Project Gutenberg's Lendas e Narrativas (Tomo II), by Alexandre Herculano

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Title: Lendas e Narrativas (Tomo II)

Author: Alexandre Herculano

Release Date: November 4, 2005 [EBook #17005]

Language: Portuguese

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LENDAS E NARRATIVAS (Tomo II)

A DAMA-P-DE-CABRA

RIMANCE DE UM JOGRAL


SECULO XI



TROVA PRIMEIRA.


1

Vs os que no crdes em bruxas, nem em almas penadas, nem nas
tropelias de Satans, assentae-vos aqui ao lar, bem junctos ao
p de mim, e contar-vos-hei a historia de D. Diogo Lopes, senhor
de Biscaia.

E no me digam no fim:--"no pde ser."--Pois eu sei c inventar
cousas destas? Se a conto  porque a li n'um livro muito velho,
quasi to velho como o nosso Portugal. E o auctor do livro velho
leu-a algures, ou ouviu-a contar, que  o mesmo, a algum jogral
em seus cantares.

 uma tradio veneranda; e quem descr das tradies l ir para
onde o pague.

Juro-vos que se me negaes esta certissima historia sois dez vezes
mais descridos do que S. Thom antes de ser grande sancto. E
no sei se eu estarei de animo de perdoar-vos, como Cbristo lhe
perdoou.

Silencio profundissimo; porque vou principiar.


2

D. Diogo Lopes era um infatigavel monteiro: neves da serra no
inverno, soes dos estevaes no vero, noites e madrugadas, d'isso
se ria elle.

Pela manhan cedo de um dia sereno estava D. Diogo em sua armada,
em monte selvoso e agreste, esperando um porco montez, que, batido
pelos caadores, devia sar naquella assomada.

Eis seno quando comea a ouvir cantar ao longe: era um lindo,
lindo cantar.

Alevantou os olhos para uma penha que lhe ficava fronteira: sobre
ella estava assentada uma formosa dama; era a dama quem cantava.

O porco fica desta vez livre e quite; porque D. Diogo Lopes no
corre, voa para o penhasco.

"Quem sois vs, senhora to gentil; quem sois, que logo me
captivastes?"

"Sou de to alta linhagem como tu; porque venho do semel de reis,
como tu, senhor de Biscaia."

"Se j sabeis quem eu seja, offereo-vos a minha mo, e com ella
as minhas terras e vassallos."

"Guarda as tuas terras, D. Diogo Lopes, que poucas so para seguires
tuas montarias; para o desporto e folgana de bom cavalleiro que
s. Guarda os teus vassallos, senhor de Biscaia, que poucos so
elles para te baterem a caa."

"Que dote, pois, gentil dama, vos posso eu offerecer digno de
vs e de mim; que se a vossa belleza  divina, eu sou em toda
a Hespanha o rico homem mais abastado?"

"Rico-homem, rico-homem, o que eu te acceitra em arrhas cousa
 de pouca valia; mas apesar d'isso no creio que m'o concedas;
porque  um legado de tua me, a rica-dona de Biscaia."

"E se eu te amasse mais que a minha me, porque no te cederia
qualquer dos seus muitos legados?"

"Ento se queres ver-me sempre ao p de ti no jures que fars
o que dizes, mas d-me d'isso a tua palavra."

"A la f de cavalleiro, no darei uma, darei milhentas palavras."

"Pois sabe que para eu ser tua  preciso esqueceres-te de uma
cousa que a boa rica-dona te ensinava em pequenino, e que estando
para morrer ainda te recordava."

"De qu, de qu, donzella?"--acudiu o cavalleiro com os olhos
faiscantes.--"De nunca dar treguas  mourisma, nem perdoar aos
ces de Mafamede? Sou bom christo. Guai de ti e de mim se s
dessa raa damnada!"

"No  isso, dom cavalleiro,"--interrompeu a donzella a rir.--"O
de que eu quero que te esqueas  do signal da cruz: o que eu
quero que me promettas  que nunca mais has-de persignar-te."

"Isso  outra cousa:"--replicou D. Diogo, que nos folgares e
devassides perdra o caminho do cu. E poz-se um pouco a scismar.

E scismando dizia comsigo:--"De que servem benzeduras? Matarei
mais duzentos mouros e darei uma herdade a Sanctiago. Ella por
ella. Um presente ao apostolo e duzentas cabeas de agarenos
valem bem um grosso peccado."

E erguendo os olhos para a dama, que sorria com ternura,
exclamou:--"Seja assim: est dicto. V, com seiscentos diabos."

E levando a bella dama nos braos, cavalgou na mula em que viera
montado.

S quando  noite no seu castello pde considerar miudamente
as frmas nuas da airosa dama, notou que tinha os ps forcados
como os de cabra.


3

Dir agora alguem:--"Era por certo o demonio que entrou em casa
de D. Diogo Lopes. O que l no iria!"--Pois sabei que no a
nada.

Por annos a dama e o cavalleiro viveram em boa paz e unio. Dous
argumentos vivos havia d'isso: D. Inigo Guerra e D. Sol, enlevo
ambos de seu pae.

Um dia pela tarde D. Diogo voltou de montear: trazia um javali
grande, muito grande. A mesa estava posta. Mandou conduzi-lo 
casa onde comia, para se regalar de ver a excellente pra que
havia preado.

Seu filho assentou-se ao p delle: ao p da me D. Sol; e comearam
alegremente seu jantar.

"Boa montaria, D. Diogo,"--dizia sua mulher.--"Foi uma boa e limpa
caada."

"Pelas tripas de Judas!"--respondeu o baro.--"Que ha bem cinco
annos no colho urso ou porco montez que este valha!"

Depois, enchendo de vinho o seu pichel de prata mui rico e lavrado,
virou-o de golpe  saude de todos os ricos homens fragueiros e
monteadores.

E a comer e a beber durou at a noite o jantar.


4

Ora deveis de saber que o senhor de Biscaia tinha um alo a que
muito queria, raivoso no travar das feras, manso com seu dono,
e at com os servos de casa.

A nobre mulher de D. Diogo tinha uma podenga preta como azeviche,
esperta e ligeira que mais no havia dizer, e della no menos
presada.

O alo estava gravemente assentado no cho defronte de D. Diogo
Lopes, com as largas orelhas pendentes e os olhos semi-cerrados,
como quem dormitava.

A podenga negra, essa corria pelo aposento viva e inquieta, pulando
como um diabrete: o pello liso e macio reluzia-lhe com um reflexo
avermelhado.

O baro, depois da saude _urbi et orbi_ feita aos monteiros, esgotava
um kirie comprido de saudes particulares, e a cada nome uma taa.

Estava como cumpria a um rico-homem illustre, que nada mais tinha
que fazer neste mundo seno dormir, beber, comer e caar.

E o alo cabeceava como um abbade velho em seu cro, e a podenga
saltava.

O senhor de Biscaia pegou ento de um pedao de osso com sua
carne e medula, e atirando-a ao alo gritou-lhe:--"Silvano, toma
l tu, que s fragueiro: leve o diabo a podenga, que no sabe
seno correr e retouar."

O canzarro abriu os olhos, rosnou, poz a pata sobre o osso, e
abrindo a bca, mostrou os dentes anavalhados. Era como um rir
deslavado.

Mas logo soltou um uivo, e cahiu, perneando meio-morto: a podenga
de um pulo lhe saltra  garganta, e o alo agonisava.

"Pelas barbas de D. From, meu bisav!"--exclamou D. Diogo, pondo-se
em p tremulo de colera e de vinho.--"A perra maldicta matou-me
o melhor alo da matilha; mas juro que hei-de escorcha-la."

E virando com o p o co moribundo, mirava as largas feridas do
nobre animal, que espirava.

"A la f que nunca tal vi! Virgem bemdicta! Aqui anda cousa de
Belzebuth."--E dizendo e fazendo, benzia-se e persignava-se.

"Ui!"--gritou sua mulher como se a houveram queimado. O baro
olhou para ella: viu-a com os olhos brilhantes, as faces negras,
a bca torcida e os cabellos eriados:

E a-se alevantando, alevantando ao ar com a pobre D. Sol sobraada
debaixo do brao esquerdo: o direito estendia-o por cima da mesa
para seu filho D. Inigo de Biscaia.

E aquelle brao crescia alongando-se para o mesquinho, que de
medo no ousava bolir nem falar.

E a mo da dama era preta e luzidia como o pello da podenga,
e as unhas tinham-se-lhe estendido bom meio palmo, e recurvado
em garras.

"Jesus, sancto nome de Deus!"--bradou D. Diogo, a quem o terror
dissipra as fumaas do vinho. E travando de seu filho com a
esquerda, fez no ar com a direita uma e outra vez o signal da
cruz.

E sua mulher deu um grande gemido, e largou o brao de Inigo
Guerra, que j tinha seguro, e continuando a subir ao alto, saiu
por uma grande fresta, levando a filhinha que muito chorava.

Desde esse dia no houve saber mais nem da me nem da filha. A
podenga negra, essa sumiu-se por tal arte, que ninguem no castello
lhe tornou a pr a vista em cima.

D. Diogo Lopes viveu muito tempo triste e aborrdo, porque j
no se atrevia a montear. Lembrou-se, porm, um dia de espairecer
sua tristura, e em vez de ir  caa dos cerdos, ursos e zevras,
sair  caa de mouros.

Mandou, pois, levantar o pendo, desenferrujar e polir a caldeira,
e provar seus arnezes. Entregou a Inigo Guerra, que j era mancebo
e cavalleiro, o governo de seus castellos, e partiu com lustrosa
mesnada de homens d'armas para a hoste d'el rei Ramiro, que a
em arrancada contra a mourisma de Hespanha.

Por muito tempo no houve delle, em Biscaia, nem novas nem
mensageiros.

       *       *       *       *       *



TROVA SEGUNDA.


1

Era um dia ao anoitecer: D. Inigo estava  mesa, mas no podia
ceiar, que grandes desmaios lhe vinham ao corao. Um pagem muito
mimoso e privado, que em p diante delle esperava seu mandar,
disse ento para D. Inigo:--"Senhor, porque no comeis?"

"Que hei-de eu comer, Brearte, se meu senhor D. Diogo est captivo
de mouros, segundo resam as cartas que ora delle so vindas?"

"Mas seu resgate no  a vossa mofina: dez mil pees e mil
cavalleiros tendes na mesnada de Biscaia: vamos correr terras
dos mouros: sero os captivos resgate de vosso pae."

"O perro d'elrei de Leo fez sua paz com os ces de Toledo: e
so elles que tem preado meu pae. Os alcaides e potestades do
rei tredo e vil no deixariam passar a boa hoste de Biscaia."

"Quereis vs, senhor, um conselho, e no vos custar nem mealha?"

"Dize, dize l, Brearte."

"Porque no ides  serra procurar vossa me? Segundo ouo contar
aos velhos ella  grande fada."

"Que dizes tu, Brearte? Sabes quem  minha me, e que casta 
de fada?"

"Grandes historias tenho ouvido do que se passou certa noite
n'este castello: ereis vs pequenino, e eu ainda no era nado.
Os porqus d'estas historias, isso Deus  que o sabe."

"Pois dir-t'os-hei eu agora. Chega-te para c, Brearte."

O pagem olhou de roda de si quasi sem o querer, e chegou-se para
seu amo: era a obediencia, e ainda mais um certo arripio de medo,
que o fazia chegar.

"Vs tu, Brearte, aquella fresta entaipada? Foi por alli que
minha me fugiu. Como e porqu, aposto que j t'o ho contado?"

"Senhor, sim! Levou vossa irman comsigo..."

"Responder s ao que pergunto! Sei isso. Agora cal-te."

O pagem poz os olhos no cho, de vergonha; que era humildoso e
de boa raa.


2

E o cavalleiro comeou o seu narrar:

"Desde aquelle dia maldicto meu pae poz-se a scismar: e scismava
e amesquinhava-se, perguntando a todos os monteiros velhos se
porventura tinham lembrana de haverem no seu tempo encontrado
nas brenhas alguns medos ou feiticeiras. Aqui foi um no acabar
de historias de bruxas e de almas penadas.

Havia muitos annos que meu senhor pae se no confessava: alguns
havia tambem que estava viuvo sem ter enviuvado.

Certo domingo pela manhan nasceu o dia, alegre como se fra de
paschoa; e meu senhor D. Diogo acordou carrancudo e triste como
costumava.

Os sinos do mosteiro, l em baixo no valle, tangiam to lindamente
que era um cu aberto. Elle poz-se a ouvi-los, e sentiu uma saudade
que o fez chorar.

"Irei ter com o abbade:"--disse elle l comsigo:--"quero-me confessar.
Quem sabe se esta tristura ainda  tentao de Satans?"

O abbade era um velhinho, sancto, sancto, que no o havia mais.

Foi a elle que se confessou meu pae. Depois de dizer _mea culpa_,
contou-lhe ponto por ponto a historia do seu noivado.

"Ui! filho,"--bradou o frade--"fizeste maridana com uma alma penada!"

"Alma penada, no sei:"--tornou D. Diogo;--"mas era cousa do diabo."

"Era alma em pena: digo-t'o eu, filho:"--replicou o abbade.--"Sei
a historia dessa mulher das serras. Est escripta ha mais de cem
annos na ultima folha de um sanctoral godo do nosso mosteiro.
Desmaios que te vem ao corao pouco me espantam. Mais que ancias
e desmaios costumam roer l por dentro os pobres excommungados."

"Ento estou eu excommungado?"

"Dos ps at  cabea; por dentro e por fra; que no ha que dizer
mais nada."

E meu pae, a primeira vez na sua vida, chorava pelas barbas abaixo.

O bom do abbade amimou-o como a uma creana, consolou-o como
a um malaventurado. Depois poz-se a contar a historia da dama
das penhas, que  minha me ... Deus me salve!

E deu-lhe por penitencia ir guerrear os perros sarracenos por
tantos annos quantos vivra em peccado, matando tantos delles
quantos dias nesses annos tinham corrido. Na conta no entravam as
sextas-feiras, dia da paixo de Christo, em que seria irreverncia
trosquiar a vil rel de agarenos, cousa neste mundo mui indecente
e escusada.

Ora a historia da formosa dama das serras, de verbo ad verbum
como estava na folha branca do sanctoral, resava assim, segundo
lembranas do abbade.


3

No tempo dos reis godos--bom tempo era esse!--havia em Biscaia um
conde, senhor de um castello posto em montanha fragosa, cercado
pelas encostas e quebradas de larguissimo soveral. No soveral
havia todo o genero de caa, e Argimiro o Negro (assim se chamava
o rico-homem) gostava, como todos os nobres bares de Hespanha,
principalmente de tres cousas boas; da guerra, do vinho e das
damas; mas ainda mais do que de tudo isso, gostava de montear.

Dama, possuia-a formosa, que era linda a condessa; vinho, no
havia melhor adega que a sua; caa, era cousa que na selva no
faltava.

Seu pae, que fra caador e fragueiro, quando estava para morrer,
chamou-o e disse-lhe:--"Has-de jurar-me uma cousa que no te custar nada."

Argimiro jurou que faria o que seu pae e senhor lhe ordenasse.

" que nunca mates fera em cama e com cria, seja urso, javal,
ou veado. Se assim o fizeres, Argimiro, nunca nas tuas selvas
e devezas faltar em que exercites o mais nobre mister de um
fidalgo. Alm d'isso, se tu souberas o que um dia me aconteceu...
Escuta-me, que  um horrendo caso...."

O velho no pde acabar; porque a morte lhe cravou n'este momento
as garras. Murmurou algumas palavras inintelligiveis: revirou
os olhos, e feneceu. Deus seja com a sua alma!

Tinham passado annos: certo dia chegou ao castello do conde um
mensageiro d'elrei Wamba. Chamava-o elrei a Toledo para o acompanhar
com sua mesnada contra o rebelde Paulo. Os outros nobres-homens
das cercanias eram como elle chamados.

Antes, porm, de partirem junctaram-se todos no castello de Argimiro
para fazerem uma grande montaria com mais de cem alos, sabujos,
e lebreus, cincoenta monteiros, e moos de bsta sem conto. Era
uma vistosa caada.

Saram no quarto d'alva: correram valles e montes; bateram bosques
e matos. Era, comtudo, meio dia e ainda no haviam alevantado
porco, urso, zebra ou veado. Blasphemavam de sanha os cavalleiros,
praguejavam, e depennavam as barbas.

Argimiro, que por longa experiencia conhecia os sitios mais profundos
da espessura, sentiu l por dentro uma tentao do diabo.

"Os meus hospedes, pensava elle, no partiro sem beberem alguns
cangires de vinho sobre uma ou duas peas de caa. Juro-o por
alma de meu pae."

E seguido de alguns monteiros com suas trlas de ces, affastou-se
da companhia, e deu a andar, a andar, at que se lanou por um
valle abaixo.

O valle era escuro e triste: corria pelo meio uma ribeira fria
e malassombrada. As bordas da ribeira eram penhascosas e faziam
muitas quebradas.

Argimiro chegou  primeira volta do rio: parou, poz-se a olhar
de roda, e achou o que procurava. Abria-se uma caverna na encosta
fragosa, que descia at a estreita senda da margem por onde o
cavalleiro caminhava. Argimiro entrou na bca da cova, e a um
acno entraram aps elle monteiros, moos de bsta, alos, sabujos
e lebreus, fazendo grande matinada.

Era o covil de um onagro: a fera deu um gemido, e deixando as
suas crias, estendeu-se no cho, e abaixou a cabea como quem
supplicava.

"A ella!"--gritou Argimiro; mas gritou voltando a cara.

A matilha saltou no pobre animal; que soltou outro gemido, e cahiu
todo ensanguentado.

Uma voz soou ento nos ouvidos do conde, e dizia:--"Orphos ficaram
os cachorrinhos do onagro: mas pelo onagro tu ficars deshonrado."

"Quem ousa aqui falar agouros?"--gritou o rico-homem, olhando iroso
para os monteiros. Todos guardavam silencio: mas todos estavam
pallidos.

Argimiro pensou um momento: depois saindo da cova, murmurou:--"V
com mil Satanases!"

E com alegres toques de buzina e latidos da matilha fez conduzir
ao castello a pra que tinha preado.[1]

E tomando o seu girifalte prima em punho, ordenou aos monteiros
fossem dizer aos nobres caadores, que dentro de duas horas
voltassem, porque achariam em seu pao comida bem aparelhada.

Depois, seguido dos falcoeiros, comeou a encaminhar-se para o
solar, lanando nebris e falces, e ajuntando caa de volateria,
que a havia por aquelles montes mui basta.


4

Dobrava a campa da torre de menagem no castello do conde Argimiro:
dobrava pela linda condessa, que seu nobre marido havia matado.

Andas cubertas de d a levam a enterrar ao mosteiro vizinho:
os frades vo atraz das andas cantando as oraes dos finados:
aps os frades vae o rico-homem vestido de grossa estamenha,
cingido com uma corda, e rasgando pelas saras e pedras os ps
que leva descalos.

Porque matou elle sua mulher, e porque a elle descalo?

Eis o que a esse respeito refere a lenda escripta na folha branca
do sanctoral.


5

Dous annos duraram guerras d'elrei Wamba: foram guerras mui de
contar.

E por l andou o rico-bomem com seus bucellarios, que assim se
diziam ento acostados e homens d'armas. Fez estrondosas faanhas
e cavallarias; mas voltou cuberto de cicatrizes, deixando por
campos de batalha gasta e consumida a sua valente mesnada.

E atravessando de Toledo para Biscaia seguia-o apenas um velho
escudeiro. Velho e cheio de cans e rugas tambem elle era, no
de annos, mas de penas e de trabalhos.

Caminhava triste e feroz no aspecto; porque do seu castello lhe
eram vindas novas d'entristecer e raivar.

E cavalgando noite e dia por montes e charnecas, por bosques e
por jardas, imaginava no modo por que descobriria se eram falsas
ou verdadeiras essas novas de mau peccado.


6

No solar do conde Argimiro, um anno depois da sua partida, ainda
tudo dava mostras da magua e saudade da condessa: as salas estavam
forradas de negro; de negro eram os trajos della; nos pateos
interiores dos paos crescra a herva, de modo que se podia ceifar:
as reixas e as gelosias das janellas no se haviam tornado a
abrir: descantes dos servos e servas, sons de psalterios e harpas
tinham deixado de soar.

Mas ao cabo do segundo anno tudo apparecia mudado: as colgaduras
eram de prata e matiz; brancos e vermelhos os trajos da bella
condessa; pelas janellas do pao restrugia o rudo da musica e
dos saraus; e o solar de Argimiro estava por dentro e por fra
alindado.

Um antigo villico do nobre conde fra quem destas mudanas o
avisra. Doam-lhe tantos folgares e contentamentos; doa-lhe a
honra de seu senhor, pelo que elle via e pelo que se murmurava.

Eis-aqui como se passra o caso:


7

Longe do condado do illustre baro Argimiro o Negro, para as
bandas de Galliza, vivia um nobre gardingo--como quem dissesse
infano--gentil homem e mancebo, chamado Astrigildo o Alvo.

Contava vinte e cinco annos; os sonhos das suas noites eram de
formosas damas; eram de amores e deleites; mas ao romper da manhan
todos elles se desfaziam, que ao sar ao campo no via seno
pastoras tostadas do sol e das neves, e as servas grosseiras do
seu solar.

Destas estava elle farto. Mais de cinco tinha enganado com palavras;
mais de dez comprado com ouro; mais de outras dez, como nobre e
senhor que era, brutamente violado.

Com vinte e cinco annos, j no livro da justia divina se lhe
haviam escripto mais de vinte e cinco grandes maldades.

Uma noite sonhou Astrigildo que corria serras e valles com a
rapidez do vento, montado em onagro silvestre, e que, depois de
correr muito, chegava alta noite a um solar, onde pedia agasalho:

E que formosa dama o recebia, e que em poucos instantes um do
outro se enamorava.

Acordou sobresaltado; e durante o dia inteiro no pensou em outra
cousa seno na formosa dama que vra nos sonhos da madrugada.

Tres noites se repetia o sonho: tres dias o mancebo scismava.
Encostado  varanda de um eirado, na tarde do terceiro dia, olhava
triste para as montanhas do norte, que via l no horisonte como
nuvens pardacentas. O sol comeou a descer no poente, e ainda
elle estava embebido em seu melancholico scismar.

Por acaso volveu ento os olhos para o terreiro que lhe ficava
por baixo: um onagro da floresta estava ahi deitado como se fosse
manso jumento: era inteiramente semelhante quelle com que havia
sonhado.

Sonhos de tres noites a fio no mentem: Astrigildo desceu  pressa
ao terreiro: o onagro quieto deixou-se enfrear e selar; e a Deus e
 ventura, o mancebo cavalgou nelle e deitou pela encosta abaixo.

Cumpria-se tudo  risca: o onagro no corria, voava.

Mas o ceu comeou de toldar-se com o anoitecer: a escurido cresceu
e desfechou em vento, troves, chuva e raios. O mancebo comeava
a perder o tino, e o onagro dobrava a carreira, e bufava
violentamente. Parou, emfim, a horas mortas. Sem saber como,
Astrigildo achou-se junto das barreiras de um solar acastellado.

Tocou a sua buzina, que deu um som prolongado e trmulo, porque
elle tremia de susto e de frio. Apenas cessou de tocar, a ponte
levadia desceu, muitos escudeiros saram a recebe-lo entre tochas,
e as salas dos paos illuminaram-se.

Era que tambem a condessa tinha por tres noites sonhado!

       *       *       *       *       *


8

A clepsidra marca a hora de sexta nocturna, e ainda dura o sarau
no solar do conde de Biscaia; porque a nobre condessa e o gentil
Astrigildo assistem s danas e jogos dos libertos e servos,
que para elles espairecerem folgam l na sala d'armas. Mas n'um
aposento baixo do solar um homem est em p com um punhal na
mo, olhar furibundo, e o cabello eriado, parecendo escutar
longinqua toada.

Outro homem est diante delle dizendo-lhe:--Senhor, ainda no 
tempo para punir o grande peccado. Quando elles se recolherem,
aquella luz que vdes acol ha-de apagar-se: subi ento, e achareis
desempedido o caminho secreto para a camara, que  a mesma do
vosso noivado."

E o que falava saiu, e d'ahi a pouco a luz apagou-se, e o homem
dos cabellos hirtos e do olhar esgazeado subiu por uma ingreme
e tenebrosa escada.

       *       *       *       *       *


9

Quando pela manhan cedo o conde Argimiro do seu balco principal
ordenava que levassem o corpo da condessa a um mosteiro de Donas,
que elle fundra para ahi ter seu moimento, elle e os de sua
casa, e dizia aos homens de armas que arrastassem o cadaver de
Astrigildo, e o despenhassem de um grande barrocal abaixo, viu
um onagro silvestre deitado a um canto do pateo.

"Um onagro assim manso  cousa que nunca vi:--disse elle ao villico,
que estava alli ao p.--Como veio aqui este onagro?"

O villico a a responder, quando se ouviu uma voz: dir-se-hia
que era o ar que falava.

"Foi nelle que veio Astrigildo: ser elle que o levar. Por ti
ficaram orphos os filhinhos do onagro, mas por via do onagro
ficaste, oh conde, deshonrado. Foste cr com as pobres feras:
Deus acaba de vinga-las."

"Misericordia!--bradou Argimiro, porque naquelle momento se lembrou
da maldicta caada.

Neste momento os homens do conde saam com o cadaver sangrento
do mancebo: o onagro, apenas o viu, saltou como um leo no meio
da turba, que fez fugir, e segurando com os dentes o morto,
arrastou-o para fra do castello, e, como se tivesse em si uma
legio de demonios, foi precipitar-se com elle do barrocal abaixo.

Era por isso que o conde a cingido de corda e descalo aps os
frades e a tumba. Queria fazer penitencia no mosteiro por haver
quebrado o juramento que tinha feito a seu pae.

As almas da condessa e do gardingo cahiram de chofre no inferno
por terem deixado a vida em adulterio, que  peccado mortal.

Desde esse tempo as duas miseraveis almas teem apparecido a muita
gente nos desvios da Biscaia: ella vestida de branco e vermelho,
assentada nas penhas cantando lindas toadas: elle retouando
ahi perto, na figura de um onagro.

Tal foi a historia que o velho abbade contou a meu pae, e que
elle me relatou a mim antes de r cumprir sua penitencia nessa
guerra de mouros que lhe foi to fatal."

Assim concluiu Inigo Guerra. Brearte, o pagem Brearte, sentia
os cabellos arripiarem-se-lhe. Por largo tempo ficou immovel
defronte de seu senhor: ambos elles em silencio. O moo rico-homem
no podia engulir bocado.

Tirou por fim da escarcela a carta de D. Diogo para a tornar a
ler. As miserias e lastimas que ahi recontava eram taes, que D.
Inigo sentiu o pranto gotejar-lhe abundante pelas faces abaixo.

Ento ergueu-se da mesa para se r deitar. Nem o baro nem o
pagem pregaram olho toda a noite; este de medroso, aquelle de
desconsolado.

E nos ouvidos de Inigo Guerra soavam contnuo as palavras de
Brearte:--Porque no ides  serra procurar vossa me?--S por
encantamento seria de feito possvel tirar das unhas dos mouros
o nobre senhor de Biscaia.

Rompeu, finalmente, a alvorada.

       *       *       *       *       *


TROVA TERCEIRA


1

Mensageiros aps mensageiros, cartas sobre cartas so vindos
de Toledo a Inigo Guerra. Elrei de Leo resgatava todos os dias
seus cavalleiros por cavalleiros mouros; mas no tinha wali ou
kaid captivo, que podesse dar em troca por to nobre senhor como
o senhor de Biscaia.

E muitos dos redemidos eram das bandas das serras: e estes, trazendo
as mensagens, contavam ainda mais lastimas do velho D. Diogo
Lopes, do que, se  possvel, essas de que resavam as cartas.

" porta do aguio em Toledo--diziam elles--tem a mourisma um
grande campo todo mui bem apalancado: aqui fazem grandes festas,
guinolas, e touros nos dias dos seus perros sanctos, segundo
l lhos prgam e determinam khatibs e ulems.

"Gaiolas de bestas-feras muitas ha ah, cousa mui de vr e pasmar:
os tigres e lees no as rompem; romp-las mos de homens, fra
pequice smente o imagina-lo.

"N'uma destas prises, quasi n, com adovas de ps e mos, est
o illustre rico-homem, que j foi capito de grandes e lustrosas
mesnadas."

"Cortezes costumam ser mouros com seus captivos fidalgos. Fazem
esta perraria a D. Diogo Lopes, porque j so passados tres annos,
e no ha vr seu resgate."

E os peregrinos que vinham do captiveiro e relatavam taes cousas,
bem ceados e agasalhados no castello, iam-se no outro dia com
Deus, levando provda a escarcela, e em boa e sancta paz.

Quem no ficava em paz era D. Inigo:--"Porque no vaes tu 
serra?"--dizia-lhe uma voz ao ouvido.--"Porque no ides procurar
vossa me?"--repetia-lhe o pagem Brearte.

Que lhe havia de fazer? Uma noite inteira levou em claro a pensar
nisso. Pela manhan, a Deus e  sorte, ei-lo que emfim se resolve
a tentar a aventura, bem que de seu mau grado.

Benzeu-se vinte vezes, para no ter l de persignar-se. Resou
o _Pater_, a _Ave_, e o _Credo_; porque no sabia se em breve essas
oraes seriam cousa de recordar-se.

E seguido de um mastim seu predilecto, a p e com um venbulo
na mo, foi-se atravs das brenhas por uma vereda que dizia para
os pincaros tristes e ermos, onde era tradio que a linda dama
linha apparecido a seu pae.


2

Trinam os rouxinoes nos balseiros, murmuram ao longe as aguas
dos regatos; ramalha a folhagem brandamente com a virao da
manhan: vae uma linda madrugada.

E Inigo Guerra galga manso e manso os carris empinados, trepa
de barrocal em barrocal, e apesar de seu muito esforo, sente
bater-lhe o corao com ancia desacostumada.

Onde as matas faziam alguma clareira, ou as penhas alguma chapada,
D. Inigo parava um pouco tomando o folego, e pondo-se a escutar.

Muito havia que andava embrenhado: o sol a alto, e o dia calmoso:
ao canto do rouxinol seguira o piar da cigarra.

E encontrou uma fonte que rebentava de rochedo negro, e saltando
de aresta em aresta vinha cahir em almacega tosca, onde o sol
parecia danar no bolir das ondasinhas, que fazia o despenho
da cascata.

D. Inigo assentou-se  sombra da rocha, e tirando a sua monteira
matou a sde que trazia, e poz-se a lavar o rosto e a cabea
do suor e p, que no lhe faltava.

O mastim, depois de beber, deitou-se ao p delle, e com a lingua
pendente arquejava de cansado.

De repente o co poz-se em p, e arremetteu com um grande ladro.

D. Inigo volveu os olhos: um jumento silvestre pascia na orla
da clareira juncto de um frondoso carvalho.

"Tarik!--gritou o mancebo--Tarik!"--Mas Tarik a avante e no
escutava.

"Ai, deixa-o correr, meu filho! No  para o teu mastim levar
a melhor desse onagro."

Isto dizia uma voz que, l em cima no alto da penha, comeou de
soar.

Olhou: linda mulher estava ahi assentada, e com um gesto amoroso
e um sorriso d'anjo para elle se inclinava.

"Minha me! minha me!--bradou Inigo Guerra alevantando-se: e
l comsigo dizia:

--Vade retro! Sancto Hermenegildo me valha!"

E como molhra a cabea, sentiu que os cabellos se lhe iam alando
de arripiados.

"Filho, na bca palavras dces; no corao palavras damnadas.
Mas que importa, se s meu filho? Dize o que queres de mim, que
ser tudo feito a teu talante e vontade."

O moo cavalleiro nem acertava a falar com medo. J a este tempo
Tarik gemia uivando debaixo dos ps do onagro.

"Captivo est de mouros ha annos meu pae D. Diogo Lopes:--disse
por fim titubeando.--Quizera me ensinasseis, senhora, o modo
como hei-de salva-lo."

"Seu mal, to bem como tu, eu sei. Se podesse ter-lhe-hia accorrido,
sem que viesses requere-lo; mas o velho tyranno do ceu quer que
elle pene tantos annos quantos viveu com a ... com a que sandeus
chamam Dama P-de-Cabra."

"No blasphemeis contra Deus, minha me, que  enorme
culpa:--interrompeu o mancebo cada vez mais horrorisado.

"Culpa?! No ha para mim innocencia nem culpa:--replicou a dama
rindo s gargalhadas.

Era um rir de dorminte, triste e medonho. Se o diabo ri, como
aquelle deve de ser o rir do diabo.

O cavalleiro no pde dizer mais palavra.

"Inigo!--proseguiu ella--falta um anno para cumprir-se o captiveiro
do nobre senhor de Biscaia. Um anno passa depressa: mais depressa
eu t'o farei passar. Vs tu aquelle valente onagro? Quando uma
noite acordando o achares ao p de ti, manso como um cordeiro,
cavalga nelle sem susto, que te levar a Toledo, onde livrars
teu pae.--E bradando accrescentou:--Ests por isto, Pardalo?"

O onagro fitou as orelhas, e em signal de approvao comeou a
azurrar; comeou por onde s vezes academias acabam.[2]

Depois a dama poz-se a cantar uma cantiga de bruxas, acompanhando-se
de um psalterio, de que tirava mui estranhas toadas:

    Pelo cabo da vassoura,
  Pela corda da pol,
  Pela vibora que v,
  Pela Sura e pela Toura.

    Pela vara do condo,
  Pelo panno da peneira,
  Pela velha feiticeira,
  Do finado pela mo,

    Pelo bode rei da festa,
  Pelo capo inteiriado,
  Pelo infante dessangrado
  Que a bruxa chupou  ssta;

    Pelo craneo alvo e lustroso
  Em que sangue se libou,
  E do irmo, que irmo matou,
  Pelo arranco doloroso;

    Pelo nome de mysterio
  Que em palavras se no diz
  Vinde j precitos vis;
  Vinde ouvir o meu psalterio!

    E danae-me aqui na terra
  Uma dana doudejante,
  Que entontea n'um instante
  O meu filho Inigo Guerra.

    Que elle durma um anno inteiro,
  Como em somno de uma hora,
  Juncto  fonte que alli chora,
  Sobre a relva deste outeiro.

Emquanto a dama cantava estas cantigas, o mancebo sentia um
quebramento nos membros que crescia cada vez mais, e que o obrigou
a assentar-se.

E logo, logo, ouviu-se um ruido abafado como de troves e de
ventanias engolfando-se em covoadas: depois o cu comeou de
toldar-se, e cada vez era mais cris, at que, emfim, apenas uma
luz de crepusculo o allumiava.

E a mansa almacega refervia, e os penedos rachavam, e as arvores
torciam-se, e os ares sibilavam.

E das bolhas da agua da fonte, e das fendas dos rochedos, e d'entre
as ramas dos robles, e da vastido do ar via-se descer, subir,
romper, saltar ... o qu?--Cousa muito espantavel.

Eram mil e mil braos sem corpos, negros como carvo, tendo nos
cotos uma aza, e na mo cada um uma especie de facho.

Como a palha que o tufo levanta na eira, aquella multido de
candeias cruzava-se, revolvia-se, unia-se, separava-se, remoinhava,
mas sempre com certa cadencia, como que danando a compasso.

A D. Inigo andava a cabea  roda: as luzes pareciam-lhe azues,
verdes, e vermelhas, mas corria-lhe pelos membros uma languidez
to suave, que no teve animo para fazer o signal da cruz, e
afugentar aquelle bando de Satanazes.

E sentia-se esvaecer, e pouco a pouco adormecia, e d'alli a pouco
roncava.

Entretanto no castello tinham dado pela sua falta. Esperaram-no
at a noite; esperaram-no uma semana, um mez, um anno, e no o
viam voltar. O pobre Brearte correu por muito tempo a serra;
mas o sitio em que o cavalleiro jazia, isso  que no havia l
chegar.


3

Inigo acordou alta noite: tinha dormido algumas horas; ao menos
elle assim o cria. Olhou para o cu, viu estrellas: apalpou ao
redor, achou terra: escutou, ouviu ramalhar as arvores.

Pouco a pouco  que se foi recordando do que passra com sua
malaventurada me; porque a principio no se lembrava de nada.

Pareceu-lhe ento ouvir respirar ali perto: affirmou a vista:
era o onagro Pardalo.

"J agora meio enfeitiado estou eu--pensou elle:--corramos o
resto da aventura, a vr se posso salvar meu pae."

E pondo-se em p encaminhou-se para o valente animal, que j
estava enfreado e sellado: cujos eram os arreios, isso sabia-o
o diabo.

Hesitou, todavia, um momento: tinha seus escrupulos--a boas horas
vinham elles--de cavalgar naquelle corredor infernal.

Ento ouviu nos ares uma voz vibrada, que cantava mui entoado:
era a voz da terrivel Dama P-de-Cabra:

    Cavalga, meu cavalleiro,
  No alentado corredor;
  Vae salvar o bom senhor;
  Vae quebrar seu captiveiro.

    Pardalo, no comers
  Nem cevada nem aveia,
  No ters jantar nem ceia,
  Rijo e leve voltars.

    Nem aoute nem espora
  Requer elle, oh cavalleiro!
  Corre, corre bem ligeiro,
  Noite e dia a toda a hora.

    Freio ou sella no lhe tires,
  No lhe fales, no o ferres,
  Na carreira no te aterres,
  Para traz nunca te vires.

    Upa! firme!--vante, vante!
  Breve, breve, a bom correr!
  Um minuto no perder,
  Bem que o gallo ainda no cante.

"V!--gritou Inigo Guerra com uma especie de phrenesi, que nelle
produzra aquelle cantar estranho; e d'um pulo cavalgou no quedo
onagro.

Mas apenas se firmou na sella, pst!--ei-lo que parte!


4

Postoque em paz com os christos, os mouros de Toledo tem pelas
torres, cubelos e adarves seus atalaias e vigias, e nos montes
que dizem para a fronteira de Leo seus fachos e almenaras.

Mas se o rei leonez soubesse como descuidosa jaz Toledo: como ao
anoitecer se deixam dormir vigias, se deixam de accender fachos,
quebraria seus juramentos, e faria contra aquellas partes uma
repentina arrancada.

Salvo ter de ir depois ao seu confessor dizer _confiteor Deo_, e
_peccavi_; porque o quebrar juramento, ainda que seja a ces descridos,
dizem ser feio peccado.

Era a hora do luscofusco: ao sol posto os de Toledo, mirando
para a banda do norte, viram l muito ao longe vir correndo uma
nuvem negra, ondeando e fazendo voltas no cu, como a estrada
as fazia na terra por entre os montes: dir-se-hia que vinha
embriagada.

Era primeiro um pontinho; depois crescra e crescra: quando
anoiteceu estava j perto e cubria um grande espao.

O almuhaden, subindo  torre da mesquita, chamava os crentes de
Malamede para a orao da tarde.

Mas com a sua voz esganiada misturou-se o estourar dos troves:
era como um tiple e um baixo.

E passou um tufo de vento, que embrenhando-se e remoinhando
nas barbas longas e brancas do almuhaden, lhe fustigou com ellas
a cara.

Comeou ento a cahir uma corda de chuva, que nem moos nem velhos
se lembravam de ter visto cousa semelhante em nenhuma parte.

Aqui verieis os esculcas a aninharem-se nas guaritas das torres;
os roldas e sobre-roldas a fugirem pelos adarves; os facheiros
a sumirem-se debaixo das almenaras: os hadjis a acolherem-se s
mesquitas molhados at os ossos; as velhas, que tinham sado ao
vozear do almuhaden, levadas pelas torrentes das ruas tortuosas
e estreitas, bradando por Mafoma e por Allah. E a agua cahindo
cada vez mais!

Dous unicos movimentos fazem ento os moradores de Toledo: uns
fogem, outros agacham-se. E a agua cahindo cada vez mais!

O pavor quebra todos os animos: os cacizes esconjuram a procella:
os faquires penitentes gritam que se acaba o mundo, e que lhes
deixe os seus haveres aquelle que quizer salvar-se. E a agua
cahindo cada vez mais!

A salvao de Toledo foi no se terem fechado suas portas: se
assim no succedesse, dentro do recincto dos muros morria toda
a mourisma affogada.


5

Na priso estava D. Diogo encostado s grades de ferro. O pobre
velho entretinha-se a ouvir aquelle medonho chover; porque a
noite era comprida, e elle no tinha que fazer mais nada.

Mas como o terreiro ante a sua gaiola de feras era rodeado de
muros, a chuva no podia escoar-se toda, e vinha crescendo de
modo que j elle sentia os ps molhados.

E tambem comeou a ter medo de morrer, apesar da sua miseria.
Bem sabia D. Diogo que a morte  a maior dellas todas; que no
era o senhor de Biscaia atheu, philosopho, nem parvo.

Mas l divisa um vulto alvacento, que saltou por cima do palanque;
e sente ao mesmo tempo no meio do terreiro--plash!--

E ouviu uma voz que dizia:--Nobre senhor D. Diogo, onde  que
vs vos achaes!"--

"Que vejo e ouo?!--exclamou o velho.--Um trajo que no alveja,
no  trajo d'ismaelita; uma voz que no fala algaravia, no 
d'infiel; um salto de tal altura no  de cavalleiro do mundo.
Por vossa f dizei-me, sois anjo, ou sois Sanctiago?"

"Meu pae, meu pae!--acudiu o cavalleiro--j no conheceis a fala
de Inigo? Sou eu que venho salvar-vos."

E D. Inigo descavalgou, e travando das grossas reixas tentava
allui-las: a agua dava-lhe j pelos artelhos, e elle no fazia
nada.

Cheio de afflico o mancebo quiz invocar o nome de Jesus; mas
lembrou-se de como alli viera, e o bento nome expirou-lhe nos
labios.

Todavia Pardalo pareceu adivinhar o seu intimo pensamento; porque
soltou um gemido agudo e prompto, como se o houvessem tocado
com um ferro em braza.

E empurrando com a cabea D. Inigo, voltou a anca para a grade.

Pan!--foi o som que se ouviu. Com um s couce a reixa estava
no cho, e as hombreiras de pedra tinham voado em mil rachas.
Quer m'o creiam quer no, di-lo a historia: eu com isto no perco
nem ganho.

D. Diogo, esse ficou-o crendo; porque uma lasca de pedra bateu-lhe
nos dous ultimos dentes que tinha, e metteu-lh'os pela goela
abaixo. Por isso elle com a dr no podia dizer palavra.

Seu filho f-lo cavalgar ante si, e cavalgando aps elle,
bradou:--Meu pae, estaes salvo!"

E Pardalo de um pulo galgou de novo o palanque. Pois tinha bons
quinze palmos!

Pela manhan no havia signal de chuva; o ar estava limpo e sereno,
e quando os mouros foram vr o que succedra a D. Diogo Lopes,
no lhe acharam sequer o rasto.


6

D. Inigo e seu pae, o velho senhor de Biscaia, passam as portas
de Toledo com a rapidez da frecha: n'um abrir e fechar d'olhos
ficam-lhe para traz muros, torres, barbacans e atalaias. A batega
vae diminuindo: rasgam-se as nuvens, e vem-se j reluzir algumas
estrellas, que parecem outros tantos olhos com que o cu espreita
atravs do negrume o que se passa c em baixo.

A estrada, pelas descidas e subidas dos recostos, converteu-se
em leito de torrente, nos plainos converteu-se em lago.

Mas pelos lagos e torrentes o valente onagro rompia vante, bufando
como um damnado.

No subiram bem um monte, j descem pelo outro recosto abaixo;
ainda bem no chegaram a uma clareira, j sentem em profunda
floresta gotejarem-lhes em cima os ramos agitados das arvores.

Pouco mais  de meia-noite, e os topos nevados do Vindio recortam
o cho estrellado do cu j limpo, semelhantes aos dentes de uma
serra gigante capaz de dividir crceo o hemispherio austral do
hemispherio boreal.

E Pardalo investe sempre em galope desfeito com as montanhas
disformes, e desce aos valles temerosos, e cada vez mais ligeiro,
como o seu nome o indica, parece menos quadrupede que passaro.

Mas que ruido  esse que sobreleva ao do vento? Que  isso que,
l ao longe, ora alveja ora reluz nas trevas, como uma alcateia de
lobos involtos em sudarios brancos, com os olhos s descobertos,
e despregando em fio pelo fundo do valle abaixo?

 um rio caudal e furioso, com o seu manto de escuma, e com as
escamas angulosas de seu dorso eriado, onde batem e chispam
os raios das estrellas em mil reflexos quebrados.

Negreja sobre o rio uma ponte, ao meio desta um vulto esguio.--"Ser
um marco, uma estatua?"--pensaram os cavalleiros. Pinheiro no
pde ser: no consta que em taes sitios nasam.

Pardalo ria-se de rios; pontes, fazia tanto cabedal dellas como
de um retrao de palha. Todavia, bem que podesse de um pulo salvar
vinte ribeiras como aquella, foi-se direito  ponte; porque no
era animal que fizesse africas escusadas.

Semelhante a relampago se arrojou o onagro quelle passo estreito...
Mas, t!... Ei-lo que de repente pra.

E tremia como varas verdes, e arquejava com violencia: os dous
cavalleiros olharam.

O vulto esguio era um cruzeiro de pedra alevantado a meia ponte:
por isso Pardalo emperrava.

Ento d'entre uns altos choupos, que da margem d'alm se meneavam,
um pouco mais abaixo daquelle sitio, ouviu-se uma voz fadigosa
e trmula que cantava:

  Para traz, para traz, a galgar.
               J!
  De redor, de redor vem passar
               C!
  Que no ha nada aqui que te empea!
               Buz,
  Nem palavra, vs dous! Fugi dessa
               Cruz!

"Sancto nome de Christo!"--exclamou D. Diogo benzendo-se ao escutar
aquella voz que bem conhecia, mas que depois de tantos annos
no esperava alli ouvir, porque seu filho no lhe dissera que
meio achra para o salvar.

Apenas o grito do velho soou, assim elle como D. Inigo foram
bater contra o poyal do cruzeiro, onde ficaram de bruos, involtos
em lodo. O onagro ao sacudi-los de si soltra um rugido de
besta-fera. Sentiram ento um cheiro intoleravel de enxofre e
de carvo de pedra inglez, que logo se percebia ser cousa de
Satanaz.

E ouviram como um trovo subterraneo; e a ponte balanava como
se as entranhas da terra se despedaassem.

Apesar do seu grande terror, e de clamar pela Virgem Santissima,
D. Inigo abriu um cantinho do olho para vr o que se passava.

