The Project Gutenberg EBook of Opsculos por Alexandre Herculano - Tomo I
by Alexandre Herculano

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Title: Opsculos por Alexandre Herculano - Tomo I

Author: Alexandre Herculano

Release Date: June 22, 2005 [EBook #16111]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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                                OPUSCULOS

                                   POR

                              A. HERCULANO



         SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA
       SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA
                          SOCIO CORRESPONDENTE
                 DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID
           DO INSTITUTO DE FRANA (ACADEMIA DAS INSCRIPES)
                DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE TURIM
               DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.



                            QUESTES PUBLICAS


                                 TOMO I



                                 LISBOA
            EM CASA DA VIUVA BERTRAND & C.--CHIADO, N. 73

                             M DCCC LXXIII


                           IMPRENSA NACIONAL




                          *ADVERTENCIA PRVIA*


Havia annos que os meus velhos editores e amigos, os fallecidos Irmos
Bertrands, admiraveis typos dessa modesta austeridade e dessa nobre
honradez, em todas as relaes da vida civil, que eram gloriosa tradio
da classe burguesa, e que a burguesia destes nossos tempos, ensanefada
j de ouropeis fidalgos, no parece inclinada a manter com excessivo
ciume; havia muito, digo, que os meus editores instavam comigo para que
ajunctasse em volumes alguns opusculos, escriptos por mim e publicados
por elles em diversas conjuncturas, cujas edies se achavam de todo
esgotadas. Na sua opinio, eu devia incluir tambem nessa colleco
outros opusculos, que, ou impressos avulsamente por minha conta, ou
inseridos em publicaes periodicas, tinham feito certo ruido, e no se
encontravam j no commercio. Entendiam igualmente que nesta compilao
de trabalhos sobre assumptos to variados poderiam introduzir-se
quaesquer outros ainda ineditos, que me no parecessem indignos de virem
a lume, o que, no seu modo de ver, daria certo realce  publicao que
se propunham, e em cujo exito confiavam.

Apesar das ponderaes que me faziam homens to experimentados nas
cousas da imprensa, hesitei muito tempo em acceder aos seus intuitos.
Aps largos annos consumidos na vida agitada das letras, em que o meu
baixel mais de uma vez fora aoutado por violentas tempestades, tinha,
emfim, ancorado no porto tranquillo e feliz do silencio e da
obscuridade. Olhava com uma especie de horror para as vagas revoltas da
immensa lucta das intelligencias, contraste profundo da vida rural a que
me acolhera. Depois, o espirito sentia bem a propria decadencia, cujos
effeitos a interrupo dos habitos litterarios devia aggravar.
Reflectia, sobretudo, no tedioso de rever escriptos, parte dos quaes
remontavam a tempos asss distantes. Podia, na verdade, devia talvez,
deix-los passar como estavam, no que respeita  maior ou menor exaco
das doutrinas, porque a pretenso  infallibilidade  sempre ridicula no
individuo, e eu nunca tive tal pretenso; mas era indispensavel
castig-los em relao  frma. O methodo, o estylo, a linguagem, as
condies, em summa, da arte de escrever so, no mundo das letras, o que
a boa educao, a cortesia, as attenes, o respeito para com os usos
recebidos so no tracto civil, o que os ritos so nas sociedades
religiosas. No ente que cogita, a ida pde e ha de variar com o decurso
do tempo, com a ampliao dos horisontes do pensamento. Sobrepe-se
gradualmente a verdade ao erro, e ainda mal que, outras vezes,  o erro
que succede ao erro, quando no  verdade. Aprender quasi sempre 
esquecer; affirmar quasi sempre  negar: esquecer o que aprendemos;
negar o que ns proprios affirmmos.  por isso que, no meio de milhes
de duvidas, cada gerao lega  que lhe succede poucas verdades
incontrastaveis, e que a lentido do progresso real  um bem triste e
desenganador dynamometro da to limitada potencia das faculdades
humanas. No assim pelo que toca s formulas externas das manifestaes
do espirito. O incompleto, o barbaro, o vicioso, o tolhido, o
desordenado, o obscuro no so o revolutear do oceano das idas: so
simplesmente ignorancia ou preguioso desalinho, mais ou menos
indesculpaveis.

Ora a reviso de escriptos de to diversas epochas, ainda limitando-me
ao exame da contextura e execuo, repugnava-me. Era renovar o tracto
com as letras no que ha nellas menos attractivo, na questo da frma. E
todavia, sem esse trabalho preliminar, no podia decentemente satisfazer
os desejos dos meus editores, desejos que o ultimo d'elles, pouco antes
de fallecer, ainda vivamente manifestava.

Mas, o que era na realidade esta repugnancia ao trabalho, embora fosse
um trabalho ingrato? Era o egoismo dos annos derradeiros; o amor 
quietao da intelligencia, que, no outono da vida,  em ns como o
prenuncio da completa, da eterna paz. Para vencer esta enfermidade dos
espiritos canados e gastos, cumpre que surja nelles um incitamento
poderoso, uma necessidade instante. Foi, porm, este incitamento ou esta
necessidade que, a final, nasceu para mim, justamente das condies da
vida rural.

Para o velho que vive na granja, na quinta, no casal, como que perdidos
por entre as collinas e serras do nosso anfractuoso paiz, ha na
existencia uma condio que todos os annos lhe prostra o animo por
alguns mezes, doena moral, mancha negra da vida rustica, facil de
evitar nas cidades.  o tedio das longas noites de inverno; das horas
estereis em que o peso do silencio e da soledade cai com duplicada fora
sobre o espirito. Para o velho do ermo, nesses intervallos da vida
exterior, a corrente impetuosa do tempo parece chegar de subito a pgo
dormente e espraiar-se pela sua superficie. A leitura raramente o
acaricia, porque os livros novos so raros. A decima viso da mesma
ida, vestida do seu decimo trajo, repelle-o, no o distrahe. As
convices ardentes, as alegrias das illuminaes subitas, as coleras e
indignaes que inspiram e que, na mocidade e nos annos viris, enchem a
cella do estudo de turbulencias interiores, de arrebatamentos
indomaveis, de debates inaudiveis, de lagrymas no sentidas, de amargo
sorrir, cousas so que se desvaneceram. Matou-as o gear do inverno da
existencia. Desfallece-lhe o animo, mal tenta embrenhar-se na selva das
cogitaes, engolfar-se nas ondas dos pensamentos, que, em melhor idade,
lhe roubavam  consciencia os ruidos longinquos e confusos das
multides, e aquella especie de zumbido obscuro que ha no silencio
profundo, e as passadas tenebrosas da noite, e o surgir e o galgar do
sol ao zenith, emquanto a penna inspirada arfava, deslisando sobre o
papel, semelhante  vla branca da bateirinha, que, ao refrescar do
vento, vai e vem de margem a margem, atravez da ria. No: para o velho
no ha a febre da alma que devora o tempo. Sente-o gotejar no passado,
como os suores da terra que chem, lagryma aps lagryma, pela claraboia
de galeria deserta na mina abandonada.  verdade que a natureza compensa
o esmorecer e passar do vigor e da actividade intellectual com a propria
somnolencia do espirito, voluptuosidade da velhice, ameno e dourado
pr-do-sol, que se refrange no espectro da sepultura j vizinha e o
illumina suavemente. Mas o dormitar do entendimento, para ser deleitoso
enleio, exige o movimento externo e as singelas occupaes e cuidados da
vida campestre. Sem isso, e  isso que falta muitas vezes nas
interminaveis noites de inverno, a inercia da intelligencia, que vagueia
no indefinito sem o norte da realidade, vai-se convertendo pouco a pouco
em intoleravel tormento; tormento no qual ha, por fim, o que quer que
seja da cllula circular e esmeradamente branqueiada, onde o grande
criminoso  entregue, ssinho,  eumnide da propria consciencia. N'esta
extremidade, por mais somnolenta e obscurecida que esteja a mente, por
mais que ella ame o repouso, o trabalho do espirito, ainda o mais arido,
 preferivel, cem vezes preferivel, ao fluctuar indeciso no vacuo.

Foi por isto que comecei a ajunctar os _disjecta membra_ de uma grande
parte do meu passado intellectual; a accrescentar, a cortar, a corrigir,
a completar. Vencido o primeiro inverno, vi desapparecerem os marcos
negros juncto dos quaes cumpria que longamente me assentasse ao cabo de
cada um dos poucos estadios que ainda me restam a transitar pela estrada
da vida. Que esta confisso ingenua sirva para ser absolvido da especie
da correria que, apesar dos mais firmes propositos, fao, ainda uma vez,
na republica das letras.

Os escriptos aqui reunidos, os quaes, na sua maior parte, foram
inspirados por impresses momentaneas, perderam o interesse que lhes
provinha das circumstancias que os provocaram; mas, ainda assim, podem
ficar como marcos milliarios que ajudem a assignalar as luctas e o
progresso das idas em Portugal no decurso de mais de trinta annos que
as datas d'esses escriptos abrangem. Naquellas luctas o auctor dos
seguintes opusculos teve largo quinho, e se, como  possivel, nem
sempre a razo esteve da sua parte, esteve-o sempre a convico.  do
que lhe parece ho-de dar testemunho a propria contextura e o proprio
estylo dessas composies, que no vinham s da intelligencia, que
vinham muitas vezes tambem do corao. A demasiada vivacidade, a talvez
exaggerada energia, com que frequentemente ahi so expostas e defendidas
taes ou taes ideas e combatidas outras, revelam a indole impetuosa mas
sincera de quem escreveu essas paginas. Foi, porventura, este o melhor
titulo do auctor  benevolencia publica largamente manifestada;
benevolencia que encontrou ainda em muitos que estavam longe de
commungar com elle nas doutrinas para as quaes buscava ou obter o
triumpho ou adquirir sectarios.

Ordenando esta compilao, no me adstringi nem a conservar
rigorosamente a ordem das epochas a que esses varios escriptos
pertencem, nem a distribui-los precisamente conforme a sua indole.
Adoptei um termo medio, que me facilitasse ao mesmo tempo o trabalho de
reviso, e me habilitasse para ir successivamente publicando qualquer
volume  medida que o coordenasse. N'uma grande variedade de assumptos,
o espirito no se amoldaria a reconsider-los nem pela ordem das datas,
nem pela identidade da materia. A intelligencia  caprichosa, e
duplicadamente caprichosa na sua decadencia. Attendendo em geral 
natureza dos diversos opusculos, entendi que podiam dividir-se em tres
categorias--Questes publicas--Estudos historicos--Litteratura.--Estas
tres categorias constituiro tres series separadas, servindo-lhes apenas
de nexo o serem uma colleco geral das minhas opinies, quer em
questes litterarias ou historicas, quer em questes sociaes. Assim, um
volume seguir-se-ha a outro da mesma ou de diversa serie sem
inconveniente para a publicao, e sem se tornar necessario que, n'um
trabalho tedioso e frequentemente interrompido, a atteno se dirija por
muito tempo e sem desvio para idas at certo ponto congeneres ou pelo
menos analogas.

