradas, das artes, e do commercio.
Em algumas d'ellas abriam especies de nichos que deviam receber a
estatua de Deus.

Formavam-se taes construces de bases quadradas de alvenaria, que
sustentavam uma serie de grandes pedras de cantaria; o remate
apresentava a configurao conica, tendo a superficie coberta de
entalhos sobrepostos, representando folhas de arvores em camadas. A
torre de Pirelonge, em Frana, de 74 ps de altura,  um especimen
d'este genero.

_Manso_.--Encontravam-se nas estradas manses, ou pousadas, mais
especialmente destinadas para o servio dos correios, e para os que
viajavam com auctorisao do imperador. Eram administradas por uns
funccionarios chamados _mancipes_, cathegoria pouco mais ou menos egual
 dos nossos directores do correio. Os logares das mudas de menor
importancia e situadas com pequenos intervallos, chamavam-se _mutaes_.
Denominavam-se emfim _diversoria_ as casas construidas ao longo das
estradas, quer pertencessem a proprietarios que hospedavam ahi os seus
amigos, quer recebessem viajantes como os nossos hospedeiros.

As principaes estradas romanas tinham a classificao de _publicas_ ou
_militares_, _consulares_ ou _pretorianas_, e os caminhos menos
frequentados designavam-se com os nomes de _particulares_, _agrarios_ ou
_vicinaes_.


*Architectura*

Os romanos imitavam na sua architectura os Etruscos e os Gregos, porm
foram menos cuidadosos na pureza das formas, do que no aspecto
grandioso; e preferiram  formosura monumental o effeito da apparencia e
da utilidade; portanto, procuravam sempre adpotar um systema que lhes
desse logar a utilisar nas obras publicas o trabalho dos soldados, e
dos escravos, dirigidos smente por limitado numero de architectos ou
engenheiros. Comprehendiam que era poderoso meio de dominao dotar o
paiz vencido com os monumentos que no possuissem, introduzir em toda a
parte a civilisao, transmittindo aos subordinados as vantagens, as
instituies e os estabelecimentos uteis, dos quaes estavam at ento
privados.

[Figura 28: Pequeno aparelho, e de espinha como est construido o
monumento romano de Theso]

Em logar, pois, de empregar, como os Gregos, materiaes de extraordinaria
dimenso, e por consequencia difficies de se ajustarem, preferiam, salvo
em casos excepcionaes, pr em obra materiaes de pequena dimenso,
alvenaria, tijolos reunidos entre si por abundante argamassa.

Um grande facto architectonico, como foi a adopo da abobada cylindrica
composta de peas em forma de cunhas, fez com que pudessem afastar-se do
systema da edificao grega, no qual dominavam as architraves e os
apoios verticaes. Com a abobada e as arcadas de volta perfeita, de que
os romanos tiravam to vantajoso resultado, effectuaram-se notaveis
construces, que no se deveram nunca ao genio dos gregos.

_Pequeno apparelho_.--As paredes de pequeno apparelho, o modo de
construir mais habitualmente empregado, tem as faces formadas de pedras
symetricas, quasi quadradas, e cuja face no tem mais de 3 a 4
pollegadas e raras vezes de 5 a 6. O centro da parede mostra um massio
de alvenaria irregular feito com pedra miuda imbebido de cimento.

Notam-se em varias construces, de pequeno apparelho, zonas horisontaes
e continuas de grandes tijolos, destinados a sustentar o nivel das
pedras pequenas do refro da alvenaria. Estas zonas compem-se
geralmente de dois ou tres, e tambem de cinco, seis ou sete fileiras de
tijolos separados por camadas de cimento, cuja espessura  quasi egual 
dos tijolos.

Os romanos dispozeram tambem as pedras com o feitio de folhas de fetos,
ou em espinhas, como se v na gravura da pagina anterior.

A argamassa era sempre applicada com grande espessura entre as pedras e
nenhuma das quaes estava em contacto immediato, mas de certo modo
imbebidas no cimento.

As dimenses dos tijolos variavam muito para poder indicar-se
absolutamente a mais usual; comtudo era entre 14 a 15 pollegadas de
comprimento por 8 a 10 de largura; mas havia maiores, e at alguns mui
pequenos.

_Apparelho reticular_.--Os architectos romanos empregavam egualmente a
_obra articulada_, ou alvenaria em forma de malhas, differente do
pequeno apparelho ordinario, por que as pedras do revestimento eram
cortadas com esmero, de tamanhos eguaes, e collocadas de modo que as
juntas apresentavam linhas diagonaes, simelhando uma rede. Este genero
de reforo de alvenaria empregavam-no geralmente como ornamento, pois
no se encontra applicado exclusivamente, mas quasi sempre combinado e
intercalado com o pequeno apparelho.

[Figura 29]

As paredes do grande apparelho encontram-se nos mais importantes e
grandiosos edificios, como os templos, os arcos de triumpho, os
theatros, etc.

_Argamassa e cimento_.--As argamassas dos romanos compunham-se de cal
viva e de areia, e frequentemente de tijolo pizado, em propores
variaveis, e que seria difficil determinar. A presena do tijolo pisado
distingue-se de quasi todas as que depois foram empregadas. Todavia
encontram-se tambem argamassas romanas que no contem nenhuma parcella
de tijolo, assim como no apresenta nenhum caracter particular.

_Ordens_.--chama-se _Ordem_ a combinao de diversas partes salientes
dispostas, com propores fixas, para compr um conjuncto regular e
harmonico de ornamentao das fachadas dos edificios importantes.

Divide-se uma ordem de architectura em tres partes, ou membros, que so
pedestal--columna--e um entablamento. Cada membro divide-se em tres
partes d'este modo:

                                 { Base.
    Primeiro membro ou pedestal  { Soco.
                                 { Cornija.

                                 { Base.
    Segundo membro ou columna    { Fuste.
                                 { Capitel.

                                     { Architrave.
    Terceiro membro ou entablamento  { Friso.
                                     { Cornija.

Os romanos empregavam cinco ordens:

    A Toscana.
    A Dorica.
    A Jonica.
    A Corinthia.
    A Composita.

A Dorica, a Jonica e a Corinthia, eram de origem grega.

A Toscana e a Composita nasceram na Italia.

 por isso que se designam algumas vezes as tres primeiras sob a
denominao _ordens gregas_, e as duas outras sob a de _ordem latina_.

Nas ordens Toscana, Dorica, Jonica e Corinthia, a columna tem propores
differentes; as da Corinthia e Composita so eguaes.

Eis o quadro d'estas propores conforme o architecto Vignola, que  o
auctor mais seguido pela simplicidade das subdivises:

    A altura da   { Toscana, de 7 vezes.   } Do diametro
    columna vem a { Dorica, de 8 idem.     } inferior, isto 
    ser para a    { Jonica, de 9 idem.     } a grossura tomada
    ordem:        { Corinthia, de 10 idem. } no fuste junto da
                  { Composita, de 10 idem. } base.

Portanto, as quatro primeiras ordens differem nas propores; a da
quinta ordem so eguaes s da quarta. Os pedestaes e os entablamentos
differem tambem nas quatro primeiras ordens.

Em geral, o pedestal tem o _tero_ da altura da columna, e o
entablamento a _quarta_ parte, conforme o auctor citado.

O modulo  medida convencional que serve de escala para desenhar as
ordens;  sempre a metade do diametro inferior do fuste da columna, o
qual se divide em 12 partes para as tres primeiras ordens, e em 18
partes para as duas ultimas.

            { A menos elevada e a mais simples das cinco
    Toscana { ordens.
            { Cornija sem modilhes, nem denticulos.

            { Modilhes, denticulos ou mutulos na cornija,
            { triglyphos no friso, gottas na architrave.
    Dorica  { Capitel da mesma forma que o da Toscana, porm
            { um pouco mais ornado, caneluras ou estrias
            { no fuste.

            { Capitel com volutas, cornija ornada de
    Jonica  { denticulos.
            { Architrave dividida em trs platebandas ou faixas.


[Figura 30: Fachada d'um templo Dorico]

[Figura 31: Dorico]

[Figura 32: Jonico]

[Figura 33: Corinthio]

               { Capitel ornado de dois renques de folhas de
               { acantho e dezeseis volutas.--Dois renques de
    Corinthia  { denticulos e um de modilhes na cornija.--Architrave
               { dividida em tres platebandas ou faixas
               { por baguetas ornadas de molduras.

               { Capitel imitando o das Ordens Corinthia e
    Composita  { Jonica.--Cornija com denticulos.--Duas platebandas
               { ou faixas na architrave.

[Figura 34: Portico da Ordem Toscana]

As columnas no so sempre applicadas para decorao dos edificios;
substituem-se s vezes por pilastras, que, sem ter o aspecto gracioso
das columnas, produzem no obstante um effeito agradavel  vista. As
_pilastras_ tem em geral pouca saliencia, no excedendo a mais da metade
da largura; e no se lhes diminue o diametro da parte superior do fuste,
como acontece s columnas.

Eis a disposio de um _portico_ da ordem Toscana: quando se collocam
muitas ordens de columnas ou pilastras em um edificio,  preciso que as
Ordens mais delicadas fiquem sobrepostas s mais solidas: portanto, no
se collocam nunca as columnas Toscanas sobre as columnas Jonicas, e se o
architecto empregar a Jonica, ou a Corinthia, seguir a regra de
sobrepr a segunda  primeira.

No julguemos que a architectura antiga est representada pelas _cinco
ordens_ classificadas e regularisadas pelos insignes architectos
italianos do _Renascimento das artes_. Ficaremos muito surprehendidos
quando, examinando os restos da architectura romana existentes nas
antigas cidades, particularmente na Italia, e n'este paiz em especial
Roma, virmos que no differem, quasi em parte alguma, na _rigorosa
similhana_, as cinco celebres Ordens desenhadas e medidas por Vignola,
Palladio, Serlio, Scamozzi e outros architectos illustres. Pelo
contrario, os typos principaes da architectura antiga apresentam
infinita variedade, que augmenta nos edificios cuja data se aproxima dos
ultimos tempos do imperio, a tal ponto que vem a ser realmente mui
difficil determinar a Ordem a que pertencem taes ou taes entablamentos,
capiteis, bases, columnas, etc.

Os capiteis, principalmente, apresentam diversidade de formas e
ornamentaes, que ser baldada a classificao rigorosa; mostram
todavia na composio riqueza e delicadeza de cinzel, sobejamente
notaveis; observando-se pelo conhecimento dos effeitos pittorescos,
produzidos no claro-escuro, o esmero do trabalho. As partes em relevo
so conservadas com acerto e habilmente executadas.

Os architectos modernos, creando typos unicos sob a denominao de cada
uma das Ordens; desejando subordinar tudo a esses typos, privaram-se de
produzir combinaes graciosas, em quanto os artistas do estylo romano,
engenhosos e fecundos, tiravam partido da liberdade de composio,
enriquecendo a architectura em que reproduziam as formas, no punham
peias  imaginao, e evitavam executar obras monotonas, pobres e sem
attractivos, como succede em muitas presentemente levantadas.

Os edificios publicos e muitas casas particulares eram durante a
dominao romana, revestidas de marmore, ou de cimento e cal; e algumas
tinham mosaicos, e aqueciam-n'as por meio dos hypocaustos.

Os _mosaicos_[11] antigos, dos quaes se tem encontrado repetidamente
fragmentos em localidades hoje inhabitaveis, compem-se de pequeninas
peas cubicas imbebidas em especie de massa e assentes em cimento
misturado com tijolo moido.

[Figura 35]

Estas pequenas peas de diversas cores eram combinadas de maneira que
formavam differentes desenhos. Alguns mosaicos representavam combates de
animaes e outras scenas.

A mais importante descoberta feita em Portugal foi a que fizemos perto
de Leiria, em 1874, de um mosaico de cinco cres e com difficeis
combinaes de linhas geometricas, pertencente a uma _villa rustica
romana_.

_Hypocaustos_.--Os hypocaustos, estabelecidos no pavimento terreo das
habitaes romanas, eram empregados como os caloriferos modernos.

Para formarmos ida exacta do hypocausto,  preciso figurarmos um
sobrado levantado quasi a 2 ps acima do solo, e sustentado sobre
pequenos pilares A de egual altura, distantes uns dos outros 1 p, por
meio dos quaes o calor circulava e aquecia por egual o piso que cobria
esta especie de subterraneo. Os pilares dos hypocaustos eram geralmente
quadrados, compostos de tijolos de 7, e 8 ou 10 pollegadas de
comprimento, uns sobre os outros, com o intervallo de uma camada de
argamassa.

[Figura 36]

Os pilares do hypocausto recebiam grandes tijolos de 18 a 20 pollegadas
em quadrado B, formando a base do pavimento das habitaes.

Em muitas localidades, os tijolos eram sobrepostos de modo que
apresentavam o cimo menos largo que a base.

O calorico no ficava concentrado no subterraneo onde estava o
hypocausto: circulava nos pontos mais elevados, e entrava egualmente em
todas as partes da atmosphera das salas, passando dor tubos quadrados de
barro cozido 4 e 5, introduzidos na grossura da parede, 3 e 3, gravura
de pag. 46 [fig. 37], um dos quaes, em posio vertical, penetrava no
hypocausto, emquanto outros, collocados horisontalmente, circumdavam os
aposentos.

O lume que aquecia o hypocausto era acso n'um forno posto em pequenos
pateos ou vestibulos proximos do hypocausto.

_Embutidos e ornamentos_.--O marmore foi frequentemente empregado para a
decorao das paredes.

Em geral, os architectos romanos souberam tirar grande partido dos
materiaes que fornecia o paiz em que se faziam as obras.

No era raro vr entrar em combinao os materiaes indigenas com os
exoticos mais preciosos, taes como o porphyro, os marmores cipolino, os
ophitos, etc., etc.

O uso de pintar as paredes era to geral que as simples construces em
taipa e os tectos revestidos de barro tambem recebiam essa ornamentao.
A pintura era applicada sobre delgado guarnecimento de cal.

Os methodos usados pelos romanos para a pintura das paredes so-nos
imperfeitamente conhecidos. Comtudo, um d'elles consistia em applicar
com a broxa cera colorida e derretida, estendendo-se ainda quente nas
paredes.

[Figura 37: Tubos verticaes (4 e 5) para circular o calor, mettidos nas
paredes]

A cra no era empregada s, mas misturavam-n'a com azeite para a tornar
mais liquida: todavia, a maior parte d'essas pinturas parece ter sido
assente a frio, e a sua adherencia seria produzida, talvez, por uma
especie de colla que lhe ajuntavam.

As paredes e os tectos eram tambem em algumas habitaes revestidos de
mosaicos de vidro preto, azul, branco, verde escuro, etc., decoraes
que se encontravam em muitas salas de banhos.

Plinio diz-nos que empregavam o vidro nos mosaicos das abobadas e das
paredes, advertindo que este uso era recente, comparativamente com o dos
mosaicos de pedra ou barro cozido. Achmos na _villa rustica romana_,
descoberta por ns em Leiria, duas casas com mosaicos d'este ultimo
modo, e outra de argila cozida.

_Telhas e telhados_.--Os telhados das casas romanas eram formados de
telhas chatas de grande dimenso, mais compridas que largas com um
resalto sobre os dois lados: assim como havia telhas curvas similhantes
s dos telhados modernos.[12] As primeiras adaptavam-se umas s outras
pelas extremidades que no tinham resalto; as segundas ligavam-se entre
si no sentido da inclinao do telhado, ficando em fiadas parallelas as
telhas chatas e para cobrir as juntas e evitar a infiltrao das aguas
da chuva.

Os fragmentos das telhas com resalto tem resistido quatorze seculos 
aco destruidora dos elementos, e das pancadas do arado; encontram-se
espalhados e enterrados em grande quantidade em quasi todos os logares
onde existiram construces romanas.

Em fim, estes restos so o melhor indicio para o reconhecimento das
regies antigamente occupadas pelos romanos.


*Pontes*

As pontes, obra de tamanha utilidade, tornam-se mui notaveis pelas suas
ousadas dimenses. Existem presentemente poucos vestigios d'ellas: o
maior numero ficou destruido, pela fora das correntes, ou reconstruido
em diversas pocas e alterado na primitiva construco. Podemos apenas
citar poucas das compostas na poca romana.

Nas pontes, como em outros monumentos gallo-romanos e luso-romanos,
empregou-se o grande apparelho, e muitas vezes de alvenaria com
argamassa (_empleton_) revestido de pequenas pedras symetricas (_opus
incertum_).

[Figura 38: A ponte de S. Chamas, e as suas duas portas monumentaes]

Quando usavam os materiaes de grande dimenso, as pedras ficavam prezas
umas s outras com os cancros de ferro ou de bronze, e algumas vezes com
malhetes de madeira de oliveira, previamente secca no forno.

Nas pontes construidas com pequeno apparelho a boa qualidade da
argamassa dava-lhes tal solidez, que os peges que sustentavam os arcos
no soffreram depois nenhuma alterao.

Os peges apresentavam algumas vezes, do lado da corrente, uma parte
saliente triangular, para cortar assim a fora da agua; e se o rio tinha
demasiada extenso, acontecia ento dividil-o em muitos braos, afim de
construir a ponte em seces. D'este modo corrigia-se a rapidez dos rios
pela diviso das aguas, e tornava-se menos difficil a construco das
pontes. Na idade media foram imitadas.

As pontes construidas com mais esmero e regularidade eram s vezes
verdadeiros monumentos, que serviam tambem para aformoseamento. Algumas
tinham portas monumentaes ou arcos de triumpho.

_Pontes de madeira_.--Tratmos das pontes de pedra, porque s estas
poderiam subsistir at os nossos dias; mas, durante o dominio dos
romanos, tinham elles egualmente grande numero de pontes construidas de
madeira.

Passava-se tambem os rios servindo-se de barcos de passagem, com
jangadas sustentadas em odres ou tonneis vazios, como  usado ainda hoje
em casos urgentes. Havia tambem pontes firmadas em barcos, como se v
figurado na columna de Trajano em Roma.

_Muralhas e caes_.--Os caes ou as grandes muralhas de supporte,
construidas nas margens dos rios, vinham ligar-se s pontes, quando
estas existiam nas cidades.


*Aqueductos*

Os aqueductos, pela sua consideravel extenso e a importancia das ruinas
que se conhecem em differentes pontos, offerecem interesse especial.

Os romanos, como todas as naes civilisadas, gastavam grande
quantidade de agua para os usos domesticos; sendo muito escrupulosos na
boa qualidade da agua, embora a fossem buscar a grandes distancias para
os centros da povoao, empregando para esse fim canaes ou aqueductos.

[Figura 39: Restaurao de um aqueduto em sipho]

Os aqueductos antigos que ainda existem, como os que possue a Italia, e
os vmos em outras partes, apresentam os canos de alvenaria feitos com
mais ou menos solidez, e mais ou menos cuidadosamente betumados.
Serviam-se geralmente das pedras de pequenas dimenses, embebidas na
argamassa. Os canos, sendo proporcionados ao volume de agua que deviam
levar, eram formados com abobada em volta perfeita, se s vezes cobertos
com grandes lageas assentes e sobrepostas sem cimento.

Para se obter o nivel das encostas que se encontravam na junco dos
encanamentos, faziam-n'os passar ento sobre arcos mais ou menos
elevados, que reuniam os dois lados do valle; outras vezes
sobrepunham-se dois ou tres renques de arcos, com receio de que a
demasiada altura dos pilares lhes diminuisse a solidez.

Quando o valle era muito profundo, para por este meio poder firmar-se o
encanamento do aqueducto em nivel conveniente, conduziam a agua em tubos
de chumbo que subiam at o cume da collina opposta, onde a agua pudesse
seguir a sua corrente natural, conforme Vitruvio descreve mui claramente
no seu 8.^o livro de architectura.

[Figura 40: Canal subterraneo do aqueducto]

[Figura 41: Canal de aqueducto sustentado sobre arcadas]

[Figura 42: Vista geral da ponte do Gard]

Para evitar trabalhos sempre difficies e dispendiosos, faziam seguir aos
encanamentos subterrneos, rodeios, ou sinuosidades, e por esta maneira
as aguas podiam transpr grandes espaos sem encontrarem encostas, e sem
ficarem impedidas pelos obstculos das montanhas.

Os aqueductos eram todavia mais communs soterrados, e s apparentes nos
valles, onde necessariamente os canos passavam sobre paredes ou
arcarias.

Os encanamentos que distribuiam as aguas nas fontes para os banhos e
para outros estabelecimentos publicos e particulares das cidades
gallo-romanas, eram feitos de chumbo ou barro. Saiam de um reservatrio
commum, ou castello de agua, _castellum_, como se v um em vora, do
tempo de Sertorio.

A primeira gravura da pag. 51 [fig. 40], mostra o encanamento do
aqueducto de Frjo, um dos mais extensos que subsistem, tal qual se
apresenta  vista quando se mantm subterraneo, ou collocado nas
encostas das collinas, fig. 41. Este exemplo explica todo o systema
empregado pelos engenheiros romanos.

Os aqueductos seguem a construco egual das obras de arte executadas
nos caminhos de ferro, transpem como ellas os valles sobre viaductos, e
atravessam as montanhas por meio de vallas ou tUneis.

Pontes e aqueductos serviam para transpr os valles, e alguns tinham 90
arcos. A ponte do Gard, em Frana, era formada de trs renques de
arcadas sobrepostas, servia para o transito e o ultimo conduzia a agua 
cidade, correndo na extenso de 41:000 metros. Indica a gravura da
pagina anterior a sua construco.

O numero dos aqueductos era extraordinario; no s se encontravam nas
proximidades das grandes povoaes, mas tambem das pequenas, e at junto
das casas de campo de limitada apparencia.


*Cloacas*

As _cloacas_ constituiam outra especie de aqueductos subterraneos para
receber as aguas inuteis, ou para as aguas da chuva e immundicies.

Em Roma, estendiam-n'as por toda a cidade, e subdividiam-n'as em muitos
ramaes que vinham desaguar no Tibre. O principal cano de despejo, com o
qual os outros communicavam era chamado _cloaca maxima_. Tinha abobadas
elevadas construidas com grande solidez, por debaixo das quaes se
passava em barcos[13].


*Praas publicas*

_O forum_ era geralmente uma praa onde se reuniam as assemblas do
povo, onde se administrava a justia e onde se tratavam os negocios
publicos. Estava em certas partes rodeado de _porticos_, edificios e
lojas.

Nas cidades de importancia secundaria, onde os porticos no eram
repetidos como em Roma, achavam-se principalmente perto dos monumentos
publicos, taes como os theatros, as thermas, os palacios, os templos,
etc. etc.; collocavam muitas vezes os porticos do _forum_, por detraz da
scena dos theatros, afim de que, conforme diz Vitruvio, quando
inopinadamente chovesse durante o espectaculo, o povo pudesse abrigar-se
ali.

A forma das praas, ou _fora_, era a do quadrilongo. Vitruvio affirma
que devia ter um tero em comprimento, a mais de um lado que de outro.


*Basilicas*

A palavra _basilica_, significa _casa real_: designava em Roma um
edificio sumptuoso dentro do qual os magistrados faziam justia, por
isso a distinguiam do _forum_, onde as sesses eram celebradas ao ar
livre. As basilicas tinham tambem a frma de um quadrilongo.

Parte dos porticos, interiormente decorados, ficava occupada pelos
commerciantes: portanto, estes edificios eram ao mesmo tempo destinados
aos negocios forenses, e uma especie de praa de commercio.

Em quanto  disposio das basilicas as primitivas egrejas christs
transmittiram-nos a imitao, e conservaram o nome. As basilicas
consistiam pois em vasto recinto, tres vezes mais comprido que largo,
dividido em renques de columnas formando muitas naves. No ha a certeza
de que as basilicas fossem rodeadas de paredes por todos os lados;
julga-se que algumas eram abertas, pelo menos de um lado, para dar mais
facil accesso ao povo, e para que as galerias communicassem melhor com a
praa publica.

No se pode duvidar de que no tivessem existido basilicas nas cidades
gallo-romanas; porm seria difficil indicar o sitio que occupariam,
porque desappareceram completamente os vestigios.


*Arcos de triumpho e portas monumentaes*

Os _arcos de triumpho_, porticos levantados  entrada das cidades, no
logar da passagem publica, perto dos _forums_, diante dos templos, e na
cabea das pontes, etc. etc.; afim de indicar a memoria de uma victoria,
de um grande servio prestado ao imperio, e algumas vezes sem outro
intuito mais que o de aformosear as cidades onde se erigiam.

[Figura 43: Arco de triumpho]

D-se tambem esta denominao s portas das cidades antigas, que
apresentavam uma disposio quasi similhante  dos arcos de triumpho.
Estes, porm, eram monumentos isolados, formando um s corpo, e no se
ligavam s construes das trincheiras ou muralhas.

Era o contrario do que succedia nas _portas da cidade_, as quaes no
obstante patentearem por vezes nas fachadas grande magnificencia,
todavia as extremidades lateraes ficavam encravadas nas muralhas dos
recintos fortificados, formando-lhes assim o accessorio ou a
ornamentao.

[Figura 44: Portas de Santo Andr em Autun]

Entre as portas, a disposio mais seguida era a que a gravura
apresenta, copiada da de Santo Andr de _Autun_, em Frana.


*Templos*

Duas formas eram consagradas para estes edificios religiosos, a
quadrilonga e a circular. Seguiam mais geralmente a primeira. Os
_templos_ receberam differentes denominaes, conforme a disposio das
columnas que os decoravam; distinguindo-se pela seguinte maneira:

Os templos com pilastras--Os _prostylos_, fig. 45.--Os _amphiprostylos_,
fig. 46.--Os_ peripteros_, fig. 47.--O _monoptero_, fig. 48.--Os
_pseudo-peripterios_, fig. 49.--Os _hypetheros_, fig. 50.--Os
_monopteros_.

[Figura 47: Periptero quadrado]

[Figura 48: Periptero redondo]

[Figura 45: Prostylos]

[Figura 49: Pseudo-Periptero]

[Figura 50: Hypethreos]

[Figura 46: Amphiprostylos]

Os primeiros no tinham seno pilastras nos cunhaes da frente, e s uma
columna de cada lado da porta.

Os templos _prostylos_ apresentavam quatro columnas na face exterior, e
no tinham nenhuma aos lados, nem na parte posterior.

Nos templos _peripteros_, as columnas rodeavam completamente o edificio;
sendo em o numero de seis nas fachadas anterior e posterior.

Nos templos _pseudo-peripteros_ differenavam-se dos antecedentes em que
as columnas estavam embebidas nas paredes lateraes e na parede do fundo,
em logar de ficarem separadas.

Duplo renque de columnas rodeava os templos dipteros, oito das quaes
ornavam a fachada.

Finalmente, o templo _monoptero_ apresentava simplesmente a cupula
sustentada sobre columnas dispostas em circumferencia; e o santuario no
era fechado.

Resulta pois, do que fica exposto, que em todos os templos, excepto nos
monopteros, havia uma parte fechada que era o santuario; em muitos
templos, corriam em roda d'esse santuario galerias abertas, como especie
de porticos para a ornamentao externa do edificio. A parte encerrada
era designada sob o nome de _cella_ ou _nau_. Ahi collocavam a estatua
da divindade, em honra da qual o templo fra erigido.

Na frente da _cella_, e por detraz das columnas da fachada, estava o
_pronaus_ ou vestibulo, no qual abriam a porta da entrada;  extremidade
opposta do templo dava-se-lhe o nome de _posticum_. Algumas vezes
reservavam, na parte posterior da _cella_, um quarto A destinado a
guardar o thesouro do templo, e que se designava sob o nome de
_opisthodomos_.

As columnas eram sempre em numero par nas fachadas dos templos; e
conforme que se contava quatro, seis, oito ou dez, os templos tomavam a
denominao de _tetrastylos_ (4 columnas), _hexastylos_ (6 columnas),
_octostylos_ (8 columnas), ou _decastylos_ (10 columnas).

Finalmente, certos templos eram rodeados de uma cerca _peribobos_ ou
antecedidos de pateo fechado, e ornados com portico,  roda do qual
estavam os aposentos dos sacerdotes.

A estatua da divindade, feita de bronze, marmore, ou pedra, collocava-se
no fundo da _cella_, em pedestal um pouco mais elevado que o altar, e
fazia face  porta da entrada. Em geral, os templos ficavam voltados
para o oriente.

[Figura 51: Fachada da Casa Quadrada de Nimes]

No se deve julgar que os templos fossem muito vastos; alguns d'elles
tinham at pequenissimas dimenses, e isso explica-se facilmente pelo
conhecimento dos usos religiosos antigos, porque o exercicio do culto
era individual; cada um tinha dias proprios para o sacrificio, em
quanto, no christianismo, o exercicio do culto  collectivo.

O templo _pseudo-periptero_ hexastylo ha em Nimes (Frana), da ordem
corinthia, o qual serve actualmente para museu de archeologia. A gravura
mostra as suas bellas propores e belleza.

As dimenses e a disposio do _templo de Diana_, em Evora,
apresenta-nos outro exemplo d'esta ordem de edificios do antigo
paganismo, que felizmente se conserva em Portugal nas suas magestosas
ruinas, como se v na presente gravura.

[Figura 52: Templo de Diana, em Evora]

Os templos rectangulares ficavam dispostos como indica a gravura da pag.
60 [fig. 53], rodeados de porticos; no meio d'elles havia o logar da
cella e dentro o pedestal para a divindade.

Os templos circulares dividiam-se em duas classes: a primeira chamada
_monoptero_, compunha-se smente de recinto formado por columnas
collocadas em pedestal commum, _stylobato_; o segundo _periptero_,
apresentava uma _cella_  roda da qual havia columnas, pousada
egualmente sobre um _stylobato_, com degraus para ganhar a altura do
pedestal, e dar entrada para o templo.

Fragmentos achados dos templos antigos, fizeram vr que as suas
esculpturas tinham sido pintadas de branco e amarello com traos
encarnados, para dar mais relevo aos contornos.

No s havia templos nas cidades, mas tambem nos campos. Alguns d'estes
eram de grande venerao, pois que serviam de deposito aos mais ricos
thesouros, principalmente os dedicados a Mercurio.

[Figura 53: Plano do templo rectangular de Izernore (Frana)]

_Altares_.--J dissemos em que parte do templo se collocavam as estatuas
das divindades; agora nos occuparemos da forma dos _altares_.

Havia entre elles differena de forma e de materia, propores e usos.

A maior parte dos que se conservaram at hoje mostra a construco de
marmore ou cantaria simples; havia-os tambem de madeira; mas em menor
numero. Os altares de metal apresentavam o feitio de tripode; os altares
de marmore ou madeira eram quadrados, redondos, e s vezes triangulares.

Os ornatos mais usados nos altares antigos eram os que representavam as
cabeas das victimas, taas, e outros vasos e instrumentos para os
sacrifcios, entrelaados de grinaldas de flores e folhas[14]. Liam-se
em alguns altares inscripes indicando a data da consagrao, o nome do
fundador, e as razes da devoo. Os mais bellos e custosos tinham
ornamentaes em baixo-relevo representando a divindade que se queria
venerar e os seus attributos.

[Figura 54]

Costumavam fazer em cima dos altares e no meio d'elles, uma cavidade
para receber as _libaes_ ou o sangue das victimas.

Alguns altares eram fundados nas encruzilhadas, junto das estradas mais
frequentadas, onde depois se ergueram cruzeiros, nos tempos modernos,
para memoria.


*Edificios destinados aos jogos publicos*

Tinham os povos antigos tres especies de edificios destinados aos jogos
publicos: o _circo_, o _theatro_, e o _amphitheatro_. Muitas vezes teem
confundido os trs sob a mesma denominao, de _circos_; porm a forma,
as dimenses, e o destino estabelecem entre elles diferenas notaveis.