Ns os homens costummos dizer que as mulheres so curiosas. Ns
 que o somos. Mentimos como uns desalmados.

Que veria o cavalleiro? Um fojo aberto bem proximo delle sobre
a ponte, e que depois rompia pela agua.

E depois pelo leito do rio; e depois pela terra dentro, dentro;
e depois pelo tecto do inferno, que outra cousa no podia ser
um fogo muito vermelho que reverberava daquella profundidade.

Tanto era assim, que ainda l viu passar de relance um demonio
com um desconforme espeto nas mos em que levava um judeu empalado.

E Pardalo descia remoinhando por esse boqueiro, como uma penna
cahindo em dia sereno do alto de uma torre abaixo.

Aquella vista fez perder os sentidos a D. Inigo, que, indo tambem
a chamar por Jesus, achou que no podia proferir este nome sagrado.

De terror tanto o velho como o moo ficaram alli em desmaio.

Quando tornaram a si, com o romper do sol claro, conheceram o
sitio em que se achavam. Era a ponte proxima  alda de Nusturio,
no alto da qual campeava o castello construido por D. From o
saxonio, avoengo de D. Diogo Lopes, e primeiro senhor de Biscaia.

Nenhum vestigio restava do que alli se passra; os dous, modos
e cheios de lodo e pisaduras, foram-se arrastando como poderam
at encontrar alguns villos, a quem se deram a conhecer, e que
os levaram a casa.

Festas que em Nusturio se fizeram por sua vinda, cousa  que no
vos direi; porque no tarda a hora de ceiar, resar, e deitar.


7

D. Diogo pouco tempo viveu: todos os dias ouvia missa; todas
as semanas se confessava. D. Inigo, porm, nunca mais entrou na
igreja, nunca mais resou, e no fazia seno ir  serra caar.

Quando tinha de partir para as guerras de Leo viam-no subir 
montanha armado de todas as peas, e voltar de l montado n'um
agigantado onagro.

E o seu nome retumbou em toda a Hespanha; porque no houve batalha
em que entrasse que se perdesse, e nunca em nenhum recontro foi
ferido ou derribado.

Diziam  bca pequena em Nusturio que o illustre baro tinha pacto
com Belzebuth. Olhem que era grande milagre!

Meio precto era elle por sua me; no tinha que vender seno
a outra metade da alma.

Por oitenta por cento de lucro ne recibo de um egresso a d ahi
inteira ao dmo qualquer onzeneiro, e cr ter feito uma limpa
veniaga.

Fosse como fosse, Inigo Guerra morreu velho: o que a historia
no conta  o que ento se passou no castello. Como no quero
improvisar mentiras, por isso no direi mais nada.

Mas a misericordia de Deus  grande.  cautela resem por elle
um _Pater_ e um _Ave_. Se no lhe aproveitar, seja por mim. Amen.

       *       *       *       *       *

[1] Um jumento silvestre no seria mui delicado manjar
para mesa moderna; mas o uso da carne asinina na idade mdia
era vulgar: ainda em muitos dos nossos foraes apparece marcado
entre as portagens o quanto devia pagar este genero de vianda.

[2] O Diccionario da Academia, que ficou interrompido
no fim da letra A, acaba na palavra _azurrar_.




O BISPO NEGRO

(1130)


1

Houve tempo em que a s abandonada de Coimbra era formosa; houve
tempo em que essas pedras, ora tisnadas pelos annos, eram ainda
pallidas, como as margens areentas do Mondego[1]. Ento o luar,
batendo nos lanos dos seus muros, dava um reflexo de luz suavissima,
mais rica de saudade que os proprios raios daquelle planeta guardador
dos segredos de tantas almas, que crem existir nelle, e s nelle,
uma intelligencia que as perceba.

Ento aquellas ameias e torres no haviam sido tocadas das mos
de homens, desde que os seus edificadores as tinham collocado sobre
as alturas; e todavia j ento ningum sabia se esses edificadores
eram da nobre raa goda, se da dos nobres conquistadores arabes.

Mas, quer filha dos valentes do norte, quer dos pugnacissimos
sarracenos, ella era formosa na sua singella grandeza entre as
outras ss das Hespanhas. Ahi succedeu o que ora ouvireis contar.


2

Aproximava-se o meiado do duodecimo seculo. O principe de Portugal
Affonso Henriques depois de uma revoluo feliz, tinha arrancado
o poder das mos de sua me. Se a historia se contenta com o
triste espectaculo de um filho condemnando ao exilio aquella que
o gerou, a tradio carrega as tinctas do quadro, pintando-nos
a desditosa viuva do conde Henrique arrastando grilhes no fundo
de um calabouo. A historia conta-nos o facto; a tradio os
costumes. A historia  verdadeira, a tradio verosimil; e o
verosimil  o que importa ao que busca as lendas da patria.

Em uma das torres do velho alcacer de Coimbra, encostado entre
duas ameias, a horas que o sol fugia do horisonte, o principe
conversava com Loureno Viegas o Espadeiro, e com elle dispunha
meios e apurava traas para guerrear a mourisma.

E lanou casualmente os olhos para o caminho que guiava ao alcacer,
e viu o bispo D. Bernardo, que, montado em sua nedia mula, cavalgava
apressado pela encosta acima.

"Vdes vs--disse elle ao Espadeiro--o nosso leal D. Bernardo,
que para c se encaminha? Negocio grave por certo o faz sair a
taes deshoras da crasta da sua s. Desamos  sala d'armas e
vejamos o que elle quer."--E desceram.

Grandes lampadarios ardiam j na sala d'armas do alcacer de Coimbra,
pendurados de cadeias de ferro chumbadas nos fechos dos arcos de
volta de ferradura, que sustentavam os tectos de grossa cantaria.
Pelos feixes de columnas delgadas, entre si separadas, mas ligadas
nos fustes por uma base commum, pendiam corpos de armas, que
reverberavam a luz das lampadas, e pareciam cavalleiros armados,
que em silencio guardavam aquelle amplo aposento. Alguns homens
de mesnada faziam retumbar as abobadas, passeando de um para
outro lado.

Uma portinha, que ficava em um angulo da quadra, abriu-se, e
d'ella saram o principe e Loureno Viegas, que desciam da torre:
quasi ao mesmo tempo assomou no grande portal de entrada o vulto
veneravel e solemne do bispo D. Bernardo.

"Guarde-vos Deus, bispo de Coimbra! Que mui urgente negocio vos
traz aqui esta noite?--disse o principe a D. Bernardo.

"Ms novas, senhor. Trazem-me aqui a mim letras do papa, que ora
recebi."

"E que quer de vs o papa?"

"Que de sua parte vos ordene solteis vossa me..."

"Nem pelo papa, nem por ninguem o farei."

"E manda-me que vos declare excommungado, se no quizerdes cumprir
seu mandado."

"E vs que intentaes fazer?"

"Obedecer ao successor de S. Pedro."

"Qu? D. Bernardo amaldioaria aquelle a quem deve o bago pontifical;
aquelle que o alevantou do nada? Vs, bispo de Coimbra,
excommungarieis o vosso principe, porque elle no quer pr a
risco a liberdade desta terra remida das oppresses do senhor
de Trava, e do jugo do rei de Leo; desta terra que  s minha
e dos cavalleiros portuguezes?"

"Tudo vos devo, senhor,--atalhou o bispo--salvo minha alma que
pertence a Deus, minha f que devo a Christo, e a minha obediencia
que guardarei ao papa."

"D. Bernardo! D. Bernardo!--disse o principe suffocado em
colera--lembrae-vos de que affronta que se me fizesse, nunca ficou
sem paga!"

"Quereis, senhor infante, soltar vossa me?"

"No! Mil vezes no!"

"Guardae-vos!"

E o bispo sau sem dizer mais palavra. Affonso Henriques ficou
pensativo por algum tempo; depois falou em voz baixa com Loureno
Viegas o Espadeiro, e encaminhou-se para a sua camara. D'ahi a
pouco o alcacer de Coimbra jazia, como o resto da cidade, no
mais profundo silencio.


3

Pela alvorada, muito antes de romper o sol no dia seguinte, Loureno
Viegas passeava com o principe na sala d'armas do pao mourisco.

"Se eu proprio o vi, montado na sua boa mula, ir l muito ao longe,
caminho da terra de Sancta Maria[2]! Na porta da s estava pregado
um pergaminho com larga escriptura, que, segundo me affirmou um
clerigo velho que ahi chegra quando eu olhava para aquella carta,
era o que elles chamam o interdicto.--Isto dizia o Espadeiro,
olhando para todos os lados, como quem receiava que alguem o
ouvisse.

"Que receias, Loureno Viegas? Dei a Coimbra um bispo que me
excommunga, porque assim o quiz o papa: dar-lhe-hei outro que
me absolva, porque assim o quero eu. Vem comigo  s. Bispo D.
Bernardo, tarde ser o arrepender-te da tua ousadia!"

D'alli a pouco as portas da s estavam abertas, porque o sol
era nado, e o principe, acompanhado de Loureno Viegas e de dous
pagens, atravessava a igreja, e dirigia-se  crasta, onde ao
som de campa tangida tinha mandado ajunctar o cabido, com pena
de morte para o que ahi faltasse.


4

Solemne era o espectaculo que apresentava a crasta da s de Coimbra.
O sol dava com todo o brilho de manhan purissima por entre os
pilares que sustinham as abobadas dos cubertos, que cercavam o
pateo interior. Ao longo desses cubertos caminhavam os conegos
com passos lentos, e as largas roupas ondeavam-lhes ao bafo suave
do vento matutino. No topo da crasta estava o principe em p,
encostado ao punho da espada, e um pouco atras delle Loureno
Viegas e os dous pagens. Os conegos am chegando, e formavam
um semicirculo a pouca distancia d'elrei, em cuja cervilheira
de malha de ferro ferviam buliosos os raios do sol.

Toda a clerezia da s estava alli apinhada, e o principe, sem
dar palavra e com os olhos fitos no cho, parecia involto em
fundo pensar. O silencio era completo.

Por fim Affonso Henriques ergueu o rosto carrancudo e ameaador,
e disse:

"Conegos da s de Coimbra, sabeis a que vem aqui o infante de
Portugal?"

Ninguem respondeu palavra.

"Se o no sabeis, dir-vo-lo-hei eu,--proseguiu o principe:--vem
assistir  eleio do bispo de Coimbra."

"Senhor, bispo havemos. No cabe ahi nova eleio--disse o mais
velho e auctorisado dos conegos que estavam presentes, e que
era o _adayo_.

"Amen:--responderam os outros.

"Esse que vs dizeis;--bradou o infante, cheio de colera--esse
jamais o ser. Tirar-me quiz elle o nome de filho de Deus; eu
lhe tirarei o nome de seu vigario. Juro que nunca em meus dias
por D. Bernardo ps em Coimbra: nunca mais da cadeira episcopal
ensinar um rebelde a f das sanctas escripturas! Elegei outro:
eu approvarei vossa escolha."

"Senhor, bispo havemos. No cabe ahi nova eleio:--repetiu o
adayo.

"Amen:"--responderam os mais.

O furor de Affonso Henriques subiu de ponto com esta
resistencia:--"Pois bem!"--disse elle, com a voz presa na garganta,
depois de um olhar terrivel que lanou pela assembla, e de alguns
momentos de silencio.--"Pois bem! Sa d'aqui, gente orgulhosa e
m! Sa, vos digo eu. Alguem por vs eleger um bispo..."

Os conegos, fazendo profundas reverencias, encaminharam-se para
as suas cellas, ao longo das arcarias da crasta.

Entre os que alli se achavam, um negro, vestido de habitos clericaes,
tinha estado encostado a um dos pilares, observando aquella scena:
os seus cabellos revoltos contrastavam pela alvura com a pretido
da tez. Quando o principe falava, elle sorria-se e meneava a
cabea como quem approvava o dicto. Os conegos comeavam a
retirar-se, e o negro a apoz elles. Affonso Henriques fez-lhe
um signal com a mo. O negro voltou para trs.

"Como has nome?"--perguntou-lhe o principe.

"Senhor, hei nome olleima.[3]"

"s bom clerigo?[4]"

"Na companhia no ha dous que sejam melhores."

"Bispo sers, D. olleima. Vae tomar teus guisamentos, que hoje
me cantars missa."

O clerigo recuou: naquella face tisnada viu-se uma contraco
de susto.

"Missa no vos cantarei eu, senhor:--respondeu o negro com voz
trmula;--que para tal auto no tenho as ordens requeridas."

"D. olleima, repara bem no que te digo! Sou eu que te mando
vs vestir as vestiduras de missa. Escolhe: ou hoje tu subirs
os degraus do altar-mr da s de Coimbra, ou a cabea te descer
de cima dos hombros, e rolar pelas lageas deste pavimento."

O clerigo curvou a fronte.

"_Kirie-eleyson ... Kirie-eleyson ... Kirie-eleyson!_"--garganteava
d'ahi a pouco D. olleima, revestido dos habitos episcopaes,
juncto ao altar da capella-mr. O infante Affonso Henriques, o
Espadeiro e os dous pagens, de joelhos, ouviam missa com profunda
devoo.


5

Era noite. Em uma das salas mouriscas dos nobres paos de Coimbra
havia grande sarau. Donas e donzellas, assentadas ao redor do
aposento, ouviam os trovadores repetindo ao som da viola e em
tom monotono suas magoadas endechas, ou folgavam e riam com os
arremedilhos satyricos dos trues e farcistas. Os cavalleiros em
p, ou falavam de aventuras amorosas, de justas e de bofordos,
ou de fossados e lides por terras de mouros fronteiros. Para um
dos lados, porm, entre um labyrintho de columnas, que davam
sada para uma galeria exterior, quatro personagens pareciam
entretidas em negocio mais grave do que os prazeres de noite de
folguedo o permittiam. Eram estas personagens Affonso Henriques,
Gonalo Mendes da Maia, Loureno Viegas, e Gonalo de Sousa o
Bom. Os gestos dos quatro cavalleiros davam mostras de que elles
estavam vivamente agitados.

" o que affirma, senhor, o mensageiro--dizia Gonalo de Sousa--que
me enviou o abbade do mosteiro de Tibes, onde o cardeal dormiu
uma noite para no entrar em Braga. Dizem que o papa o envia
a vs, porque vos suppe hereje. Em todas as partes por onde
o legado passou, em Frana e em Hespanha, vinham a lhe beijar
a mo reis, principes e senhores: a eleio de D. olleima no
pde por certo ir vante..."

"Ir, ir!--respondeu o principe em voz to alta que as suas
palavras reboaram pelas abobadas do vasto aposento.--Que o legado
tenha tento em si! No sei eu se haveria ahi cardeal, ou
apostolico[5] que me estendesse a mo para eu lh'a beijar, que
pelo cotovello lh'a no cortasse fra a minha boa espada. Que
me importam a mim vilezas dos outros reis e senhores? Vilezas,
no as farei eu!"

Isto foi o que se ouviu daquella conversao: os tres cavalleiros
falaram com o principe ainda por muito tempo: mas em voz to
baixa, que ninguem percebeu mais nada.


6

Dous dias depois o legado do papa chegava a Coimbra: mas o bom
do cardeal tremia em cima da sua nedia mula, como se maleitas
o houveram tomado. As palavras do infante tinham sido ouvidas
por muitos, e alguem as havia repetido ao legado.

Todavia, apenas passou a porta da cidade, revestindo-se de animo,
encaminhou-se direito ao alcacer real.

O principe sau a recebe-lo acompanhado de senhores e cavalleiros.
Com modos cortezes guiou-o  sala de seu conselho, e ahi se passou
o que ora ouvireis contar.

O infante estava assentado em uma cadeira de espaldas: diante
delle o legado em um assento raso, posto em cima de um estrado
mais elevado: os senhores e cavalleiros cercavam o filho do conde
Henrique.

"Dom cardeal,--comeou o principe--que viestes vs fazer a minha
terra? Posto que de Roma s mal me tenha vindo, creio me trazeis
agora algum ouro, que de seus grandes haveres me manda o senhor
papa para estas hostes que fao, e com que guerreio noite e dia
os infiis da frontaria. Se isto trazeis, acceitar-vo-lo-hei:
depois, desembaraadamente podeis seguir vossa viagem."

No animo do legado a colera sobrepujou o temor, quando ouviu as
palavras do principe, que eram de amargo escarneo.


"No a trazer-vos riquezas,--atalhou elle--mas a ensinar-vos a f
vim eu; que della parece vos esquecestes, tractando violentamente
o bispo D. Bernardo, e pondo em seu logar um bispo sagrado com
vossas manoplas, victoriado s por vs com palavras blasphemas
e maldictas..."

"Calae-vos, dom cardeal,--gritou Affonso Henriques--que ments
pela gorja! Ensinar-me a f?! To bem em Portugal como em Roma
sabemos que Christo nasceu da Virgem; to certo como vs outros
romos cremos na sancta Trindade. Se a outra cousa vindes, manhan
vos ouvirei: hoje podeis-vos ir."

E ergueu-se: os olhos chammejavam-lhe de furor. Toda a ousadia
do legado desappareceu como fumo, e, sem atinar com resposta,
sau do alcacer.


7

O gallo tinha cantado tres vezes: pelo arrebol da manhan o cardeal
partia aforradamente de Coimbra, cujos habitantes dormiam ainda
repousadamente.

O principe foi um dos que despertaram mais tarde. Os sinos
harmoniosos da s costumavam acorda-lo tocando s ave-marias:
mas naquelle dia ficaram mudos; e quando elle se ergueu havia
mais de uma hora que o sol subia para o alto dos ceus da banda
do oriente.

"Misericordia! misericordia!"--gritavam devotamente homens e mulheres
 porta do alcacer, com alarido infernal. O principe ouviu aquelle
ruido.

"Que vozes so estas que soam?"--perguntou elle a um pagem.

O pagem respondeu-lhe chorando:

"Senhor, o cardeal excommungou esta noite a cidade, e partiu:
as igrejas esto fechadas; os sinos j no ha quem os toque;
os clerigos fecham-se em suas pousadas. A maldico do sancto
padre de Roma cahiu sobre nossas cabeas."

Outra vez soou  porta do alcacer:--Misericordia! Misericordia!"

"Que enfreiem e selem um cavallo de batalha. Pagem, que enfreiem
e selem o meu melhor corredor!"

Isto dizia o principe, encaminhando-se para a sala d'armas. Ahi
envergou  pressa um saio de malha, e pegou em um montante, que
apenas dous portuguezes dos de hoje valeriam a alevantar do cho.
O pagem tinha sado, e d'alli a pouco o melhor cavallo de batalha
que havia em Coimbra tropeava e rinchava  porta do alcacer.


8

Um clerigo velho, montado em uma alentada mula branca, vindo de
Coimbra seguia o caminho da Vimieira, e de instante a instante
espicaava os ilhaes da cavalgadura com seus acicates de prata:
em duas outras mulas am ao lado delle dous mancebos com caras
e meneios de beatos, vestidos de opas e tonsurados, mostrando
em seu porte e idade que aprendiam ainda as pueris ou ouviam
as grammaticaes[6]. Eram o cardeal, que se a a Roma, e dous
sobrinhos seus que o haviam acompanhado.

Entretanto o principe partra de Coimbra ssinho. Quando pela
manhan Gonalo de Sousa e Loureno Viegas o procuraram em seus
paos, souberam que era partido aps o legado. Temendo o caracter
violento de Affonso Henriques, os dous cavalleiros seguiram-lhe
a pista  redea solta, e am j muito longe quando viram o p
que elle levantava correndo ao longo da estrada, e o scintillar
do sol batendo-lhe de chapa na cervilheira semelhante ao dorso
de um crocodilo.

Os dous fidalgos esporearam com mais fora os ginetes e breve
alcanaram o infante.

"Senhor, senhor, aonde ides sem vossos leaes cavalleiros, to
cedo e aodadamente?"

"Vou pedir ao legado do papa que se amerce de mim..."

A estas palavras os cavalleiros transpunham uma assomada que
encobria o caminho: pela encosta abaixo a o cardeal com os dous
mancebos das opas e cabellos tonsurados.

"Oh!..--disse o principe. Esta unica interjeio lhe fugiu da
bca; mas que discurso houvera ahi que a igualasse? Era o rugido
de prazer do tigre, no momento em que salta do fojo sobre a pra
descuidada.

"_Memento mei, Domine, secundm magnam misericordiam tuam!_"--resou
o cardeal em voz baixa e trmula, quando ouvindo o tropear dos
cavallos, voltou os olhos, e conheceu Affonso Henriques.

Em um instante este o havia alcanado. Ao perpassar por elle,
travou-lhe do cabeo do vestido, e em um relance ergueu o montante:
felizmente os dous cavalleiros arrancaram as espadas, e cruzaram-nas
debaixo do golpe que j descia sobre a cabea do legado: os tres
ferros feriram fogo; mas a pancada deu em vo, alis o craneo
do pobre clerigo teria ido fazer mais de quatro redemoinhos nos
ares.

"Senhor, que vos perdeis, e nos perdeis, ferindo o ungido de
Deus:"--gritaram os dous fidalgos com vozes afflictas.

"Principe"--disse o velho chorando--"no me faas mal; que estou
 tua merc!"--Os dous mancebos tambem choravam.

Affonso Henriques deixou descahir o montante, e ficou em silencio
alguns momentos.

"Ests  minha merc:--disse elle por fim.--Pois bem! Vivers, se
desfizeres o mal que causaste. Que seja alevantada a excommunho
lanada sobre Coimbra, e jura-me em nome do apostolico, que nunca
mais em meus dias ser posto interdicto nesta terra portugueza,
conquistada aos mouros por preo de tanto sangue. Em refens deste
pacto ficaro teus sobrinhos. Se no fim de quatro mezes de Roma
no vierem letras de benam, tem tu por certo que as cabeas
lhes voaro de cima dos hombros. Apraz-te este contracto?"

"Senhor, sim!--respondeu o legado com voz sumida.

"Juras?"

"Juro."

"Mancebos, acompanhae-me,"

Dizendo isto, o infante fez um aceno aos sobrinhos do legado,
que com muitas lagrymas se despediu delles, e ssinho seguiu
o caminho da terra de Sancta Maria.

D'ahi a quatro mezes D. Colleima dizia missa pontifical na
capella-mr da s de Coimbra, e os sinos da cidade repicavam
alegremente. Tinham chegado letras de benam de Roma; e os sobrinhos
do cardeal, montados em boas mulas, am cantando devotamente pelo
caminho da Vimieira o psalmo que comea:

_In exitu Israel de gypto._

Conta-se, todavia, que o papa levra a mal no principio, o pacto
feito pelo legado; mas que por fim tivera d do pobre velho,
que muitas vezes lhe dizia:

"Se tu, sancto padre, vras sobre ti um cavalleiro to bravo
ter-te pelo cabeo, e a espada nua para te cortar a cabea; e
seu cavallo to feroz arranhar a terra, que j te fazia a cova
para te enterrar, no smente deras as letras, mas o papado e
a cadeira apostolical."


       *       *       *       *       *


NOTA

A lenda precedente  tirada das chronicas de Acenheiro, rol de
mentiras e disparates publicado pela nossa Academia, que teria
procedido mais judiciosamente em deixa-las no p das bibliothecas,
onde haviam jazido em paz por quasi tres seculos. A mesma lenda
tinha sido inserida pouco anteriormente na chronica de Affonso
Henriques por Duarte Galvo, formando a substancia de quatro
capitulos, que foram supprimidos na edio deste auctor, e que
mereceram da parte do academico D. Francisco de S. Luiz uma _grave_
refutao. Toda a narrativa da priso de D. Theresa, das tentativas
_opposicionistas_ do bispo de Coimbra, da eleio do bispo negro,
da vinda do cardeal, e da sua fuga contrastam a historia daquella
epocha. A tradio  falsa a todas as luzes: mas tambem  certo
que ella se originou de algum acto de violencia praticado nesse
reinado contra algum cardeal legado. Um historiador coevo, e, posto
que estrangeiro, bem informado geralmente cerca dos successos do
nosso paiz, o inglez Rogerio de Hoveden, narra um facto acontecido
em Portugal, que, pela analogia que tem com o conto do bispo
negro, mostra a origem da fabula. A narrativa do chronista est
indicando que o acontecimento fizera certo rudo na Europa, e a
propria confuso de datas e de individuos, que apparece no texto
de Hoveden, mostra que o successo era anterior e andava j alterado
na tradio. O que  certo  que o achar-se esta conservada fra
de Portugal desde o seculo duodecimo por um escriptor que Ruy
de Pina e Acenheiro no leram (porque s foi publicado no seculo
decimo-setimo) prova que ella remonta entre ns, por maioria de
razo, tambem ao seculo duodecimo, embora desfigurada como j a
vemos no chronista inglez. Eis a notavel passagem a que alludimos,
e que se l a pag. 640 da edio de Hoveden, por Savile:

"No _mesmo anno_ (1187) o cardeal _Jacintho_, ento legado em toda
a Hespanha, deps muitos prelados _(abbates)_ ou por culpas delles
ou por impeto proprio, e como quizesse depr o bispo de Coimbra,
o rei _Affonso_ (Henriques) no consentiu que elle fosse deposto,
e mandou ao dicto cardeal que sasse da sua terra, quando no
cortar-lhe-hia um p."

       *       *       *       *       *

[1] A s velha de Coimbra  no todo, ou na maxima parte
uma edificao dos fins do seculo duodecimo; mas acceitmos aqui
a tradio que lhe attribue uma remotissima antiguidade.

[2] Hoje Terra da Feira, proxima do Porto, na estrada
de Coimbra.

[3]  notavel coincidencia a seguinte: Em 1088 _um
presbytero, por nome Zoleima,_ fez uma doao _ s de Coimbra_.
Desta doao se lembra Fr. Antonio Brando M. L. P. 3. L. 8.
Cap. 5. pag. 13 col. 2. in fine.

[4] _Clerigo_ naquella epocha no significava s o
ecclesiastico revestido do sacerdocio, mas sim qualquer individuo
empregado no servio do culto. D'ahi a frequente meno nos
documentos, de _clerigos casados_.

[5] Papa.

[6] Estudos menores ou preparatorios. Assim parece se
chamavam na idade mdia. _Darin lernt ich puerilia,_ diz Hans Sachs
no seu _Lebensbeschreibung_, e o bispo do Porto, D. Pedro Affonso,
affirma de seu predecessor D. Joo Gomes: _erat bonus homo, et
sin aliqua malitia, sed jura aliqua non audiverat, imm nec
grammaticalia, quod est plus_.




A MORTE DO LIDADOR

(1170)


1

"Pagens! que arreiem o meu ginete murzello; e vs dae-me o meu
lorigo de malha de ferro, e a minha boa toledana. Senhores
cavalleiros, hoje contam-se noventa e cinco annos que recebi o
baptismo, oitenta que visto armas, setenta que sou cavalleiro, e
quero celebrar tal dia fazendo uma entrada por terras da frontaria
dos mouros."

Isto dizia na sala de armas do castello de Bja Gonalo Mendes
da Maia, a quem, pelas muitas batalhas que pelejra, e por seu
valor indomavel chamavam o Lidador. Affonso Henriques, depois do
infeliz successo de Badajoz, e feitas pazes com elrei de Leo,
o nomera fronteiro da cidade de Bja, de pouco conquistada aos
mouros. Os quatro Viegas, filhos do bom velho Egas Moniz, estavam
com elle, e outros muitos cavalleiros afamados, entre os quaes
D. Ligel de Flandres, e Mem Moniz, tio dos quatro Viegas.

"A la f--disse Mem Moniz---que a festa de vossos annos, senhor
Gonalo Mendes, ser mais de mancebo cavalleiro, que de capito
encanecido e prudente. Deu-vos elrei esta frontaria de Bja para
bem a haverdes de guardar, e no sei eu se arriscado  sar hoje
 campanha, que dizem os escutas, chegados ao romper d'alva,
que o famoso Almoleimar corre por estes arredores com dez vezes
mais lanas do que todas as que esto encostadas nos lanceiros
desta sala de armas."

"Voto a Christo--atalhou o Lidador--que no cria eu que o senhor
rei me houvesse posto nesta torre de Bja para estar assentado 
lareira da chamin, como uma velha dona, a espreitar de quando
em quando por uma steira, se cavalleiros mouros vinham correr
t a barbacan, para lhes cerrar as portas, e ladrar-lhes do cimo
da torre da menagem, como usam os villos. Quem achar que so
duros de mais os arnezes dos infiis pde ficar-se aqui."

"Bem dicto! bem dicto!"--clamaram, dando grandes risadas, os
cavalleiros mancebos.

"Por minha boa espada!"--gritou Mem Moniz, atirando com o
guante-ferrado s lageas do pavimento--"que mente pela gorja quem
disser que eu ficarei aqui, havendo dentro de dez leguas em redor
lide com mouros. Senhor Gonalo Mendes, podeis montar em vosso
ginete, e veremos qual das nossas lanas bate primeiro em adarga
mourisca."

"A cavallo, a cavallo!"--gritou outra vez a chusma, com grande
alarido.

D'alli a pouco ouvia-se o retumbar dos sapatos de ferro de muitos
cavalleiros descendo os degraus de marmore da torre de Bja,
e passados alguns instantes soava s o tropear dos cavallos
atravessando a ponte levadia das fortificaes exteriores, que
davam para a banda da campanha, por onde costumava apparecer
a mourisma.


2

Era um dia do mez de Julho, duas horas depois da alvorada, e
tudo estava em grande silencio dentro da cerca de Bja: batia o
sol nas pedras esbranquiadas dos muros e torres que a defendiam:
ao longe, pelas immensas campinas, que avizinham o teso, sobre
que a povoao est assentada, viam-se ondear as searas maduras,
cultivadas por mos de agarenos para seus novos senhores christos.
Regados por lagrymas de escravos tinham sido esses campos quando
em formoso dia de inverno os sulcou o ferro do arado; por lagrymas
de servos seriam outra vez humedecidos, quando no mez de Agosto
a paveia, cerceada pela fouce, pendesse sobre a mo do ceifeiro:
chro de amargura havia ahi, como cinco seculos antes o houvera:
ento de christos conquistados, hoje de mouros vencidos. A cruz
basteava-se outra vez sobre o crescente quebrado; os corucheus
das mesquitas convertiam-se em campanarios de ss, e a voz do
almuhaden trocava-se por toada de sinos, que chamavam  orao
entendida por Deus. Era esta a resposta dada pela raa goda aos
filhos d'Africa e do Oriente, que diziam mostrando os alfanges:--"
nossa a terra de Hespanha."--O dicto do arabe foi desmentido; mas a
resposta gastou oito seculos a escrever-se: Pelaio entalhou com a
espada a primeira palavra della nos cerros das Asturias; a ultima
gravaram-na Fernando e Isabel com os pelouros de suas bombardas
nos pannos das muralhas da formosa Granada: e a esta escriptura,
estampada em alcantis de montanhas, em campos de batalha, nos
portaes e torres dos templos, nos lanos dos muros das cidades
e castellos, accrescentou no fim a mo da providencia:--"assim
para todo o sempre!"

Nesta lucta de vinte geraes andavam lidando as gentes do Alemtejo.
O servo mouro olhava todos os dias para o horisonte, onde se
enxergavam as serranias do Algarve: de l esperava elle salvao,
ou ao menos vingana; ao menos um dia de combate, e corpos de
christos estirados na veiga para pasto dos aores bravios. A
vista do sangue enxugava-lhes por algumas horas as lagrymas,
embora os valentes d'Africa houvessem de fugir vencidos; embora
as aves de rapina tivessem tambem abundante ceva em cadaveres
de seus irmos! E este ameno dia de julho devia ser um desses
dias porque suspirava o servo ismaelita.

Almoleimar descra com seus cavalleiros s campinas de Bja.
Pelas horas mortas da noite viam-se as almenras das suas atalaias
nos pincaros das serras remotas, semelhantes s luzinhas, que
em descampados e tremedaes accendem as bruxas em noites de seus
folguedos; bem longe stavam as almenras, mas bem perto sentiam
os escutas o resfolegar e o tropear de cavallos, e o ranger de
folhas seccas, e o tinir a espaos de alfange batendo em ferro
de canelleira, ou de coxote. Ao romper d'alva os cavalleiros
do Lidador saam mais de dous tiros de bsta alem das velhas
muralhas de Bja; tudo, porm, estava em silencio, e s aqui e
alli as searas calcadas davam rebate de que por aquelles sitios
tinham vagueado almogaures mouros, como o leo do deserto rodeia
pelo quarto de modorra as habitaes dos pastores alem das encostas
do Atlas.

No dia em que Gonalo Mendes da Maia, o velho fronteiro de Bja,
cumpria os noventa e cinco annos, ninguem sara, pelo arrebol da
manhan, a correr o campo; e, todavia, nunca to de perto chegra
Almoleimar; porque uma frecha fra pregada  mo em um grosso
carvalho, que sombreava uma fonte, a pouco mais de tiro de funda
dos muros do castello. Era que nesse dia deviam ir mais longe os
cavalleiros christos: o Lidador pedra aos pagens o seu lorigo
de malha de ferro, e a sua boa toledana.


3

Trinta fidalgos, flor da cavallaria, corriam  redea solta pelas
campinas de Bja; trinta, no mais, eram elles; mas oravam por
trezentos os homens d'armas, escudeiros e pagens que os acompanhavam.
Entre todos avultava em robustez e grandeza de membros o Lidador,
cujas barbas brancas lhe ondeavam como frocos de neve sobre o
peitoral da cota d'armas, e o terrivel Loureno Viegas, a quem
pelos espantosos golpes da sua espada chamavam o Espadeiro. Era
formoso espectaculo e esvoaar dos balses e signas, fra de suas
fundas, e soltos ao vento, o scintillar das cervilheiras, as
cores variegadas das cotas, e as ondas de p, que se alevantavam
debaixo dos ps dos ginetes, como as alevanta o bulco de Deus,
varrendo a face da campina resequida, em tarde ardente de vero.

Ao largo, muito ao largo, dos muros de Bja vai a atrevida cavalgada
em demanda dos mouros; e no horisonte no se vem seno os topos
pardo-azulados das serras do Algarve, que parece fugirem tanto
quanto os cavalleiros caminham. Nem um pendo mourisco, nem um
albornoz branco alveja ao longe sobre um cavallo murzello. Os
corredores christos volteiam na frente da linha dos cavalleiros,
correm, cruzam para um e outro lado, embrenham-se nos matos, e
transpem-nos em breve; entram pelos cannaviaes dos ribeiros;
apparecem, somem-se, tornam a sar ao claro: mas no meio de tal
lidar apenas se ouve o trote compassado dos ginetes, e o grito
monotono da cigarra, pousada nos raminhos da giesteira.

A terra que pisam  j de mouros;  j alm da frontaria. Se
olhos de cavalleiros portuguezes soubessem olhar para trs indo
em som de guerra, os que para trs de si os volvessem a custo
enxergariam Bja. Bastos pinhaes comeavam j a cobrir mais ondeado
territorio, cujos outeirinhos aqui e alli se alteavam suaves como
seio de virgem em vio de mocidade. Pelas faces tostadas dos
cavalleiros cobertos de p corria o suor em bagas, e os ginetes
alagavam de escuma as redes de ferro acaireladas de ouro, que
os defendiam. A um signal do Lidador a cavalgada parou; era
necessario repousar, que o sol a no zenith e abrazava a terra:
descavalgaram todos  sombra de um azinhal, e sem desenfrear os
ginetes deixaram-nos pascer alguma relva, que crescia nas bordas
de um arroio vizinho.

Tinha passado meia hora: por mandado do velho Fronteiro de Bja
um almogavar montou a cavallo, e aproximou-se  rdea solta de
uma selva extensa, que corria  mo direita: pouco, porm, correu;
uma frecha despedida dos bosques sibilou no ar: o almogavar gritou
por Jesus: a frecha tinha-se-lhe embebido no lado: o cavallo
parou de repente, e elle, erguendo os braos ao ar com as mos
abertas, cahiu de bruos, tombando para o cho, e o ginete partiu
desenfreado atravs das veigas, e desappareceu na selva. O almogavar
dormia o ultimo somno dos valentes em terra de inimigos, e os
cavalleiros da frontaria de Bja viram o seu trance do repousar
eterno.

"A cavallo! a cavallo!"--bradou a uma voz toda a lustrosa companhia
do Lidador; e o tinido dos guantes ferrados, batendo na cobertura
de malha dos ginetes, soou unisono, quando todos os cavalleiros
cavalgaram de um pulo: e os ginetes rincharam de prazer, como
aspirando os combates.

Uma grita medonha troou ao mesmo tempo alm do pinhal da
direita.--"Allah! Almoleimar!"--era o que dizia a grita.

Enfileirados em uma longa linha, os cavalleiros arabes saram 
rdea solta de trs da escura selva que os encubria: o seu numero
excedia cinco vezes o dos soldados da cruz: as suas armaduras
lisas e polidas contrastavam com a rudeza das dos christos,
apenas defendidos por pesadas cervilheiras de ferro, e por grossas
cotas de malha do mesmo metal: mas as lanas destes eram mais
robustas, e as suas espadas mais volumosas do que as cimitarras
mouriscas. A rudeza e a fora da raa gothico-romana am ainda
mais uma vez provar-se com a destreza e com a percia arabes.


4

Como uma longa fita de muitas cres, recamada de fios d'ouro, e
reflectindo ao longe mil accidentes de luz, a extensa e profunda
linha dos cavalleiros mouros sobresaa na veiga entre as searas
pallidas que cubriam o campo: defronte delles os trinta cavalleiros
portuguezes, com trezentos homens d'armas, pagens, e escudeiros
cubertos dos seus escuros involtorios, e lanas em riste, esperavam
o brado de accommetter. Quem visse aquelle punhado de christos,
diante da copia d'infiis que os esperavam, diria que, no com
brios de cavalleiros, mas com fervor de martyres, se offereciam
a desesperado trance. Porm, no pensava assim Almoleimar, nem os
seus soldados, que bem conheciam a tmpera das espadas e lanas
portuguezas, e a rijeza dos braos que as meneavam. De um contra
dez devia ser o eminente combate; mas se havia ahi algum corao
que batesse descompassado, algumas faces descoradas, no era
entre os companheiros do Lidador que tal corao batia ou que
taes faces descoravam.

Pouco a pouco a planura que separava as duas hostes tinha-se
embebido debaixo dos ps dos cavallos, como no torculo se embebe
a folha de papel saindo para o outro lado convertida em estampa
primorosa. As lanas iam feitas: o Lidador bradra Sanctiago; e
o nome de Allah sora em um s grito por toda a fileira mourisca.

Encontraram-se! Duas muralhas fronteiras, balouadas por violento
terremoto, desabando, no fariam mais ruido, ao bater em pedaos
uma contra a outra, que este recontro de infiis e christos: as
lanas topando em cheio nos escudos tiravam delles um som profundo,
que se misturava com o estalar das que voavam despedaadas. Do
primeiro encontro muitos cavalleiros vieram ao cho: um mouro
robusto foi derribado por Mem Moniz, que lhe falsou as armas,
e traspassou o peito com o ferro de sua grossa lana.

Deixando-a depois cahir, o velho desembainhou a espada, e gritou
ao Lidador, que perto delle estava:

"Senhor Gonalo Mendes, alli tendes, no peito daquelle perro,
aberta a steira por onde eu, velha dona assentada  lareira,
costumo vigiar a chegada de inimigos, para lhes ladrar como alcateia
de villos do cimo da torre de menagem."

O Lidador no lhe pde responder. Quando Mem Moniz proferia as
ultimas palavras, elle topra em cheio com o terrivel Almoleimar.
As lanas dos dous contendores haviam-se feito pedaos, e o alfange
do mouro cruzou-se com a boa toledana do Fronteiro de Bja.

Como duas torres de sete seculos, cujo cimento o tempo petrificou,
os dous capites inimigos estavam um defronte do outro, firmes
em seus possantes cavallos: as faces pallidas e enrugadas do
Lidador tinham ganhado a immobilidade que d, nos grandes perigos,
o habito de os affrontar: mas no rosto de Almoleimar divisavam-se
todos os signaes de um valor colerico e impetuoso. Cerrando os
dentes com fora, descarregou um golpe tremendo sobre o seu
adversario: o Lidador recebeu-o no escudo, onde o alfange se
embebeu inteiro, e procurou ferir Almoleimar entre o fraldo e
a couraa; mas a pancada falhou, e a espada desceu, faiscando,
pelo coxote do mouro, que j desencravra o alfange. Tal foi a
primeira saudao dos dous cavalleiros inimigos.

"Brando  o teu escudo, velho infiel; mais bem temperado  o
metal do meu arnez. Veremos agora se na tua touca de ferro se
embotam os fios deste alfange."

Isto disse Almoleimar, dando uma risada; e a cimitarra bateu
em cima da cervilheira do Lidador com a mesma violencia com que
bate no fundo do valle penedo desconforme desprendido do pincaro
da montanha.

O Fronteiro vacillou, deu um gemido, e os braos ficaram-lhe
pendentes: a espada ter-lhe-hia cahido no cho, se no estivesse
presa ao punho do cavalleiro por uma cadeia de ferro: o ginete,
sentindo as redeas frouxas, fugiu um bom pedao pela campanha
a todo o galope.

Mas o Lidador tornou a si: uma forte soffreada avisou o ginete
de que seu senhor no morrra.  redea solta l volta o Fronteiro
de Bja; escorre-lhe o sangue, involto em escuma, pelos cantos
da bca: traz os olhos torvos de ira: ai de Almoleimar!

Semelhante ao vento de Deus, Gonalo Mendes da Maia passou por
entre christos e mouros: os dous contendores viram-se, e, como
o leo e o tigre, correram um para o outro: as espadas reluziram
no ar: mas o golpe do Lidador era simulado, e o ferro, mudando
de movimento no ar, foi bater de ponta no gorjal de Almoleimar,
que cedeu  violenta estocada; e o sangue, saindo s golfadas,
cortou a ultima maldico do agareno.

Mas a espada deste tambem no errra o golpe: vibrada com ancia,
colhra pelo hombro esquerdo o velho Fronteiro, e, rompendo a
grossa malha do lorigo, penetrra na carne at o osso; e ainda
mais uma vez a mesma terra bebeu nobre sangue godo misturado
com sangue arabe.

"Perro maldicto! Sabe l no inferno que a espada de Gonalo Mendes
 mais rija que a sua cervilheira."

E, dizendo isto, o Lidador cahiu amortecido: um dos seus homens
de armas voou a soccorre-lo; mas o ultimo golpe d'Almoleimar
fra o brado da sepultura para o fronteiro de Bja: os ossos do
hombro do bom velho estavam como triturados, e as carnes rasgadas
pendiam-lhe para um e outro lado involtas nas malhas descosidas
do lorigo.


5

Entretanto os mouros am de vencida: Mem Moniz, D. Ligel, Godinho
Fafes, Gomes Mendes Gedeo, e os outros cavalleiros daquella
lustrosa companhia tinham practicado maravilhosas faanhas. Mas
entre todos tornava-se notavel o Espadeiro. Com um pesado montante
nas mos, cuberto de p, suor e sangue, pelejava a p; que o
seu agigantado ginete cahra morto de muitos tiros de frecha e
lanadas. De roda delle no se viam seno cadaveres e membros
destroncados, por cima dos quaes trepavam, para logo recuarem
ou baquearem no cho, os mais ousados cavalleiros arabes. Como
um promontorio de escarpados alcantis, Loureno Viegas estava
immovel e sobranceiro no meio do embate daquellas vagas de
pelejadores, que vinham desfazer-se contra o terrivel montante
do filho de Egas Moniz.

Quando o Fronteiro cahiu, o grosso dos mouros fugia j para alem
do pinhal; mas os mais valentes pelejavam ainda  roda do seu
capito mal ferido. O Lidador tinha sido posto em cima d'umas andas,
feitas de troncos e franas de arvores; e quatro escudeiros, que
restavam vivos dos dez que comsigo trouxera, o haviam transportado
para a caga da cavalgada. O tinir dos golpes era j mui frouxo,
e sumia-se no som dos gemidos, pragas, e lamentos, que soltavam
os feridos derramados pela veiga ensanguentada. Se os mouros,
porm, levavam, fugindo, vergonha e damno, a victoria no sara
barata aos portuguezes. Viam perigosamente ferido o seu velho
capito, e tinham perdido alguns cavalleiros de conta, e a maior
parte dos homens de armas, escudeiros e pagens.

Foi n'este ponto, que ao longe se viu erguer uma nuvem de p,
que voava rapida para o logar da peleja: mais perto, aquelle
turbilho rareou, vomitando do seio um basto esquadro de arabes;
os mouros que fugiam, deram volta e gritaram:

"Ali-Abu-Hassan! S Deus  Deus, e Mohammed o seu propheta!"

Era, com effeito, Ali-Abu-Hassan, rei de Tangere, que estava
com seu exercito sobre Mertola, e que viera com mil cavalleiros
em soccorro de Almoleimar.


6

Cansados do largo combater, reduzidos a menos de metade em numero,
e cubertos de feridas, os cavalleiros de Christo invocaram o seu
nome, e fizeram o signal da cruz. O Lidador perguntou com voz
fraca a um pagem, que estava ao p das andas, que nova revolta
era aquella.

"Os mouros foram soccorridos por um grosso esquadro:--respondeu
tristemente o pagem.--A Virgem Maria nos acuda, que os senhores
cavalleiros parece recuarem j."

O Lidador cerrou os dentes com fora, e levou a mo  cincta.
Buscava a sua boa toledana.

"Pagem, quero um cavallo. Onde est a minha espada?

"Aqui a tenho, senhor. Mas estaes to quebrado de foras!...."

"Silencio! A espada, e um bom ginete."

O pagem deu-lhe a espada, e foi pelo campo buscar um ginete,
dos muitos que andavam j sem dono. Quando voltou com elle, o
Lidador, pallido e cuberto de sangue, estava em p, e dizia,
falando comsigo:

"Por Sanctiago, que no morrerei como villo de Behetria, onde
entrou cavalgada de mouros!"

E o pagem ajudou-o a montar a cavallo.

Ei-lo vae o velho Fronteiro de Bja! Semelhava um espectro erguido
de pouco em campo de finados: debaixo de muitos pannos involtos
no brao e hombro esquerdo levava a propria morte; nos fios da
espada, que a mo direita mal sustinha, levava porventura ainda
a morte de muitos outros!