Ajunctando aos titulos dos opusculos as datas em que foram escriptos, o
auctor teve em mira habilitar o leitor para o julgar com justia. Sem
querer no minimo ponto fugir  responsabilidade das suas opinies,
entende que a responsabilidade ser ora maior, ora menor, se porventura
se attender  epocha em essas opinies foram manifestadas. O decurso de
trinta a quarenta annos, no turbilho, cada vez mais rapido, em que hoje
as idas passam, modificando-se, transformando-se,  um periodo que
corresponde a seculos nos tempos em que o progresso humano era sem
comparao mais lento. As doutrinas, as apreciaes criticas, os
systemas, os livros quasi que envelhecem to depressa como o homem. O
pensamento que ha vinte annos parecia uma verdade nova pde hoje parecer
apenas um problema no resolvido, e at um erro condemnado; a observao
profunda de ento ser hoje trivialidade; a critica subtil, que levou um
raio de luz a certos recessos obscuros dos factos, achar-se incorporada
e transfigurada em apreciao mais complexa que illumine dilatados
horisontes. Por isso, a data de cada um dos opusculos contidos nos
seguintes volumes  um dos elementos indispensaveis para estes serem
avaliados com justia e imparcialidade. Nem sempre fugimos  presso das
idas que se manifestam ao redor de ns, e muito faz aquelle que algumas
vezes sabe elevar-se acima das preoccupaes ou dos interesses da epocha
em que escreve.

No se associaro a estas consideraes, que sollicitam a indulgencia,
algumas instigaes do amor proprio? Suspeito que sim. Nos seguintes
escriptos ha, em mais de um logar, idas, previses, affirmativas,
negaes que no raro grangeiaram para o auctor as qualificaes de
temerario, de paradoxal, de visionario. Em certos casos, o decurso do
tempo encarregou-se de decidir de que lado estava ou a perspicacia ou a
boa razo: em alguns, o paradoxo, a viso, foram-se lentamente
insinuando em outros espiritos, e mais de uma vez o visionario primitivo
veio a achar-se como sumido na turba de tardgrados visionarios. Que o
facto no contribuisse para se datarem estes opusculos ninguem o
acreditaria, nem eu pretendo neg-lo. Chamaro uns a isso orgulho:
chamar-lhe-ho outros vaidade. E uns e outros tero razo. A vaidade e o
orgulho que so, seno duas especies de um genero unico de fraquezas? O
vaidoso  o que chama o mundo para espectador do seu orgulho: o
orgulhoso  o que se colloca a si como unico espectador da propria
vaidade. Symptomas varios de enfermidade identica: manifestaes
diversas de uma s miseria do corao humano.




                          A VOZ DO PROPHETA


                                 1837




                             INTRODUCO

                                 1867


Depois da epocha em que o seguinte opusculo foi publicado e dos factos
que lhe deram origem, tem decorrido mais de trinta annos. Os homens que
intervieram nesses factos dormem j, pela maior parte, debaixo da terra.
Com raras excepes, restam apenas alguns dos que eram mais moos. O
auctor da _Voz do Propheta_ pertence a esse numero. Contava vinte e seis
annos naquelle tempo.

O homem de hoje pde julgar imparcialmente o escripto do homem de ento.
O animo tranquillo pde avaliar a paixo que o inspirou. Aquelles a quem
esse verbo ardente feria viram no auctor um partidario que friamente
calculava os resultados politicos das suas palavras. Injustia ou erro;
o mesmo que havia da parte delle em ver nos homens que forcejavam por
dirigir a revolta de 1836, por fazer sair desse facto um governo
regular, grandes criminosos. A verdade era que, n'uns davam-se ambies,
mas ambies talvez nobres; n'outros houve, de certo, o sacrificio das
proprias sympathias, o silencio imposto s proprias convices, para que
a revolta no degenerasse em anarchia. Em muitos desses individuos,
apparentemente revolucionarios, havia o patriotismo reflexivo, e at a
abnegao, emquanto em ns, os que os aggrediamos com a sinceridade da
indignao, havia, por amor exagerado aos bons principios, uma colera
que em muitas cousas offuscava a razo. A _Voz do Propheta_ representa
esse estado dos espiritos.

Hoje a exagerao sincera do insulto, a invectiva hyperbolica,
inspirada, no pelo calculo, mas pelas irritaes da consciencia, mal se
comprehende. Neste crepusculo da vida publica, to favoravel s
prostituies do cidado, como o crepusculo do dia s prostituies da
mulher; nesta epocha de extrema agonia, iniciada pela proclamao dos
_interesses materiaes_ acima de tudo, frmula decente de sanctificar o
egoismo, porque para cada individuo o interesse material alheio  apenas
um interesse de ordem moral; agora que a boa educao dos homens novos
mudou a linguagem politica, e vai arrojando para os archaismos
historicos a lucta face a face, a punhalada pelos peitos; agora que a
strychnina da alluso calumniosa e amena, o enredo tortuoso, a traio
ridente vo expulsando da arena das faces as objurgatorias, rudes na
substancia e na frma, a _Voz do Propheta_ , sem duvida, uma composio
agreste e brutal. Inutil como exemplo e modelo, servir todavia como
amostra do que eram as malevolencias da gerao cujos raros
representantes, hoje quasi estrangeiros no seu paiz, no tardaro a ir
esconder no tumulo as ultimas grosserias que deturpam a suavidade dos
costumes e as tolerancias de toda a especie dos cultos filhos de
barbaros.

Os homens que em 1837 se aggrediam violentamente na imprensa e no campo
tinham, de feito, habitos e sentir diversos dos actuaes. As febres
politicas eram ento ardentes, indomaveis, porque derivavam de crenas.
Naquella epocha havia, como houve sempre, belforinheiros da politica;
mas constituiam a excepo. O geral era gente baptisada com fogo e com
sangue nas duas religies inimigas do absolutismo e do liberalismo.
Chamo-lhes religies, porque o eram. A guerra civil, que terminara em
1834, tivera muitos dos caracteres das antigas cruzadas. Sobretudo nos
primeiros impetos della, haviam-se practicado actos de abnegao, de
constancia, de valor e de soffrimento sobrehumanos, ao passo que se
perpetravam outros de bruteza e ferocidade inauditas. A maior parte
delles, factos obscuros, individuaes, reiterados cada dia, cada hora
daquelle prolongado paroxismo de grandiosa barbaria, no os registou,
no os registar nunca a historia, talvez. E todavia,  isso que explica
a proceridade da estatura moral dos homens daquelle tempo, estatura a
que no chegaram, nem provavelmente chegaro as geraes subsequentes.
Sem paixes violentas e exclusivas, no ha as energias que assombram.
Ento a existencia e os commodos e gosos della eram to casuaes e
transitorios, as privaes e dores de to completa vulgaridade, que dar
a vida ou tir-la aos outros pouco mais significavam do que aces
indifferentes. Diante do fanatismo politico, a reflexo que discrimina o
bom do mau, o justo do injusto, quasi que era puerilidade. Podia
ceder-se, e no raro cedia-se, a instinctos generosos para com o
adversario: a justia em apreci-lo moralmente, ou em respeitar-lhe os
direitos, isso  que se tornara difficil.

Taes eram os homens que, depois de esmagarem a monarchia absoluta,
vinham, emfim, a aggredir-se mutuamente na imprensa e no campo. A
revolta, desmembrando o partido liberal, constituia dous partidos
violentos, daquella violencia a que estavam affeitos e cujo embate devia
produzir males profundos e em parte irremediaveis.

Esta sciso, logo depois da victoria, era difficil de explicar fra de
Portugal. Aqui entendia-se, embora derivasse de um facto injustificavel.
A harmonia de opinies, a unidade de crenas e intuitos dos vencedores
dissipava-se, porque realmente no existia seno nas suas relaes
negativas. Negava-se, combatia-se o passado. Era no que havia accordo.
As apparencias de unio e conformidade creara-as a grandeza do perigo. A
phalange  e ser sempre o mais poderoso instrumento de guerra, moral e
materialmente. Embora, porm, houvesse diversidade de doutrinas, o que
havia mais era contraposio de interesses. Para as primeiras se
manifestarem e tenderem ao predominio bastavam a liberdade da palavra
oral e escripta, e a discusso parlamentar. Aos segundos, dada a
impetuosidade e impaciencia da ambio humana, sobretudo nas raas
latinas, no bastava nenhuma liberdade. Recorreu-se ao illegal, ao
tumultuario, e a revolta de septembro de 1836 appareceu.

Quem a preparou e fez surgir? No sei. Ostensivamente, os seus auctores
foram a plebe de Lisboa e alguns soldados que se negaram a dispersar os
amotinados. Os individuos que, depois de consummado o facto, tomaram nas
mos as redeas do governo, recusaram para si a paternidade daquelle fto
poltico. Creio que, affirmando-se innocentes, falavam verdade; seno
todos, ao menos alguns. Fugir, porm,  responsabilidade de uma
situao, que alis se busca fortalecer e constituir,  indirectamente
condemn-la;  dizer _no_ com a consciencia; _sim_ com os labios. A
sentena daquelle motim lavravam-na os mesmos que forcejavam por
convert-lo n'uma cousa grave. Por outra parte, o que me parece evidente
 que os governos que cahem como cahiu o que existia, embora simulem de
vivos, esto j moralmente mortos.

E o governo de ento estava-o. Por grandes que os seus servios ao paiz
houvessem sido durante a lucta, o seu proceder depois da victoria no o
abonava. Havia quem fizesse sentir isso, quem at desmesuradamente o
exagerasse. Exageravam-no, sobretudo, os vencidos. Emquanto durou o
ruido das armas, os lamentos destes no se ouviam; mas quando o estrondo
cessou, e asserenaram os terrores, os queixumes foram-se convertendo em
invectivas colericas, e tambem em accusaes no raro ou justificadas ou
plausiveis. A liberdade da palavra falada e escripta tinha-se
conquistado no s contra os defensores da censura e do absolutismo, mas
tambem para elles. Nas expanses da sua dor e do seu despeito, no pouco
ou muito que essas expanses contribuiram para o descredito dos homens
que mais cordialmente odiavam, tiveram os vencidos occasio de
reconhecer que a liberdade humana, ruim em these, sobretudo para a
salvao eterna, pde, em tal ou tal circumstancia, no ser
absolutamente m.