Os _circos_ eram mais bem considerados que os amphitheatros e os
theatros; a forma d'aquelles edificios era de um parallelogrammo
prolongado, circular em um dos topos, e quadrado ou levemente convexo do
lado opposto. Os dois lados maiores apresentavam exteriormente duas
ordens de architectura sobrepostas, limitadas por uma attica e cobertas
com terrao. _Lojas_ e _passagens cobertas_ conduziam ao interior do
circo, e occupavam o primeiro renque das arcadas. _Seis torres
quadradas_, quatro d'estas nos pontos de junco dos grandes e pequenos
lados do circo, e duas nas extremidades, sobresaiam aos terraos; as
quaes torres eram ornadas de quadrigos, ou grupos de andarilhos.

[Figura 55: Circo Maximo de Roma]

A entrada para os carros destinados s corridas era pela extremidade
convexa do circo; doze arcadas, no comprehendida a que se achava
debaixo da torre, fechadas por grades de ferro, serviam de cocheiras,
_carceres_, onde os cavallos eram guardados antes do comeo das
corridas.

 fcil comprehender a disposio dos assentos postos no interior de um
circo: sobre os dois grandes lados e no hemiscyclo opposto aos
_carceres_, levantavam-se os palanques, tendo acima a galeria ornada de
columnas correspondentes s paredes que separavam as arcadas exteriores
da _segunda ordem_, e por meio das quaes podiam circular os
espectadores.

Havia tambem, por cima dos carceres, outros palanques, e era ahi,
superior  entrada principal na torre collocada ao centro das cocheiras,
que estava a tribuna reservada para o imperador ou para o magistrado que
presidia aos jogos.

[Figura 56: Tribuna de um circo]

Entre os assentos dos espectadores e o espao destinado para os jogos
(_area_), havia, em alguns circos, um canal, de largura de 10 ps, cheio
de agua (_euripus_), resguardado por engradamento do lado da _area_.
Porm os circos no eram rodeados de tal fosso: ainda no se encontrou
nenhum vestigio no de Caracalla em Roma, embora fosse um dos principaes,
assim como em outros explorados depois.

O _euripus_ no se abria nunca do lado dos _carceres_, para no
interromper a entrada para o circo.

No centro da _area_ dos circos levantavam uma parede de 4 ps de altura
e 12 de largura, prolongando-se em quasi todo o comprimento do recinto.
A esta construco, que dividia o circo longitudinalmente, davam o nome
de _spina_. O imperador Augusto foi o primeiro que fez levantar sobre a
_spina_ um obelisco dedicado ao Sol.

Havia tambm sobre a _spina_ dos circos pequenos templos, altares,
estatuas e sete bolas, _ova_, sustentadas em eixos, que serviam para
indicar o numero de voltas executadas pelos carros, _ova ad metas
curriculis numerandis_, e sete delphins postos em pedestaes, ou em
architrave sustentada por columnas. Os delphins tinham sido escolhidos
em venerao de Neptuno, porque se suppunha serem estes os animaes mais
ageis do mar. Nas duas extremidades, e na parte exterior da _spina_,
havia sempre tres pyramides firmadas na mesma base, e servindo de ponto
de limite. Era junto d'estes marcos (_metoe_) que os carros deviam
voltar para as extremidades do circo, evitando tocar no marco. O ponto
de partida era collocado de modo que os concorrentes tinham sempre 
esquerda a _spina_ e os marcos.

Os conductores de carros (_aurig_) traziam um vestuario como especie
de librs de cres differentes e formavam partidos ou faces.
Primeiramente houve quatro librs: a branca, _alba_; a encarnada,
_russea_; a azul, _veneta_, e a verde, _prasina_. O imperador Domiciano
juntou a estas mais duas: a purpura, _purpurala_; e dourada, _aurata_.

Quando os espectadores se enthusiasmavam faziam apostas para que
alcanasse triumpho outra faco, ou cr. Tempos depois, as cres usadas
nos circos deram logar a formarem-se verdadeiras faces politicas, a
que pertenciam milhares de cidados.[15]

_Naumachia_.--Suppem-se que os _circos_ serviam s vezes de
_naumachia_. A _naumachia_ era para a simulao de combates navaes, que
se davam em grandes caldeiras cheias de agua, rodeadas de construces
anlogas s dos circos; todavia, concebe-se difficilmente como um circo
podia estar apropriado para este genero de divertimentos sem grandes
inconvenientes e sem obras preparatorias. A transformao da _area_ dos
circos em lagos devia acontecer raras vezes, porque em algumas cidades
mandavam abrir lagos apropriados para os combates navaes.


*Theatros*

Quasi todas as cidades importantes da Gallia possuiam theatros
edificados no reinado de Adriano e Antonio, o _Piedoso;_ esses
monumentos eram encostados s collinas sobre o declive das quaes se
dispunham os assentos de cantaria em semi-circulo. Na parte inferior
d'estas bancadas estava a orchestra, que correspondia ao que chammos
plata nos actuaes theatros, e que ficava sobre um terreno plano, assim
como a scena.

[Figura 57: Plano de um theatro antigo]

Esta ultima disposio do theatro dividia-se em tres partes, a saber: o
_proscenium_, ou _pulpitum_, o palco em que representavam os dramas; a
_scena_, grande fachada muitas vezes ornada com as diversas ordens de
architectura, e o _post cenium_, onde os actores se preparavam para
entrar em scena.

_A scena_ apresentava tres portas no fundo: a do centro, mais alta e
ornada que as outras, chamava-se _porta real_; entrava por ali o
personagem principal da pea, que representasse o dono do palacio; as
figuras secundarias entravam pelas outras portas que se designavam
_hospitalia_, porque de certo representavam os hospedes ou familiares do
dono do palacio.

A parede do fundo da scena formava dois lados ou alas (_versur_,)
onde havia outras duas portas, uma  direita e outra  esquerda, as
quaes faziam suppr darem saida para o campo e para a praa publica. A
configurao de um theatro apresentava pois de um lado a forma
semi-circular, do outro a de quadrado. Para chegar ao logar dos
espectadores havia muitas escadas partindo do circuito e dirigindo-se da
circumferencia para o centro, afim de estabelecer muitas divises que,
pela raso de sua forma de cunha, eram designadas com o nome de _cunei_.

Havia, alm d'isso, na elevao do amphitheatro (_cavea_) que cercava a
orchestra, duas ou tres divises principaes, indicadas por separaes
chamadas _prcinctions_ e ficavam parallelas s filas dos
assentos.[16] Estas divises tinham o nome de _cavea prima_, _cavea
media_, _cavea maxima_ ou ultima, conforme estivessem mais ou menos
proximas da orchestra.[17]

Havia tambem, em muitos theatros, aberturas quadradas, correspondentes a
corredores abobadados dispostos sob os degraus do theatro, e por onde
cada qual podia passar para occupar o seu logar, sem ser obrigado a
subir da orchestra ou a descer da summa, _summa cavea_. Estas aberturas
chamavam-se vomitorios (_vomitoria_,) porque parecia que lanavam fra
os espectadores, quando estes entravam em multido para os seus logares.

Tinham os antigos tres especies de scenas, a scena tragica, a scena
comica e a scena satyrica.

As vistas do theatro eram diversas, conforme o genero das peas que se
representavam.

As mudanas da decorao praticavam-se por varios systemas. Chamava-se
aos bastidores _ductiles_, quando giravam em corredias; _versatiles_,
quando se viravam sobre pio.

Muitas machinas fraccionavam na scena e coadjuvavam os papeis dos
actores.

Como os theatros no eram cobertos, estendia-se acima das paredes um
grande toldo para dar sombra aos espectadores. Este _velarium_[18]
estava fixo ou suspenso em mastros cravados no alto das paredes.
Vitruvio recommenda que no exponham os theatros do lado do sul, para
evitar que os raios do sol aqueam demasiadamente o ar.

[Figura 58: Plano do theatro de Champlieu]

O theatro de Orange, em Frana,  uma ruina digna de ser contemplada, e
poucas ainda ha que se lhe possam comparar. As suas columnas tinham 18
ps de altura e 2 ps e 4 pollegadas de diametro; a altura das paredes
era de 108 ps com tres ordens de columnas. A fachada exterior era
decorada por duas fileiras de arcadas sobre as quaes havia um attico. O
theatro fra construido com cantaria de extraordinarias dimenses;
notando-se n'estas pedras vestigios de incendio violento.

[Figura 59: Exterior da scena do theatro de Orange]


*Amphitheatros*

De todos os monumentos romanos existentes so os _amphitheatros_ os que
offerecem ainda as ruinas mais collossaes e magestosas. Eram, como
indica a etymologia da palavra _amphitheatro_, dous theatros collocados
em frente um do outro, e separados por um espao livre de forma oval
destinado para os combates dos gladiadores e animaes ferozes.

A este espao davam o nome de arena _arena_, por causa da areia que
espalhavam pelo cho, afim de fazer desapparecer o sangue dos homens e
dos animaes derramado durante a luta.

[Figura 60: Plano de um amphitheatro]

Os palanques eram dispostos  roda da _arena_, de maneira que de todos
os lados os espectadores podessem gosar o espectaculo. Nos
amphitheatros, como nos theatros, esses logares eram divididos
horisontalmente por cintas curvas ou _baltei_; e verticalmente pelas
escadas em subdivises cuneiformes, como explicamos acima. Os degraus
apoiavam-se nas abobadas, que iam estreitando para o lado da _arena_,
alargando-se e elevando-se  medida que se aproximavam do portico ou
galeria, contornando o edificio. Estas abobadas, inclinadas para o
centro e alargando para o exterior, eram sobrepostas umas s outras, e
formavam muitas ordens, onde havia muitas cintas curvas.

[Figura 61]

A vista do corte de um grande amphitheatro mostra claramente esta
disposio, com as cintas e o effeito produzido no meio dos palanques
pelos _vomitorios da cavea_. Outro corte apresenta parte do amphitheatro
de Aries, mostrando como as grandes escadas, partindo das galerias,
conduziam ao interior da _cavea_.

[Figura 62: Corte do amphitheatro de Aries]

Na _arena_ havia combates de gladiadores,[19] de homens e animaes, e s
de animaes.

Nos dias de combate eram os gladiadores conduzidos processionalmente em
volta da _arena_; depois punham-n'os aos pares, juntando os de fora
egual. O signal do combate era dado por uma banda de trombetas.

[Figura 63: Fachada exterior do amphitheatro de Arles (Frana)]

Havia diversas classes de gladiadores, conforme as armas que empregavam
no ataque e na defeza.

O amphitheatro de Arles, ruina das mais pittorescas que existem n'este
genero em Frana, tinha de comprimento do grande eixo 420 ps de Norte
ao Sul; e do pequeno eixo 309 de Leste a Oeste. A arena tinha no grande
diametro 209 ps, e no pequeno diametro 119: gravura da pag. 71 [fig.
63].

[Figura 64: Uma das principaes entradas do amphitheatro de Bordeos]

Uma cousa particular, que no existe nos outros amphitheatros,  que as
galerias subterraneas giravam por baixo e  roda do _podium_.

O _podium_ estava a 14 ps acima do solo da arena. A parede do sucalco
que o levantava a esta altura, era furada na parte inferior, com oito
passagens, conduzindo das galerias subterraneas para a arena, passagens
que saiam da galeria exterior.

[Figura 65: Plano do amphitheatro de Chenevires (Loiret)]

O amphitheatro era construido com boa cantaria de grande apparelho,
posta sem cimento algum, e era tal a grandeza das pedras que, apesar de
tantos seculos decorridos, ainda se conservam solidas nos seus leitos.

O plano da gravura da pag. 73 [fig. 64] mostra a disposio de outro
amphitheatro, que pelo seu genero custava muito menos a construir, que
outros compostos de dois lados, porque sendo marcada a inclinao para a
encosta, bastava edificar o _podium_ do lado aberto. Podia-se tambm
facilmente transformar os amphitheatros em theatros com outras
disposies para o scenario e ento constituam monumentos mixtos, que
foram numerosos durante a dominao romana.


*Banhos publicos*

Os romanos tinham muitas especies d'estes estabelecimentos, que se
conheciam com os nomes de _therm_, _lavacra_ e _balnea_.

As _thermas_[20] eram vastos edificios que continham no s os banhos,
mas tambem porticos e passeios arborisados, salas onde os philosophos e
os rhetoricos davam lies publicas e liam as suas obras; onde se
exercitavam na luta: chamavam-lhes _gymnasios_.

Citavam, entre as mais sumptuosas de Roma, as de Agrippa, Nero, Tito,
Caracalla,[21] Antonino e Diocleciano, das quaes existiam ainda
consideraveis vestigios.

No se deve suppr comtudo que haveria similhantes estabelecimentos em
todas as cidades onde os romanos dominaram. O mais geral era construir
_lavacra_ ou _balnea_, de limitada dimenso,  qual estavam s vezes
reunidas algumas dependencias dos _gymnasios_.

Taes edificios eram mais ou menos espaosos conforme deviam ser francos
ao publico de uma cidade bastante povoada, ou simplesmente destinados
ao uso de pequena localidade, ou de uma unica familia.

O _apodyterium_ era a sala de vestir, ou em que ficavam depositados os
fatos antes do banho.

O _aquarium_ continha os reservatorios, nos quaes a agua era recebida e
podia clarificar-se antes de distribuida no edificio.

O _vasarium_, tirava este nome de tres grandes vasos, ou depositos
cheios de agua quente, de agua tepida e de agua fria.

O _laconicum_, estufa aquecida por um _hypocausto_, tinha s vezes uma
das extremidades em semicirculo, onde havia um _disco de bronze_, pelo
movimento do qual, abaixando-se ou levantando-se, podia augmentar-se a
intensidade do calor, ou diminuir a temperatura.

O _tepidarium_ era, segundo Vitruvio, a estufa menos quente que a
antecedente, e em contacto com ella.

Havia outra casa destinada para o banho de agua quente, que se tomava
n'uma especie de tina, _labra_.

O pequeno pateo ou vestibulo que precedia o forno do hypocausto
chamava-se o _propnigeum_ ou o _proefurnium_.

A parte destinada ao banho frio era o _frigidarium_, ou sala no
aquecida, onde os banhistas descanavam alguns instantes antes de sairem
para a rua, afim de evitarem o perigo da mudana rapida da temperatura.

A _piscina natatilis_ ou _frigida lavatio_, reservatorio de agua fria em
que as pessoas robustas podiam banhar-se depois do banho quente, e de
que se fazia uso principalmente no vero.

O _eleothesium_, onde os banhistas podiam esfregar o corpo com oleo ou
perfumes[22].

Uma curiosa pintura a fresco, copiada das thermas de Tito, em Roma, e
que representava o interior de uma casa de banhos, faz comprehender
muito bem a disposio geral de taes estabelecimentos, como se v na
gravura da pag. 76 [fig. 66].

Distinguem-se, no primeiro plano, duas salas sob as quaes arde o fogo do
hypocausto.

[Figura 66: Vista de uma pintura a fresco tirada dos banhos de Tito.]

Uma d'estas salas devia ser a _concamerata sudatio_, ou a estufa
abobadada para fazer transpirao.

Ha n'esta sala um pequeno forno, cuja abobada fecha em escudo de bronze
que se movia por meio de corrente, afim de deixar sair mais ou menos o
vapor da agua quente.

Junto do _laconicum_ est a sala do banho, separada por um corredor.
Vem-se muitas pessoas n'uma grande tina _labrum_, em volta da qual
esto assentos encostados  parede.

Mais afastado apparece representado o _vasarium_, com os tres grandes
vasos collocados em diversos niveis: o primeiro menos elevado contem
agua a ferver; o segundo agua tepida, e o terceiro agua fria.

No segundo plano, e por detraz da estufa para suar, v-se a sala chamada
_tepidarium_.

Passado o _tepidarium_, distingue-se a sala fria, _frigidarium_, que em
alguns banhos servia tambem ao _apoditerium_. Em ultimo plano est o
_eleothesium_, ou sala dos perfumes.

Para se formar ida exacta d'estes monumentos, convem examinar e
comparar entre elles que se tem descoberto em differentes partes; para
o que apresentamos as gravuras dos banhos de Verdes e de Landunum.


*Explicaes crestas casas de banhos*

Entrava-se por dois pateos sobre o comprido ou corredores G, K, nos
banhos de Verdes, para os sales P, S, os quaes tem ainda no cho
mosaicos. D'estes dois sales passava-se para o vestibulo B, e d'ahi
para a sala D, cujo piso estava sobre hypocausto.

A sala imediata C, devia ser de temperatura mais elevada  antecedente;
pois o forno collocado em F, no pequeno pateo proximo, recebia d'elle o
calor que circulava primeiro debaixo do piso da referida sala C.

Havia outras casas que no eram aquecidas pelo hypocausto, especie de
saletas pelas quaes se entrava e saa P, A, B, S.

[Figura 67: Banhos de Verdes (Frana), vistos de alto.]

[Figura 68: Plano dos banhos de Landunum (Frana).]

Duas bandeiras muito notveis que serviriam para banhos frios ML,
tinham communicao por uma passagem com a sala D; cada uma d'ellas
tinha em S e em R um reservatorio para agua.

Os pateos H e I serviam de deposito para o combustivel.

Em cada uma das salas O e P havia um nicho para uma estatua.

Nos banhos de Laudunum (pag. 79 [fig. 68]), no vestibulo D, o cho tinha
mosaicos. D'aqui passava-se  bella sala (n.^o 8), tambem com mosaico.
Seguiam-se outras casas com o solo suspenso e aquecido pelo hypocausto;
em uma (n.^o 7) de um lado tem um nicho circular, e do outro, quadrado
_d c_, que serviam para as banheiras.

A sala n.^o 6 seria a reservada para conservar maior gro de calor,
porque o forno do hypocausto tinha a boca d'elle no centro d'esta casa.

O forno tinha serventia pelo pequeno pateo n.^o 4. Antes de atravessar a
sala n.^o 6 aquecia tres reservatorios revestidos de cimento _f. f._

As salas E, e os n.^{os} 9, 10, 11 eram casas para depositos do
estabelecimento.


*Palacios*

Quasi todas as cidades de pequena importancia tinham palacio destinado
para os aposentos dos imperadores, quando as visitavam; porem antes
serviam para os seus representantes, os intendentes ou funccionarios
encarregados da administrao do paiz.

Os palacios que deviam offerecer as disposies analogas s das casas
nobres dos particulares, differenavam-se principalmente pela extenso,
pelos peristylos, pateos e diversas dependencias. Os de maiores
dimenses, como o de Trajano, eram ligados ao _forum_, junto do qual
havia basilica, onde se julgavam os criminosos, e tambem _thermas_.

Tal era a grandesa do palacio de Diocleciano, em Spalatro (na Dalmacia),
cujas columnas e paredes esto ainda de p, comprehendendo grandes
divises: templo, basilica, pretorio, independentemente dos aposentos
imperiaes.


*Casas particulares*

Daremos algumas explicaes a respeito das construces particulares.

Chamavam _prothyrum_, nas casas das cidades,  passagem por onde se
entrava no interior d'ellas.

Era n'esta passagem o quarto do porteiro _cella ostiarii_, e s vezes a
parte que servia de vestibulo, com habitao de mediana extenso.

O _atrium_ era a galeria quadrada (3)[23] tendo ao centro um pateo
descoberto (_impluvium_), no meio do qual havia um tanque  superficie
do cho (_compluvium_) para receber as aguas da chuva (D).

O _atrium_ era ornado com os retratos da familia; o dono da casa recebia
n'elle os seus clientes. Havia muitas especies de _atrium_.

O _atrium_ toscano, que se encontrou em Pompeia em grande numero de
casas e usado unicamente nos primitivos tempos, tinha o telhado
sustentado por madeiros cruzados em angulos rectos: o telhado tinha
escoantes para todos os lados e para o centro do pateo.

Existia a mesma disposio no _atrium tetrastylo_; apenas quatro pilares
ou columnas, collocadas nos angulos do _impluvium_, sustentavam as vigas
do tecto nos pontos de junco.

No _atrium_ corinthio, as columnas para ponto de apoio eram mais
numerosas, e o _impluvium_ era tambm mais espaso. Construiram o
_atrium_ s para as grandes habitaes.

O _atrium displuviatum_ tinha os telhados inclinados em sentido inverso
dos precedentes, de modo que lanavam as aguas da chuva para fora da
casa, em logar de as conduzir para o _impluvium_.

Finalmente, no _atrium testudinatum_, o pateo central era coberto de
telhado um tanto mais elevado, que os das galerias.

[Figura 69: Plano de uma casa nobre na cidade romana.]

Nos predios importantes, como  representado no plano junto, havia em
roda da galeria do _atrium_ aposentos destinados a diversos usos, com
saidas para a galeria, e alguns dos quaes serviam de _tribuna_ ou sala
de festim (C, C, C).

Na extremidade do _atrium_, e em frente do _prothyrum_, estavam o
_tablinum_ (4) e duas casas mais pequenas, chamadas _azas_, communicando
com elle (5-6).

O _tablinum_ e as azas encerravam a imagem dos parentes fallecidos, os
livros, archivos e papeis pertencentes aos negocios do proprietario,
assim como os documentos relativos ao emprego que exercia.

O _peristylo_ apresentava, alm do _tablinum_, uma galeria ornada de
columnas, como a do _atrium_ corinthio (17-17), cuja extenso porm era
mais consideravel.

Os aposentos eram distribuidos  roda d'estas galerias (18-19); um
espao quadrado, inteiramente descoberto e plantado de flres e arbustos
no centro, devia parecer a imitao da parte central de alguns
claustros.

Os _oeci_ correspondiam aos nossos sales.

A _exedra_ era outra grande sala para conversao, tendo n'um dos lados
a parede curvilinea, como se fosse construida para nicho.

Encontravam-se tambem, s vezes, nas habitaes das pessoas abastadas,
jogos de pla, _sphristerium_, e salas destinadas para outros jogos.

O _banho_ era composto em geral de _apodyterium_, _frigidarium_,
_tepidarium_, _sudatorium_ e _eleothesium_:

A _basilica_;

A _pinacothca_ ou galeria para quadros;

As _cosinhas_ e as officinas dependentes para o fabrico do po;

As cavalharias, cocheiras e armazens;

Finalmente, havia um numero mais ou menos consideravel de quartos para
dormir e para acommodar os creados.[24]

Eis agora o plano de outra casa de muito menor importancia que a
anterior, na qual no encontrmos nem as commodidades nem a regularidade
das grandes habitaes particulares; mas veremos que as residencias se
modificam conforme a necessidade da familia e as suas posses
pecuniarias. Examinemos a disposio de uma das casas descobertas nas
minas de Pompeia.

A entrada ou _prothyrum_ n.^o l, conduz ao _atrium_ n.^o 2, chamado
_displuviatum_, isto  que servia para o despejo das aguas da chuva para
fora da habitao. Tinha na grossura da parede o _impluvium_ n.^{os} 3 e
4, e os alegretes para as flres.

[Figura 70]

Uma escada de madeira n.^o 5, conduzia ao aposento que occupava o dono
da casa e a sua familia. Posto que a escada estivesse inteiramente
destruida, era facil observar o feitio do corrimo, porque o artista a
riscara na parede que lhe servia de caixa.

Os quartos 6 e 7 eram destinados para receber os estrangeiros e os
amigos. O escravo que guardava a porta da rua devia dormir no quarto
n.^o 8, onde se conservava tambem de dia. Era pequena a cosinha n.^o 9
collocada ao lado do corredor.


*Casa de campo (vill)*

Suppe-se que as mais bellas casas de campo romanas tinham s um andar;
tambem no se differenavam essencialmente das da cidade, e continham
pouco mais ou menos as mesmas divises, mais arbitrarias, conforme
exigia o terreno, a belleza do sitio, a importancia da explorao rural
e outras circumstancias da edificao.

_Columella_,[25] distingue tres partes em uma casa de campo occupando-se
de trabalhos ruraes, e o maior numero das _vill_ gallo-romanas e
luso-romanas estavam n'este caso. As tres partes eram:

A _villa urbana_, ou habitao do proprietario;

A _agraria_, ou habitao dos lavradores, e dos animaes necessarios para
a lavoura;

A _villa fructuaria_, onde se recolhiam as colheitas e os outros fructos
das terras.

As casas anuesas ao segundo pateo, chamadas _agrari_, ou
_fructuari_, apresentavam menos interesse com relao  arte, que a
_villa urbana_. Eram pertenas do casal ou dos trabalhos ruraes, _villa
agraria_.

No centro do pateo da villa via-se, como se pratica ainda hoje, um
tanque ou laga _compluvium_, para se banhar o gado.  roda do pateo
estavam dispostos, a cosinha, o abrigo para os escravos, a abegoaria
(_bubilia_), o curral das ovelhas (_ovilia_), as cavallarias
(_equilia_). Achava-se tambem ali o gallinheiro (_gallinaria_) e o
chiqueiro para os porcos (_har_).

Pode-se citar como pertenas da _villa fructuaria_, que estava ora
separada ora junta da _agraria_, a adega (_cell_) o palheiro
(_horrea_), a casa da fructa (_apothec_), etc.

Tem-se encontrado numerosos vestigios das _vill_ ou casas de campo
fabricadas durante a dominao romana. Em 1874 descobrimos em Portugal
uma proximo de Leiria, no logar de Martim Gil, na profundidade de 1^m,
59; havia ali differentes casas com mosaicos, e na principal achmol-o
de cinco cres. Fizemol-o transportar para o museu da archeologia, que
fundramos em Lisboa em 1866. No tem acontecido outrotanto com essas
casas antigas edificadas nas cidades, pois foi arrasado o solo que ellas
occupavam, e isso deu logar a aproveitarem-se os alicerces que ficaram
enterrados.

Para darmos ida mais completa, descreveremos a _villa_ de Bignor em
Sussex (Inglaterra), por ser a mais bem conservada que existe.[26]

Compe-se de dois pateos: um (A) mais vasto que o outro, rodeado de
muros bastante grossos, no formava angulo recto com os do segundo
pateo. O muro de leste tinha 277 ps de comprimento, o do norte 385 ps,
e o do sul 322.

Este pateo, que representava a _villa rustica_, comprehendia muitas e
amplas construces, mas nenhuma tinha vestigios de pintura nem de
pavimentos de mosaicos.

O outro pateo (B), que formava propriamente a _villa urbana_, estava
cercado de casas ricamente ornadas e quasi todas tinham mosaicos.

Um corredor ou _crypto-portico_ (1, 2, 3, 4), que era construido  roda
do quadrado do pateo servia para communicar com os aposentos; o
comprimento do corredor era de 160 ps, de leste a oeste.

[Figura 71: Villa de Bignor em Sussex.]

Uma grande parte d'estes corredores tinha mosaicos.

Ao longo do _crypto-portico_ septentrional estavam dispostos os
aposentos (n.^{os} 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13).

No n.^o 14 via-se um mosaico de 8 ps de quadrado dividido em formas de
rhomboides e triangulos.

O n.^o 15, era uma das melhores casas da _villa_, tinha 19 ps por 30,
com uma grande camara de 12 ps, o que lhe dava 32 ps por todo o
comprimento do norte ao sul; o pavimento era formado de mosaico muito
notavel, porque um dos desenhos representava o rapto de Ganymedes.

No meio do aposento, e ao centro da maior composio circular de
mosaico, via-se uma cisterna de pedra branca e de 4 ps de diametro, no
fundo da qual existia um orificio com tubo de chumbo.

Esla sala e o aposento immediato eram aquecidos por um hypocausto, cujo
forno se abria pela parte exterior da casa na base da parede.

O n.^o 19 era um _atriolum_, ou pequeno pateo ornado de columnas. Os
aposentos do pateo do norte e do sul (21, 22, 23, 24, 25), eram em geral
ornados de pinturas, e com o cho de mosaicos.

No n.^o 22 encontrou-se um fogo de 31 pollegadas de boca, e 17
pollegadas de fundo; tijolos ligados com ferro ao fogo formavam-lhe as
paredes lateraes. Outro fogo similhante foi achado no quarto n.^o 23.

Os aposentos menos importantes occupavam o lado sul at o n.^o 35.
Aquelles que se lhe seguiam haviam feito parte de um banho.

Depois da sala das estufas, vinha a que era destinada para o banho frio
(n.^o 40), que tinha 35 ps por 30. O cho estava menos mal conservado e
compunha-se de pedras brancas e pretas de 6 pollegadas em todos os
sentidos, dispostas em xadrez.

O sitio do banho achava-se pouco mais ou menos no meio do aposento. Era
um reservatorio com aproximadamente 18 ps de leste ao oeste, de 3 ps e
2 pollegadas de profundidade. Descia-se por tres degraus do lado de
leste, do oeste e do norte.

A bella sala (n.^o 41), situada a leste da precedente, apresentava um
quadrado de 35 ps, porm era um tanto irregular por causa da direco
diagonal da parede de leste. Admirava-se um mosaico mais bem conservado
que os restantes.

A maior parte destas _vill_ teria sido construida nos tres primeiros
seculos da era christ, julgando-se assim pelas medalhas encontradas nas
suas ruinas, e que algumas datam do seculo IV.


*Monumentos funereos*

Depois de descrevermos os edificios, onde os antigos passavam a vida de
confortos da civilisao romana, a ordem natural nos conduz aos
monumentos que encerravam os despojos mortaes.

Ainda que algumas familias mandassem enterrar os corpos, todavia o uso
de queimal-os foi quasi geral em Roma antes da conquista da Gallia, e
n'este ultimo paiz, nos dois primeiros seculos da era christ.[27]

A fogueira funebre (_rogus_ ou _pyra_) era formada de lenha de facil
combusto e faziam-n'a mais ou menos alta conforme a cathegoria das
pessoas finadas. O corpo era posto sobre uma especie de leito de ferro
ou maca, e os parentes do defuncto, depois de lhe terem dirigido o
ultimo adeus, voltavam o rosto e acendiam a fogueira com uma acha.

Quando a fogueira estava extincta, lanavam vinho nas cinzas do
defuncto, e ento estas eram cuidadosamente encerradas em uma urna que
mettiam em seguida na terra com certo numero de vasos de differentes
formas e tamanhos, que se collocavam em roda, os quaes estavam cheios de
liquidos ou algum manjar offerecido aos _deuses manes_.

As urnas de barro descobertas em grande numero de cemiterios so em
geral do feitio simples, e muitas apresentam cr cinzenta; comtudo,
notam-se por suas formas perfeitas e graciosas. As mais ornadas tem
filetes, entre os quaes se traaram riscos parallelos. Algumas tem
estrias ao alto, outras molduras entrelaadas, em zig-zags, etc. etc.
As formas mais geraes so as das gravuras seguintes _a_, _b_, que se
encontram nos antigos cemiterios.

[Figura 72: Urnas de vidro, do museu de Tours.]

As urnas de vidro, muito mais raras que as de barro, eram reservadas
para os finados de familias abastadas. Tem um tanto o feitio das urnas
de barro, porm o mais  apresentarem a configurao de um grande frasco
com gargallo redondo com uma ou duas azas, sendo o corpo ora cylindrico,
ora quadrado.

As urnas mais notaveis so de cobre batido e lavrado, e tambem estas
difficilmente se encontram.

Em Alcacer do Sal fez-se em 1874 o descobrimento de um necropole romano,
no qual se acharam quatro urnas cinerarias com pinturas, imitando o
genero etrusco, obra executada por artista grego. Eram de differentes
tamanhos, tendo a maior 0,59 de altura, 0,34 de largura; esta rara
descoberta feita em Portugal causou bastante admirao entre os
archeologos estrangeiros.

[Figura 73]

O orificio das urnas era tapado, ou com um prato voltado, ou com um
pedao de tijolo, ou ardozia, e at com um bocado de lagea.

Encontram-se geralmente junto d'estas urnas, taas de differentes
generos e pequenos vidros com gargallo estreito e sobre o comprido,
especie de galheta com feitios variados; mas o maior numero  de barro
encarnado, e suppe-se terem servido para conservar o vinho, o leite,
ou algum licor offertado aos _manes_ do finado.