7

Para onde mais travada e accesa andava a peleja se encaminhou
o Lidador. Os christos affrouxavam diante daquella multido
d'infiis, entre os quaes mal se enxergavam as cruzes vermelhas
pintadas nas cimeiras dos portuguezes. Dous cavalleiros, porm, com
vulto feroz, os olhos turvados de colera, e as armaduras crivadas
de golpes, sustinham todo o peso da batalha. Eram estes o Espadeiro
e Mem Moniz. Quando o Fronteiro assim os viu offerecidos a certa
morte, algumas lagrymas lhe cahiram pelas faces, e esporeando
o ginete, com a espada erguida abriu caminho por entre infiis
e christos, e chegou aonde os dous, cada um com seu montante
nas mos, faziam larga praa no meio dos inimigos.

"Bem vindo, Gonalo Mendes!--disse Mem Moniz.--Quizeste assistir
comnosco a esta festa de morte? Vergonha era, de feito, que
estivesses fazendo teu passamento, com todo o repouso, deitado
l na aga, em quanto eu, velha dona, espreito os mouros com
meu sobrinho juncto desta lareira...."

"Implacaveis sois vs outros, cavalleiros de Riba-Douro,"--respondeu
o Lidador em voz sumida,--"que no perdoaes uma palavra sem malicia.
Lembra-te Mem Moniz de que bem depressa estaremos todos diante
do justo juiz."

"Velhos sois; bem o mostraes!"--acudiu o Espadeiro.--"No cureis de
vans porfias, mas de morrer como valentes. Demos nestes perros,
que no ousam chegar-se a ns. vante, e Sanctiago!"

"vante, e Sanctiago!"--responderam Gonalo Mendes e Mem Moniz:
e os tres cavalleiros deram rijamente nos mouros.


8

Quem hoje ouvir recontar os bravos golpes que no mez de Julho
de 1170 se deram na veiga da frontaria de Bja, nota-los-ha de
fabulas sonhadas; porque ns homens corruptos e enfraquecidos
por ocios e prazeres de vida afeminada, medimos por nosso animo
e foras as foras e o animo dos bons cavalleiros portuguezes
do seculo doze; e todavia esses golpes ainda soam atravs das
eras nas tradies e chronicas, tanto christans como agarenas.

Depois de deixar assignadas muitas armaduras mouriscas, o Lidador
vibrra pela ultima vez a espada, e abrra o elmo e o craneo
de um cavalleiro arabe. O violento abalo que soffreu, fez-lhe
rebentar em torrentes o sangue da ferida, que recebra das mos de
Almoleimar, e cerrando os olhos, cahiu morto ao p do Espadeiro,
de Mem Moniz, e de Affonso Hermigues de Bayo, que com elles se
ajunctra. Repousou finalmente Gonalo Mendes da Maia de oitenta
annos de combates!

J a este tempo christos e mouros se haviam descido dos cavallos,
e pelejavam a p. Traziam-se assim  vontade, e recrescia a crueza
da batalha. Entre os cavalleiros de Bja espalhou-se logo a nova da
morte do seu capito, e no houve ahi olhos que ficassem enxutos.
O despeito do proprio Mem Moniz deu logar  dor, e o velho de
Riba-Douro exclamou entre soluos:

"Gonalo Mendes, s morto! Ns todos quantos aqui somos, no
tardar que te sigamos; mas ao menos, nem tu nem ns ficaremos
sem vingana!"

"Vingana!"--bradou o Espadeiro, com voz rouca, e rangendo os
dentes. Deu alguns passos, e viu-se o seu montante reluzir como
uma centelha em cu procelloso.

Era Ali-Abu-Hassan: Loureno Viegas o conhecra pelo timbre real
do morrio.


9

Se j vivestes vida de combates em cidade sitiada, tereis visto
muitas vezes um vulto negro, que em linha diagonal corta os ares,
sussurrando e gemendo. Rapido, como um pensamento criminoso em
alma honesta, elle chegou das nuvens  terra, antes que vos
lembrasseis do seu nome. Se encontrou na passagem angulo de torre
secular, o marmore converte-se em p; se atravessou pelas ramas
de arvore basta e frondosa, a folha mais virente e fragil, o
raminho mais tenro  dividido, como se com cutelo subtilissimo
mo de homem lhe houvera cerceado attentamente uma parte: e,
todavia, no  um ferro aacalado:  um globo de ferro;  a bomba,
que passa, como a maldico de Deus. Depois, debaixo della o
cho achata-se, e a terra espadana aos ares; e como agitada,
despedaada por cem mil demonios, aquella machina do inferno
estoura, e de roda della ha um zumbir sinistro: so mil fragmentos;
so mil mortes que se derramam ao longe. Ento faz-se um grande
silencio, e aps o silencio vem-se corpos destroncados, poas
de sangue, arcabuzes quebrados, e ouve-se o gemer dos feridos
e o estertor de moribundos....

Tal desceu o montante do Espadeiro, bto j de milhares de golpes,
que o cavalleiro tinha descarregado. O elmo de Ali-Abu-Hassan
faiscou, voando em pedaos pelos ares, e o ferro christo,
esmigalhando o craneo do infil, abriu-o at os dentes.
Ali-Abu-Hassan cahiu.

"Lidador! Lidador!"--disse Loureno Viegas, com voz comprimida.
As lagrymas misturavam-se-lhe nas faces com o suor, o p, e o
sangue do agareno, de que ficou coberto. No pde dizer mais
nada.

To espantoso golpe aterrou os mouros: os portuguezes seriam j
apenas sessenta entre cavalleiros e homens d'armas; mas pelejavam
como desesperados, e resolvidos a morrer. Mais de mil inimigos
juncavam o campo de involta com os christos. A morte de
Ali-Abu-Hassan foi o signal da fugida.

Os portuguezes, senhores do campo, celebravam com prantos a victoria.
Poucos havia que no estivessem feridos; nenhum que no tivesse
as armas falsadas e rotas. O Lidador e os demais cavalleiros de
grande conta, que naquella jornada tinham acabado, atravessados em
cima de ginetes foram conduzidos a Bja. Aps aquelle tristissimo
prestito am os cavalleiros a passo lento, e um sacerdote templario,
que fra na cavalgada, com a espada cheia de sangue mettida na
bainha, psalmeava em voz baixa aquellas palavras do livro da
Sabedoria:

"_Justorum autem anim in manu Dei sunt, et non tanget illos tormentum
mortis._"

       *       *       *       *       *




O PAROCHO DA ALDEIA

(1825)



PROLOGO.


Como a philosophia  triste e arida! s vezes, na primavera,
o vento norte atira-se pelas encostas, tombando dos visos da
serra, como se uma intelligencia vivesse n'elle, intelligencia
de maldade e destruio. De noite e de dia os troncos das arvores
torcem-se e gemem, as ramas aoutam-nos, e despedaam-se involtas
nos braos longos e flexiveis da ventania: o demonio do septentrio
sibilla no meio dellas um zumbido entre de lamento e d'escarneo.
Debalde o bosque estende saudoso por um momento os seus mais altos
raminhos para o sol que se vae alevantando no oriente: a rajada
despega de novo da cumiada da montanha; o bosque curva-se para o
meio-dia; e galgando por cima daquellas mil frontes inclinadas
das plantas gigantes, das rainhas magestosas da vegetao, os
turbilhes da atmosphera agitada rolam pela planicie coberta
j de relva entresachada das primeiras florinhas. Ento, relva
e florinhas murcham-se esmagadas pelas mos da procella, que
tudo alcanam, fustigam e desbaratam. Os carvalhos frondosos e
as boninas rasteiras, com a fronte pendida para a terra, como
outros tantos symbolos do desalento, no ousam ergue-la para o
cu.  que, rugindo, a rajada cahe da montanha em perenne catadura.
s vezes, como por brinco infernal, o vento finge adormecer um
instante, e depois remoinha e apruma os topos das arvores e as
corolas das flores, mas  para logo as vergar com mais fora,
e apupar com o silvo insolente aquella rapida esperana, que
se desvaneceu to breve.

E quando o vento acalma  para saltar ao ponente ou ao sul. A
rajada j no silva da montanha: uma bafagem tepida vem da banda
do mar; mas o ceu est toldado e o ar humido: o dia passa
melancholico e pesado sobre a bonina que a nortada aoutou: ella
no pde saudar o sol no oriente: est pendida e murcha como a
ventania a deixra. A noite vem encontra-la n'uma especie de
torpor, que  existir, mas que no  vegetar, e ainda menos viver.

Como a florinha do campo a alma por onde passou a procella da
philosophia, esse turbilho transitorio de doutrinas, de systemas,
de opinies, de argumentos, pende desanimada e triste; e na claridade
baa do septicismo, que torna pesada e fria a atmosphera da
intelligencia, no pde aquecer-se aos raios esplendidos do sol
de uma crena viva.

Com Kant o universo  uma duvida: com Locke  duvida o nosso
espirito: e n'um destes abysmos vem precipitar-se todas as
philosophias.

A arvore da sciencia, transplantada do Eden, trouxe comsigo a
dor, a condemnao e a morte: mas a sua peior peonha guardou-se
para o presente: foi o scepticismo.

Feliz a intelligencia vulgar e rude, que segue os caminhos da vida
com os olhos fitos na luz e na esperana postas pela religio alm
da morte, sem que um momento vacille, sem que um momento a luz se
apague ou a esperana se desvanea! Para ella no ha abraar-se
com a cruz em impeto de agonia, e clamar a Jesus:--"Creio, creio,
oh Nazareno! Creio em ti, porque a tua moral  sublime; porque
eras humilde e virtuoso; porque filho da raa soffredora e austera
chamada o povo, eras meu irmo, e no podias, to bom, to singelo,
to puro enganar teu pobre irmo. Creio, creio, oh Nazareno! porque
at a hora do expirar na ignominia, at a hora da grande prova,
nunca desmentiste a tua doutrina. Creio, creio, oh Nazareno!
porque tu s nos explicaste o mysterio desta associao monstruosa
da saude e do ouro, do poderio e dos crimes a um lado; a da
enfermidade e da pobreza, da servido e da innocencia a outro;
porque nos explicaste como os destinos humanos se compensavam alm
do sepulchro. Creio, creio, oh Nazareno! porque s tu soubeste
revelar a consolao  extrema miseria sem horisonte, e os terrores
 completa felicidade sem termo na vida, collocando no logar do
destino a providencia, e do nada a immortalidade! Creio, creio,
oh Nazareno! porque a intensidade do teu viver  um impossivel
humano; a victoria da tua doutrina severa contra a philosophia e
o paganismo um milagre; a gloria do teu nome de suppliciado maior
que todas as glorias das mais altas e virtuosas intelligencias
do mundo. Mas foste, na verdade, um Deus?"

No, o animo vulgar que nunca vacillou na f, que nunca discutiu
o Verbo, nunca julgou o Christo, possuido do insensato orgulho
da sciencia, esse no sabe a dolorosa orao do que pede a Deus
o crer; ignora quanto fel encerra a interrupo contnua de cada
phrase, de cada palavra daquelle tormentoso orar; ignora o que
 atirar-se aos ps da cruz por um impulso quasi phrenetico do
corao, sentir a voz gelida, pesada, cruel do entendimento dizer-lhe
tranquillamente--_quem sabe!_"--e cahir desanimado no lethargo da
duvida, d'onde muitas vezes bem tarde se alevanta o espirito,
opprimido e quebrado, porque nelle pelejaram horas largas o instincto
religioso e o demonio implacavel a que chamam sciencia.

A sociedade  bem injusta quando s faces do desgraado, que
assim lucta comsigo mesmo, sacode o lodo da injuria, dizendo-lhe:
--hypocrita!--porque escondeu aos que o rodeiam, no as certezas,
que no as tem, mas as duvidas terriveis da intelligencia, e lhes
revelou s as inspiraes, os desejos, as saudades do corao!
--Hypocrita?! Tanto como o que, havendo-se transviado da estrada
e cahido em fojo profundo, dorido, coberto de pisaduras e feridas,
e ensanguentando as mos e o rosto nas urzes do despenhadeiro,
lidasse por sar delle e voltar ao caminho suave e plano, e bradasse
aos que visse ao longe:--"no vos affasteis para aqui!"--Hypocritas
so aquelles que mentem aos que os escutam; que simulam a paz do
descrer tranquillo, quando vae l dentro o tumultuar das incertezas.
Como Satanaz elles dizem que o inferno  o ceu; dizem que a
irreligiosidade tem o segredo do repouso e da ventura, quando o que
ella d  inquietao e desesperana.

Feliz a alma vulgar e rude que cr, e nem sequer sabe que a duvida
existe no mundo! Est certa de que alm da morte ha vida; conhece
as suas condies; conhece-as como lh'as ensinaram, como conhece
as condies dos corpos. Para ella as noites no tem os pesadellos
monstruosos, nem os dias as meditaes febris em que o sceptico
involuntario se debate na orla do possivel, que toca por um lado
nas solides do nada, por outro na immensidade de Deus.

Mas ainda mais feliz a intelligencia superior s do vulgo, aquella
que a Providencia destinou  misso do poeta, nos annos da infancia
e da juventude, antes que o arido bafo da sciencia a queimasse
passando por cima della! Nesse espirito e nessa idade a religio
no est s nos preceitos e nos dogmas; est na natureza inteira.
A alegria de Deus, o aspirar das fragrancias celestes, a toada
suavissima dos hymnos dos anjos, descem a ella nos raios do sol
quando nasce e quando desapparece; tremulam no espelhar-se da
lua nas aguas; misturam-se no cicio das arvores; entretecem-se
com os mil gemidos da noite; vivem nas affeies domesticas, e
sanctificam o primeiro bater do corao pelo amor. Tudo ento 
vioso e puro, porque a alma poetica lhe empresta vio e pureza.
As harmonias moldadas, na virilidade, pelas leis das linguas e das
escholas, so apenas um eccho frouxo desses canticos da meninice
e da primeira mocidade, que se evaporam sem se escreverem, que
so um oceano de delicias ineffaveis em que se embala mollemente
a imaginao e o sentir do homem, a quem o mundo ha-de chamar
poeta. Nessa epocha da vida elle no abstrahe do real para salvar
verdadeira e intacta a sua idealidade: faz mais; derrama esta,
que  a seiva intima do seu viver, pelo universo, e converte-o
n'uma cousa formosa, sancta, ideal, que o mundo est bem longe
de ser.

Depois vem outra epocha da vida, em que a felicidade  mentida,
mas ainda  felicidade, posto que j eivada de vaga inquietao, de
ambies desregradas, de esperanas mesquinhas e contradictorias.
So os annos qnc precedem e seguem immediatamente os vinte.

Abrem-se ante ns os caminhos do mundo como uma conquista. Gloria
d'artistas, poderio, opulencia, aces generosas e grandes, amor
sem termo, amizade sem perfidias, vida multiplicada indefinidamente
pela infinidade de affectos; que ha, emfim, que no sonhemos nessa
epocha de fervente loucura? A innocencia morreu, a poesia intima
e crente desbaratou-se, o sentimento religioso esmoreceu; mas
ficam os deleites dos sentidos, que nos embriagam; os applausos
das multides aos nossos hymnos descorados, que ellas ainda julgam
energicos e brilhantes; applausos que nos desvairam: fica-nos
uma philosophia orgulhosa e insensata, que se cr profunda, uma
sciencia superficial, que se cr completa, pela qual dormimos
tranquillos sobre a negao de todas as idas mysticas, e de
todas as lembranas de Deus.

Desta idade em diante  que chega o desfazer das illuses, at
das illuses do orgulho. A poesia suave e pura da infancia e da
puberdade passou: passa tambm o iris das paixes frvidas, das
ambies insaciaveis, da crena na propria energia. Comea ento
o pardo crepusculo deste scepticismo, que, semelhante a herpes
lentos, vae lavrando por todas as nossas opinies e affectos, e
os prostra e subjuga. Desde essa epocha a vida tem largas horas
de tedio, em que o existir  uma carga pesada, porque nos falta
um alicerce em que possamos firmar-nos; porque fluctuamos sobre
as nevoas densas do duvidar de tudo.

O materialismo incredulo j tirou das phases espirituaes dos
altos engenhos argumento contra a immortalidade. Com a sua logica
miope persuadiu-se de que via as enfermidades e a decadencia da
alma acompanharem as enfermidades e a decadencia do corpo; que
via o entendimento cachetico esmorecer com a decrepidez; quiz
que elle na morte ficasse perdido e annullado entre as cinzas
da sepultura. Se o materialismo soubesse que a vida das summas
intelligencias  a poesia, e que essa vida segue a ordem inversa
do desinvolvimento physico; se conhecesse que a energia intima
tem o seu apogeu nos annos debeis da infancia, e comea a
desvanecer-se quando os orgos se fortalecem, elle no teria
achado a explicao do phenomeno nas suas tristes doutrinas.
Nos destinos eternos dos homens iria encontrar a razo desse
facto, que ento veria  sua luz verdadeira. Os olhos da alma
vo-se pouco a pouco ennevoando no meio das trevas do mundo:
nesta atmosphera grosseira e corrupta ella resfolga a custo, e
com o diminuir dos alentos diminuem-se-lhe successivamente os
brios: cada dia lhe desfolha um affecto, lhe discute uma crena,
lhe mata uma esperana, lhe traz um desengano cruel. Entre o
espirito e o mundo partiram-se um a um todos os laos. Vs crdes
que a mente se definha, e ella apenas dormita para despertar
vigorosa ao sol da eternidade, que rompe atrs do sepulchro.

Tomae-me esse octogenario tonto que foi um alto engenho: cavae
no deserto do seu corao gasto e frio, e arrancae-me de l uma
daquellas paixes que ardem at o ultimo instante da existencia:
vibrae uma corda das que lhe davam na idade viril um som estridente:
dizei-lhe:--"teu filho querido foi arrastado ao tribunal como
criminoso; espera-o o supplicio se no houver uma voz eloquente
que o defenda: se ella se erguer ser salvo; e tu foste na mocidade
o mais eloquente dos homens!"--Dizei-lhe isto, e vereis esse
engenho, que crdes moribundo, atirar-se como um tigre ao meio
dos juizes, e achar toda a energia dos vinte e cinco annos para
defender aquella vida que a natureza ligou  sua pelas harmonias
mysteriosas da paternidade. Se as palavras, se o orgo extenuado
da linguagem no podr exprimir o pensamento daquella alma remoada
subitamente, o gesto, o olhar, os meneios substituiro a lingua, e
se cansados e debeis no bastarem  violencia da ida, o espirito
despedaar o quasi cadaver, e despedindo-se da terra provar
que, se dormitava, no se extinguia, e que, despertando, partia
o vaso fragil que j no o podia conter.

Tal  o destino da intelligencia neste breve desterro: dous dias
conserva as recordaes verdadeiras e puras da sua origem immortal:
outros dous alumia-se ao fogo fatuo das paixes e esperanas:
o resto delles revolve-se na lucta tormentosa das idas, dos
affectos, dos desenganos: depois vem o dormitar da velhice, e
a regenerao da morte.

Eu, que j vou quem do marco, onde comea o terceiro periodo da
vida humana, a ss s vezes com as minhas recordaes infantis,
ponho-me a comparar o aspecto prosaico e triste, que tem actualmente
para mim o universo, com as frmas suaves e poeticas em que elle
me apparecia involto nesses tempos dourados.  uma comparao
amarga; mas a saudade que encerra consola do seu amargor.

Hoje a lua no crescente alevanta-se ao anoitecer de um dia sereno
do estio, e estende o manto de lhama de prata sobre a face levemente
crespa das aguas: os seus raios, transparecendo por entre o
verdenegro das copas do arvoredo, que se balouam somnolentas,
descem tremulos sobre o cho pardo, e mosqueam-lhe a superficie
como um dorso de panthera. A virao tenuissima da tarde passa
e murmura um cicio quasi imperceptivel na folhagem. Em volta do
circulo alvacento que o luar esparge no ceu, scintillam algumas
estrellas no azul do firmamento, que parece o leito recamado de
saphyras em que se reclina a rainha da noite.

Ha quinze ou vinte annos uma tal noite tinha para mim um sem
numero de mysteriosas harmonias, que eu no sabia explicar, mas
que sabia sentir. Agora sei dizer-vos o que  a lua, a sua luz
refracta, a noite, a virao, o vulto das aguas encrespadas, as
estrellas, e as solides do espao; mas o que eu j no sei 
verter lagrymas de ineffavel contentamento, que se me escoavam
tepidas pelas faces ao contemplar as harmonias immateriaes e
intimas, que vagavam pela atmosphera tranquilla, como uns echos
longinquos de harpa angelica, tombando de astro em astro at
se derramarem na terra.

Dae-me uma nota s dos canticos que eu ento escutava; dar-vos-hei
em troca toda a minha estupida e inutil sciencia!

Mas essa epocha da vida no voltar mais, porque no pde retroceder
uma unica onda do rio impetuoso do tempo! Depois da taa do mel
esgotada resta a do absinthio. Que se resigne e espere aquelle
que vae devorando os dias da duvida e do desalento. Chegar a
hora de renascer para a poesia e para a certeza: ser a da morte.
A Providencia foi ainda generosa comnosco, consentindo-nos que
a espaos affastemos dos labios o calix do fel, e deixando que
nestes momentos rasguem o nosso longo e tedioso crepusculo alguns
raios transitorios de luz. A memoria  o instante de repouso,
e a saudade o claro suave que nos illumina.

Recordar-se--consolar-se.

       *       *       *       *       *



I

A ALDEIA E O PRESBYTERIO.


Uma das cousas que nas recordaes da juventude ainda espiram
para mim poesia e saudade  a imagem de um velho prior d'aldeia
que conheci na minha meninice. Hoje to bondosos, to alegres,
to veneraveis, ha-os por certo ahi, e muitos: eu  que no sei
conhec-los. A aurola, que ento rodeava as cans do sacerdote
ancio, desvaneceu-se pouco a pouco; desvaneceu-a a experiencia
do mundo, como tantas mil crenas e imaginaes de outr'ora!
Elle morreu j, por certo; mas vivo que fosse, eu no sentiria
ao v-lo, ao falar-lhe, aquella especie de alegria timida, de
confiana receiosa que nesse tempo o bom do velho me inspirava.
Parecia-me que estando ao p delle estava mais perto de Deus,
cujo valdo, por assim dizer, era o padre prior. No sabia o
sacerdote essa lingua que eu cria falar-se no ceu, o latim, que
ento era para mim cousa mysteriosa e sancta? No trajava s vezes
os trajos da crte celeste, o amicto, a casula, o pluvial, com que
estavam vestidos alguns vultos de anjos pintados em tres ou quatro
antiquissimos quadros do presbyterio? Quando nas suas practicas,
depois da missa do dia, narrava os gosos da bemaventurana, os
tormentos do purgatorio, e os tractos intoleraveis do inferno,
no juraria qualquer que elle j peregrinra largos annos alm
do sepulchro, ou que voz de cima lhe revelava tantas maravilhas
e to solemnes terrores? Evidentemente o velho clerigo estava
mais perto dos degraus do throno divino que toda a outra gente,
e, por me servir da linguagem politica, exercia em nome do cu
uma delegao na terra; era uma especie de _missus dominicus_ da
Providencia. E quando elle, apezar dos meus tenros annos, me
escolhia para acolyto, para estafar a poro de latim do missal,
que as rubricas inexoraveis subtrahiam ao seu imperio, sorriam-me
as esperanas, algum tanto vaidosas, de obter de Deus deferimento
s minhas pretenes infantis, como costumam sorrir ao requerente,
a quem deputado de grande conta mostra familiaridade na presena
de omnipotente ministro.

Hoje o latim do padre prior parecer-me-hia um tanto barbaro,
e talvez barbarissima a sua prosodia: nas vestes sacerdotaes
acharia os trajos romanos do imperio atravessando, immutaveis
como a igreja, por entre as transformaes da moda e do luxo;
nos quadros do presbyterio riria da ignorancia e mau gosto do
pobre pintor; e nas descripes das venturas e tormentos da outra
vida descubriria unicamente uma incarnao grosseira em imagens
materiaes das revelaes profundas do espiritualismo christo.
 que nesse tempo tudo me chegava aos olhos da alma alumiado,
risonho, variegado, porque tudo transparecia atravs de um prisma
de sete cres, da innocencia singela e credula da infancia; e hoje
tudo me parece como a folha que cahiu da arvore no outono, murcho
e desbotado, passando atravs da atmosphera nevoenta e triste da
sciencia e do orgulho. Ento o velho parocho affigurava-se-me
mais que um homem; hoje, na escala das desigualdades humanas,
provavelmente s acharia para elle um bem modesto logar.

A aldeia em que o bom do clerigo pastoreava o seu rebanho espiritual
estava assentada na falda de um monte, e pouco inferior a ella
dilatava-se uma veiga, que ao longe, l bastante ao longe, a
bater no mar. No alto da povoao ficava o presbyterio. Era a
igreja, segundo hoje se me affigura (e tenho-a bem presente)
daquelle gosto duvidoso entre a architectura christan que expirava,
e a da restaurao romana, que ainda se no comprehendia: era
um desses templosinhos construidos nos fins do reinado de D.
Manuel e durante o de D. Joo III, de que to grande numero resta
ainda pelas parochias de Portugal, e que so mais um argumento
de que os nobres conquistadores da India, donatarios das terras
e padroeiros das igrejas, no voltavam do oriente com as mos
vazias. A devoo nesses tempos era um objecto de luxo: edificar
uma igreja ou uma capella equivalia a ter hoje um camarote em S.
Carlos, ou um cocheiro com estrigas de linho na cabea e chapeu
triangular.

A portada da igreja, de arco tricentrico firmado em pilares
polystylos de meio relevo, era o mais claro testemunho da idade
provecta do presbyterio. A residencia parochial, originariamente
do mesmo estylo, estava j civilisada: uma porta rectangular
substitura a antiga. Esquadriadas estavam tambem as duas janellas
do sobrado de differentes dimenses, e affastadas uma da outra;
e nos seus postigos da esquerda via-se o moderno conforto das
vidraas. No quero dizer com este elogio  morada do padre prior
que a igreja tinha resistido, teimosa como um velho caturra, aos
progressos da civilisao. Pelo contrario. Estava mais alindada
ainda. Uma irmandade, ou no sei quem, que entendia na fabrica,
havia pintado de ochre tudo o que era pedra, de vermelho tudo
o que era azulejo. As camaras municipaes das grandes cidades,
os conegos das collegiadas e ss ainda no passaram do ochre;
e uma pobre irmandade da aldeia j tinha ha vinte annos vencido
a mta a que apenas hoje chegam o municipio e a cathedral.

O que, porm, escapou ao ochre e ao vermelho dos mesarios do
burgo foram dous seculares e formosos platanos que sombreavam o
portal do presbyterio: na febre amarella, que grassa to furiosa
pelo senso esthetico dos nossos magistrados populares e das nossas
dignidades ecclesiasticas, admira que tenha esquecido estender o
beneficio da caiadura gemada aos troncos rugosos e carrancudos
das velhas arvores, que rodeiam os edificios ou as praas. Verdade
 que todos os dias alguma desaba sob os golpes do machado. Isto
 melhor: mas porque no haveis de remoar as que vo escapando
com as lindezas e alegrias canonico-municipaes?

Bellos e veneraveis eram os dous platanos. O adro, cubriam-no
todo com as suas sombras fechadas, e s pela volta da tarde,
principalmente no outono,  que algumas resteas aafroadas do
sol no poente se estiravam por debaixo delles, e l am bater
frouxas no limiar da igreja puldo do contnuo perpassar, e na
porta de um vermelho desbotado, onde nesse tempo comeavam a
alvejar os remendos brancos com que as revolues converteram
os ditos dos templos em pelourinhos eleitoraes.

 entrada do adro alevantava-se uma grande cruz de madeira pintada
de preto, em cuja haste mos devotas tinham atado um ramo de
flores, e este ramo, no meio do qual havia um p de perpetuas, era
a imagem das vaidades do mundo ao redor da religio do calvario,
immutavel no meio dellas. As outras flores tinham-nas mirrado os
ardores do estio: s restavam do morto ramilhete as immarcessiveis
perpetuas.

Era n'um poial que servia de base  cruz, onde quella hora do
pr do sol o padre prior vinha muitas vezes sentar-se; e alli
estava tempo esquecido, ora alongando os olhos pelas solides
do mar, que l em baixo no fundo do extenso valle quebrava nas
rochas, ora traando attentamente na terra com a sua grande bengala
de casto de marfim diversas figuras, se geometricas no o sei
dizer, porque hoje no creio tanto na geometria do padre prior
como ento cria nas suas terriveis revelaes do outro mundo
tiradas do _Speculum Vitae_. O que, porm, eu sentia melhor do
que hoje, sem ento o saber explicar, era a suave e profunda
poesia que respirava esse quadro do velho sacerdote juncto do
symbolo religioso, quella luz moribunda da ultima hora do dia,
em que uma curta saudade melancholica vem como percursora da
noite pousar-nos sobre o corao. No o imaginava nesse tempo,
mas imagino agora por onde vaguearia a mente do velho clerigo em
quanto a bengala a d'um para outro lado cruzando linhas tortuosas
e incertas. Os ultimos instantes de moribundo, os quaes elle tinha
adoado com as consolaes da f; a esmola tirada da escassa
congrua para enxugar lagrymas de viuvas e de orphos; os conselhos
paternaes dados  mocidade, salva assim por elle de largos dias
de remorsos e amargura; os odios convertidos em perdo entre
inimigos; as dissenses domesticas pacificadas pela conciliao
do pastor; todo o bem, emfim, que por trinta ou quarenta annos
elle havia semeado na aldeia, desde as ultimas casinhas de colmo
que alvejavam caiadas na orla pallida dos campos at o altar
do presbyterio, fructificava talvez ante os olhos da sua alma,
n'esses momentos de extasi, em rica sera de esperanas, cujos
fructos enthesourava no cu. Depois, a cruz hasteada juncto delle
lhe viria lembrar o nada das diligencias que empregra, dos
sacrificios que fizera para verter algum balsamo de ventura nas
chagas dolorosas da vida; para remir da perdio as ovelhas
transviadas do pobre rebanho que lhe fra confiado. A cruz negra
no seu eloquente silencio contava-lhe sacrificios infinitamente
mais arduos que os delle, feitos, no em proveito d'uma aldeia
ou d'um povo, mas para remir o genero-humano. Por isso lhe via
s vezes deixar pender a fronte calva sobre o peito, e tomar-lhe
o rosto uma expresso singular, inexplicavel nessa epocha para
mim, mas que era o desalento que lhe gerava no espirito a terrivel
comparao das suas aces com as do Suppliciado do Calvario,
ao qual tomra por modelo, e que jurra imitar. Muitas vezes
espantava-me de que se conservasse assim engolfado em seus
pensamentos at que o sino das ave-marias o vinha despertar; e
na minha alegria da infancia, vendo-o to triste e carrancudo,
pensava comigo, que o padre prior se a tornando com a idade
tonto e aborrido. Todavia, era que o bom velho nesses momentos
de meditao volvia atraz os olhos para os caminhos da sua vida,
onde esperava achar alguns vestigios brilhantes de obras virtuosas;
mas esses caminhos, sumidos na penumbra da cruz, no os percebia
seno como uma nuvemsinha escura e duvidosa atravs da luz immortal
das virtudes e dos beneficios do Christo.

Ao tocar, porm, das ave-marias todas aquellas imaginaes
desconsoladas, se elle as tinha, como hoje creio, desappareciam
por um movimento habitual do espirito e do corpo; este para se
erguer, aquelle para orar. Sobraada a bengala, em p, com as
mos postas, segurando ao mesmo tempo entre ellas o seu chapu
de tres ventos, com a cabea um pouco inclinada para o cho, o
padre prior murmurava em voz baixa aquella to poetica orao do
despedir do dia. Os trabalhadores, que, voltando das fadigas do
campo, acontecia passarem por ahi nessa occasio, descobriam-se
tambem, e encostando-se ao ancinho ou  enxada punham as mos e
resavam at que o reverendo, acabando os latinorios, que elles
am repetindo em vulgar, lhes dizia:--Boas noites, rapazes, v
a cobrir."--E os ganha-pes cobriam-se, respondendo:--Guarde-o
Deus, padre prior:"--E partiam: e elle assentava-se outra vez a
olhar para o poente, onde o sol, que se affundra no mar, deixava
entre si e a noite, precipitando-se aps elle das alturas do
cu, uma barra de vermelhido e ouro, que se estirava para um
e outro lado do horisonte como tentando embargar o caminho s
trevas. E alli estava scismando at que a tia Jeronyma alava
meia adufa de uma janella baixa, que dava claridade  cozinha,
e o chamava para a ceia, ao que promptamente obedecia, porque
cumpre advertir que o padre prior no s respeitava  carga cerrada
todas as tradies do catholicismo romano, mas tambem a sabedoria
tradicional do povo, que neste capitulo de ceia resa que deve
ser comida sem sol, sem luz, e sem moscas, momento fugitivo do
expirar do dia, que no consta deixasse jmais passar por alto
a boa da tia Jeronyma.

Nunca me ha-de esquecer aquella hora na aldeia, a luz crepuscular
da atmosphera, as gelosias dos aposentos inferiores da residencia
parochial, e a sancta velha da tia Jeronyma que teria proporcionado
mais um capitulo a Chateaubriand sobre a poesia das usanas
christans, se esse illustre escriptor houvesse uma vez saboreado
as filhs que ella compunha para celebrar o Carnaval;--e os seus
bolos da Natividade--e a sua lha e o seu anho assado da Paschoa.
No!--Saudades de tudo isso, durante a minha vida inteira, em
qualquer fortuna, no meio das mais graves cogitaes, nunca hei-de
affastar-vos impaciente quando vierdes, como creana travessa,
baralhar-me um periodo de trabalhada prosa, ou aleijar-me com um
verso parvo uma estrophe soffrivel. Vinde, meus amores antigos,
que para vs esta fronte no saber arrugar-se; esta bca no
ter esses monosyllabos duros e gelados com que se repellem
importunaes d'indifferentes. Vinde, e demorae-vos comigo, e
palrae por uma hora, por um dia, por uma semana, que vos escutarei
sempre sorrindo; e quando fr ao sol posto, que os ouvidos da
minha alma vos ouam reproduzir vivas, harmoniosas, melancholicas
as lentas badaladas das ave-marias, no como agora as ouo s
vezes no meio do rudo confuso, aspero, estridente do povoado,
mas partindo da aldeia ainda deserta dos seus moradores, rolando
pela veiga, espriguiando-se pelo prado, rumorejando pelas quebradas
da encosta ou pelo pinhal do cabeo, e indo morrer l muito ao
longe nas toadas duvidosas de uma cantiga de lavadeiras, ou no
tinir das esquillas de um rebanho de ovelhas, que se encaminham
pra o aprisco ao sibilar do pastor. Repeti-m'as assim, puras,
campestres, vibradas n'um ar puro e sonoro, livres por um horisonte
immenso, e ter-me-heis despertado um affecto consolador, o qual
valer mais que todas as ambies, que todos os contentamentos,
que todas as esperanas do mundo.

Tem-se discutido os sinos, como se discute quanto ha no universo.
Desde a existencia objectiva ou material deste mundo at a
legitimidade do chocalho pendurado ao pescoo da cabra retouando
pelas ruas de qualquer capital, que resta ainda ahi para se lhe
trazerem  praa os prs e os contras? Das definies possiveis
do homem uma s  verdadeira: o homem  o animal que disputa. Os
sinos tem tido amigos e inimigos: e porqu? Pela mesma razo
porque sobre tudo ha duas opinies contradictorias.  que tudo
tem duas faces diversas. O vento sul  meigo para a arvore que
veceja no recosto septentrional da montanha, e aoute da que
vegeta no pendor opposto: o norte  o supplicio da primeira,
e grato para a segunda. N'isto est cifrada a historia das
contradices humanas.

Os sinos, collocados em campanario de parochia aldeian, ou de
mosteiro solitario, so uma cousa poetica e sancta: os sinos,
pendurados nas torres garridas de garridissimas igrejas das cidades
de hoje, so uma cousa estupida e mesquinha. O sino  um instrumento
accorde com as vastas harmonias das serras e dos descampados.
Assim como o orgo foi feito para reboar pelas arcarias profundas
de uma cathedral gothica, para vibrar na atmosphera mal alumiada
pelas frestas estreitas e ogivaes, do mesmo modo o sino foi
perfilhado pelo christianismo para convocar os seus humildes
sectarios occupados nos trabalhos campestres. Quando se associou
o sino ao culto? Ignoramo-lo: ignoramo-lo, porque foi a religio
serva e perseguida que o sanctificou: e quando os poderosos da
terra a acceitaram para si, ento entrou elle nas cidades soberbas.
L converteu-se n'uma cousa insignificante e impertinente.  mais
um rudo intoleravel para ajunctar aos outros rudos discordes
que troam por essas ruas e praas. O sino, tornado corteso e
fidalgo,  semelhante ao orgo trazido para o aposento do baile,
ou, o que vale quasi o mesmo, para essas salas ao divino, bonitas,
vaidosas, douradinhas, que insensatos edificam para as admiraes
de parvos.

E com estas digresses esquecemo-nos do padre prior. No importa.
Deixa-lo ceiar em paz, e resar o breviario. Eram estas, entre
outras, duas phases graves e srias de todos os seus dias. Depois,
emquanto a velha Jeronyma punha em ordem a casa, elle pegava
em um livro da pequena estante que lhe ficava  cabeceira, e
lia ou uma lenda pia do Flos-Sanctorum de Rosario, ou um tracto
d'aquellas grandes historias de Fr. Bernardo de Brito, at que o
somno tranquillo de uma boa e san consciencia, apertando-lhe com
os dedos rosados as palpebras, o entregava aos sonhos placidos
que s a alvorada vinha interromper, quando o perigo imminente de
alguma das suas ovelhas o no obrigava a erguer-se alta noite,
ao som do resmungar malsoffrido e, at certo ponto, impio da
tia Jeronyma. No horisonte limpo e sereno destas duas vidas
innocentes, destes Philemon e Baucis celibatarios, que amparados
um no outro am peregrinando contentes para o sepulchro, havia
um ponto negro e triste. O rendimento da parochia no consentia
que o padre prior _possuisse_ essa especie de ilota _in sacris_, de
servo de gleba sacerdotal, chamado o padre cura. As ventanias,
as chuvas, as noitadas atravs das serras revertiam como a congrua
e os benesses em beneficio, seno do corpo, ao menos da alma do
reverendo prior.

A sua congrua era maravilhosamente estitica: o grosso dos dizimos
da parochia, jogava-os  risca todas as noites em tertulias um
digno commendador no sei de que ordem. Ai, que a extinco dos
dizimos foi a morte da religio!

       *       *       *       *       *



II

NOITADAS PAROCHIAES.


A vida do velho prior passava na verdade dura e trabalhosa! Como
todas as cousas deste mundo, o egoismo da tia Jeronyma no era
acabado e completo, ou, para falarmos em estylo de philosophia
fidalga, no era absoluto. O limitado e imperfeito  o signal
que o Creador estampou na fronte do homem e na face da terra
para nos recordar a todo o instante a nossa origem;  a barreira
que elle alevantou diante d'este grande mysterio de energia e
de audacia chamado a intelligencia. Sabedoria, fora, paixes,
affectos, tudo tem um horisonte commensuravel; horisonte para as
virtudes como para a dor. O espirito mede e abrange o que ha mais
vasto e profundo, os ermos, os mares, o corao humano; porque ao
cabo d'isso tudo est o finito. Immensa, eterna, absoluta s ha
uma ida, que est fora do universo. Esta  a ida de Deus.

Por isso, grande  somente Deus!

Mas dizia eu que o egoismo da tia Jeronyma era incompleto: digo
mais; era incompletissimo. Quando o sacristo vinha alta noite
quebrar o dormir risonho e variamente resonado do padre prior;
quando  voz roufenha do ostiario aldeio, despertando o pastor
para ir levar as consolaes extremas  ovelha moribunda, e tira-la
l, porventura, dos dentes e garras do co tinhoso, se ajunctava o
trovejar ao longe da tempestade, o fustigar da chuva nas vidraas
progressivas das meias janellas, e o ramalhar da ventania nos
dous platanos do adro, era sem duvida que o resmungar da tia
Jeronyma, apparecendo da banda da sua pocilga com a candeia mortia
na mo e as roupinhas vermelhas do envez, tinha o que quer que
fosse repugnante e vil. A boa da velha pensava, acaso, que a
morte no seria to descortez que negasse ao espirito do pobre
moribundo o tempo necessario para poder, ao abandonar o corpo,
subir como chammasinha tenue, e galgar para o cu sobre um raio
do sol nascente? Pde ser que sim. No seria, porm, antes, que
ella preferisse o deixar frigir por alguns seculos nas caldeiras
do purgatorio aquella pobre alma christan, largando a sua veste
mortal sem os ultimos sacramentos,  necessidade de erguer-se
por noite fria e tempestuosa para tomar nos hombros uma parte
da cruz do ministerio parochial? Tambem isto pde ser. O que
se passava no abysmo da sua consciencia cousa era que ella no
revelava a ninguem; mas em todo o caso era um pensamento egoista.

Todavia  preciso confessar que com elle se misturava um sentimento
puro e nobre: dizia-o esse cuidado pressuroso com que a tia Jeronyma
trazia as botas de cr terrea, o berneo de saragoa, o capote de
barregana, o chapeiro oleado, e a aguardente de ginjas, sem um
copo da qual o prior no ousaria transpr o limiar da porta, e
investir com as furias da noite procellosa: diziam-n'o a atteno
com que mirava se elle a agasalhado, e as mil vezes repetidas
ponderaes hygienicas, que lhe fazia com admiravel volubilidade
de lingua. A affeio da sancta velha mostrava-se em tudo isso
viva e sincera; e o seu resmonear, que no meio das idas e das
voltas, e do perguntar e do responder, a rareando e abatendo como
o assobio do furaco pelo valle, perdia gradualmente a expresso
de egoismo, e convertia-se pouco a pouco na de um pensamento
moral.

E o padre prior calado!--Calado enfiava as botas; envergava o
gabinardo; cobria-se com o capote; punha o amplo sombreiro; enchia
um copinho do excellente cordial que a boa da ama lhe havia posto
diante; virava-o d'um golpe; fazia uma visagem fechando os olhos
com fora e estendendo os beios; dava um estaldo com a lingua
no cu da bca; exprimia o intimo conforto que n'elle gerra
o ethereo licor com um brrahhh prolongado; estendia a pequena
taa, cheia de novo, ao sacristo, que, mestre nos estylos de
cortezia, se curvava formando com o corpo um angulo obtuso de
noventa e cinco graus, despresadas as fraces, e arqueando o
brao para levar o copo  bca sequiosa, como se curva e arqueia
um peralvilho de guedelhas sansimonianas e miolos de agua chilra,
ao conduzir em sala de baile a deusa dos seus affectos de vinte
e quatro horas ao meio do turbilho doudo e (perdoe-se-nos a
blasphemia) um tanto parvo das valsas e contradanas.

Depois duas palavras magicas saam da bca do reverendo pastor:--"At
logo!"--O seu effeito era instantaneo: o sacristo, pegando n'uma
lanterna, com as chaves da igreja na mo encaminhava-se para
o adro seguido do padre prior: a tia Jeronyma fechava a porta
aps elles; e o tentador, como se estivesse esperando por esse
momento, travava-lhe novamente do espirito, e o resmoninhar da
impaciencia recomeava em breve, acompanhado do ranger do linho na
roca, e do espirrar da candeia a espaos, e do respiro asthmatico
do nedio gato do presbyterio, que, enroscado na lareira, abria
de quando em quando os olhos amortecidos, e cerrava-os logo com
philosophica indifferena, emquanto a tia Jeronyma esperava por
seu velho amo, e se lhe apertava o corao sentindo o temporal
que passava l fra, e lembrando-se de que o enfermo poderia ter
guardado para hora mais decente e commoda a agonia do passamento.

E pela serra fra, caminho de casal remoto, vae o velho prior:
adiante o sacristo com a lanterna e a ambula da extrema-uno,
e elle atrs com o ciborio. As poas de agua reflectem essa debil
claridade que as alumia, e fazem um continuo plach, plach, debaixo
dos ps dos dous caminhantes, cujo passo apressam as cordas de
chuva batida pelos furaces do sudoeste. Os pinheiros balouando-se
gemem tristemente, e os enxurros, estrepitando pelos corregos,
tiram com o pinhal uma toada soturna.

No cu profundamente negro no apparece uma estrella: na terra
ao longe, bem ao longe, no se descortina uma luz. A natureza
debate-se comsigo mesma: tudo dorme, entretanto, nos casaes e
na aldeia, salvo o velho parocho e a familia daquelle que em
trances mortaes espera o representante do Christo, que lhe traz
as derradeiras consolaes e esperanas. Entre a philantropia
humana e as agonias extremas dos pequenos e humildes a noite e a
tempestade ergueram uma barreira quasi insuperavel: esta barreira
desapparece, porm, diante da caridade que a todos nos ensina o
Evangelho, e que ao parocho impem como dever imprescriptivel
a sua misso sacerdotal e o seu caracter de pae dos pobres e
affligidos.

A esta mesma hora, em que o velho prior assim vagueava por sendas
alpestres exposto s inclemencias de noite invernosa, talvez em
aposento bem resguardado, no fim de ceia brilhante, entre as
taas cheias de vinhos generosos, no meio de mulheres formosas e
voluptuarias, embriagado em todos os deleites dos sentidos, algum
famoso espirito forte cirzia remendos das paginas soporiferas
d'Holbach ou de Diderot, e dissertava profundamente sobre a
mandriice, egoismo e cubia do clero, ou carpia a superstio
do povo, que, para ser completamente feliz de nada mais precisa
do que de abandonar as crenas do christianismo e de amaldioar
as esperanas de Deus, o conforto unico da sua vida de miseria,
de trabalho e de amargura. E naturalmente os neophitos daquella
triste philosophia extasiavam-se em redor do sabio philantropo,
que, impando de iguarias delicadas, de vinhos custosos, e de
grossa sciencia, s lamentava a ignorancia daquelles a quem muitas
vezes faltava ento, falta hoje, e faltar de futuro um bocado
de po negro para matar a fome; extasiavam-se alli diante da
sensualidade e bruteza de um insensato vanglorioso, emquanto
a virtude do velho clerigo, exercitada nos desvios dos montes
e no silencio da noite, no tinha por testemunhas seno um cu
humido e cerrado, e o vulto impetuoso e bramidor da ventania;
mas que, em vez das lisonjarias de parvos, tinha para o applaudir
a voz sincera, consoladora e sancta da propria consciencia.

Havia, porm, no fim de tudo, uma differena entre o homem do
evangelho e o da falsa sciencia. Era o systema das compensaes.
O padre prior, depois de cumprir com o seu dever, voltava ao
presbyterio tranquillamente: tirava o capote alagado, despia o
gabinardo felpudo, sacudia a uma distancia razoavel as ponderosas
botas, e enfiando-se entre os grosseiros lenoes, atava o fio do
somno no ponto em que o deixra; e emballado brandamente por
sonhos apraziveis, s acordava sol nado e alto, ao bradar da
tia Jeronyma, e ao cheiro da aorda fumegante; almoo que, como
tudo o que era consagrado pelos seculos e pela tradio, elle
profundamente respeitava.