Os depositarios do poder executivo tinham, porm, adversarios mais
perigosos. No gremio liberal houvera homens, alguns de dotes no
vulgares, que, ou por despeitos pessoaes, ou por falta de animo para
affrontarem os trabalhos e riscos de commettimento desigual, ou
finalmente por obstaculos independentes do seu alvedrio, tinham ficado
extranhos  guerra civil, sumidos em escondrijos na propria patria, ou
acoutados na terra estrangeira para escaparem aos impetos da tyrannia.
Desaccordos nascidos no exilio entre alguns destes ultimos e os homens
de valia de quem o Duque de Bragana se rodeiara quando emprehendia a
guerra da restaurao, no tinham feito seno medrar e azedar-se
progressivamente por diversas causas. Estes desaccordos, que pareciam
pouco importantes emquanto durou a contenda, apenas essa epocha
tormentosa cessou, tornaram-se mais graves, porque os individuos que se
haviam conservado como extranhos  lucta em que se lhes conquistava uma
patria, tinham amigos e parciaes numerosos entre os que pelejavam e
venciam. Constituido o regimen parlamentar, as malevolencias, mais ou
menos latentes, converteram-se em hostilidade acerba. Esta hostilidade
podia ter, e tinha em parte, motivos maus; mas, contida no ambito
constitucional, era, at certo ponto, bem fundada e util.

Os estadistas, que, cercados durante annos de espantosas dificuldades,
souberam super-las exercendo o poder, eram indubitavelmente homens de
alta esphera. Podia reputar-se problematica a virtude de um ou de outro:
a capacidade e a firmeza no podiam disputar-se a nenhum delles.
Affeitos a reger o paiz com o vigor de uma dictadura, inevitavel
emquanto durara a guerra, e com as formulas militares, custava-lhes
esquecerem-se dos habitos dessa epocha, confundindo mais de uma vez, na
praxe da administrao, as duas idas oppostas, de paiz libertado e de
paiz conquistado. Por outra parte, os que muito haviam padecido queriam
gosar muito, e o reino, devorado por discordias intestinas superiores s
proprias foras e exhausto de recursos, via comprometter o futuro da
riqueza publica por larguezas, no s desacertadas, mas tambem
juridicamente injustificaveis. Homens que teriam legado  posteridade
nomes gloriosos e sem mancha, e que, mais modestos nas suas ambies
materiaes, seriam vultos heroicos na historia, pagaram-se como
_condottieri_ mercenarios, ao passo que outros, depondo as armas e
voltando  vida civil, exigiam ser revestidos de cargos publicos para
exercer os quaes lhes faltavam todos os predicados; homens cujo unico
titulo era terem combatido com maior ou menor denodo nas fileiras
liberaes ou haverem padecido nas masmorras os tratos da tyrannia. A
grande, a sria, a profunda revoluo que se fizera no meio do estrondo
das armas levara de envolta com os dizimos, com os bens da cora, com as
capitanias-mores, com toda a farragem do absolutismo, os antigos
_officios_, moeda que por seculos servira para pagar algumas vezes
meritos reaes, muitas mais vezes, porm, prostituies e villanias. Mas
as funces publicas, os empregos vieram supprir essa moeda, tomando no
raramente cunho analogo, e distribuindo-se com a mesma justia e
cordura. Estes e outros erros e abusos que o governo commettera, ora por
impulso proprio, ora para satisfazer as influencias preponderantes com
que o poder tem de transigir, necessidade fatal do regimen parlamentar,
e um dos maiores defeitos da sua indole ainda to imperfeita,
engrossaram rapidamente, com os muitos desgostosos e indignados, a
parcialidade que na origem representava antes malevolencias pessoaes do
que antinomia de doutrinas.

Foi por isso que a revolta de septembro, se no achou eccho pelo paiz,
tambm no achou nelle repugnancia manifesta, e pde na capital
constituir-se e tomar em poucos dias a importancia que no tinha em si.
A consciencia da propria impopularidade, o inesperado dos
acontecimentos, talvez, at o tedio e cansao de aggresses continuas,
haviam feito titubeiar os membros do governo decahido, tornando-os
inhabeis para sria resistencia, emquanto os seus adversarios
aproveitavam o successo com a energia de inimizades encanecidas e de
ambies at ahi no satisfeitas.

Os homens que entenderam ser do seu interesse ou do interesse do paiz
fazer surgir daquelle estado anormal uma situao regular viram que a
primeira necessidade era elevar o motim  altura de uma revoluo.
Faltava o assumpto. O derribar um ministerio no o subministra. Basta
para isso a aco mais ou menos lenta, mas segura e pacifica, da
liberdade da palavra, da imprensa e do voto. O povo que com estes
recursos no sabe tirar os seus negocios das mos de quem lh'os gere
mal,  um povo ou que ainda no chegou  maioridade ou que j se arrasta
na senilidade. Urgiam, porm, as circumstancias.  falta de outra cousa,
proclamou-se irreflexivamente a constituio de 1822 com as modificaes
que decretassem as futuras constituintes.

Tinha-se, pois, feito uma revoluo para obter um projecto, um texto de
discusso constitucional? Se o intuito dos amotinados fra s derribar
os ministros, o facto era excessivo, injustificavel e portanto
illegitimo e criminoso; se porm o motim, nobilitado em revoluo, tinha
por alvo alterar as instituies, no menos digno de reprovao se
tornava, porque era um crime inutil. A Carta encerrava em si o processo
da propria reforma, processo alis prudente, regular, exequivel. Partir
da constituio de 1822, acervo de theorias irrealisaveis, se theorias
se podiam chamar, de instituies talvez impossiveis sempre, mas de
certo impossiveis n'uma sociedade como a nossa e na epocha em que taes
instituies se iam assim exhumar do cemiterio dos desacertos humanos,
era mais que insensato. A revoluo, reconhecendo a necessidade de
reformar o codigo que restabelecia, condemnava-o, e condemnava-se.

Parece-me que me no engano se disser que, em geral, aos liberaes mais
illustrados e sinceros a nova situao politica repugnava altamente.
Ponderavam que a mudana das instituies politicas de qualquer paiz por
via de uma revoluo  sempre um abalo profundo cheio de riscos, e que
mais de uma vez, longe de produzir o bem, tem conduzido as sociedades 
sua ruina. Sem rejeitar de modo absoluto as revolues como elemento de
progresso,  certo que ellas so um meio extremo. S, talvez, a
necessidade de combater o despotismo as justifique, porque s debaixo de
tal regimen so impossiveis quaesquer outras manifestaes da opinio
publica, e no existe campo diverso onde a lucta do direito contra a
fora, das idas novas contra os velhos abusos possa travar-se. Em 1836
essas manifestaes no tinham porm obstaculo algum, e o campo onde as
doutrinas podiam debater-se, os interesses contrapor-se, os partidos
digladiar-se, era amplissimo. Se em taes circumstancias uma revoluo
fosse legitima, quaes seriam aquellas em que se lhe negasse a
legitimidade?

Depois, nas proprias relaes politicas, o espirito humano no se dirige
unicamente pela reflexo. As paixes e affectos modificam e alteram as
suggestes do raciocinio; porque o homem imprime necessariamente em
todos os actos da vida as condies do seu ser. A favor da manuteno da
Carta no militava s a boa-razo; militavam affectos, e affectos
profundos. A Carta havia sido o grito de guerra do campo liberal em lide
de um contra dez. Havia sido, digamos assim, a traduco moderna do
_Sanctiago!_ de Affonso I, do _S. Jorge!_ do Mestre d'Aviz. Nas
reminiscencias indeleveis de muitos de ento, (bem poucos hoje) estavam
ainda os vivas  Carta proferidos por labios que iam cerrar-se na morte,
quando as bayonetas inimigas desciam inexoraveis sobre o peito ou sobre
o ventre dos nossos soldados feridos e derribados[1]. Em nome da Carta
se tinha desfeito o triangulo fatal do patibulo, e quebrado o ferrolho
da masmorra e da enxovia, em nome della se tinham aberto para os
foragidos as portas da patria que davam para os desertos do desterro, do
desterro que  sempre solido e desventura. A Carta fora como a estrella
polar da esperana nos dias, to longos, da fome, da nudez, das
tempestades, do desalento. Vivia depois como envolta na saudade desses
dias, acre e quasi dolorosa saudade, que ns os velhos ainda sentimos,
mas que ser provavelmente uma cousa inintelligivel para as geraes
novas.

A razo, pois, e o sentimento falavam a muitos energicamente em favor
das instituies annulladas. Falavam tambem a favor dellas a consciencia
e a dignidade humanas. Tinham jurado manter essas instituies milhares
e milhares de homens; milhares e milhares de homens as tinham nobremente
mantido com o sangue, com as privaes, com a resignao illimitada no
sacrificio. Podem valer pouco os juramentos politicos; pde, at, ser
absurdo o juramento em geral. Mas a quebra de promessas solemnes e
espontaneas, seja qual for a sua formula, ser sempre uma villania
emquanto tiverem culto a honra e a lealdade.

Taes eram os principaes incentivos que induziam grande numero de
liberaes a constituirem um partido hostil  nova ordem de cousas. A
denominao de cartista, que esse partido adoptou, no correspondia
rigorosamente s causas da sua existencia, nem aos seus intuitos ou 
sua indole. Mas representava at certo ponto isso tudo, ao mesmo tempo
que era conciso, e facilmente comprehensivel para o vulgo. O cartista
no reputava todas as instituies, todos os preceitos da Carta como a
mais alta manifestao da sabedoria humana. Nesta parte os liberaes eram
em geral eclecticos. Tanto o partido da revoluo, como o
anti-revolucionario nenhum tinha em si unidade completa de principios;
nem entre um e outro havia seno antinomias parciaes quanto s doutrinas
de direito politico. No primeiro, que tomava por base das ulteriores
reformas uma constituio democratica, exagerada at o despotismo das
turbas, havia individuos para quem, como o tempo mostrou, as theorias da
democracia ainda mais moderada eram altamente odiosas, ao passo que
outros forcejavam por chegar, seno  republica, ao menos a instituies
republicanas. No partido cartista dava-se o mesmo phenomeno. Todas as
modificaes do governo representativo tinham ahi fautores; tinham-nos,
talvez, at, as doutrinas do absolutismo illustrado. A meu ver, a
distinco profunda e precisa entre o cartismo e o septembrismo
consistia em negar o primeiro o principio da revoluo, dentro das
instituies representativas livre e solemnemente adoptadas ou acceitas
pelo paiz, e em affirm-lo o segundo. Tudo o mais em ambos os campos era
fluctuante e vago.

 essa a explicao de um facto que os homens daquelle tempo podero
testemunhar recorrendo s proprias reminiscencias. Alistaram-se nas
fileiras cartistas talvez mais individuos que haviam sido adversos aos
ministros derribados, do que amigos e parciaes seus, ao passo que alguns
destes abraavam sem hesitar a revoluo. De uns e de outros se deve
crer que preferiam nobremente as suas opinies aos seus interesses, s
suas affeies ou inimizades pessoaes. Para muitas dessas opinies havia
logar em ambas as parcialidades. Os que, porm, s attendiam 
moralidade e cordura dos actos de administrao ordinaria, lanavam-se,
por via de regra, na revoluo; os que, sem desattender taes questes,
sem approvarem corrupes ou iniquidades a que eram extranhos e que
tinham condemnado, remontavam a mais elevadas consideraes de ordem
moral e politica, abraavam o cartismo. No falo dos especuladores que
se resolviam conforme as vantagens que se lhes antolhavam n'um ou
n'outro campo. O proceder destes taes tinha na consciencia publica
ento, como depois, como sempre, uma qualificao conhecida.