[Figura 74]

A maior parte das urnas, foram mettidas dentro da terra sem caixas de
resguardo; porm muitas tiveram esses cofres para a conservao. Se a
madeira que serviu para isso apodreceu a primitiva existencia parece
provada pelos pregos que ligavam as taboas, que se encontram s vezes em
roda das urnas.  possivel que as urnas de vidro ou crystal, que
pertenciam a defunctos de cathegoria, fossem mettidas nos cofres de
madeira ou de pedra. Alguns d'estes ultimos, encontrados em varios
cemiterios, eram compostos de duas peas e bastante espaosas para
conterem a urna _cineraria_, e os vasos accessorios de que j fallmos.
Finalmente, construiam s vezes, no proprio local, e no momento do
enterro, o cofre ou resguardo que devia conservar a urna _cineraria_.

Em quanto s cinzas do finado de humilde condio e pobre eram mettidas
em vasos de formas simples, e accumuladas nos cemiterios sem cousa
alguma que as indicasse; as que pertenciam  classe media da sociedade
tinham por cima da urna um _cippo_, e os mais opulentos apresentavam um
monumento ainda mais importante.[28]

Em geral, os monumentos mais sumptuosos estavam postos em fileira nas
_vias_ que davam entrada nas cidades.

As pedras sepulchraes, ou _estlas_,[29] tomavam differentes feitios e
algumas apresentavam inscripes e a effigie do finado. [fig. 75]

[Figura 75: Estla.]

No se deve cessar de recommendar as exploraes dos cemiterios romanos.
Quando se procede a obras publicas, ou particulares, descobre-se a sua
existencia no meio dos campos, principalmente nos terrenos incultos,
onde as urnas tem sido conservadas por faltas de convenientes
excavaes.

Algumas sepulturas, destinados  classe inferior, so tambem monumentos
importantes como se v na presente gravura.

[Figura 76: Monumento de S. Ramiro.]

O monumento pyramidal de S. Ramiro,  um edificio composto de tres
ordens de andares sobrepostos, com aproximadamente 50 ps de altura. O
primeiro andar  quadrado, e serve de pedestal, com baixos relevos nas
quatro faces; pilastras sem pedestaes ornam-lhe os angulos.

O segundo andar  egualmente quadrado com quatro arcos de archivolta que
assentam em pilastras; nos angulos tem quatro columnas corinthias com
estrias; o friso  ornado de arabescos em que se distinguem cavallos
marinhos alados, sereias, etc.

O terceiro de frma circular, mostra uma cobertura conica sustentada por
columnas corinthias, semelhando d'este modo o lanternim do pequeno
templo circular _monoptero_: debaixo d'esta especie de cupula esto
collocadas duas estatuas em p, uma de homem, outra de mulher.

No pode haver duvida de que esta pyramide seja monumento sepulchral;
pois sobre o friso do segundo andar, ficando orientado ao Nordeste,
v-se a seguinte inscripco:

    SEX L M IVLIEI C F PARENTIBVS SVEIS

que se tem lido d'este modo:

_Sextus Lucius Marcus Julii curaverunt fieri parentibus suis_. As duas
estatuas representariam pois o pae e a me de _Julius_, os quaes
erigiram a pyramide.

[Figura 77: Sarcophago do museu de Ruo.]

_Enterramentos_.--Os corpos que no eram queimados, enterravam-n'os em
sarcophago de pedra ou em caixes de chumbo, resguardados em outro cofre
de madeira, ou de pedra, como se v na gravura da pag. 93 [fig. 77].

[Figura 78: Sarcophago com inscripo e a ascia, (_est collocada por
cima do M_).]

Em numerosos sarcophagos dos pagos est representada a _ascia_,[30] e o
nivel, em esculptura. Alguns tem uma inscripo na tampa, porm esta
v-se mais geralmente no meio do cofre, como indicamos na gravura da
pag. 94 [fig. 79].

As inscripes eram mui interessantes por quanto expressavam o maior
sentimento das familias. Os antigos nada tinham que invejar aos povos
modernos a este respeito: e  facil comproval-o. Eis um epitaphio que
patenteia o profundo affecto de uma infeliz me chorando a perda da
filha querida:

     _ dr! quo amargas tem sido as lagrimas derramadas n'esta
     sepultura em que jaz Lucinia... Lucinia, suave alegria de tua me.
     Sim! aqui est sob este gelido marmore. Prouvesse aos Deuses que o
     espirito de novo se animasse porque ella conheceria quo dolorosa 
     a minha afflico. Viveu 27 annos, 10 mezes e 25 dias. Parthenoca,
     me infeliz, lhe mandou erigir este monumento_.

Os Aliscamps deixaram-nos outros que se distinguem por sua philosophia,
e a cujo sentido se d muitas vezes a interpretao da philosophia
christ. Taes so as duas inscripes seguintes:

     *D. M. FVI, NON SVM; ESTIS, NON ERITIS; NEMO IMMORTALIS*

     _Fui, no sou; sois, no sereis; ninguem  immortal_.

Por outra vemos que entre os romanos, _como entre ns_, os herdeiros
eram mais solicitos em apoderarem-se dos bens dos paes, que dispostos a
levantarem-lhes jazigos; de modo que os homens avisados mandavam
construir os tumulos em vida, para terem a certeza de que no se lhes
perdia a memoria.

     *D. M. LVCIVS GRATIVS EVTICHES DOMVM AETERNAM VIVVS SIBI CVRAVIT NE
     HAEREDEM ROGARET TAVTA*

     _Lucio Grado Eutichis erigiu, ainda vivo, esta morada eterna, para
     no pedir ao seu herdeiro que lhe prestasse este servio_.

Ao findar a dominao romana, quando o christianismo estava solidamente
estabelecido na Gallia, _a incinerao dos mortos j no se
praticava_.[31]

Os sarcophagos christos em marmores so faceis de distinguir dos
sarcophagos pagos por causa das esculpturas symbolicas, ou das scenas
biblicas que os ornam.


*Objectos de barro*

Os objectos de barro so, na maior parte, fragmentos que se encontram
nas localidades habitadas no tempo da dominao romana.

As peas mais notaveis pela frma delicada e pela conservao, so de
barro vermelho envernisadas com bastante brilho, e ornadas com figuras
em relevo. Encontram-se em grande quantidade nos logares que tiveram
importancia sob o dominio romano.  raro, sem duvida, acharem-se vasos
inteiros; mas pode julgar-se pelos fragmentos encontrados quaes seriam a
forma e as dimenses dos objectos a que pertenciam.

Os vasos de barro encarnado apresentavam quasi o mesmo feitio, vasos
bojudos, tijelas ou gamellas de differentes tamanhos [fig. 79], taas
com p, compoteiras, pequenas taas, travessas redondas de diferentes
tamanhos com borda saliente [fig. 80], pratos, pires, etc, etc.

Pode suppr-se que a boa loua encarnada servia principalmente para o
servio da mesa, e para o de toucador.

[Figura 79]

[Figura 80]

A forma dos vasos era geralmente perfeita: os que tinham figuras eram
fabricados com moldes, e isto explica a apparencia gasta de alguns; o
interior era liso, notando-se apenas alguns circulos concentricos
formados pelo torno. Por baixo do fundo do vaso achava-se, quasi sempre,
o nome do operario ou do fabricante, gravado com uma especie de
estampilha ou sinete.

Estes nomes esto umas vezes no genitivo, outras antecididos ou seguidos
das lettras _o_ ou _of_, para designar _officina_, assim: _of Severi_;
_Bassi_; _of o_, _Croci_, _Crassi o_; o que quer dizer que os vasos
sairam da officina ou da fabrica de Severo, de Basso, de Croco, de
Crasso, etc, etc.

[Figura 81]

A palavra _manu_, escripta com todas as lettras ou em abreviatura, como
nas inscripes de: _Priscilli manu_, _Silvani m_, significa da mo de
Priscillio, de Silvanos, etc.

Alguns d'estes vasos eram inteirios, no podendo sair do molde seno
depois do barro ter seccado para que o relevo se tirasse sem damno do
concavo do molde.

A maior parte porm era tirada de duas ou mais peas, porque seria
impossivel formar um molde de uma s pea para os vasos bojudos.

Se os fabricantes de loua de barro imprimiam os seus nomes no fundo
d'esses vasos, os artistas que fariam as formas e compunham os assumptos
que deviam apparecer nos relevos exteriores, inscreviam tambem os seus
nomes nos moldes, entre as figuras.

_Barro preto_.--As peas de barro preto so mais raras que as
encarnadas, embora se encontrem misturadas com estas.

Tem-se encontrado cobertas com bom verniz cr de bano, e mostrando
argila, menos compacta que a dos vasos encarnados; ora cinzenta, ora
esbranquiada, ou avermelhada.

_Objectos de barro bronzeado_.--Apparecem tambem em muitas localidades
pequenos vasos muito leves, de barro encarnado ou amarellento, misturado
de quartzo cobertos de verniz de furta-cres, suavemente applicado.

[Figura 82]

_Barros avermelhados, cinzentos escuros, ou esbranquiados_, etc.--So
mais ou menos apurados; a massa ou argila de differentes cres foi
empregada para fabricar travessas, pratos, vasos de diversos feitios
destinados para varios usos, botijas, etc.

[Figura 83]

Nos vasos destinados para os liquidos, como so as nossas garrafas,
encontram-se, quer de barro vermelhado, quer cinzento ou esbranquiado,
formas mui elegantes, das quaes se conservaram algumas at o presente.

Os vasos, como os que se vem em seguida, ora de barro encarnado, ora
cinzento, apreciam-se um tanto com as saladeiras, ou tijelas grandes, de
que ainda se faz uso.

[Figura 84]

Encontram-se, egualmente, em terrenos cultivados, onde se acham tambm
telhas e vestigios de habitaes romanas.


*Figurinhas de barro*

As estatuetas de barro cozido de cr alvacenta acompanham, muitas vezes,
os fragmentos que assignalam o logar occupado pelas construces
gallo-romanas, e ainda constituem objectos pertencentes  arte de
oleiro.

Encontra-se sobre tudo, frequentemente entre ellas, a figura de _Venus_
Anadyomena,[32] e taes estatuetas so to similhantes, que parece terem
saido do mesmo molde; esto completamente nuas, com a cabea coberta de
abundantes cabellos, a mo direita apanhando-os, e a esquerda tomando a
roupagem.

As outras figurinhas que se encontram mais vezes junto das Venus,
representam uma mulher amamentando uma ou duas creanas, sentada n'uma
cadeira de braos feita de vime encanastrado. Alguns archeologos
suppem ser esta a imagem de Latona,[33] outros a de Lucina:[34] porm,
julga-se que estas figuras serviam para _ex-voto_, tanto das mulheres
que desejavam obter feliz parto, como d'aquellas que mostravam a sua
gratido pelo terem alcanado, ou em fim das mes que creavam os filhos,
e que o offereciam  deusa invocada por ellas n'esta circumstancia.

[Figura 85]

A imagem de Mercurio encontra-se em grande numero entre as estatuetas de
barro cozido.

Mas nem todas as figurinhas antigas que se encontram eram destinadas
para reproduzir a imagem das divindades. Eram vazadas nas formas como se
faz presentemente um grande numero de objectos profanos, caricaturas,
brinquedos para creanas, etc.

[Figura 86]

Entre estes ultimos, podem citar-se as figuras de aves, animaes
diversos, carneiro, javali, etc., e tambm chocalhos como os achados em
tantas localidades diversas, e que se compem d'um pequeno globo de
barro cozido tendo dentro seixosinhos que produzem o effeito de um
cascavel.


*Objectos em metal, joias e utensilios*

Havia egualmente reproduzido em cobre grande parte dos vasos que se
faziam de barro, principalmente as travessas, bacias, garrafas e baldes
para sacrificios.

Fizeram-se at magnificos de prata, com figuras em relevo batido: a
prova d'isto so os utensilios de todas as formas, em bronze, que
existem em tantas colleces publicas e particulares: broches, fivelas,
e joias to variadas como as que ahi se vem, mostram a que ponto os
romanos tinham alcanado a perfeio no trabalho dos metaes, nas pedras
preciosas, no marfim, etc., etc. A descripo de todas estas riquezas
artisticas, no pode figurar n'este resumido compendio.

Os objectos de metal, e os restos mais preciosos pertencentes 
antiguidade, foram descriptos por Caylus, Winckelmann, Chabonillet,
etc., sabios antiquarios que deram a mais completa explicao a este
respeito.

Pela mesma razo, no nos devemos occupar das medalhas romanas, no
obstante o estudo ser util e importante, porm necessitaria augmentar
demasiadamente este livro, e o nosso intuito foi unicamente apresentar
resumida apreciao da architectura pertencente  poca gallo-romana, e
descrever os vestigios dessiminados no solo habitado pelo povo-rei.


*Muralhas de defeza ou forticaes*

Sem discutir aqui sobre qual seria a poca a que pertencem as muralhas
que defendiam as cidades gallo-romanas, devemos comtudo fazer meno
d'ellas, porque constituem ainda provas muito importantes d'essa grande
poca.

Quasi sempre estas muralhas foram construidas com pedra miuda, mostrando
na face exterior o pequeno apparelho, separado por cadeias de tijolos, e
cuja base formada por pedras de grande apparelho deviam j ter servido
nos monumentos da architectura, que provavelmente foi preciso sacrificar
para lhe aproveitar o material afim de se fortificarem em momento de
apuro.

O sabio Mr. de Caumont j tinha ha muitos annos insistido sobre um
grande facto, que nenhum historiador indicra, e que ainda ignoram quasi
todos, e  a existencia em differentes localidades d'um _castrum_, cujas
muralhas esto em grande parte formadas de cantaria mostrando obra de
esculptura dos seculos II e III, taes como os fustes de columnas,
frisos, capiteis, tumulos, pedras com inscripes; e por isso o illustre
archeologo julgou poder determinal-o como obra dos fins do seculo IV,
sendo a execuo d'essas fortificaes em todos os logares apropriados
para tal fim.

Seja como fr, tendo-se as cidades concentrado cada vez mais, era
preciso restringir o perimetro do recinto  parte mais facil para ser
defendido, e na possivel extenso com os materiaes disponiveis, cercado
de muralhas. Podiamos citar diversos recintos fortificados com 3 a 10
hectares smente, em quanto essas cidades onde os havia, occupavam antes
100 e at 200, durante o tempo que disfructavam a paz.

No fim de tres seculos de espantosa prosperidade, a Gallia viu, no
seculo IV, a desorganisao e o enfraquecimento gradual das instituies
romanas. Custa a comprehender a que grande aviltamento chegaram no
seculo V.

Um esboo rapido sobre os acontecimentos politicos da Gallia, no quarto
quartel do seculo III explicar claramente a marcha progressiva da
decadencia das artes do seculo IV. Depois das invases, a miseria
publica augmentou, os abusos mutiplicaram-se, a energia moral diminuiu,
as grandes obras da architectura cessaram, e o gosto foi-se alterando
cada vez mais.

As artes, para prosperarem, tem necessidade de paz e liberdade: estas
condies essenciaes faltaram-lhe no seculo IV; v-se portanto declinar
tanto mais rapidamente quanto os lapsos da paz eram mais curtos e raros.

Todavia, assim como as instituies romanas no desappareceram com a
quda do governo romano, assim tambem as artes trazidas para a Gallia
pelo grande povo sobreviveram ao imperio.

Tal era a robustez da organisao romana, diz Michelet, que, quando a
existencia parecia desemparal-a, quando at os barbaros estavam prestes
a distruil-a, sujeitaram-se a ella sem o quererem. Foram obrigados, de
boa ou m vontade, a habitar sob as abobadas invenciveis que no podiam
abalar; a curvar a cabea e receber ainda por cima, embora vencedores, a
lei de Roma vencida.

O que expressa Michelet com relao s instituies romanas, poderemos
applical-o s artes, com que o povo-rei dotou a Gallia. Os monumentos em
ruinas serviram em breve de modelos aos barbaros que apparecem armados
com o facho de incendio. Os barbaros comearam a trabalhar tambem, a
edificarem templos, palacios, mosteiros, etc, etc; foram procurar nas
tradices dos antepassados os conhecimentos para repararem as proprias
devastaes. A architectura gallo-romana, mais ou menos alterada nos
seculos V e VI, seguiram seu caminho, at que uma grande revoluo, no
fim do XII seculo, substituiu por principios inteiramente novos as
antigas tradies.  o que ns propomos demonstrar nos capitulos que vo
seguir-se.

[Figura 87]


       *       *       *       *       *


*ADDITAMENTO*

*Inscripes Latinas*


Como o estylo lapidar tem certas formulas, abreviaturas especiaes e
signaes particulares, sem adquirir algumas explicaes a este respeito,
a interpretao ficaria baldada para quem no as possuisse; embora seja
tambem preciso no ignorar os acontecimentos historicos, todavia
julgamos conveniente ajuntar a este compendio alguns esclarecimentos
epigraphicos afim de facilitar aos principiantes a leitura das lapidas:
portanto, acrescentamos a esta publicao um quadro succinto das
principaes abreviaturas que se encontram nas inscripes luso-romana,
por serem estas as de mais difficil interpretao.

Ainda que a mesma lettra inicial corresponda a diversas palavras, o
sentido geral da inscripo indicar a que fr mais apropriada  sua
significao.  pois facil distinguir, com alguma sagacidade, os nomes
proprios dos nomes substantivos.

A palavra _tribu_,  qual as familias romanas pertenciam, fica sempre
subentendida, e s se menciona o nome.

As datas, em geral, sabem-se pela indicao do anno do reinado do
imperador, ao tempo do qual o monumento foi erigido. Finalmente, deu-se
o epitheto de _Divus_, a cada um dos imperadores, depois da sua morte.

    A.--ager; augustales: augustatis.--A. A.--apud agrum.

    AB. AC. SEN.--ab actis senatus.

    [AE]. CVR.--dilis curulis. A. FRVM.--a frumento.

    A. H. D. M.--amico hoc dedit monumentum.

    A. K.--ante kalendas.--A. O. F. C.--amico optimo faciendum curavit.

    A. P.--dilitia potestate; amico posuit.

    A. S. L.--animo solvit libens; a signis legionis.

    A. T. V.--aram testamento vovit.

    A. XX. H. EST.--annorum viginti hic est.

    B. A.--bixit (pro vixit) annis.

    B. DE. SE. M.--bene de se merit, _vel_ merito.

    B. M. D. S.--bene merenti, _vel_ bene merito de se.

    B. P. D.--bono publico datum.

    B. Q.--bene quiescat.--B. V.--bene vale.

    BX. ANOS. VII. ME. V. DI. XVII.--vixit annos septem, menses, sex,
    dies decem septem.

    7.--centuria; centurio.--C.--centurio.

    C. B. M.--conjugi bene merenti; et F.--conjugi bene merenti fecit.

    CENS. PERP. P. P., _vel_ CENS. PERP. p. r., _vel_ CENS. P. P.
    P.--censor perpetuus; pater patri

    COH. I. AFR. C. R.--cohors prima africanorum civium romanorum.--FL.
    BF.---flavia beneficiariorium.

    C. I. O. N. B. M. F.--civium illius omnium nomine bene merenti
    fecit.

    C. K. L. C. S. L. F. C.--conjugi carissimo loco concesso sibi
    libenter fieri curavit.

    C. P. T.--curavit poni titulum.

    C. R.--civis romanus; civium romanorum; curaverunt refici.

    C. S. H. S. T. T. L.--communi sumptu hredum, sit tibi terra
    levis.

    D.--Decimus; decuria; decurio; dedicavit; dedit; devotus; dies;
    diis; divus; dominus; domo; domus; quinquaginta.

    D. C. D. P.--decuriones coloni dederunt publice.

    D. D.--dedit, dedicavit.

    D. D. D. S.--decreto decurionum datum sibi; dono dedit de suo.

    D. K. OCT.--dedicatum kalendis octobris.

    D. M. ET. M.--diis manibus et memori.

    D. N. M. E.--devotus numini majestati ejus.

    D. O. S.--deo optimo sacrum; diis omnibus sacrum.

    D. P. P. D. D.--de propria pecunia dedicaverunt; de pecunia publica
    dono dedit.

    D. S. F. C. H. S. E.--de suo faciundum curavit, hic situs est.

    D. T. S. P.--dedit tumulum sumptu proprio.

    E. CVR.--erigi curavit.--EDV. P. D.--edulium populo dedit.

    E. E.--ex edicto; ejus tas.

    E. H. T. N. N. S.--exterum hredem titulus nostre non sequitur.

    E. I. M. C. V.--ex jure manium consertum voco.

    E. S. ET. LIB. M. E.--et sibi et libertis monumentum erexit.

    E. T. F. I. S.--ex testamento fieri jussit sibi.

    E. V. L. S.--ei votum libens solvit.

    FAC. C.--faciendum curavit.

    F. C.--facere curavit; faciendum curavit; fevit conditorium; felix
    constans; fidei commissum: fieri curavit.

    F. H. F.--fieri hres fecit: fieri hredes fecerunt.

    F. I. D. P. S.--fieri jussit de pecunia sua.

    F. M. D. D. D.--fecit monumentum datum decreto decurionum.

    F. P. D. D. L. M.--fecit publice decreto decurionum locum monumenti.

    F. Q.--flamen quirinalis.

    F. T. C.--fieri testamento curavit.

    F. V. F.--fieri vivens fecit.

    G. L.--genio loci.--G. M.--genio maio.

    G. P. R.--genio _seu_ gloria, populi romani.

    G. R. D.--gratis datus, _vel_ dedit.

    G. S.--genio sacrum; genio senatus.

    G. V. S.--genio urbis sacrum; gratis votum solvit.

    H.--habet; hac hastatus; hres; hic; homo; honesta; honor; hora;
    horis; hostis.

    H. B. M. F.--hres bene merenti fecit.--F. C.--faciendum curavit.

    H. C. CV.--hic condi curavit; hoc cinerarium constituit.

    H. D. D.--hredes dono dedere; honori domns divin.

    HE. M. F. S. P.--hres monumentum fecit sua pecunia.

    HIC. LOC. HER. N. S.--_vel_ HIC. LOC. HER. NON. SEQ.--hic locus
    hredum non sequitur.

    H. L. H. N. T.--hunc locum hres non teneat.

    H. M. AD. H. N. T.--_vel_ H. M. AD. H. N. TRAN.--hoc monumentum ad
    hredes non transit.

    H. N. S. N. L. S.--hres non sequitur nostrum locum sepultur,
    _vel_ hredem ... locus, etc.

    HOC. M. H. N. F. P.--hoc monumentum hredes nostri fecerunt
    ponere.

    H. P. C.--hres ponendum curavit; hic ponendum curavit;--L. D. D.
    D.--hres ponendum curavit loco, dato decreto decurionum.

    H. S. C. P. S.--hic curavit poni sepulcrum; hoc sepulcrum condidit
    pecunia sua; hoc sibi condidit proprio sumptu.

    H. T. V. P.--hres titulum vivus posuit, hunc titulum vivus
    posuit.

    I. AG.--in agro.---I. C.---judex cognitionum.

    I. D. M.--inferis diis maledictis: Jovi deo magno.

    I. F. P. LAT.--in fronte pedes latum.

    II. V. DD.--duumviris dedicantibus.

    II. VIR. AVG.--duumvir Augustalis.

    II. VIR. COL.--duumvir coloni.

    II. VIR. L. D.--duumvir juri dicundo.

    II. VIR. QQ. Q. R. P. O. PEC. ALMENT.--duumviro quinquennali
    qtori reipublic operum pecuni alimentari.

    III. VIR. AED. CER.--triumvir dilis cerealis.

    IIII. V.--quatuorviratus.

    IIII. V. A. P. F.--quatuorviri argento publico feriundo, _vel_ auro.

    IIII. VIREI. IOVR. DEIC.--quatuorviri juri dicundo.

    IIIIII. VIR. QQ. L. D.--sexvir quinquennalis juri dicundo.

    IN. AG. P. XV. IN. F. P. XXV.--in agro pedes quindecim in fronte
    pedes viginti quinque.

    I. O. M. D. D. SAC.--Jov. optimo maximo, diis deabus sacrum.

    I. P.--indulgentissimo patrono; innocentissimo puero; in pace;
    jussit poni.

    I. S. V. P.--impensa sua vivus posuit, _vel_ vivi posuere.

    K. B. M.--carissim bene merenti, _vel_ carissimo.

    K. CON. D.--carissim conjugi defunct.

    K. D.--kalendis decembris; capite diminutus.

    L.--liberta; lucia.--L. B. M. D.--libens bene merito dicavit; locuno
    bene merenti dedit, _vel_ libert, _seu_ liberto.

    L. F. C.--libens fieri curavit; libertis faciendum curavit; libertis
    fieri curavit, _vel_ locum _aut_ lugens.

    LIB. ANIM. VOT.--libero animo votum.

    L. L. FA. Q. L.--liberlis libertabus familiisque libertorum.

    L. M. T. J.--locum monumenti testamento fieri jussit.

    LOC. D. EX. D. D.--locus datus ex decreto decurionum.

    L. P. C. D. D.--locus publice concessus, datus decreto decurionum.

    L. Q. ET. LIB.--libertisque et libertabus.

    L. XX. N. P.--sestertiis vigenti nummum pendit.

    MAN. IRAT. H.--manes iratos habeat.

    M. B.--memori bon; merenti bene; mulier bona.

    M. D. M. SACR.--magn deum matri sacrum.

    MIL. K. PR.--milites cohortis prtori.

    M. P. V.--millia passuum quinque; monumentum posuit vivens, _vel_
    memoriam.

    NAT. ALEX.--natione Alexandrinus.

    NB. G.--nobili genere.--N. D. F. E.--ne de familia exeat.

    N. H. V. N. AVG--nuncupavit hoc votum numini augusto.

    N. N. AVGG. IMPP.--nostri Augusti imperatores.

    NON. TRAS. H. L.--non transilias hunc locum.

    N. T. M.--numini tutelari mumicipii.

    N. V. N. D. N. P. O.--neque vendetur, neque donabitur, neque pignori
    obligabitur.

    OB. HON. AVGVR.--ob honorem auguratus; ... H. VIR.--duumviratus

    O. C.--ordo clarissimus.

    O. E. B. Q. C.--ossa ejus bene quiescant condita.

    O. H. IN. R. S. F.--omnibus honoribus in republica sua functus.

    O. LIB. LIB.--omnibus libertis libertabus.

    O. O.--ordo optimus.--OP. DOL.--opus doliare, _seu_ doliatum

    P. B. M.--patri bene merenti, _vel_ patrono, _seu_ posuit.

    P. C. ET. S. AS. D.--ponendum curavit et sub ascia dedicavit.

    PED. Q. BIN.--pedes quadrati bini.

    P. GAL.--prfectus Galliarum, _vel_ prses.

    PIA. M. H. S. E. S. T. T. L.--pia mater hic sita est: sit tibi terra
    levis.

    P. M.--passus mille; patronus mnnicipii; pedes mille: plus minus;
    pontifex maximus; post mortem; posuit merenti; posuit mrens;
    posuit monumentum.

    P. P.--pater patri; pater patratus; pater patrum; patrono
    posuit; pecunia publica; perpetuus populus: posuit prfectus;
    prtorio prpositus; propria pecunia; pro portione;
    proprtor; provincia Pannoni; publice posuit; publice
    propositum; publii _duo_.

    P. Q. E, _vel_ P. Q. EOR.--posterisque corum.

    P. S. D. N.--pro salute domini nostri.

    P. V. S. T. L. M.--posuit, voto suscepto, titulum libens merito.

    Q. K.--qustor candidatus.

    Q. PR. _vel_ Q. PROV.--qustor provinci.

    Q. R. _vel_ Q. RP.--qustor reipublic.

    Q. V. A. I.--qui vixit annum unum, _vel_ qu. A. III. M.
    II.--annos tres, menses duos.

    A. L. M. IIII. D. V.--onnos quinquagnita, menses quatuor, dies
    quinque. A. P. M.--qui vixit... annos plus minus.

    R. C.--romana civitas; romani cives.

    R. N. L. ONG. P. X.--retro non longe pedes decem.

    ROM. ET. AVG. COM. ASI.--Rom et Augusto communitates Asi.

    R. P. C.--reipublic causa; reipublic conservator;
    reipublic constituend, retro pedes centum.

    R. R. PROX. CIPP. P. CLXXIIII.--rejectis ruderbusi proxime cippum
    pedes centum septuaginta quatuor.

    R. S. P.--requictorium sibi posuit.

    S.--sacellum; sacrum; scriptus; semis; senatus; sepulcrum; sequitur;
    serva; sibi: singuli; situs: solvit; stipendium.

    S.--uncia.--S.--centuria.

    S.--semuncia.--SB.--sibi; sub.

    S. D. D.--simul dederunt, _vel_ dedicaverunt.

    S. ET. L. L. P. E.--sibi et libertis libertabus posteris ejus.

    S. F. S.--sine fraude sua.--SGN. signum.

    S. M. P. I.--sibi monumentum poni jussit.

    SOLO. PVB. S. P. D. D. D.--solo publico posuit, dato decreto
    decurionum

    S. P. C.--sua pecunia constitut; sumptu proprio caravit.

    S. T. T. L.--sit tibi terra levis.

    S. V. L. D.--sibi vivens locum dedit.

    TABVL. P. H. C.--tabularius provinciae Hispaniae citerioris.

    T. C.--testamento constituit, _vel_ curavit.

    T. T. F. V.--titulum testamentum fieri voluit.

    V. C. P. V.--vir clclarissimus praefectus urbi.

    V. D. P. S.--vivens dedit proprio sumptu; vivens de pecunia sua.

    V. E. D. N. M. Q. E.--vir egregius devotus numini majestatique ejus.

    VI. ID. SEP.--sexto idus septembris.

    VII. VIR. EPVL.--septemvir epulonum.

    V. L. A. S.--votum libens animo solvit.

    VO. DE.--vota decennalia.

    V. S. A. L. P.--voto suscepto animo libens posuit.

    V. S. L. M.--votum solvit libens merito.

    V. V. C. C.--viri clarissimi.

    VX. B. M. F. H. S. E. S. T. L.--uxor bene merenti fecit, hic situs
    est. sit bibi terra levis.

    X.--mille.--X. ANNALIB.--decennalibus.

    X. IIII. K. F.--decimo quarto kalendas februarii.

    X. VIR. AGR. DAND. ADTR. IUD.--decemvir agris dandis attribuendis
    judicandis.

    XV. VIR. SAC. FAC.--quindecemvir sacris faciendis.

    XXX. P. IN. F.--triginta pedes in fronte.

    XXX. S. S.--trigesimo stipendio sepultus.

[Figura 88]




CAPITULO III

*IDADE MEDIA*

ERA ROMANICA


Chama-se idade-media o periodo comprehendido desde a quda do imperio
romano (V seculo), at o principio do seculo XVI.

A architectura dos primeiros seculos da idade-meia apresenta os
caracteres da architectura romana degenerada, e a designam com o nome de
_architectura Roman_: o typo roman persistiu at ao seculo XII.
Examinaremos este longo periodo da historia da arte, subdividindo em
duas epocas; o _roman primitivo_, que comprehende do V seculo ao XI; e o
_roman secundario_, que pertence aos seculos XI e XII.


PERIODO ROMAN PRIMITIVO


Depois das invases dos barbaros, as artes e as lettras acharam amparo
nas cidades, e depois nos mosteiros. Os architectos apropriaram s
necessidades da epoca parte dos edificios gallo-romanos; e exploraram a
outra parte como se o fizessem em uma pedreira; acharam nas columnas,
nos entablamentos, nas esculpturas diversas, e nos outros materiaes que
cobriam o solo, mina que por muito tempo lhes forneceu pedras j
lavradas: no tendo outro trabalho, o maior numero de vezes, seno
ajustal-os ao logar para que os destinavam: portanto a durao do _roman
primitivo_, pois, propriamente fallando,  a continuao do periodo
artistico antecedente, apenas com a alterao nas formas, pela
inhabilidade progressiva dos operarios e architectos.