E o nosso philosopho? O nosso philosopho, recolhendo-se alta
noite, a todo o caminho provando a si mesmo que no ha diabos no
mundo, nem almas, nem talvez Deus; mas sentindo arripiarem-se-lhe
os cabellos ao vr danar a phosphorescencia d'algum marnel,
rezando o credo em cruz ao passar por algum cemiterio, benzendo-se
ao ouvir piar algum mocho. E depois de se deitar e adormecer
sonhava.... Em qu? Nas combinaes infinitas da materia eterna
de que deve, _segundo as boas doutrinas_, ter rebentado o universo?
No! Sonhava com as penas do inferno; e ao acordar pela manhan
com defluxo, pedia confisso e sacramentos.

J l vo vinte annos! Bom tempo era esse, ao menos para mim,
que ainda nem sabia da existencia do animal chamado philosopho,
classificavel entre os _rodentia_, pelo medroso e damninho. Em
vinte annos que voltas tem dado o mundo! Aquella especie vae-se
acabando de todo. Auctores de comedias apressae-vos! Antes que
se perca o typo, levae o incredulo ostentoso  scena. Dae-nos
algumas noites de rir doudo e inextinguivel.

Os dias do padre prior corriam assim placidamente para o seu viver
intimo, posto que o duro mister de parocho lhe entenebrecesse
muitas vezes os horisontes da vida material. E que importava,
se todos na aldeia lhe queriam bem; se todos o acatavam como a
summa bondade, e o que no era menos, como a summa intelligencia
da parochia? At o barbeiro, o proprio barbeiro, homem entendido
e grave em materias de eloquencia sagrada, no constava houvesse
jmais torcido o nariz s praticas e sermes do padre prior, que
elle, com a mo sobre a consciencia, punha acima dos melhores de
frei Timotheo, um fradalho arrabido, cousa brava em gritarias ao
divino, que por via de regra se incumbia das domingas de quaresma
naquella freguezia e nas circumvizinhas com acceitao e applauso
universal do auditorio, mas cuja fama era offuscada pelos periodos
singelos do velho sacerdote, repassados de unco, e daquella
eloquencia de missionario, que, apesar de rude, l vae fazer
vibrar o corao do povo, afinado pela crena viva, como a harmonia
que se tira das cordas de dous instrumentos accordes.

Agora por isso, o que ser feito de frei Timotheo?! Era naquelle
tempo um frade guapo e alentado! O que ser feito delle? Se ainda
vive, tiraram-lhe o burel e a corda de esparto, o seu capital;
venderam-lhe o convento, o seu tonel de Diogenes; prohibiram-lhe o
capuz e as sandalias, o seu direito inauferivel de andar trajado como
lhe aprouvesse; e mandaram-no, desarmado de tudo isso, pedir para o
mendigo a esmola que se dava ao burel, ao esparto, ao convento, ao
capuz e s sandalias. Bom passaporte para frei Timotheo transitar
pela valla plebea do cemiterio nos braos morbidos e suavissimos
da fome! Foi um progresso de civilisao, que se completou pelo
lado moral com o augmento das loterias, das casas de cambio, e
das traduces de novellas e dramas francezes. Bemaventurada
a to esperta nao que assim comprehende o progresso!

Duas cousas, porm, mais que as prticas e sermes, serviam para
engrandecer e glorificar o padre prior, no s diante dos homens,
mas tambem diante de Deus. Era a primeira o incansavel zlo com
que se applicava a apaziguar as rixas, a estabelecer a concordia
domestica, a prgar o trabalho, a guerrear a embriaguez, e sobretudo
a sanctificar pelo casamento as affeies illicitas: era a segunda
o fervor modesto e o innocente luxo com que procurava celebrar
as festas religiosas, principalmente a de S. Pantaleo, orago da
freguezia, e de quem tanto os aldeies como o velho presbytero
criam affincadamente possuir o metacarpo da mo direita, o qual
devia ser de outro sancto, ou no-sancto, se acreditarmos (eu c
pela minha parte acredito) os parochianos da s do Porto, que
se gabam de ter debaixo de chave S. Pantaleo _in totum_, sem lhe
faltar dedo de p nem de mo, quanto mais um metacarpo inteiro.

       *       *       *       *       *



III

UMA ESCORREGADELA.


A proposito do que o padre prior era de casamenteiro ainda me
lembra uma velha viuva, a senhora Perpetua Rosa (Deus lhe fale
na alma!) que morava ao cabo do logar n'uma barraquinha  beira
do rio muito caiada, com seu rodap de vermelho, e sombreada
por cinco ou seis choupos que nasciam da agua. Tinha ella (a
velha, no a barraquinha) uma filha, formosa rapariga, chamada
Bernardina. Era uma das leiteiras mais desenxovalhadas de que
se gabavam os arredores de Lisboa: bonita, que no havia mais
dizer: alva como toalha de freira, airosa como pinheirinho de
quatro annos. Uns poucos de rapazes da aldeia andavam doudos
por ella. Nas noites dos domingos, em que havia dana e viola na
casa da brincadeira[1], a tia Jeronyma, que era capaz de espreitar
este mundo e o outro, mirando da sua rotula o que se passava 
entrada da rustica sala do baile, pouco distante do presbyterio,
notava que, apenas a Bernardina apparecia, os rapazes entravam
aps ella com muita mais furia e pressa do que pela manhan haviam
corrido para a igreja ao ultimo toque da missa do dia. Antes
d'isso j a boa da velha tinha reparado no modo por que elles
se encostavam aos cajados para lados oppostos, em frente uns dos
outros, nos motejos do cantar ao desafio, no pr dos barretes
 banda, nos olhares que mutuamente se lanavam, no pegarem em
seixos e atirarem-nos a grande distancia a modo de competencia, sem
dizerem palavra, como se cada um quizesse mostrar aos seus rivaes
a robustez do proprio brao. D'isto tudo tirava a tia Jeronyma
agouro de muita pancadaria,--"por amor daquella delambida--dizia
a ama do prior em suas caridosas murmuraes--que anda toda
arrebicada por baralhotas, em quanto a pobre da me moureja todo
o sancto dia ao sol e  neve naquelle rio, para ganhar um bocado
de po sem vergonha da cara. Havia de ser comigo!"

E o mais  que a tia Jeronyma no se enganava nas suas previses.
Chegou vespera de Reis: houve  noite brincadeira ou baile
extraordinario: passou-se ahi tudo na melhor ordem: riu-se, tocou-se
viola, danou-se, cantou-se ao desafio, e cada qual se recolheu
a esperar entre os lenoes os sanctos _Reis magnos_, designao
popular dos magos do Oriente, cuja vinda a Bethlem se memora
na Epiphania.

Houve, porm, nessa noite um saloio mais cortez, que esperou
vestido e ao relento, no caminho da serra, a vinda dos tres sanctos
personagens. Foi o Manuel da Ventosa, estendido com uma tremebunda e
magnifica massada, de que esteve ido, a ponto de dar ao padre prior
uma daquellas noitadas que suscitavam a colera da tia Jeronyma,
e de que j acima fiz honrosa e especifica meno.

O Manuel da Ventosa era filho unico d'um moleiro ricao, chamado
Bartholomeu, velho honrado, mas avarento como seiscentos Satanses.
Teve a ventura (o rapaz, entende-se) de car em graa  Bernardina.
Amoricos d'aqui, amoricos d'acol, janella na cara a um, respostas
tortas a outro, segredar e rir de vizinhas, raivas de desprezados:
somma total--zs, uma sova mestra no Manuel da Ventosa, por ter
tido a negregada dita de merecer a preferencia daquella que era
o enlevo de todos os coraes.

Mas enganaram-se. O amor redobrou com o sacrificio; os desprezos
cresceram com a vingana. O que comera por passatempo converteu-se
em paixo violenta: um fogo ntimo devorava a alma de Bernardina,
e desbotava-lhe as faces, d'antes to frescas e rosadas como
as de um seraphim da peanha da Senhora da Conceio, obra de
esculptor insigne. No Manuel da Ventosa, isso no falemos: quando
melhorou da _doena_ andava entre parvo e abstracto: attribuia-o o
licenciado dos sitios a depresso cerebral produzida por alguma
ripada nas vertebras; mas, se existia depresso de cerebro, outra
era a sua origem. Certa mulher de virtude que havia na aldeia
jurava e tresjurava que o moo moleiro tinha a espinhela cada.
Historias. Eu, apesar de ser ento uma creana, sabia bem onde
batia o ponto; por isso nunca fui para ahi.

Por encurtar razes: os dous amavam-se como loucos. As pessoas
desinteressadas achavam-nos um par completo; e com bom fundamento:
o Manuel da Ventosa era um galhardo mancebo, unico herdeiro de
ginja abastado, e Bernardina uma rapariga honesta. As beatas da
aldeia, s quaes, conforme a direito, incumbia pr ao soalheiro
a vida privada de cada uma, no capitulo da honra nunca se tinham
atrevido a ir devassar a barraquinha de Perpetua Rosa. Podia a
senhora Perpetua Rosa gabar-se dessa! E de feito, muitas vezes,
mettida no rio at os joelhos, em discusses acaloradas com as suas
illustres amigas, as outras lavadeiras pelo circulo de Lisboa,
a ouvi empraza-las para que formulassem precisamente certas
interpellaes infundadas, rejeitando com desprezo alguns remoques
bernardos relativos a Bernardina, e appellando para a opinio
do paiz representada pelos seus orgos, as beatas do soalheiro.

Mas se os dous se amavam com tanto extremo, e eram feitos e talhados
para puxarem o mesmo carro matrimonial, porque no am pedir
ao padre prior o _conjungo vos_? Ahi  que certo animal torcia
certa parte do corpo, que eu e o leitor sabemos. Por no terem
pedido esclarecimentos sobre o facto  que as lavadeiras faziam
declamaes vagas.

Eis o caso: o Bartholomeu da Ventosa era rico e avaro; mas
bestialmente avaro: Perpetua Rosa pobre, pobrissima. Por mal
de peccados fra ella antigamente lavadeira do casal do moinho,
ou antes dos moinhos, porque para a exaco historica deve-se
advertir que o moleiro possuia dous. Uma vez, que levra grande
poro de roupa, tinha perdido tres saccas velhas e rotas.
Bartholomeu quando tal soube quiz morrer.--"Juro por esta--dizia
elle esbravejando e beijando os dous dedos indices cruzados sobre
a bca:--juro que Perpetua Rosa me ha-de pagar as minhas tres
saccas novas em folha, que me perdeu, a desalmada!"--Mas nem
novas nem velhas; porque a verdade era que ella no tinha com que
as pagasse. Forado foi, portanto, ao moleiro fartar a vingana
com ordenar-lhe que no lhe tornasse a rapar os ps  porta. Desde
este fatal dia nunca mais Bartholomeu da Ventosa pde encarar com
a lavadeira: o seu odio vivia involto e aquecido na imagem das
tres saccas gravada naquelle corao de avarento. Assim para elle
seria cousa monstruosa e abominavel s o imaginar a possibilidade
de seu filho Manuel casar com Bernardina, a quem a pobreza fra
de sobra para impedimento dirimente, quanto mais o ser filha de
semelhante me. Tal era a difficuldade insuperavel que se oppunha
 unio dos dous amantes.

E os mezes am passando, e as murmuraes crescendo, e saltando
j das lavadeiras para as beatas. Tinham visto mais de uma vez
(dlzia-se: valha a verdade) o moo moleiro rondando a deshoras
a barraquinha da beira do rio. Havia tambem quem dissesse que
nas madrugadas de alguns domingos, quando a senhora Perpetua
Rosa saa para a missa das almas, se enxergava ao lusco fusco
um vulto, que, cosendo-se com os choupos, se aproximava da porta
da Bernardina, e... e etcaetera. Era muito vr! Mas a cousa a
correndo, e no fim de contas quem ganhava com essas historias
eram as linguas dos maldizentes, que se refocillavam na palangana
da murmurao, e o diabo que se lambia para, por estas e por
outras, os catrafilar a seu tempo.

Veio a quaresma: sancta quadra; mas que por isso mesmo  s vezes
boa de mais. Desobriga vae, desobriga vem, sabe-se muita cousa.
O padre prior andava j com a pedra no sapato; porque elle no
era cgo nem mouco. Meu dicto, meu feito. Certo dia (por signal
que era uma sexta-feira), quando o sacristo veio abrir a porta
da igreja, estavam j no adro  espera Perpetua Rosa e Bernardina
para se confessarem. No tardou o prior. Aviou-se a me: ajoelhou
a filha: persignou-se, benzeu-se, disse _mea culpa_, e comeou
sua confisso.

Se isto fosse uma historia de polpa, cortesan e culta, viria neste
ponto o _casus foederis_ de eu tomar a postura tragica a la moda,
carregando as sobrancelhas, e dizendo em tom soturno e lento:--"O
que ahi se passou entre o veneravel ancio e a donzella ninguem
o soube!--!--!--!--Mysterio!--!--!--! Acontecimento horrivel e
fatal!--!--!--! As lagrymas ardentes do velho caram sobre a
cabea da infeliz ajoelhada a seus ps, cujo futuro (no o dos
ps, mas o da infeliz) era de maldico!--!--!--!" Limitada,
porm, a minha narrativa a chan e pleba recordao de um pobre
parocho d'aldeia, reflectirei em summa, que me no  licito revelar
o segredo do confessionario. Os sigillistas j deram que fazer
ao marquez de Pombal, cuja consciencia, como todos sabem, era
delicadissima em materias de orthodoxia catholica, e em tudo.
Calo-me, porque no quero car no erro que elle condemnou. Direi
s que foi mui demorada a confisso de Bernardina, e que, ao
alevantar-se d'ante os ps do prior, ella trazia os olhos como
punhos: e digo-o, porque o viram os circumstantes, a saber, o
sacristo e a senhora Perpetua Rosa, que devotamente a descabeando
a penitencia em quanto a filha se desobrigava.

Ao sol posto desse mesmo dia o prior espairecia a vista pela veiga
coberta de verdura, assentado no cruzeiro, segundo o seu costume.
A brisa da tarde era fria e aguda, porque a primavera comeava
apenas; mas o velho parocho parecia no a sentir, embebido em
cogitaes; e to fundas am estas, que, em vez de traar na terra
com a bengala as usuaes figuras geometricas, ou anti-geometricas,
conservava-a immovel e perpendicular, com as mos cruzadas sobre
o casto, firmando a barba em cima. Conhecia-se-lhe no olhar e no
mecher tremulo dos beios, que algum grande cuidado o inquietava.
E tanto assim, que nem reparou nos tres signaes das ave-marias,
deixando-se ficar sentado, e at, oh profanao! com o chapeu
na cabea. Felizmente no passava ninguem naquelle momento, que
podesse notar a involuntaria irreverencia do distrahido pastor.

Mas um vulto assomou l ao longe, e os olhos do velho brilharam
como animados por vida nova. Quem quer que era descia do monte,
e vinha para a banda do rio. O caminho passava perto do adro:
o prior ergueu-se, estendendo a mo, e brandindo a bengala na
direco do vulto.


"Oh Manuel! psio, Manuel! chega  fala! Oh rapaz!"

O filho do moleiro (porque era elle) hesitou um pouco. Alguma
cousa lhe roa na consciencia. Mas vendo o prior em p com ar
de quem estava resolvido a ir atravessar-se-lhe diante, cortou
para elle com o barrete azul e vermelho na mo.

"Boas tardes, padre prior: quer alguma cousa?"

"Quero que voc chegue aqui, porque temos que falar."

O tom com que estas palavras foram proferidas, e mais que tudo
aquelle _voc_, fizeram estremecer o Manuel da Ventosa. O prior
tractava todos por tu, e o voc na bca delle era presagio infallivel
de temporal.

O rapaz parou diante do velho com os olhos cravados no cho,
torcendo e destorcendo a orla do barrete que tinha entre as mos.
O padre prior mediu-o de alto a baixo, e comeou _ex abrupto_:

"Ento que historias so estas da Bernardina, s velhaco da conta
benta? Sabe o que fez, grandessissimo tractante? Aonde foi voc
aprender isso? (Esta pergunta era asnatica).  a doutrina que
eu lhe ensinei em pequeno? De que tem servido os exemplos de
modestia e honra que lhe d seu pae? De ser um vado, um seductor,
um... Deixe estar: a cadeia no se fez para as aranhas, e elrei
nosso senhor (o bom do parocho puxava em politica para a eschola
historica) ainda no mandou queimar a nu de viagem..."

"Eu, padre prior... como lhe a dizendo--interrompeu atarantado
o saloio, coando na cabea, e procurando atar o fio das suas
idas inteiramente confundidas.

"Cale-se; no me responda:--proseguiu o velho parocho, achando
talvez pouco cinco perguntas para ouvir uma resposta.--Diga-me:
que tenes eram as suas enganando uma rapariga honesta?"

"Eu..."

"No me replique; j lh'o disse. Lembre-se de que  o seu pastor
que lhe fala. Ahi est porque voc ainda no veio desobrigar-se.
Pensava que, por ella ser miseravel e sua me uma triste viuva,
no tinham ninguem neste mundo? Enganou-se. Tem-me a mim. Saiba
que a poder que eu possa ha-de r bater com o costado na India,
ou casar com a Bernardina."

Aqui o pobre rapaz atirou-se de joelhos a chorar aos ps do velho,
e exclamau soluando:

"E  isso o que eu quero!... Juro-o por aquella arvore da bella
cruz que alli est..."

"Vera cruz, salvage! vera cruz!--interrompeu o prior, visivelmente
abrandado com o pranto, humildade, e declarao categorica do
moo moleiro.

"Mas, como eu a dizendo--proseguiu este--por'mor daquella diabrura
das saccas meu pae no pde tragar a senhora Perpetua Rosa. Se lhe
falasse em tal, fazia-me os ossos to miudos como a picadura da
m. Se a Bernardina tivesse dote, ainda talvez elle consentisse...
Mas sem isto; bem lhe sabe do genio. Se o padre prior podesse
adivinhar o que me tenho ralado, havia de ter d de mim. No
como, no durmo, ando doudo. No basta a massada que gramei...
Ahn! ahn! ahn!"

Chorava em berreiro, e o chro no o deixava continuar. As lagrymas
comearam tambem a bailar nos olhos do prior, que ficou por alguns
momentos pensativo.

"Levanta-te, rapaz dos meus peccados:--disse elle por fim, puxando
pelo brao do moleiro.--Vamos; confessa a verdade: ests arrependido
do que fizeste?"

"Estou, sim senhor! Ahn! ahn!"

Nesta parte, apesar do chro e soluos, parece-me que o saloio
mentia.

"Promettes casar com Bernardina, se teu pae consentir?"

"Prometto, sim senhor! Ahn!"

"Ora, pois, socega, e no chores. Deixa o caso por minha conta.
Volte para casa, e no me torne a rondar pela beira do rio. Entende?
Olhe que!..."

O prior estendeu a bengala para o lado dos moinhos, que assobiavam
l no alto, e Manuel da Ventosa voltou cabisbaixo e a passos
lentos pelo caminho por onde viera. Sentia confusamente que se
aproximava a crise mais temerosa da sua vida.

Ento o padre prior assentou-se outra vez no poial do cruzeiro,
e recau em profunda meditao. Depois de um bom quarto de hora,
poz-se em p e encaminhou-se para o presbyterio. Tinha anoitecido.
De memoria de homens nunca ceira to tarde!

E andando, o velho sacerdote repetia aquellas palavras do livro
de Job, onde, entre parenthesis, ha mais philosophia que n'um
aduar inteiro de philosophos:

_Nudus egressus sum de utero matris meoe, et nudus revertar illuc_[2].

O porque o dizia, bem o sabia elle! Ceiou sem dar palavra: resou
o breviario: deitou-se, e apagou o candieiro. Contra o costume,
Fr.

Bernardo de Brito e Fr. Diogo do Rosario ficaram aquelle sero
na estante. A ama sentiu-o assoar-se, tomar tabaco, e escarrar
at muito tarde. Cousa rara! signal evidente de que tinha negocio
de vulto, que lhe embargava o dormir!

Peior foi pela manhan. Apenas luziu o buraco, o padre prior saltou
da cama; calou os sapatos engraixados; vestiu a loba nova; pediu
o chapeu de tres ventos, a bengala de casto de prata, e os oculos
fixos, que s punha em dias de missa cantada, e disse  ama que
se aviasse com o almoo, porque tinha de sar cedo.

Emquanto a tia Jeronyma, para maior brevidade, fazia umas papas
de milho, o prior abriu um contador enorme, destes que os nossos
grandes amigos inglezes nos vo agora levando em logar de vinho
do Porto, tirou para fra uma folha de papel almasso, e bradou:

"Jeronyma! oh Jeronyma!"

A velha chegou ao corredor da cozinha com o abano na mo.

"Esto quasi feitas:--disse ella.--Tenha paciencia um instantinho."

"No  isso, mulher:--replicou o prior.--Ouve c: vae ao forro
da escada e traze-me aquillo."

"Isso, eu l ponho. Mas, com sua licena, d'onde veio maquia grossa?
Hontem no houve baptisado nem enterro..."

E a tia Jeronyma estendia a mo esquerda coberta com a ponta
do avental, para no sujar a maquia de que falava, e ao mesmo
tempo volvia olhos vidos, ora para o bofete, ora para o prior.

"Qual carapua!--replicou elle fazendo-se vermelho.--Tira-se;
no se pe. Faa o que lhe digo, e d ao dmo o que sabe."

A ama empallideceu. As palavras _tira-se; no se pe_ eram de ruim
agouro; mas vendo j o padre prior azedo, calou-se e obedeceu.

D'alli a pouco o velho parocho comeava a tirar de um p de meia
uma, duas, tres peas de ouro; foi tirando at setenta: restavam
apenas obra de uma duzia dellas.

"Basta:--rosnou o prior.--Pde occorrer uma doena. Ento, Jeronyma,
vem essas papas?!"

E dizendo isto embrulhava muito bem as setenta peas na folha
de papel que tinha sobre o bofete, e mettia-as na algibeira da
loba.

"Guarde isso, Jeronyma:"--disse elle  ama, que entrava com as
papas. E empurrou pela mesa fra o exangue p de meia. A ama,
ao vr aquella horrorosa sangria, esteve a ponto de largar a
frigideira no cho, e de deixar o bom do padre sem almoo.

Quando voltou para a cosinha, ouviu-a o prior soluar.

"_Nudus egressus sum de utero matris meoe, et nudus revertar illuc._"

Murmurando esta profunda sentena da Biblia, o reverendo parocho
saiu pela porta fra. A ama, vendo-o sar, andava como pasmada.

Nestas idas e voltas havia nascido o sol. O Bartholomeu da Ventosa,
afanado com a sua lida, em p  porta de um dos moinhos, bracejava,
ralhava, praguejava como um possesso. Os brutos dos moos tinham-lhe
quebrado j duas cordas ao _enquerir_ as cargas de uma rcua de
machos pimpes presa  argola do moinho.

De repente viu um casto de bengala sar-lhe por cima do hombro.
Voltou-se: era o prior.

"Ol, vossenhoria por aqui a estas horas?!... Psio, oh Z Dorna,
olha o rabicho daquelle macho!... Grande novidade, padre prior!
grande novidade!... Raios te partam! Que tal'st o filho do diabo?!"

Estas duas ultimas jaculatorias eram acompanhadas de dois
reverendissimos pontaps na barriga de uma das cavalgaduras, que
j estava carregada, e que parecia achar mais prudente deitar-se
em quanto as outras se aviavam.

O moleiro dava assim a modo d'umas lembranas de Napoleo dictando
ao mesmo tempo a dous secretarios.

"Falaste, Bartholomeu!--replicou o prior.--Novidade, e grande!
Ha quarenta annos que sou parocho desta freguezia, e  a primeira
vez que tal me succede.  negocio intrincado, e quero ouvir o teu
conselho, porque tens caixa para as cousas. Rapazes--accrescentou
dirigindo-se aos moos do moinho--safa d'aqui, que tenho que
dizer ao patro em particular."

"Rua!--gritou o moleiro correndo com fora ambas as mos pelo
colete e pelos cales, donde sau um nevoeiro de farinha.--Entre
vossenhoria."

O prior entrou, e foi assentar-se n'uma tripea que estava a um
canto: Bartholomeu assentou-se sobre um sacco de trigo defronte
delle. Os dous velhos mediram-se com os olhos por momentos, como
se cada um delles tentasse ler no rosto do outro os pensamentos
que lhes vagavam na alma. A primeira ida que occorreu ao moleiro
foi a de alguma festa que o parocho pretendia fazer, e para que
lhe vinha pedir dinheiro. Batia-lhe o corao com violencia,
e j imaginava trinta mentiras para evitar essa calamidade.

"Homem--disse por fim o prior--tenho em minha mo uma somma avultada;
mais de quinhentos mil ris (o moleiro estendeu o pescoo); pertencem
a um devoto, que os quer dar em dote a uma rapariga pobre desta
freguezia. Encarreguei-me do negocio, e deitei as minhas linhas
para dar no vinte. Mas temo no acertar, e venho bater comtigo.
s honrado, meu Bartholomeu, posto que um tanto sovina: falo-te
com o corao nas mos, e..."

"Isso  o que dizem por ahi essas linguas perversas--interrompeu
o moleiro, fazendo-se vermelho de colera;--essas mandrionas do
soalheiro, porque lhes no metto no bandulho o meu remedio. Os
diabos me levem..."

"T, ta!--acudiu o prior.--Ajustaremos contas na desobriga. Vamos
agora ao que serve. Sem refolhos: a quem te parece que dmos
este dote? Parafusa l."

O moleiro poz-se a scismar, alevantando os olhos para o tecto,
estendendo e revirando a mandibula inferior, e batendo de quando
em quando na testa.

"Nada ... a Genoveva da Theresa no:--disse por fim.--Tal me,
tal filha. Aquella est arrumada."

"Nem pensar n'isso  bom:--retrucou o prior.--_Libera nos Domine._
Anda, v se atinas."

"A Clara da Fonte tambem no..."

"Uhm!--rosnou o clerigo, abanando a cabea.

"A Catharina Carria menos. Heim?"

"T carapua! Ahi vae j! Fundia-me o dote em menos de um anno
com tafularias tolas. Adiante."

O leitor pde prever que o Bartholomeu da Ventosa e o seu parocho
estavam no caso de duas linhas parallelas, que, prolongando-se
indefinidamente, nunca podem encontrar-se: o pensamento do prior
dirigia-se a Bernardina, e o moleiro j tinha affastado por tres
vezes do espirito essa lembrana como uma ida importuna.

"Eu--disse elle finalmente, coando na cabea--tinha c uma ida...
mas no sei... No digo nada... Acabou-se."

"Desembuxa l, homem! Foi para te ouvir que vim aqui."

"Ento sempre lh'o direi. Minha sobrinha Joanna  um anjo. Boa
rapariga! famosa rapariga! Meu irmo Barnab no pede esmola,
 verdade; mas anda atrapalhadote. O casal dos Canios arrasou-o
este anno: deve-me j vinte moedas, e..."

O prior cortou-lhe o enthusiasmo pelos seus parentes com uma
gargalhada estrondosa. O moleiro ficou de bca aberta no meio
daquelle destampatorio.

"Oh, oh, oh! querias que o meu dote servisse para pagar as tuas
vinte moedas?! No  assim?--E, voltando immediatamente ao seu
serio, proseguiu:--Bartholomeu! Bartholomeu! _Por causa da iniquidade
da sua avareza me irei, e o feri_: diz o propheta. A cubia que
te cega ha-de baldear-te no inferno, como tu baldas alli para
a ribanceira as ms que j no prestam. Queres mentir  tua
consciencia, enganar o teu pastor, quando elle te vem pedir que
o aconselhes? Isto no  bonito, Bartholomeu! No  bonito!"

"Mas, padre prior..."

"Qual mas, nem meio mas! Deixemo-nos de historias. Bem diz o
dictado:--Fui a casa da vizinha envergonhei-me; vim  minha
remediei-me.--O melhor  seguir a primeira lembrana."

"Ento, se vossenhoria j tinha posto o dedo..."

"Tinha, tinha!--retrucou o prior:--Queria s ver se tu concordavas
comigo: mas sacas-te com uma exquisitice de fazer arripiar. No
temos feito nada, meu Bartholomeu: no temos feito nada!"

E dizendo e fazendo, o clerigo erguia-se como para sar.

"Pois diga vossenhoria--acudiu o moleiro ainda atrapalhado com
o _revertere_:--e enforcado morra eu se..."

"No praguejes, homem! Ahi vae! Quem ha-de apanhar o dote  a
Bernardina d'ao p do rio..."

A historia das saccas era espinha que ainda lhe estava atravessada
na garganta: ouvindo tal nome, o velho no pde conter-se:

"Quem? A cara de fuinha da filha de Perpetua Rosa? O padre prior
est brincando. Olha as lesmas! Umas desmaseladas, e caloteiras!
Isso, nas unhas da me, era fogo viste, linguia. Terans me
matem..."

"Espera, homem, espera! No  isso o que se diz na aldeia. Tu tens
osga s pobres mulheres, e cega-te a paixo. Desmaseladas?! Basta
olhar para ellas; como andam limpas na sua miseria. Caloteiras?
coitadnhas!  porque no tm com que pagar ao Agostinho da tenda?
Pagar-lhe-ho agora. Quinhentos mil ris ainda ficam livres, e
Bernardina ha-de com elles achar um bom casamento."

Emquanto o prior falava, uma ida bem-aventurada illuminra
subitamente a alma do moleiro. As suas tres saccas podiam no
estar perdidas de todo; podiam voltar melhoradas ao moinho. Sentiu
a colera desvanecer-se-lhe, como a nuvem negra que varre a brisa
do norte.

" verdade que a gente s vezes tem c as suas birras:--disse
elle com certo ar que queria ser fino e saa parvo.--Cega-se
com as pessoas! Vossenhoria bem sabe o que faz: d o dote a quem
quizer, que diante de mim ninguem ha-de tugir nem mugir contra
vossenhoria."

"Pois bem!--proseguiu o prior.--Esta lebre est corrida. Resta
achar um noivo para Bernardina. Isso  bico d'obra que requer
escolha e siso. Pensa no caso, Bartholomeu! Vamos a vr se acertas
melhor desta vez. Agora outra cousa. Tu s capaz: tens sabido
guardar o teu dinheiro; sabers guardar o alheio. Eu para isso
no presto: sou um mos-rotas. Aqui te deixo setenta louras,
que a seu tempo se ho-de entregar a quem tocarem. Incumbes-te
d'isto?"

"Vossenhoria manda:"--respondeu o moleiro, cujos olhos brilharam
com o fulgor devorante da avareza ao vr rolar as peas, que
o prior tivera a cautela de desembrulhar sobre a grande arca
das maquias. O velho parocho usava de uma esperteza de Satans
para fazer uma obra de Deus.

E, despedindo-se de Bartholomeu, sau. O moleiro ficou em p
e immovel. Estava, mal comparado, como o asno de Buridan entre
as duas medidas iguaes de cevada: nem se podia affastar do ouro,
nem ousava faltar  cortezia devida ao padre prior. A final,
por um movimento sublime de energia moral, correu pela porta
fra atrs delle, que j a a certa distancia. Neste correr
parecia-lhe sentir estalar o que quer que era dentro do corao.

"Se vossenhoria  servido do nosso almoo"--bradava o moleiro"--no
tarda ahi um credo. Pobre, mas de boamente."

"Obrigado! obrigado!"--respondeu o prior sem se voltar, brandindo
para trs a bengala, como quem dizia adeus. E pensava l
comsigo:--"Fra, miseravel sovina!"

Apenas o bom do clerigo dobrra a quina, do muro de uma quinta,
que se dilatava desde a encosta at a baixa do rio, truz!...
Com quem havia d'elle dar de rosto? Com o Manuel da Ventosa,
de espingarda ao hombro, rede s costas, chumbeira e polvorinho
a tiracolo. O saloio ficou embaado.

"Com que, sim, senhor! J voc por aqui me apparece a estas
horas,"--disse o prior com um gesto folgado, que forcejava por
ser colerico.--"Heim?"

" verdade, padre prior!... Entreter um bocado... A manhan estava
boa."

"Pois no! Aos pardaes... bem sei! Ora corte-me para casa, e
v ajudar seu pae, o pobre velho, que l anda lidando... e voc
feito caador das duzias... Caador! Pensava agora o sonso que
me enganava! Vamos marchando!"

Deu alguns passos para diante, emquanto o Manuel da Ventosa fazia
o mesmo em sentido contrario. Depois voltou-se de repente. O
saloio tambm parra a olhar para trs.

"Ol. Escuta c, Manuel!"--O Manuel aproximou-se.

"Depois d'amanhan  necessario que voc se bote aos ps de seu
pae, que lhe conte a boa obra que fez, e que lhe pea licena
para casar com Bernardina..."

"Pelo amor de Deus, padre prior!"--interrompeu o triste do rapaz
cheio de susto.--"Com os figados delle, pe-me os ossos n'um feixe."

"No se perdia nada:"--acudiu o velho.--"Mas no  anno de fortuna.
Era melhor que se tivesse lembrado a horas. Faa o que lhe digo,
que no lhe ha-de succeder mal nenhum! Vamos."

"Se vossenhoria entende?!..."

"Entendo, sim, senhor. A paschoa no tarda; e passada a quaresma
voc ha-de receber-se. Mas d'isto nem palavra! E crte!"

O tom com que o parocho proferiu estas palavras deu uma alma nova
ao Manuel da Ventosa. Imaginou logo que o padre prior tinha aplanado
o negocio. No sabia se risse ou se chorasse. Instinctivamente
agarrou a mo do clerigo e beijou-a. A sua gratido era sincera.
O padre prior sentia palpitar esse vivo sentimento naquellas mos
callosas, que apertavam a sua mo enrugada, naquelles labios
ardentes, que pareciam devora-la. Conheceu que estava arriscado
a deslizar da habitual severidade, e, affastando-se rapidamente,
bradou com voz aspera, mas alguma cousa trmula:--"Deixa-me, pateta!
Deixa-me! ... e Deus te alumie para que seja esta a ultima das
tuas rapaziadas."

Fez bem em alongar-se: duas lagrymas lhe rolaram pelas faces abaixo.

Naquelle dia a tia Jeronyma chegou a desconfiar de que o padre
prior tinha a bola desarranjada. Toda a manhan no fez seno
cantarolar, ora um pedao do _Tantum ergo_, logo um versiculo do
_Te Deum Laudamus_, e assim por diante. At andou por mais de meia
hora a brincar com o gato do presbyterio. E, para resumir em
poucas palavras a extravagancia de que parecia possuido, baste
dizer que, ao descalar-se, arrumou os apatos para um canto,
e depois de ter lido um capitulo da chronica de Cister, pela
primeira vez da sua vida metteu na estante essa especie de
Carlos-Magno monastico sem o pr de pernas ao ar. Aquelle corao
sentia dilatar-se na sancta paz do Senhor.

E porque no cabia o bom do padre na pelle? Porque tinha feito
felizes duas creaturinhas, sacrificando-lhes as suas economias
de quarenta annos. Elle achava isso uma cousa naturalissima; mas
a providencia dava-lhe uma parte da sua recompensa nessa alegria
suave e intima, que nunca pde entrar nos palacios dos grandes e
poderosos do mundo; porque  o premio, no do beneficio insolente
da opulencia, mas sim da abnegao caridosa da humildade.

O padre prior tinha tido tempo de estudar individualmente o caracter
dos seus freguezes, e por isso segura aquelle caminho para chegar
ao fim moral que se proposera. De feito o velho moleiro andou
abstracto todo o dia. Pois de noite? No pregou olho! s escuras
via diante dos olhos as setenta peas a reluzirem como uma viso
ao mesmo tempo celeste e infernal. Depois, naquellas horas longas
de vigilia punha-se a calcular a aco prodigiosa que ellas teriam
incorporadas com mais de outras tantas que elle tinha enterradas.
Era o que bastava para dar o harmonioso epitheto de _minha_  azenha
do Ignacio Codeo, e pr l o seu Manuel a labutar, e a ganhar
dinheiro, muito dinheiro: e elle a tomar-lhe contas ao sabbado:
meia moeda ... uma moeda ... duas moedas; e a pilha-lo em uma
gaziva de seis vintens; e despertava daquella especie de extasi
ao atirar-lhe o primeiro pontap. Era um regalo! Ria s vezes
ao lembrar-se de uma que elle havia de pregar no outro dia ao
Agostinho da tenda. Essa estava segura. Ia-lhe comprar o _crto_ de
Perpetua Rosa por metade, por um tero, talvez.--"Oh s Agostinho,
voc no v que isso  dinheiro perdido? Cinco mil ris! seis
mil ris! Vamos;  minha a divida."--E tripudiava na cama, e
assentava-se, lanando mo dos cales, para ir, para correr,
para voar, antes que algum diabo (pensava elle) fosse metter no
bico ao usurario do tendeiro a mudana de fortuna de Bernardina.
Chegava, naquelle fervor, a enfiar os cales mas recaa na cama
ao vr, ou antes ao no vr, que era escuro como breu. Momentos
havia em que as suas idas tomavam outro curso: representava-se-lhe
seu irmo Barnab a largar-lhe o casal dos Canios pelas vinte
moedas e por mais umas trinta peas com que o engodava; e elle
a fazer estercar as terras, e alqueivar, e lavrar, e semear, e
mondar, e ceifar, e a ter na eira uma serra de trigo durazio,
e achar uma excommungada de uma velha pedinchona a furtar-lhe 
sorrelfa uma abda daquelle grande trigo, e elle a desanca-la
com uma tranca. E saa desse pesadello de homem acordado a ranger
os dentes, e com a mo agarrada  maaneta do catre. D'ahi a
pouco vinha-lhe outra enfiada de imaginaes, e d'ahi outra,
e outra, at que por fim a ida de que as setenta peas eram
suas lhe ficava de tal modo encravada e enraizada na alma, que
o arrancar-lh'a de l seria o mesmo que metter-lhe no bucho uma
apoplexia. Ento punha-se a scismar no pensamento capital e gerador
de todas essas imagens bemaventuradas que lhe luziam no olho, o
como chamaria  muxilla as setenta do dote. Abafa-las? Nega-las
ao prior? Estremeceu horrorisado; porque Bartholomeu era homem
de probidade, a seu modo, que, sem malicia seja dicto, vinha
a ser um modo como o de tantos homens honrados que todos ns
conhecemos. Nada! Era preciso um meio natural, decente, legitimo
de arranjar o negocio. Cau ento no que o prior queria que elle
casse. Casou _in mente_ o seu Manuel com a Bernardina. Feito isto,
as peas eram suas; suas porque o Manuel pellava-se com medo
delle, e casado ou solteiro havia de ficar-lhe sempre debaixo
dos cabees. Assentado este ponto, o moleiro sentia um certo
refrigerio interior que o consolava. No tardou a adormecer no
somno do justo, e em placidos sonhos balouou-se todo o resto
da noite entre a azenha do Ignacio Codeo e o casal de seu irmo
Barnab. Saa s vezes desta hesitao beatifica sonhando no
gatazio que a pregar ao Agostinho, e ria com um rir de innocencia.
Era um sancto velho aquelle Bartholomeu da Ventosa!

O leitor deve estar j sufficientemente aborrecido de to comprida
historia do moleiro, da lavadeira e do prior; por isso no o farei
assistir s explicaes entre o pae e o filho. Mais repousado
o sangue com o dormir, Bartholomeu reflectiu pela manhan que o
propor ao parocho o seu Manuel para noivo de Bernardina tinha
suas parecenas com o haver-lhe proposto para ser dotada sua
sobrinha Joanna, ida maldicta que lhe tinha custado uma risada
nas suas barbas e um revrtere com texto de Biblia. Por outra
parte pensava que Manuel era o seu unico herdeiro, e que se
Bernardina trazia para a ceia, elle levaria para o jantar, principio
consagrado pela philosophia saloia, talvez desde o tempo dos
mouros. Emfim o pae nestes vaivens, e o filho com os receios que
o leitor pde imaginar, fizeram ao declararem-se uma verdadeira
scena de comedia. Ao cabo, porm, de tudo entenderam-se. Assim
o padre prior,  custa das suas economias de quarenta annos,
teve a consolao de fazer tres sermes, um a Bartholomeu sobre
a cubia e avareza, outro a Manuel sobre o trabalho, sobriedade
e mais virtudes annexas  condio de pae de familia, outro
finalmente a Bernardina sobre a honestidade, modestia e sujeio
das mulheres casadas. Depois, quando veio a paschoa, regalou-se
de atar o lao matrimonial entre os dous amantes, acabando por
uma vez com as interpellaes das lavadeiras, com as espreitaduras
dos curiosos, e com as murmuraes do beaterio. Custou-lhe a
brincadeira setenta peas, e o atirar  rua o sermo sobre a
avareza, porque o Bartholomeu continuou a ser sovina at a hora
da morte, na qual piamente se deve crer o catrafilou o diabo,
no s por ser unhas de fome, mas por ter refinado a ponto, que,
perdendo a vergonha, j comeava a sizar nas maquias, com escandalo
dos freguezes, e grande mortificao de seu filho Manuel.

Agora duas palavras sobre a festa do orago da parochia, o meu
rico S. Pantaleo. O leitor vio o padre prior caminhando pela
estrada dolorosa da moral evangelica:  necessario que o veja
tambem radiante no meio das pompas do culto.

       *       *       *       *       *

[1] Assim se denominava ainda ha poucos annos uma casa, na
proximidade da cada uma das aldeias vizinhas de Lisboa, emprestada
por algum ricao ou alugada, em que se ajunctava nas noites dos
domingos para _brincar_ (danar) a mocidade aldeian.

[2] Nu sa do ventre de minha me, e nu voltarei para
alli. Job: cap. 1, v. 21.



IV

ALHOS E BUGALHOS.


S. Pantaleo era, como disse, o orago da freguezia aldeian, cujos
habitantes mais conspicuos o leitor j conhece, e por via dos
quaes o puz em contacto com as differentes classes de que se
compunha aquelle mundozinho, ou, para melhor dizer, e falar de
modo que no me entendam, aquelle _microcosmo_. Esse grecismo
expremeu-mo do espirito S. Pantaleo, que, conforme o que bem
pondera a folhinha, foi medico, e os medicos finam-se por grego.
O padre prior e o sacristo representam a igreja espiritual e
materialmente, o Agostinho da tenda o commercio, o Barnab a
agricultura, a senhora Perpetua Rosa a industria, e finalmente
o honrado Bartholomeu da Ventosa representa nos seus sonhos a
industria-agricola, ou a agricultura-industrial, genero de existencia
lembrado pelos economistas da Alemanha para salvar as classes
laboriosas do horrivel futuro com que as ameaa o vapor; porque
se ha-de advertir que alguns restos de prudencia e juizo que
ainda havia c por esta nossa Europa varreu-os Deus para aquelle
canto do mundo, a que ns chamamos a terra das theorias e das
chimeras; ns os homens do meio dia, que fazemos phalansterios
e no sei quantas mais comedias politicas capazes de fazer rir...
quem direi eu? O proprio mirradissimo S. Pantaleo da cidade
eterna.

Eterna, entenda-se, at que o primeiro cometa venha embrulhar
na cauda este nosso _microcosmo_ to caturra e parvo chamado o
orbe terraqueo.

Celebra-se a festa de S. Pantaleo a vinte-sete de julho; data
preciosa e averiguada por mim em largas vigilias, consumidas
em revolver breviarios, antiphonarios, legendarios, missaes,
sanctoraes, e livros historiaes, na phrase daquelle grande rhetorico
Gomes Eannes. Est a folhinha pontualissima; podem acreditar-me!
Celebrou-se, celebra-se e ha-de celebrar-se a festa de S. Pantaleo,
o bemaventurado physico, todos os vinte-sete de julho, at a
consummao dos seculos; salvo o caso de ninguem se lembrar d'aqui
a cem ou duzentos annos de que existiu no mundo o meu rico sancto;
mas espero tal no acontea ficando lanada a sua memoria nestas
paginas, s quaes incontestavelmente pertence a immortalidade.

"Mas--acudiro os leitores--que nos importa a ns que essa
commemorao seja a vinte-sete ou a vinte-oito: seja em julho ou
em dezembro? Vamos  festa, e deixemo-nos de historias."--Devagar,
devagar!  justamente porque isto  uma historia grave, sisuda,
erudita, que eu no me havia de metter abrutadamente na narrao, sem
deixar averiguada, esmiuada e fixada a data precisa e irrecusavel
do meu _recontamento_. Sabem o que  uma data? Uma data , depois de
uma questo de orthographia, do talho e feitura de uma judia, a que
os nossos velhos chamavam uma aljuba, e depois de um phalansterio, a
que os dictos velhos chamariam uma sandice, a cousa mais importante
que conheo neste valle de lagrymas. No caso presente, supponhamos
que eu fosse um cabea de vento, que atirasse com S. Pantaleo
para vinte-sete de dezembro. Ficavamos aceiados; no tem duvida!
Ahi se me a metter a segunda oitava do Natal com o meu sancto
martyr; e eu a querer revestir o padre prior para a missa cantada
e a vr-me doudo na escolha da vestimenta. Vermelho? Saltava-me
a canzoada dos criticos:--Fra ignoranto! Vermelho na segunda
oitava da Natividade!? Vae ler o Claudio de Vert, alarve! vae ler
o Campello, o Gavanto, o Lambertini."--Atarantado com a grita,
atirava-me ao gaveto da vestimenta branca. Peior! Vinha-me outra
surriada de sotavento:--Olha a alimaria! No querem ver? A um
martyr vestimenta branca! Hypocrita! que nos anda aqui a prgar
sermes a favor dos padres e dos frades, e ainda no sabe qual 
a sua vestimenta direita. Ahi tem os taes escrevedores d'agua
doce, que se riem  socapa das arcadias, e das odes pindaricas,
e da sciencia em notas, e das chronologias dos academicos. A
gente que fazia essas cousas trazia as vestimentas na ponta da
lingua: distinguia-as como _hora horae_ de _servus servi_. Vae ler,
oh taboa rasa de Locke, vae ler o Prado, o Clericato, o Bauldry,
o..."

E eu, que no podia ir ler tanto calhamao em folio, em quarto,
em oitavo, e em doze, estacava, punha-me a gaguejar, perdia o
fio da narrativa, e no proseguia nesta notavel historia do padre
prior, a qual me abriria as portas do Instituto Historico de
Pars, se eu fosse to creana que me resolvesse a pagar no sei
quantos francos por anno para gosar dessa incomparavel honra.