Mas, dir-se-ha, como nessa epocha se disse, que entre o cartismo e o
septembrismo se dava uma distinco mais radical e profunda. A Carta,
outorgada por D. Pedro IV, representava o direito divino dos reis; era
uma concesso de senhor, em vez de um pacto social, ao passo que a
constituio de 1822, derivada da soberania popular, era a consagrao
das doutrinas democraticas. Considerada a esta luz, a revoluo adquiria
as propores de um facto gravissimo, porque assentava a liberdade em
novos fundamentos, e vinha a ser um passo gigante dado na estrada do
progresso politico.

Na epocha, quasi exclusivamente liberal, em que se passavam aquelles
successos, a resposta do cartismo a estas allegaces parecia facil. No
sei se o seria agora; agora que se tem achado e demonstrado, segundo
parece, no prestar para nada o liberalismo. As intelligencias vigorosas
da mocidade hodierna tem aberto caminho a theorias ou novas ou
rejuvenescidas que ns os velhos de hoje e moos de ento ou ignoravamos
ou suppunhamos estereis, e talvez pueris, e de que sorriamos, quando
alguns engenhos que reputavamos to brilhantes como superficiaes,
buscavam, evangelisando-as, jungir por meio dellas as turbas, ms porque
ignorantes, odientas porque invejosas, espoliadoras porque miseraveis,
ao carro das proprias ambies. A questo da soberania popular no era
precisamente o que preoccupava mais os entendimentos, cultos, mas
tardos, daquelle tempo, e a democracia no apaixonava demasiado os
animos, sobretudo os animos dos que haviam pelejado desde os Aores at
Evoramonte as batalhas da liberdade, ou padecido na patria durante cinco
annos, sem o refrigerio sequer de um gemido tolerado, as orgias do
despotismo. Uns tinham visto de perto a face da democracia; tinham-na
visto por entre a selva de oitenta mil baionetas que fora preciso
quebrar-lhe nas mos para a liberdade triumphar; tinham-na visto nas
chapadas e pendores das collinas que circumdam o Porto, at onde os
olhos podem enxergar, alvejando-lhe nos hombros os cem mil embornaes
preparados para recolher os despojos da cidade da Virgem, da cidade
maldicta, rendida e posta a sacco; outros haviam-na visto de machado e
de cutello em punho, mutilando e assassinando prisioneiros inermes e
agrilhoados. O liberalismo achara a catadura da democracia pouco
sympathica. Restava a soberania popular. Essa funccionara durante cinco
annos e dera mostra de si. A soberania do direito divino, repartindo com
ella o supremo poder, provava que no era to ignorante como a faziam.
Tinha litteratura. Applicava, modificando-o, o verso:


Divisum imperium cum _plebe_ Caesar habet.


As classes inferiores constituiam ento, como hoje, como ho de
constituir sempre, a maioria do paiz, e foi a esta maioria que ella
entregou os direitos que cedia. Era a legitimidade consagrando outra
legitimidade. Amavam-se, comprehendiam-se ambas.  que entre as
extremidades ha contacto s vezes. A democracia americana cuida ter
inventado a lei do Linch. Puro plagio. Inventou-a em Portugal a
soberania popular. Havia uma differena. Na America a plebe prende,
julga, condemna  morte e executa; em Portugal o direito divino
reservara para si o tribunal excepcional e o privilegio do cadafalso.
Modesta no exercicio do supremo poder, a soberania popular limitou-se 
priso, ao espancamento,  multa, elevada, quando occorria, at o
confisco. Se o incendio, o estupro, o assassinio se ingeriam s vezes
nesses actos judiciaes, era por simples casualidade. Manchas, tem-nas o
sol. O mercador, o artista, o industrial, o professor, o proprietario
urbano e o rural, o homem de letras, o cultivador, o capitalista, todas
as desigualdades sociaes, todos esses attentados vivos contra a perfeita
igualdade democratica conservaram por muito tempo dolorosas lembranas
do amplexo das duas soberanias.

O liberalismo, que durante a contenda fora um pouco aspero para com a
democracia, mais de uma vez tambem, empregara sacrilegamente a prancha
do sabre e a coronha da espingarda para cohibir o excesso de zlo
administrativo e judicial da soberania popular. A brutalidade do
liberalismo obrigara esta a abdicar aps a abdicao da soberania de
direito divino. Os dogmas, pois, em que se estribava a constituio de
1822, e contra os quaes protestava a historia, ainda palpitante, dos
ultimos annos, eram inefficazes, porque os tornava impotentes a
heterodoxia das consciencias. Duvido de que nesses rudes tempos de
positivismo liberal elles obtivessem uma s converso sincera.

O amor do real e do evidente era um dos grandes defeitos dos homens de
ento. O cartismo argumentava: Que nos importa, dizia, d'onde veio a
Carta? A questo  se ella consagra a liberdade humana e a crca de
garantias.  deficiente?  defeituosa? Esperemos que a razo publica, a
torrente da opinio force os poderes do estado a complet-la, a
corrigi-la. A opinio illustrada largamente preponderante  irresistivel
nos governos livres. O que no  irresistivel  a opinio de alguns ou
de muitos que benevolamente se encarregam de interpretar pelo proprio
voto o voto commum, o voto dos que tem capacidade para o dar.--No se
reputaria louco, accrescentava o cartismo, o representante de uma
familia outr'ora opulenta, mas reduzida  miseria por espoliao remota,
que, ao vir, por impulso espontaneo, o descendente do espoliador
restituir-lhe os bens extorquidos, repellisse aquelle acto de nobreza e
virtude, achando desar recuper-los pacificamente? E se tal desar
existiu; se a outorga da Carta e a tacita acceitao do paiz no podiam,
aos olhos da metaphysica politica, elev-la  altura de um pacto social,
os immensos sacrificios que o restaur-la, depois de abolida, custou 
parte mais illustrada, mais rica, mais activa e laboriosa da nao, s
foras vivas da sociedade, e as torrentes de sangue e de lagrymas que
serviram de sacro encausto  assignatura do paiz no valeriam bem o
plebiscito da maioria inintelligente, o plebiscito daquellas classes
inferiores que pelejaram at o ultimo extremo, seno com valor, de certo
com ferocidade, para conservar essa monstruosa e horrivel soberania que
a servido lhes trouxera?

Tem passado trinta annos depois daquella epocha; as paixes tempestuosas
de ento fizeram silencio, e o cartismo e o septembrismo so dous
cadaveres sepultados no cemiterio da historia. O auctor da _Voz do
Propheta_ contempla to placidameute o seu opusculo como se mo extranha
o houvera escripto. A experiencia e os desenganos fazem-no sorrir
daquellas coleras, daquellas hyperboles dos vinte e seis annos. Quantos
erros, quantas ignorancias em muitas das suas opinies desse tempo! E
todavia, ainda os sentimentos que inspiravam o cartismo no seu bero lhe
parecem nobres e elevados, as doutrinas que constituiam a sua essencia
solidas e justas.  innegavel que o credo democratico, em que os
adversarios se estribavam, tem desde essa epocha adquirido numerosos
sectarios. O velho liberalismo passa de moda. O dogma da soberania
popular, proclamado como supremo direito, substitue o unico direito
absoluto que elle reconhecia, a liberdade e os fros individuaes. Isso
passou: agora a igualdade civil, que era um consectario do dogma
liberal, transfere-se para o mundo politico, e um nivel imaginario passa
theoricamente por cima de todas as desigualdades humanas, perpetuas,
indestructiveis. A paixo da liberdade esmorece, porque a absorve e
transforma a da igualdade, a mais forte, a quasi unica paixo da
democracia. E a igualdade democratica, onde chega a predominar, caminha
mais ou menos rapida, mas sem desvio, para a sua derradeira
consequencia, a annullao do individuo diante do estado, manifestada
por uma das duas formulas, o despotismo das multides, ou o despotismo
dos cesares do plebiscito.

O partido cartista tinha por si as grandes e recentes recordaes, a
consistencia politica, os bons principios que representava, e,
sobretudo, o sensato e practico das theorias que predominavam entre os
seus membros. Mas a eiva moral quasi que lhe comeou no bero. O seu
primeiro erro foi adoptar por chefes os homens eminentes que, pela
gerencia dos negocios em situaes difficilimas, tinham concitado contra
si, como succede quasi sempre e a quasi todos, a animadverso publica,
talvez a da maioria daquelles mesmos que acceitavam agora a sua direco
politica. Deviam honrar-se taes homens, embora muitos dos actos da sua
administrao no podessem defender-se, porque esses actos eram bem
pequeno desconto aos immensos servios que a liberdade lhes devia.
Tom-los, porm, por guias era acceitar uma parte da sua
responsabilidade; era polluir a pureza das doutrinas com as manchas da
fraqueza humana; era, sobretudo, arriscar que a irritao das paixes e
os intuitos de desaggravo dirigissem o procedimento de um partido novo e
cheio de vida, que s deveriam inspirar a razo tranquilla e a
applicao logica das proprias doutrinas. Deste primeiro erro nasceram
as tentativas infelizes de contra-revoluo. Essas tentativas no podiam
reputar-se crime, porque o elemento revolucionario tinha entrado como
formula politica no direito publico do paiz, mas eram altamente
illogicas em relao  ndole e ao symbolo do cartismo. Por outro lado,
o governo da revoluo mostrava-se, ao mesmo tempo, tolerante para com
as opinies e energico em cohibir excessos. Por isso o partido cartista
podia contar com a victoria incruenta que na urna lhe havia de dar o
paiz; victoria para os principios, e no desaggravo para as paixes
irritadas. Que este resultado era seguro, provaram-no os factos. Vencido
na guerra civil, desauctorisado e moralmente enfraquecido, o cartismo
viu triumphar em grande parte as suas idas na contextura da
constituio de 1838, votada por umas constituintes onde os vencidos
estavam representados por insignificante minoria. Era a condemnao
solemne da revoluo, lavrada por um parlamento eleito debaixo da
influencia della. O que no novo codigo politico parecia mais opposto 
indole da Carta era a organisao da segunda camara, e todavia o
cartismo adquiria por aquelle meio uma arma poderosa para de futuro
reformar constitucionalmente o que havia mau na recente organisao de
um dos corpos colegislativos, de modo que nem se restaurasse o absurdo
pariato hereditario e illimitado, nem a assembla conservadora
significasse apenas a interposio de uma parede entre duas pores de
parlamento unico. Uma vez que o senado procedia simplesmente da eleio,
logo que o cartismo obtivesse a preponderancia eleitoral, dominaria
completamente em ambas as camaras. Dentro em dous annos, de feito, o
predominio do cartismo era indubitavel.