Os elementos de decorao ficaram como estavam; as esculpturas, os
mosaicos, as pinturas, foram empregadas como no seculo IV; as
composies foram copiadas ou reproduzidas com insignificantes
variantes.

Infelizmente, possuimos bem poucos d'esses restos authenticos dos
edificios do _primeiro periodo roman_;  preciso recorrer aos ultimos
tempos do imperio, reunir mentalmente os mosaicos, as molduras das
decoraes, as pinturas decorativas, ento usadas, para completar a
escala da ornamentao durante os seculos V, VI, VII e VIII.

[Figura 89: Tumulo de marmore dos primeiros seculos christos]

Ao passo que se aproveitaram os fragmentos preexistentes nos edificios,
que resistiram s devastaes dos barbaros, fazia-se um trabalho de
assimilao que devemos ter em conta: alm de construir bastantes
edificios novos que lhes deviam ser indispensaveis, precisavam tambem de
supprir as faltas de outros, reparar as paredes e as esculpturas,
construir e ornar as igrejas novas. O elemento christo, com o seu
symbolismo novo, seus especiaes assumptos, fez nascer _uma nova escola_
de esculptura e de pintura, posto que se inspirassem dos modelos
romanos. Basta citar para prova d'isto os tumulos dos primeiros seculos
da idade media com as suas scenas biblicas, e as figuras cujos typos
existiam nas pinturas das catacumbas.

As primeiras igrejas christs foram copiadas das basilicas romanas. As
basilicas eram como edificios para os tribunaes, centros commerciaes
(bolsas) ou bazares. Dois renques parallelos de columnas dividiam o
edificio em tres partes, no sentido da largura. A grande nave central
era mais larga e mais elevada que as outras duas. Na extremidade das
tres galerias, e na central havia um espao pouco profundo, e de frma
circular, onde se assentava o presidente ou o primeiro juiz, tendo aos
lados todos os juizes accessores; o bispo ahi collocava a sua cadeira, e
as ceremonias religiosas eram apropriadas  disposio do local.

[Figura 90]

Ha em Abrantes uma igreja que  perfeito especimen d'esta disposio; 
a unica que suppmos haver em Portugal com este typo.

As abbadias, ou communidades religiosas, foram egualmente imitadas das
grandes habitaes romanas, tanto da cidade como do campo, de que
apresentmos um specimen na pagina 82 [fig. 69]; o antigo _atrium_, o
perystilo, tem sido representado na disposio dos claustros.

O _tablium_, ou grande sala, foi representada na casa do capitulo.

No mais foi tudo imitado das outras partes das habitaes romanas com as
modificaes que necessitava a vida commum dos religiosos. A igreja veio
smente trazer novo elemento  composio da parte central dos
conventos; porm o pateo externo, com os seus celeiros, curraes,
lagares, etc., apresentava a similhana de uma _villa rustica_ dos
romanos reunida  habitao do proprietario.

[Figura 91: Fragmento de um tabernaculo, ornado de pedras peciosas, de
pombas, palmeiras carregadas de fructas, symbolisando as graas
espirituaes. Esculptura mrovingia do museu d'Arles]

Os palacios tiveram disposio identica  das grandes casas romanas; os
seus pateos ornados de columnas ou de arcadas como os claustros, eram,
como estes, a reproduco exacta do _atrium_ e do _perystilo_. (Veja-se
a pag. 82. [fig. 69])

[Figura 92: O interior da crypta de Saint-Avit, em Orleans (IX seculo)]

[Figura 93: Columnas e pilastras da crypta com os capiteis]

As habitaes ruraes dos proprietarios abastados reproduziam tambem as
disposies principaes das _vill_ gallo-romanas.

[Figura 94: A igreja de Vieux-Pont-en-Auge (Calvados), construida com
pequeno apparelho]

Passemos rapidamente sobre esta primeira parte do periodo roman, do qual
existe mui pouco para citar, e vamos j occupar-nos do segundo periodo,
que nos apresenta grande numero de monumentos notaveis, dando porm
alguns fragmentos de architectura e esculptura pertencentes ao periodo
roman primitivo, n'esta pagina e nas seguintes para se formar melhor
ida, posto que succinta, do estado da arte nos seculos IX e X.

[Figura 95: Capitel da igreja de Jouarre (VII seculo)]

[Figura 96: Fronto do baptisterio de Poitiers]

[Figura 97: Paves e animaes symbolicos]


PERIODO ROMAN SECUNDARIO


O seculo IX, de to crueis provaes, vira desapparecer grande numero de
edificios pertencentes aos seculos anteriores. Estes edificios no
teriam grande solidez, porque os normandos facilmente os destruiram e
incendiaram, na occasio dos seus saques e vandalismos, e os que no
ficaram expostos a esta barbaria apresentam j o aspecto vetusto.

Quando quizeram reparar similhantes damnos, reconstruiram o que j
estava destruido, e no encontraram, como succedera no V e nos seguintes
seculos, seno fustes de columnas, capiteis, esculpturas provenientes
dos monumentos em ruinas dos gallo-romanos: foi preciso, no seculo X,
cortar nova cantaria, extrahir outros materiaes, executar esculpturas,
ainda que grosseiramente, para os ornamentos com que desejavam dar
realce s igrejas, aos palacios, e outros edificios publicos, ou
particulares: portanto, nova ordem de cousas devia resultar das novas
exigencias e necessidades. Viu-se, pois, no ultimo quartel do seculo X,
e principalmente no XI, a architectura em via de transformao, depois
caminhar gradualmente para o estado de esplendor a que attingiu no
seculo XII.

As esculpturas provenientes dos monumentos romanos, ou muito bem
imitados, deram certo brilho ao interior das grandes construces dos
seculos intermediarios: os mosaicos, as pinturas e estuques, occultavam
a pobreza dos materiaes empregados.

No seculo XI dispensaram os ornamentos no interior das habitaes, porm
exigiram mais solidez e mais segurana contra os incendios; construiram
mais frequentemente com pedra, pensaram em substituir com abobadas os
tectos de madeira, que haviam sido at ento quasi exclusivamente
empregados.

Os frades architectos, e os demais artistas, em plena liberdade para
innovar, construiram as igrejas e os edificios, onde havia necessidade
de taes obras, combinando novos planos e disposies inteiramente
desconhecidas.

As propores antigas exigidas na architeclura no continuaram a ser
observadas quanto ao _modulo_ das columnas, e suas subdivises. O
_colorete_ fez ento sempre parte do capitel, de certo contrario s
regras da architectura romana, porque o colorete andava ligado com o
corpo da columna.

As esculpturas mais rudimentares apresentavam series de figuras
repetidas, que se agrupavam, seguindo, conforme as escolas, systemas
differentes.

Estes factos, que o seculo XI apresenta ao observador prespicaz, fazem
de certo modo, d'esta poca, que vamos tratar, o ponto de partida dos
desenvolvimentos da architectura tal como se nos apresenta hoje  vista,
examinado o extraordinario numero dos edificios antigos que existem na
Europa.

Passamos portanto a apresentar, seculo por seculo, comparativamente, os
typos dos edificios religiosos, civis, e as fortificaes, e indicaremos
successivamente os seus caracteres principaes, por modo que possa
demonstrar-se claramente a marcha e o desenvolvimento da architectura e
das artes accessorias durante o periodo indicado.


*ARCHITECTURA RELIGIOSA*


Descrevendo os caracteres principaes da architectura religiosa do
periodo _roman secundario_, comprehenderemos ao mesmo tempo os seculos
XI e XII.

Os ornatos do seculo XI teem mui pouco relevo, e esto executados com
bastante rudeza; mas os do seculo XII j apresentam os contornos mais
correctos, com ornamentao mais variada, e de acabamento infinitamente
mais superior; pode affirmar-se que a architectura roman chegra 
maxima perfeio.


*Forma das igrejas*

Como j dissemos, as igrejas foram imitadas primitivamente das basilicas
romanas, porm algumas, logo desde os primeiros tempos, tiveram no risco
a frma da cruz, pelo augmento da parte a que chamamos cruzeiro.

A frma geral das igrejas um pouco vastas no seculo XI, e nos seguintes,
era a da cruz, cujos braos se estendiam de Norte ao Sul, e cuja cabea
estava figurada pelo cro voltado para Leste. A entrada principal era do
lado occidental; s vezes nas paredes lateraes da nave havia frestas. O
comprimento da nave comparado com o do cro e capella mr, o maior ou
menor desenvolvimento dos cruzeiros, estabeleceu nas frmas geraes das
igrejas mudanas importantissimas. O cro, menos comprid que a nave,
apresentava quasi sempre a tera ou quarta parte do comprimento total do
edificio.

[Figura 98]

Umas vezes as naves lateraes terminavam onde principiava a curva da
abside, como se v na figura 101, pag. 124; outras vezes prolongavam-se
em volta do cro como na figura 100. Havia tambem igrejas rectangulares,
ou com o fundo do cro recto.

[Figura 99]

Nos paizes do Norte, as igrejas acabavam a Leste e a Oeste, por absides
semicirculares, figura B, como egualmente existem em algumas igrejas
antigas, principalmente em S. Loureno de Grenoble, como indica a planta
junta; assim como outras muito mais antigas eram compostas sempre d'uma
nave terminando em frma circular, fig. 98; ou com os lados polygonaes,
cercada por naves lateraes ou galerias; havendo a Leste, um altar
collocado n'um appendice encostado sobre as paredes circulares. Esta
frma foi imitada pelo imperador Carlos Magno, na celebre igreja de
Aix-la-Chapelle, a qual tambem depois imitaram na igreja d'Ottmarsheim,
na Allemanha.

[Figura 100: Naves lateraes contornando a abside]

[Figura 101: Igreja com duas absides]

[Figura 102: Crte da igreja de Ottmarsheim (Alto Rheno)]

Dava-se em algumas igrejas a frma redonda ou octogona, para imitar a do
Santo Sepulchro de Jerusalem.

Por baixo do cro de muitas igrejas existiam cryptas ou capellas
subterraneas; quando tinham maiores dimenses, as suas abobadas eram
sustentadas por dois renques de columnas.

[Figura 103: Plano da igreja de Ottmarsheim]

Algumas cryptas prolongam-se por baixo do cruzeiro; desce-se para as
cryptas por escadas que saem das naves, ou da nave principal junto da
entrada[35] para o cro, ou dos cruzeiros.


*Apparelhos das construces*

Encontram-se nos seculos XI e XII os principaes apparelhos em uso na
architectura _roman primitiva_. O pequeno apparelho e o medio v-se
frequentemente applicado.

Quando se serviram de cantaria liza para cobrirem as faces das paredes,
assentavam-n'a de lado, com inclinao alternada para a direita e
esquerda (_opus spiscatum_). Os romanos usavam tambem pr as pedras
d'este modo.

[Figura 104]

No seculo XI, os apparelhos tinham larga facha de cimento nos
intersticios, ao passo que no seculo seguinte, as juntas mostravam menos
espessura.

Em alguns apparelhos medios vem-se diversas figuras profundamente
gravadas, parecendo signaes dos canteiros, que teriam por este meio
reconhecido as pedras que tivessem preparado para se lhes pagar os
salarios.[36]

[Figura 105]


*Contrafortes*

Os contrafortes tiveram no seculo XI muito pouca saliencia,
comparativamente com a que depois se lhes deu. No seculo XII, apparecem
muitas vezes os pilares ornados de columnas mettidas nos angulos com os
esbarros revestidos de curvas com imbricados [fig. 106].

[Figura 106]

[Figura 107]

[Figura 108]

Na Italia, na Allemanha e em outras naes, os contrafortes so mui
pouco salientes, e s permittem os de ressaltos separados por distancias
eguaes uns dos outros [fig. 107 e 108].


*Ornamentaes*

Para abreviarmos as explicaes sobre este ponto, daremos os desenhos de
algumas molduras ornamentadas, que eram mais vulgares nas construces
religiosas dos seculos XI e XII.

[Figura 109: Zigue-zagues oppostos]

[Figura 110: Filtes desencontrados]

[Figura 111: Zigue-zagues alternados]

Mr. de Caumont emprehendeu repetidas viagens por differentes paizes, com
o louvavel intuito de indagar quaes seriam as modificaes que o genio
dos architectos introduzira em tal ou tal provincia; assim como para
examinar se haveria synchronismo entre os edificios, apresentando a
grandes distancias uns dos outros identidade de typos architectonicos.

[Figura 112: Escamas]

[Figura 113: Carrncas]

[Figura 114: Pontas de diamante]

[Figura 115: Estrellas]

[Figura 116: Toral]

[Figura 117: Zigue-zagues dentados]

[Figura 118: Folhagem com serpes]

[Figura 119: Entrelaados]

[Figura 120: Ornamento dentado]

[Figura 121: Molduras entranadas e carrancas/Molduras com rhombos]

[Figura 122: Flores ornados de perolas]

[Figura 123: Faixas e molduras com perolas]

[Figura 124: Entranados com perolas]

[Figura 125: Discos e molduras com lavor]

[Figura 126: Palmas e quadrupedes]

Este trabalho scientifico de summo interesse para a historia da arte,
era mais um importante servio prestado aos estudos archeologicos por
pessoa j afeita por seu saber e dedicao.


*Arcadas fingidas*

[Figura 127: Do seculo XII]

As grandes superficies foram muitas vezes guarnecidas arcadas fingidas,
assentes em pilastras ou em columnas embebidas na parede, e dava-se-lhes
o nome de _arcaturas_: faz-se ida do effeito que produziriam vendo o
_especimen_ que apresentamos.

[Figura 128: Archivoltas dos seculos XI e XII.]


*Portas*

De todas as partes dos edificios, so sem duvida as portas que tem sido
mais ornadas de molduras no seculo XII, e at em alguns edificios com
aspecto simples. Porm no seculo XI conservam ainda, no maior numero,
grande simplicidade nas frmas. Foi no seculo XII que mais se
multiplicaram as archivoltas, e o que obrigou depois a proporcionar o
numero das columnas que serviam de apoio  queda d'essas curvas, e dar
maior grossura aos ps direitos interiores: algumas portas no
apresentam nem columnas nem pilastras, apenas tem ornatos desde o cimo 
base, com aformoseamentos de mais ou menos profuso.

[Figura 129: Porta da igreja de Mortain]

Os tympanos ( assim que se chama o espao semicircular comprehendido
entre a abertura e as archivoltas bem como o espao triangular entre as
mulduras do fronto e as do entablamento do perystilo), so compostos de
peas symetricas com molduras ou sem ellas; ha outros que esto cheios
de baixos-relevos; como se v n'este tympano da igreja de S. Miguel,
proximo d'Angoulme (Frana), no qual o archanjo representa vencer o
inimigo do genero humano, prostrado aos ps sob a frma de gigante
drago.  nos tympanos das portas que se encontra principalmente a
representao de Christo entre os symbolos dos quatro evangelistas, o
boi,[37] a aguia, o leo e o anjo.

[Figura 130]

Muitas portas tiveram primitivamente alpendre coberto com telhas; d'este
modo poderam ornal-as com baixos-relevos e molduras, posto que fossem de
cantaria, pois sem o que ficariam expostas  intemperie das estaes, e
perder-se-hia o trabalho. Nas igrejas e nas cathedraes existem
egualmente grandes alpendres, que figuram vestibulos diante das portas,
como em Santarem, na igreja de S. Francisco.

[Figura 131: Jesus Christo n'uma aureola, no meio dos symbolos dos
quatro evangelistas]

[Figura 132: Portico-vestibulo em Moissac]


*Fachadas*

[Figura 133]

A disposio das fachadas varia conforme a grandeza das igrejas. Na
representada pela gravura junta de uma igreja rural, a porta tem duas
archivoltas guarnecida de rhmbos e de zigue-zgues, tendo no cimo um
renque de arcadas fingidas; uma unica abertura occupa o centro do
fronto com uma janella de volta perfeita. A outra figura representa uma
igreja, mostrando os lados indicados conforme a posio das naves
lateraes, tendo j maior fachada que a precedente. Por cima da porta
vem-se tres archivoltas sustentadas por columnas e ornadas de diversas
molduras; mais acima a janella de volta com archivolta e columnasinhas;
e a sua parte superior cornija com modilhes e fronto triangular. Esta
combinao  frequente nas igrejas do seculo XII.

[Figura 134: Fachada da igreja de Jort (Calvados).]


*Janellas*

As janellas de maiores dimenses so estreitas e sem columnas. No seculo
XII, principalmente, so maiores e ornadas de archivoltas sustentadas
por columnasinhas, e por vezes acompanhadas de arcadas fingidas.

[Figura 135]

[Figura 136: Janella guarnecida de duas _arcaturas_]

As aberturas so circulares, e usam chamar-lhes _espelhos_ ou _oculos_;
principiaram a ser empregadas no seculo XII, divididas em raios do
centro para a circumferencia. Apresentavam tal ou qual similhana com as
rodas das carruagens. O logar dos espelhos era escolhido nas
extremidades da nave principal, ficando por cima da porta occidental, e
s vezes tambem no centro da abside ou do cro.

[Figura 137]

Temos ainda felizmente, em Portugal, um edificio religioso que conserva
o typo completo da architectura do seculo XII, e  o que pertence 
profanada igreja de S. Joo de Alporo, em Santarem. Todas as formas e
detalhes, que caracterisam a architectura roman, se conservam ainda na
dita construco. Os seus dois portaes com o feitio de volta
semicircular; as columnas sem lavor, sustentando archivoltas; o tympano
liso por cima da verga do portal; os butareos singelos; a cimalha
composta de carrancas; o espelho aberto na extremidade da nave e
radiado; a fachada principal voltada para o lado do poente, conforme a
orientao adoptada no culto christo; apparelho pequeno applicado 
construco, conservando muita largura nas juntas da cantaria; tudo
emfim nos offerece o completo modelo das primitivas igrejas d'aquella
poca, que o fundador da monarchia portugueza mandou construir no reino.
E alm de apresentar a mais evidente prova do estylo da architectura do
seculo XII, tambem nos confirma ter pertencido esta fabrica ao reinado
de D. Affonso Henriques, mostrarem igualmente as pedras da edificao
_as siglas com que na idade media os canteiros marcavam o trabalho
executado_,[38] signaes necessarios para reconhecer a qual dos operarios
pertencia, e saber-se tambem quanto se deveria pagar a cada um: pois que
esses signaes so similhantes aos demais gravados na cantaria dos
monumentos coevos do paiz, notando-se esta particularidade no s nas
ruinas dos castellos, mas tambem nos edificios religiosos. A nossa
satisfao aqui sobe de ponto por sermos o primeiro que apresentmos tal
gravura e to precioso e completo especimen da archeologia patria da
referida epoca.

[Figura 138: Igreja de S. Joo d'Alporo (Santarem)]


*Arcadas*

As arcadas, dispostas para communicar a nave principal com os lados da
igreja, eram construidas pela mesma forma como as portas; suas
archivoltas poucas vezes tinham molduras, e por isso ficavam quasi
sempre ligadas.


*Entablamentos*

[Figura 139]

O entablamento que cora as paredes dos edificios  geralmente posto
sobre modilhes figurando cabeas grotescas, carrancas, ou outras
figuras de feitios variados; como se nota nas fachadas posteriores da s
velha de Coimbra, do convento de Santa Clara de Santarem, da igreja de
Cedofeita, e capella-mr de Odivellas.

[Figura 140]

 proporo que nos aproximmos do fim do seculo XII, as cornijas
mostram-se-nos mais leves, e no seculo XIII apresentam-nos guarnio
imitando dentes de serra.


*Columnas*

Os pontos de apoio que tinham sido muitas vezes _monocylindricos_ no
principio do seculo XII, at quando eram compostos de pilastras, foram
depois, quasi meado este seculo, formados por um conjuncto de columnas
enfeixadas, innovao que devia depois produzir as columnas inteirias
desde o solo at ao nascimento da abobada, concorrendo assim para a
creao do estylo ogival.

[Figura 141]


*Capiteis e diversas bases das columnas nos seculos XI e XII*

Chama-se capitel historiado ao que  formado por composies relativas a
assumptos religiosos ou historicos, executados em baixo-relevo.[39]


*Abobadas*

Durante o seculo XI, as abobadas de cantaria eram raras, e
principalmente applicadas s grandes naves; em geral no se viam as
abobadas seno nas naves lateraes e nas absides, ficando visiveis os
madeiramentos, ou ento cobertos com taboado.

Foi no seculo XII que os mais ousados architectos lanaram as primeiras
abobadas de cantaria sobre as grandes naves; mas para esta construco
foi preciso modificar a antiga disposio afim de receber os pontos de
apoio dos arcos encruzados em diagonal, que contribuem tanto para
consolidar essas abobadas.

Nas igrejas do estylo roman, notam-se facilmente estas estructuras, e as
mudanas que isso motivou nas suas construces.

[Figura 142: Vista interior da igreja de Souillac]

Existe certo numero de igrejas com a abobada construida em cupula.
Representa uma cupula a metade de uma esphera. Para se poderem firmar as
cupulas nas paredes, cujas divises apresentavam a frma quadrada, era
necessario collocar entre os seus arcos _abobadas pendentes_
(pendantifs), de maneira a formar com elles (na parte superior) o
circulo horisontal, sobre o qual caia o peso da cupula: este modo de
construir a cupula tirava a sua origem da architectura Bysantina.

Ha tambem outras abobadas ogivaes _cupuliformes_, que se firmam no nas
paredes lateraes, mas egualmenle na archivolta dos arcos de cada vo, na
direco longitudinal. De sorte que, se suppozermos uma cupula ou
espheroide, que se transforme com as suas abobadas pendentes,
formar-se-ha a ida primitiva que produziu o systema que expozemos, e ao
qual o distinctissimo architecto Mr. Viollet-le-Duc deu a seguinte
significao: _ uma cupula hemispherica furada com quatro arcos em
ponto subido traados por tres pontos_. Fortificavam-se estas abobadas
esphericas achatadas com as nervuras ou arcos cruzados, descanando-as
nos angulos do quadrado, e com outros que se cruzavam no intervallo dos
primeiros, e rematavam no cimo de cada arco maior.

As abobadas esphericas com duplo cruzamento de nervura foram muito
applicadas nos seculos XII e XIII.

Porm, para voltarmos  descripo das abobadas dos seculos XI e XII em
geral, basta dizer que ha muitas que foram construidas da frma de
semi-cylindros continuos, descanando nas paredes ou pilares, e que se
reforaram com arcos duplos de cantaria parallelos  dita abobada como
apresentmos na gravura da pagina seguinte; porm, o peso d'estas
abobadas era muito grande, e causava ruinas frequentes. Ento, para
remediar este inconveniente, cruzavam-se os arcos duplos, afim de
dividir a presso e dirigil-a nos pilares regularmente separados. As
paredes lateraes ficaram por este modo consideravelmente alliviadas do
grande peso que d'antes tinham sobre si, o que se ver perfeitamente na
gravura seguinte. Este systema originou o enfeixarem-se as columnas
conforme as combinaes que sero facilmente comprehendidas, e que
tinham por fim sustentar os arcos duplos.

[Figura 143: Abobadas do seculo XII, com arcos duplos cruzados]


*Torres isoladas*

Presume-se que as torres para sinos no foram construidas antes do
seculo VIII, e por muito tempo seriam apenas um simples campanario,
ficando superior ao telhado da igreja e proximo do sanctuario, para
facilitar os toques durante a missa, sem que o acolyto se afastasse do
altar. Depois apparece a torre da igreja entre o cro e a nave
principal. Nas grandes igrejas collocaram uma torre sobre o centro do
cruzeiro, e passado tempo levantaram outras nas extremidades occidentaes
das naves. Esta nova disposio das torres era j usada no seculo XII e
antes dos fins do XI, mas applicada smente para as igrejas dos
conventos.

[Figura 144: Torre do seculo XII]

As torres romans eram, alm da frma quadrada, limitadas por uma
pyramide de grandes faces, quer fosse construida de pedra, quer de
madeira: esta pyramide terminava muitas vezes com a extremidade de frma
romba; tal assim foi construida a torre quadrada e isolada da igreja de
N. Senhora das Dres, em Dornes, na provincia da Extremadura.

O grande numero de pyramides que ornam as torres antigas romans foi obra
executada depois nos seculos XIII e XIV. Ha tambem algumas torres de
frma octogona e terminando por um telhado que obedece  mesma frma.


*Iconographia[40] christ*

Ainda que este assumpto nos conduziria muito longe, todavia para no
ficar incompleto, em parte, to importante estudo da arte n'este
periodo, tambem resumidamente daremos succintas explicaes.


*Pinturas decorativas*

As pinturas decorativas foram muito usadas no seculo XII. As ocres
encarnadas e amarellas, o azul, o verde e o branco, formam a escala mais
commum das cres. As figuras eram imitadas das que se executavam na
esculptura da mesma poca.

[Figura 145: Pinturas do seculo XII]


*Pavimentos*

Os sanctuarios mais elegantes tinham o piso executado em mosaico, ou
marchetados de cres. Principiaram no sculo XII a usar nos pavimentos
das igrejas os tijolos;[41]porm os revestidos com cimento, ou lageados,
eram usuaes em as naves.


*Altares*

Os altares e pias baptismaes pertencentes ao seculo XII so raros hoje;
eram de estylo inteiramente analogo ao das igrejas d'esse tempo,
conforme se v nos especimens que damos.

[Figura 146: Altar roman, em Saint-Germer]


*Tumulos*

Posto que a interessante obra que nos serve de poderoso guia no traga
explicaes sobre os tumulos do periodo, de que tratmos, pareceu-nos
conveniente dizer alguma cousa, para no omittirmos as essenciaes noes
cerca dos diversos trabalhos.

[Figura 147: Pias de baptismo roman de Chreng (Frana)]

Foi no seculo IX, que consentiram em que os cadaveres tivessem
sepulturas no interior das igrejas, mas d'esta prerogativa s podiam
gosar os reis, os bispos e os abbades, que por suas virtudes estiressem
no caso de receber canonisao; por quanto os cemiterios christos, nos
primitivos tempos, eram situados fora das cidades; e no concilio
celebrado em 660 se permittiram os enterros unicamente nos adros das
igrejas.

Os christos costumavam amortalhar os defuntos com os fatos usuaes e as
insignias do cargo ou profisso; os parentes mais proximos transportavam
os despojos mortaes, que eram depois encerrados em caixo de pedra,
marmore, ou de madeira e chumbo, ficando o cadaver com o rosto voltado
para o co e os ps para o Oriente. Manteve-se este uso at o seculo
XIII.

Os sarcophagos eram collocados sobre o solo em renques parallelos, na
direco do norte para o sul. Tinham a frma de parallelipedo, sendo
mais estreitos aos ps que do lado da cabea; e alguns tomavam na
cabeceira a frma curvilinea.

Fazendo investigaes archeologicas ainda este anno (1876), em
Alvaizerere, no antigo cemiterio e sitio chamado da _Igreja-Velha_, da
qual j no existem nenhuns vestigios, descobrimos sepulturas d'esse
feitio pertencentes ao seculo XI; o que nos fez conhecer a poca da
fundao da remota igreja, de que s se conservou o nome.

N'essa poca tambem costumavam collocar dentro do caixo dois vasos de
barro, um com agua benta, e outro com brazas e incenso.

Havia em muitos cemiterios, no seculo XII, alm de uma cruz de pedra,
uma columna ca, ou pilar quadrado, no qual punham de noite uma lanterna
em signal de venerao para o logar sagrado, e como indicao para que
os transeuntes pudessem rezar pelo eterno descano dos finados.

Os tumulos em vulto ficavam collocados nas cryptas, ou nos porticos ou
em capellas das igrejas, separados das paredes ou mettidos dentro de
arcadas no grosso da construco; e estas arcadas eram ornadas com
diversas molduras proprias do estylo ao qual pertencia a poca do
tumulo:[42] porm, no seculo XIV, acompanhadas dos dois lados por
contrafortes e pinaculos. Emquanto ao feitio do cofre sepulchral,
imitaram a frma quadrangular da decadencia romana. Os que eram
construidos em marmore estavam decorados por arcadas ou baixos-relevos.
A campa era composta de uma grande lagea horisontal, ou duas inclinadas,
formando um angulo agudo, e ornada de arabescos. No final do seculo XII,
comearam de empregar a frma das campas com lados inclinados.

Nos tres seculos seguintes, apresentavam a estatua do defunto deitada de
costas sobre a tampa do sarcophago. Viam-se s vezes o marido e a mulher
ao lado um do outro, no mesmo tumulo.

No museu de archeologia do Carmo, em Lisboa, ha um singular exemplo da
estatua de uma pessoa real _deitada de ilharga_, que podemos considerar
raro, porque ha s outro exemplo no jazigo real de S. Diniz, em Frana.

Os reis e os fidalgos eram representados com os seus uniformes, os
bispos e os abbades com as suas vestimentas sacerdotaes, com as mos
juntas, ou os braos cruzados no peito.[43]

Os tumulos mais modestos da idade media, so os rasos, collocados nas
igrejas e nos claustros. Os mais antigos datam do seculo XII. N'essas
campas acham-se gravados em traos concavos, a effigie e o corpo inteiro
do finado, com inscripo em latim; o mais notavel exemplo d'este genero
existe em um claustro de Alcobaa, tendo a campa assente entre a porta
da casa do capitulo e a galeria do claustro.[44]

As pedras tumulares eram tambem ornadas de incrustaes de cobre, e
d'este gnero apparecera no anno de 1875 em Portugal metade de uma campa
pertencente a um tumulo, o qual estava entaipado na parede da igreja de
S. Domingos em Santarem: representava apenas as pernas de duas figuras
de homem e outra de mulher, e uma pequena parte da inscripo j com
falta de algumas letras.[45]

Nas igrejas da Belgica ha grande numero de campas d'este genero com
embutidos de metal.

 de grande auxilio para a historia o estudo de taes tumulos,
principalmente para se conhecer certos brazes e usos do vestuario na
idade-media.


*ARCHITECTURA CIVIL*


As construces destinadas aos conventos, aos hospitaes, palacios,
mercados, pontes, s casas particulares, constituem emfim a architectura
civil. As construces civis dos seculos XI e XII mostram no apparelho,
na frma das aberturas, molduras e ornamentaes, que eram identicas das
construces religiosas.

[Figura 148: Janellas de diversas construces civis]

As vergas das janellas de volta perfeita, e s vezes de frma recta,
eram subdivididas em duas aberturas, como as usadas nas igrejas.

Aos respiradouros das chamins davam-lhes a frma cylindrica na parte
superior, ficando mais ou menos elevados.

[Figura 149]

A frente dos foges no interior dos aposentos era sustentada com
columnas e pilastras, ou arcos abatidos.


*Edificios monasticos*

As construces civis mais importantes pertenciam s casas religiosas. A
sua architectura era simples e severa no seculo XI; porm no XII, o sem
numero de legados destinados aos mosteiros facilitaram o emprego de
quantias avultadas para a construco de claustros e de casas de
habitao. Existem ainda em Portugal, no obstante a destruio e
abandono que se d ha cincoenta annos n'esses edificios religiosos, como
em Alcobaa, Santarem e Coimbra, bellos especimens da architectura
monastica do seculo XII. J dissemos [na pag. 116] que as abbadias
haviam copiado as principaes distribuies das casas de campo, e das
cidades usadas pelos romanos.

[Figura 150: Plano d'uma abbadia do seculo XII (parte central)

1, igreja. 3, sala capitular. 2, 4, 5, salas abobadadas, com os
dormitorios em volta. 9, refeitorio. 11, salas de recepo. 12, pateo
rodeado pela galeria do claustro.]