Por isto faam os leitores ida das deploraveis consequencias de
um erro de data!--"Porm--replicaro elles--quem te obrigava a
tractares essa questo chronologica, superior talvez s foras do
teu entendimento? No foste andando at aqui sem te metteres nesses
debuxos? Porque no descreves a festa, deixando aos entendidos em
calendario o p-la na epocha propria?"--Bonissimos leitores, pensaes
vs que eu sou o Manuel da Ventosa, que me deixe assim esmagar por
uma saraivada de perguntas? Enganaes-vos! A resposta vae car dos
bicos desta penna como as frechas de Apollo _longe-asseteador_ caam
no campo dos argivos, segundo resa Homero no capitulo primeiro da
sua chronica das birras do Pelida e do Atrida: a minha trplica
vae tombar sobre os prelos convincente, irresistivel, irreplicavel.
Ei-la. Finjamos por um momento que, em vez de consultar os
respectivos auctores sobre a verdadeira casa de S. Pantaleo no
taboleiro do calendario, nem sequer pensava nisso, e comeava _ex
abrupto_ a scena da festa aldeian. Que succedia? Como estamos no
inverno, e eu gsto do inverno, principalmente quando ruge uma boa
nortada (so gostos), punha-me a descrever um destes formosos dias
de dezembro ou de janeiro, em que o firmamento parece retincto de
novo no seu to lindo azul; em que a verdura infantil das searas
 flor da terra sorri estirando-se dos topos arredondados dos
outeiros pelo pendor de recostos levemente inclinados; em que a
relva se mira  luz vermelha da aurora no espelho do caramelo,
que envidraa a superficie dos pegos e remansos dos regatos.
Falar-vos-hia de uma abenoada missa do gallo na aldeia em noite
de luar, missa mil e quinhentas vezes mais poetica do que toda
a poesia protestante desde Luthero, o pae do protestantismo,
at Strauss, que hoje lhe tira as derradeiras consequencias;
falar-vos-hia, emfim, de mil cousas, muito bonitas, muito viosas,
muito brilhantes, mas que viriam tanto a proposito de S. Pantaleo,
como o anho paschal daquella sancta velha da tia Jeronyma viria
a pello da Natividade com o seu caldo tradicional de per, ou
como o estylo do nosso drama moderno se casa com a linguagem
da sociedade cujo transumpto deve ser.  por esta razo que em
cousas serias, quaes a presente narrativa, eu sou muito pechoso
em averiguar tudo quanto pde contribuir para a perfeio de
obras em que a frma de modo nenhum ha-de vencer a substancia:--e
a essa classe pertencem estes estudos moraes.

Resolvida e assentada a questo de tempo e logar, sem o que no
ha obra litteraria, segundo affirmam os glossadores e espivitadores
daquella famosa embrulhada de Horacio chamada a Epistola aos
Pises, resta dizer alguma cousa cerca de S. Pantaleo. Por muita
importancia que eu ligue  feira, aos foguetes, aos buscaps, s
jarras de flores, aos tocheiros accesos, ao sacristo,  musica,
aos festeiros, e ao padre prior, ligo muita mais  memoria daquelle
cuja festa trazia n'um rodopio toda a aldeia, e at tivera a
influencia magnetica de alargar os fechos da bola ao veneravel
moleiro Bartholomeu. Tenham, portanto, paciencia; que j agora
hei-de dizer-lhes duas palavras cerca do meu rico sancto. So
reminiscencias do sermo, o qual, desde aqui fique sabido, foi feito
e prgado por Fr. Timotheo, o fradalho arrabido de mendicante e
espoliada memoria.  pouco mais ou menos um resumo da historia do
sancto como a contou Fr. Timotheo. Parece-me que o estou ouvindo!

S. Pantaleo era um medico de Nicomedia: o bispo Hermolau converteu-o
ao christianismo. Desde ento elle reduziu o seu receituario 
invocao do nome do Senhor. Seguiram-se d'aqui duas consequencias
graves: as suas curas foram mais baratas e mais rapidas, ao mesmo
tempo que as offertas dos doentes escaceavam nos templos pagos,
e os sacerdotes de Esculapio comeavam a morrer litteralmente
de fome. O resultado foi um clamor geral contra o pobre sancto:
os sacerdotes accusavam-n'o de impio e de bruxo, os medicos de
charlato. O odio contra elle chegou ao ultimo auge: s faltava
uma occasio para a vingana: esta no tardou a apparecer.

"No, que no havia de chegar!--rosnou o barbeiro, que, espcado
em frente do pulpito, meneava a cabea laudativamente de quando
em quando, em honra da eloquencia de Fr. Timotheo, que, narrando
a vida do sancto, esbravejava como um possesso.--No, que no
havia de chegar! Bastavam os medicos. Os medicos e os cirurgies!
Posto que at certo ponto pertena  faculdade, hei-de dize-lo:
 a classe mais invejosa do merito, que eu conheo."

O barbeiro pensava assim havia muitos annos: desde que fra
cruelmente arranhado por tres raposas, que os lentes do Hospital
lhe tinham largado s pernas em um exame de sangrador. Boas ou
ms, eram as suas doutrinas.

Entretanto o arrabido continuava a lenda de S. Pantaleo: as idas
que della conservo so as seguintes:

Neste meio tempo veio a Nicomedia o imperador Maximiano. S. Pantaleo
restituiu perante elle a um paralytico o uso dos membros, o que
nem os sacerdotes pagos, nem os medicos tinham podido fazer,
mostrando assim quanto era poderoso o Deus dos nazarenos. Mostrar
aos poderosos que se tem razo contra elles  o maior dos perigos
do mundo. S. Pantaleo experimentou-o. Lanaram-n'o s feras no
circo: mas as feras, em vez de o devorar, vieram lamber-lhe os
ps. Cresceu a colera do imperador. Mandou ata-lo a uma grande
roda e solta-lo por uma ladeira abaixo; mas as prises quebraram-se
e o suppliciado ficou illeso. Ento ordenou que o degolassem. O
sancto, segundo parece, estava j saciado de prodigios: ao golpe
do algoz a cabea voou-lhe dos hombros, e a sua alma, subindo
ao ceu, viu o proprio nome escripto no livro dos martyres. O
inferno e a tyrannia tinham sido mais uma vez vencidos.

Tal  em poucas palavras a historia do sancto orago da aldeia,
que constituia os dominios espirituaes do padre prior.

A noite que precedeu  grande solemnidade da parochia foi semelhante
naquelle anno em que succedeu o caso da Bernardina ao que havia
sido no anno antecedente; semelhante ao que costumam ser taes
noites nos campos deste nosso bom Portugal. Um coreto coberto de
velhos razes alteava-se  porta da igreja: delle resfolgava uma
selvagem e, s vezes, atrozmente desentoada musica, e em baixo
crepitavam as fogueiras. Como faltariam fogueiras no mez de julho
e em festa saloia? Os fogos nocturnos so o symbolo da alegria;
mas cumpre que se repintem no ceu diaphano e estrellado. Debaixo
de uma atmosphera crassa e negra o seu reflexo tem o que quer que
seja soturno e infernal. O sentimento poetico est mais vivo e
puro nas almas habituadas s harmonias campestres, do que em ns
os habitantes das grandes cidades:  por isto que os camponezes
accendem no estio as fogueiras festivas, usana que, como todos
sabem, offende o nosso profundissimo e estupidissimo senso-commum.
Eu, por mim, que, graas a Deus, no tenho a honra de pertencer
 classe desses que lidam, contentes de si, por se bambolearem
no vertice da animalidade pura, e que se chamam homens da vida
positiva, digo que, por mais ardente que v o estio, amo uma
fogueira no arraial em vespera de festa, e aquelle estourar e
chispar dos foguetes que roam rapidos pelo manto escuro da noite.
Sei tambem que o consumir-se polvora em esbombardear cidades, e
em alastrar de cadaveres um campo de batalha  cousa muito mais
philosophica e sisuda, do que desbarata-la nas festividades
supersticiosas do povo. Mas nem todos podemos ser philosophos,
e eu tenho quda particular para a superstio.

E que quereis? O catholicismo  jovial: o seu culto, como o vulgo
o entende,  ruidoso, e risonho, e brilhante, e attractivo, e
sociavel, e por isso debalde trabalharieis por arranca-lo ao
povo, que vive e morre no meio do trabalho, dos cuidados, das
privaes. O domingo, o dia sancto, o orago da parochia so os
seus dias de contentamento e repouso. Abenoado quem inventou os
oragos! Pois as invocaes da Virgem, e a advocacia dos sanctos?!
Mil vezes bemdito quem os multiplicou! Ride-vos, se vos aprouver,
dos que crem que tal Senhora obra mais maravilhas que todas as
outras Senhoras junctas; que tal sancto  remedio infallivel
para esta ou para aquella enfermidade. As preces levam pelo menos
uma vantagem s drogas dos physicos: no custam nada, e so mais
ricas de esperana; e a esperana  a maior, quasi a unica virtude
dos medicamentos. E depois as devoes, as promessas geraram
as romarias, as festas, e logo as feiras e todo esse franco e
alegre folgar das multides, que voltam de l contentes, sem
tedio e sem remorsos, o que nem sempre nos acontece nos nossos
prazeres das cidades, a que bem longe estamos de associar nenhum
pensamento de Deus.

Alguns economistas destes tempos dizem--"as feiras vo-se"--como
certos doutores de ha uns annos diziam, alludindo ao christianismo
--"_os deuses vo-se_."--Oh semsabores de meus peccados! Nem os
deuses, nem as feiras se vo! Tudo isso fica, porque o abriga e
salva a egide encantada do amor popular: vs  que tendes seguro
o passardes; e se fizerdes o vosso ablativo de viagem n'alguma
aldeia como a do meu padre prior, l do adro, onde haveis de jazer,
alevantae a caveira descarnada, no dia de S. Pantaleo, ou do
sancto influente do logar, qualquer que elle seja, e vereis o
foguete subir aos ares, e os Manueis e as Bernardinas de ento a
feirarem-vos em rebemdita sobre as cinzas, que as ventanias tero
espalhado, e ouvireis o ramram da guitarra, e o cantar ao desafio,
e o bradar dos leiles de cargos, e aviventar-vos-ha o olfacto o
cheiro do incenso, involto em rolos de fumo, que, espalmando-se
nas faces dos gordos cherubins pintados no tecto, surdiro pelo
portal da velha igreja remoada d'ochre, e viro embalsamar os
ares: inclinae, no as orelhas, que no as tereis, mas os ouvidos
em osso, e escutae o futuro padre prior alevantando o _Gloria_, e o
prgador--"ai! j no ser um fradalho arrabido!..."--contando, voz
em grita, as maravilhas do martyr. Ento reconhecereis a vaidade
das vossas doutrinas, e morder-vos-heis e damnar-vos-heis, dizendo
com as vossas costellas esbrugadas,  falta de botes:--"Bem nos
prgava aquelle grande chronista do padre prior! Aquillo  que
era homem de juizo! _Miserere mei, Deus, quia asinificavimus!_
Compadece-te de ns, Senhor, porque asnemos!"

Agora por asnear, acudamos a um reparo antes de ir mais longe.
J ouo um destes oragos de botequim (tambem aquelles templos
tem seus oragos); um destes eruditos em Balzac e Marryat, em Paul
de Kock e Dickens, sacudir a melena annelada, affastar da bca
o charuto apertado entre o pae-de-todos e o fura-bolos, salivar
com os dentes cerrados, dando um som de espirro de gato, tomar a
postura solemne que estudou n'uma gravura em madeira do Antony de
Dumas, e dizer-me em tom pausado e soturno:--Oh malfeliz, malfeliz!
que em vez de empregares esses raios do fogo ceruleo e invisivel
das inspiraes estheticas, que, da mysteriosa solido em que se
dilata o halito celeste da summa intelligencia, desceu aos abysmos
ntimos da tua essencia, em depurares o sentimento religioso das
suas formulas materialisadas para o transportares s regies
ideaes do culto ntimo, seguindo os vestigios das notabilidades
mais remarcaveis da intellectualidade actual que fluctuam nos
grandes centros de luz progressiva chamados Pars e Londres,
vertes os teus sarcasmos baixos, triviaes, e desgostantes, sobre
o espiritualismo pantheistico, apoias o fetichismo, e poetisas
(crs poetisar, digo eu) essas festas da populaa, e esses prazeres
gordureiros das massas, que sublevam o corao daquelle que adora
o supremo architecto no silencio interior, em quanto os seus
labios esto immoveis como se elles fossem de marmore explorado
nas carreiras de Paros! Escriptor retrogrado e condemnavel, que
em logar de combateres a barbarie do paiz, pretendes atacar mais
o povo ao obscurantismo, que diro as summidades do jornalismo
estrangeiro e os toiristas e impressionistas viageiros quando
lanarem seu golpe d'olho d'aguias para o Portugal, e virem sua
materialisao supersticiosa inculcada, e suas tradies grosseiras
exaltadas? Repetiro o que o immortal marido de Lady Byron dizia
de ns a proposito de uns cachaes com que o massacraram certa
noite  sada de S. Carlos:

  "Nao impando de ignorancia e orgulho,
  Que lambe e odeia a mo que brande a espada
  Que do Gallo assanhado  zanga o rouba[1]...

       *       *       *       *       *

  Onde  sujo o palacio ao par da choa,
  E o hospede forado em lama trepa;
  Onde nobres, plebeus nunca pensaram
  Em ter limpa a casaca ou roupa branca[2],
  Posto que a lepra egypcia os cubra e ra,
  Intacta d'agua a pelle, e a grenha hirsuta.

  Servos torpes e vis[3], bem que nascidos
  Nas pompas da creao. Tola s, natura,
  Com defunctos ruins em gastar cera.

Eis o que elles diro lendo a tua inconscienciosa defeza dos
costumes e credulidades dos tempos do jesuitismo e da inquisio."

Tal reparo antevejo eu que me ha-de ser feito pelos pensadores
da nossa terra, por estas ou por outras palavras. Respondo--o
que escrevi escrevi. A primeira vez que puz os olhos naquelles
bonitos versos do Child Harold, impei. Fui vivendo e lendo, e
affiz-me s injurias de estranhos. Livros, jornaes serramadeiras,
jornaes populares, jornaes atoalhados, jornaes lenoes, em se
tocando em Portugal, sancta Barbara, advogada dos troves, nos
acuda! Fervem as calumnias, os motejos, as accusaes de todo o
genero; o que inquestionavelmente  grande,  nobre,  generoso!
O dar  assim!--n'uma nao cuja lingua, pouco conhecida na Europa,
torna impossiveis as represalias. E se fosse a verdade s! Muitas
verdades amargas nos poderiam dizer, como se podem dizer a todas
as naes do mundo; mas a calumnia tem mais pilheria; e Portugal
 um thema em que at os inglezes querem ter graa! Os francezes
ainda alguma vez por engano nos fazem justia: elles nunca. Em
Inglaterra no ha nenhum tolo que no faa um livro de _tourist_,
nenhum architolo que no o faa sobre Portugal: estes livros e
os sermes constituem o grosso da sua litteratura[4]. Assim,
oh philosopho idealista progressivo, eu sei to bem como tu o
que nos ha-de custar a festa de S. Pantaleo, quando esta famosa
historia for car nas mos dos criticos d'alem-mar. Mas pensas
que me faltar moeda para dar troco s miserias de revisteiros,
touristas, magazineiros, e fazedores de livros em sarapatel mascavado
de normando e teutonico, surripiado por metade em cada palavra
na melodiosa pronunciao britannica? Enganas-te, oh caricatura
viva do Anthony morto! Enganas-te! Quando os inglezes se rirem
de elles terem muito dinheiro e ns pouco, toramos a orelha, e
choremos como creanas pelas barbas abaixo. Quando elles compararem
o Strand ou Regent-Street com os arruamentos da nossa cidade
baixa, agachemo-nos. Quando perfilarem as suas estradas com as
nossas azinhagas reaes, cubramos a cara. Mas quando compararem as
venturas do homem de trabalho inglez com a triste sorte do peo
portuguez, risada. Quando oppozerem as virtudes e illustraes
das suas classes infimas  barbaria e estupidez das nossas, duas
risadas. Quando encherem as bochechas das suas velhas liberdades
(do tempo de Ricardo III, de Henrique VIII, de Isabel, de Cromwell
e de Carlos II), das suas leis de propriedade em particular, e
da clareza, simplicidade, e rectido de todas as suas leis em
geral, e nos atirarem  cara o absolutismo dos nossos antigos
monarchas, a bruteza da nossa ordenao, a intolerancia dos
inquisidores, trinta risadas. Quando, emfim, nos offerecerem
em escambo das nossas crenas, dos nossos costumes religiosos,
os seus costumes e a sua crena, que esbora ha mais de dous
seculos em quatrocentas crenasinhas, com seus nomes muito
arrevesadinhos, quatrocentas risadas ou antes uma risada s,
mas retumbante, macissa, inextinguivel, como aquellas famosas
gargalhadas dos deuses de Homero. O caso  d'isso! Se cassemos
na troca ficavamos logrados. Traziam-nos de involta na carregao
dos sermes domingueiros os dizimos e as bruxas, de que ha muito
estamos livres pela misericordia divina, e que so os dous maiores
flagellos da Inglaterra, depois da lei dos cereaes e dos
arrendamentos das terras, que ahi alugam, at por semana, a dez
milhes de esfaimados quatrocentos mil proprietarios gordos e
anafados.

Ao menos so quatrocentas mil barrigas de uma amplido respeitavel,
campeando entre dez milhes de irmos nossos, que no foram formados
de barro, como ns e Ado, mas de massa insonsa de batatas.

       *       *       *       *       *

[1] Isto escrevia o nobre Lord em 1809, quando os inglezes
reivindicavam dos francezes o throno de Beresford 1. occupado
pelo usurpador Junot 1.--_(Nota do gamenho que fala)._

[2] Estylo epico em Inglaterra e na Cafraria.

[3] _Poor paltry slaves!_--_Pobre_ na livre Inglaterra 
synonimo de _desprezivel e vil_, por isso traduzo assim.--_(Nota
do gamenho orador)._

[4] No me persuado de que nenhum leitor tome ao p da
letra este brinco litterario. A Inglaterra  uma grande nao,
e possue no seu gremio muitos homens honestos, sabios, e por
todos os modos respeitaveis. Mas a essa classe no pertencem
por certo aquelles, que, propondo-se illustrar o povo, escrevem
cerca de uma pobre nao, que nunca os offendeu, toda a casta
de absurdos e mentiras insulsas.



V

EXCURSO PATRIOTICO.


Falemos serio: no comtigo, philosopho
esthetico-romantico-progressivo, que no vales a pena d'isso,
mas com o povo portuguez, que fala portuguez cho e intelligivel.
Falemos serio, porque estas materias de crena e de culto so
cousas graves e sanctas. Saber resistir  violencia  forte, mas
vulgar; saber resistir  calumnia e aos motejos  maior esforo
e mais raro. Envergonhemo-nos do que houver mau e corrupto nos
nossos costumes; envergonhemo-nos de muitas vezes no seguirmos na
vida practica os dictames do christianismo: no nos envergonhemos,
porm, do culto dos sete seculos da monarchia. A lingua e a religio
so as duas cadeias de bronze, que unem no correr dos tempos as
geraes passadas s presentes; e estes laos que se prolongam
atravs das eras so a patria. A patria no  a terra; no  o
bosque, o rio, o valle, a montanha, a arvore, a bonina; so-no
os affectos que esses objectos nos recordam na historia da vida:
 a orao ensinada a balbuciar por nossa me, a lingua em que
pela primeira vez ella nos disse:--"meu filho!"--A patria  o
crucifixo com que nosso pae se abraou moribundo, e com que ns
nos abraaremos tambem antes de ir dormir o grande somno, ao p
do que nos gerou, no cemiterio da mesma aldeia em que elle e
ns nascemos. A patria  o complexo de familias enlaadas entre
si pelas recordaes, pelas crenas, e at pelo sangue. Tomae, de
feito, as duas dellas que vos parecerem mais estranhas, collocadas
nas provincias mais oppostas de um paiz: examinae as relaes
de parentesco de uma com outra familia, quaes as desta com uma
terceira, e assim por diante. Dessa primeira, que to estranha
vos pareceu  ultima, achareis um fio, enredado sim, talvez
inextricavel, mas sem soluo de continuidade. Uma nao no
 s metaphoricamente uma grande familia: -o tambem no rigor
da palavra.

A orao que consolou nossos avs nos consola no dia da amargura:
o gesto com que imploramos a providencia  mais vehemente quando
nos foi transmittido por aquelles que pedem por ns a Deus. 
por esse meio que os homens apertam mais os laos invisiveis
que os unem aos seus maiores; porque o sentimento mysterioso da
familia, e portanto da nacionalidade, se purifica e fortalece
quando se prende no cu.

Vde na historia a prova de que a religio pde por si s crear
uma nacionalidade mais rapidamente que todos os outros elementos
que tendem a compr as naes. Considerae as cruzadas; essa multido
de homens nascidos em paizes diversos, entre os quaes no ha nenhuma
communidade de interesses, antes muitas vezes odios sangrentos e
fundos. L na Asia, em frente do islamismo, formam um s povo;
so irmos, porque ajoelham todos ante o mesmo altar; combatem
todos pela mesma ida religiosa. Olhae para os mussulmanos: vde
o koran agglomerando, assimilando o beduino e o egypcio, o alarve
do Atlas e o negro de El-Sudan. Onde quer que um pensamento grande
precisa de toda a energia de uma unidade social para se desenvolver
e realisar, l haveis de encontrar a religio produzindo essa
energia.

Se isto  assim, qual culto, entre os de todas as parcialidades
christans, ser mais efficaz em gerar essa unidade forte do amor
patrio, que d, no tanto a vida activa e exterior, como uma vida
intima, escondida, tenaz, que resiste  morte e  dissoluo social?
Sero essas mil variaes do protestantismo, que diariamente se
vo subdividindo, e condemnando umas pelas outras; essas crenas
incertas, em que o filho j despreza o culto que o pae seguiu, e
o neto desprezara o de ambos? Quando e onde, no dizemos na mesma
cidade e na mesma rua, mas na mesma familia, em quanto o marido
dorme ao som monotono do sermo anglicano, sublime de trivialidade
e tedio, a mulher d representaes de Bedlam[1] n'uma senzala de
quakers ou de methodistas, pde-se acaso dizer que ahi a religio
 lao que impea a morte do corpo da republica, no nos dias de
ventura e prosperidade exterior, em que  facil conservar pelo
orgulho a unidade nacional, mas nas epochas de calamidade e
decadencia? Parece-nos pouco provavel. Ahi, as prises moraes
da familia so apenas habitos humanos, e no esto harmonisadas
e sanctificadas por se prenderem no cu: o primeiro sopro das
paixes ou da desventura as reduzir a p. A historia tambem
no-lo diz, e a historia no  seno a prophecia do futuro.

O protestantismo accusa o catholicismo de se haver afastado da
pureza christan antiga, e gaba-se de ter revocado o christianismo
s suas tradies primitivas. O discutir tal materia, em relao
s doutrinas, fra insensato: os tempos dessa argumentao
consummaram-se; tudo por este lado est dicto de parte a parte.
Quanto, porm, s formulas exteriores do nosso culto, so essas que
ainda hoje attrahem os insulsos motejos da imprensa protestante;
 o culto catholico principalmente que d origem quellas graas
inglezas, to agudas como a intelligencia dos habitantes do
_Bethnal-Green_ de Londres ou do _Winds_ de Glasgow, embrutecidos
pela fome, pela embriaguez e pela immundicie; to brilhantes e
leves como o fumo de carvo de pedra, que constitue a atmosphera
britannica. Diariamente so accommettidas as duas naes das
Hespanhas nos seus habitos religiosos por homens que empregariam
melhor o tempo em estudar os cancros asquerosos que devoram moral
e materialmente a classe popular no seu proprio paiz, e em pedir
 riqueza, s poderosa, s respeitada, s insolente, mais alguma
caridade para com os muitos milhes dos seus compatricios, que
lidam, cheios de fome e de frio, cubertos de farrapos e vermes,
para accumularem aos ps de bem poucos homens as fortunas
incalculaveis e quasi fabulosas que alimentam o luxo desenfreado
de Londres, da Roma, ou antes da Babilonia moderna.

Por certo que no culto catholico se tem introduzido abusos, e
para isso contribue muitas vezes o proprio clero, menos instruido,
menos bem educado, moralmente, que o clero anglicano. Mas em que
 culpado o culto da pouca instruco dos seus ministros, e dessa
falta de educao moral, que diversas causas, alheias  religio,
tm trazido e trazem ainda?  a igreja que recommenda a ignorancia?
So os abusos consequencias logicas das doutrinas catholicas? Eis
o que cumpriria se provasse, como no  difficultoso mostrar,
que o protestantismo, querendo annullar as pompas e espectaculos,
as formulas externas e brilhantes do catholicismo, matou tudo
o que a crena do Calvario tinha de unco, de consolaes, de
affectos para o commum dos seus sectarios, e converteu a religio
n'uma certa metaphysica nevoenta, que foge  comprehenso das almas
rudes e vulgares, quebrando todos os esteios, a que nesta vida de
tristezas e dores ellas se encostavam para confiarem no cu, e
consolarem-se na esperana; porque esses arrimos, necessarios 
sua fraqueza intellectual, eram o unico meio de subirem at o throno
de Deus, e descerem de l armadas de resignao para continuarem
a luctar com as tempestades da existencia. O protestantismo foi
s feito para os ditosos e abastados da terra!

Vde aquella casinha, to humilde e s, no meio de um descampado.
L, sobre camilha dura e rota, delira em accesso febril um filho,
unico amparo da me idosa, que vla chorando ao p delle. Na
sua solido e miseria nenhuns soccorros humanos pde esperar
a pobre velha, cujas mos trmulas em vo tentam conchegar as
roupas, que o febricitante arroja, murmurando afflicto com o
ardor que o devora. Uma lampada de ferro, que allumia frouxa o
aposento, arde no canto opposto diante de uma grosseira e affumada
imagem da Virgem. A triste me volve para l os olhos embaciados
da idade e das lagrymas, e sente que no se acha inteiramente
abandonada. Alli est outra me que tambem derramou pranto por
um filho; pranto mil e mil vezes mais amargoso que o seu. Ella
ha-de comprehender-lhe a afflico e valer-lhe, porque  boa, e
poderosa ante Deus. Ei-la, a pobre velha, que trpega se arrasta,
e ajoelha aos ps da imagem, e cruza as mos enrugadas, e ora;
ora com f viva. Na procella de terrores que a cercam comea a
bruxulear uma luz de esperana: espera, porque cr na possibilidade
da intercesso e dos milagres; e anima-se, e a tempestade da
sua alma asserena-se, e a dor mitiga-se, porque, no meio das
lagrymas e das resas, ella pensa l comsigo que aquella imagem
trouxe j muitas consolaes a seus paes, a ella mesma, e a toda a
familia, e que a Virgem Sanctissima ha-de acudir-lhe ao seu filho,
que desde pequenino gostava de ir apanhar as flores campestres
para enfeitar a Senhora, e que tantas vezes  noite antes de se
deitar a pr-se de joelhos alli onde ella estava, e resar uma
salve-rainha. E quantas vezes, depois destas oraes ardentes, volve
Deus olhos compassivos para a morada da miseria e da amargura, e
obra, no um milagre inutil, mas o beneficio que faria qualquer
medico, se na habitao solitaria houvesse a possibilidade de
se buscarem os soccorros da sciencia humana!

Dir o protestantismo que isto  idolatria? Que! Ignora, acaso,
o mais grosseiro catholico que acima dessa imagem est o espirito
puro que ella representa, e que acima desse espirito est Deus? O
catholicismo no seu culto das imagens, nas suas festas, nas suas
_visualidades_, como vs lhes chamaes, commetteu o grave erro de suppr
que a maioria do genero humano no era composta de philosophos, nem
capaz de um espiritualismo absoluto; de abstrahir inteiramente das
cousas sensiveis para remontar ao cu. O catholicismo lembrou-se
das doutrinas do Christo; accommodou-se  curta comprehenso
dos pequenos e humildes. Vs tendes um evangelho mais fidalgo
e altivo. O protestantismo convem por isso ao Reino-Unido, onde
os quatrocentos mil senhores do solo so tudo, e so nada quinze
ou vinte milhes de servos de gleba e de mendigos.

E como deixaria elle de ser exclusivo, aristocratico, orgulhoso? Essa
crena, ou antes essa infinidade de crenas, unidas s em guerrear
a igreja de dezoito seculos, e que no dia em que lhes faltasse o
inimigo commum se despedaariam mutuamente, no podem deixar de
viver de um mysticismo perfumado, de um culto inintelligivel para
o povo. Desde que a reforma substituiu  auctoridade e  tradio
a sciencia humana, o raciocinio e a discusso, sau do templo para
a eschola; transformou-se de f em theoria. Ento o christianismo
deixou de ser uma cousa practica e positiva para todos os homens:
os espiritos grosseiros e ignorantes acceitaram-n'o como um costume
que acharam no mundo, sem affecto nem m vontade, e as imaginaes
desregradas fizeram cada qual uma religio a seu modo. Deram uma
biblia ao ganhapo, ao porcario, ao belforinheiro, e por esse
facto constituiram-n'o theologo, sancto-padre, e at concilio.
Creram ter estendido ao genero-humano a maravilha das linguas de
fogo que desciam sobre os apostolos, e ficaram muito contentes
de si. As multides  que ficaram tristes e desconsoladas, porque
tinham desapparecido de redor dellas todos os symbolos, todas as
imagens, que lhes serviam como de marcos miliarios para buscarem
a Deus.

Affigurae-vos, de feito, o exemplo da me idosa e miseravel,
que v em transes mortaes o filho, seu unico abrigo; buscae este
exemplo ou outro qualquer, porque entre os pequenos no so raras
nem pouco variadas as occasies de asperos infortunios. Lanae-a
no seio do protestantismo. Qual refugio lhe offerecer a religio;
refugio immediato, solido, esperanoso? A biblia? Tambem ns
sabemos que thesouros encerra a biblia: tambem ns sabemos quantas
vezes as suas paginas divinas tm feito dilatar em torrentes de
lagrymas as negras aperturas do corao: tambem ns sabemos que
dessa fonte inexhaurivel mana a resignao e a paz: a igreja
catholica sabia-o muitos seculos antes de vs existirdes. Mas
quem vos assegura que a pobre velha achar a passagem analoga
 sua situao; que encontrar nas palavras do livro sacrosanto
o conforto de que carece, e a esperana do soccorro immediato e
sobre-humano de que no menos precisa? Quem vos assegura, emfim,
que ella saber ler? Ou  que no paiz dos quakers a inspirao
tambem faz de mestre-eschola, como exercita o mister de mestre
de theologia?

E depois, no sabeis que a dor moral do homem do povo tem gemidos
e queixumes;  estrepitosa, delirante, sincera? que no se reporta,
no se esconde, e vem ao gesto, aos meneios, aos olhos,  voz,
como a dor physica! Julgae-la acaso semelhante ao _spleen_ do dandy,
ou ao devorar intimo e calado das almas, a quem a educao e a
sciencia ensinaram a dignidade das grandes agonias? Estes taes,
exteriormente tranquillos, podem encostar-se ao brao, fitar
os olhos no livro aberto ante si, e aspirar naquellas paginas
sublimes e profundas o halito consolador que dellas espira. Mas
para o homem do povo, quasi primitivo, quasi selvagem, cujos
olhos nadam em pranto, e que se estorce e brada flagellado pela
afflico, a biblia  nesses instantes inutil, porque  impossivel.
Deixae-lhe a imagem do sancto, o crucifixo, o voto, o altar
domestico, a lampada accesa ante o vulto do martyr ou da Virgem:
deixae-lhe o ajoelhar, o gemer, o resar, o fazer promessas. Deixae
os symbolos materiaes da confiana na providencia  imbecilidade
da natureza humana, alis, crendo anniquilar a superstio e a
idolatria, no fareis seno matar a vida moral e religiosa do
povo.

Se nos dias, desgraadamente mui communs, das mguas extremas s
o catholicismo tem conforto para o homem rude, nos de contentamento
s o catholicismo tem festas que convertam para a gratido e
para Deus o seu goso interior, que tende a trasbordar em risos
e folgares. O simples repouso do domingo, para o que, condemnado
a lavor indefesso durante a semana inteira, compra  custa de
suor e cansao um pouco de po duro e grosseiro,  uma alegria
semelhante  do preso, que, adormecendo em ferros, despertasse
livre. Aquelle corao precisa de dilatar-se, aquelles sentidos
de recrearem-se, aquelle espirito murcho e triste de se tornar
vioso, de desabrochar de novo ao sol da vida, ao menos n'alguns
desses dias reservados ao descano.  ento que o catholicismo
lhe offerece as pompas das suas solemnidades; o templo illuminado,
os canticos dos sacerdotes, as harmonias do orgo, o espectaculo
brilhante das vestes sacerdotaes e dos adornos do altar, os
ramilhetes povoando os degraus do sanctuario, ou juncando o
pavimento, o incenso embalsamando a atmosphera. E como tudo isto
 para as multides, o culto trasborda do estreito recincto e
derrama-se pelas ruas, pelas praas, pelos campos em procisses,
em cirios, em romarias, e o povo fluctua, folga, resa, tripudia,
esquece-se dos seus destinos de miseria e trabalho, ama a religio
que o consola, e voltando s suas habituaes fadigas, leva para o
meio dellas a saudade do dia-sancto e as recordaes affectuosas
da igreja.

E o protestantismo? O protestantismo despedaou os vultos dos
sanctos, prohihiu os oragos, as procisses e as romagens: esfarrapou
alvas, casulas, amictos, pluviaes; apagou as luzes; varreu as
flores; assoprou o incenso. Fechou-se na celebrao do domingo;
e fez bem! bem ao povo, a quem para tedio e tristeza, nos paizes
protestantes, sobeja o domingo. E porque fez elle isto? Foi porque
essas cousas eram supersties papistas: as imagens idolatria,
a agua benta agua lustral, as vestes sacerdotaes indecencias
ridiculas, as ceremonias visagens, a missa mentira. Passagens
de biblia e compridos sermes ficaram bastando ao culto externo,
e se alguma cousa deixaram ainda a este, poetica e attractiva,
foi o canto dos psalmos e as harmonias do orgo; porque, como
todos sabem, nas agapas dos christos primitivos cantavam-se os
psalmos ao som do orgo!! Os protestantes so indubitavelmente
antiquarios eruditos, mas, sobretudo, logicos.

Qual foi o resultado desta reformao insensata de instituies
antigas e venerandas? Foi que o culto se tornou n'um habito machinal,
n'uma aco que se practca na impossibilidade de se practicar
outra. A policia vigia sobre isso. Deixe ella ao domingo abrir as
lojas, os passeios, os estabelecimentos publicos, os espectaculos,
as fabricas e as officinas; deixe correr nas veias do corpo social
o sangue comprimido, e os templos dos districtos d'Inglaterra mais
fervorosos no protestantismo ficaro to ermos como as igrejas da
Irlanda, onde o reitor prga ao sacrista o suado sermo, que ha-de
um dia, impresso, allumiar o mundo, emquanto o seu recalcitrante
rebanho,  porta do presbyterio solitario, ouve ajoelhado na rua
a missa que em altar portatil lhe diz o pobre clerigo catholico,
verdadeiro e legitimo pastor, a quem incumbe o consola-los, bem
como ao parocho protestante pertence... o que? Fazer predicas
s paredes, e comer os dizimos, sacramento, que, de certo, o
puritanismo protestante achou n'algum alfarrabio velho ter sido
instituido por Christo!

Temos ouvido lamentar s pessoas de boa f excessiva, destas
que estudam as naes nas apparencias, e no na vida intima,
que o catholicismo no tome entre ns a severidade e decencia
exterior do culto anglicano; que o dia consagrado ao Senhor no
seja guardado pontualmente; que as nossas igrejas no offeream
na celebrao dos officios divinos a gravidade, o silencio, a
ordem, o aceio de um templo protestante, nas horas destinadas
 orao. No estado actual das sociedades, em que o fervor dos
primeiros tempos christos tem esfriado, em que, tanto entre
catholicos como entre protestantes, a religio deixou de ser o
primeiro, ou, ao menos, o exclusivo negocio dos homens, o que
elles desejam seria impossivel, e se absolutamente um bem,
relativamente um grande mal; porque as causas que facilitam esse
estado de cousas em Inglaterra so a prova mais clara da morte,
se no de uma certa religio vaga, em que os espiritos mais
cultivados se alevantam at ao p do throno de Deus, ao menos
da religio positiva, practica, definida, morta e enterrada ha
muito na mina de carvo de pedra chamada Gran-Bretanha.

J dissemos que no  tanto o sentimento religioso que guarda em
Inglaterra a decencia do culto, como a admiravel policia ingleza.
Quem no o sabe? Quem ignora que naquelle paiz a religio tem a
natureza de outra qualquer formula material da sociedade; que
 uma cousa como o regimento, a nau de guerra, o _workhouse_? Ao
christo um vigario, uma biblia, e a cadeia se perturbar o officio
divino; ao soldado um coronel, uma espingarda, e uns aoutes se
mecher a cabea na frma; ao marinheiro um commodro, um posto
juncto da amurada, e um mergulho por baixo da quilha se offender
a disciplina; ao miseravel que vae cahir no workhouse um director
implacavel, uma atafona, e rao curta para aprender a deixar-se
estalar  mingua sem pedir esmola. A cada instituio suas condies,
sua sanco penal, seus destinos: o regimento serve para provar
aos chartistas que a melhor organisao politica possivel  a
que faz morrer annualmente milhares de obreiros de fadiga, de
fome, e de febres putridas sobre uma pouca de palha fetida e
humida, no fundo de subterraneos; a nau serve para civilisar
a India pelas contribuies, e moralisar a China pelo opio; o
workhouse serve para curar radicalmente os que no tm nem po nem
camisa, do vicio infame da mendicidade; emfim a igreja dominante
_(established church)_ serve para sustentar de dizimos muitas familias
honradas com as modestas e reformadas prebendas anglicanas, entre
as quaes nenhuma excede a vinte mil libras esterlinas _per annum_,
ou, em moeda portugueza, a obra de uns mesquinhos duzentos mil
cruzados.

O templo catholico  commummente o symbolo da completa igualdade:
l no ha distinces, seno para os ministros do culto; e quando o
orgulho humano, que forceja sempre por invadir ainda as cousas mais
sagradas, vae ahi profanamente estender o tapete aristocratico, e
collocar sentinellas, o povo murmura, e murmura em voz alta; porque
sabe que na sociedade christan s ha um Grande e Poderoso, que 
Deus. Os nossos habitos, as nossas idas so que o mais commodo, o
mais distincto logar no templo pertence ao que primeiro o occupou.
O catholicismo entendeu que diante da magestade do Creador os
vermes cobertos de brocado no o so menos que os vermes cobertos
de farrapos. Assim o vulgo dos fiis precipita-se como torrente
atravs dos umbraes da igreja; estrepita nas lageas do pavimento
com os seus sapatos ferrados; roa com o burel grosseiro as finas
sedas dos nobres e abastados; afasta com as mos callosas os
grupos alindados dos peralvilhos; esquece-se, emfim, dos respeitos
humanos, que se guardam, e devem guardar, c fra. Como, pois,
obter a ordem, as attenes, o silencio? O nosso povo  rude
e mal educado (no o gabmos por isso; mas o vulgacho inglez
leva-lhe, em bruteza, incomparavel vantagem); o nosso povo conserva
dentro do templo os habitos ruidosos, inquietos, grosseiros da
praa publica. E poderia elle despi-los de subito ao entrar na
casa de Deus? Prova acaso o borborinho, que ahi sa, desprezo
pela religio? Examinae os que parecem estar com menos respeito
e decencia; os que falam e se agitam: so aquelles entre os quaes
o christianismo iria achar os seus martyres, se viessem de novo os
tempos em que a crena do Crucificado precisava de ser revalidada
pelo sangue dos seguidores da cruz. Que esses pobres tontos, que
nos motejam sem nos conhecerem, venham estudar o catholicismo
portuguez, se d'isso so capazes, e sabero se ns falmos verdade.

Nestas consequencias, to logicas, to rigorosas do caracter
primitivo da religio christan, e do estado das classes inferiores
da sociedade, poz cobro a igreja anglicana.  verdade que
Jesu-Christo, segundo o Evangelho, _na traduco vulgata_, chamou
principalmente os pobres e humildes; e se no templo ha quem valha
mais que outrem, no so por certo aquelles que o Filho de Deus
achava mais anchos para entrarem no reino dos cus, do que um
camello para entrar no fundo de uma agulha. A igreja reformada
entendeu provavelmente que outra era a interpretao do Evangelho;
porque  corrente que os catholicos nunca souberam grego, desde S.
Jeronymo at Angelo Policiano, ou Ayres Barbosa, para o poderem
interpretar bem. Assim, em Inglaterra, aquellas to formosas e
vastas cathedraes da idade mdia, a que s falta um culto poetico
e consolador para serem sublimes, repartiram-se em camarotes de
theatro, fechados  chave, e alguns at com todos os requisitos
desse _comfort_, que s os inglezes conhecem bem. As jerarchias
do dinheiro e do sangue esto l rigorosamente guardadas: pelo
logar dos stallos, e pelo seu luxo, os espiritos habituados 
topographia da _Church_ podem orar o numero d'avs ou os milhares
de libras que possue cada filho da igreja anglicana: o commum
dos villos, empurrados para ao p da porta, l perdem em parte
os deliciosos periodos do sermo do reitor, encarregado de
acalentar... queremos dizer de conservar puros na f averiguada
e decretada pela grande theologa chamada a rainha Isabel, os
seus _dizimados_ freguezes.

E o vulgo? Os homens do trabalho, da fome, dos farrapos? Os tres
quartos da populao ingleza? Esses? Esses l tm o templo da
esperana e do consolo: l tem o _gin's palace_ (palacio da genebra),
a taberna. Na sua incrivel miseria, os homens que no podem encontrar
Deus, porque a igreja anglicana lh'o collocou n'uma atmosphera
nebulosa, onde o no descortinam; porque o templo os repelle;
porque o _priest_ com seu aristocratico, polido e perfumado sermo,
no pde substituir a entidade exclusivamente catholica chamada o
missionario, sublime de persuaso, de energia e de virgem rudeza;
os miseraveis, dizemos, atiram-se desorientados aos braos da
embriaguez, porque a embriaguez tem o esquecimento, tem a sua
horrivel alegria. L, no _gin's shop_, estendendo o brao cadaverico
e vacillante para a destruidora bebida, sorvendo-a com phrenesi,
essa especie de brutos com frma humana resumem no seu aspecto
e meneios, e na decadencia de todos os sentimentos de pudor,
as ultimas consequencias moraes do protestantismo.

Que nos seja permittido citar as proprias palavras de um escriptor
moderno[2], que, melhor talvez que ninguem, pintou o estado presente
das ultimas classes em Inglaterra, e que em todos os factos que
narra se funda ou nas proprias observaes, ou nos documentos
officiaes publicados pelo governo inglez. Perfeitamente imparcial
a respeito da Gran-Bretanha, o seu testemunho  o que mais a
proposito podemos neste ponto invocar.

"A seriedade e o silencio com que este licr ardente (a genebra)
 tragado, fazem arripiar.  como se o povo assistisse a um officio
divino. Consummado o sacrificio, vo-se assentando no banco de
madeira corrido em frente do balco, e alli ficam quedos, mudos,
como arrebatados em ineffavel extasi. Depois, passados alguns
minutos, voltam ao balco, tornam a beber, e repetem at se lhes
acabar o dinheiro. Vae-se assim a ultima mealha. E tm animo
de affrontarem o morrer de fome, elles e seus filhos, para se
embriagarem. Provou-se pelos inqueritos feitos por causa da lei
dos pobres, que as esmolas em dinheiro, dadas pelas parochias,
am cahir inteiras na taberna, e s aproveitavam ao taberneiro.
_A povoao infima da Inglaterra est de tal modo atolada no seu
lodaal, que no ha ahi caridade que possa desempega-la._"

"Sabem todos quo rigoroso preceito ecclesiastico e civil  o
guardar o domingo em Inglaterra. A unica excepo da regra  a
taberna. Lojas, tudo fechado; logares de honesto ou instructivo
recreio, como hortos botanicos e museus, o mesmo. S o _gin's shop_
se abrir de par em par a quem empurrar a porta com o p. O caso
est em que parea cerrada: duas meias portas solidas, que se fechem
por si, fazem a festa: janellas fechadas: dentro lusco-fusco,
como em sanctuario, e at sua luz de gaz. Tomadas estas cautelas,
plena licena, licena auctorisada para se venderem bebidas todo
o dia sem lhe faltar hora. E  neste paiz que os caminhos de
ferro esto devolutos por todo o tempo do officio divino, em
honra do domingo! Emquanto, em Manchester, eu me espantava das
largas que se davam s tabernas, apresentava-se  camara dos
Lords um bill para prohibir o transporte das mercadorias pelos
canaes no sagrado dia do domingo! Nesta cidade de Manchester ha
jardins zoologicos e botanicos, que o povo frequenta gostoso; mas
no se obtem da pontualidade anglicana que estejam patentes no dia
sancto; e os bispos, to escrupulosos no mais, so indifferentes
pelo que toca aos _gin's shops_, abertos publicamente e frequentados
ao domingo. No  singular que a cousa unica permittida ao povo
seja o embriagar-se?"

No!--diriamos ns ao auctor do excellente livro que havemos
citado.--O governo e a igreja da Gran-Bretanha sabem que entre a
horrivel miseria das classes laboriosas, a embriaguez e o suicidio
no ha uma quarta cousa para suavisar a agonia dos tractos que a
primeira d ao homem do povo. A religio, que falava aos sentidos
do vulgacho, e por meio delles ao seu espirito, mataram-n'a;
e como a morte no tem remedio, o protestantismo, creana de
dous dias, mas j sem vigor e esfalfada, encommenda  religio
das pipas o salvar os malaventurados obreiros, no do suicidio
moral, mas ao menos do physico.