O ulterior procedimento deste partido estava estrictamente determinado
pela sua origem e pelo seu passado. Como vimos, no era tanto a sua
indole menos democratica, o seu apego  liberdade e aos direitos
individuaes com preferencia a tudo, que o caracterisavam. Sans opinies,
erradas opinies, havia-as tanto n'um como n'outro campo. O que
constituia a essencia do cartismo era a lealdade ao juramento; a
lealdade viril no cumprimento da palavra dada pelo homem honrado quando
a d no pleno uso do seu alvedrio. Os cartistas tinham feito tudo quanto
materialmente podiam, mais do que moralmente deviam, para supprimir a
revoluo. No o tinham conseguido, e ella fechara o periodo da sua
durao, protestando na lei politica decretada pelas constituintes
contra a propria origem, contra a sua razo de ser. A constituio de
1838 era um campo neutro onde todos se podiam encontrar pacificamente e
procurar, sem sair da legalidade, o predominio das respectivas opinies.

E o cartismo entrou naquelle campo. Quando o paiz viu os homens que to
tenazmente haviam mantido a f que deviam ao seu juramento, jurarem
solemnemente o novo pacto, acreditou que falavam verdade, e que o cyclo
das revolues terminara. Passados tempos, a urna provava aos cartistas,
de modo indubitavel, que nas classes influentes, nas foras vivas da
sociedade, a preponderancia era sua. No fim de tres annos podia-se dizer
que o triumpho moral do cartismo estava consummado. O poder e o futuro
pertenciam-lhe.

Um facto inopinado veio ento desbaratar todos os calculos, desmentir
todas as previses. Uma grande parte, ou antes a maioria desse partido,
cuja essencia era a lealdade a solemnes promessas, e a execrao das
revolues no seio de um paiz livre, hasteou subitamente a bandeira
revolucionaria, substituindo ao motim da plebe o unico motim peior do
que elle, o da soldadesca. Quebrando inutilmente o seu ultimo juramento,
derribava a constituio do estado e proclamava o restabelecimento da
Carta pura, que, sem os acontecimentos de 1836, os mesmos homens que a
achavam agora um codigo perfeito teriam constitucionalmente modificado.
 que  victoria dos principios faltava um laurel, o desaggravo do amor
proprio offendido. O partido cartista suicidava-se juncto, ao altar da
vaidade, e amortalhava-se a si proprio, morrendo, no estandarte da
revoluo.

Depois houve muitos que continuaram a chamar-se cartistas, porque os
vocabulos so propriedade dos homens, e a propriedade, conforme o velho
direito, consiste na faculdade de usar e abusar. Era como os graus e
veneras das ordens de cavallaria extinctas. Enfeitam, mas correspondem
ao nada. Symbolos vos sobre um sepulchro. Para a historia, como a
historia ha-de ser quando de todo houverem calado as paixes dos que
intervieram nessas tristes luctas, o cartismo tinha expirado com a
restaurao da Carta.

[Nota de rodap 1: Assim vi morrerem alguns soldados do 5. de caadores
e voluntarios da Rainha no temerario reconhecimento de Vallongo, que
precedeu a batalha de Ponte-Ferreira.]




                           A VOZ DO PROPHETA


                             PRIMEIRA SERIE


                                    Et irruet populus, vir ad virum, et
                                    unusquisque ad proximum suum:
                                    tumultuabitur puer contra senem et
                                    ignobilis contra nobilem.

                                                         ISAIAS, III-5.


                                   I


O Espirito de Deus passou pelo meu espirito, e disse-me: vai, e faze
resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror e de verdade.

E eu obedecerei ao meu Deus no meio dos punhaes de assassinos.

Povo!... breve soar a tua hora extrema: tu mesmo a assignalaste no
decorrer dos tempos.

O anjo exterminador vibra sobre ti a espada da assolao, e tu danas e
folgas ebrio das tuas esperanas.

Essa terra que pisas crs que  um solo remido por tuas mos: repara
porm; olha que  um sepulchro.

Amplo  o sepulchro de um povo: dentro em breve tu ahi calars para
sempre.

Creste-te forte, porque sabes rugir como a panthera: mas somente Deus 
grande.

Encheste o vaso das tuas iniquidades; elle trasbordou, e a terra ficou
polluida.

Maldictos os nomes dos que accenderam o volco popular; nomes
abominaveis perante o cu e a terra.

Portugal foi pesado na balana da eterna justia, e a Providencia
retirou a mo de cima delle.

Derribem-se os altares, cerrem-se as portas dos templos: Deus j no
acceita os sacrificios, nem ouve as preces deste povo, seno como uma
expresso de escarneo.

E como o aquilo varre a folha secca do outono, o sopro do Senhor
varrer da face da terra esta raa corrompida e immoral.


                                  II


O que tem ouvidos para ouvir oua: o que tem olhos para ver veja: o que
tem corao para se contristar, contriste-se.

O povo tinha a liberdade e quiz a licena; tinha a justia e quiz a
iniquidade: o povo perecer.

Desgraado daquelle que anda fra dos caminhos do Senhor: correndo
despelado por despenhadeiros, sentir-se-ha por fim baqueiar no fundo de
um precipicio.

Porque a lei e a virtude foram postas no mundo para proveito do homem,
no para proveito de Deus.

Quando uma nao quebra todos os laos sociaes, della ser todo o damno.

Para as turbas o cheiro do sangue  perfume suave; o roubo gloriosa
conquista.

E ellas se fartaro de sangue e de rapinas com a voluptuosidade atroz do
anthropophago que se banqueteia com os membros semivivos do seu
semelhante.

Porque a plebe desenfreiada  como o phantasma do crime, como o espectro
da morte, como o grito do exterminio.

Horrvel  o aspecto do empestado, que, entreabrindo o lenol que lhe
servir de mortalha, descobre as pustulas, donde mana a podrido e o
cheiro da sanie, e que por entre os labios amarellos e os dentes
cerrados deixa fugir o som rouco do estertor.

Mas para o homem honesto, que contemplar uma scena das raivas da plebe e
ouvir as suas blasphemias e vir as faces hediondas dos homens
dissolutos, ser como allivio a asquerosidade das chagas, o halito podre
e o rouco estertor do empestado.


                                 III


E o povo contina a danar em roda do seu mesmo sepulchro.

E as outras naes meneiam a cabea em signal de compaixo.

Os tyrannos sorriem e dizem por escarneo aos homens virtuosos: ide, e
dae a liberdade s turbas: erguei  dignidade de homens livres servos
devassos e educados no lodo: elles vos pagaro com a unica moeda que
guardam em seus thesouros.

A rel popular  chamada as fezes da sociedade, no porque  humilde,
no porque  pobre, mas porque  vil e malvada.

O sabio e o virtuoso indigentes so mais nobres do que os grandes da
republica, do que os dominadores da terra.

O ferrete da abjeco e da infamia estampa-se em qualquer fronte sem
excepo de bero, e aos que trazem este signal de reprovao  que a
philosophia chama escoria da sociedade.

A medida por que Deus conta os graus dos meritos da vida  a da pureza
de corao;  a do aperfeioamento da intelligencia.

Os typos das diversas alturas a que sobe o espirito humano na carreira
indefinita da perfeio formam como uma pyramide, cuja base assenta no
fundo de um tremedal, cujo pice se esconde no interior dos cus.

Muitos nasceram no infimo da pyramide e subiram a grande altura: outros
de grande altura desceram a mergulhar-se no lodo.

E tanto a uns como a outros julgar a immutavel justia de Deus.


                                  IV


Os soldados da liberdade morreram nos combates da patria e misturaram o
seu sangue com o sangue dos satellites da tyrannia: os seus ossos
alvejam nas serras e nos valles, como alvejam as ossadas dos servos com
quem combateram.

Foi saso essa de abundante messe de almas puras para o cu. Consolem as
lagrymas dos justos as cinzas desses valentes.

Eram apenas um punhado; a morte ceifou os mais delles; o resto j no
tem fora seno para pranteiar sobre as ruinas da patria.

E o vidente pranteiar com elles, porque o Senhor lhe amostrou o futuro.

Se os homens do desterro e das tempestades podessem levantar-se da sua
jazida, a terra de antigas glorias ainda seria salva: mas elles dormem o
perpetuo somno do repouso.

E foi o ultimo leito honrado em que portugueses se reclinaram no seu dia
extremo.

Felizes os que ento se despediram do sol e misturaram com a terra o p
que lhes emprestara a terra.

Os dias dos que restamos no eram ainda contados; porque nossos erros
pediam a punio do opprobrio.

O Senhor nosso Deus  justo; curvemos a cabea diante da sua
Providencia.


                                   V


Formosos eram os tempos em que pelejavamos pela liberdade do povo; to
formosos, quo negros estes em que a plebe peleja pela licena.

As nossas armas vomitavam a morte: semeiava-a tambem o inimigo pelas
nossas fileiras: e ns estavamos firmes nos pincaros das montanhas, ou,
descendo, faziamo-las resoar debaixo de nossos ps.

E arrojando-nos aos contrarios, as bayonetas reluziam  luz do sol; e o
tinido dos ferros encontrados, e o clamor dos feridos, e o estampido dos
tiros reboavam pelas quebradas dos valles.

Quando a victoria, embora sanguinolenta, nos coroava a fronte, o
triumpho era para ns um delirio; porque o combate fora de homens
valentes.

Na historia do soffrimento humano a mais bella pagina  a historia do
nosso soffrimento. Nem a peste, nem a fome, nem a desesperao de todo o
humano soccorro dobraram a robustez de coraes ousados.

Porque pelejavamos por uma causa justa, e Deus estava comnosco.