O claustro representava o peristylo que os romanos tinham nas casas das
cidades, sendo esta a parte reservada para a vida privada; tambem
imitavam as officinas que cercavam a _villa urbana_, ou pateo principal
d'essas _villas:_ o plano que apresentamos mostra as principaes
disposies das casas que guarneciam o claustro.

_Dormitorios_.--O dormitorio ficava quasi sempre contiguo ao claustro e
em frente da igreja: esta sala no acontecia ficar parallela  galeria
do claustro, mas estendia-se do norte ao sul ou do sul ao norte,
conforme a posio do pateo do convento, relativamente ao logar occupado
pela igreja.

_Cosinhas_.--No seculo XII as cosinhas apresentavam em muitas abbadias a
frma redonda, octogona ou quadrada, formando uma casa em separado,
posto que ficando sempre na proximidade do refeitorio. Estas cosinhas,
de que ha bom exemplo em Alcobaa,[46] tinham em roda muitas fornalhas
com chamins, e cada uma d'ellas com uma columna ca de pedra, que saa
do telhado conico do edificio, no cimo do qual havia respiradouros em
frma de laternins, para darem sada ao fumo e estabelecer a ventilao.

[Figura 151: Cosinha de Saint-Pre (Chartres)]

Ser comprehendida esta construco pela gravura acima, que representa
as antigas cosinhas de Saint-Pre de Chartres (Frana), de que j no ha
vestigios.

_Albergarias_.--As casas para hospedes, pois quasi todas as congregaes
religiosas exerciam franca hospitalidade, recebendo os viajantes de
diversas procedencias, occupam em muitos mosteiros a parte occidental
das casas claustraes. Na parte de fra do claustro, encontrava-se a
_area interior_, ou pateo interno, reservado para os leigos ou criados;
a _area communis_, grande pateo onde as carretas circulavam para
descarregarem os productos dos dizimos.  roda d'este grande pateo
estavam os celeiros, armazens e curraes. A _area communis_ comprehendia
ainda a grande porta da entrada, _porta maior_, o pretorio onde se
julgavam os delictos, a priso, finalmente o pombal, o forno para cozer
o po, e n'alguns tambem o moinho.

_Celleiros_.--Os celleiros, annexos  _area communis_, eram verdadeiros
edificios monumentaes. Os carros entravam carregados com os cereaes por
uma extremidade e saam descarregados pela extremidade opposta.

Os armazens e adegas eram tambem edificios bem construidos e vastos.


*Mercados*

Os mercados assimilhavam-se no seculo XI aos celleiros que eram formados
de galerias em roda do recinto murado.


*Hospicios*

Os hospicios tinham bastante importancia em certas cidades. A principal
parte do edificio continha o salo destinado aos viajantes, e as
enfermarias para os doentes eram geralmente divididas em tres naves,
ficando a nave central devolta e as lateraes para as camas. Havia
tambem hospicios com claustros, pouco mais ou menos como os dos
conventos, emquanto s disposies geraes.


*Casas particulares*

As casas particulares do seculo XII apresentavam, na frente principal,
empenas, isto , para o lado da rua mostravam a forma do telhado com
duas aguas; as vergas das janellas eram geralmente de volta perfeita nas
casas construidas de cantaria, e quadradas nas casas construidas de
madeira, que eram mais usadas.

[Figura 152: Plano do celleiro de Perrires]

[Figura 153: Perfil longitudinal do celleiro de Perrires]


*ARCHITECTURA MILITAR*


As cidades que tinham sido antigamente fortificadas haviam conservado,
pela maior parte, as muralhas e torres do recinto; porm a creao do
novo systema da defensa feudal, deu origem a se construirem em muito
maior numero os novos castellos, que fizeram mudar o aspecto guerreiro
dos paizes desde o fim do seculo X at o XI.

[Figura 154: Casa do seculo XII, em Chartres]

No seculo XI os castellos compunham-se de duas partes: d'um pateo
inferior e d'um segundo recinto, dentro do qual havia a torre ou o
torreo, como fra edificado o castello de Leiria.

A extenso do pateo inferior, ou primeiro recinto, ficava proporcionado
 importancia da praa fortificada.

Muitos castellos do seculo XI no tinham seno trincheiras, defendidas
por estacadas e fosso mais ou menos profundo.

N'uma das extremidades do pateo, s vezes at o centro, faziam uma
construco muito elevada e circular, ora artificial, ora aproveitando a
altura natural, e sobre a qual estava firmado o torreo.

[Figura 155]

A gravura far comprehender melhor a disposiao d'um d'estes castellos,
em moucho, com estacaria. A torre quadrada, ou torreo firmava-se n'um
moucho B: o fosso _c c_ formava um circulo na base da eminencia e a
separava do pateo C, ao centro do qual estava collocada. N'este pateo
encontravam-se as construces E E, que serviam de deposito de guerra, e
cavallarias, ou habitaes para o pessoal ao servio do nobre
proprietario do castello. As estacarias enterradas e muito unidas F F,
formavam um cerrado solido defendido pelo fosso exterior G.

Pode comparar-se este torreo, e na eminencia que lhe servia de base, 
imitao mais ou menos alterada do _pretorio_ dos romanos.

Os castellos, cuja construco interior era de pedra, offerecem mais
interesse que os antecedentes, quando conservam ainda alguns lanos de
muralha no meio dos recintos. Os torrees de cantaria tinham quasi todos
typos uniformes. O mais commum apresentava torre quadrada separada das
outras edificaes da praa, na qual ninguem entraria seno pela porta
alta da muralha, correspondendo ao nivel do primeiro andar, e para esse
fim era mister servir-se da ponte-levadia, ou escada movel.

[Figura 156: Plano do castello de Grimbosq]

Algumas vezes o torreo ligava-se s fortificaes que cercavam o
recinto fazendo de certo modo corpo com elle: ento servia de torre de
observao, e era mais alta que as outras construces; no ficava por
isso sem communicao, como podiamos demonstrar na construco dos
torrees de Leiria, Beja e Thomar.

Todavia, no seculo XII, pelas modificaes que se operaram tanto na
architectura militar, como na religiosa, adoptaram para o torreo a
frma cylindrica ou polygonal, de preferencia  frma quadrada; d'esta
maneira  o torreo de Gisors. Em Portugal no existe nenhum com esta
configurao.

[Figura 157: Torrees do seculo XII]

Esta parte antiga do castello de Gisors, ainda ao presente muito bem
conservada, avulta no cimo de uma eminencia artificial, a sua muralha
com contrafortes cinge a plata-forma disposta n'essa elevao. Ha uma
torre polygonal mui alta que est em contacto com a muralha do recinto,
fazendo frente para a parte da entrada do pequeno pateo, que talvez
podesse ficar rodeado de aposentos, e no qual se notam ainda as ruinas
de uma capella.

[Figura 158: Muralha e torreo de Gisors, vistos de dois lados]

[Figura 159: Torreo de Houdan]

O torreo de Houdan apresenta quatro torres cylindricas ligadas ao corpo
principal.

[Figura 160: Plano do torreo d'tampes]

O torreo d'tampes mostra-nos um typo _quadrilobular_ na maxima
perfeio, isto , quatro _lobulos_ eguaes com divises symetricas.

Estas diversas experiencias vieram a dar afinal na construco da torre
cylindrica que no fim dos seculos XII e XIII preferiram nos paizes do
norte. Continuando comtudo a servirem-se, nos do sul, da frma quadrada
durante o seculo XIII, e no seguinte, como foi construido o castello de
Leiria em Portugal.

[Figura 161: Ruinas do torreo cylindrico de Naufle (Frana)]

Damos em primeiro logar o desenho do torreo cylindrico do estylo roman,
pertencente ao castello de Laval, porque conserva ainda o remate do
parapeito de madeira, como era ento uso, ficando saliente na muralha, o
que dava logar  guarnio poder percorrel-a sem perigo, e lanar os
projectis sobre os sitiadores pelos intervallos do vigamento. Mui
raramente poder encontrar-se hoje uma torre d'este feitio, e talvez
seja o unico exemplo que exista de poca to remota.

[Figura 162: Torreo de Laval, rematado por uma cupula do madeira
fazendo saliencia sobre a torre (As duas janellas so de construco do
seculo XVI)]




CAPITULO IV

*ERA OGIVAL*


Grande revoluo artistica se effectuou no fim do XII seculo, tanto pela
applicao do arco descripto de tres centros, e o abandono da volta
perfeita; como pelo novo systema de construco e decorao, isto ,
pela introduco do estylo ogival.

Todavia, o estylo ogival no substituiu repentinamente o estylo roman; o
emprego da ogiva s veio a ser commum no decurso do seculo XII, e depois
de ter sido applicado conjunctamente  volta perfeita, que lhe era
preferido. Esta poca de transformao chama-se tambem de _transio_;
teve por limite o seculo XIII: ento o arco com tres centros foi
geralmente empregado, e o estylo ogival completamente formado.

[Figura 163: Duas ogivas encaixilhadas em um arco]

Ainda edificaram igrejas no estylo roman em certas localidades, quando a
architectura ogival dominava em outras. Comtudo, em algumas provincias
do meio-dia, conservaram o estylo de transio durante o seculo XIII. As
causas que determinaram a creao do estylo ogival so complexas. O arco
de tres centros teve a sua origem em a necessidade de tornar mais
solidas as novas frmas de construco.

J vimos como as abobadas se aperfeioaram pelo uso do encruzamento dos
arcos. Encontraram logo em seguida ao emprego do arco descripto por dois
centros, novo meio de diminuir o esforo das abobadas, e fazer convergir
todo o peso d'ellas sobre os pontos em que havia os contrafortes. D'esta
innovao derivou um sem numero de outras innovaes, que produziram o
estylo ogival tal como se observa nas construces do XIII seculo.


*ARCHITECTURA RELIGIOSA*


*Forma das igrejas*

Fizeram-se algumas modificaes no plano das igrejas edificadas no XIII
seculo; taes como o _cro_, _mais comprido_ que fra antes; as naves
lateraes, que se prolongavam em roda do santuario (capella-mr), ficaram
depois aformoseadas com outras capellas, excepto quando as igrejas
terminavam na curva da abside; e n'esse caso as naves limitavam-se aos
dois lados do santuario.

Em algumas das cathedraes de maior grandeza, as naves lateraes corriam
em frma de galeria, em logar de uma em roda do cro, como teve a S de
Lisboa. Muitas vezes davam  capella central atrs do cro, maior
extenso que s outras que circundavam a nave, e a qual era consagrada a
Nossa Senhora; todavia foi no seculo XIV que mais se generalisou esta
disposio.

No se collocavam ainda no seculo XIII capellas nas naves lateraes, e se
algumas cathedraes d'essa poca apparecem com esta disposio, foram
construidas nos seculos seguintes (XIV e XV).

[Figura 164: Plano do cro da cathedral de Reims]

As pequenas igrejas do seculo XIII apresentavam sempre um cro de frma
recta no fundo da nave.

[Figura 165]

Em algumas igrejas adoptaram na edificao, raras vezes, a frma
circular.

Quando faziam radiar as capellas em roda da abside, no as collocavam
ento em as naves lateraes; pois as que existem d'este modo nas igrejas
do seculo XIII, provieram d'uma addico mui facil de se reconhecer.

Em muitas partes do sul da Frana, nas igrejas de transio e do seculo
XIII, e at nas maiores no apresentam naves lateraes, mostrando,
emquanto ao plano, uma traa particular, da qual trataremos mais
adiante. Este plano com uma s nave provm do estylo bysantino; pois a
maior parte d'essas igrejas _com cupula_ no tinham naves lateraes e
smente a principal.

[Figura 166: Arcos da cathedral de Bayeux]


*Apparelhos*

Desapparecendo as construces com as pedras dispostas em escamas, e com
o pequeno apparelho assim chamado, as pedras foram escolhidas com
maiores dimenses e frmas mais regulares.


*Contrafortes*

Os _contrafortes_ apparecem com maior sacada. Um rasgo ousado do novo
estylo foi collocar _arcos-bolantes_, fig. 166 (A), sobre os
contrafortes. Estes coroavam-se de _agulhas_ (C), e como os arcos iam
neutralisar a esforo das abobadas no cimo das paredes; tambem se
serviam d'elles para aqueductos dando o escoante s aguas das chuvas,
provenientes do telhado principal da igreja. As aguas eram encaminhadas
por um canal cavado no extradoz do arco-bolante, depois lanadas fra
por canos salientes (B), que se chamam _gargulhas_.


*Ornamentos*

J se no faziam folhas de frma carnuda, adornadas de perolas e gales,
nem ornamentos com feitios geometricos; como eram os arcos dentados nas
ameias, os zig-zags, os rhombos. Principiaram ento a imitar, no seculo
XIII, os vegetaes indigenas, como mostram os seguintes especimens.

[Figura 167: Flores]

[Figura 168: Ornamentao vegetal do portal da igreja de Nossa Senhora
de Trier]

[Figura 169: Grinalda de rosas]

[Figura 170: Ramos de rosas sobre um capitel]

[Figura 171: Folhas de hera]


*Columnas*

As columnas mui delgadas e _enfeixadas_ formam um dos caracteres mais
distinctos da architectura do seculo XIII. Esses fustes, esculpidos
inteirios na mesma pedra, apresentavam, no obstante, muitas vezes,
faixas ou engrossamentos que os dividiam por partes eguaes. Em muitas
igrejas, a primeira ordem era composta de grossas columnas cylindricas.
As columnas enfeixadas occupavam os corpos superiores.

[Figura 172: Grupo de columnas do seculo XIII]


*Janellas*

As janellas eram _estreitas_ e _esguias_: o seu extremo similhava ponta
de lana; os inglezes deram-lhes o nome de _lancetas_;[47] viam-se
muitas com bastante altura, e outras de acanhadas porpores, nos
monumentos da mesma poca.

No meado seculo XIII j as janellas se alargaram e se subdividiram em
muitas aberturas; o cimo da ogiva da empena pde ento ser ornado com um
espelho ou _rosaceo_, R.

As janellas circulares tambem com espelho, no seculo XIII, tiveram
maiores dimenses, que no seculo precedente, e foram muito mais
frequentemente empregadas, at nas igrejas ruraes.

[Figura 173: Janellas com feitio de lancetas]

[Figura 174: Janellas compostas de duas aberturas, tendo no cimo um
espelho]

No interior dos edificios que apresentam tres andares sobrepostos, a
parte mdia  constantemente occupada pelas tribunas, formando um andar
com a mesma largura que a arcaria inferior das naves lateraes, ou
formando simples galeria. Estas galerias compunham-se unicamente de uma
continuao de arcadas sustentadas por columnasinhas; os antiquarios
inglezes chamam-lhes _triforium_; e designam, pelo contrario, com a
denominao de _clerestory_, a correnteza das janellas que est superior
ao _triforium_, e que effectivamente do luz  nave principal; gravura
da pag. 175 [fig. 176].

[Figura 175]


*Portas*

As portas das egrejas, com as suas aberturas curvas, so ornadas de
molduras com o feitio de tros, e s vezes tem representados diversos
personagens em esculptura; nos lados ordinariamente vem-se
columnasinhas e estatuetas.

[Figura 176]

No tympano representavam o dia de Juizo; ou Christo, sem que o rodeassem
os symbolos dos Evangelistas, segundo o costume do seculo XII; est o
Christo com as mos levantadas, tendo aos lados anjos, alm de Nossa
Senhora e S. Joo ajoelhados, como se lhe implorassem clemencia. Os
anjos seguram a cruz, a cora de espinhos, os cravos e a lana,
instrumentos da Paixo.

[Figura 177: Representao do Juizo Final sobre um tympano do seculo
XIII]

A resurreio dos mortos e a separao dos bons e dos maus, apparece
representada por baixo do Tribunal Celeste.

Nas igrejas dedicadas a Nossa Senhora, a imagem do Christo  reconhecida
pela aureola sobre a cruz, e algumas vezes a cora na cabea da Me de
Deus, como na igreja de Nossa Senhora de Trves.

Em alguns portaes esto passos da vida de Jesus Christo, de Nossa
Senhora, sua morte, e enterro pelos Apostolos, e a sua Assumpo;
differentes assumptos do Antigo Testamento, etc. Algumas vezes nos
tympanos representavam Jesus Christo e sua Santissima Me, sentados em
duas cadeiras quasi iguaes, o que nunca se v quando o Salvador preside
ao dia de Juizo.

[Figura 178: Tympano pertencente  igreja de Nossa Senhora de Trves]


*Torres*

Foi no seculo XIII, principalmente, que os architectos conseguiram
levantar at a grandissima altura essas pyramides esguias, que do tanta
variedade na architectura ogival.

[Figura 179: Uma das torres da cathedral de Coutances (Sinos collocados
em bastante altura)]

Vem-se aberturas elevadas e estreitas, e muitas vezes por cima as
agulhas da torre; sobre a base da pyramide octogona esto quatro
campanariosinhos, e as quatro faces do octogono que corresponde aos
quatro lanos da torre, sustentam trapeiras com columnas e pyramides por
adorno.

Quando as torres das igrejas ruraes mostram telhados de duas aguas,
construidos com madeiramento ou de abobada, indicara isso que o telhado
no  o primitivo, mas que o substituiram  agulha, quer de madeira,
quer de cantaria.

[Figura 180: Egreja do seculo XIII]

Geralmente as torres edificadas nos paizes meridionaes no seculo XIII
tem apparencia pesada e acaapada com o telhado de frma obtusa. As
agulhas de pedra encontram-se em grande numero em certos paizes.


*Altares, pias baptismaes, tumulos*

Eis alguns typos para servirem de exemplos dos _altares_, _pias
baptismaes_ e _tumulos_ pertencentes ao seculo XII, de igrejas nacionaes
e estrangeiras.

[Figura 181: Altar do seculo XII em Norrey (Calvados)]

[Figura 182: Pia baptismal octogona, ornada com arcos ogivaes]

[Figura 183: Pia baptismal sobre ps formados por columnas]

Os altares no tinham ento tabernaculo; as santas particulas estavam
reservadas em armarios fechados com portas chapeadas, collocados nos
lados do santuario, e as arcadas d'esses armarios eram abertas no grosso
das paredes da capella-mr, e geralmente as designavam com o nome de
credencias.[48]

[Figura 184]

Os _tumulos_, mettidos nas paredes, como se v na gravura junta,
chamavam-se _tumulos arqueados_. A estatua do finado estava representada
debaixo d'estas arcadas.[49]

As _campas_ so grandes lageas, as quaes serviam de piso nas igrejas, e
apresentavam a effigie do finado aberta a trao; eram estes os tumulos
mais communs. Tem-se destruido constantemente um sem numero, para lhe
substituirem lageas lisas sem significao nem caracter funereo. Deviam,
pelo contrario, conserval-as cuidadosamente, porque pelos seus
epitaphios ou inscripes, as campas fornecem documentos mui
interessantes para a historia local, e as effigies esculpidas n'ellas
servem para o estudo dos trajos da poca.

[Figura 185: Campa pertencente ao ultimo quartel do seculo XIII]

Em alguns cemiterios existem ainda _fanaes_ formados por columnas cas,
no cimo das quaes se accendia um _farol_ para alumiar de noite os
enterros, e tambem para fazer lembrar aos transeuntes que as pessoas
enterradas precisavam das suas oraes. Estas columnas tinham na base um
altar, no qual se dizia a missa nas occasies dos enterramentos. Ficavam
collocados no centro dos cemiterios, nos mais importantes dos seculos
XII e XIII.


*ARCHITECTURA CIVIL*


O arco composto de tres pontos applicado s abobadas, s aberturas de
portas e janellas e a todos os detalhes da ornamentao, favorecia o
engrandecimento de diversas construces civis e monasticas, publicas e
particulares. Os conventos tinham-se ento enriquecido com os legados de
numerosos fieis, e pelos lucros obtidos com o aperfeioamento que tinham
dado  agricultura. A immunidade dos municipios veio a ser para as
cidades, e para as suas industrias, uma causa de engrandecimento, que
muito contribuiu egualmente para o seu progresso. O seculo XIII foi pois
para a architectura civil como para a architectura religiosa, _uma
grande poca_.


*Architectura monastica*

Os claustros com arcadas formando galerias, sustentadas por
columnasinhas de uma extraordinaria finura, com capiteis compostos de
folhas, como se v na gravura do claustro de Santa Trophina d'Aries
(Frana), nos conventos de Santa Clara em Santarem, em Thomar[50] e o da
Esperana em Lisboa.

As casas de capitulo, os refeitorios, as casas para os hospedes e os
outros edifcios, dispostos em roda do claustro, geralmente abobadas,
recebendo a claridade por aberturas com o feitio de ponto subido; ainda
se vem, comtudo, algumas de volta perfeita; porm so de to
extraordinaria delicadeza, que no pdem ser attribuidas s construidas
no seculo XII. A vista geral da construco monastica de _Bonport_ [fig.
187], mostra a disposio geral d'estes edificios religiosos.

[Figura 186: Vista longitudinal do refeitorio de Bonport]

[Figura 187: Vista dos edificios de Bonport, tirada das margens do Sena]

[Figura 188: Vista da empena do lado sul do edificio de Vauclair]

Porm, para exemplo de construces civis e monasticas, no se pde
apresentar outra mais importante, que a que pertence  abbadia de
_Vauclair_, proximo de Laon;  uma das empenas, e uma das fachadas. Esta
fachada no tem menos de 70 metros de comprimento; o edificio  dividido
em numerosas e bellas salas, e compe-se de dois andares abobadados,
ficando por cima grandiosos celleiros, cujos madeiramentos so muito bem
combinados.

[Figura 189: Vista do grande edifcio de Vauclair]

[Figura 190: Crte longitudinal d'esse edificio]

_Granjas_.--As granjas que estavam annexas ao grande pateo exterior das
abbadias tomavam grandes dimenses, principalmente n'aquellas cujas
rendas mais importantes consistiam em trigos; como se v no edificio em
_Ardennes_, perto de Caen. Esta granja podia conter 100:000 feixes de
trigo: as naves estavam divididas longitudinalmente por nove arcadas.

[Figura 191: Uma das empenas da granja das rdennes]

Algumas abbadias possuiam estabelecimentos industriaes. A de _Citau_
pertenciam-lhe grandes fabricas de cortume, estabelecidas na margem de
um rio que ali corre proximo.

Como especimen de uma entrada de abbadia, quasi sempre composta de duas
portas, uma para os carros, a outra para as pessoas, apresentamos a que
pertencia ao priorado de _S. Vigor_, prximo de _Bayeux_. As portas
tinham geralmente um aposento construido por cima d'ellas.

A _pretoria_, onde se julgavam as causas e as prises (pois os abbades
tinham muitas vezes a alada judicial), ficavam quasi sempre junto da
porta da entrada, e o _pretorio_ occupava algumas vezes o primeiro
pavimento.


*Dioceses*

As dioceses foram dispostas no seculo XIII como tinham sido no seculo
precedente, havendo-se aproveitado os progressos architecturaes.
Daremos, para exemplo d'isso, a soberba empena da diocese de _Auxerre_,
edificada em 1250 a 1260; os restos que ainda subsistem do palacio do
bispo de _Laon_, e sobretudo a grande sala construida em 1242; o pateo
d'este palacio era quasi quadrado.

[Figura 192: Entrada da abbadia de Saint-Vigor]

[Figura 193: Empena da diocese de Auxerre (1250 a 1260)]


*Mercados*

As casas para os mercados do seculo XIII, apresentavam a mesma
disposio que as do seculo XII. Damos para exemplo a empena do grande
mercado de _S. Pedro-sobre-Dive_, que se assemelha a uma grandiosa
granja. Pode-se attribuir unicamente ao seculo XIII a parte que mostra a
gravura, pois que se fizeram obras nas outras partes e em diversas
pocas.

[Figura 194: Entrada do mercado de Saint-Pierre-sur-Dive]


*Hospicios*

A disposio dos _hospicios_ era a mesma que no seculo precedente, porm
multiplicavam-se e desenvolviam-se bastante n'este seculo. Certos
hospicios estavam edificados junto das cathedraes, e quasi em contacto
com ellas; outros ficavam sempre collocados proximo de um rio, embora
fosse da parte de fra das fortificaes, ou no interior d'ellas e junto
das portas, sendo mais particularmente destinados para os viajantes.

A grande sala do hospicio de Bayeux, reconstruida pelo bispo Roberto de
Ableges, ficou infelizmente destruida em 1823; mas ainda se lembram que
eram as abobadas de frma ogival, e que tinha columnas monocylindricas
para as sustentar, dividindo longitudinalmente a grande sala. A linda
capella do seminario actual, um dos mais bellos executados no seculo
XIII, formava uma dependencia do hospicio que devia ter tambem claustro.

A sala do hospital da misericordia de _Chartres_, estava dividida por
columnas, e na extremidade oriental tinha um altar onde se dizia a missa
para os doentes: nos outros hospicios mais importantes tambem existia um
altar para o mesmo piedoso fim. Pederiamos citar outros hospicios dos
ultimos annos do seculo XIII com receio de que desappaream todos d'aqui
a alguns annos, pois  certo que se os municipios continuarem a destruir
tudo o que fr antigo, para levantar edificios com grandes quantias,
obtidas por meio de emprestimos, unicamente pela pretenso de ser cousa
determinada pelas autoridades da actual gerao, nada teremos que seja
digno de considerar-se pelo lado da arte, nem pela venerao dos
monumentos; porque no s no respeitaram as condies architectonicas,
o que  facil de demonstrar tambem nas restauraes dos edificios
monumentaes em Portugal, assim como nas construces modernas, taes como
a do hospital no Algarve, e o lazareto; mas sobretudo motivado pelo
desprezo e falta de inspeco das antiguidades nacionaes.


*Campanarios e casas da camara*

Quando no fim do XIII seculo a organisao dos municipios veio a ser
geral, ento as cidades tiveram um brazo e uma torre ou campanario,
cujo sino servia para chamar o povo a assistir s deliberaes
municipaes.

As casas das camaras foram geralmente collocadas junto das portas das
cidades no seculo XIII. O sino era montado em torre construida por cima
das abobadas do portal, ou nas proprias torres que flanqueavam essa
entrada.

Pelos fins do seculo XIII as casas das Camaras comprehendiam egualmente
mercados cobertos, os quaes vieram depois a ser edificios consideraveis
nas cidades commerciaes, como est representado na gravura do edificio
de _Ypres_, pag. 193 [fig. 195], posto que fosse concluida smente em
1304, comeando a construco em 1200.  na verdade magnifico palacio.


*Pontes*

Existem ainda muitas pontes do seculo XIII. Ha outras de que se no
sabem as datas, mas que talvez sejam da mesma poca, como a da gravura
da pag. 194 [fig. 196] parece indicar.

A soberba ponte de _Cahors_, defendida pelas suas tres torres,  uma das
mais bellas do XIII seculo, e ainda se conserva a sua solida
construco.


*Casas particulares*

Nas construces particulares empregavam madeira ou cantaria. As casas
de madeira, muito mais vulgares que as outras, eram construidas com
madeira apparente: ornavam os paus de prumo, os transversaes, todas as
peas de samblagens; depois enchiam com argamassa os intervallos,
deixando visivel toda a construco executada em madeira. A base era
quasi sempre feita de cantaria para evitar que a humidade apodrecesse a
madeira.

[Figura 195: Casa da camara e campanario da cidade de Ypres]

[Figura 196: Ponte do seculo XIII]

[Figura 197: Vista geral da ponte de Cahors]

Vem-se ainda algumas casas de cantaria do seculo XIII nas cidades pouco
povoadas, onde no chegou, felizmente, a mania da destruio ignara.

Damos a vista de uma d'essas construces para mostrar como eram
executadas as galerias cobertas com alpendres, que cercavam as praas, e
tambem as ruas mais frequentadas.

[Figura 198: Casa do seculo XIII em Arras]


*ARCHITECTURA MILITAR*


Se o genio da architectura contribuira com as suas mais bellas e mais
perfeitas inspiraes, na composio d'essas admiraveis cathedraes que
tem justamente appellidado a _grande epopeia de pedra_, o poder feudal
fecundar egualmente o talento dos architectos do seculo XIII.

Se as magestosas cathedraes excitam a admirao e enchem a alma de
commoes religiosas; os castellos de Coucy em Frana, e os de Leiria e
Palmella em Portugal, com as suas torres colossaes, no deixam menos em
ns esse sentimento, sem duvida contemplando o formidavel aspecto de
taes edificaes.


*Forma geral*

A frma ou disposio geral dos castellos do seculo XIII foi, como
aconteceu antes, subordinado  do terreno conforme se firmasse sobre o
cimo de um rochedo, ou sobre uma planicie cercada de valles e barrancos.
Nos paizes formados por planicies, preferia-se a frma quadrilonga;
encontrando-se em roda dos dois recintos, os mesmos trabalhos de defeza
que costumavam ter as fortalezas do seculo XII.

[Figura 199: Vista do torreo de Coucy]


*Torre ou torreo*

Se appareceram ainda no seculo XIII torrees quadrados, eram elles mais
restrictos que os construidos nos seculos XI e XII; porm, mais
geralmente, tinham a frma cylindrica nos que se construiram no centro
da Frana. Fosse qual fosse o logar escolhido para a torre principal,
ficava sempre isolada e rodeada de um fosso, sendo unicamente accessivel
por meio de uma ponte levadia.

A contar do XIII seculo, no as erguiam sobre as eminencias das terras
ou pelo menos no as dispunham ali seno raras vezes, e s nos logares
onde a falta de bons materiaes obrigava a recorrer a este meio para
augmentar a altura dos edificios: talvez que os torrees do seculo XIII,
assentes em eminencias, estejam por este modo collocados, pelo menos o
maior numero, porque substituiram as torres mais antigas construidas nos
mesmos terrenos.


*Aposentos*

[Figura 200]

As casas que ficavam proximas do torreo, tomaram nova extenso. O luxo
havia sensivelmente augmentado: foi preciso portanto fazer aposentos
mais espaosos, vastas salas de recepo, do que se pde fazer ida pela
gravura da vista geral do antigo castello de Coucy, a pag. 198 [fig.
200]. Algumas d'estas salas eram magnificas, tinham janellas de frma de
_lanceta_, com vidraas pintadas representando brases ou espelhos, com
divises de differentes cres; o cho formado com tijolos vidrados.


*Torres nas muralhas das cidades*

A frma cylindrica prevaleceu para as torres das muralhas da cidade,
como para os torrees; os architectos do seculo XIII mostraram-se mui
habeis na regularidade e na solidez d'essas bellas pyramides que se
elevaram como fortes columnas para consolidar as muralhas e garantil-as
contra os ataques dos estranhos e inimigos. As torres eram divididas em
dois ou tres andares por slhos postos sobre vigamentos, algumas vezes
abobadados de cantaria (mas nunca com tijolos), e terminadas por
galerias com seteiras.

As torres cylindricas deviam resistir melhor aos ataques das machinas do
que as torres quadradas; as suas superficies convexas apresentavam em
todos os pontos a mesma solidez; a introduco das abobadas de ponto
subido em ogiva devia alm d'isso fazer abandonar esses extensos
torrees com sobrados planos: acharam mais simples abobadar as torres e
consolidar as abobadas servindo-se de arcos apoiados em columnasinhas,
ou em caxorros postos em egual distancia uns dos outros, e formando nos
aposentos uma decorao analoga quellas das egrejas. Finalmente, os
telhados conicos dos torrees cylindricos apresentavam menos superficie
e menos perigo, em tempo de sitio, que os telhados a quatro aguas dos
grandes torrees quadrados, que eram tambem s vezes incendiados pelos
fachos lanados da parte de fra.