Dir-se-ha que o povo no est entre ns n'uma situao analoga 
do povo inglez, para o catholicismo ser posto  prova? Felizmente
isso  verdade. Mas j houve tempos quasi semelhantes, posto que
ainda inferiores em terribilidade, aos que vo correndo para
a gente miuda de Inglaterra. Era quando a peste devastava as
nossas cidades e ermava os nossos campos, levando-nos s vezes
mais de um tero da populao. Ahi existem innumeraveis monumentos
dessas epochas desastrosas: que apparea um s por onde se prove
que o desalento popular buscasse conforto no vinho e aguardente.
Pois, c, o remedio no era caro! O que achmos so as preces,
as romarias, as procisses, as lagrymas, os votos, o sentimento
exaltado da confiana e da resignao na Providencia. Achmos
a pequena differena que vae de um christo a um bruto.

"E os irlandezes?"--Oh, bem sabemos que os irlandezes, catholicos
como ns, na sua miseria monstruosa tm cahido, se  possivel,
ainda mais fundo que os inglezes. Mas, em rigor, esses catholicos
na inteno e na crena podem acaso s-lo no culto que aviventa o
espirito? Onde lhes deixou o protestantismo os seus templos, os
seus sacerdotes, os seus costumes religiosos? O vulgacho irlandez
 o argumento mais dolorosamente persuasivo da necessidade dessas
festas, dessas alegrias, dessas frmas materiaes do culto. Sem ellas,
o catholico miseravel embrutece-se como o miseravel protestante;
e o seu embrutecimento vem, por outra parte, recordar-nos de
que no  possivel achar um nome, que qualifique devidamente o
descaro com que o anglicanismo, inquisidor implacavel e tenaz
de tres seculos, nos lana em rosto as trinta mil verdades e
as sessenta mil mentiras, que, com justissimo horror, se relatam
da Inquisio.

Eis o que ns podemos responder aos insulsos dicterios com que 
diariamente vilipendiado o catholicismo portuguez: e no dizemos
tudo; no dizemos metade. Quanto aos motejos que nos dirigem como
nao pobre, pequena, fraca, isso no passa de uma covardia,
que s deshonra a quem a practca. Trabalhemos por levantar-nos
da nossa decadencia. Ser essa a mais triumphante resposta.

E com estas deambulaes de patriotismo religioso saltmos a
ps junctos pela historia do padre prior. No capitulo seguinte
daremos satisfao plena ao pio e benigno leitor.

       *       *       *       *       *

[1] Bedlam, como a maior parte dos leitores sabem, 
o mais famoso hospital de doudos em Inglaterra.

[2] Buret, _De la misre des classes laborieuses_ (1842),
Liv. 2. cap. 4.



VI

BARTHOLOMEU DA VENTOSA.


A quem no tem succedido nas horas de solido, no silencio da
noite em que no pde dormir, ou no pino de dia calmoso, ao
atravessar o bosque cerrado e sombrio, onde s se ouve o zumbir
e o ferver dos insectos; a quem no tem succedido engolfar-se
n'uma vaga meditao, e, por assim dizer, tombar de pensamentos
em pensamentos, presos por fio to tenue, to imperceptivel para
a consciencia, que, depois dessa especie de devaneio, pretender
remontar da ultima  primeira ida seria baldado empenho, por
falta de transies naturaes e logicas? E todavia, a alma, que,
nessa situao, como que perde o sentimento da vida externa l
achou, no seu incessante cogitar, uma ponte invisivel para transpr
os abysmos que a fria, coixa e orgulhosa razo humana suppe
existirem, quasi a cada passada, no mundo da intelligencia. Quando
o espirito se desata dos corpos; quando a imaginao, depurando
o senso intimo, o faz repellir a materia, fechando-se, como a
mimosa pudica,  aco grosseira dos sentidos externos, o homem
alevanta-se at o viver de alm da morte, a luz dos anjos allumia-lhe
as profundezas mais obscuras do universo ideal, e elle sabe quaes
os caminhos e valles que unem as suas cumiadas brilhantes, unicos
pontos que se podem enxergar da terra. O primeiro que disse "_em
tudo est tudo_" teve uma destas revelaes da imaginao pura,
revelao completa do ideal, que no  mais do que a fuso da
variedade absoluta e infinita na infinita e absoluta unidade.

Mas estes momentos, em que somos illuminados pelo sol da vida
celestial, passam rapidos: o espirito cahe logo dentro dos limites da
sua existencia de provana e desterro, e recordando-se confusamente
daquellas inspiraes passageiras, sorri-se e chama-lhes sonhos,
abuses, desvarios.  que a pobre e suberba razo, myope advogada
do lodo e do crepusculo, rejeita com horror as cogitaes puras
e luminosas, que Deus faculta s vezes ao miseravel ente, creado
quasi anjo por elle, e a quem o primeiro raciocinio que se fez
na terra converteu em insensato e precto.

E a que vem estas metaphysicas aqui? De que utilidade so ellas
para a historia do parocho da aldeia, e da festa do orago, ha
tanto tempo interrompida, e que at agora no tem passado de
divagaes por objectos sem ligao com a vida e costumes do
reverendo padre prior?--"Venha o padre prior: venha a festa--diro
alguns--e deixemo-nos dessas metaphysicas modernas, que escorregam
por entre os dedos, e no passam de feixe de maravalhas ao p
daquellas grandes philosophias dos ideologos, que at um sapateiro
era capaz de estudar batendo a sola e apertando o ponto; philosophia
de po po, queijo queijo; philosophia substancial; philosophia
d'ouvir, vr, cheirar, gostar, e apalpar, rolia, atoucinhada,
confortativa. Se era necessario algum troo da sciencia do _atqui_ e
_ergo_ para atar estes capitulos ou capituladas da chronica aldeian,
porque no recorrer ao clarissimo Condillac, ao bis-clarissimo
Tracy? Para que parafusar em entes de razo impalpaveis, em
armadilhas que trescalam s parvoices germanicas, quando estava
ahi  mo a philosophia do senso commum, que  o senso patago
e russo, tupinamba e sueco, chim e dinamarquez, emfim o senso
de todo o mundo?"

Ai, leitor, que ahi bate o ponto! Quem me dera isso! Quem me dera
poder explicar por um capitulo tantos, paragrapho tantos, daquelle
sancto homem de Locke, o que me succedeu ao escrever esta famosa
historia, e lanar na balana da tua inflexivel justia uma desculpa
de obra grossa dos meus rodeios, desvios e viravoltas na ordem e
disposio destes importantes estudos! Por mais que scismasse,
por mais que afferisse pelos bons principios ideologicos o meu
trabalho, sabia-me tudo torto: era querer levantar uma bla com um
gancho, ou firmar a taboa-rasa do philosopho inglez sobre uma das
pontas de um dilemma. Como ageitar a minha narrao deambulatoria
pelas regras do methodo? Impossivel, impossibilissimo! Fiz ento
como Constantino Magno. No achando escapula nem esperana na
religio da materia em que me crearam, fugi para a religio dos
espiritos, e por uma theoria de abstraco _subjectiva_ expliquei,
como Deus me ajudou, as minhas, alis inexplicaveis, divagaes.
Encostado a ella como a uma columna de basalto (de basalto, porque
as de marmore e de bronze esto muito safadas do uso quotidiano)
rir-me-hei do mais abalisado doutor, que venha perguntar-me qual
 a ordem logica das minhas idas. A resposta est no que expuz:
pontes intellectuaes, invisiveis, inappreciaveis pelas regras
ordinarias do methodo; pontes que unem o branco ao preto, o circular
ao anguloso, o proximo ao remoto. Fecho-me nisto. A imaginao
que assim o fez,  porque assim devia ser: est muito bem feito,
ao menos no mundo da idealidade pura. Foi l que eu passei de
um veneravel parocho d'aldeia, portuguez velho em costumes, em
linguagem, em crenas, vulto poetico e sancto, para um inglez
impertigado, monosyllabico, iconoclasta, libertador de pretos
alheios, escravisador de saxes e irlandezes brancos; n'uma palavra
galgei de um a outro plo da humanidade. Foi l, que eu pude
tombar, rolar, precipitar-me do catholicismo suave, consolador,
festivo, ameigador dos miseraveis, despresador dos poderosos
suberbos, symbolisador, no seu culto, da igualdade ante Deus,
para o anglicanismo perfumado, espartilhado, casquilho, tezo,
aristocratico, nevoento, dizimador, intolerante, enxotador dos
mendigos, camaroteiro dos templos; pude tombar, rolar, precipitar-me
do vertice brilhante, d'onde derrama a sua eterna claridade o
puro espirito do christianismo, no charco onde o mergulhou e
affogou a vontade de um tyranno devasso do seculo XVI, e a van
presumpo de sua filha, a pura, generosa, e sbia Isabel, especie
de concilio Niceno de carne e osso para o protestantismo inglez.
Dou vinte annos a todos os ideologos para explicarem por outro
systema a transio monstruosa e incomprehensivel, que fiz a
semelhante respeito nestes gravissimos estudos. Idealisei um
inglez (foi faanha!), idealisei o meu bom prior, e no mundo
da razo pura l achei que havia entre essas existencias,
infinitamente oppostas, uma affinidade: qual, no sei eu dizer,
porque o esqueci: e ainda que me lembrasse, no saberia exprimi-lo.
Dada esta explicao aos pechosos, vamos s promettidas duas
palavras sobre a festa.

Era um dia ardente de julho, a 27, cousa certissima para o leitor,
em consequencia das minhas profundas investigaes chronologicas. O
sol ia alto: a igreja parochial, involta no manto tricolor--branco,
amarello, e vermelho--cal, ochre, rxo-terra--parecia rir no seu
jubilo. Um moo do Bartholomeu da Ventosa, rapazote de quinze
annos, quatro mezes, vinte quatro dias, e vinte tres horas e
tres quartos completos (por ter nascido a uma segunda-feira, 
meia noite menos um quarto, de dous para tres de maro) neste
grande dia do orago pilhra ao moleiro duas graas a um tempo,
a de deixar em descano o seu tonel das Danaides, a implacavel
joeira, e a de poder assistir  festa e ouvir a missa cantada
e o sermo, em vez de ir acabar o pesado somno da madrugada 
missa das almas. Gabriel, que assim se chamava o rapaz, ou antes
_Graviel_, segundo a mais euphonica pronuncia saloia, vestiu logo
pela manhan as suas calas e jaqueta de bombazina em folha, e o
seu colete vermelho, engenhado de um do patro a trco de dous
mezes de soldada, calou as botifarras novas, e enterrou o barrete
azul e encarnado na cabea, derrubando-o para traz, e sem fazer
caso do almoo (pois era uma aorda que os anjos a comeriam)
desandou, outeiro abaixo, pela volta das sete e trinta e cinco
minutos da manhan, caminho da parochia. Via-se que um grande
negocio lhe occupava o espirito, por isso que levava os olhos
cravados no campanario, e sem fazer caso das trilhas, cortava
por entre as restevas, escorregando, aqui, nas pedras soltas,
levando-as, acol, diante dos bicos agudos das botifarras. Chegou.
O sacristo, que estava  porta da igreja, apenas o lobrigou
poz-se a rir, porque logo entendeu o verso. Gabriel era um dos
maiores pimpes em repicar sinos que havia entre a rapaziada
do logar, mas desde que entrra para casa do tio Bartholomeu,
nunca mais puzera ps no campanario. Nos meneios, no gesto, no
olhar lhe revia a sde, a ancia, a saudade das harmonias risonhas,
doudas, estrugidoras de um repique desenganado. Vinha to cgo,
que s viu Joo Nepomuceno (assim se chamava o sacristo) quando
deu de rosto com elle. Estacou embatucado; tirou o barrete, e
comeou a coar a regio occipital, olhando de revez para o
sacristo, que se encostra  hombreira, com as mos cruzadas
atraz das costas, assobiando o _Veni Creator_.

"-l Graviel!--disse este por fim com um sorriso.--Voc hoje
campou. O patro  festeiro; fica o moinho a dormir! Heim? Galdre;
no  assim? Mas, cos dianhos! no sei como no vieste c dormir.
Bota os olhos acol para o arraial. Vs? Duas bolaxeiras, e a tia
Sezila com queijadas; e disse. Ainda nem sequer o Chico appareceu
para comear o repique. Pois para isso no  cedo, que a missa
da festa  s dez em ponto. J o padre Chaparro e frei Jos dos
Prazeres esto na sancrestia, e dizem que no tarda ahi frei
Narciso, que vem servir de mestre de ceremonias."

"Oh s Joo de Permecena!--acudiu o saloio, que tornra, ao ouvir
o nome do Chico, a enterrar o barrete na cabea, mas desta vez
 banda--com a sua licena, ha-me de perdoar: no sei o que fez
em chamar n'um dia destes aquelle jimento do Chico para tocar
os sinos. Aquillo!? Ora, deixa-me rir. Ha-de-a fazer bonita;
no tem duvida? Olhe, sempre lhe digo..."

"No digas nada: bem sei. Mas que dianho querias tu com uma cravella
de doze que d a menza da irmandade, e nicles? Mesmo o Chicho,
deu-me agua pela barba para o resolver. Se aquillo so uns dianhos
d'uns fonas!"

"Pois se vocemec quer--interrompeu Gabriel, em cujos olhos se
accendia o desejo, o deleite, e a esperana--eu l vou. Hoje o
patro deu-me licena at s trindades. Salto na torre, e vae
tudo raso. Toco at aquella cantiga de Lisboa, que dizem que canta
um tal Catragena em S. Calros: ... totro, tro-balo, re-pim,
piri-pim-po."

Enthusiasmado, o moo do moleiro cantarolava, imitando os sons de
um sino, ou antes de um tacho, a musica horrendamente aleijada,
esfarrapada, assassinada do dueto de Assur e Semiramis: _La sorte
piu fiera_. Se Rossini alli chegasse de subito, ou no a conhecia,
ou enganava-se. O sacristo estava enlevado.

"Homem!--disse elle quando Gabriel parou--bom era isso: mas o
Chico est ajustado; e j agora....."

" que o Chico  o seu padagoz: ha-me de dar licena que lho
diga, senhor Joo de Permecena!--interrompeu o moo do moleiro,
vendo apagar-se a luz que lhe illuminra o espirito.--Pois eu
tocava ahi a desbancar ainda por menos: bastava que me pagasse
um arratel de bolaxas e dous berimbus."

"Eu c no tenho padagozes, homem! Cos dianhos!--replicou o
sacristo.--Se elle no estiver aqui s oito, dou-te a chave da
torre, e so hoje teus os sinos. Quando quizeres ters as bolaxas
e os berimbus."

A proposta de Gabriel penetrra como um balsamo suave na alma
do sacristo: fazia a despeza com seis e meio, e economisava o
resto para a igreja, isto , para si, como representante della.

Gabriel saltou acima do parapeito do adro e poz-se a olhar para
o lado onde morava o Chico. Batia-lhe o corao com fora. s oito
horas devia nascer para elle um dia de gloria e contentamento, ou
de desdouro e zanguinha. Deram as oito.--"Viva!--bradou, saltando
ao terreiro, e correndo ao sacristo.--Venha!--proseguiu, lanando
mo da chave da torre com tal violencia, que Joo Nepomuceno
por um triz no foi a terra. Ia-lhe quebrando um dedo.

"Dianho!... Safa, alimaria! Forte doido!... Oh Graviel! Ouve c,
Graviel! Olha que est passada a corda da garrida..."

Qual Gabriel, nem meio Gabriel! Tinha desapparecido, semelhante
a um foguete. O sacristo levantou os olhos para o campanario
e viu j as cordas a bambearem e a desembaraarem-se, como as
tranas da nobre dama nas mos subtis de aia geitosa. Gabriel
era, sem a menor sombra de duvida, a flor e nata da rapaziada
curiosa da aldeia.

Uma pancada retumbante e sonora no sino grande, a qual se repetiu
lentamente algumas vezes, foi como um mensageiro, despedido por
montes e valles, a annunciar um dia de repouso e folgares para
o homem do campo, curvado sob o sol ardente nas ceifas e mais
trabalhos ruraes do estio, durante os longos dias de trabalho.
Era como o romper de uma vasta symphonia. Gradualmente os outros
sinos misturaram as suas vozes argentinas com a do primeiro, e
a atmosphera esplendida vibrou ondeando em tempestade de notas
que se cruzavam, cortavam, interrompiam, luctavam em barbara
harmonia. A principio Gabriel, pausado e lento, lanava
successivamente uma ou outra mo a esta ou quella corda: pouco
a pouco os seus movimentos tornaram-se mais rapidos, e os sons
que transudavam por todas as aberturas, pelos minimos poros da
torre, comeavam a assemelhar-se ao granizo do noroeste, que de
instante a instante se torna mais espesso, ao passo que a nuvem
corre mais perpendicular. Era, por fim, um remoinho, um delirio,
uma furia sonorosa. Gabriel estava tomado de campanomania; mos,
ps, dentes, tudo repicava. Ennovelado, como um gatinho que quer
agarrar e ao mesmo tempo repellir um dixe que colheu s unhas,
o bom do rapaz, com os olhos faiscantes e desvairados, parecia
possesso: trepava, bracejava, careteava, tropeava, agachava-se,
torcia-se, pulava, volteava, como se estivesse recebendo por
todos os lados e a cada instante descargas electricas. Insensivel
 matinada infernal, que lhe estrepitava nos ouvidos, Gabriel
dirigia palavras de amor, d'ameaa, de incitamento aos sinos,
como se elles podessem ouvi-lo. Queria communicar-lhes o seu
ardor e enthusiasmo de dilettante; e como se o entendessem,
dir-se-hia que, no contnuo vaivem, elles oscillavam tremulos
de prazer, e tentavam desprender da pedra os braos robustos
e voarem, como as aves que tambem soltavam livremente as suas
harmonias pela amplido dos ceus.

No fim de duas horas de lida a natureza recuperou os seus direitos.
Alagado em suor, perdido o alento, esgotados os brios e as foras,
Gabriel affrouxra pouco e pouco. A estrepitosa e horrenda caricatura
do duetto de Semiramis fra o canto do cysne. A viveza doudejante
do repique converteu-se n'um tocar lento e solemne, que ora imitava
o dobre de finados, ora os tres signaes melancholicos que indicam
o fim do dia que expira.

Tambem era tempo. No seu banco parte dos festeiros, cubertos
de fitas e medalhas, esperavam j impacientes que o prior, o
padre Chaparro, e frei Jos dos Prazeres saissem da sacristia
para comear a missa. No coreto as rebecas chiavam cada vez com
odio mais figadal entre si, ao passo que os _virtuosos_ faziam
todas as diligencias possiveis para as pr de accordo comsigo
mesmas e com os outros instrumentos. A gente, no s da aldeia,
mas tambem dos casaes e logares vizinhos, affluindo de contnuo,
enchia a igreja, e o aperto, que a a maior, principiava a avariar
os chapeus, os schalls e os vestidos das aldeans mais opulentas,
que tinham obtido transfigurar-se horrendamente com os trajos
das peralvilhas da capital, os quaes harmonisavam to bem com
aquelles corpos mal acepilhados e robustos, com aquelles rostos
morenos e rosados, como os instrumentos da revoltosa orchestra
se afinavam entre si.

Era um escandalo, profundo escandalo, para as beatas da freguezia,
para as almas repassadas de patriotismo saloio vr as novidades de
vestuarios, que as corruptoras influencias de Lisboa am exercendo
nos antigos costumes, viciados por essas escusadas louainhas. A
honestidade das raparigas, entendiam aquellas matronas de virtude
to solida como as suas sapatas, tinha ido por ares e ventos
involta nos farrapos das humilhadas saias de baeta vermelha, das
abandonadas roupinhns de panno azul, e das pyramidaes carapuas.
A devassido, embrulhada nos vestidos de chita, de lan e de seda,
e mettida entre o forro dos chapeus de palha, penetrra no seio
das familias. Tudo estava perdido, e a moral a cada vez a peior,
diziam ellas com a philosophia macissa que o judicioso Horacio j
gastava ha dous mil annos, e que  a mentira mais trivial, mais
velha e mais tola que se conhece no mundo. Nas suas reflexes
piedosas as respeitaveis decanas da aldeia esqueciam, ou antes
ignoravam, o unico motivo serio que havia para lamentar aquella
transformao. Era que esses trajos tornavam contrafeitas as
raparigas aldeians; matavam a poesia campestre; associavam ao
idyllio a walsa e o whist, e como que impregnavam a atmosphera,
pura, brilhante e livre, dos miasmas repugnantes que povoam o
ambiente pesado e abafadio de tertulia cortesan.

Mas, antes de proseguirmos nesta gravissima historia,  necessario
que trepemos quella encosta que fica defronte do presbyterio, e
que vejamos o que  feito de um nosso conhecimento antigo, roda
indispensavel para o andamento da machina de successos que vamos
tecendo. Quem no v que falmos do nosso jovial e praguejador
Bartholomeu, sancto velho, se no fosse um desalmadissimo avaro?
O moleiro, desde que o filho casra, andava-lhe tudo  medida
dos seus desejos. Era ganhar dinheiro como milho, e o futuro
da familia dos Ventosas surgia brilhante no horisonte. O Manuel
estava de feito aposentado na azenha do Ignacio Codeo, e com
uma labutao de por ahi alm. As peas do padre prior tinham
feito o milagre sonhado por Bartholomeu, e ainda haviam sobejado
algumas, que o honradissimo moleiro associra s do seu mealheiro
para arranjar o casal dos Canios, de cuja venda j lhe dera
palavra seu irmo Barnab, a quem elle, havia dous mezes, no
deixava de dr d'ilharga para que lhe tornasse as suas vinte
moedas, que lhe eram indispensaveis, dizia o matreiro saloio,
para pagar uma divida contrahida com um usurario de Lisboa por
causa do casamento do seu Manuel, que se vra obrigado a arrumar.
E como Barnab, que tambem era saloio e manhoso, lhe objectasse
que s vendendo o casal dos Canios lh'as poderia pagar de prompto,
e que era uma de seiscentos achar comprador que dsse o que elle
valia, Bartholomeu, acceso em amor fraterno, lhe declarou que
o maldicto usurario dera a entender, que, se elle Bartholomeu
tivesse umas terras que lhe empenhasse, esperaria pelo dinheiro
com quaesquer cinco por cento ao mez; que por isso, vendo-se
naquelles apertos e afflices, faria o sacrificio de lhe tomar o
casal pelas vinte moedas e mais o que fosse justo, que iria pedir ao
mesmo usurario; porque--accrescentava elle, quasi chorando--vo-se
os anneis e fiquem os dedos. Que ficaria arrasado, e a bem dizer
a pedir esmola; porque, como elle Barnab lhe affirmava todas as
vezes que lhe a pedir o seu dinheiro, as excommungadas das terras
apenas davam para o fabrico. Emfim, to despejadas mentiras pregou
ao irmo, tanto o atenazou, taes artes teve de lhe converter as
stas em grelhas, que as bichas pegaram, e Barnab deu o sim,
a risco de estourar os ossos  tia Vicencia, sua respeitavel
consorte,  minima pegadilha, ou de rebentar de paixo como um
satanaz alguma noite na cama, se no desabafasse daquella grande
magua com uma boa massada na mulher, consolao que para um
verdadeiro saloio  nas afflices o supra-summum dos prs e
precalos matrimoniaes.

A Providencia temperou as cousas deste mundo de modo que se podem
symbolisar todas as felicidades delle n'uma ameixa saragoana.
Douras, succo, belleza externa, sim-senhor; tudo quanto quizerem:
mas, no fim de contas, travo e mais travo ao p do caroo.  o
que explica, p  p sancta Justa, a theoria das compensaes
d'Azas. Mais um caso, para mostrar as carradas de razo que Azas
tinha na sua grande cenreira a este respeito,  o que succedeu
ao moleiro, no dia em que Barnab acabou de se resolver sobre o
casal dos Canios. Tinha sido justamente no dia da festa pela
manhan, que Barnab fra com a sua Joanna  missa das almas, e
viera pelo moinho almoar com o irmo, que no lhe mostrou a
melhor cara a principio, mas que at mandou fazer uma fritada
de meia quarta de linguia e tres ovos (um botou-se fra, porque
estava gro) quando soube ao que elle vinha. Bartholomeu no
cabia em si de contente: obrigou a sobrinha a levar atados no
avental obra de dous arrateis de farinha para fazer umas raivas,
pondo l o assucar e os ovos, e mandando-lhe metade dellas; e
por mais que pae e filha se escusassem de acceitar o seu favor,
embirrou, e no houve torc-lo. Estava naquelle dia capaz de
lhes dar de presente metade da sua fortuna, e mais era, dizia
elle, um pobre de Christo. Logo que se foram, Bartholomeu deitou
a correr para casa, fechou-se no seu quarto, abriu, umas aps
outras, as vinte gavetas de um contador, mecheu e remecheu em
todas ellas, tornou a fechar, e fazendo contas de cabea, comeou
a passear de um para outro lado do aposento, com as mos cruzadas
nas costas, e entregue s suas cogitaes.

Os adornos ou guarnio do quarto consistiam em um leito de casados
de pau-sancto de ps torneados e cabeceira redonda, thalamo nupcial,
agora enluctado pela sempre chorada morte da tia Genoveva da
Ventosa, me de Manuel da Ventosa, e mulher que fra do honrado
Bartholomeu da Ventosa, que, para falar como os poetas, solitaria
rolla (ou rollo ou rolho) naquelle ninho silencioso se encouchava
triste nas longas noites de inverno, ai, outr'ora to felizes! O
contador ficava defronte, e ao lado um bofete, e sobre o bofete
um oratorio forrado de damasco amarello com sanefa encarnada. Sete
sanctos povoavam o larario da defuncta moleira: S. Servulo, Sancto
Onofre, S. Miguel, S. Sebastio, S. Gregorio, Sancto Antonio, e
S. Joo Baptista; este ultimo no centro e em peanha mais elevada;
Sancto Antonio  sua direita, com um cordo de ouro lanado ao
pescoo e dando multas voltas ao redor do corpo. Como supplemento,
por cima da cabeceira da cama, uma lamina da Senhora da Conceio,
e dous registos, um de Sancta Barbara, outro de Sancta Rita; no
tardoz da porta uma cruz de S. Lazaro pregada com massa. Uma arca
da India, com ferrolho de correr e pregaria de grandes cabeas
chatas de duas pollegadas de diametro, e quatro cadeiras de costas
e assentos de couro lavrado completavam a mobilia do aposento. No
canto do bofete, quasi  borda, estavam cravados um cruzado-novo
e um tosto falsos, memorias dolorosas de um mono que pregra
certo padeiro de Lisboa ao moleiro, na compra de uns saccos de
farinha, historia, que, se eu a contasse, havia de fazer arripiar
o pello aos leitores mais do que as novellas de Anna Radcliffe.

"Dez centos de mil ris! Chumba-lhe!"--dizia o velho esfregando
as mos, como um botecudo esfrega dous pus de que quer tirar
lume, e passeando com passos curtos e rapidos de um para outro
lado.--" isso! cem peas, sete centos e meio; quatrocentos pintos,
dous centos menos oito; fazem nove centos e meio menos oito:
duzentas cravellas de doze, meio cento menos dous: oito e dous
dez: dez centos menos dez: oitenta de seis fazem duas moedas:
duas moedas dez mil ris menos um cruzado: oito meios tostes
quatro tostes: quatro tostes com ... justamente, dez centos.
Ah s Barnab, quer setecentos? Heim? Com vinte moedas que j
l andam a juro, parece-me....! Quer ou no quer?"--"Homem, isso
 muito pouco..."--"Pouco?! E doze moedas foro?"--"As terras do
bem para isso: s a Abrunhosa..."--"Pois se do, homem, paga-me
as vinte moedas. Ah, embatucas? Oh, oh, ih, ih, ih!.."

E Bartholomeu ria a bom rir daquelle dialogo que phantasiava
travar como irmo. De repente, porm, as feies contrahidas
pelo riso se lhe immobilisaram diante de uma ida fatal. Barnab
podia dar com a lingua nos dentes cerca do negocio, n'alguma
noite em que fosse para a tenda do Agostinho jogar a bisca a
vinho, segundo o seu costume, e sair um atravessador a picar-lhe
o lano; o Bento Rabixa, por exemplo, que tinha muito caroo, e
que era um dos da tripea da bisca. Vinham-lhe calafrios com tal
pensamento. Uma palavra, uma alluso perderia, talvez, tudo. Era
verdadeira agonia a sua. Costumado a implorar o cu nas grandes
afflices, Bartholomeu por uma daquellas subtilezas moraes dos
avaros, que sabem conciliar a devoo com o seu vicio hediondo,
ajoelhou diante do oratorio, e com lagrymas e fervorosas suplicas
comeou a pedir a S. Joo Baptista fizesse com que Barnab no
tugisse nem mugisse a similhante respeito. Nas suas oraes
passou-lhe, talvez, pela cabea a ida de um estupor na lingua
de Barnab. Desconfio: no o affirmo; porque no gsto de cousas
dictas no ar. O que  certo  que procurou dar a entender ao
sancto que teria duas vlas accesas e uma esmola para a sua festa,
se as cousas lhe saissem a geito, exprimindo-se, todavia, por
tal arte que no ficasse absolutamente preso pela palavra, e
podesse roer a corda depois de se pilhar servido.

Em quanto o moleiro se debatia nestas tempestades de ambio,
passava-se no presbyterio a scena que j descrevi entre Joo
Nepomuceno e Gabriel. A principio Bartholomeu, embebido nos seus
calculos, temores e rogativas, nem sequer ouvra os repiques
variados e harmonicos, com que o rapaz do moinho rompra o seu
grande e festivo concerto; mas pouco a pouco o motim dos sinos
crescra a ponto, que s os defunctos do cemiterio poderiam ficar
indifferentes a to retumbantes bellezas musicaes. Na aldeia j
ninguem se entendia no meio dessa procella de sons, que, trepando
pelos outeiros ao redor, e precipitando-se para os valles alm,
iam levar o ruido da festa e a gloria de S. Pantaleo s povoaes
vizinhas. Penetrando pelos ouvidos do moleiro, aquellas vibraes
desalmadas fizeram-n'o despertar do extasi de sovinaria devota
que o arrebatava. Ergueu-se, chegou-se  janella, alou a adufa,
poz-se a mirar o relogio de sol do campanario, piscando os olhos
e fazendo com a mo uma especie de pala para os defender da luz,
e depois de se affirmar por um pedao, deixando cahir de golpe a
adufa, correu  arca, murmurando:--"nove horas! J mais de nove
horas! Esta s por trezentos milheiros de diabos! E ainda tenho
de me vestir! Com seiscentos diabos! D'aqui a nada esto l os
outros. Ora o diabo!.."

Estas imprecaes em razo descendente, que o moleiro tinha sempre
na bca por um mau habito, que todas as prgaes e remoques
do padre prior no haviam podido fazer perder quella lingua
damnada de Bartholomeu, nasciam de uma circumstancia na verdade
sria. A funco d'igreja devia de comear s dez horas, e elle
era um dos festeiros. O padre prior tantas voltas dera que o
obrigra a s-lo, e a esportular uma moeda para as despezas.
Devemos acreditar que nunca o teria alcanado, se no fosse o dote
de Bernardina, sobre o que o moleiro tremia que o velho clerigo
deixasse escapar alguma palavra. Elle aproveitra habilmente o
caso para passar por bom pae e generoso, e ao mesmo tempo para
se esquivar ao menor acto de beneficencia o resto da sua vida,
affirmando que se empenhra at os olhos para comprar e reparar
a azenha do Ignacio Codeo e estabelecer l o seu rapaz, quando
a verdade era que, comprada e reparada a azenha, posta a casa
aos noivos, adquiridos seis machos, paga a soldada de tres mezes
a dous moos, provda a dispensa, e deixadas algumas moedas para
as despezas diarias, ainda um certo numero de louras do padre
prior tinham ido cahir, como j disse, no escaninho onde jaziam
sem ver sol nem lua aquellas que o moleiro acabava de contar.
Obrigado por semelhante considerao, e  fora de rogativas
do parocho e das picuinhas de outros irmos da Irmandade do
Sanctissimo, que se tinham mettido no negocio, o moleiro achava-se
elevado a uma situao que estava longe de ambicionar. Perdida a
moeda, que elle havia de chorar toda a sua vida, importava-lhe
no perder a considerao e valia na festa, que por to alto e
raivado preo comprra; era o risco que via imminente, ao menos
em parte, se no estivesse a ponto de sar da sacristia para a
capella-mr no prestito dos festeiros.

O dia comera bem; mas a-se tornando aziago.

Apesar de velho, curto e barrigudo, o moleiro, no vendo nenhum
outro meio de esquivar o contratempo que receiava, apressou-se o
mais que pde em se adornar com o aceio e pontualidade que requeria
o acto. Do fundo da arca sau o arsenal completo para os dias de
vr a Deus. Era respeitavel pela antiguidade! Monumentos de mais
felizes epochas, os arreios esplendidos de Bartholomeu constavam
de uns cales de gorgoro cr de tabaco, de um colete de veludo
verde, e de uma casaca azul de abas largas e gola estreita (isto
passava ha bem dezoito annos) antipoda da casaca peralvilha dos
casquilhos daquelle tempo. As menudencias do trajo diplomatico
do moleiro compunham-se de um chapu armado, de um pescocinho
com bofes, de umas meias de algodo brancas, e d'uns sapatos
de entrada abaixo, ensebados de novo, com fivelas de prata, que
batiam quasi na vira de um e outro lado. Assim vestido era um
principe. No; que l isso  verdade; mettia respeito! Apressado,
vermelho, suando com a calma, bufava como um touro encaminhando-se
para a igreja. Os moos dos seus collegas, os de tres padeiros
que havia no logar, e os de cinco lavradores a quem costumava
comprar os trigos, passando por elle desbarretavam-se at baixo;
a outra saloiada, espcada pelo arraial, fazia meno de cortezia
com o barrete: dos mendigos que comeavam a apinhar-se para o lado
do presbyterio ao cheiro do bodo, uns, que no o conheciam por
virem de longe, estendiam-lhe a mo e davam-lhe senhorias, tudo em
vo; outros, que eram dos arredores, rosnavam e praguejavam-no.
Mas dessas rosnaduras e pragas ria-se elle. Na aurola de gloria
que o cercava j, que o a cercar ainda mas brilhante, Bartholomeu
estava tanto acima da maledicencia daquelles madraos, como os
homens d'estado de qualquer partido costumam estar acima das
ferretoadas, sovinadas e lambadas da imprensa periodica do partido
contrario, segundo affirmam os da sua parcialidade: _vide_ jornaes
de todas as cres e cambiantes, _passim_. Como os politicos, o
moleiro podia dizer, pondo a mo no corao--a minha consciencia--a
minha honra--a opinio publica--os meus servios--a nao--a
posteridade:--e depois tossir e escarrar grosso, e seguir vante
sem se embaraar com aquelle rosnatorio despeitoso e zangado;
porque, como bem disse um poeta de philosophia ancha:

  O premio da virtude  a virtude:
  O castigo do vicio o proprio vicio.

E foi o que Bartholomeu fez: e com razo. No eram os respeitos
dos moos dos outros moleiros e dos lavradores seus freguezes,
e os dos pobres que o avaliavam pelo secio dos trajos, a prova
cabal e indestructivel da sua popularidade? Eram. Que caso devia,
pois, fazer dos zums-zums de meia duzia de farrapilhas? Nenhum.
Eu c, pelo menos, sou de opinio que fez bem proseguindo no
seu caminho, tranquillo com o testemunho de uma voz intima, que
o certificava de que era um homem de importancia, e digno por
todos os titulos de representar o papel de festeiro a que fra
chamado.

Mas a nobre altivez do moleiro, e a firmeza que mostrra para
no deslizar um apice do caracter grave e sobranceiro, proprio da
sua situao, tinham de ser postas a mais dura prova. O momento
em que chegou ao adro foi aziago. Ahi viu e ouviu cousas que o
fizeram sar da gravidade e compostura que at ento guardra.
O que o negocio deu de si v-lo-ha o leitor no proseguimento
desta historia, que poder ter mil defeitos, mas que (no  por
me gabar) tenho levado com toda a pontualidade na chronologia e
na averiguao dos mais miudos factos que possam illustra-la.

       *       *       *       *       *



VII

TANTAENE ANIMIS?


Quando Bartholomeu a entrando no adro viu um taful e uma senhora,
que,  porta da igreja, forcejavam para romper a pinha de povo,
que a obstruia. Vistos assim pelas costas, pareciam pessoas de
conta. Trajava ella um vestido de seda preta, um grande schall
vermelho e um chapu, franzido  ingleza, cr de caf: elle cala
e casaca preta da moda e chapu fino, posto que j amarrotado
pelos apertes da saloiada, que, fingindo quererem abrir caminho
ao elegante par, cada vez se uniam mais, olhando uns para os
outros com aquelle sorriso de socapa e malevolo, que  peculiar
aos camponios quando colhem algum individuo, cujo porte e apparencia
os humilha, para victima das suas graas e perrarias um pouco
abrutadas.

O moleiro tinha nascido naquelles sitios, nunca dormra uma noite
fra do logar, lidava com muita gente em consequencia do seu
trafego, a-lhe j a neve pela serra, e por isso conhecia
perfeitamente os habitos, propenses e manhas dos seus patricios.
Percebeu logo que os saloios estavam de embirrao com as duas
personagens cortesans, e desenganou-se de todo vendo vir do lado
da igreja um dos moos do Agostinho da tenda, que, fingindo-se
bebado e cambaleando, dizia:--cresa o monte, rapazes; cresa
o monte!

O magnetismo animal  um mysterio ainda: a extenso das affinidades
magneticas ninguem a pde demarcar. De homem para homem ellas so
indubitaveis; mas, porventura, vo mais longe. Ao menos eu creio
que os cales, a casaca e o chapu armado do moleiro actuavam
fortemente no seu espirito por influencia occulta. Sentia no
corao uma especie de cocegas aristocraticas; uma vontade de
mostrar o que podia e valia aos nobres hospedes da sua terra,
que, pretendendo assistir  festa, se collocavam naturalmente
debaixo da sua proteco como festeiro. Era esta uma ida que no
lhe viria  cabea quando trajava os seus cales enfarinhados,
o seu colete assertoado e a sua jaqueta de saragoa. Mas veio-lhe
ento, mysteriosa, irreflectida, forosa, posto que sem quebra
da liberdade de a rejeitar, semelhante, se a comparao fosse
licita,  graa efficaz. Approximou-se, pois, abrindo passagem
por entre a turbamulta. O primeiro individuo com quem topou em
cheio foi com Gabriel, que, tendo sado do campanario, tractava
tambem de penetrar na igreja para ajustar contas com o sacristo
logo que se lhe offerecesse ensejo. Para aproveitar o tempo,
Gabriel, informado do que se passava, a ajudando a augmentar o
aperto, que crescia cada vez mais, de modo que a dama do schall
e o dandy de preto, entalados juncto do guardavento, nem podiam
recuar nem surdir vante. Apesar, porm, da pequenez do seu corpo,
Gabriel parecia ter de olho as duas victimas, como receioso de
que voltando a cabea o lobrigassem. Careteava, ria, empurrava
com alma; mas, de instante a instante, punha-se nos bicos dos
ps, espreitava por cima dos hombros e por entre as cabeas dos
vizinhos, agachava-se ao menor movimento que via fazer aos dous,
tornava a empurrar, e nesta lida o garoto renovava, incansavel
em novo combate, as faanhas que, havia pouco, practicra no
sempre memorando repique.

"Mariola!--rosnou colerico o moleiro por entre os dentes cerrados,
ao chegar ao aperto e agarrando de subito as orelhas de Gabriel,
que, com uma cara onde assomava o chro, encolhia a cabea entre
os hombros, mal comparado, como um caracol quando lhe puxam os
tentaculos. No tanto pela voz, como pelo contacto das mos, assaz
conhecidas daquellas pobres orelhas, Gabriel sentra o patro.
Era, todavia, j tarde.

"Mariola!"--repetiu Bartholomeu com o mesmo grito mal sopeado de
colera. E ouviu-se o tinir duvidoso de uma fivela acompanhado
de um som bao, como quem dissera o do bico de um sapato grosso
batendo sobre uma pouca de bombazina estofada de certa poro
convexa de carne humana. Gabriel descreveu com o corpo um arco,
mas no sentido inverso ao de quem faz cortezia profunda. E comeou
a soluar.

"Mariola!"--accrescentou ainda outra vez o moleiro, com aquelle
fatal rugido, que significava o seu profundo despeito. Ao dicto
seguiu-se rapidamente o feito. Largou as orelhas do rapaz: recuou
o brao, cerrou o punho, e desfechou-lhe tal murro no toutio,
que Gabriel foi ao cho.

A principio, uma certa contemplao com a idade, com o caracter,
e mais que tudo com a fama de ricao de que Bartholomeu gosava,
conteve os murmurios dos poucos, a quem as diligencias communs
para penetrar na igreja haviam consentido attender ao duro castigo
que convertra Gabriel n'um como bode emissario dos peccados
de muitos. Quando, porm, o mesquinho rapaz cahiu em terra, a
indignao dos seus co-rus rebentou. O moo do Agostinho, posto
que a medo, alevantou a antiphona.

"Tambem  bater  bruta! Agora, a prove creana fez-lhe algum
mal?! V bater assim no diabo. Olha no matasse aquelles
milordens!..."

"Entre, s doutor!--atalhou Bartholomeu, atirando umas escorralhas
de pontap, que ainda lhe titilavam nos tendes da perna direita,
ao limite inferior das vertebras de Gabriel, j que no podia sem
risco applica-las ao orador. Essa fra, todavia, a sua primeira
inspirao.

"Ai,  para isso que uma me cria um filho! Coitadinho, j no
tens pae! No fras tu orfo e prove. Mas cal-te, bca. A gente
sempre v coisas!"

Ouvindo estas palavras, proferidas por uma voz feminina conhecida,
o velho moleiro voltou-se. Era a senhora Perpetua Rosa, que, em
companhia da ama do prior, tinha chegado naquelle instante a
mata-cavallo, por se havrem ambas entretido a examinar umas
meadas, que a tia Jeronyma dera a curar  lavadeira, e que esta,
vindo para a festa, de caminho lhe fra entregar. Posto que ligados
at certo ponto pelo casamento de seus filhos, a mutua m vontade
da lavadeira e do moleiro, alimentada por largo tempo, tinha sido
como o escalracho: cada anno profundara mais um palmo de raizes.
S havia uma differena, e era que Perpetua Rosa, protegida pelo
genro, perdra pouco a pouco o medo que tomra a Bartholomeu
desde aquella historia das saccas, e j se engrifava para elle
sem cerimonia. Encontrando-se s vezes na azenha, nem uma s
deixavam de se travar de razes por qualquer palha podre. De
resto, tractavam-se com apparente cordialidade. Era como a alliana
e sympathia actual entre a Frana e a Inglaterra.

"Pois no, sua lambisgoia!"--acudiu o moleiro fazendo-se
vermelho.--"Acha voc muito bonito que meia duzia de patifes estejam
judiando com as pessoas que querem entrar na igreja? Com um
quarteiro de diabos! Quem d o po d o ensino; e este, pelo
menos, hei-de eu ensina-lo!... Rosna p'ra ahi, pedao de bruxa
velha:"--accrescentou elle, vendo que Perpetua Rosa continuava
a resmonear, j com acompanhamento de--"tem razo, tia Perpetua!"
--"olha o maluco!"--"se queres vr o villo mette-lhe a vara na
mo!"--" agora o senhor assaluto!"--Era uma tempestade eminente:
era a revolta eterna do pobre contra o abastado, que resfolga
pelo minimo respiradouro. E o sussurro crescia, e Bartholomeu,
suffocado pela raiva, batia o p, e debalde tentava cuspir por
cima daquella quasi algazarra as pragas, as injurias, as ameaas,
que lhe faziam maior entupimento na garganta do que po de cevada
faria em goellas de peralvilho dengoso. Vingava-se,  verdade, em
servir de couces e cachaes o misero Gabriel, que se lhe
reboleava aos ps; mas isto no era mais que botar lenha ao forno,
e augmentar cada vez mais o tumulto. A hirta m de saloios ao p
do guardavento tornava-se mais flexivel, ondeava, alargava-se,
dissolvia-se, e vinha agglomerar-se de novo em volta de Bartholomeu,
curiosos de indagarem o motivo daquella assuada. Falavam todos a um
tempo; j no meio do borborinho ninguem se entendia; e, apesar da
colera e da sua habitual firmeza, o moleiro comeava a titubear.

Na furia em que estava incendido contra Perpetua Rosa, contra a
ama do prior, que tambem tinha desembainhado a lingua em defesa
de Gabriel, e contra outras duas velhas do logar, que ajudavam a
atenaza-lo, Bartholomeu no reparou que o taful, por cuja causa
se mettra naquella nora, forcejava por chegar ao p delle. Por
fim, foi a propria Perpetua Rosa que o fez attentar por isso.

"Venha, Manuel, venha c: olhe a figura que est fazendo seu pae.
Forte toiro! Abrenuncio!"

A isto o moleiro alou os olhos para aquella parte, e viu...
Quem havia elle de vr? O seu Manuel, que, com effeito, rompia
por entre a turba approximando-se, seguido de Bernardina, que
l de longe fazia esgares e visagens  senhora Perpetua Rosa
e  tia Jeronyma para que se calassem. Os dous tafues, os dous
_milordens_, os dous fidalgos, por quem Bartholomeu affrontava
as iras populares, eram nem mais nem menos que seu filho e sua
nora. Ficou parvo. O luxo dos noivos fez-lhe esquecer Gabriel, as
velhas, as injurias, tudo. Como o corpo electrisado pelo contacto
da resina, que  repellido chegando-o de novo a ella, e desembsta
para o vidro se lh'o approximam, a sanhuda indignao do moleiro
nordesteou para as novas victimas. Cingiu involuntariamente as
algibeiras com as mos; porque cada uma dellas se lhe figurou
convertida n'um repuxo de cruzados novos, que, descrevendo uma
curva parabolica, am cahir nos balces dos arruamentos de Lisboa.
Depois, fincando os punhos cerrados nos vazios, e meneando a cabea
de um para o outro lado, poder-se-hia comparar ao oceano nos
momentos que precedem a tempestade, quando as vagas, profundamente
revoltas, ainda se no encrespam em carneiradas, mas banzam como
somnolentas e espertando-se para o combate.

Passa a Frana pela terra classica da galanteria: parece que
o bello-sexo tem alli o seu throno. Nesse ponto cedem a palma
aos francezes os outros povos. Dizem-no todos; mas eu digo que
no. Vence-os esta namorada terra de Portugal. Os nossos affectos
sero menos ruidosos, menos rendidos; so, porm, mais ardentes e
duradouros. Se as phrases d'uma lingua podem muitas vezes servir
para revelar o caracter, os costumes e at a historia da nao
que a fala, a nossa lingua e a franceza nos offerecem argumento
da existencia dessa superioridade do corao, pela qual eu ponho,
no digo a cabea, mas quasi. E seno, respondam-me. Que incendio
seria maior; aquelle que precisasse de um anno para amortecer
e extinguir-se, ou o que durasse apenas um mez?