Por serranias agrestes e aridas combatemos debaixo de ses ardentes, e
as entranhas mirravamse-nos de sede: tinhamos os labios resequidos como
a urze j morta, e humedeciamo-los com as lagrymas da dor, e
supportavamos a sede.

Encostados a mal construdos vallos e cercados por quarenta mil
soldados, vigiavamos pelas noites longas e tenebrosas do inverno. A
chuva cahia-nos em torrentes da atmosphera densa sobre os membros
mal-vestidos, e o oeste sibillava em nossas armas.

Ou se as cataractas do cu se vedavam, o frio leste trazia-nos o seu
sopro envolvido nas geadas dos montes penhascosos.

Cruelissimas eram estas entre as noites crueis desse tempo; porque ao
redor de ns tudo estava devastado, e no havia um unico tronco para
alimentar a fogueira do arraial.

E o frio recalcava a vida toda no corao do soldado; e elle sem um
lamento soffria o rigor de noite dilatadissima.

A fome apresentou-se diante de ns: medonho era o seu aspecto: os
membros desfalleciam-nos e as armas por vezes nos cahiam das mos.

Mas o amor da patria estava vivo em todos os coraes. A Providencia
infundia-nos valor, e soffremos sem murmurar a fome.

Gloria a Deus!--Os ultimos portugueses saram illesos da prova. Os
antigos cavalleiros os receberam como irmos l onde so com o Senhor.

Bemaventurados os que deixaram esta terra de lagrymas, porque no viram
que o seu sangue fra derramado em vo.


                                  VI


E depois dos combates amos sepultar os mortos.

No campo da batalha abria-se uma grande cova, e simultaneante se
lanavam nella os cadaveres de amigos e de inimigos.

Porque alm do limiar do outro mundo calam todos os humanos odios.

E o tecto de terra estendia-se sobre os muitos que ahi dormiam no mesmo
jazigo.

E algum pranto derramado sobre o p revolto, e as preces da igreja
proferidas pelo sacerdote consolavam os extinctos.

Plantava-se a cruz sobre a gleba para consagrar a memoria dos mortos;
para pedir a esmola da orao ao que passasse, e para lhe annunciar que
todos os que alli repousavam eram irmos por Jesu Christo; eram irmos
pelo sepulchro.

Perdoavamos para sermos perdoados: perdoavamos porque eramos fortes.


                                 VII


Alevantou-se a plebe, e logo commetteu um crime.

Agitava-se e ondeiava pelas ruas com clamor inintelligivel; arrastava-a
o espirito das turbulencias civis.

Um homem inerme passou por entre os amotinados: era um dos votados ao
exterminio: muitos tiros e golpes partiram do meio da turba, e o homem
cahiu exangue e sem vida.

E arrastaram at o cemiterio publico, ao som de injurias e risadas,
esses restos que a morte sanctificara. As maldices do odio mais
profundo param  beira do tumulo. A maldico popular, essa  que no
parou ahi.

Soterraram por meio corpo o cadaver e cuspiram naquellas faces lividas
aonde j no podia subir do corao o rubor, e que os olhos cerrados no
podiam j mundificar com lagrymas.

E esse homem assassinado e arrastado e cuberto da escuma fetida da
gentalha, fora um dos que salvaram o povo do cutello dos tyrannos.

Plebe: commetteste um assassinio, e sers julgada. A ferro morrer o que
ferir com ferro: disse-o o Propheta do Golgotha.

Deixaste acaso a face da tua victima descuberta para monumento do crime?

Quizeste porventura desafiar a eterna justia, e convocar a combate o
Regedor dos mundos?

Se na tua maldade e soberba assim o pensaste, sabe que baldada foi a
profanao da sepultura.

Se nos confins da terra sumisses o morto; se o escondesses nos abysmos
do oceano; se o arrojasses na cratera de um volco encendido, l Deus o
havia de divisar.

Porque todo o gemido do moribundo resoa at o throno do Eterno.

Preparae-vos, vermes, se tanto ousaes: porque o Senhor se erguer sobre
os orbes, e o estridor da setta exterminadora sibillar atravez do
Universo: ella se cravar na terra que pisaes e passareis como o fumo.

Ai daquelle que, impenitente, acordar ao som da ultima trombeta tincto
no sangue injustamente derramado de algum de seus irmos!

Em verdade vos digo que para esse j no ha perdo, mas s o ranger de
dentes e o bramir sempiterno.


                                 VIII


Povo! Onde esto os teus sabios, os teus generaes, os teus nobres, os
teus abastados, os teus homens virtuosos!

Os timidos escondem-se diante da tua sanha: os valentes, no podendo
combater com as turbas, erram no oceano  merc das tempestades.

E  a segunda vez que se affrontam com ellas por amor da liberdade e da
lei.

Deus prover os foragidos, como prov de sustento os animaes que
vagueiam na terra e as aves que cruzam os ares.

E os timidos que, ouvindo o rugido da plebe, se embrenham por antros de
serranias, por profundezas de bosques, confiem tambem no Senhor.

Porque delle vem a salvao para os bons no dia da clera e do castigo.

Que os perseguidos se consolem lembrando-se dos proprios erros, porque
ninguem se isenta da culpa, e antes remi-la neste valle do desterro, do
que alm da sepultura.

O que padece no deve queixar-se, nem rebellar-se contra a Providencia:
porque essa queixa inspira-a a soberba.

Que  um homem em comparao de uma cidade; uma cidade em comparao de
um povo: um povo em comparao do genero humano; o genero humano em
comparao do Universo?

E que intelligencia  capaz de medir a distancia que vai do primeiro ao
ultimo?

Milhes de milhes de vezes menos importa a existencia de um individuo
na somma das existencias, do que na pyramide de Cheops o mais miudo gro
de argamassa importa  solidez do monumento.

Emquanto vive na terra, o homem  um atomo na immensidade: grande ser
depois da morte no reino do cu; grande ainda entre os bramidos do
inferno.

Porque para elle existe a eternidade s ento: s ento comprehende a
omnipotencia de Deus.


                                  IX


Cinco annos em nome do Evangelho uma parte do povo perseguiu seus
irmos, e cobriu-os de opprobrio.

Em nome do Evangelho pregoou-se o odio, a vingana, e o perjurio: em
nome do Crucificado pregoou-se o incendio, o roubo, o sangue e o
exterminio.

Mas o dia da punio chegou, porque as lagrymas da innocencia orvalharam
o seio de Deus.

Elle estendeu o seu brao, suscitou os ousados, e conduziu-os de milagre
em milagre. Ento os impios dobraram a cerviz altiva.

As nossas victorias foram de homens fortes; mas a robustez de animo
vinha-nos daquelle que  fonte e origem de toda a humana virtude.

Vestia-se ento a maldade dos trajos puros da religio para perpetrar
impunemente crimes: hoje abriga-se  sombra da arvore sancta da
liberdade para assolar a terra da nossa infancia.

Ai dos maus, porque os olhos do Todo-poderoso lhes vem nus os coraes
em toda a hediondez da sua perversidade!

A justia celeste nunca dorme, como na alma do criminoso nunca se cala o
remorso.

E a hora da tribulao e das angustias chegar para os malvados; e elles
amaldicoaro o ventre materno e os peitos que os amamentaram.


                                   X


Povo! os que hoje saudas como numes, manh fa-los-has em pedaos, e
arrastars pelas ruas os seus cadaveres cobertos de feridas e pisaduras.

Porque, bem que tarde, conhecers que elles te ho enganado.

Prometteram-te abundancia, e achar-te-has faminto; prometteram-te
liberdade, e achar-te-has servo.

A licena mata a liberdade; porque se livremente opprimes, livremente
podes ser oppresso; se o assassinio  teu direito, direito ser para os
outros assassinar-te.

Se a fora, e no a moral,  a lei popular, quando os tyrannos tiverem
mais fora, legitimamente podem pr no collo do povo um jugo de ferro.

Ministros da tyrannia so os que suscitaram a lucta das faces, os que
deram o primeiro grito da revolta, os que accenderam a guerra civil;

Porque a nao se dilacerar, e enfraquecida passar das mos da plebe
para as mos d'algum despota que a devore.

Lembrae-vos da Serpente, que enganou nossos primeiros paes: foi com
palavras sonoras, com promessas de gloria e de ventura que ella perdeu a
ambos.

Dado que para vs no houvesse liberdade e elles vo-la offerecessem 
custa de perpetuo damno, devieis t-los por vossos destruidores.

Porque a liberdade no  tanto um fim como um meio: quer-se a liberdade
no tanto para as naes serem livres, como para serem felizes.

Que importa o respeito de propriedade ao que nada possue? Que vale a
liberdade da palavra para o que s tem de proferir maldices e
queixumes? Que monta que os vossos pares vos julguem, se o odio das
faces nos fez inimigos uns dos outros?

Sem concordia, inevitavel  que o edifcio social desabe: e porventura
nascer a concordia do meio das sedies?


                                 XI


Se no corao de algum dos concitadores da anarchia existe vislumbre de
virtude, ai delle! Ai delle, se a sua alma  inteiramente negra!

Porque de qualquer dos modos um abysmo est cavado debaixo de seus ps:
na estrada do arrependimento o da vingana popular, no seguimento do
crime o da justia de Deus.

Elles revelaram  multido o segredo da sua fora, e as turbas os
levaro diante de si.

O leo ruge livre na arena, e o conductor que o desatrellou cumpre que
mais ligeiro lhe preceda na carreira, alis ser o primeiro que elle
desfaa entre as garras.

Aquelles que hoje so o amor das turbas sero chamados por ellas para
presidirem a conselhos de sangue, a longos dramas de destruio e de
angustias.

E se a consciencia lhes clamar com a voz do remorso, e se tremulos
quizerem retroceder, a plebe lhes dir--vante!

E se ousarem implorar piedade para com as victimas do desenfreiamento e
da barbaridade, rir-se-ha a plebe, e gritar-lhes-ha--vante!

E se, aterrados da altura do precipicio, voltarem atrs um passo, este
passo ser o extremo: a plebe os anniquilar.

Elles encheram o calice das amarguras publicas: os justos o bebero aos
tragos; mas as fezes sero para os escanes do banquete popular.

A salvao unica do instigador de revoltas e unies est em admittir
todas as consequencias dellas.

E ento foroso lhe  tornar-se conspicuo no crime e revolver-se no
sangue.

Mas qual ser a eternidade de tal homem?

Deus no deu palavras s lnguas da terra para o dizerem.  esse um dos
mysterios do inferno.


                                 XII


Temo as horas caladas da noite, e o corao aperta-se quando o somno me
pesa sobre as palpebras amortecidas:

Porque para mim o somno no  repouso, e os phantasmas das sombras so
mais crueis do que as crueis realidades do dia.

Deus converteu a sua voz no meu pensamento e collocou nos meus labios o
grito da sua colera.