A grande transformao que se operra na architectura em geral, pelo
descobrimento do estylo ogival, devia reagir sobre a architectura
militar: foi preciso pois dar maior elevao aos andares, pr as torres
em harmonia com as outras construces. Esta mudana, alm d'isto,
estava to intimamente ligada com a introduco do estylo ogival que se
v a frma quadrada presistir nas regies da Frana e de Portugal, que
conservaram o estylo _roman de transio_, e ao mesmo tempo com o estylo
ogival; foi principalmente no reino de Frana, onde a architectura
ogival appareceu to bella no seculo XIII, que os torrees cylindricos
apresentavam as suas agradaveis frmas e propores.


*Apparelhos*

O apparelho que se distingue pela denominao de _mediano_ encontra-se
nas torres e nas muralhas do seculo XIII: porm, as pedras variam de
dimenses conforme a natureza dos materiaes empregados. Em _Coucy_, onde
estas pedras so de sufficiente grandeza e perfeitamente apparelhadas,
eram consolidadas as paredes com vigas encastradas na alvenaria, como
fra uso nos seculos precedentes. Algumas torres, cujos revestimentos
so em pedra tosca, tem todavia fiadas de cantaria em differentes
alturas, como se fossem faixas de tijolos, e mostrando por este modo
especies d'aros na elevao das torres. A gravura junta mostra esta
disposio.

[Figura 201]


*Janellas*

No exterior dos edificios, as _janellas_ mostram muitas vezes o feitio
de simples frestas chamadas _seteiras_, porque se podiam lanar por
ellas frechas sem receiar as que viessem de fra. Algumas d'estas
janellas, demasiadamente rasgadas na parte interna, so ornadas de
columnas de cada lado, e de molduras com _tros_ ou _nervuras_, como se
fazia nas das igrejas. Nos logares menos expostos aos ataques, no
interior dos pateos, encontram-se janellas bipartidas, encaixilhadas em
_lancetas_; as grandes salas dos castellos recebiam do mesmo modo
claridade. Ahi a extremidade da ogiva era tapada com cantaria: de
maneira que as aberturas ficavam de frma quadrada.


*Portas*

As grandes portas flanqueadas de duas torres, na entrada das praas
fortes, tomaram tambem nas arcadas a frma ogival; estando algumas vezes
munidas de duas pontes levadias; uma manobrando por detraz da ponte
levadia A, e a outra collocada na extremidade opposta da passagem de
abobada, para o interior do recinto C. Habitualmente, no se podia
communicar da porta com as duas torres lateraes: a entrada para ellas
estava situada dentro do _baylum_, isto , no primeiro recinto.

[Figura 202]

As portas das torres e das casas situadas no interior dos castellos,
mais pequenos que os precedentes, eram ornadas de molduras e de
columnas, mas nunca apresentavam as repetidas archivoltas como as das
portas de entrada das igrejas de igual poca, e no se via n'ellas
nenhuma ornamentao.


*Molduras*

As molduras, que se usavam nos castellos do seculo XIII, eram do mesmo
feitio que aquellas empregadas na architectura civil d'aquella epoca.

A pintura sobre as paredes veio auxiliar a esculptura para a decorao
dos castellos, e as grandes salas tinham muitas vezes cobertas as suas
paredes.


*Recintos urbanos*

Sabe-se que grande numero de cidades e grandes povoaes foram elevadas
a municipios nos seculos XII e XIII. Esta instituio, uma das mais
importantes revolues sociaes da edade mdia, produziu mudanas
extraordinarias na importancia relativa e no estado material das
cidades.

Pouco depois o espirito da industria se reanimou, o commercio veio a ser
objecto de sria atteno, e principiou a prosperar; a populao
augmentou sensivelmente, e a riqueza appareceu nos logares que estiveram
por muito tempo servindo de asylo da pobreza.

Ento as cidades se engrandeceram e aformosearam.

A maior parte ficou rodeada de muralhas, e aquellas que as tinham j
alargaram o seu antigo recinto.

El-rei D. Fernando I cingiu Lisboa com uma nova cintura de muralhas de
que existem ainda alguns vestigios. Em Coimbra tambem foram reedificadas
por ordem do mesmo monarcha.

As torres, quasi sempre cylindricas nos outros paizes, foram dispostas
ao correr das muralhas das cidades, seguindo a frma da construco
adoptada para esse fim.

Quando estas eram postas em estado de defensa, ento viam-se coroadas
por essas galerias salientes feitas de madeira, de que a torre de Laval
[fig. 162] apresenta um bello exemplo. Por meio d'estas sacadas de
madeira chamada _hurdicium_, podia-se dominar o p das fortificaes, e
lanar pedras e outros projectis sobre os sitiantes, pelos intervallos
abertos dispostos entre as vigotas que sustentavam o parapeito em falso.

Esses remates de madeira podiam ser incendiados, e os engenheiros do
sculo XIII procuraram o modo de substituir a pedra  madeira. Portanto,
a grande torre de Coucy tinha caxorros formados de cantaria em que
apoiava a galeria que seria naturalmente de madeira, ficando
correspondente s aberturas do ultimo andar; podiam citar-se outros
exemplos de tentativas feitas para substituir a pedra  madeira. Foi
smente no seculo XIV que este melhoramento veio a ser geral.

O recinto d'_Aigues-Mortes_ apresenta a frma de um parallelogrammo
rectangular; o maior numero das torres era semi-circular no exterior da
muralha, e quadrada no interior, de maneira que apresentava pouca sacada
sobre o baluarte interior e formava linha com elle, levantando-se a
certa altura acima do parapeito. As portas principaes abriam-se entre as
duas torres; o intervallo que existia entre estas ultimas era occupado
pela sala onde se iavam as pontes levadias; em cada ponte havia duas:
uma para a porta exterior, e outra para a porta interior.

[Figura 203: Uma das portas d'Aigues-Mortes]

Tinham boas escadas, cujos degraus descanando nas abobadas com a volta
de quarto de circulo, deixavam subir  trincheira de cada lado das
grandes pontes.

[Figura 204: Muralhas e torres d'Aigues-Mortes--Vista do interior da
praa]

As abobadas das torres eram guarnecidas de arcos encruzados. Algumas
chamins existem ainda nas salas que ficam por cima das pontes de
entrada: o cano por onde saa o fumo tem a configurao octogona.

Sabe-se que estas bellas fortificaes foram levantadas por Philippe o
_Ousado_ (1270-1285); pertencem pois ao fim do seculo XIII.

As pontes levadias moviam-se por meio de vigas servindo de alavancas,
s quaes o taboleiro estava suspenso. No se encontraram vestigios das
caixas nas quaes entravam as vigas ou alavancas para ficarem os madeiros
recolhidos: este systema julga-se fra geral, smente nos seculos XIV e
XV.

[Figura 205: Uma das portas do recinto da muralha de Laon]

A ponte levadia, que se abaixava detraz das portas correndo por uma
calha aberta na cantaria, tinha por fim multiplicar os obstaculos;
fazendo-a mover do aposento que ficava por cima d'esta porta, e aquelles
que se deixavam apanhar entre as pontes levadias podiam ser esmagados
da parte superior, ou trespassados de frechas atravez das grades de
resguardo.

Quando os rios passavam pela parte de fra das muralhas, e que se tinham
aproveitado para servirem tambem como meio de defensa, as pontes tinham
nas extremidades dois fortes; um para defender a entrada da ponte, o
outro para deter a tropa que a quizesse transpr; estas obras de
fortificao, chamadas _cabeas de ponte_, compunham-se, s vezes, de
muitas torres e formavam um pequeno quadrado defendido de todos os
lados. Acontecia tambem, quando a ponte tinha certo numero de arcos, o
ultimo de cada extremidade no era abobadado, havendo uma ponte de
madeira que descanava sobre os seus pilares.

[Figura 206: Porta guarnecida de grades]

Havia em determinadas localidades torres collocadas sobre a ponte, como
se v na gravura da ponte de _Cahors_.

[Figura 207: Vista de uma cabea de ponte]




CAPITULO V

ERA OGIVAL SECUNDARIA

*ARCHITECTURA RELIGIOSA*


*Forma das igrejas*

Notavel mudana se introduziu no seculo XIV no plano das igrejas pelo
accrescimo de um renque de capellas ao longo de cada um dos lados das
naves. As capellas, que formam de certo modo o complemento dos templos
da idade mdia foram, n'essa poca, construidas depois das obras
completas da edificao dos templos, grande numero de igrejas e muitas
cathedraes do sculo XIII; a contar do seculo XIV, deu-se muitas vezes 
capella terminal, consagrada  Virgem, maiores dimenses que d'antes.

Contrariamente ao que se fazia em o norte, no sul e no sudoeste de
Frana, muitas igrejas do sculo XIV no tinham naves lateraes, mas s a
nave principal; o cro no tinha, como annos depois, a separao da
galeria no arco triumphal, e as cadeiras do cro que a dividiam do resto
da igreja.

Em logar de naves lateraes, formaram capellas rectangulares entre os
pilares dos contrafortes que recebem os arcos das abobadas. Fez-se
ento, por cima d'essas capellas, tribunas correspondendo exactamente a
estas, recebendo luz de compridas janellas com duas ou tres aberturas e
no cimo ornadas de triflorios moldurados; porm, no maior numero de
casos, no tinham ornato algum. Comprehender-se-ha melhor esta
disposio pela gravura da pag. 211 [fig. 210] dos dois vos da
cathedral de _S. Bertrando de Comminges_ (Frana).

[Figura 208: Plano da cathedral de Bayeux _a_. Capellas annexas do lado
do norte.--_b_. Capellas annexas do lado do sul.]

[Figura 209: Plano de uma igreja do sul da Frana sem naves lateraes]

[Figura 210: Dois vos com arcadas da cathedral de
Saint-Bertrand-de-Comminges]

Portanto, no seculo XIV, as igrejas do meio-dia raras vezes tinham o
_triforium_ e o _clerestory_, que occupavam os dois teros da altura das
paredes lateraes. A mesma disposio foi seguida nos seculos XV e XVI.


*Contrafortes*

A largura consideravel que deram no XIV seculo s janellas do
_clerestorium_, e a pouca resistncia que as paredes com aberturas
arrendilhadas apresentavam ento ao encontro das abobadas, obrigou a
fortificar as paredes situadas entre as janellas, empregando maior
esmero no trabalho dos arcos-botantes. O contraforte servia tambem nos
edificios do norte de apoio para dois arcos-botantes, sobrepostos, como
se v na cathedral de Amiens em Frana, na Batalha em Portugal, etc.

As torrinhas no tinham smente por fim formar o remate do contraforte;
serviam tambem pelo _seu peso_ para consolidar ainda mais o esforo das
abobadas e os outros produzidos pelos proprios arcos-botantes.

Nos paizes meridionaes, a falta das naves lateraes, como j mencionmos,
ao correr da nave principal, evitou construirem-se arcos-botantes;
porque os contrafortes elevavam-se verticalmente at ao cimo das
paredes, apresentando muitas vezes grande saliencia. A curiosa igreja
dos jacobinos de _Toulouse_, de que damos a vista lateral, pag. 213
[fig. 211],  um exemplo que faz vr esta disposio habitual do emprego
dos contrafortes executados no meio-dia em Frana. Esta igreja,
construida inteiramente de tijolos,  uma das mais ousadas construces
que se conhecem.

O emprego do tijolo concorreu para se fazerem modificaes nas frmas
das aberturas e n'aquellas dos ornamentos; e, n'este caso,
principalmente pela influencia dos materiaes, por tal modo, que o
investigador estranho ao paiz ficaria realmente muito perplexo quando
lhe fosse preciso determinar uma data para indicar a poca d'estas
construces, cujas ogivas so to semelhantes durante muitos seculos.

[Figura 211: Igreja dos Jacobinos de Toulouse, inteiramente construida
de tijolos]


*Ornamentos*

A maior parte dos ornamentos do seculo XII, v-se que passaram sem
alterao para o seculo subsequente.

As folhagens, de que j apresentmos typos, quando tratmos da flora
mural, e que ornam muitas vezes os monumentos do ultimo meado XIII
seculo, caracterisam de igual maneira as decoraes do principio do XIV.

Pondo de parte essas analogias, as molduras apresentam na execuo certa
differena no seculo XIV, principalmente na ultima metade. Se por
ventura se nota, em geral, maior perfeio na _pratica_ das esculpturas,
encontra-se tambem alterao nas frmas: os tros no tem j a mesma
rotundidade, nem a sacada que os distinguia no XIII seculo; em uma
palavra, j no  a obra feita sob a antiga direco. Estas differenas
so mais faceis de descobrir com a vista do que em minuciosa descripo.

Eis aqui desenhados alguns capiteis do seculo XIV com a sua ornamentao
vegetal.

[Figura 212: Capiteis do seculo XIV ornados de folhagens]

[Figura 213: Amores-perfeitos e myosotis]

[Figura 214: Folhas de rainunculos]


*Arqueaduras na ornamentao*

Os arcos continuos servem de remate aos frontes triangulares; e s
vezes so ornados com enfeites de frma de _colchetes_.

[Figura 215]

Vem-se tambem as paredes ornadas com estas _arqueaduras fingidas_
collocadas em ponto muito elevado, subdivididas por delicados pinasios
de pedra, tendo o cimo com rendilhados como se executavam nas janellas.
Este genero de decorao foi muitas vezes empregado sobre grandes
superficies lisas, principalmente no fim do XIV seculo e no seculo
seguinte.

Os _colchetes_ eram collocados mais profusamente sobre os logares que j
designmos, ficando menos separados uns dos outros, como se praticava no
seculo XIII. Alguns se transformavam em folhas largas arqueadas.


*Triforium*

No seculo XIV uma alterao muito notavel se manifestou na galeria do
_triforium_: em logar de ficar tapado como era d'antes, veio a ter
claridade por meio de janellas que correspondiam aos arcos da galeria
inferior.

[Figura 216: Triforium transparente]

O especimen acima mostra um _triforium_ tendo luz por baixo de uma
grande janella de _clerestory_: ento as paredes ficavam verdadeiramente
rendilhadas, como se v na cathedral de Strasbourg, no convento da
Batalha em Portugal, ele. Alguns _triforiuns_ com claridade so
attribuidos ao segundo meado do seculo XIII; porm a maior parte
pertence ao XIV e XV.


*Columnas*

A disposio das columnas  a mesma no seculo XIV que no XIII; aquellas
que esto enfeixadas principiam a tornar-se de aspecto mesquinho, e no
se destacam sufficientemente como as precedentes dos pilares quando se
faziam em grupos. Ao principio do seculo XIV no era raro encontrar
ainda capiteis, que faria suppr pertencerem ao XIII; porm depressa o
aafate se desformou, e as folhagens mudaram de natureza. No se vem no
meado do sculo XIV, esses colchetes que se arqueavam em volutas e que
formavam de certo modo o ornamento obrigado dos capiteis do XIII.

No seculo XIV, as folhagens eram dispostas nos capiteis de modo a formar
dois ramalhetes sobrepostos, e a dividir assim o aafate em duas partes
quasi iguaes. Esta combinao era tambem muito caracteristica do seculo
XV. Succedia, ao mesmo tempo, na forma das bases, um trabalho de
transformao d'onde devia sair um typo novo.

Essas bases no apresentam mais os escapulados to profundos como no
sculo XIII; at desapparecerem inteiramente, e os dois toros ficam mui
separados um do outro.

Os socos tem a importancia nova nos pilares do seculo XIV. Muitas vezes
mostram tantos socos repelidos quantas so as columnasinhas, e so de
frma octogonaes ou prismaticas. Quando o soco tem muitos _resaltos_,
esses resaltos ficam separados por molduras reentrantes; algumas vezes,
emfim, a parte inferior do pilar  formado por um massio no qual os
socos parece que so embutidos.


*Janellas*

No seculo XIV, muitas columnas servindo de pinasios verticaes dividiam
essas aberturas no sentido da largura, e o centro da arcada apresentava
muitos compartimentos em feitio de flr de trvo, folhas de quatro
pontas ou em flores.

[Figura 217: Janellas do seculo XIV]

A combinao mais usual era aquella que se v na figura A: duas ogivas
gemeas encimadas por um oculo polylobado, enche todo o vo da janella.
Cada uma das duas ogivas se decompe em duas outras partes ou em duas
novas aberturas, tendo por cima um floro; de maneira que o todo da
janella apresenta em ponto grande a imagem das duas ogivas gemeas que
emmolduram, e que representara portanto o mesmo feitio das janellas do
seculo XIII. Nos edificios de ordem interior, a janella B  muito
frequente a sua applicaco no seculo XIV. A gravura seguinte mostra uma
janella muito grande, pertencente ao seculo XIV; tal como se v algumas
vezes na extremidade dos cruzeiros das igrejas, ou na sua fachada
occidental, as mais importantes.

[Figura 218: Janella do cruzeiro usada no sculo XVI]


*Portaes*

As portas do seculo XIV differem pouco das do seculo XIII: as voltas e
os tympanos so igualmente cheios de pequenas figuras em baixo-relevo;
os frontes triangulares que lhe servem de remate tem rendilhados, em
logar de ficarem lisos ou cheios como no seculo XIII; so tambem
ordinariamente mais elevados e ornados de _crochets_. Sobre os tympanos
de algumas portas, a flor de trvo, as folhas de quatro pontas, ou
flores, substituem as figuras em alto relevo.


*Arcadas*

No se encontram as molduras to excessivamente pronunciadas e
executadas alternativamente, ora redondas, ora concavas, que ornavam no
seculo XIII as archivoltas das grandes arcadas; os toros so muito menos
boliados e por vezes tem feitio ellyptico, no produzindo o contraste da
luz e sombra que dava to notavel distinco aos arcos repelidos do
primeiro estylo ogival.


*Torres*

As torres eram rematadas por uma agulha em pedra, e tinham passeio com
parapeito e corrimo, como se v quasi sempre entre a torre e a base da
pyramide, que lhe fica superior, conforme se construia desde o seculo
XIV. At l nos telhados pyramidaes das torres tinham posto poucos
ornamentos: esculpiam-lhes unicamente modilhes curvilineos, ou telhas
recortadas; mas no XIV, abriram-lhes buracos contornados como as flres
de trvo, em flores, etc., cobriram-lhes os angulos de ornatos de forma
de _crochets_. A reunio d'estes differentes caracteres podem servir
para se distinguirem as grandes torres do seculo XIV das do XIII.


*Ladrilhos*

Os pavimentos de tijolos vidrados foram empregados nas capellas e nas
igrejas, compondo magnificos flores.


*Pinturas muraes*

A pintura empregada nos seculos antecedentes, e que no seculo XIII
cobria os portaes, as curvaturas e partes mais notaveis dos edificios,
foram igualmente prodigalisadas no XIV. Existe d'essa poca grande
numero de decoraes _polycromaticas_, infelizmente apagadas e
muitissimo deterioradas.


*Pinturas sobre vidro*

Se se considera o effeito geral, a harmonia das tintas e o brilhantismo
das cres, a bella poca das vidraas coloridas, foi a do seculo XIII. 
medida que nos afastamos d'essa poca, to auspiciosa tambem para a
architectura, as produces das pinturas sobre o vidro perdem do seu
brilho, porm as figuras so de maior estatura e desenhadas com mais
esmero.

Considerando, que no sul da Frana e nas margens do Rheno, os
architectos estavam ainda no seculo XIII dominados pelos principios da
escola do seculo XII, poder-se-hia suppr que no seculo XIV deveriam ter
adoptado o estylo ogival primitivo; porm no aconteceu assim: quando
elles se decidiram a adoptar o estylo ogival, foram tomal-o no estado em
que se achava. Assim vemol-o, no seculo XIV, na Allemanha e na Blgica,
com os caracteres quasi similhantes quelles que dominavam em Frana.


*Altares*

Os _altares_ do seculo XIV no differem dos do XIII, seno pela natureza
dos detalhes de architectura que fizeram entrar na sua decorao, e que
oferecem os mesmos caracteres que os dos monumentos da poca.

Os _armarios_, ou tabernaculos, mettidos nas paredes, proximo do altar,
imitavam, pouco mais ou menos, as mesmas disposies que no seculo XIII.

As _credencias_, por vezes _gemeas_, como se faziam no seculo anterior,
no tinham todavia, no meado seculo XIV, seno uma arcada nica e com
uma s piscina.


*Pias baptismaes*

A mesma observao ha que fazer para as pias baptismaes como para os
altares. As formas usadas no seculo XIII encontram-se no XIV; smente
com a differena de que as pias pedicelladas, com columnas auxiliares,
eram mui raras, e as columnasinhas so applicadas como decoraes sobre
um apoio central e fazem corpo com elle, em logar de ficarem destacadas
como antes se praticava.

[Figura 219]

Encontram-se muitas vezes pias oitavadas, como a que est representada
na pag. seguinte [fig. 220], tendo cada um dos lados ornatos e
compartimentos com o feitio de uma janella do estylo radiante: alm das
pias d'este typo, vem-se tambem columnasinhas moldurando essas janellas
e separando as faces umas das outras.

[Figura 220: Pia baptismal octogona do seculo XIV]


*Sepulturas e tumulos*

Os tumulos do seculo XIV distinguem-se dos do XIII unicamente pelo modo
como os ornamentos so executados. Os caracteres que indicamos para a
architectura do seculo XIV do facilmente a conhecer os tumulos formados
de arcadas collocadas ao correr das paredes.


*Campas*

As pedras tumulares, no seculo XIV, tiveram aprimorada execuo; pois
que todos os detalhes dos vestuarios esto reproduzidos com grande
fidelidade, e as composies architecturaes destinadas a formar a parte
ornamental, que encerrava a representao dos personagens, tomam o
feitio das capellas ou das naves de igrejas. Tinham os seus typos
correspondentes nas decoraes do mesmo genero no seculo XIII, e nas
vidraas pintadas com representaes dos santos, que a igreja expunha 
venerao dos fieis.

No norte, nos Paizes Baixos, e em outras naes, as lageas escolhidas
eram de marmore de cr cinzenta ou preta; em grande parte da Frana,
foram as campas feitas principalmente de pedra calcaria branca, como
usavam em Portugal; tambem usavam as lageas amarellas ou jaspeadas,
pertencendo s formaes secundarias e terciarias; finalmente, nas
regies graniticas e schistosas, serviam-se de lageas fornecidas d'estas
rochas[51], porm eram menos empregadas, por causa da difficuldade com
que n'ellas executavam os ornamentos.


*ARCHITECTURA CIVIL*


A architectura monastica conservou no seculo XIV as disposies geraes
adoptadas precedentemente; modificaram apenas a ornamentao: portanto
nos claustros apparecem as arcadas com muitos vos, tendo como remate
oculos ou espelhos, como se praticava nas construces das janellas; e
assim o mostra a gravura da pag. 226. [fig. 222]

Pode-se dizer outro tanto dos paos archiepiscopaes, e outros grandes
edificios civis; notando-se, todavia, que foi no seculo XIV que
principiaram a apparecer as grandes janellas com cruzetas de pedra, fig.
B, pag. 225 [fig. 221], que vieram a ser depois to communs nos seculos
seguintes.

As chamins conservaram a sua forma elegante, e quando no ficavam
cobertas por um abrigo pyramidal, ento assimilhavam-se a uma colunma
cylindrica ou octogona; s vezes eram ornadas no cimo por folhas de
quatro pontas ou outras molduras.

[Figura 221: Janellas do seculo XIV]


*Hospicios*

Os _hospicios_, os _mercados cobertos_, as _casas da camara_, e os
outros edificios de utilidade publica, no se differenavam dos que eram
construidos no seculo XIII, tanto pela frma das aberturas, como pela
qualidade das molduras.

Os _hospicios_ compunham-se sempre de um ou muitos sales para os
doentes, dependendo da casa conventual, ou da igreja. Estes edificios
eram dispostos  roda de um pateo principal, mas havia alguns com
segundo pateo para o servio do estabelecimento.

[Figura 222: Arcos de claustro do seculo XIV]

[Figura 223: Chamin do seculo XIV]

O hospicio de Nuremberg apresenta corpos de habitaes parallelos com
alguns pateos centraes debaixo dos quaes passava um brao de rio, que
era desviado da corrente principal. A architectura das salas d'este
hospicio parecia pertencer alm do seculo XIV.

No fallaremos das _gafarias_, as quaes tinham chegado ao numero de
19:000, depois das guerras das cruzadas, porque eram antes uma reunio
de casinhas ou cellas, no meio das quaes havia um pateo e uma capellinha
consagrada a S. Lazaro, que se no deve considerar hospital publico. Das
numerosas gafarias dos seculos XIII e XIV s existem actualmente as
capellinhas sem que apresentem interesse algum architectonico.[52]

[Figura 224: Hospital de Nuremberg]


*Casas da camara*

Algumas casas dos municipios do seculo XIV, como a de Brunswich, mostra
qual a importancia adquirida por estes monumentos desde o seculo XIII
(vde a pag. 193 [fig. 195], a casa da camara de Ypres), como se
conservou at no seculo XIV, sendo ento decorada com coruchos,
balaustradas e estatuas, e com as molduras mais elegantes d'aquella
poca.


*Mercados, aougues e armazens*

_Mercado coberto de Bruges_. O mercado de Bruges, que pode ser
considerado como monumento mixto, pois que  ornado do campanario
communal, frma um quadrilatero de 84 metros por 43. As casas mais
visinhas do campanario estavam d'antes isoladas; acrescentaram-lhe as
azas desde 1325 at 1364.

O mercado de _Evron_, em Frana, construido de madeira, data do seculo
XIV, como igualmente o cro da igreja abbacial: compunha-se de duas
naves formadas por tres filas de prumos.

[Figura 225: Prumos que sustentam o grande madeiramento dos mercados em
vron]

Apresentemos o traado das peas de madeira de uma asna d'este grande
madeiramento, e que se apoiam sobre o renque dos prumos de vigas, que
separam as duas naves. Este madeiramento merece estudo particular, e
ser apreciado pelos constructores, visto que estes grandes edificios
construidos por esta frma acabaram de todo, e ainda no foram
sufficientemente estudados.

_Mercado de Dives_. O antigo mercado de Dives, em madeira, tem
igualmente certa importancia. A parte menos antiga, que est do lado
leste, pertence ao seculo XIV; os dez vos mais bem construidos que
compem o mercado primitivo, datam certamente da idade media; tem 32
metros de comprimento e 11 metros de largura, decompondo-se da maneira
seguinte: a nave central, 7 metros; as lateraes 4^m,32. A gravura mostra
o crte transversal do madeiramento.

[Figura 226: Crte transversal do mercado de Dives]

Em certas cidades bastante povoadas, onde a corporao dos carniceiros
era poderosa, como em Gand (Belgica) e na Inglaterra, o mercado coberto
formava um monumento.

[Figura 227: Vista d'uma parte do aougue de Gand]

_Aougue de Gand_. Este grande edificio, do qual os viajantes vulgares
no fazem caso, e que os itinerarios no se do ao incommodo de
descrever,  comtudo digno de ser citado.  dividido no interior em duas
naves por bem combinadas divises de madeira. As duas portas das
fachadas correspondem s duas naves. Datando a sua construco do fim do
seculo XIV, o aougue de Gand foi consideravelmente augmentado depois, e
reconstruido em grande parte no reinado de Carlos V, em 1542.

[Figura 228: Grande armazem de deposito na cidade de Constance]

O armazem de deposito de Constance, pag. 232 [fig. 228], pode dar-nos
ida dos grandes armazens do seculo XIV; compe-se de muitos andares,
cujos pavimentos de madeira so sustentados por grossas vigas a prumo.


*Casas particulares*

[Figura 229: Casa antiga construida em Cordes]

As casas particulares do seculo XIV eram, como as do seculo XIII,
construidas de cantaria ou madeira; quando havia na proximidade bons
materiaes, que facilmente se extrahiam e transportavam, davam-lhe a
preferencia; porm, achar-se em similhantes condies era raro, e por
isso preferiam a madeira; veio d'ahi certa combinao no systema
particular das construces, de que se encarregavam especialmente os
entalhadores para ornamentar as madeiras apparentes; alm de facilitarem
as suas edificaes.

Escolhemos como especimen das casas construidas de cantaria, uma das
mais notaveis que existem em _Cordes_, como se v na gravura da pag. 233
[fig. 229].


*ARCHITECTURA MILITAR*


*Formas geraes*

[Figura 230: Galeria saliente de cantaria]

A comear do seculo XIV, as partes habitadas dos castellos tomam formas
mais regulares, encaminhando-a a se aproximar do estylo moderno. No
pateo principal, que  ordinariamente quadrado, apresentam grandes e
vastas habitaes que se ligam intimamente com as muralhas de recinto.
Por esta forma, as obras de defensa esto alternadas com os aposentos,
ficando _as construces civis augmentadas em prejuizo das
fortificaes_. Muitos castellos do seculo XIII se completam no XIV com
grandes addicionamentos.

As torres dos angulos encerravam geralmente as escadas para se subir aos
differentes andares. Collocavam tambem uma escada principal na torre
levantada ao centro da fachada nobre do edificio.

Os cachorros de madeira que coroavam as paredes das fortificaes
apresentavam, como j dissemos, bastantes inconvenientes, aos quaes
procuravam dar remedio. No seculo XIV as galerias salientes de cantaria
com bsteiras, gravura da pag. 234 [fig. 230], substituiram pouco a
pouco os cachorros nas praas fortes. As muralhas d'_Avignon_, e as de
_Cahors_, reconstruidas no seculo XIV, offerecem bellos exemplos.

[Figura 231: Interior de uma porta com ponte levadia]

As bsteiras no existiam antes dos seculos XIV e XV;  falta de outro
typo, pela sua construco pode-se confirmar a antiguidade das muralhas,
quando ellas lhe servem de remate sem nenhuma interrupo. As portas dos
recintos so constantemente defendidas por duas torres, e tendo na parte
superior, como no seculo XIII, uma sala onde faziam mover a ponte
levadia. Foi no seculo XIV, que principiaram, como j referimos, a ser
munidas de pontes levadias,[53] movidas por contrapesos. A pequena
porta destinada aos pedestres tinha ponte levadia particular, como se
v na gravura da pag. 235 [fig. 231].

Citaremos entre os castellos mais completos do seculo XIV o de
_Pierrefont_, que fomos vr em 1867 quando a sua restaurao era
dirigida pelo eminente architecto e archeologo, o nosso confrade mr.
Viollet-le-Duc.

A formidavel Bastilha de Paris, destruida em 1789, cujo _fac-simile_ se
encontra em grande numero de bibliothecas publicas, fra comeada em
1369 por ordem do rei Carlos V. Esta fortaleza compunha-se de habitaes
em grande altura, dispostas regularmente em roda de um pateo
quadrilongo; tinha quatro torres semiesphericas nos angulos do quadrado
e mais duas no centro dos dois maiores lados.

[Figura 232: Vista exterior da Bastilha]

Diversas janellas quadradas se abriam para o interior dos pateos, e
algumas nas muralhas exteriores.

_Vincennes_  antes uma praa forte do que um castello propriamente
dito; a forma regular do recinto, o torreo, as torres, os parapeitos,
este todo offerece um bello exemplo do grande monumento militar do
seculo XIV,[54] e sempre que se pudesse, dever-se-hia adoptar um plano
symetrico, quando o terreno fosse aproprido para similhante construco.

Esta fortaleza conserva ainda algumas construces muito antigas.

O rei Filippe Augusto foi o primeiro soberano que mandou edificar n'este
logar uma casa de campo para suas caadas.

A maior parte das fortificaes foram demolidas em 1337, para se
construirem as que existem; assim como o bello torreo do castello, que
veio a ser priso do Estado no reinado de Luiz XI. Este torreo  um dos
melhores, no seu genero, que possue a Frana.

 notavel a elegancia da galeria dos antigos aposentos reaes, bem como a
architectura da capella, construces pertencentes aos reinados de
Francisco I e da rainha Maria de Medicis.




CAPITULO VI

ERA OGIVAL DO SECULO XV E PRINCIPIO DO XVI

*ARCHITECTURA RELIGIOSA*


Posto que a frma usual das igrejas tivesse ficado a mesma no seculo XV
e no principio do XVI, os architectos tiveram certa tendncia para se
afastarem da regularidade symetrica da poca anterior; fizeram nas
igrejas existentes augmentos que vieram a destruir a harmonia,
juntando-lhes, por exemplo, outras capellas fra das propores das que
j existiam.