Indubitavelmente o primeiro. Bellamente. Venhamos agora  hypothese.
O matrimonio  de sua natureza resfriativo: a paixo mais violenta
acalma, entibia-se, entisica, e morre com o tracto domestico;
e feliz se pde chamar a unio em que a amizade e a estima vem
substituir os sonhos e os delirios de um amor j saciado. Ha,
todavia, um periodo em que, apesar de satisfeito, elle resiste
ainda:  durante o lento desabar das illuses, que vo cahindo
pea a pea. Nesse periodo ainda aos casados cabe o nome poetico
de amantes: depois  que se chamam a cousa mais prosaica e positiva
que se conhece no mundo; chamam-se marido e mulher. Esta epocha
transitoria tem a sua formula diversa segundo as diversas linguas.
Exprime-a em francez a phrase _lua de mel_: o portuguez diz _anno
de noivos_.  claro que em Portugal resiste o amor ao matrimonio
doze vezes mais que em Frana. L um mez; c um anno. Fiquem
as raparigas de aviso: nada de amores com estrangeiros. Se em
Frana n'um mez colhem todo o fructo da victoria, que ser por
essas terras de Christo mais geladas e nevoentas? Eu, por mim,
faam l o que quizerem. Lavo d'ahi minhas mos.

Bernardina, essa  que a dera em cheio casando com o Manuel da
Ventosa. Aos quatro mezes de noivo era ainda um baboso por ella.
No principio de julho ajustra contas com os freguezes da azenha,
e recebra algumas moedas: a festa da aldeia estava proxima:
Bernardina morria por tafularia; o moo moleiro tambem no lhe era
avesso. Tinham o vicio instinctivo da gente moa, vicio legitimo,
se em vicios se pde dar legitimidade. Duas foras arrastavam,
pois, o pobre Manuel da Ventosa: o amor, e a propria inclinao.
D. Thomazia, irman do mestre eschola da aldeia (se Deus me der
vida e saude, ainda talvez um dia conte a historia do digno
professor) vivra na crte muitos annos com o sabio mano. Nisto
de modas falava que nem um livro. Quando a por acaso a Lisboa,
nunca deixava de visitar duas ou tres modistas suas conhecidas,
de maneira que, por assim dizer, andava sempre ao par da sciencia.
Foi n'um aposento interior, no sancta sanctorum da residencia
magistral, que se traou, discutiu, e resolveu a conspirao,
que devia baralhar os calculos de Bartholomeu sobre as maquias
da azenha naquelle semestre. Seis moedas foram ali barbaramente
espatifadas. Foi um oramento perfeito: talhou-se por cima da
risca do necessario, e gastou-se: gastou-se d'ahi a poucos dias at
o ultimo real, j se sabe, com severissimas economias, ficando-se
devendo apenas uns tres mil e seiscentos a D. Margarida, famosa
modista daquelle tempo. A campanha fez-se do modo seguinte: Manuel
da Ventosa acompanhou D. Thomazia a Lisboa, para umas compras de
certos arranjos domesticos, de que ella dizia muito carecer. Os
arranjos eram os da fatal conspirao contra o velho Bartholomeu.
Os trances d'esperana e de receio do bom ou mau desempenho de D.
Thomazia, por que passou Bernardina em quanto os dous no voltaram,
no cabe no possivel narra-los. Apesar d'isso, a elegancia com
que se imaginava trajada e o seu homem, namorava-a de si mesma,
e dobradamente delle. Chegava a ter ciumes das olhaduras que
deitariam ao Manuel as outras raparigas, sem que por isso deixasse
de admittir com certa complacencia innocente a ida do quanto a
haviam de achar attractiva os rapazes da aldeia. Emfim,  aqui
o caso de dizer com o poeta, cerca do que se passava no corao
da moleira,

"Melhor  exp'rimenta-lo que julga-lo;
Mas julgue-o quem no pde exp'rimenta-lo."

Voltaram os dous s trindades. O escholar valdo do mestre, que
aviava os recados de casa, tinha-os acompanhado. N'um grande sacco
de damasco amarello, herdado por D. Thomazia de sua av materna,
e em duas grandes caixas de papelo trazia o rapaz os almejados
adornos. Quem diria que o monumental sacco era a boceta de Pandora!?
Pois era. Bernardina saltou de contente ao desenfardelar aquella
feira: estava vestida  moda dos ps at  cabea, posto que o
seu Manuel houvesse cortado para si uma posta de leo. Digo isto,
porque, apesar de toda a farandulagem feminina, que a boa da irm
do professor escolhra com fino tacto, quatro moedas tinham ficado
no Adrio, n'um chapelleiro do Rocio e n'um sapateiro ahi proximo,
no me lembra em que rua, porque isto j la vae ha muito tempo,
e a historia est sujeita a estas deploraveis lacunas. O caso 
que elle pela sua parte, envergada aquella fatiota, poderia sem
grande favor passar por um fidalgo de provincia chegado de tres
dias  crte. Fugia-lhe tudo um s no s do corpo, e tolhia-o, 
verdade; mas ficava um moceto teso; um milordem, como dizia o
moo do Agostinho da tenda.

Segredo, segredo profundissimo (semelhante ao da nossa to celebre
conspirao de 1640 contra os castelhanos, da qual s talvez
sabia o primeiro ministro de Castella) se guardou na azenha, _olim_
de Ignacio Codeo, cerca de todas aquellas tafularias. Quantas
vezes no se vestiram a casaca e o vestido de seda! Quantas se
no pozeram o chapu de castor e o franzido! Que viravoltas se
no deram, que visagens se no fizeram diante de um espelho de
espinheiro com suas cortinas de panninho, que adornava a casa
de fra sobre uma commoda de vinhatico oleado, cujas puxadeiras
de metal amarello luziam que nem ouro! Que disputas no houve
sobre o abotoar e o desabotoar, o atacar e o desatacar, o pr o
chapu assim, e o pr o chapu assado! E D. Thomazia, que presidia
quellas concluses, da alteza da sciencia punha termo  questo
com o seu parecer decisivo, magistral, oracular. No grande dia
da festa a vaidade daquellas duas creanolas, satisfeita com a
admirao popular, no valeria, no podia valer, o deleite que
a antevista gloria desse dia lhes dava em imaginao. Ai, assim
so todas as ambies e esperanas humanas! O goso  sempre o
desengano mais ou menos ensosso das fascinaes do desejo.

Mas havia uma nuvem negra que entenebrecia o brilho de to completa
felicidade. Era a lembrana do genio de Bartholomeu. s vezes, no
meio dos mais festivos commentarios sobre a grande vista que haviam
de fazer com as inopinadas secias, a figura do moleiro surgia
terrivel, enrugada a testa pela severidade, os olhos-ervilhacas
faiscantes de colera, a bca borbulhando pragas. Bartholomeu
cortava com o seu vulto ameaador aquella linda pagina dos sonhos
da vida, bem como o pingo de amarellado simonte (perdoe-se o
enxovalhado do simile em favor da exaco) que, rolando insensivel
pelo estendido beio do velho sapateiro, vae cahir sobre o Carlos
Magno, aberto em cima dos joelhos, e espalmando-se arredondado
sobre as linhas mais interessantes do livro immortal, embacia e
mata as chispas de Altaclara no momento em que ella rompe o arnez
de Ferrabraz. E o mestre pra, e assoa-se; mas a interrupo fatal
desvanece as illuses dos officiaes ouvintes, e descerrando-lhes
os dentes, lhes quebra os brios com que puxavam a encerolada
linha, ou cravavam os pinos no alteroso taco.

Uma ida, todavia, asserenava logo a alma de Manuel da Ventosa:
o furaco paterno estava certo; mas devia ser passageiro. Elle
no havia de pr-se a ralhar nenhuns vinte annos. Era um dia ou
dous; e aquellas louainhas ficavam para toda a vida. E esta
dilatava-se-lhe por horisontes to illimitados! O bom do rapaz
ainda no dobrara o melancholico padro dos trinta annos, d'onde
s se comea a medir bem com os olhos o curto caminho de ferro
entre o bero e a cova, pelo qual vae correndo esta especie de
locomotiva chamada existencia humana.

Aqui tem, pois, o leitor que gostar da historia lardeada de todas
as investigaes, exhibies e minudencias gravissimas, de que ella
se costuma temperar, com tanto juizo e talento, nesta nossa terra,
as causas e items mais remotos e reconditos da difficultosa situao
em que achamos Bartholomeu  vista da descommunal tafularia do filho
e da nora, cuja defesa tomra sem os conhecer, como verdadeiro
paladino, e que dava de todo o corao ao demo desde que vra
assim arder sem remedio o seu remedio, como diriam o elegante
auctor dos Cristaes da Alma, ou os poetas da Phenix-renascida.

Banzou por alguns momentos o velho. A transio era demasiado
violenta e rapida, e a revoluo que se operava na sua alma vinha
gravida de uma apoplexia. Indicavam-no as veias da fronte que
engrossavam, a vermelhido do rosto que a tirando a rxo. Semelhante
ao hesitar da grimpa no topo do campanario, quando em trovoada
eminente luctam dous ventos contrarios, Bartholomeu no sabia se
repellisse as insolencias de Perpetua Rosa, que tivera a ousadia
de chamar-lhe toiro, se descarregasse a colera que o asphyxiava
sobre os dous barbaros delapidadores da quasi sua fazenda; quasi
sua, digo, porque o moleiro bem sabia que a azenha comprada com o
dote de Bernardina era em rigor delles, e por consequencia delles
o seu rendimento, que por paternal precauo se encarregra de
administrar e poupar.

Mas a avareza, superior ao orgulho no animo do velho, fez desembstar
para o lado dos noivos o vento da colera. Abandonando o arranhado
e modo Gabriel, rompeu para os novos criminosos, que assim de
subito ousavam apresentar-se no seu inexoravel tribunal. Andando,
as mos contrahiam-se-lhe por espasmo nervoso, como as garras
aduncas do girifalte, e ao chegar ao p delles lanou uma  gola
da casaca do Manuel e outra ao brao de Bernardina. Eram duas
tenazes de ferro.

"Que patifaria  esta, s tratante?--disse, dirigindo-se ao filho
em voz baixa, rouca, e de vez em quando apipiada pela indignao
que lh'a tolhia.--Voc no sabe que o dinheiro custa a ganhar?
Para que  essa trapagem toda? Com qu j a sua jaqueta azul tem
bichos? E c a grandessissima tola no podia passar sem sedas!
No se lembra do tempo em que andava de sapatas atrs das vaccas
da Josefa Enguia? Diga, senhora mosca morta?... Olha a sonsa, que
parece no quebra um prato! Anda-se um homem a matar para lhes
fazer casa, e vocemecs, senhores badamecos, a botar o suor da
gente pela porta fra. E eu sem saber nada d'isto! Com trezentas
carradas de diabos! Pena tenho eu que essa mariolada os no pozesse
n'um frangalho. No tm vergonha de se fazerem alvo do povo, e de
se arruinarem e arruinarem-me a mim, que toda a vida tenho labutado
para viver com a minha cara descoberta?... Oh desalmado--proseguiu
depois de um instante de silencio--que contas me has-de tu dar
do dinheiro que extravaganciaste, e que  preciso para me acabar
de desempenhar da compra da azenha?..."

Neste momento o discurso de Bartholomeu, que se a encaminhando
ao pathetico, foi interrompido por um rir esganiado e tremulo,
que lhe chiou ao p dos ouvidos. Era o caso, que Perpetua Rosa o
segura sem que elle reparasse em tal, e se pozera attentamente
a escuta-lo. A ultima phrase que a boa da velha ouvra tinha
produzido nella to subita alacridade.

"E ri-se voc, sua atrevida?!"--exclamou o moleiro voltando-se para
Perpetua Rosa.--" natural que fosse intrpece nesta alhada..."

"Pois vocec nan quer que eu ria a arrebentar ouvindo-lhe essas
lrias da compra da azenha? Calo-me eu, bem sei porque. Mas sempre
lhe digo, que est paga e repaga. Meu dinheiro, teu dinheiro!...
Entende-me, senhor Bertolameu! Minha filha no veio descala..."

"Oh diabo de bruxa!--exclamou o moleiro fra de si.--Do-me
inguinaes de t'esganar! Olha a piolhosa, a estraga albardas,
que me deu cabo de seis saccas, as melhores que eu tinha, por
desmazelada..."

"J lh'o disse, seu mirra-mofina, seu manita de carneiro assado,
seu sovina-mr! No me faa falar. Olhe que eu no tenho papas
na lingua..."

"Um estupor tivesses tu nella, que te pozesse a bca  banda,
aldrabista de centopeia, basculho de chamin, carraa do inferno!
Falta agora que a senhora diga que a lesma da filha trouxe para
o casal mundos e fundos!"

"Anto, como meche nessa borbulha,--acudiu Perpetua Rosa, agarrando
o moleiro por uma das largas abas da veneranda casaca, e sacudindo-o
com fora,-- preciso que no faa da gente tola. Assim o quiz,
assim o tenha. Saibam vocecs--isto dizia-o voltando-se para
cinco ou seis velhas, que faziam roda e segredavam umas com
outras.--Saibam vocecs que o senhor Bertolameu da Ventosa recebeu
mais de cinco centos de mil rizes de dote..."

"Eu deito-me a perder com este diabo!--interrompeu o moleiro
fazendo-se fulo, e soltando as mos do brao de Bernardina e da
gola do seu Manuel, para as lanar ao gasnate de Perpetua Rosa.--Oh
lingua perversa! Quaes quinhentos mil rizes?!..."

"Os que meu amo tinha ajunctado gro a gro, como se l diz, 
custa do suor do seu rosto, com muito _gloria in incelsis_ muito
bem cantado, e muito enterro feito, e muitas btegas d'agua nos
ossos, e muito sermo prgado, e muito arranjo e poupana desta sua
criada, senhor Bertolameu. Senhor Bertolameu, tenha perposito! que
quem no diz, no ouve; que l resa o dictado: manha do aougue,
e com villo villo e meio. Foram setenta caras; salvo seja!
Vi-as contar com estes olhos, que ha-de comer a terra. E quem as
arrecebeu? Nanja eu. Assim compra-se muita coisa, e arrotam-se
postas de pescada. Diz bem, senhora Perpetua Rosa; diz bem! Quem
perdeu perdeu; mas no queiram metter os dedos pelos olhos 
gente. Nunca vi creatura assim: t'arrenego!"

Este brilhante discurso, at certo ponto, e debaixo de certos
aspectos, quasi parlamentar, fez volver o catavento de raiva
do moleiro para a oradora, que no era ninguem menos que a tia
Jeronyma, a qual abicra ao p delle na alheta de Perpetua Rosa.

Bartholomeu andava-lhe j a cabea  roda, e fugia-lhe o lume
dos olhos. Largou os gorgomilos da sua estimavel consogra, e
comeou a menear os braos por tal geito, que faziam lembrar as
vlas do moinho da Ventosa. Os olhos saam-lhe das orbitas, e
a escuma dos cantos da bca: quasi no podia falar. Entretanto
Perpetua Rosa, solta do feroz amplexo, exclamava:

"Pouca vergonha! pr as mos na cara de uma mulher velha, este
gaiato!"

 palavra gaiato, homens, rapazes, mulheres, que de instante a
instante augmentavam a roda, ninguem se pde conter, pelo contraste
monstruoso entre semelhante epitheto e o vulto de capito hollandez,
rhomboidal, vermelho, rugoso, quadrangular, irritado do moleiro.
Foi uma cachinnada, um palmear, um ah ah ah ... ih ih ih ...
um assobiar de garotos, que fazia tremer as carnes. Debalde
Bartholomeu tentava fazer ouvir as suas explicaes: o estrepito
opposicionista embaraava a atrapalhada voz do ministro, que
pretendia desemaranhar aquella inextricavel questo de oramento.
Ninguem se entendia: era completamente parlamentar.

Neste momento,  porta de um corredor que dava para a sacristia,
appareceu de subito, j meio revestido, o padre prior. O motim do
adro tinha ecchoado l dentro.  vista daquelle aspecto veneravel
e venerado fez-se prompto e profundo silencio.

"Que estrupida  esta?"--perguntou o velho parocho com aspecto
carregado e voz severa.--" na vizinhana da casa de Deus, na
hora em que vo celebrar-se os divinos mysterios, que os meus
honrados parochianos vem tecer disputas e travar-se de razes, em
vez de guardarem a compostura e devoo com que devem preparar-se
para o tremendo sacrificio do altar? Rixas e apupadas no dia do
bem-aventurado S. Pantaleo?! No o soffro. Vamos, expliquem-me
a causa de tal barulho. Que foi isto?"

"So estas descaradas...."--gritou Bartholomeu.

"Saiba vossenhoria....--acudiu ao mesmo tempo a tia Jeronyma.

" este insolente..."--interrompeu Perpetua Rosa.

"No  nada, padre prior; no  nada:"--diziam conjuntamente o
Manuel e a Bernardina, mais com a mo, fazendo um gesto negativo,
que com as palavras, enredadas inintelligivelmente com as do
moleiro, da ama, e da lavadeira.

"Fale um!"--gritou o prior.--"Assim fico jejuando."

"Foi....."--disseram todos ao mesmo tempo.

"Peior!"--acudiu o parocho.--"Cada um por sua vez. Vamos."

"Saiba vossenhoria..."--vociferou o moleiro, ganiu Perpetua Rosa,
flautou a ama, murmurou o Manuel, pipitou Bernardina, clamaram
os circumstantes.

"Visto isso,  impossivel saber de que se tracta?"--interrompeu
de novo o prior.--"Est bom... No importa! Depois da festa
averiguaremos o caso. Tudo para dentro j! V tomar o seu logar,
Bartholomeu. Esto os mesarios  espera, e voc entretido aqui
com estas toleironas! Vamos. Nem mais uma palavra."

E dizendo e fazendo, recolhia-se para a sacristia. No relogio de
sol o gnomon estendia exactamente a sua sombra sobre o ponto de
interseco marcado pelo X. As rebecas soltaram a sua chiadeira
quasi harmonica, e o grupo, desfazendo-se, escoou-se pelo portal
tricentrico, cujas pedras a broxa vandalica havia amarellado; e
dentro de poucos instantes o adro ficou silencioso e deserto.

Os instrumentos tambem fizeram silencio passados alguns minutos,
e sussurrou l dentro uma voz humana, cansada e debil, que entoava
com suave melopea:

"_Introibo ad altare Dei._"

       *       *       *       *       *



VIII

GLORIA AO PADRE PRIOR.


Estamos  porta da igreja. A saloiada mettemo-la dentro. O padre
mestre Prazeres, o padre Chaparro, e o padre prior no sei se
d'aqui os vm na capella-mr. Fr. Narciso gyra, mira, vira, revira
tudo, na credencia, no altar, na banqueta. O ceremonial romano
 um mundo de idas, que elle dispoz nos diversos repartimentos
cerebraes, com uma comprehenso, um tino, uma logica de por ahi
alm. Fr. Narciso tem d'olho o padre Chaparro, que foi toda a
vida um tonto em liturgia, e assim ha-de morrer. General naquelle
conflicto, Fr. Narciso est lerta; nem seiscentos Chaparros
seriam capazes de lhe entortarem uma ou mil missas cantadas. Em
semelhantes occasies o veterano mestre de ceremonias contempla
impassivel da altura da sciencia as evolues dos seus subordinados:
tudo abrange, tudo prev, tudo dirige tranquillo. E no solta uma
voz unica: no reprehende, no incita, no ameaa. Uns beios
estendidos e inclinados  esquerda fazem parar o missal, que a a
ser extemporaneamente arrebatado da banda da epistola para a do
evangelho; uns olhos trasbordando pelas palpebras, acompanhados de
um oscillar de cabea rapido, horisontal e fugitivo, inteiriam os
joelhos que vo a vergar em genuflexo deslocada. Emfim, para que
estarmo-nos a matar? Como o nome de Fr. Timotheo na parenetica, o
de Fr. Narciso na liturgia ser o nome que a historia transportar
s mais remotas eras, emquanto as glorias da familia arrabida
durarem na posteridade.

O _introibo_ entoou-se: o negocio est agora em mos de mestre:
podemos ficar descanados com a festividade. Como o calor da igreja
 muito, venhamos, eu e o leitor, conversar um pouco  fresca
sombra dos pltanos do adro. Tenho explicaes indispensaveis que
lhe fazer; d por onde der, embora ouamos a missa descabeada.

Sou homem de bofes lavados, como diziam os nossos velhos, e no
gsto de que me estejam a morder na pelle por causa de lacunas,
mysterios, ou contradices nas minhas narrativas. Menos isso. A
historia  a historia, e no se ho-de deixar por aqui e por alli
obscuridades e incertezas, que faam suar o topete s academias
futuras: muito mais que ha ahi uns quidams, cujo officio  esmiuar,
anatomisar e criticar os escriptos alheios, e que lhes fazem os mais
crueis e desalmados processos verbaes, que  possivel imaginar, no
lhes escapando periodo nem linha, ponto nem virgula. Critica rosnada
pelos cantos  a destes, semelhante ao bisbilhotar da cozinheira
com a creada da vizinha,  janella do saguo, sobre os talhos
que a ama deu ao presunto, ou sobre o mais ou menos acogulado da
medida dos feijes fradinhos.  por isso que a taes criticas chamo
eu verbaes; verbaes, porque seus auctores d'ahi no podem passar.
Coitados! escreveriam vinte heresias se copiassem o padre-nosso.
So os alcaiotes dos _lapsus lingu_, os mexeriqueiros dos actos
de memoria. No vento e com vento compem: vivem de epigrammas
agudos como tranca: morrem sem deixar vestigio. Litteratos a barbas
enxutas, eruditos lendo ainda por baixo, passam nas trevas como
a coruja; mas bem como a coruja roando as azas, que salpicou
na alampada, pela alva toalha do altar a deixa ennodoada, assim
a pagina pura, affagada de tanto amor do artista, estudada com
to sincera consciencia, l recebe, na tertulia de parvos, a
dedada torpe e sebenta de um chapadissimo tolo.

No sou dos mais queixosos; todavia guardo acatamento profundo a
essas caricaturas de adibe, que,  falta de dentes para devorarem
carnia, contentam-se de fazer empolas e brotoeja na pelle do
proximo. Respeito-os a todos, altissimos e baixissimos; que os
ha de todas as riscas da craveira social, no civil, no militar
e no ecclesiastico. Estou, por isso, sempre com o credo na bca
quando escrevo uma linha, e antes quero que se queixem da frequencia
dos prologos do que me condemnem sem me ouvirem.

Disse j que tinha de fazer uma explicao ao leitor. Tenho; e
 indispensavel. Estou ouvindo um melenas arguir assim:--"Como
soube a tia Jeronyma que as peas do padre prior se haviam
esgueirado, com tanta magua sua, s para dotar Bernardina? Como
o souberam os noivos, e Perpetua Rosa? No se passou tudo
particularmente entre o prior e o moleiro, ambos interessados
no segredo do negocio, um por virtude, outro por avareza? Foi
um duende que veio revel-lo? Mas isso  fazer como Eugenio Sue,
que logo desde o principio das suas novellas arranja um homem
humanamente impossivel, e at uma entidade immortal, para nos
casos difficultosos se desembrulhar das aperturas da situao.
Isso  empalmar; isso no vale. Queremos saber por onde transpirou
a generosa aco do velho parocho; mas por meios naturaes. No
admittimos tergiversao, nem milagres."

T, t! Nem eu, falando de telhas abaixo. E era para explicar
este mysterio naturalissimamente, que chamava agora o leitor para
a fresca sombra dos pltanos do presbyterio. O caso foi este:

Quando o prior, dominado pela ida de remediar a todo o custo a
rapaziada que fizera o Manuel da Ventosa, deu comsigo ao romper
da manhan no moinho de Bartholomeu, lembrados estaro de que o
velho, accedendo aos desejos manifestados pelo seu parocho de
ficar a ss com elle, pozera fra da porta os moos com o grito
de _rua_! Se o homem fizesse como Polyphemo, quando tinha Ulysses
e os seus camaradas encapoeirados no antro com os carneiros e
como carneiros, o qual,  falta do unico olho que possuia e que
lhe haviam vasado, a apalpando e contando os que saam, segundo
mais largamente narra Homero, no succederia o que succedeu, e j
as embrulhadas, picuinhas, dicterios e descomposturas _ad faciem
ecclesi_, de que antecedentemente dei conta, no teriam sobrevindo,
com escandalo das pessoas graves e tementes a Deus. Era, como
no logar competente deixei especificado, grande o trfego no
moinho  chegada do prior: duas rcuas de machos a enquerir 
porta; moos para dentro e moos para fra; saccos de farinha a
rolarem e a empoeirarem a atmosphera; bulha, encontres, sapateada,
arres, xs, pragas, diabos; um pandemonio, emfim, em miniatura. A
chegada do prior foi to inesperada e subita, que Bartholomeu,
azoinado, no reparou nos que saam  sua voz de commando. D'aqui
o damno. Uma testemunha ficava ahi, sem que Bartholomeu dsse
por tal.

Esta testemunha era Gabriel. O pobre rapaz tinha andado, at
 meia noite, do moinho para a fonte e da fonte para o moinho,
com um macho e dous barris, a carrear agua. Depois, estirou-se a
dormir atrs de uma pilha de saccos de trigo, com aquelle valente
somno da primeira juventude, a que se no resiste nem n'um campo
de batalha. Dormiu, dormiu, dormiu. Rompia a alva e ainda elle
era pedra em poo. O grito de Bartholomeu despertou-o, na verdade;
mas no teve animo de erguer-se: bocejou, bufou, espriguiou-se,
estendeu os braos para diante com os punhos cerrados, virou-se de
barriga para o cho, metteu o nariz debaixo do sovaco, e proseguiu
na interrompida tarefa. Felizmente para o pobre do moo, que se
fosse presentido pelo moleiro teria de acordar de todo com o
despertador infallivel de dous pontaps, Gabriel no resonava,
ainda no mais profundo somno. Crendo estarem ss, os dous travaram
a larga conversao que no principio desta famosa historia ficou
fielmente trasladada.

No fao eu to fraca ida de mim ou do leitor, que supponha
asss falta de interesse a minha narrativa, ou o tenha a elle
por um tal cabea de vento, que se esquecesse da estrondosa
gargalhada que desandou o padre prior ao manhoso saloio, quando
este lhe propoz dsse o dote a sua sobrinha Joanna,  falta de
outra mais digna. A descommunal risada  que o somno de Gabriel,
se no partido inteiramente, ao menos j estalado pelo grito de
Bartholomeu, no pde resistir. O rapaz fez uma viravolta, abriu
os olhos, deu uma guinada ao corpo, ficou assentado, com as pernas
estendidas, e a cabea inclinada sobre o peito, meditabundo por
alguns momentos, e immovel como um daquelles santes de que resa
Ferno Mendes Pinto. Depois, levando as mos  cabea, comeou
a coar rapido d'alto a baixo por cima das orelhas. Pouco durou,
todavia, essa primeira furia. Como o som da harpa d'Ossian,
alongando-se e esmorecendo por entre a nebrina das serras, aquelle
coar d'alma affrouxou e desvaneceu-se gradualmente; as mos,
confrangidas em frma de garra, espalmaram-se flexiveis, os braos
hirtos e erguidos despenharam-se mortaes ao longo do tronco, e a
cabea somnolenta balouou  direita, depois  esquerda, depois
pendeu de chofre para diante, e resaltou quasi ao bater sobre os
joelhos, semelhante ao judeu martyrisado pela sancta inquisio,
quando ao descer pendurado da pol, a corda, atada mais curta
que o espao mdio entre o cho e a roldana, o desconjunctava,
retendo-o subitamente alguns palmos acima do pavimento. Assim se
desconjunctou aquella machina de somno, e Gabriel abriu seis
vezes a bca, engradou-a com outras tantas cruzes, esfregou os
olhos com a parte anterior do canho da jaqueta, mirou por entre
os saccos os dous velhos, embasbacou de vr alli o prior, e,
sem tugir nem mugir, poz-se a escutar o dialogo, que se travra
entre ambos.

Qual este foi e o seu desfecho sabe-o o leitor to bem como eu.
Apenas o prior se despediu, encaminhando-se pela encosta abaixo,

Bartholomeu recolhendo as setenta peas, que elle deixra sobre
a arca das maquias, poz logo tudo em movimento; e Gabriel, por
cuja falta naquelle primeiro impeto o moleiro no dera, teve
arte de se confundir com os outros moos, que entravam e saam,
sem que o amo nem por sombras suspeitasse que havia uma terceira
pessoa sabedora do importante negocio que se acabava de compr,
e sobre o qual, no meio do seu mandar, e ralhar, e lidar, j
a ambio lhe ia alevantando na phantasia muitos castellos de
vento.

Segredo em bca de rapaz, outros dizem de mulher (eu, por decencia
e pelos meus principios, sustento a moo relativa aos rapazes) 
manteiga em nariz de co. Elle, na verdade, contou-o com variantes
para mais e para menos, mas contou-o, que  o caso. E a quem o
havia de ir metter no bico?  pessoa que mais interessada suppunha
na historia;  senhora Perpetua Rosa, mas pedindo-lhe pela alma
das suas obrigaes e pela fortuna da sua Bernardina que no
dissesse nada, porque o patro, se tal soubesse, era capaz de
esgan-lo. Prometteu-lh'o Perpetua Rosa; jurou-o e tresjurou-o.
Pulava a boa da velha de contente, e a primeira vez que levou roupa
 cidade fez das fraquezas foras, e trouxe de mimo a Gabriel um
pio novo, uma gaiola de grilos cousa d'espavento, e uma abda
de castanhas do Maranho e de figos passados, com que o bom do
rapaz se regalou de pr a bca n'uma lastima. E o mais  que teve
palavra. Apenas contou o caso a duas ou tres freguezas antigas
de Lisboa, e  tia Jeronyma, com quem desde a mestra, podia-se
dizer, era unha com carne. Aqui  que foram as ancias. Pelos
domingos tiram-se os dias-sanctos. A ama do prior fez-se fula
quando tal ouviu. A lanceta que sangrra a meia do forro da escada
apparecia finalmente; e a tia Jeronyma, sem lhe importar o ver
a mortificao da pobre Perpetua Rosa, desabafou  sua vontade;
mas passado o primeiro estouro da dor, levou de seu brio nunca
mais tornar a bulir nesta desagradavel materia.

Eis a verdade nua e crua de como se aventou o segredo. A alhada
da porta da igreja, nascida daquellas tafularias tolas do Manuel
da Ventosa e da sua companheira, acabou de divulgar o negocio,
sem que n'isto andasse o fradinho de mo furada, nem os jesuitas,
gente de poder mysterioso e terrivel, nem, finalmente, o judeu
errante, que tantas maravilhas obra actualmente na terra. Mas se
n'isto no entraram os irmos do quinto voto, nem o caminheiro
Ahasvero, com as suas sapatas tauxiadas de pregos em cruz e com os
seus alforges de cholera morbus, entrou, a meu vr, a Providencia,
mas uma Providencia natural e simples nos seus meios, como ella
o  sempre, sem milagres nem bruxarias. Cuidava o prior que a
sua nobre e evangelica generosidade ficasse occulta; cuidava
Bartholomeu que trvas perpetuas cobrissem a torpe cubia e a
srdida avareza com que se houvera neste negocio. Vae, que faz
Deus? Serve-se de um pobre rapaz, que ninguem tinha em conta
de nada, e pe tudo ao olho do sol. E fique desde aqui dicto
que essa  a moralidade da minha historia: a virtude exaltada,
e o vicio punido. Nem mais nem menos, como o desfeixo daquellas
grandes comedias, que, ha vinte ou trinta annos, eram as delicias
de nossos paes, e a gloria dos nossos dramaturgos das tres unidades,
que Deus haja... As tres unidades, entenda-se bem; porque os
dramaturgos, esses o Senhor no-los conserve, emquanto podr ser,
para nosso regalo e consolao.

Quem disse l que as velhotas, testemunhas dos _items_ do moleiro
com as personagens que mais conjunctas lhe eram, entraram para
a igreja e se pozeram a ouvir o cantar dos padres, e a musica do
coreto, e o esbravejar do prgador? Por um oculo!  sombra da sua
victima, que fra e que a seu;  sombra de Bartholomeu, a quem
todos abriam caminho para o deixarem approximar-se do banco dos
festeiros, ellas atravessaram a m dos homens, unidos como sardinha
em tigela dos estrados para baixo at o guardavento, e chegaram
ao meio do mulherio. Haja o aperto que houver, ainda no consta
que saloia deixasse de fazer praa para si na igreja. Verdade 
que a tia Jeronyma a em frente com a cara de arremetter que
Deus lhe dera, e que mais rebarbativa se tornra com a anterior
refrega. Quem deixaria de dar campo  ama do prior, e, sobre tudo,
quella carranca? Seguiam-na os noivos, encolhidos e vergonhosos
do escandalo que tinham causado, tornadas em fel e absintho as
to risonhas esperanas que, pouco havia, punham no seu garbo e
bizarria; que n'isto vem a acabar muitas vezes as vanglorias do
mundo. (Mais moralidade). Aps elles vinha Perpetua Rosa, e aps
a lavadeira vinha a Veronica do Tiago, padeira gorda, vermelha
e reverendaa, a Engracia Ripa, mulher do fogueteiro da aldeia,
magra, alta, cr de enxofre, a Eufrasia Tasquinha, tia do Gabriel,
e varias outras, mais anchas ou mais esguias, mais esgrouviadas
ou mais repolhudas, que no sou eu nenhum Homero para estar, nem
antes nem depois da batalha, a tecer catalogos de guerreiros.--"D
licena!..."--"Ai, que me pisou!..."--"Perdoe!..."--"No v?..."--Eis
o que se ouviu murmurar por alguns instantes. E no meio daquelle
mar de cabeas adornadas de lenos de cr, listrados, e brancos,
avultava a pinha das recem-vindas, que tentavam ajoelhar; pinha
semelhante  embarcao rota a ponto de submergir-se, que baloua
vacillante, e se atufa lentamente nas aguas. Manuel da Ventosa,
que ficra em p no topo inferior do estrado, sentia apertar-se-lhe
o corao vendo a sua Bernardina no meio daquelle cahos de capotes
e roupinhas, como uma avesinha do cu no meio de ninhada de sapos.
As sedas, o chapu, as flores, a romeira rangiam, achatavam-se,
engorovinhavam-se entaladas entre aquellas baetas, pannos, cameles
e durantes, do mesmo modo que sobre o cadaver da virgem se achatam
e quebram as alvas roupas da innocencia e a cora de rosas, debaixo
da terra aspera, pesada, immunda, que o coveiro atira brutalmente
sobre os restos do que foi bello, delicado e puro.--"Mas que
remedio?--pensou Manuel. As cousas assim ho-de ser sempre, porque
assim foram desde o principio do mundo."--Elle, de feito, cria que
desde esse tempo existiam missas cantadas, saloias e apertes.
Mas emfim ajoelharam, persignaram-se, e a festa principiou.

No a descreverei eu. Quem no sabe o que  uma festividade de
orago, e o que  a missa solemne celebrada n'um templo catholico?
Ha ahi alguem, crente ou no-crente na f que seus paes lhe
ensinaram, que no tenha bem vivos na memoria esses dias festivos
da sua meninice; esse culto, que sabe elevar o espirito para o
cu com as pompas de espectaculo sensual, que parece deveriam
faze-lo descer para a terra? Quem se no lembra daquelles bons
dias sanctos dos doze annos, em que o sol era mais formoso que
nos dias de trabalho, sem exceptuar a folgada quinta-feira do
sueto escholastico? Quem se no lembra da epocha, em que o nosso
parocho era para ns um ente quasi divino; porque, pobres creanas,
ainda ignoravamos os caminhos por onde esses homens, chamados a
uma existencia de sancta e sublime poesia, sabem vir despenhar-se
no charco das miserias e torpezas humanas, e revolver-se ahi
com aquelles de que deviam ser esperana, salvao e exemplo?
Quem no se recorda com saudade do tempo em que o altar s lhe
apparecia a certa distancia, com o seu frontal broslado e a sua
toalha alvissima, assoberbado pela catadupa de lumes de um throno,
perfumado pelas jarras de flores, involto no ambiente turvo pelos
rolos de fumo raro e pallido do incenso, symbolo do mysterio? A
quem no murmura ainda nos ouvidos o rythmo monotono e severo do
psalmear sacerdotal, mais accorde com as doces tristezas do corao,
que toda a musica sentida e dolorosa dos espectaculos scenicos, e
que estes, na impotencia de o vencer, tm ido humildemente imitar
nas creaes dos modernos artistas (porque Meyerbeer, para ser o
rei das harmonias, foi invadir o templo)? Quem, finalmente, no
refugiu uma vez, cansado de scepticismo, para as memorias infantis
das commoes geradas pela religio dos primeiros annos, religio
toda de affectos, de inspiraes, sem sciencia nem raciocinio,
os quaes, semelhantes ao sal espalhado sobre a terra, podem
fertilisar algum corao, mas esterilisam os mais delles? As
impresses indestructiveis das festas religiosas guardam-nas
os que crm, como consolao do passado, e como esperana de
regosijo futuro; e os que no crm tambem as guardam, no longo
crepusculo da sua alma, como guardamos no inverno as plantas
odoriferas j murchas, que, debaixo de cu pardo e frio, ao p
da veiga nua e da arvore desfolhada, nos recordam o halito suave
dos campos ao pr do sol de um dia sereno do estio.

Eis-ahi porque no descrevo a festa. Era especular descaradamente
com os leitores: era como se ao Bartholomeu se lhe mettesse em
cabea ir ensinar o ceremonial romano ao incomparavel Fr. Narciso.

E que ter Fr. Narciso, que j escarrou duas vezes, j se assoou
quatro, j bufou seis, j arregalou os olhos para o corpo da
igreja oito?  que as attenes esto distrahidas. Fortes brutos!
Uma perfeio de ceremonias, que nem na capella sixtina no dia da
beno _urbi et orbi_!--"Olha o que l vae! o que l vae!--rosnava
elle cheio de indignao.--Aquellas endiabradas... Quem vos decepra
as linguas, tarameleiras! At aqui! Louvado seja Deus!  de mais.
Psiuhhhh!"

Tinha razo. Era um zum zum na igreja, que quasi galgava por cima
das rebecas; e mais chiavam e desafinavam com alma. O arrastado
psiuhhhh de Fr. Narciso restabeleceu, porm, a ordem, que nem
n'um motim popular uma carga de cavallaria.

Mas para se restabelecer a ordem  necessario haver desordem.
Quero vr se tambem dizem os parvos que esta proposio  uma
das minhas esquisitices, ou excentricidades, para lhes falar
na sua algaravia. A cousa tinha sado do logar onde estavam a
tia Jeronyma, Perpetua Rosa e a Bernardina. Qual cousa? Isso
 o que no diz a historia. O que  certo  que era um bis bis
que partia do centro para a circumferencia, como os circulos
concentricos que encrespam a superficie do lago ao meio do qual
se atirou uma pedra, e era ao mesmo tempo um balouar de pontas de
lenos sobre os cabees dos capotes, um rir abafado, um sussurro,
uma agitao entre o mulhero, tal, que attrahira a atteno e
logo a colera de Fr. Narciso. O mais que se pde perceber foram
alguns fragmentos de dialogo entre a tia Jeronyma e a Engracia
do Estanislau fogueteiro.

"Padre nosso que estaes nos cus:--dizia Engracia Ripa, deixando
correr um dos bugalhos de umas contas da terra sancta que tinha
nas mos.--Ora essa!--Sanctificado seja o vosso nome.--Forte
tractante!--Venha a ns o vosso reino.--E uma pessoa com a sua
quella de que era um home como se quer!--Seja feita a vossa
vontade.--Safa!--Assim na terra como nos cus.--Com que ento
setenta?"

"Entregadinhas!--_Ave Maria, gracia plena_:--respondeu a tia Jeronyma,
que latinisava furiosamente  fora de viver com o prior.--Como
lh'o hei-de dizer?--_Domisteco._--Foi o demo que o tentou.--_Benedits
tu..._"

Neste ponto a interessante conversao das duas matronas foi
interrompida pelo psiu! raivoso de Fr. Narciso. No podemos dizer
sobre que ella versava, nem aonde iria dar comsigo: e quando
n'uma chronica profunda e grave, como esta, faltam fundamentos
plausiveis,  dever do chronista ser sobrio, ou antes abster-se
de conjecturas. Direi s que ao sar a gente da festa, no havia
co nem gato que no soubesse tim-tim por tim-tim a historia
do Manuel da Ventosa e da Bernardina.

Mais moralidade:-- o que elles tiraram das suas tolas tafularias.

Quando o prior sau da igreja os rapazes desbarretavam-se, ainda
com mais signaes de cortezia e respeito do que era costume; as
raparigas affagavam-n'o com um sorrir e volver d'olhos affectuoso,
que fazia scismar o bom do parocho. Todos olhavam para elle e
falavam em voz baixa. O prior estava zangadissimo.

Mas qual foi o seu pasmo ao vr chegarem-se a elle muitos velhos
de cabea branca (eram varios lavradores seus freguezes, hourados
paes de familia) e beijarem-lhe a mo com os olhos arrasados de
agua! Estava fumando. Uma onda se lhe a outra se lhe vinha de
destampar com tudo aquillo, e pregar uma descompostura solemne
e por atacado nos velhos, nos rapazes, e nas raparigas.

E para isso no lhe faltava metralha. Mas lembrou-se de que era
o dia do orago da aldeia, e teve mo em si. S l perguntava
aos seus botes qual seria a causa deste destempero e doudice.

Como havia elle de atinar, se tinha o costume de esquecer-se
do bem que fazia, porque, sendo fraco de memoria, reservava-a
toda para o bem que recebia?

A historia do casamento feito pelo velho parocho, segundo depois
me contaram (era eu pequeno, e lembra-me como se fosse hoje),
chegou aos ouvidos do prelado diocesano, o qual disse ao famulo
do famulo do seu secretario, um dia em que se levantou de dormir a
ssta com vontade de galhofar, que na primeira visita que fizesse
 diocese havia de elogiar publicamente aquelle digno pastor.
Nunca, porm, houve occasio para a primeira visita, porque esta
costumeira velha tinha passado j de moda. Eram pieguices s boas
para os Bartholomeus dos Martyres e para os Caetanos Brandes;
pobres homens, a quem Deus fale na alma, se  que valiam a pena
d'isso.

Ajuda--novembro de 1844.




DE JERSEY A GRANVILLE.

(1831)


Abandonavamos, emfim, o solo d'Inglaterra. Sera pela volta do
meio dia quando saltmos no chasse-mare que devia conduzir-nos
de Jersey a Saint-Mal, atravessando aquella estreita poro
do canal que nos separava da Frana. Sentimentos encontrados
eram nesse momento os meus. O sol resplandecia brilhante, e o
ar estava puro e sereno: era um dia d'outono, to bello como
o que mais o fosse em Portugal. De um lado alteava-se a ilha
com os seus outeiros e valles, solo anfractuoso semelhante ao
nosso, e a povoao com os seus edificios cobertos de telha,
que nos faziam esquecer aquelles horriveis tectos inglezes de
lousa negra, especie de tabuletas do _spleen_, penduradas pelos
bretes sobre as suas cidades, e em que parece ler-se a inscripo
de Dante:

  _Per me si va nella citt dolente._

Do outro lado estendia-se o mar, cho e espelhado, que se interpunha
entre ns e a Frana; entre ns e esse paiz, que para a mocidade
das naes occidentaes da Europa  como uma segunda patria; porque
l est o centro das idas que hoje agitam os espiritos, tanto
no que respeita s questes sociaes, como no que interessa 
sciencia e  litteratura; porque l vivem os escriptores que
melhor conhecemos; que, at, ammos como se foram nossos: paiz,
a cujos habitos, tradies, successos e glorias nos tm associado
os seus livros, sem o sentirmos, sem, talvez, o querermos. Ao
approximarmo-nos da Frana o corao no bate violento, nem se
derramam lagrymas, como ao avistar a terra em que nascemos; mas o
animo desaffoga-se, e abre-se  esperana; vamos tractar homens,
que nunca vimos, mas com quem de largo tempo vivemos pelas intimas
relaes dos affectos e da intelligencia.

Eramos seis portuguezes a bordo do chasse-mare, alm de dous
marinheiros francezes e um grumete, entidades analogas aos nossos
antigos desembargadores; porque cada um delles cumulava seis
ou sete cargos daquella vacillante e pequena republica, cargos
disparatados, que, todavia, as tres personagens desempenhavam
perfeitamente, destruindo assim, em parte, a analogia radical,
que tinham com esses magistrados de pedante e pesada memoria, que
no desempenhavam bem nenhum. Um co e tres inglezes completavam
a colleco dos animaes inclusos entre as quatro taboas da fragil
embarcao.

O chasse-mare  um transporte maritimo, que, na minha profunda
ignorancia das cousas navaes, me parece semelhante ao hiate
portuguez, ao menos na immundicie e na carencia absoluta de tudo
o que seja commodidade. N'isto, entre parenthesis, no sou eu
ignorante; porque tenho experimentado uns e outros, e posso asseverar
que sera mui difficultoso de resolver qual dos dous generos de
navios tem parentesco mais proximo com as rudes e acanhadas gals,
em que, ha sete seculos, Guilherme o conquistador transportou,
atravs daquelle mesmo canal, da Normandia para Inglaterra os
ascendentes da actual aristocracia britannica.

Commoda ou incommoda, era necessario aproveitar aquella detestavel
jangada para passarmos a Frana, e isto por duas razes
urgentissimas; a primeira, porque nenhuma outra embarcao havia
no porto de Saint-Hlier com destino immediato para a costa
fronteira: a segunda, porque o preo da passagem era apenas uma
libra esterlina, e uma libra esterlina era o folego maior que
podia sar da bca das nossas bolsas, cuja phtysica pulmonar
ia j no ultimo periodo. Tendo-nos, portanto, ajustado com o
marinheiro que capitaneava o outro marinheiro, e havendo mettido
a bordo os nossos bahus, que, pelo leve e desempedido, podiam
servir-nos de botes de salvao em caso de naufragio, samos
da caldeira de Saint-Hlier com uma brisa forte da terra, que
brevemente nos arremessou para o largo. Era muito depois do meio
dia. Algumas nuvens brancas do lado do poente recortavam as suas
franjas irregulares sobre o cho do cu, que a luz do sol tornava
de um azul desbotado. Raras e diaphanas, aquellas nuvenzinhas
balouavam-se no ar, ao que parecia, mais voluptuariamente do
que ns, que sentiamos arfar, pinchando d'entre as vagas crespas,
o nosso pequeno baixel. Pouco a pouco esses vapores accumulados,
cujos contornos occidentaes barravam orlas de ouro, engrossaram,
tomando frmas determinadas. Depois, correndo gradualmente mais
rapidas, e interpondo-se entre os raios do sol j inclinados e
o vulto rugoso das aguas, lhes remendavam o dorso semelhante 
pelle mosqueada do tigre. Este jogo da luz dava ao mar um aspecto
verdadeiramente accorde com a sua natureza. Que  elle, de feito,
seno a mais terrivel das bestas-feras?