O seu verbo desfar a minha alma, como o ar aquecido dilatando-se dentro
do vaso o desfaz em fragmentos.

O espanto cerca-me no meio das trevas, e o futuro est parado diante de
mim como um pesadello eterno.

Em um momento reune o Senhor na minha alma as dores com que por largos
dias gemer esta desventurada patria.

E, em sonhos, oro ao Deus de nossos paes; mas na sua ira o Altissimo
repelle as minhas preces; e acordo debulhado em lagrymas.

Este acordar arremessa-me  vida actual, a esta atmosphera de
depravao, ao meio do deshonesto tumultuar de um povo corrompido.

E a orao, que em sonhos ousara levantar a Deus, cahe gelada na terra
ao som das pragas e blasphemias da turba desenfreiada.


                                XIII


Eu vi uma viso do futuro, e o Senhor me disse: vai e revela-a na terra.

Como em panorama immenso, um reino inteiro estava diante dos meus olhos.

E nas duas cidades mais populosas delle homens de m catadura comeavam
de agglomerar-se nas praas e a trasbordar pelas ruas.

E nos campos e nas aldeias outros homens com aspecto de reprobos
comeavam tambem a apinhar-se nos passos das serras, nas assomadas das
montanhas e nas clareiras das florestas.

E tanto nas faces dos filhos dos campos, como nas dos habitadores das
cidades adivinhava-se o grito de exterminio que bramia no fundo dos
coraes.

Os magotes de serranos fundiram-se n'uma s turma; e o mesmo succedeu
aos das cidades.

E cada uma das turmas se converteu em uma besta-fra, que se assemelhava
ao tigre.

Agigantada era a sua estatura, e na fronte de uma lia-se--Fanatismo--e
na da outra--Desenfreiamento.--

Com os olhos tinctos em fel e sangue, correram ento os dous monstros um
para o outro, ergueram-se em p e estenderam as garras.

No mesmo instante abriram-se os cus: dous grandes cutelos afiados e
dous fachos encendidos cahiram juncto das alimarias ferozes.

E nas laminas dos cutelos estavam escriptas com letras de fogo as
palavras seguintes--Maldico de Deus.

E cada uma das alimarias segurou com a esquerda um dos fachos, e com a
direita um dos cutelos.

A das cidades arrojou o seu facho sobre os campos, e os campos ficaram
em um momento ridos e ermos.

E a outra sacudiu o seu sobre as duas cidades, e subito no logar onde
ellas foram estavam dous montes de runas.

Depois, combatendo por largo tempo e atassalhadas de golpes, cahiram e
renderam os espiritos.

Ento as lagrymas me offuscaram os olhos; porque bem entendia o que
significava a viso.

Mas enxugando-os, tornei a lan-los para o logar da peleja.

E vi uma solido safara e negra, sobre a qual a perder de vista para
todos os lados alvejavam milhares de ossadas.

E em cima dellas estavam assentados dous espectros gigantes. Chamavam-se
Assolao e Silencio.


                                 XIV


Era uma noite serena, e, ao claro da lua, a sombra de templo antigo
estirava-se no terreiro contiguo.

Os sinos dormiam nos campanarios das torres erguidas, e tudo estava
calado no ambito do monumento religioso, herdado aos homens impios deste
seculo pelos homens crentes dos tempos que foram.

Atravez das esguias e ponte-agudas janellas da igreja transverberava na
praa a luz amortecida das alampadas penduradas ante as capellas
desertas.

Era a hora em que se passam cousas mysteriosas por adros e cemiterios, e
em que vagueiam pela terra os mortos condemnados a assim cumprirem com
sua justia.

N'um angulo do terreiro estava eu. No saba que mo me tinha para alli
arrastado; mas era a mo de Deus.

Ao longo de uma rua que naquelle logar desembocava vinha ondeiando um
turbilho negro, cujo rugido era semelhante ao rugido do pinhal da
montanha em noite tempestuosa.

E parecia aquelle grande vulto um fragmento do cahos, a quem, de todos
os elementos de harmonia e de ordem, s o Creador concedera o movimento.

E chegou o tumulto diante da igreja e espraiou-se por toda a praa, e
houve profundo silencio.

E um homem alevantou a voz no meio do tropel, que pendia de seus labios,
e disse:

Vs sacudistes o jugo dos poderosos, e o nome de rei e o titulo de
nobre so palavras sem significao na linguagem de nao regenerada.

O povo que jazia no lodaal alevantou-se como gigante de prodigiosa
altura, e estendendo os braos, estreitou os palacios dos abastados e
dos potentados: os pannos dos muros vacillaram nos seus fundamentos de
marmore e de granito, e comearam de desmoronar-se e baqueiaram por
terra.

E o gigante popular riu-se e assentou-se em cima de montes de ruinas.
Foi este dia dia de sempiterna gloria.

Mas os monumentos da credulidade e do fanatismo de nossos paes ainda
assoberbam a cidade dos homens livres. A hypocrisia abriga-se  sombra
dos altares e invoca, talvez contra ns, um Deus que no existe.

O unico Deus de coraes generosos  a liberdade. Quando cumpre, o altar
della  o cadafalso: o seu sacerdote o algoz: o seu culto verter o
sangue dos tyrannos.

A religio que tem por fundamento a humildade e a abnegao de si  a
religio dos servos.

 por isso que nossos paes foram servos.

Amaldicoemos, pois, o nome dos que nos geraram e derribemos a obra da
superstio.

E cada um daquelles prectos amaldicoou seu pae. Os cabellos
erriaram-se-me de horror.

Ento a turba arrojou-se ao portal do templo, e os largos ferros dos
machados scintillavam erguidos e faziam estourar as portas. Pelas naves
da igreja retumbava um gemido longo e sonoro.

E o terreiro ficou esgotado dessas ondas de povo, vertidas pelo dito da
velha cathedral dentro de seu amplo recincto.

Como os vermes se arrastam vagueiando pelos membros do cadaver, assim os
homens do sacrilegio se espalharam, arremessando-se aos altares e a
todos os logares onde reluzia a prata ou o ouro.

E cuspindo sobre a hostia do Cordeiro, pisavam-na aos ps e motejavam do
Crucificado.

E despido o templo das riquezas alli depositadas em testemunho da
piedade de seculos, os impios saram delle carregados de despojos.

Depois, accendendo fachos, lanaram-lhe fogo por todos os angulos, e
breve as chammas se ergueram ao cu com espantoso ruido.

O estalido das pedras que se desconjunctavam, e o fragor das abobadas
desabando, e o estridor do incendio, que trepava em espiraes pelas
columnas e se estendia em lenoes vermelhos, lambendo a face dos muros,
e o ultimo gemido dos orgos era a orchestra deste sarau popular.

E a plebe folgava de roda, e embriagava-se, passando de mo em mo as
taas do vinho espumoso, e tecendo danas com as mais vis prostitutas.

Tal foi o sonho do futuro que o Senhor me enviou n'uma noite de agonia.


                                  XV

O anjo das predices mudou ento na minha alma a scena do porvir.

 mesma hora,  mesma luz da lua, estava eu no logar onde vira o povo
quebrar as portas do sanctuario; onde vira os homens dissolutos transpor
a ultima barreira que os separava dos tigres, e lanar de si o ultimo
signal que os distinguia dos espiritos das trevas.

Dos fustes truncados das columnas do templo pendiam hervas bravias, e
nos muros semi-rotos enlaava-se a hra.

Nos campanarios afumados pelo incendio haviam as aves nocturnas
construdo os seus ninhos: ao cahir das trevas, em vez dos sons
religiosos dos sinos, despenhavam-se l dos cimos das torres os pios
melancholicos da poupa solitaria.

E no meio do terreiro surgia o que quer que era negro e que no se
assemelhava a nenhuma obra da natureza, a nenhuma obra das mos do homem
feita para o uso da vida.

Approximei-me. Era o patibulo.

Um vulto humano pendia do alto delle e volteiava para um e outro lado 
merc da brisa da noite.

E tinha as faces disformes e os olhos espantados, e da bca meia aberta
gotejava-lhe a espaos o sangue.

Eu estava com os olhos cravados nelle, e no os podia despregar do homem
do patibulo.

E involuntariamente cahi de joelhos: as preces pelo morto am-me a
romper dos labios. Sentia ardente a fronte e batia-me o pulso rapido e
com fora.

 primeira palavra de orao que proferi, um estremeo agitou o cadaver
do justiado.

E sem mecher os beios murmurou sons inarticulados: depois proferiu
algumas palavras: a sua voz era a de um ventriloquo.

Cala-te!--disse o cadaver.--A eternidade  j minha. Deus riscou-me do
livro da vida: maldicto seja o seu nome!

Fartei-me de crimes na terra: por isso fui condemnado.

A minha existencia foi como um halito de pulmoens ralados: a minha voz
nunca ensinou seno a destruio.

Hypocrita da liberdade, pregoei a anarchia e a licena, como os
hypocritas da religio pregoam a intolerancia e o exterminio.

Fui eu o que nas trevas preparei a discordia dos homens livres; que
suscitei o primeiro dia de furor popular.

Colloquei em frente dos amotinados alguns mancebos, em cujo seio havia
fragmentos de virtude, mas cuja ambio era cega.

Porque bem sabia eu que a plebe immoral anniquilaria todos os que no
fossem to dissolutos como ella.

Deixei na arena dos bandos civis todos os meus mulos, e abandonei o
paiz que de futuro devia ser minha pra.

Quando voltei, o povo tinha feito pedaos os seus idolos de um dia, e
havia-os sumido debaixo dos ps das turbas.

Era ento que comeava o meu imperio. Ai dos que eu tinha arrolado no
livro da morte! Nenhum ficou sobre a terra.

Milhares deixaram a cabea debaixo do cutelo do algoz: milhares
volteiaram no cadafalso por noites de luar, como agora eu volteio.

E este barao que ora me sobreleva do cho ainda o achei aquecido do
collo da minha ultima victima.

Fartei a sede de vingana e de sangue que mirrava o meu corao, e morri
seguro de que deixava atraz de mim a campa cerrada em cima de todos os
virtuosos.

O tyranno do cu folgue embora em me ver no inferno: ao menos pude
apagar o seu nome na terra que me deu o bero.

Um brado meu desmoronou os templos: o sacerdocio desappareceu; a orao
calou para todo o sempre.

Agora tambem eu passei; porque na senda do crime o povo com uma passada
vence o caminho de um seculo, e eu era apenas um homem.

Os que empolgaram o poder, que me foi arrancado, no os tinha ainda
conhecido, porque se arrastavam hontem em regies obscuras; alis
ter-me-hiam precedido em descer aos abysmos.