*Ornamentos*

As formas prismaticas ou angulares dominam no feitio das molduras do
seculo XV, tanto nos toros e nas nervuras, como nos pinasios, e at nos
mais insignificantes detalhes; isto dava aos ornamentos _aspero_
aspecto, por causa de _magreza_ no cinzelado, que nunca apresentaram os
executados nos seculos XIII e XIV.

As folhagens mostram, a comear do seculo XV, frmas inteiramente
differentes das que notmos nos seculos XIII e XIV, so folhas de couve
encrespadas, de cardo e outras plantas. As folhas de vinha foram tambem
empregadas com as outras folhas recortadas: estas formam, nas hombreiras
das portas, das janellas, cornijas e festes executados com tanta
habilidade, que parece se despegam da pedra, e so apenas adherentes na
sua superficie: estas grinaldas eram s vezes entrelaadas com fitas. Os
esculptores divertiam-se tambem em representar diversos animaes entre as
folhagens.

[Figura 233: Grinaldas de folhas recortadas]

Os _crochets_, em parte differentes dos executados no seculo XIV,
mostram em geral mudana de frma anloga a dos ornamentos, representam
folhas de couve ou cardo encrespadas, arredondadas, reviradas,
parecendo-se com cabeas de golphinhos.


*Contrafortes*

O fragmento representado na pag. seguinte [fig. 234], mostra o effeito
dos apainelados, dos pinaculos na sua applicao descanando sobre
animaes--caryatides; finalmente os dos frontes triangulares, por cima
das janellas ornados de folhas encrespadas, rematavam com balaustradas e
divises do estylo flamejante de _labaredas_.

[Figura 234: Pinaculos descanando sobre animaes--carytides]


*Columnas e pilastras*

J no se vem columnasinhas enfeixadas, porque foram substituidas por
simples nervuras prismzticas. Os capiteis, mais geraes, eram ornadas de
folhagens encrespadas, dispostas em dois ramos sobrepostos um ao outro.
No final do seculo XV e no XVI, no  raro encontrar as columnas
completamente sem capiteis; ento as nervuras dos pilares prolongam-se
sem interrupo at ao cimo do edificio e formam um todo com os arcos
ramificados de abobada. Sobre algumas pilastras, encontram-se pinaculos,
molduras com grandes relevos mais ou menos complicados, e misulas para
servirem de peanhas s estatuas.

[Figura 235]


*Portas*

As portas de arcos abatidas, ou de volta de sarapanel, que se chamam
arcos _Tudor_, porque foram mui usadas em Inglaterra no reinado de
Henrique VII e Henrique VIII, vem-se principalmente no final do seculo
XV ou no principio do XVI, e eram enfeitadas como as outras portas, com
bellas folhas retorcidas e coroadas de um penacho pediculado, como est
representado na seguinte gravura.

[Figura 236]


*Janellas e oculos (espelhos)*

Os compartimentos, que dividem as janellas e aberturas circulares
chamadas _oculos_ ou _espelhos_, apresentam mais geralmente feitios
retorcidos, assimilhando-se a labaredas, coraes esguios, etc. etc.,
que differem das flores de trevo, folhas de quatro pontas, e outras
figuras radiantes. Foi em razo d'estas formas retorcidas, tantas vezes
reproduzidas nos compartimentos das janellas, nos espelhos, nas
balaustradas e nos ornamentos representados na cantaria, que se tem
designado o estylo ogival do seculo XV sob o nome de gothico
_flamejante_.


*Abobadas*

Os arcos das abobadas vieram a ser mais salientes e prismaticos: as suas
peas curvas principiaram tambem a ramificar-se na segunda metade do
seculo XV e no XVI, e os pontos de junco mostram por vezes
_penduraes_.

[Figura 237: Rosa flammejante em compartimentos triangulares]


*Torres*

As torres do seculo XV apresentam uma grande variedade de formas: ha
algumas, cujas agulhas so muito elegantes (Belgica, Bordelez,
Normandia, ele.); outras so quadradas, flanqueadas de contrafortes
salientes, e que no tem a leveza dos primeiros.

No seculo XV, em logar de flanquear com duas torres as fachadas das
grandes igrejas, tinham muitas vezes levantado uma unica torre quadrada
ao meio do fronto occidental, como _S. Bavon de Gand_, a cathedral de
Berne, e a cathedral de Ulm, etc.

Muitas torres d'esta poca apresentam, grav. pag. 245 [fig. 239] sobre
os angulos do corpo quadrado que sustenta a pyramide, _obeliscos_ ou
_torresinhos_ que se ligam ao corpo da torre por arcos botantes de uma
leveza extrema, cujo _intradoz_  ornado de festes arrendilhados.

Haveria um estudo interessante a fazer-se sobre as torres do seculo XV,
as que existem na cidade de _Ruo_, pois so todas de notavel elegancia,
embora no tenham como remate nem frechas, nem agulhas.


*Altares*

O altar, representado na gravura seguinte, tem 2^m,40 de comprido por
0^m,90 de fundo e 1^m,80 de altura. Sustentam-no tres pequenas columnas.
A decorao na frente compe-se de quatro curvaturas, alternadamente
separadas por uma columna e por um pendural.

[Figura 238: Um dos altares da igreja do Flogoat (Finisterra)]


*Tabernaculos*

Encontram-se no seculo XV tabernaculos ou _ciboriums_ de pedra que podem
egualmente ser considerados como accessorio dos altares; ainda que
estejam a maior parte das vezes separados e encaixados nas paredes
proximas, como tambem esto as credencias. O especimen seguinte mostra a
configurao dos que existem em muitas igrejas j d'esta epoca.

[Figura 239]

Algumas credencias, do fim do seculo XV, so tambem mui notaveis pelo
numero e acabamento de suas molduras, como se v na gravura seguinte.

[Figura 240: Credencia dos ultimos annos do seculo XV, na capella de
Jucoville]


*Pias baptismaes*

A forma mais usada no seculo XIV para as pias baptismaes foram
egualmente imitadas no XV, porm as pias d'este ultimo seculo e do
principio do XVI mostram, enquanto s esculpturas, que foram executadas
primorosamente com molduras prismaticas, similhantes s que ornam os
nichos, os doceis e os pinaculos da architectura ogival da epoca
terciaria.

[Figura 241: Pia baptismal na igreja de S. Sebaldo]

[Figura 242]

As pias _monopediculadas_ com reservatorio e p octogono no so raras
no seculo XV: algumas imitam o feitio d'um calix e apresentam da parte
externa a forma hemispherica ou ovoide.

A pia baptismal da cathedral de Bale  pediculada; o calix tem oito
faces com a data de 1465. Esto representados sobre os oito lados d'este
calix: Jesus Christo baptisado no Jordo; S. Loureno, S. Thiago, S.
Paulo, S. Pedro e S. Martinho. O p tem egualmente a frma octogona.

As pias de bronze da igreja de _S. Sebaldo_, em Nuremberg, apresentam a
forma cylindra ornada com circulos em relevo. Os contornos so
graciosos, e est dividida em duas partes e com arcadas collocadas a
par. Os quatro evangelistas se destacam no socco, e parece que sustentam
a parte superior da mesma pia.


*Tribunas--Separaes formadas de cantaria*

Era do uso fazer-se um ambito gradado, especie de barreira ou separao
muito enfeitada, posta entre a nave principal e o cro, sustentando
geralmente uma tribuna e a estante onde se lia o Evangelho, como
praticavam antes servindo-se do pulpito. As mais primorosas datam do fim
do seculo XV, s barreiras em cantaria que separavam o cro das naves, e
que, desde o seculo XIII, j existiam em algumas igrejas; ellas vieram a
ser nos seculos XV e XVI de grande riqueza de trabalho e de merecida
admirao.


*Tumulos e campas*

No final do seculo XV e no XVI empregava-se quasi constantemente, para
os tumulos arqueados, arcos postos a par, similhante a este exemplo que
damos: collocavam um certo numero de tumulos d'este genero ao correr das
paredes nas grandes igrejas.

[Figura 243: Arco duplo de um tumulo]

No seculo XV, encontram-se as pedras das campas cobertas por uma grande
quantidade de detalhes d'architectura, como se executavam nos tumulos em
vulto. O finado era representado occupando o centro de um historiado
portal, composto de nichos, dentro dos quaes ornam pequenas figuras de
santos em differentes alturas, ou ento postas em nicho coberto por um
docel; gravura de pag. 248 [fig. 242].


*Cruz dos cemiterios*

No seculo XV, tinha-se lavrado muitas cruzes em pedra para se porem no
meio dos cemiterios, e o estylo das molduras caracterisa
sufficientemente a poca da execuo. Em algumas cruzes da Bretanha,
distinguem-se grupos de personagens bastante complicados, e de trabalho
muito mais apurado por serem em pedra muito rija.

[Figura 244: Cruz de Scaeb (Finisterra)]


*ARCHITECTURA CIVIL*


O caracter da architectura civil do seculo XV, emquanto s molduras com
ornatos,  egual ao empregado na architectura religiosa.


*Architectura monastica*

A architectura civil monastica segue o gosto do tempo e adoptou-se nas
arcadas dos claustros, nas janellas ogivaes, com contornos curvilineos,
como j expuzemos quando fallmos da architectura religiosa.

[Figura 245: Fragmento d'um claustro do seculo XV]

Para comprovar, ser sufficiente apresentarmos o desenho de um claustro
do fim do seculo XV, com os seus arcos a compartimentos em labaredas,
ficando como esmagados pelos frontes de ramalhetes, uns a par e esguios
[fig. 245B], os outros separados de varios segmentos, cujas curvaturas
so mui desagradaveis (fig. 245A, estampa da pag. 251).

As folhagens golpeadas com as quaes ornavam as curvaturas dos portaes,
so s vezes vasadas com exaggerao, mas de aprimorada execuo.

As janellas quadradas com pinasios de pedra multiplicam-se nos andares
superiores das construces civis. Nota-se do mesmo modo tendencia a
pr-se de parte o arco traado por tres pontos, adoptando-se as
aberturas rectangulares, que vieram a ser quasi exclusivamente
empregadas um seculo depois.

O portal de entrada das abbadias e priorados ficava sempre collocado em
um pavilho que tinha superiormente aposentos; emquanto  disposio
geral, era a mesma do seculo anterior.


*Paos de concelho*

Na segunda metade do seculo XV constituiu-se grande numero de novas
municipalidades, afim de enfraquecer cada vez mais o poder feudal e
todas as cidades rivalisaram entre si na edificao dos seus _paos de
concelho_, muito dos quaes subsistem ainda e apresentam uma serie de
edificios extremamente interessantes para se examinarem.

O campanario que lhe pertencia, veio a ser ento uma torre elegante e de
extrema delicadeza, ornada de variados contornos, como as que se
executavam nas igrejas. Muitas das cidades applicavam quantias avultadas
para construir e ornar seu campanario, afim de que o vissem a grande
distancia, e tambem para dar maior importancia  sua representao.

A casa da camara de _Douai_,  da segunda metade do seculo XV, sendo
mais notavel pelo seu campanario que pela extenso ou elevao do
edificio municipal. A fachada municipal apresenta no plano terreo tres
portaes ornados de folhagens encrespadas, sendo a do centro maior que as
das duas outras.

[Figura 246: Casa da camara e campanario de Douai]

No segundo andar tem nove janellas em ogiva, ornadas de folhagens eguaes
s que decoravam os portaes.

A attica, que est por cima do entablamento,  mais moderna, porque
pertence ao seculo XVII.

O campanario parece-se com uma torre de igreja, sendo rematada com uma
agulha elegantissima feita de madeira e coberta de chumbo, apresentando
varias ordens sobrepostas com frontes floreteados, e o maior numero
acabando em grimpas; quatro torrinhas circulares e em sacada occupam os
quatro angulos da torre na base d'essa agulha; e o telhado, de forma
conica, mostra quatro pequenas trapeiras egualmente coroadas por
cataventos.

A parle superior do campanario d'_Evreux_ compe-se de uma torre com
faces arrendadas e de maior leveza, coroada por uma pyramide de madeira
coberta de chumbo.

[Figura 247: Campanario d'vreux]

A parte inferior d'este campanario  mais antiga, pois que a elegante
pyramide arrendada que cora o edificio, no pode ser obra alm da
segunda metade do seculo XV; talvez trabalho dos artistas que fizeram a
pyramide central da cathedral, que  egualmente arrendada e de madeira
revestida de chumbo.

 util observar como so os feitios das sinetas que ha nos campanarios,
sendo algumas mui antigas; aquella d'_Arras_,  muito curiosa pela sua
bocca ter grande abertura. Tem a inscripo seguinte, que attesta ter
sido fundida em 1434:

    LAN: M: CCCC: E: IIII JE: FULS FAIS.

Em muitos municipios no havia nem casa de camara, nem campanarios:
serviam-se do sino das torres da igreja, e era tambem na parochia que se
reuniam as assemblas municipaes.


*Hospicios*

Nas salas dos hospicios encontram-se no seculo XV e no XVI a disposio
que j indicmos na grande sala do hospicio de _Tonnerre_, e em outros;
esta disposio  tambem a mesma nos hospitaes d'esta epoca, em
Flandres. Porm limitemo-nos a citar um dos mais bellos monumentos
conhecidos d'este genero, o hospicio da cidade de _Beaune_, fundado em
1442.

A aza do meio-dia e a de leste eram divididas at a altura do telhado
por uma galeria com dois andares: o primeiro andar d'esta galeria, que
faz lembrar os claustros das abbadias, corresponde s aberturas do plano
terreo; o segundo dava serventia aos quartos superiores, formando uma
especie de varanda, como era uso construirem-se em um sem numero de
casas de madeira dos seculos XV e XVI.

O telhado que cobre esta especie de attica, fica interrompido por
grandes trapeiras symetricamente collocadas em duas ordens differentes,
cuja disposio d a esta parte do edificio a apparencia da decorao
oriental. As empenas formadas de tres resaltos com duas, tres e at
quatro aberturas, so compostas de madeiros reunidos de maneira
engenhosa; d'estas especies de frontes recortados se levantam outros
tantos grimpos formados por hasteas de ferro cobertas dos mais delicados
ornamentos de chumbo. Sobre a fileira veste um delicado arrendado do
mesmo metal.

[Figura 248: Especimen da aza meridional do hospicio de Beaune]

Na aza do norte, que tem frente para a rua, est situado o salo para os
doentes. Imagine-se uma espaosa e magnifica nave com o seu santuario,
os quadros transparentes das suas vidraas de cres, a abobada
aquilhada, as vigas servindo de linhas do madeiramento e guarnies
pintadas com decorao simples, mas accusadas com franqueza; a grande
ogiva da abside, campas tumulares, tres altares do uso oriental,
tribuna, cadeiras do cro em forma de cubiculos com rendilhados, alm de
duas filas de camas com docel: eis o quadro magestoso que offerecia 
vista, na origem, esta soberba sala.

Segundo o plano, que dmos, comprehender-se-ha a disposio e a reunio
d'estas salas. No pateo havia um poo com armao de ferro, tendo uma
graciosa cora sustentada por tres hastes de ferro, e rampas com ornatos
arrendilhados, as quaes reunidas ao centro formam um telhado conico.

[Figura 249: Plano do hospicio de Beaune]

O portal do hospicio do lado da rua (P), tinha como remate um lindo
alpendre, especie de baldaquino, em cima do qual, sobre pediculos,
estavam as estatuetas de Nossa Senhora, de S. Joo Baptista e de Santo
Antonio.


*Armazens--Depositos*

Os armazens e depositos continuam no seculo XV a apresentar construces
extraordinarias e com grande elevao. Citaremos para exemplo o de
Nuremberg. A porta principal d'este vasto armazem  muito elegante; o
tympano tem um escudo de armas e a data da construco, 1498. O primeiro
corpo d'este edificio, para o qual o portal d saida para a rua,  o
mais elevado; sendo dividido at ao telhado, em tres andares, e em
quatro se comprehendermos os famosos subterraneos abobadados; depois
apresenta seis andares ou galerias sobrepostas umas s outras.

[Figura 250: Vista exterior d'uma parte do armazem de depositos, em
Noremberg]


*Chafarizes*

Os chafarizes com feitio de urna no eram raros no seculo XV. O pedestal
d'onde saia a agua caia em tanques e apresentava frmas bastante
variadas; construiam-nos algumas vezes em metal.

[Figura 251: Vista do chafariz de Cully (Calvados)]

Entre as fontes smente com tanque, podemos citar a de _Cully_, cuja
nascente, corre por duas aberturas circulares, nas quaes se v um
pequeno nicho com arcada de feitio trifolio.


*Palacios, casas e residencias campestres*

Muitos palacios nas cidades, e as grandes residencias campestres, que
encerravam todo o necessario para um estabelecimento agricola,
offereciam uma importancia tamanha como a dos edificios publicos.

O palacio de Jacques-Coeur, em _Bourges_, era um dos monumentos civis
mais sumptuosos da segunda metade do seculo XV. Citaremos ainda como
exemplo aquelle de _Cluny_, e grande numero de grandes palacios dos
seculos XV e XVI. Damos na pagina seguinte a vista geral de uma casa de
campo, onde a habitao senhorial est junta  propriedade rural.

N'estas residencias campestres onde se occupavam de agricultura, as
diversas casas para esse servio cercavam o pateo, ora quadrado, ora de
forma irregular; e ahi estabeleciam as cocheiras, as cavallarias, os
celleiros e os curraes, alm da habitao do proprietario.

Nos palacios e nas residencias do campo construidas de cantaria, a
escada ficava collocada mui frequentemente em uma torrinha saliente
sobre a fachada do edificio, grav. pag. 262 [fig. 253]. Esta torrinha de
arestas chanfradas era coberta com telhado em duas aguas, e para se
construir esse telhado davam  parte superior da torrinha a forma
quadrada, para o que era necessario fazerem-lhe duas abobadas pendentes,
afim de ligar os lados cortados com o quadrado de telhado.

As inclinaes d'estes telhados eram guarnecidas de _crochets_ em
relevo.

No obstante, havia outras torres que conservavam a mesma forma que
tinham na base at ao telhado.

As casas do seculo XV e do principio do XVI, so ainda hoje muito
numerosas nas cidades das provincias, as quaes no soffreram, como na
capital, transformao completa; apresentam inteiramente os mesmos
detalhes na ornamentao, como havia nos outros edificios da mesma
poca. As esculpturas dos cardos postos nas linhas inclinadas, as folhas
de repolho encrespadas, e outras molduras similhantes, ornavam os
portaes em ogivas, e algumas vezes tambem as cornijas. As paredes
divididas em almofadas guarneciam parte d'ellas.

[Figura 252: Grande solar com casas de explorao rural em Cully
(Calvados)]

As janellas, quasi todas quadradas e subdivididas por uma cruzeta de
pedra, tinham em roda muitos renques de nervuras prismaticas; um cordo
descanando sobre caryatides lhe servia de remate.

As janellas abertas no madeiramento, ou trapeiras, eram coroadas por
frontes pyramidaes extremamente delicados e por vezes acompanhados de
contrafortes ou arcos butantes com recortes e pinaculos cheios de
_crochets_ e lavores. Este systema de ornamentao existiu durante a
primeira metade do seculo XVI. Encontramos um bello especimen no palacio
de justia em Ruo.

[Figura 253: Torre e escada sustentada por abobadas pendentes]

Em certos sitios, onde seria facil achar-se boa pedra, as casas de
madeira foram menos numerosas que as casas construidas de cantaria.

[Figura 254: Palacio de Justia de Ruo]

[Figura 255: Casa de cantaria em Saint-Pierre-sur-Dive]

N'aquellas que ainda existem, os andares so bastante salientes, ficando
em sacada uns sobre os outros, e as partes reentrantes, que apparecem no
comprimento da edificao, so ornadas com molduras. Nas gravuras das
paginas 266 [fig. 256] e 267 [fig. 257] vem-se essas sacadas
progressivas dos andares uns sobre os outros; nas cidades de grande
populao viam-se muitas vezes dois andares superiores ao rez-do-cho, e
um terceiro andar posto ainda sobre o telhado, o qual recebia luz por
grandes trapeiras. O maior numero das casas particulares tinha a empena
voltada para o lado da rua; esta disposio era menos frequente nos
palacios ou nas habitaes das pessoas abastadas.

Damos, por exemplo, duas casas do fim do seculo XV, construidas de
cantaria, primeiramente aquella que existe em S. Pedro-sur-Dive, pag.
264 [fig. 255], na margem do rio, e dependentes do mosteiro dos
benedictinos: suppe-se que serviam de tribunal de justia d'aquella
ordem. A torrinha octogona que guarnece os angulos encerra um oratorio
muito elegante. As vigas apparentes do tecto das casas, principalmente
as das grandes salas, eram ornadas com obras de talha no gosto da poca.

A outra casa  mais consideravel com pateo no interior, o qual mostra
galerias e escadas com corrimes de pedra rendilhados, communicando com
differentes andares, pag. 266 [fig. 256]. A disposio e a parte
saliente d'essas galerias produzem n'essas construces (como em muitas
outras, em que o risco  quasi egual), o seu melhor e mais pittoresco
efeito. s vezes tambem no plano terreo ha arcadas em roda dos palcos.

As duas casas de madeira do _Poids-Royal_, em So L, foram construidas
em 1494, e a outra que ainda existe pertence a _Honfleur_.


*Taboletas e esculpturas emblematicas*

Nas casas construidas de madeira, sobre os prumos dos angulos era que
muitas vezes se esculpiam as figuras emblematicas para servirem de
taboleta, como a de _S. Julio do Sault_, em Frana. Na praa v-se
outra casa que no seculo XV servia de hospedaria, onde ha esculpluras
symbolisando a applicaco que tem a casa; no cunhal do norte, collocaram
uma figura de rosto jovial e como offerecendo com uma das mos um
cangiro e com a outra um copo, em que parece convidar a provar do vinho
da adega. Por cima, em duplo nicho, via-se a imagem de S. Joo com o
cordeiro e a pelle do camello; e tambem a imagem de S. Thiago de
Compostella com o seu bordo e chapo de peregrino, alluso bem evidenle
s viagens e aos viajantes.

[Figura 256]

[Figura 257: Casa de madeira do Poids-Royal, em Saint-Lo]

[Figura 258: Casa de madeira, em Honfleur]

[Figura 259: Esculpturas sobre uma casa de madeira, em
Saint-Julien-de-Sault (Yonne)]

No outro cunhal apparece a imagem de Santa Barbara com o livro, a torre
e a palma do martyrio, e na parte inferior a imagem da loucura
representadas em alto-relevo; a presena d'esta ultima figura
equivaleria a ter certamente o seguinte letreiro: _Aqui ha diverses e
abrigo para os viajantes_.

[Figura 260: A cruz de ferro de Saint-Quentin]

Juntemos que as taboletas salientes postas da parte de fora das casas,
estavam seguras a braos de ferro, mais ou menos ornamentados, os quaes
eram bem acceitos no fim do seculo XV. Uma _cruz de ferro_ muito antiga
que servia de taboleta  casa que tinha esse mesmo nome, estava
collocada proximo dos paos da camara de S. Quentin: essa cruz tinha as
extremidades do feitio de ancora, executada no estylo chammejante.


*ARCHITECTURA MILITAR*


Os progressos da civilisao dispuzeram cada vez mais os poderosos e os
nobres para darem s suas residencias aspecto menos severo, tornando-as
mais commodas, diminuindo-lhes as altas muralhas que as desfeiavam e
pareciam isolal-as das povoaes circumvisinhas.

Uma circumstancia bastante poderosa fizera diminuir, alm d'isso, a
importancia dos antigos castellos, cuja fortaleza consistia
principalmente na altura das muralhas: queremos fallar do uso da
artilheria e das armas de fogo que veio a ser geral no seculo XV. As
elevadas torres com seteiras, e trincheiras formidaveis, no podiam
resistir ao fogo das peas; conjecturou-se que o systema de defensa
seria transformado em pouco tempo, e que uma revoluo ia introduzir-se
na arte de guerra; ento devia ligar-se muito menos importancia ao que
dera antes tanta fora s praas fortes e aos castellos feudaes.

Todavia, grande numero de castellos pertencentes  segunda metade do
seculo XV apresentava ainda na parte exterior certa apparencia de fora;
a entrada era defendida por torres com portas e pontes levadias; as
muralhas guarnecidas tambem de torres e besteiras.


*Forma geral*

A forma mais geral no fim do seculo XV, foi a quadrada. Havia fortalezas
cujas casas rodeavam completamente o pateo central; em outras
construces no occupavam mais do que os tres lados do quadrado,
ficando o quarto fechado por um muro. Outros castellos occupavam smente
um dos lados do recinto. Os fossos, que cercavam estes castellos, sem
agua, tinham geralmente pequena profundidade;--seria pois um obstaculo
mui facil de transpr.

Na verdade, no seculo XV, _no procuravam j os logares mais eminentes
para se estabelecerem os castellos_; tinham reconhecido os
inconvenientes, de mais um genero, causados por essas elevadas posies,
sempre com entrada dificil, e por isso haviam _descido para as planicies
e os valles_, onde a agua, to til s necessidades da vida, se
encontrava com abundancia.

[Figura 261: Detalhes do castello de Montsereau]


*Ornamentao*

No interior, os castellos no se differenavam quasi nada dos palacios,
das casas nobres construidas nas cidades.

Eram, alm d'isso, as molduras inteiramente similhantes quellas que
apresentamos na archilectura religiosa e civil da mesma poca, taes como
nervuras prismaticas muito multiplicadas, arabescos, folhagens
profundamente indicadas, _crochets_, almofadas, arrendados nas pedras,
grandes folhas reviradas, cujo movimento fazia lembrar a forma de uma
cabea de elephante, pinaculos apoiados na construco, nichos,
torresinhas pendentes, etc. etc. etc. At os telhados no ficavam sem
ornatos, sendo o espigo guarnecido de cristas, de _crochets_, ou
diversas molduras executadas em chumbo; acima dos telhados conicos das
torres apresentavam egualmenle pinaculos as espigas imitadas no chumbo,
no ferro ou em argilla.

As seleiras firmavam-se em construces salientes e em falso, das quaes
podiamos apresentar muitas variedades, alm dos exemplos que damos a
pag. 272 [fig. 261].

Melhoraram as construces antigas, reconstruiram as portas pondo-lhes
pontes levadias de balano, cujo uso veiu a generalisar-se; e
augmentaram, melhoradas, as muralhas que eram rematadas por no
interrompida fileira de seteiras, que s vezes fechavam o recinto.

Todos os castellos existentes nas margens do _Loire_ pertencem  segunda
metade do seculo XV.

As duas torres, de que damos os desenhos na pag. 274. [fig. 262] so
tiradas do castello de _Langeais_, e a outra do de _Plessis-Bourr_,
quasi similhantes; mostrando o gosto d'aquella poca, alis mui
elegante.

A parte cylindrica da torre eleva-se para formar um andar (B), por cima
da galeria das besteiras (A), de maneira que a torre era dividida em
duas partes em logar de ser coberta pelo mesmo telhado. Este systema,
consistindo em estabelecer assim muitos andares de defeza pelas torres e
tambem pelos muros entre os baluartes, fora adoptado desde o XIV seculo;
porm mais geralmente empregado no XVI; posto que, em algumas partes,
sejam vistos os dois systemas de construces no mesmo castello.

[Figura 262: Uma das torres do castello de Langeais]

[Figura 263: Uma das torres do castello du _Plessis-Bourr_]

Os castellos, que citamos, cujas datas so verdadeiras, apresentam-nos o
typo de muitos outros edificios em diversas localidades, durante a
segunda metade do seculo XV e nos primeiros annos do XVI seculo.

[Figura 264]




CAPITULO VII

*ESTYLO DO RENASCIMENTO*


Chama-se _Renascimento_, a arte que voltou a tomar as frmas antigas da
architectura, como se a arte tivesse ficado _paralysada_ durante a era
ogival ou roman.

O estylo ogival, que percorrra os diversos periodos de aperfeioamento
e de generao, chegava ento ao seu termo, durante o segundo quartel do
seculo XV. A arcada traada por tres pontos ficava abandonada no XVI,
para se reproduzir com a volta inteira, que igualmente fra antes posta
de lado pela introduco da ogiva desde o seculo XII: portanto, uma
extraordinaria revoluo ia pois operar-se na architectura.

As guerras dos francezes na Italia em tres successivos reinados, levaram
a flr da nobreza quelle paiz, e ahi recebeu ella o gosto de tudo, que
o renascimento italiano produzira nas artes e nas letras; o genio de
innovao e reforma que tanto agitava a republica, no smente os
artistas, mas tambem os theologos, preparra os espiritos para esta
grande mudana.

Porm, a architectura chamada do _Renascimento_ no foi geralmente
empregada nas construces religiosas do XVI seculo. A frma da ogiva
tinha recebido para estes edificios uma especie de consagrao, e muito
tempo depois da adopo do estylo classico para as construces civis,
fra preferida depois para os monumentos religiosos, e at do seculo
XVII se encontram exemplos do emprego da ogiva. Na verdade, estava ento
o estylo ogival privado dos seus ornamentos, mostrando grande pobreza
decorativa; apparecia apenas o esqueleto do antigo estylo; porm a ogiva
era ainda usada smente para as janellas e arcadas.

Poderiamos citar centenares de igrejas edificadas n'este estylo, quando
o do Renascimento ostentava j todo o seu brilho nos palacios
acastellados e nas construces civis.

Como quer que fosse, as construces do Renascimento foram mais civis
que religiosas: isto , construiram-se n'este estylo menos igrejas que
palacios e casas.


*ARCHITECTURA RELIGIOSA*


*Plano das igrejas*

O plano das igrejas do seculo XVI foi pouco mais ou menos o mesmo que no
seculo antecedente.


*Monumentos*

As almofadas e frizos, as pilastras e os outros membros architectonicos
foram cobertos de grande profuso das imitaes do reino animal e
vegetal. Genios representando amor, figuras diversas, muitas de
phantasia, se entrelaavam em contornos caprichosos; porm sempre em
combinaes graciosas que foram chamadas _arabescos_, denominao
extravagante, porque os arabes proscreveram a natureza animada das suas
obras de imitao.

A igreja de Semur offerece-nos magnificos arabescos. Os arabescos, para
nos servir d'este termo improprio, que tem prevalecido, eram imitao
das decoraes a fresco que se acharam em muitos monumentos antigos, e
que se vem ainda hoje nas galerias e abobadas sombrias dos banhos de
Tito, em Roma.


*Janellas*

Muitas vezes as _janellas_ eram de volta perfeita, e sem cruzetas de
pedra; as portas e arcadas igualmente tinham a frma semicircular.

[Figura 265]

A janella, que representamos, foi tirada da igreja de S. Pedro de Caen,
apresentando o estylo do Renascimento mais bem caracterisado, no
smente na sua frma, mas igualmente nos seus accessorios (contrafortes,
pilastras, campanariosinhos, candelabros, etc., etc.), nas figuras, nos
modilhes, os quaes formam o remate; e nos entablamentos com balaustrada
que cora o edificio. Esta balaustrada com os seus graciosos
entrelaados e com as figurinhas nuas, reproduzem um dos typos d'este
genero mais elegantes do XVI seculo.

Do mesmo modo que no seculo XII, uma architectura de transio se formou
quando deixaram o arco ogival: apparecia outra que tornava a usar a
volta inleira, resultando d'ahi um estylo mixto pelas combinaes das
frmas classicas com os ornamentos do seculo XV. A volta perfeita da
architectura romana, ostentava-se ento coberta de vistosos enfeites do
estylo ogival, e a ogiva ligava-se aos arabescos e frontes antigos.