E o vento refrescava de instante a instante, e os mastros do
chasse-mare principiavam a soltar de quando em quando um gemido
doloroso, curvando-se para as vlas quadrangulares retesadas
diante delles.

O grumete a ao leme: o marinheiro, que representava e resumia
a companha, de bruos e com os joelhos sob o ventre, no ademan
de um gato que se apresta a saltar sobre o murganho immovel de
terror, parecia examinar os novellos de nuvens tenebrosas, que
se rolavam no horisonte e cresciam para ns, como uma visualidade
de camara obscura. A barlavento o arraes ou capito (_capitaine_
lhe chamavamos ns pelo menos) que representava e resumia a
officialidade do navio, com o corpo torcido, e encostado  amurada,
firmando a barba nos braos cruzados em cima da borda, tambem
parecia esquadrinhar o cu e o mar. Dir-se-hia que o encapellar
das ondas se regulava e media pelas rugas que successivamente
augmentavam em numero e profundeza na fronte tostada do antigo
marujo. Um susto vago e inexplicavel como que pairava no meio
de ns. Era que a postura e o gesto daquelles dous homens tinham
um no sei que sinistro e mysterioso, semelhante ao bofar morno
do vento que precede e annuncia a procella.

Ns os passageiros, assentados n'uma especie de canap mal
affeioado, que circumdava a coberta  ppa, tinhamos insensivelmente
cahido em completo silencio; ou, para falar com mais exaco, ns
os portuguezes eramos os que nos haviamos calado; porque nem o
co, nem os tres inglezes tinham proferido, aquelle um s ladro,
estes um s grasnido desde o momento em que saltaram a bordo, na
abra de Saint-Hlier. O unico rudo que sussurrava era o ranger
do baixel, e o sibilo de vento embatendo em ns, e abysmando-se
nos nossos ouvidos, o que nos fazia escutar um som semelhante
ao do pinhal que se estorce e vrga ao redemoinharem-lhe por
entre as ramas os mil braos da tempestade nocturna.

Dos tres inglezes um velho de cabea inteiramente branca e rosto
inteiramente vermelho dava certido, nas cans, de que a agua
do baptismo passra por alli havia muitos annos, na cr da tez
dava-a de que tambem no havia poucos que elle, levado de um
sancto respeito pela materia do principal sacramento, abjurra de
corao o tocar-lhe com os labios, contentando-se de humedece-los
com os tres liquidos fundamentaes de todos os contentamentos
possiveis entre os netos dos kimhris e saxonios--o rhum, o vinho
e a cerveja. Dos outros dous, um mostrava ser inglez de cincoenta
annos, outro de quarenta; o primeiro, magro, da altura de cinco
para seis ps craveiros, faces encovadas, nariz meridional, ou
antes judaico, isto , prominente e adunco, tez no tanto morena
como macilenta: o segundo, typo saxonico, isto , rosto largo
e achatado, olhos azues, guedelhas louras, bca profundamente
vincada nas extremidades do beio inferior, de aspecto aborrido
e orgulhoso, como se todo o fumo de carvo de pedra britannico
o cercasse com a sua aurola de gloria nacional. De resto no
havia que duvidar-lhes da patria: indicava-a o cheiro dos seus
vestidos, suavemente impregnados do fartum sebaceo de carneiro, e
aromatisados com os effluvios nauseantes da infuso do ch preto,
os quaes constituem a formula odorifera da sociedade politica
chamada os tres reinos unidos.

Pois tambem ha cheiros nacionaes?--dir o leitor.--Que duvida!
Cada nao tem a sua crena, a sua lingua, e o seu cheiro. O credo
inglez  representado no sei ao certo por quantos centenares
de seitas, que se mandam reciprocamente para o inferno, desde
a igreja anglicana, em que os bispos e arcebispos (poetas,
amphytries, millionarios e politicos) bradam anathema contra
as vaidades, luxo e cubia de Roma, at os methodistas, que vo
para os seus templos caar as inspiraes de cima, inspiraes
que muitas vezes so papadas por velha fanatica e tonta, e ouvidas
pelos seus irmos com uma compuno que daria vinte comedias a
Gil Vicente se hoje vivesse, e viajasse pelo _Might Empire_ do
vapor e da cerveja.

A brisa, que ao sarmos de Jersey era em ppa, rodou successivamente
para noroeste, e antes do pr do sol soprava j violenta do lado
do oeste. Ns seguiamos, pouco mais ou menos, o rumo do sul, e a
mudana do vento, posto que ameaadora, tinha sido momentaneamente
uma vantagem de commodidade: o chasse-mare corria  bolina, e
por isso o seu arfar se tornra mais suave. No horisonte, quasi
pela ppa, divisavamos ainda o promontorio de Noirmont, e pela
nossa esquerda prolongavam-se quasi imperceptivelmente as costas
de Frana, como uma linha negra lanada ao travs dos mares.
O silencio que reinava a bordo dava certa melancolia solemne ao
quadro do cu nublado, das vagas revoltas, e da terra que parecia
quasi desvanecer-se na orla das solides do oceano.

O inglez velho, que a justamente assentado  minha direita, a
pouco mais de meia milha de Saint-Hlier comeou a empallidecer.
O ar marinho  inimigo figadal do fastio, e por isso, teriamos
apenas navegado duas horas, quando comemos a experimentar, ns
os portuguezes pelo menos, a immutabilidade inflexivel desse axioma
dietetico. Tirmos algumas das nossas provises, e pozemo-nos a
despachar os requerimentos do estomago. Offereci ao velho que
tomasse parte naquella refeio; mas elle recusou, declarando-se
_sea-sick_ (enjoado); todavia para no perder, como verdadeiro
inglez, os prs da minha boa vontade, entendeu que podia trocar
uma obra de misericordia por outra, e, deixando-se escorregar do
banco ao convez, fincou-me sobre os joelhos a cabea entontecida,
e cerrou os olhos. Recommendei ento a Deus os meus pobres ossos
cruraes, ameaados de chegarem a Frana em estado de para nada
prestarem, visto ser a cabea do velho uma verdadeira cabea
ingleza; dura, pesada, e macissa, como o governo da Companhia
na Asia.

Porque no repellia eu a familiaridade ominosa do bom do inglez;
de um homem cuja nao, como portuguez, tenho a obrigao moral
de desamar? Era porque em contrario havia duas consideraes
igualmente moraes. Uma cabea branca  sempre respeitavel, ainda
que assente sobre o tronco ermo de corao de um filho da
Gran-Bretanha. Alm d'isso, o cesto de verga em que am as nossas
provises estava alli como um espectro, que me embargava sacudir
a fronte do ancio para o travesseiro macio do convez gordurento.
O porque desta aco sympathica do cesto sobre o meu espirito
di-lo-hei em breves palavras:  uma historia como qualquer outra.

Miss Parker de Plymouth era uma donzella de sessenta annos;
excellente creatura, que nos hospedra por dous mezes naquella
cidade, mediante a bagatella de tres shellings semanaes por cabea.
A Inglaterra, como todos sabem,  o paiz da franca e sincera
hospitalidade. Eramos ahi nove portuguezes, em seis camas e tres
aposentos, o que dava certo ar pythagorico e mysterioso  familia,
que, dirigida por Miss Parker, podia servir de modelo s outras
ninhadas de emigrados que ainda viviam em Plymouth. Ninguem tinha uma
patroa como ns, e os seus _lodgings_ eram a perola das albergarias de
Plymouth. A principio havia-se encarregado de nos preparar a comida;
mas poucos dias podmos resistir aos abominaveis temperos do paiz.
 precisa uma raa de estomagos que ainda fosse antropophaga no
meado do quinto seculo da era christan para luctar vantajosamente
com a cosinha d'Inglaterra, e estes estomagos s os inglezes
os possuem, segundo o testemunho do seu historiador Gibbon. Os
nossos cederam a to dura prova, e vimo-nos obrigados a dispensar
Miss Parker do mister de nos envenenar. Quanto ao mais eramos
verdadeiramente seus filhos em espirito, em espirito, digo, porque,
afra muitas reflexes pias de que se dignava fazer-nos, a ns
pobres idolatras do catholicismo, obrigava-nos a respeitar o
domingo no pleno rigor da igreja anglicana; isto , a morrer
de tedio e tristeza, prohibindo em sua casa todo o genero de
divertimento, ainda o mais innocente, desde pela manhan at sol
posto, momento em que naquelle abenoado paiz Deus cede ao diabo
o resto do dia dominical, e em que a devassido e a embriaguez,
tripudiando nos prostibulos e nas tabernas, se vingam das dez ou
doze horas de sermes impertinentes dos _clergymen_, e de psalmos
desafinados pelas vozes roufenhas e prosaicas da turbamulta,
debaixo das abobadas sanctas, poeticas e venerandas das antigas
igrejas catholicas, repartidas hoje em camarotes de theatro pela
pureza aristocratica e beata do protestantismo inglez.

Miss Parker foi o unico folego vivo da Gran-Bretanha, a quem, na
minha estada em Inglaterra, devi um beneficio: quando partimos
para Jersey deu-nos um cabazinho em que levassemos a nossa
matalotagem, e derramou algumas lagrymas ao despedir-se de ns.
Aquelle cabazinho era o que estava ante mim, e me sustinha em
cima dos joelhos a cabea do velho. Sobre as vagas procellosas
do canal da Mancha eu soldava assim as minhas contas com a
Inglaterra.

O vento continuava a rodar para sudoeste, e os nossos dous
marinheiros colheram parte do panno e mudaram algum tanto de rumo:
depois tornaram a assentar-se na mesma postura em que estavam, e
tudo voltou ao anterior silencio, que s era interrompido pelo
marulho das ondas espalmando-se no costado do chasse-mare.

Mas um flagicio, mais abominavel ainda que os condimentos ferozes
da cozinha ingleza, veio cortar atrozmente este silencio triste,
que representava no meio de ns a previso de imminente procella.

O inglez alto, de gesto esguio, e nariz hebraisante, tinha-se
assentado ao p do outro inglez affeioado pelo typo saxonico,
no topo esquerdo da banqueta corrida  ppa. Duas ou tres vezes,
desde que levmos ferro, elle dirigiu ao companheiro uma rosnadura,
a que este respondeu com o estirado monossyllabo _Yes_.  quarta
vez, aquella resposta laconica foi proferida com certa melopa
de resignao, que cortava os fios da alma, e acompanhada de um
volver d'olhos azues, em que se pintava uma supplica de piedade.
Mas o inglez aguado carregou o sobr'olho, e, mettendo a mo ao
seio, poz-se a procurar o que quer que era na algibeira interior
de uma das quatro sobrecasacas que tinha vestidas. Eu observava esta
scena; sabia o que pde o spleen, e o receio de algum anglicidio
passou-me pela mente, ao contemplar o aspecto torvo de um e o gesto
confrangido e timido de outro. O vento sibilava violento, as aguas
comeavam a tingir-se de negro, e o cu estava completamente
toldado; era meio poema britannico. Um tiro de pistola e um cadaver
baldeando no mar completariam uma epopa. Nas feies do inglez
esgrouviado parecia-me ler duas palavras--Spleen e Poeta--e por
isso os meus temores no eram to infundados, como, no primeiro
momento, talvez os tenha julgado o leitor.

E o mais era que eu acertra farejando em Mr. Graham Senior (eram
os dous inglezes irmos, segundo depois soubemos) um fazedor das
regrinhas, que na lingua ingleza correspondem ao que nas linguas
do meio-dia  e se chama versos. O honrado Mr. Graham no procurava
na algibeira o amago e substancia da idealidade e poesia britannicas,
a pistola suicida. No! Era cousa mais atrozmente assassina; era um
quaderno grosso de letra microscopica, em que provavelmente se
continham as suas inspiraes ineditas! Estava explicada a longa
taciturnidade dos dous. O perverso meditava aquelle fratricidio
intellectual desde a partida de Saint-Hlier, e os quatro grunhidos
abafados que lhe ouviramos tinham sido quatro tentativas para predispor
a victima. De feito, quando elle sacou o alentado canhenho, Mr. Graham
Junior parecia inteiramente resignado.

Aquelle atenazador das orelhas do proximo comeou a sua leitura
pela primeira pagina. Era um algoz de consciencia, e j se podia
prever que tinha a boa teno de atormentar-nos emquanto durasse o
dia, que felizmente se inclinava a seu termo. Como me foi possivel,
percebi aos trinta ou quarenta versos que era um poeta da eschola
de Pope, ou como quem o dissesse entre ns, um poeta da Arcadia.
C teria falado em Jove, Marte e Neptuno, nas musas, nos zagaes,
nas nymphas, na tuba de Calliope, ou na sanfona no sei de que
deusa: l, nas inspiraes de Mr. Graham, eram as paixes, os
vicios, os affectos personalisados quem fazia o servio dos seus
poemas: aqui a esperana, alli o desalento; ora a temperana, logo
a desenvoltura. Aquella poesia frigidissima fazia-me lembrar do
Olympo, do Pindo e da Castalia dos nossos arcades, e de algum modo
me consolava das miserias domesticas, ao vr que a poesia cadaverica
das frmas e convenes no vivia unicamente entre ns, mas ainda
ousava no canal da Mancha misturar as suas semsaborias academicas
com o bramido terrivel do vento, e com o ferver estrepitoso das
vagas, que entoavam accordes a sublime invocao da procella.

O poeta esguio declamava as suas regrinhas lentamente e com todos
os requebros da melopea ingleza, genero de canto semelhante ao
gemer rabugento de uma creana na primeira dentio. O pobre
diabo, posto que provavelmente acreditasse que nenhum de ns o
entendia, pensava por certo que, nova especie de Orpheu, bastavam
os sons das suas palavras harmoniosas para nos arrebatarem e
extasiarem, a ns selvagens da Europa, como com tanta graa e
verdade denominam os escrevinhadores de John Bull os habitantes
da Peninsula! Pensava assim, de certo; porque de quando em quando
volvia para ns os olhos com aquelle sorriso de complacencia
estupida, que  peculiar na cara de um inglez vaidoso e contente
de si.

Um dos exemplos mais lamentaveis da cegueira do espirito humano
 a persuaso em que os escriptores de Inglaterra esto de que
possuem uma lingua litteraria falada; isto , que os sons quasi
inarticulados do seu chilrear e grunhir correspondem sufficientemente
aos grupos de caractres alphabeticos, de que elles se servem para
representarem os proprios pensamentos. Todavia a lingua escripta
de Inglaterra nada tem que ver com a linguagem em que a nao se
exprime: so dous typos diversissimos, que do frma sensivel
ao pensamento. Abri um livro escripto em qualquer outro idioma da
Europa, e fazei ler por elle um estrangeiro completamente ignorante
desse idioma: o natural do respectivo paiz, aquelle que o falou
desde a infancia entender tudo ou quasi tudo, se escutar essa
leitura. Fazei a mesma experiencia com um livro inglez: o natural
de Inglaterra no entender provavelmente uma unica palavra. 
que na realidade entre este povo, em tudo singular, os signaes
chamados letras no tem um valor constante e determinado, e por
isso no podem corresponder rigorosamente a um som.

A Inglaterra ha visto nascer no seu gremio grandes poetas. Shakspeare
e Byron bastariam para lhe dar uma celebridade immensa. Mas a
sua poesia reside toda no pensamento, na essencia da arte. As
frmas externas so rudes, barbaras, ou fluctuantes. Shakspeare e
Byron foram dous selvagens, um porque estava alm da civilisao,
outro porque estava quem della; mas foram talvez as duas almas
mais sublimemente poeticas da Europa. Porque, pois, no souberam
ajunctar a melodia material s harmonias intimas das suas ideas?
Foi porque no podiam converter em palavras humanas o intoleravel
grasnido dos seus compatriotas.

Uma cousa que sempre me acontece em ouvindo falar um inglez 
notar as mysteriosas analogias que ha constantemente entre a lingua
de qualquer povo e os seus habitos de moralidade. Considerae por
exemplo a lingua alleman:  um idioma perfeitamente accentuado;
os vocabulos escriptos correspondem rigorosamente aos falados:
no ha ahi luxo inutil de letras: todas se proferem; todas
representam um som ou uma articulao. Os caractres do alphabeto
nunca serviram para enganar o estrangeiro. No achaes n'isto
uma expresso do animo leal, franco e singelo daquelle povo?
A _Deutsche Treue_, a _f germanica_, no se reflecte como em um
espelho da lingua desse paiz? Agora escutae um inglez: dous teros
de cada palavra, como a representam os signaes alphabeticos, no
se proferem: devora-os o leitor: so uma armadilha para obrigar
os labios peregrinos a darem syllabadas: o inglez pronuncia com
os dentes cerrados, como se temesse que essas palavras-ourios
lhe fizessem, ao perpassarem, os labios em sangue. No achaes
n'isto um typo de cubia e avareza? Um pensamento enganoso? O
algodo tecido  sorrelfa com a lan? No descubris l o pensamento
do tractado de Methuen, ou do desembarque de Quiberon? No se
revela no coaxar das rans de Wordsworth e dos poetas dos lameiros
o _British Interest_?

Taes eram as reflexes em que eu estava embebido emquanto o poeta
mastareu acreditava ter-nos enleiados a todos com as mellifluas
toadas do seu poetico lavor. A noite, entretanto, tombando de
castello em castello de nuvens, lanava sobre o dorso do mar
revolto o seu manto de obscuridade. O sectario de Pope cedeu
ento s trvas: fechou o canhenho, e resguardou-o outra vez
dos olhos profanos debaixo da meia fabrica de Leeds, que fora
absorvida na mole immensa dos seus quatro casaces.

Mr. Graham Junior, apenas seu respeitavel irmo cessou de ler,
volveu para elle o rosto melancholico, e murmurou, depois de
um suspiro:

"_Aye!--Very good!_"

Com os tres _Yes_ precedentes fazia a conta de seis palavras, ou
grasnos, que despendra naquelle dia Mr. Graham Junior.

Dous inglezes ridiculos so incontestavelmente as duas cousas
mais ridiculas deste mundo.

O temporal que se preparra durante a tarde desfechou em cima
de ns com o cerrar da noite. O vento saltra inteiramente ao
sul, de modo que nos ficava ponteiro. As vagas accumulavam-se
em serras, que, alando-se e topando em cheio, se enlaavam e
confundiam como dous luctadores furiosos. Depois a mais possante,
sumindo debaixo de si o grande vulto da sua contraria, erguia
o topo esguio, que vacillava um instante, e cahia desfeita em
catadupas de escuma nos valles profundos cavados momentaneamente
em volta della. A lucta daquelles vagalhes gigantes, em p sobre
o abysmo das aguas, estreitando-se e despedaando-se como as
hyenas e tigres n'um circo romano, vista assim ao lusco-fusco
sob um ceu achatado e cinzento, era uma sublime peleja! Todos
os espectaculos da terra--dos homens ou da natureza--que so,
ou que valem, comparados com a colera da procella que passa no
oceano? Menos que fara semsabor de titeres comparada com o Hamlet
ou com o Othelo representados por Betterton ou por Garrick. O
mysterio dos mares  de todas as obras da creao aquella em que
mais profundamente o Senhor estampou o seu verbo; a inscripo
indelevel e indubitavel, que narrar perpetuamente ao genero
humano o seu infinito poder.

O chasse-mare havia-se posto  capa. O vento no consentia j que
surdissemos avante, e o arraes, depois de uma breve conferencia 
pra com o seu companheiro, veio declarar-nos que seria impossivel
seguir o rumo de Saint-Mal; que era necessario pr a pra nas
costas da Normandia, e dirigirmo-nos a Granville; e finalmente,
que s ahi poderiamos tocar em terra na manhan seguinte. Recebemos
esta desagradavel nova com mais heroica resignao, se  possivel,
que a de Mr. Graham Junior ao levar a sova poetica das inspiraes
fraternas. E que no nos resignassemos! A immutabilidade do nosso
destino proclamavam-n'a os silvos do vento, e, o que mais era, a
declarao do arraes. Um capito de qualquer baixel  o absolutismo
incarnado: as suas decises equivalem  fatalidade moslemica. Em
muitos sermes politicos, que  a espcie mais impertinente do
genero litterario--sermo--tenho lido comparaes fulminantes
contra os tyrannos, buscadas no despotismo asiatico. Se eu cahisse
na miseria de fazer eloquencia politica, no a to longe busca-las.
Saltava no primeiro hiate, chasse-mare, ou sloop, e travando do
arraes dizia ao mundo: _ecce homo_; eis-aqui a flr, a maravilha, o
ideal de todos os despotismos possiveis. Os que andam incommodando
Attila, Kulikan, ou Timur, para afferir por elles os tyrannetes
quasi-ridiculos da Europa moderna, so dissertadores d'agua-doce,
que (para me servir de uma phrase do auctor de Micer Harold)
nunca pozeram a mo sobre a juba crespa do oceano. Tyrannia e
arraes so synonimos: digam o que quizerem os extirpadores
implacaveis das synonimias.

Maitre Jean Legris era um verdadeiro arraes normando: duro,
carrancudo, e inexoravel como os piratas do seculo duodecimo seus
antepassados, de que to pavorosas memorias restam nas costas
de Portugal e de Galliza. Ouvimo-lo com magoa, mas com respeito,
porque no havia replicar. O chasse-mare obedecia ao leme, o leme
ao marinheiro, o marinheiro ao capito, e o capito, pactuando
com o vento, resolvra empalmar-nos Saint-Mal e a Bretanha,
para nos dar em troco Granville e a Normandia. Por isso, antes
de nos communicar as suas intenes, mestre Joo tinha dado a
ppa  tempestade e tomado o rumo de leste. Contava d'antemo
com a obediencia, que no lhe podiamos refusar.

Emfim anoitecera: a unica luz que viamos nas campinas do ceu
e das aguas era aquella especie de branquejar phantastico e
transitorio da escuma, que  para o luar o que um retrato de
morte-cr para um vulto original--menos que frouxissima claridade,
e mais que o crepusculo esbranquiado e indeciso de um corpo
alvo e que mal se divisa no meio das trevas.

O chasse-mare, galgando por cima das ondas, no meio do refluxo
dellas, devia parecer, visto de longe, um baixel mysterioso e
infernal, perseguido por espectros que surgiam successivamente dos
abysmos, e que em roda delle danavam danas maldictas, involtos
em seus alvos sudarios.

Bem importavam a Mr. Graham, o fratricida psychologico, aquellas
solemnes tristezas de uma noite procellosa! Tirou um frasquinho
de aguardente que trazia a tiracollo, bebeu um largo trago, e
alevantou-se, dirigindo-se  escotilha da especie de camara que
nos ficava de baixo do tombadilho. Era um pinheiro! Quando o
vi em p receei que o sul o partisse; mas nem sequer rangeu.
Se me no mente um calculo rapido, Mr. Graham era, ao menos
physicamente, um poeta da fora de oitenta cavallos, medida
britannica: era um poeta de alta presso: era um poeta _warranted_,
para me exprimir como os laconicos letreiros de todas as peas
de fazendas inglezas falsificadas. Mr. Graham Junior seguiu Mr.
Graham Senior, _non passibus aequis_, como mais curto que era.
Ouvimos l embaixo ainda dous ou tres regougos; depois tudo cahiu
de novo em silencio.

O velho, que se me encostra sobre os joelhos, apenas viu os
seus compatriotas buscarem acolheita para a noite, ergueu-se,
e cambaleando chegou  ingreme escada que conduzia  estreita
camara. Poz um p no primeiro degrau, poz o outro no segundo,
tornou a pr aquelle no ar, e disse com o corpo no fundo--pan!

Era o som d'um _cask_ de cerveja cahindo de vinte ps d'altura.
Ouviu-se-lhe um grito rouco e mais dous grunhidos dos seus
respeitaveis patricios. Tinha arrebentado o saxonio, ou espalmado
o poeta? Talvez ambas as cousas. Corremos a acudir-lhes levados
pelo primeiro impulso de humanidade. Os primeiros impulsos, nestes
casos, no prestam nem para Deus, nem para o diabo, porque so
estupidamente involuntarios. Seja isto dicto, com paz do leitor,
como desculpa da nossa caridade, e como descargo de consciencia
nacional.

Para clareza desta importante narrao  de saber, que apenas
viraramos de rumo, o marinheiro substitura o grumete no governo
do leme, como ministro responsavel de mestre Joo, e o grumete
fra assentar-se  proa no logar que deixra o seu successor,
exactamente como um ministro demittido, que vae tomar assento
nos bancos da opposio. D'alli olhava para o tombadilho, fazendo
a segunda, com um assobiar monotono, ao bramido do vento.

Chegmos dous ou tres  escotilha onde sora o baque do velho.
Iamos a descer, a risco de nos despenharmos tambem, quando a
cabea de Mr. Graham Senior comeou a surgir como uma viso de
Manfredo:

  _What dost thou see?--_

  _I see a dusk and awful figure rise._

 luz da bitacula, que enviava um raio frouxo ao rosto do grumete,
o poeta acenou-lhe que se approximasse, sem se dignar sequer de
olhar para ns humildes creaturas, que haviamos parado em roda
de sua grandeza.

O rapaz chegou-se a Mr. Graham.

"_Brandy!_[1]"--rosnou este, com o aspecto temerosamente carrancudo
e imperativo de um Nelson dando a ordem de accommetter na batalha
de Trafalgar. Dizendo e fazendo, mostrava o seu frasco de aguardente
virado de boca para baixo. O rapaz poz-se de novo a assobiar.

Ns ento ousmos perguntar a sua extenso se por ventura succedra
algum fracasso aos seus compatricios. Elle lanou-nos um olhar
obliquo, e em voz mais alta bradou ao grumete:

"_Rhum!_"

"No ha:--respondeu o rapaz entre dous assobios.

"_Bring rhum, boy!_--insistiu o cantor da temperana, j colerico,
e fazendo-se desentendido.

"_Chien d'anglais_, no percebes?..."--exclamou o grumete na sua
lingua nativa, com um gesto de impaciencia; e accrescentou
voltando-se para ns:

"Que diz este diabo?"

"Que lhe ponhas para alli cachaa:"--ia eu a dizer, paraphraseando
em francez os trez monosyllabos britannicos, quando fui interrompido
por um mugido, subito, incisivo, retumbante, que sobrelevou o rugir
da tempestade. Soltara-o Mr. Graham, que, cerrando os punhos,
com todos os ademanes de um professor de scco, crescia j para
o pobre grumete, o qual avalira erradamente a linguistica do
poeta. Elle percebra s mil maravilhas as duas personalidades
de _co_ e _diabo_, que ousra dirigir-lhe o imberbe e enfarruscado
normando.

Felizmente para este, uma onda galgando exactamente nesse momento
a ppa, veio lavar o tombadilho, e em forte balano, fazendo
perder o equilibrio ao filho da Gran-Bretanha, o estendeu ao
comprido na agua que passava em demanda da pra, com grave perigo
do precioso manuscripto do casaco. Estirado sobre a tilh do
chasse-mare, e colleando e bufando para se alevantar, Mr. Graham
representava soffrivelmente o papel de um congro tirado naquelle
instante do mar. Quando elle, emfim, pde concluir o plagiato
que fizera ao tombo do seu velho compatriota, o grumete tinha-se
j retirado ao anterior posto, sobre os escovens, e continuava
o seu acompanhamento de assobio ao estrepitar do vento.

Mr. Graham meditou um momento. Parece que o abalo da quda e
a frescura da agua lhe modificaram poderosamente o orgo da
_combatividade_; porque, sem dizer palavra, desceu outra vez para
a limitada camara da fragil embarcao.

Este incidente, que passra com grande rapidez, podia ter dado
motivo a uma sria desavena entre o arraes e o poeta, porque
mestre Joo mostrava-se demasiado cioso da propria auctoridade,
para no consentir que um dos seus subditos fosse punido por
haver recusado uma cousa que talvez no houvesse realmente a
bordo, e por ter dicto duas verdades duras a um conterraneo dos
nevoeiros e dos beef-steaks. Mas porque no se exprimiu Mr. Graham
de modo que o grumete o entendesse? Como imaginou elle que o pobre
rapaz podesse perceber os seus tres monosyllabicos grunhidos?
 que o orgulho e o patriotismo britannico andam aninhados em
tudo. O que nos outros paizes se olha como um primor d'educao,
em Inglaterra  uma indecencia. Um inglez parece envergonhar-se
de saber algum idioma estranho, e muito mais o francez, que nos
paizes continentaes no  permittido ignorar a qualquer individuo
medianamente instruido.

A lingua franceza, pela sua simplicidade, regular sintaxe,
determinada prosodia, e mais circumstancias que a tornam facil
para os estrangeiros, tem obtido uma certa universalidade, que a
vae convertendo, por assim dizer, em lingua geral, principalmente
na Europa. Este predominio da lingua franceza deve ter talvez n'um
remoto futuro graves consequencias politicas.  por essa razo,
que aos inglezes doe excessivamente tal predominio. Primeira nao
do mundo como potencia material; representando nos tempos modernos
uma imagem da antiga Roma, a Inglaterra soffre de mau-grado o ser
intellectualmente inferior  Allemanha e  Frana. A influencia
moral que pelos seus livros esta ultima exercita na Europa,
nomeadamente nos paizes occidentaes, tende a augmentar ahi a sua
influencia social, na razo directa do progresso de civilisao
desses paizes. A Frana actua pelas idas, em quanto a Inglaterra
o faz pelas esquadras: mas a aco das idas cria a semelhana
de crenas, de costumes e de affectos, em quanto o temor das
esquadras, o apparato do poder, as insolencias do forte contra o
fraco s geram odios fundos, que se vo legando de paes a filhos:
que se vo accumulando no thesouro commum das geraes que vem
surgindo. Estes odios so um incendio que lavra, e que pde abrasar
a Inglaterra n'um desses dias aziagos, que amanhecem para as
naes como para as familias. Uma crise basta para perder o
Reino-Unido, e esta crise  facil n'um corpo moral cuja physiologia
 monstruosa e antinomica. A Gran-Bretanha deve saber que os
ecchos do continente repetem de contnuo a grande voz do povo,
que, em mais de um paiz, murmura aquelle terrivel verso do poeta
italiano:

  _Siam'servi, si:--ma servi ognor frementi!_

Ninguem como os inglezes tem o instincto da vida politica. N'uns
este instincto  ajudado pelo raciocinio, n'outros pelo orgulho
nacional. A Inglaterra desejra tirar  Frana as influencias
intellectuaes: para isso fra necessario generalisar a propria
lingua. Ahi  que bate o impossivel. Entretanto o inglez vae
falando inglez na terra e nos mares, quer o entendam, quer no,
e s em casos desesperados recorre a algum idioma estranho, no
sem o torcer, estafar e mutilar, com toda a barbaridade de um
verdadeiro Kimhri.  uma teima perpetua entre a Europa e a
Gran-Bretanha:

  "O mundo a porfiar que os bretes grunhem;
  E os bretes a teimar que o mundo mente"

Aquelle caso de Mr. Graham fra mais um capitulo desta polemica
eterna.

Ns os portuguezes pensmos ento em buscar uma guarida para
passarmos a noite, porque algumas pingas grossas de chuva nos
annunciavam um aguaceiro imminente. Dirigimo-nos a mestre Joo,
que nos declarou categoricamente ser impossivel dar-nos entrada
na tca miseravel, a que elle tivera a ousadia de pr o nome de
camara; e isto pela razo composta de que os tres inglezes a
occupavam inteiramente, e no podiam ser d'alli expulsos, tendo
pago trinta shellings por cabea, em quanto ns pagramos s
vinte. O argumento era de uma solidez irreprehensivel. Pedimos-lhe
todavia humildemente nos declarasse em que sitio nos poderiamos
resguardar da agua do mar e do ceu; porque se houvessemos pretendido
passar a nado de Jersey para Frana, escusramos ter-lhe pago a
mal-aventurada capitao d'uma libra esterlina, que nos fazia
descer na escada social dez shellings, ou dez furos, abaixo dos
tres inglezes.

Os selvagens tem mais que os homens civilisados a eloquencia
do gesto, e o bom do normando, foroso  confessa-lo, dava todos
os indicios de verdadeiro botecudo. Tomando a postura sublime
de um _seekoenig_, o rei do mar dos antigos sagas da Islandia,
e com um--_l!_--que podia fazer ainda mui decente papel ao lado
do--_qu'il mourut_--de Corneille, o arraes, especie de Buonaparte
juncto s Pyramides, nos apontava para a escotilha d'avante, a
escotilha da boca do poro, e parecia dizer-nos no seu gesto
mudo:--"Ahi quarenta dores rheumaticas vos esperam!"--Melhor era
isso, comtudo, que amanhecer inteiriados sobre a tolda; e assim,
dando-nos por avisados, arremettemos com o abysmo.

Escada no a havia; e as trevas interiores no eram menos densas
que as trevas exteriores, de que resa a Biblia, onde ha o chro
e o ranger de dentes. A altura, porm, no devia ser grande.
Como os cavalleiros do Palmeirim d'lnglaterra, cada um de ns
se encommendou  dama dos seus pensamentos, e do modo que pde
desceu quella especie de _bolgia_ dantesca.

O chasse-mare, destinado a transportar gado de Frana para as
ilhas do Canal, a em lastro, e o lastro era d'areia. Se no
fossem os terriveis balanos da embarcao, a pocilga em que nos
achavamos poderia passar ao tacto, unico sentido de utilidade
naquella situao, por uma praia deserta. Depois de apalparmos por
largo tempo em volta de ns, achmos por fim uma vla e alguns
cabos, lanados para uma extremidade do areal fluctuante. Ao
menos tinhamos um leito, se no mais macio, ao menos mais enxuto
que esse com que j contavamos. Uma pouca d'areia humida por
pavimento, algumas braas de lona por leito, e por agasalho e
cobertura a tolda d'um miseravel barco eram, com as trevas que
nos rodeavam nesse momento, toda a nossa consolao e abrigo.

Se esta recordao escripta, humilde e obscura, como seu auctor,
passar ante os olhos do major C***[2] elle ha-de por certo lembrar-se
de que essa noite foi uma das bem dolorosas e tristes da sua larga
vida de soffrimento e abnegao; da sua vida de honesto e valente
soldado. Padecimentos antigos haviam crescido com os trabalhos
e estreitezas do desterro, e posto que o seu animo de ferro lhe
no consentisse o soltar um s queixume, o incendio lavrava l
dentro, e a dr, que no podia subjugar-lhe o espirito, s vezes
se lhe revelava no gesto confrangido. O seu estado gerava em ns,
que sinceramente o amavamos, serios receios. Mas como o padecer
se no traduzia em gemidos, no meio da escurido, e entretidos
com a scena ridicula do poeta da temperana e da aguardente,
haviamo-nos persuadido de que esse padecimento diminuira
consideravelmente.

Deitados em cima da vla convertida em colcho, os meus companheiros
breve adormeceram. Quando a consciencia est tranquilla a mocidade
encontra facilmente o repouso ainda no mais duro leito. S eu
velei; porque lhes levava uma vantagem, talvez antes desvantagem,
uma imaginao mais ardente. O major C*** tambem parecia dormir.

Achava-me finalmente s!

Havia muito que para mim no existia a vida ntima seno no silencio
da noite. O dia, esse passava-o como embriagado na agitao
tumultuosa de peregrino, vendo fugir diante dos olhos, na terra
e nos mares, os quadros e as scenas de uma natureza e de uma
sociedade diversas daquellas que me tinham cercado na infancia
e na primeira juventude. Era de noite que a imagem da patria,
terribilissima de saudades, se me assentava como um pesadelo
sobre o corao, e me expremia delle bem amargas lagrymas! Aos
vinte annos a nossa alma, viosa e virgem, tem affectos para
derramar com mo larga por tudo o que nasceu e cresceu juncto de
ns; por todos aquelles que nos ensinaram a balbuciar as primeiras
palavras, e nos guiaram os primeiros passos no caminho da vida.
Para achar deleite em vaguear fra do nosso ninho paterno, 
preciso haver passado a idade das esperanas;  preciso ter j
calcado aos ps, inteiramente sugado, o pomo das illuses, e
assistir ao drama da existencia, no como actor possuido do seu
papel, mas como espectador indifferente, que sabe ser esse drama
um embuste, algumas vezes attractivo, mas semsabor as mais dellas;
 preciso ser homem; e eu tinha ento vinte annos. Por isso este
errar entre estranhos teria para mim demasiado tedio e tristeza,
quando se lhe no ajunctassem outras maguas e privaes de muitos
generos.

O desterro  uma das mais profundas miserias humanas; mas a pobreza
no desterrado  o tormento mais intoleravel do espirito, porque 
um composto monstruoso de saudade, de humilhao, de abandono, de
desesperana, que vos lembra cada dia, cada hora, cada instante,
a vossa situao desgraada; que vos recorda sem cessar que sois
uma especie de Ahasvero, de judeu errante, que a maldico de
Deus guia, em meio do desprezo dos homens, dos vituperios, dos
trabalhos, por uma peregrinao sem termo e sem horisonte. Tendes
de experimentar a affronta e calar, os maus tractos e soffrer,
a fome e a nudez e no ousar pedir uma esmola, porque o pobre
estrangeiro  um ente mdio entre o homem e o animal, a sua linguagem
inintelligivel e ridicula, a sua dr e o seu sentimento quasi um
impossivel, o nome do seu paiz a fabula e o escarneo das gentes,
sobre tudo se esse paiz  fraco, limitado e obscuro. Ento vem o
comparar tudo isso com os commodos e gasalhado do lar domestico,
com o amor e amizade, que vos cercavam de suavidade o viver de
outro tempo, e a comparao vos converte em fel e lagrymas o
sangue mais puro das veias. Tombastes de pedra em pedra no fundo
de um abysmo: l acharam os vossos membros pisados e feridos um
leito de aras; e d'ahi meds de contnuo a altura da quda,
porque vos luz l em cima o cu da patria, e a saudade vos mede
palmo a palmo a distancia que vae do despenhado a essa imagem
querida.

Que todos aquelles que nunca saram de sob o tecto da sua infancia;
que nunca buscaram debalde o sol esplendido da terra occidental
para o saudar na manhan de primavera; que nos remansos do seu rio
natal no imaginam o ennovelar-se e bramir das vagas do oceano; que
nunca viram o cu chato do norte pesar sobre a campina, estendida
como um cadaver, e coberta do seu sudario de neve; que esses
alguma vez se recordem e compadeam do pobre foragido, a quem
as intolerancias insensatas e ferinas de paixes politicas
arremessaram para estranhas regies. Seja qual fr a vossa crena,
a vossa parcialidade, doei-vos d'elle; porque as doutrinas podem
ser erros mas no so crimes. E de mais, quem vos diz que essa
opinio, que vos parece verdadeira e sancta, vos no parecer
com o tempo absurda e m, se de sincero corao a segus?

Engolfado nestas idas, posto que bem desperto, conservava-me
calado no meio dos meus companheiros, os quaes dormiam placidamente
ao murmurar da agua no costado do chasse-mare, que rompia pelas
vagas agitadas. De vez em quando os mastros rangiam com os turbilhes
de vento, e sentia-se um golpe soturno e embaado sobre a tolda.
Era alguma onda que salvava por cima do baixel, como a que viera
acalmar a colera do esgrouviado Mr. Graham. Depois ouvia-se a
voz do arraes, que proferia algumas palavras inintelligiveis:
depois outra vez s o silvar da procella.

O major C*** revolvia-se entretanto perto de mim, ao que parecia
grandemente inquieto. A persuaso, talvez, de que ninguem o escutava,
e a intensidade da dr arrancaram-lhe, emfim, um gemido. A sua
energia moral succumbra. O veterano, depois de largo combate
de muitas horas, declarou-se vencido.

Falei-lhe em voz baixa: na tristeza da noite o padecimento physico
parece achar consolo no som da voz humana. Era o unico soccorro
que na situao em que nos achavamos lhe podia ministrar.

A nossa conversao durou por algum tempo; nesta conversao
havia para mim o refrigerio do espirito, porque nos recordavamos
da patria; elle buscava assim um allivio para dous generos de
angustias, as do espirito e as do corpo. Era mais infeliz do
que eu!

Por este modo passou grande parte da noite. A tempestade crescia
progressivamente, e o balano do chasse-mare era j intoleravel.
Comemos ento a sentir por cima das cabeas os passos apressados
dos marinheiros, e um som estranho, como de mar quebrando ao longe
em agra penedia. Este som, semelhante ao disparar de artilharia
por sotavento, approximava-se gradualmente.

D'ahi a pouco ouvimos correr rapidamente a amarra pelos escovens.
Era incrivel que tivessemos chegado to depressa ao termo da
nossa viagem. As seguintes palavras de mestre Joo, precedidas
de uma praga, no nos deram vagar de fazer sobre isso largas
conjecturas:

"_Ventre-Saint-Gris_ ... a amarra ... vamos a pique![3]"

Foi o que pudmos perceber. E era sobejo.

O major C*** ficou immovel. Quanto a mim, o primeiro pensamento que
me scintillou no espirito foi o de despertar os nossos companheiros.
Mas porque no haviam de morrer tranquillos? Deixei-os.

O brado do arraes fra seguido de um momento de tremendo silencio:
depois senti que o chasse-mare fazia um singular movimento,
como galgando pelo dorso de enorme vaga; aps isto pareceu-me
que subitamente parra, e ouvi de novo falar na tolda. Era a
voz de Mr. Graham, o poeta agoureiro e esguio.

Este momento de incerteza foi horrivel. Ento conheci bem a verdade
de uma phrase de Milton "_a escurido visivel_." Nas trevas
profundissimas em que estava via o reluzir do mar ao redor da vla
branca em que jaziamos; e os olhos da minha imaginao enxergavam
atravs da agua os rochedos de sorvedouros submarinhos, onde
os nossos cadaveres deviam dentro em pouco achar uma sepultura
desconhecida.

No sei o como, mas a verdade  que, no meio do terror de morte
afflictiva e demorada, me veio  cabea uma ida ridiculamente
consoladora. Foi esta a imagem de Mr. Graham sumindo-se nas goelas
de um tubaro com a sua fabrica inteira de versos, e a meia fabrica
de Leeds, que trazia distribuida pelos seus quatro casaces
incommensuraveis.

Passou um minuto: passaram dous: passou terceiro; e a nossa vla
enxuta, e o baixel perfeitamente tranquillo. A morte, se tinha
de vir, era to lenta e derreada como a melopa da declamao
ingleza.

Porventura haviamos encalhado n'algum banco de areia, porque o
chasse-mare evidentemente no abrra; alis o mar devia ter-nos
j sorvido.

Lembrei-me de subir  tolda. Mas como? O logar em que nos achavamos
representava uma verdadeira masmorra de castello feudal. O escotilho
por onde desceramos era mais alto do que um homem: alm d'isso o
estrado da bca tinha sido ahi collocado, como a campa sobre um
tumulo, e em cima do estrado sentramos lanar uma lona breada
para impedir a invaso das ondas que galgavam pelo tombadilho.

Esperei, pois, que amanhecesse, e que ento obtivessemos a luz
e a liberdade da munificencia de Micer Jean Legris. Entretanto
o major parecia mais tranquillo: a quietao do chasse-mare, e
a somnolencia da ante-manhan eram apparentemente a causa d'isto.

A alvorada assomou, emfim, no oriente: alevantou-se o estrado,
e a luz branda do romper do dia veio allumiar o nosso calabouo
marinho com uma claridade frouxa e suave. No esperra debalde
em mestre Joo: o _seekoenig_ concedia-nos o favor de aspirarmos
um ambiente puro e livre.

Subi  tolda. O sol surgia como um grande orbe vermelho fluctuante
sobre as ondas levemente crespas. No sudoeste uma nuvem negra
e ampla parecia firmar-se em p no horisonte, prolongando os
cimos dentados pelas alturas do ceu: era a procella, que fugia
varrida pelo nordeste. A superficie enrugada do oceano tinha no
sei que semelhante a um gesto humano que sorri. Eu contemplava
uma dessas raras alvoradas do navegante, em que no aspecto do
mar se l o nome de Deus, e no sussurro da brisa se escuta o
hymno da creao.

Onde estavamos ns? No recife de um ilheu, vizinho das costas
de Normandia, cujo nome se me varreu da memoria. A caldeira em
que nos achavamos teria tres vezes o comprimento do chasse-mare
e ainda menor largura. Olhei para a entrada, e os cabellos
eriaram-se-me ao v-la. Custava a perceber como o nosso baixel a
atravessra sem se fazer em pedaos: era um labyrintho de rochedos
agudos quasi indelineavel.

Mestre Joo Legris, no sei por qual razo nautica, pretendra
fundear junto aos penedos que defendem a bca daquella abra,
at que chegasse a manhan. Ao lanar ancora a amarra se partra
roando pelas rochas. Este successo desastrado arrancra da bca
do arraes a energica exclamao, que to terrivel fra ferir-me
os ouvidos no meio das minhas dolorosas cogitaes. Felizmente
uma vaga monstruosa, erguendo o chasse-mare sobre o dorso, o
arrojou por entre os parceis, talvez por cima delles, e nos salvou
da morte, que alis sera inevitavel.

A sada do recife deu mais trabalho aos nossos marinheiros do
que lhes dera a entrada. O sol a j mui alto quando abrimos
todas as vlas ao vento. Este era de feio; e dentro em poucas
horas aportmos a Granville.

[1] Aguardente.

[2] Actualmente (1843) brigadeiro Celestino Soares.

[3] Textual.


FIM DO TOMO II.



INDICE.


A DAMA P-DE-CABRA

(SECULO XI)

Trova primeira

Trova segunda

Trova terceira


O BISPO NEGRO (1130)


A MORTE DO LIDADOR (1170)


O PAROCHO DA ALDEIA (1825)

Prologo

I A Aldeia e o Presbyterio

II Noitadas parochiaes

III Uma escorregadela

IV Alhos e Bugalhos

V Excurso patriotico

VI Bartholomeu da Ventosa

VII Tantaene animis?

VIII Gloria ao padre prior


DE JERSEY A GRANVILLE (1831)






End of the Project Gutenberg EBook of Lendas e Narrativas (Tomo II)
by Alexandre Herculano

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LENDAS E NARRATIVAS (TOMO II) ***

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