A janella da igreja _de-la-Fert-Bernard_ (Frana) d-nos um exemplo
d'este mixto architectonico, apresentando-nos divises no estylo do
Renascimento, no meio de uma grande ogiva lavrada com molduras no estylo
do seculo XV: pag. 280. [fig. 266]


*Abobadas*

[Figura 266: Uma janella da igreja de la Fert-Bernard]

N'esta poca, as _abobadas_ conservam a frma ogival, porm tendem a
baixar a sua elevao, e por vezes so de volta perfeita; os arcos
ramificam-se, vendo-se cobertos de ornatos as abobadas pendentes, como
se observa nas da igreja de _Saint tienne-du-Mont_ (Frana), de que
damos a gravura, e cuja construco, principiada em 1517, no estava
concluida em 1563.

[Figura 267: Igreja Saint-tienne-du-Mont]

[Figura 268]

Muitas igrejas ruraes, e at outras de maiores dimenses, tinham no
seculo XVI, unicamente abobadas imitadas com madeira, e como estes
forros cheios de obra de talha so importantes pela sua construco,
seria conveniente fallarmos d'elles; tinham como nos edificios civis da
mesma poca, collocadas as vigotas sobre a grossura das paredes, ao que
chamam _freixaes_, e os pontaes formando a ogiva ou a volta perfeita.

Estes eram firmados sobre vigas transversaes, chamadas _linhas_. O pau
de _fileira_ era sustentado de distancia em distancia por peas de
madeira, _penduraes_, erguendo-se verticalmente das linhas at ao tecto
de forma abobadada.

O forro que occultava os curvos e formava o contorno apparente da
abobada era coberto de pinturas, e as juntas das linhas ficavam
dissimuladas por fasquias ornamentadas.


*Altares*

O estylo do Renascimento mudou tambem, como deve suppr-se, o systema da
ornamentao dos altares, e as frmas antigas foram modificadas.

Existem ainda, em algumas igrejas ruraes, retabulos em madeira do seculo
XVI, no genero d'aquelle de que apresentamos a gravura na pag. 284 [fig.
269], encimado com docel horisontal. No ser nunca demasiado,
recommendar-se a conservao dos antigos altares, e se esse livro
chegasse s mos dos reverendos parochos, rogar-lhes-hiamos que tivessem
isto em atteno, embora, infelizmente, estejam sempre dispostos a
destruir tudo o que  antigo, como aconteceu ultimamente ao bellissimo
tecto da igreja matriz de Maravilla, em Santarem, para o substituir por
trabalho moderno de mau gosto e sem nenhum estylo!

Alguns retabulos representam a vida de Jesus Christo, ou a do orago da
igreja, figurando em uma serie de composies cujas figurinhas so
modeladas com delicadeza extraordinaria e bom colorido.

Muitos retabulos de madeira com figuras do seculo XVI, ficaram
desprezados e escondidos nos forros das igrejas, depois de terem sido
substituidos por pessimas pinturas, e ahi ficarem at que os
especuladores os descobrissem para separar as peas umas das outras, e
vendel-as por bom preo inculcando-as como objectos raros.

[Figura 269: Altar de madeira do seculo XVI]


*Pias baptismaes*

Appareceram _pias baptismaes_, novamente collocadas, sendo cobertas de
folhagem e cercaduras. Em algumas, a circumferencia  dividida em quatro
almofadas encaixilhando composies religiosas executadas em
baixo-relevo. Outras, como esta de que dmos exemplo, foi ornada com
medalhes. Porm, as pias baptismaes com frma de calix hemispherico so
sempre em maior numero.

[Figura 270: Pia baptismal do seculo XVI]


*Tumulos*

Dispondo-se n'essa poca de bellos materiaes (marmores, alabastros,
porphyros, etc.), que os artistas no renascimento podiam empregar nas
construces de limitadas dimenses, facilitando s esculpturas a maior
delicadeza na sua execuo, os haviam preferido para os monumentos
funebres. Os tumulos destinados aos papas, cardeaes, aos reis, principes
e nobres, construidos na Italia, Frana, e Belgica, so n'este genero o
que ha de mais sumptuoso e primoroso.

As pedras das campas tiveram igualmente mudanas nas frmas dos desenhos
gravados ao trao, como na architectura. A volta perfeita, durante o
curso do seculo XVI, substitue a ogiva pela arcada que moldura a effigie
do finado; estas molduras eram muito simples, comparadas com as que se
faziam antes; as regras e a ornamentao das duas architecturas eram to
diversas, que no podiam deixar de produzir de outra maneira essa
influencia.


*ARCHITECTURA CIVIL*


Os primeiros ensaios do estylo do Renascimento, no qual a
_multiplicidade das ordens_ era um dos principaes caracteres,
appareceram em Frana em 1498, e em Portugal em 1559, sendo o principal
exemplo d'este estylo no reino a capella-mr da igreja dos Jeronymos, em
Belem.

Esta architectura desenvolveu-se muito em Frana, como se v no augmento
dos palacios de Blois e de Chambord, chegando  perfeio pelo talento
do archiecto Philibert de Lorme e o esculptor Germain Pilon. Posto que
continuasse a florescer com mais ou menos acceitao, at que Perrault,
no reinado de Luiz XIV, seguiu o exemplo dado por Miguel Angelo,
delineando a fachada do palacio do Louvre, tendo portanto abandonado a
_multiplicidade das ordens_ e as minudencias do periodo antecedente,
empregando n'aquelle edificio uma unica ordem, em maior escala e em
estylo mais ousado.

[Figura 271: Casa no estylo do Renascimento, em Prigueux]

[Figura 272: Escada no estylo do Renascimento, em Prigueux]

[Figura 273: Janella no estylo do Renascimento, no castello de
Puy-Guilhem (Bordogne)]

[Figura 274: Fragmento d'uma casa de madeira, em Lisieux]

Na Inglaterra, o estylo da Renascena obteve voga muito depois que em
Frana. Durante o longo reinado da rainha Isabel conservaram sempre nos
seus palacios e _villas_, o estylo gothico, na mesma poca em que j o
esculptor Joo Goujon igualava quasi a execuo do antigo nos ornamentos
do pateo do palacio do Louvre. Foi smente em 1608, que appareceram em
Oxford (Inglaterra), os primeiros ensaios do estylo da Renascena no
portal da sua Universidade, tendo as cinco ordens sobrepostas.

[Figura 275: Fragmento d'uma casa de madeira, em Caen]

Uma casa que se conserva em Prigueux (Frana), d'este estylo [fig.
272], em que se notam as janellas das trapeiras, que se destacam sobre o
telhado, so de uma notvel elegncia.

[Figura 276: Chamin do seculo XVI]

Outro exemplo, na mesma localidade, em que se v o corrimo de cantaria
e as abobadas pendentes, ornadas de figuras em baixo-relevo, patenteiam
a importancia que se dava no seculo XVI a esta parte dos edificios,
grav. da pag. 288 [fig. 272]; assim como o desenho d'uma vistosa janella
do palacio de Puy-Guilhem (Frana), grav. da pag. 289 [fig. 273].

As casas construidas de madeira so algumas vezes mais cheias de
ornamentaes que as outras edificadas de cantaria; e os entalhadores
d'aquella poca desenvolveram superior talento na execuo de lavores
dos madeiros que molduravam as janellas, as trapeiras e os prumos dos
cunhaes.

Ahi est a fachada de uma casa de Lisieux [fig. 274], cidade que possue
ainda bellos exemplos em architectura do seculo XVI; assim como outro
fragmento, representado pela gravura de pag. 291 [fig. 275], da
decorao de uma casa de Caen. Estes dois exemplos, tomados ao acaso
entre mil, bastaro para demonstrar como o estylo do Renascimento ficou
assignalado sobre a madeira nas construces civis do seculo XVI.

Muitas vezes os grandes aposentos se distinguem por decoraes especiaes
e por magnificas chamins. Finalmente, as cristas, as espigas
construidas em chumbo ou barro cozido que coroavam os telhados,
apresentam no seculo XVI extraordinaria elegancia e excessiva altura.

[Figura 277: Castello de Chevillon]


*ARCHITECTURA MILITAR*


Os castellos do Renascimento, posto que cercados de fossos cheios d'agua
e muitas vezes guarnecidos de torres, todavia j no so praas fortes
na verdadeira accepo da palavra, mas elegantes habitaes, nas quaes
tinham em vista smente conservar as apparencias feudaes.  o que
facilmente se comprehender examinando a perspectiva do castello de
Chevillon (Frana), pag. 293 [fig. 277], cujas torres, que se reflectem
na agua, no mostram absolutamente nada de fortaleza que podesse
resistir aos ataques da infanteria e muito menos da artilheria.

A architectura dos castellos, alm das muralhas que os cingiam e os seus
fossos cheios de agua, confunde-se muito com a architectura civil; as
salas, as escadas, as galerias no so menos ornadas do que os palacios
e as casas das camaras; os arabescos e as molduras so at, s vezes,
prodigalisadas com excesso, como indica a grav. da pag. 295 [fig. 278].

Grande numero de castellos compe-se simplesmente de um pateo quadrado,
rodeado de construces ruraes, no fundo do qual est collocada a
habitao senhorial; as janellas d'estas casas quasi sempre foram depois
mudadas ou alteradas, mas conservando quasi intacta a torre com os
angulos cortados que encerra a escada, e que occupa o meio do edificio:
estas _fidalguias_, como eram designadas s vezes, so bastante communs
nos campos.

A Frana possue ainda centenares de notveis castellos do seculo XVI,
mui conhecidos dos _touristes_. Lembram os typos mais grandiosos e
magestosos das construces d'esta ordem. Limitar-nos-hemos a apresentar
dois lindos monumentos do Renascimento: taes como, o castello de
_Azay-le-Rideau_, distincto pela sua rica ornamentao, e o de
_Bernesq_, pag. 296 [fig. 279] e 297 [fig. 280].

Em seguida apresentamos um especimen dos modestos solares de que ha
grande numero edificados no paiz.

[Figura 278: Ornamentao do castello do Chantelou (Frana)]

Os castellos, construidos de madeira, continuaram a ser notaveis no
seculo XVI, nas localidades onde esse material de construco estava
mais em uso; com torres nos angulos, defendidos por fossos cheios
d'agua, e lendo cantaria s na base. At o pombal senhorial, que fazia
parte do recinto, era tambem de madeira.

[Figura 279: Vista geral do castello d'Azay-Rideau (Indre-et-Loire)]

[Figura 280]

Para entrar no pateo d'estes solares rodeados de agua, era preciso
geralmente atravessar um torreo desligado das outras habitaes, tal
como aquelle que existe ainda em _Beuvillers_, do qual em seguida damos
a gravura.

[Figura 281: Vista geral do castello de Bellou (Calvados)]

Estando os castellos menos expostos que as casas urbanas s mudanas e
reconstruces, teem por este motivo conservado melhor os madeiramentos
elevados, e os espiges de chumbo ou de barro cosido.

[Figura 282: Entrada do castello de Beuvillers]

Para vermos qual a importancia d'este ornato, copiamos aqui o especimen
de um espigo do Renascimento da antiga fabrica de _Prdauge_, pag. 300
[fig. 283], proximo de Lisieux: ha ainda muitas outras n'esta
localidade, no obstante o subido preo que os adelos offerecem para os
obter, mas o atilado juizo dos seus possuidores no sacrifica de certo
os objectos d'arte ao vil interesse.

[Figura 283: Fabrica de Prdauge (Frana)]




CAPITULO VIII

*PERIODO MODERNO*


Diremos apenas algumas palavras cerca do periodo moderno da
architectura.

No seculo XVII e no XVIII procurou-se imitar uma certa disposio
architectonica, que havia prevalecido na Italia nas fachadas das
igrejas, no ultimo quartel do seculo XVI, consistindo em collocar o
portal no meio de columnas que abrangessem a largura da nave principal e
as duas lateraes; depois em sobrepr outra Ordem de architectura por
cima da primeira, ainda que no correspondesse ao espao occupado pela
nave principal, onde as suas abobadas se erguiam acima dos telhados
inferiores pertencentes s naves lateraes.

Esta diminuio de largura dada  fachada, na parte superior, era
disfarada por um ornato accessorio do feitio de um _S_ deitado,
_quartellas_, para ligar a elevao da segunda Ordem com a parte
inferior que decorava o portal, e ao mesmo tempo servia-lhe de
_contraforte_.

Os jesuitas, que construiram n'essa epoca as suas igrejas adoptando esta
disposio, foram os promotores principaes de tal incoherencia, sobrepr
as columnas que no correspondiam s divises dos andares. Por este
motivo ficou designada _Estylo dos Jesutas_, que foi adoptado nas
igrejas do seculo XVII.


*ARCHITECTURA RELIGIOSA*


Para exemplo dmos a gravura da igreja da Sorbonna (Frana), construida
por ordem de Richelieu, de 1635 a 1659, a qual se compe de uma Ordem
corinthia na parte inferior, tendo por cima outra Ordem composita,
limitada por um fronto, e sobre os lados as quartellas servindo de
contrafortes para esconder a falta de ligaes das naves lateraes com a
decorao principal da fachada. A torre, com feitio de cupula,
apresentava um tambor cylindrico.

[Figura 284: Igreja da Sorbonna]

Em Portugal, em todas as igrejas d'essa poca, imitaram egual
disposio. Os planos foram delineados sob a mesma influencia religiosa,
e assim se construiram as igrejas de Santo Estevo, a do Espirito Santo,
o seminario de Santarem, etc.


*Disposio interna nas igrejas*

[Figura 285: Interior da igreja de S. Sulpicio]

A frma interna era, em geral, muito simples. Constava de arcadas
macissas separadas por pilares, algumas vezes decoradas de pilastras;
pondo em communicaco essas arcadas da nave principal com as outras
lateraes. Uma unica ordem de janellas se collocavam na parte superior,
por cima d'essas arcadas; e ora de volta inteira, ora de verga
horisontal, davam claridade  nave. As naves lateraes e as capellas
correspondentes s aberturas das arcadas recebem luz por janellas de
egual feitio.

O interior da igreja de S. Sulpicio (Frana) mostra esta disposio, que
era a mais seguida; portanto, no mostravam indicio algum do
_triforium_, nem logar para a galeria, como se costumava construir no
seculo XVI.


*Torres*

Edificaram-se torres de differentes frmas. A cupula da igreja da
Sorbonna mostra-nos as que ficam mais usuaes para os grandes edificios;
para as outras de menor grandeza, adoptavam as torres em abobada
hemispherica e lanternim, como se v na gravura; as quaes foram muito
communs at o final do seculo XVIII.

[Figura 286]


*Altares*

Os retabulos ornados com columnas e frontes foram empregados em toda a
parte para decorarem os altares-mres, desde o fim do seculo XIII, e
formavam verdadeiros monumentos na architectura moderna, que a _moda_
havia introduzido tambem dentro das igrejas ogivaes. Foi d'elles que
derivaram os elementos para as fachadas das igrejas modernas, as quaes,
ainda que combinadas com arte, produziam todavia effeito um tanto
theatral, pouco proprio da magestade da casa de Deus, no obstante terem
apparencia vistosa, como se poder julgar pela gravura da pag. 305 [fig.
287].

Apezar de que estes altares so muitas vezes pouco harmoniosos no
estylo, convir comtudo conserval-os como exemplar da original decorao
da poca.

[Figura 287: Grande retabulo do seculo XVII]


*Tumulos*

Durante o periodo, de que tratamos, os tumulos eram notaveis pelo
emprego de marmores de variadissimas cres.

[Figura 288: Tumulo com estatuas deitadas]

Apparecem alguns com a frma das antigas quilhas de navios, apresentando
o bjo dos dois lados; porm, as frmas da poca antecedente continuam
ainda a ser seguidas, apparecendo por esta raso as estatuas dos finados
deitadas sobre as campas; porm o maior numero eram representados de
joelhos como se estivessem em orao, pag. 307 [fig. 289].

Em Portugal so raros os tumulos d'essa poca, em que appaream
representados em vulto os finados que n'elles jazem.

[Figura 289: Estatua do seculo XVII (reinado de Luiz XIII)]


*ARCHITECTURA CIVIL*


Se lanarmos a vista sobre a architectura civil da Frana, da Allemanha
e da Belgica, no seculo XVII, veremos que se construia grande numero de
casas com elevadissimas empenas com os lados em frma de degraus e
rematadas por grandissimas quartellas, que datam do seculo XVI, pag. 308
[fig. 390].

[Figura 290: Casa allem da primeira metade do seculo XVII]

[Figura 291: Edificao do comeo do seculo XVII]

A empena da gravura que damos para exemplo d'esta especie de
construces  de 1620.

No seculo XVII, as casas mais importantes tinham as escadas com
patamares mui espaosos; e os pontos de apoio eram executados com
demasiada grossura. Os balaustres da grade da escada tinham a frma
quadrangular e o seu corrimo era tambem de grande grossura.

[Figura 292: Palacio de Caillerie (Bayeux)]

As duas gravuras das pag. 309 [fig. 291] e 310 [fig. 292], mostram o
estylo das casas do seculo XVII. Na primeira gravura, j as janellas no
tem pinazios de cantaria, assim como as vidraas no tem os caixilhos
guarnecidos de chumbo para segurar os vidros, sendo substituidos por
pinazios de madeira. As trapeiras conservam as primitivas frmas,
mostrando os prumos recortados em frma de quartellas, e os seus
frontes de feitio circular ou triangular, conforme eram empregados no
seculo XVI. Os pannos das chamins tinham a frma quadrangular, e
terminavam em frontes.

[Figura 293: Fachada com portal em Trvires, de 1647]

A outra casa, que  de estylo mais adiantado, pois data de 1664,
apresenta um bello portal terminado por fronto, os telhados com
bastante elevao, e as chamins extremamente altas.

Estas combinaes so caracteristicas do seculo XVII.

Ha nos suburbios de Lisboa, no palacio de Palhav (que foi por ns
restaurado e ampliado no anno de 1862), um bellissimo portal, no estylo
Toscano, de perfeita composio e obra de acabamento apurado, e haver
poucos nos outros paizes que lhe possam ser comparados, e sem duvida o
celebre architecto Vignola no se negaria a firmar com a sua assignatura
o desenho para esta construco, tanto mais por ser delineado segundo a
escola d'este artista.

[Figura 294: Uma parte do castello de Harcourt]

O estylo da primeira metade do seculo XVII, o qual predominou durante o
principio do seculo seguinte, apresenta um caracter grandioso, e os
monumentos d'essa poca distinguem-se, pelo seu nobre aspecto, das
outras edificaes mais importantes do tempo presente.

As outras gravuras apresentam construces pertencentes ao ultimo
quartel do seculo XVII, e seguem a ordem da antiguidade de suas
edificaes. A primeira gravura pertence a uma azenha, posto que na sua
fachada parecer um palacete.  do anno de 1664, pag. 311 [fig. 293].

As duas partes symetricas flanqueadas por pilastras e o fronto separado
por muitas ordens de frizos sobrepostos, (de pessimo effeito) que occupa
a parte central, parecem caracterisar uma data um pouco mais antiga,
posto que este estylo se perpetuou, em alguns monumentos, at ao
principio do seculo XVIII.

A parte da casa de Harcourt, que representa a outra gravura, pag. 312
[fig. 294], pertence ao principio do seculo XVIII, mas foi edificio
delineado com mais talento e apresenta um aspecto mais regular e nobre.
No seculo XVIII a architectura modificou-se sensivelmente, e o grande
numero dos edificios d'esta poca est bem patente, e ser escusado
descrever o seu caracter architectonico.

No actual seculo XIX, tem-se feito bastantes alteraes na architectura,
e por isso no apresenta um caracter bem distincto, o que se dever
attribuir ao estado presente social; portanto, no se pde definir a
frma do estylo que dever representar a sua architectura.

Finalmente para que qualquer estudo offerea sempre interesse para ser
cultivado pelos estudantes,  preciso no se explicar tudo aos
principiantes, sobre a materia de que se occupam, mui principalmente
n'esta moderna sciencia; para que a curiosidade de a profundar lhes
desperte o desejo de se instruirem cada vez mais, o que lhes facilitar
gradualmente o seu desenvolvimento; afim de evitar que uma demasiada
applicao venha a produzir-lhes o cansao em conhecer todos os segredos
da archeologia, porque o estudo se no  facil,  sobejamente agradavel
e util. Por minha parte, julgar-me-hei feliz se as noes que deixo
n'estas paginas, poderem suscitar o amor a to profcuos estudos, porque
d'ahi, no meu entender, vir engrandecimento para o nosso fim.

[Figura 295]




Notas:

[1] Dolmen  composto de duas palavras celticas, _dol_ mesa, e _men_
pedra.

[2] _Menhir_ e _peulvan_ derivam da lngua celtica, e tem quasi a mesma
significao; compem-se de duas palavras _men_ pedra, e _hir_ longo;
_peul_, pilar, _vain_ ou _maen_, pedra: isto , pedra alongada.

[3] Nome composto de duas palavras dos bretes: _crom_, curva; _leck_,
pedra.

[4] Esta palavra  saxonia e significa pedras enfileiradas.

[5] Os antiquarios inglezes designam pelo nome de _trilithos_ a mesma
combinao de pedras, indicando um monumento composto de tres grandes
pedras.

[6] King era da opinio de que havendo pedras erguidas no centro dos
circulos, eram estes destinados para as assemblas civis; em quanto
aquelles em que havia dolmen serviam para as ceremonias religiosas.

[7] Antigamente os orientaes tinham, como os celtas, venerao religiosa
pelas _grandes pedras toscas_; assim como os hebreus, a ponto de Moyss
lhes prohibir que as adorassem.

[8]  notavel que a relao da liga d'este metal, seja egual  dos
bronzes descobertos em regies to distantes.

[9] Os machados e frechas achados na Europa comparados com os que usavam
os selvagens da America e os da Nova Hollanda e da Nova Zelandia, causam
admirao por terem as mesmas formas, e muitas vezes, egual materia.

[10] Collocavam tambem nas estradas pedras que serviam para descanar os
viajantes, e para os cavalheiros montarem a cavallo.

[11] Talvez seja derivado da palavra _mus_, as musas, porque era
principalmente nos templos d'estas deusas que o pavimento de musaico
fra empregado.

[12] Como foi descoberto, n'este anno, no Outeiro de Ferreira de Zezere
um forno romano, tendo dentro telhas curvas com lavres.

[13] Actualmente est entulhada at a nascena do arco da abobada.

[14] As de oliveira para Minerva; as de murta para Venus; as do pinheiro
para Pan, etc.

[15] No tempo do imperador Justiniano houve uma luta entre a faco
verde e azul, em que pereceram 40:000 homens. Depois d'este horrivel
acontecimento ficaram abolidas as cres.

[16] Caligula consentiu em que pozessem almofadas ou tapetes nos
assentos de pedra.

[17] Os logares estavam numerados e gravados na pedra, e cada espectador
entrava com um bilhete de forma circular _tossera theatralis_, que
designava o logar que devia occupar.

[18] Foi Quinto Catulos o primeiro que mandou estender um toldo de
purpura.

[19] Suppe-se que o uso de immolar os primeiros sobre o tumulo dos
guerreiros, e os escravos sobre a sepultura de seus donos, deram origem
a estes combates.

[20] Pompeu foi quem introduziu este uso em Roma; e Mecenas quem
construiu primeiro estes monumentos publicos.

[21] Nas thermas d'este imperador havia 1:600 banheiras de porphyro e
marmore; e n'este edificio podiam 3:000 pessoas tomar banho.

[22] Havia em Roma 856 thermas.

[23] Veja-se na gravura da pag. 82 [fig. 69], os algarismos da planta
que designam os diversos aposentos.

[24] Depois do incendio de Roma, no tempo de Nero, contavam-se ainda
48:000 casas, separadas umas das outras.

[25] O maior sabio agronomo da antiguidade, nascido no seculo I da era
christ.

[26] A mais importante foi a do imperador Adriano, pois comprehendia uma
superficie de dez milhas.

[27] O uso de se queimarem os corpos procedia de um mytho religioso que
se conservou na Grecia e na Italia at o estabelecimento do
christianismo.

[28] O maior cippo descoberto em Portugal foi achado em _Citania_
(Guimares).  de granito e de extraordinarias dimenses.

[29] Esta palavra de origem grega tem a mesma significao que os
romanos davam ao _cippo_.

[30] Espcie de enxado, de que os coveiros se serviam.

[31] Em Cetobriga (Setubal) existem cemiterios com os dois modos de
enterramentos; o de incinerao, estava collocado no centro de Troia, e
o outro para os corpos sem serem queimados, existia na margem do Sado.

[32] Que  como a espuma: Venus saindo do mar.

[33] Latona, da qual nasceram, na ilha de Dellos, Apollo e Diana.

[34] Lucina, divindade romana que presidia aos partos.

[35] Como havia na S de Lisboa, e na igreja de S. Christovam de
Coimbra.

[36] Veja-se a nossa obra, escripta em francez no anno 1868, com o
titulo--_Mmoire d'Archologie sur la vritable signification des signes
qu'on voit gravs sur les anciens monuments du Portugal_, in-4.^o e avec
344 fac-similes.

[37] Mais proprio seria representar o vitello.

[38] Veja-se a nossa obra j citada na nota da pag. 126 e 127 [Nota 36].

[39] Nota-se um dos mais singulares exemplos que se possa imaginar, em
um capitel das columnas que sustentam a abobada da sala antiga dos
cavalleiros de Luiz XI, na antiga priso da Conciergerie em Paris; 
composto de duas figuras, uma de Heloiza e outra do Abeillard, o qual
lhe mostra a mutilao que se lhe praticra!!

[40] Descripo das imagens e paineis antigos.

[41] O mais antigo exemplo em Portugal d'este uso apparece na igreja do
famoso mosteiro de Alcobaa; todo o pavimento da igreja era formado de
tijolos quadrados de pequenissima dimenso, e s vidrados na face
superior, de cr esverdeada; esto presentemente soterrados a 0^m,30 por
baixo das lageas que cobrem o piso das naves.

[42] Os mais notaveis que possue Portugal so os sarcophagos d'El-Rei D.
Affonso Henriques, e D. Sancho I, em Santa Cruz de Coimbra; o d'El-Rei
D. Pedro e de D. Ignez de Castro, em Alcobaa; o do Marquez de Vianna em
S. Francisco, em Santarem; o d'El-Rei D. Fernando I, no Museu do Carmo.

[43] Como est representado no sarcophago d'El-Rei D. Joo I, e de sua
mulher D. Filippa, no jazigo do convento da Batalha.

[44] Encontra-se no livro da Chronica do Mosteiro a explicao d'esta
singularidade, declarando-se ahi que os frades a tinham mandado pr com
o intuito de passarem por cima da figura representada de um abbade,
visto que elle fra em demasia severo para com elles!  textual esta
referencia.

[45] Pudemos descobrir ter pertencido ao tumulo de um neto d'El-Rei de
Frana, que fra casado com uma filha d'El-Rei D. Diniz.

[46] Alm de suas grandes dimenses e apropriada disposio, tinha a
vantagem de atravessal-a um rio, o que facilitava conservar sempre o
peixe vivo dentro da cosinha.

[47] Curvas descriptas com raio maior do que tem a largura da janella.

[48] Como se nota na primeira capella da igreja do Carmo de Lisboa.

[49] Temos exemplos na S Velha de Coimbra e na igreja da Batalha.

[50] N'este descobrimos ns o nome do canteiro na base das columnas do
angulo sul, o qual estava encoberto debaixo da cal!

[51] Na antiquissima igreja de S. Miguel, em Guimares, na nave unica
que tem, est coberta de _campas de granito_, mostrando em relevo
emblemas guerreiros com o escudo e a lana.

[52] Em Cintra, proximo do Ramalho, ainda em 1872 existiam os vestigios
de uma casa de leprosos, com a sua capellinha; quasi ao meio da estrada
ha um tumulo de um bispo, que falleceu ali d'essa enfermidade. Saindo da
estao principal dos caminhos de ferro em Setubal, encontra-se 
direita, indo para aquella cidade, um bello portal, unico vestigio de
uma outra gafaria, que houve n'aquelle sitio.

[53] Como ainda ha na praa de guerra de Elvas.

[54] Como foi construida a praa forte de Villa Viosa: actualmente em
completa ruina.




INDICE


INTRODUCO.


PROLOGO


CAPITULO I

*Tempos prehistoricos*

Tempos prehistoricos
Architectura dos tempos prehistoricos
Utensilios e instrumentos diversos
Objectos de barro
Mappa synoptico das antiguidades prehistoricas


CAPITULO II

*Era gallo-romana*

Era gallo-romana
Architectura
Muralhas de defeza
Inscripes latinas


CAPITULO III

*Idade media*

Idade media
Periodo romano primitivo
Architectura religiosa
Idem civil
Idem militar


CAPITULO IV

*Era ogival*

Era ogival
Architectura religiosa
Idem civil
Idem militar


CAPITULO V

*Era ogival secundaria*

Architectura religiosa
Idem civil
Idem militar


CAPITULO VI

*Seculos XV e XVI*

Architectura religiosa
Idem civil
Idem militar


CAPITULO VII

*Estylo do renascimento*

Estylo do renascimento
Architectura religiosa
Idem civil
Idem militar


CAPITULO VIII

*Periodo moderno*

Periodo moderno
Architectura religiosa
Idem civil




ERRATAS

_N.B._ As variantes de orthographia e as erratas de pouca monta
abstivemo-nos de as indicar, porque facil ser ao leitor emendal-as.




OUTRAS PUBLICAES DO AUCTOR


    *O QUE FOI E  A ARCHITECTURA*, e o que aprendem os architectos fra
    de Portugal, in-8.^, Lisboa, 1833.

    *NOVA MISCELLANEA RECREATIVA,* obra dedicada s senhoras, in-18.^,
    Lisboa, 1844--_Primeira publicao feita em Portugal com letras
    floreteadas_.

    *REVISTA PITTORESCA DESCRIPTIVA DE PORTUGAL,* com vistas
    photographicas, in-folio-grande, Lisboa, 1862.

    *DESCRIPO ARTISTICA* das novas salas do real palacio da Ajuda,
    in-8.^, Lisboa, 1865.

    *MMOIRE DESCRIPTIF* du projet d'une restauration pour l'glise
    monumentale de Belem, et modle fait pour l'Exposition Universelle
    de Paris, in-8.^o, Lisbonne, 1867.

    *MMOIRE DE L'ARCHOLOGIE* sur la vritable signification des signes
    qu'on voit gravs sur les anciens monuments du Portugal, in-4.^o,
    avec 156 figures, Lisbonne, 1867.

    *DISSERTATION ARTISTIQUE* sur l'architecture en Portugal depuis le
    XII au XVIII sicle, in-8.^o, Lisbonne, 1869.

    *L'ASSAINISSEMENT DE LA VILLE DE LISBONNE,* mmoire l dans le
    congrs pour l'avancement des sciences,  Bordeaux, in-8.^o, 1872.

    *SOUVENIRS DU CONGRS INTERNATIONAL* d'Anthropologie et
    d'Archologie pr-historique en Bologne, en grand 8.^o, avec quatre
    planches, Lisbonne, 1873.

    *ELOGIO HISTORICO* do architecto civil Jos da Costa Sequeira,
    recitado na sesso solemne da Real Associao dos Architectos e
    Archeologos Portuguezes, in-8.^o, Lisboa, 1873.

    *NOTICE HISTORIQUE ET ARTISTIQUE* des principaux difices religieux
    du Portugal, in-8.^o, Lisbonne, 1873.

    *ELOGIO HISTORICO* do architecto membro do instituto Mr. Victor
    Baltard, lido na sesso solemne da Real Associao dos Architectos
    Civis e Archeologos Portuguezes, em Maio de 1874, Lisboa, in-4.^o






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by Joaquim Possidnio Narciso da Silva

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state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
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States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
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While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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ways including including checks, online payments and credit card
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Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
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