Aqui, dando um longo gemido, o suppliciado calou; os olhos
fecharam-se-lhe, e a cabea pendeu-lhe para o peito.

Emquanto falara, bem conheci quem era; mas o Senhor me ordenou no
revelasse o seu nome.


                                 XVI


O anjo das predices mudou o espirito dos meus sonhos.

Era por noite fria de inverno: n'uma quadra desadornada de palacio meio
arruinado jazia um homem em pobrissima enxerga.

No seu rosto estava pintada a doena e a fome, as bagas do suor da morte
transudavam-lhe da fronte, e dos olhos fugia-lhe a lagryma extrema do
moribundo.

Os farrapos que vestia no o resguardavam do frio; e o homem tremia, e
os dentes batiam-lhe uns contra os outros.

E no seu delirio o misero soltava palavras cortadas.--Agua!
agua!--dizia; porque a sede lhe roa as entranhas. E no havia quem lhe
desse um pucaro de agua.

Tribunos da plebe, dae-me um pouco de po. Ah! bem negro que seja! que
tambem eu sou do povo.--E lanava os olhos para os seus farrapos.

Fui nobre e rico; mas esquecei-vos disso! Perdoae-me, porque nada me
resta: to pobre sou como o mais humilde mendigo, que d'antes estendia a
mo para o ultimo dos meus servos.

E o homem sorria, e o seu riso significava a desesperao da sua alma.

Depois olhou para um crucifixo que estava encostado  parede, e estendeu
para l os braos.

Mas no havia quem lhe unisse ao peito a imagem do Salvador: no havia
um sacerdote que lhe desse o extremo _vale_.

Ento deixou descahir os braos, fechou os olhos, e morreu. Sobre o
cadaver ir-lhe-ha amontoando o tempo as ruinas dos paos que lhe
herdaram seus paes.

E ser esta a campa republicana do homem que foi nobre e abastado.


                                 XVII


O anjo das predices mudou o espirito dos meus sonhos.

Era o dia da lucta das faces: era um dia de ampla carnificina.

E o demonio do meio-dia pairava sobre a cidade do sangue, e blasphemava
do Senhor.

O povo corria furioso e tumultuava; e os tiros e golpes soavam pelas
praas, pelas ruas e pelas encruzilhadas.

O gemer dos feridos, as pragas dos vencidos, e as ameaas dos vencedores
conglobavam-se em rumor semelhante ao arquejar de volco.

As portas dos edificios estouravam pelos gonzos e fechaduras, e a plebe
clamorosa entrava de tropel at o mais recondito das habitaes.

E o ulular das mulheres, e o vagido dos infantes e o chro dos velhos
rompiam por entre o clamor da matana.

Mas a lascivia e o punhal breve punham o sello do silencio nas frontes
de inteiras famlias.

No recontro das diversas parcialidades os irmos assassinavam os irmos,
os filhos assassinavam os paes.

Porque  voz das sedies, o povo tinha quebrado, depois dos laos
sociaes, os vinculos da natureza.

E o roubo, a dissoluo, a morte e o incendio estavam assentados nos
quatro angulos de uma cidade outrora populosa e rica.

Estas eram as divindades que adorava a plebe nos dias da licena e do
furor.


                                 XVIII


O anjo das predices mudou o espirito dos meus sonhos.

Nas abas de uma serra das provincias do norte ainda as casinhas de
pequena aldeia alvejavam certa manh ao despontar o sol.

E nas assomadas dos montes, e nos comoros dos outeiros ondeiavam os
cimos dos pinhaes agitados pela virao matutina.

A aldeia e os campos que a rodeiavam eram, no meio deste paiz assolado,
como o vulto da esperana erguido sobre a lousa do sepulchro.

E os habitantes pacificos do valle no sabiam que as tempestades
politicas trovejavam alm das suas montanhas.

Mas nesse dia souberam-no para morrerem. O raio da furia popular
fulminou-lhes a destruio.

Bandos de soldados negrejavam em ondas descendo para a planicie; e os
primeiros raios do sol espelhavam-se nas suas armas.

E seguiu-se mais uma scena de carnificina, como tantas que eu tinha
visto em meus sonhos do futuro. O ultimo abrigo da felicidade neste
mal-aventurado paiz foi reduzido a cinzas.

Os velhos morriam abraados aos troncos dos carvalhos e castanheiros,
seus veneraveis amigos da infancia, que tinham testemunhado a ventura de
seis geraes inteiras.

Os moos cahiam combatendo pela salvao dos paes, das esposas e dos
filhos; mas, inexpertos nas armas, levemente eram vencidos da soldadesca
feroz.

Na ermida do presbyterio buscaram as mulheres indefensas guarida contra
os assassinos; porque as desgraadas no sabiam que a religio tinha
fugido desta terra dos crimes.

Alli, ante o altar do Senhor, foram vilipendiadas e saciaram a bruteza
dos filhos da dissoluo.

E no dia seguinte, nos soutos e nos pinhaes da encosta ouvia-se to
somente o murmurio das ramas; e no meio do valle fumegava um monte de
cinzas.


                                 XIX


O anjo das predices mudou o espirito dos meus sonhos.

N'uma vasta sala estavam congregados muitos homens de aspecto feroz e em
cujos olhos faiscavam as coleras immensas dos bandos civis.

Chamavam-se estes homens os legisladores, os eleitos do povo.

Vans denominaes eram essas: a lei residia na vontade mudavel da plebe;
e elles eram em grande parte mandados para aquelle recincto pela
parcialidade que ento triumphava.

De roda, em balcoens erguidos, agitava-se a plebe tumultuosa.

Alli se lavravam os decretos de exterminio: e era, ouvindo-os, que as
turbas victoriavam os homens do sangue.

Mas, se aos labios de algum assomava uma palavra de humanidade, e se
ousava proferi-la inteira, os gritos de traio e de morte
recalcavam-lhe das faces para o corao esse impensado impeto de
piedade.

Neste dia pelejavam as parcialidades nas ruas para decidir quem tinha
direito de commetter mais crimes: era dia de abundante colheita para o
sepulchro e para o inferno.

Mas ao recincto, outrora chamado o sanctuario das leis, no chegava o
clamor do combate: porque ahi a discordia excitava alaridos e, sacudindo
o seu facho, encendia os animos de uns contra outros, Luctavam tambem as
parcialidades l dentro.

Na praa publica a victoria convertia a final o que naquella assembla
se chamava minoria facciosa em irresistivel maioria. A plebe soberana
annunciou-o aos legisladores, fazendo estourar a golpes de machado as
portas da immensa quadra, onde o vozeiar no era de ardentes debates,
mas sim de pugilato infrene. A turba-rei precipitou-se como torrente: o
tumulto ondeiou pela sala espaosa, e houve um momento de ancia e de
silencio.

Ento os punhaes reluziram erguidos e desceram com fora; e os gritos e
as pragas e as blasphemias misturaram-se com o estertor dos moribundos.

E a plebe nos balcoens batia as palmas, e dizia entre risadas:--_viva!_

Tal foi a ultima scena de meus sonhos; e nada mais me revelou o Senhor.


                                 XX


O Filho do Homem comprazia-se em ensinar a sabedoria por meio de
parabolas: na parabola est a philosophia do povo.

Um agricultor possuia certo campo que no produzia seno fructos
enfezados; porque o solo se havia tornado sfaro por falta de cultura
durante largos annos.

Porm ainda, aqui e acol, pela extenso da veiga, vecejavam algumas
arvores e cepas de boas castas, e que s de maltractadas pareciam
bravias.

E este agricultor morreu, deixando o campo de seus paes a tres filhos
que tinha; e estes tractaram entre si cerca do que deviam fazer da
herana paterna.

E o mais velho disse:--Respeitemos a memoria de nossos antepassados, e
deixemos aos que de ns vierem o campo que herdmos do mesmo modo que o
recebemos:

Porque se no diga que menoscabamos a prudencia dos velhos e que
pretendemos ser mais avisados do que foi nosso pae.

Elle viveu, posto que pobre, tranquillo: vvamos como elle viveu.

E disse o segundo-genito:--Veneranda  a memoria dos que nos geraram:
comtudo tambem se deve acatar a razo, que nos foi dada por Deus.

Conservemos todas as obras do tempo passado; mas melhoremos tudo o que
nellas houver ruim.

Ahi esto arvores uteis no meio da nossa herdade: no as derribemos,
porque o faz-lo, alm de impiedade, fora rematada loucura.

Porm roteemos os brjos e saraes, adubemos a terra, e procuremos fazer
novos plantios adequados  qualidade do solo.

E disse o irmo mais novo:--Que nos importa os que passaram, ou que
temos ns com o que elles fizeram?

Nossos paes viveram nas trevas da ignorancia; e por isso todas as suas
obras so loucura e vaidade.

A luz e a sciencia s veio ao mundo em nossos dias, e s a propria
sabedoria pde fazer-nos felizes.

Comecemos pois por arrancar deste agro todos os vestigios de antiga
cultivao: no verdea nelle nem uma unica planta.

E depois buscaremos arvores extranhas de fructos saborosos e sementes
uteis, e a nossa herdade causar inveja a todos os vizinhos.

Cada um dos irmos estava firme em seu proposito, e os servos e os
familiares bandeiaram-se em tres partidos.

E luctaram uns com os outros, e triumphou a opinio do mais velho.

E o campo mal cultivado, cada vez produzia menos, e a fome veio
assentar-se no limiar da porta dos tres irmos.

O que vendo o segundo-genito, disse aos do seu bando:

Fora  que tiremos o poder das mos dos que nos governam, alis
morreremos todos  pura mingua.

E assim o fizeram; e, posto que a lucta fosse longa e encarniada,
venceram; porque a razo estava da sua parte, e Deus os abenoava.

Ento comearam a trabalhar: alimparam as arvores dos ramos seccos e
exuberantes; adubaram os campos e prados, e arrancaram as moutas e as
plantas nocivas.

E lanaram boas sementes  terra, e quando a seara foi crescendo,
comearam de mondar-lhe o joio e as outras hervas damninhas.

Promettia naquelle anno ser excellente a colheita, e no corao dos
familiares renascia j a esperana.

Mas o irmo mais novo, possuido do espirito de destruio, colligou-se
com os criados devassos e que aborreciam o trabalho continuo a que eram
forados.

E fizeram uma unio contra o segundo-genito e tiraram-lhe o mando,
valendo-se de muitos clientes do primogenito, os quaes, por via da
dissenso entre os dous mais novos, esperavam triumphasse o mais velho.

Lanaram-se ento ao campo, destruiram a sementeira, cortaram as
arvores, e passaram a charrua por cima dos campos arrelvados.

E buscaram sementes exquisitas e arvores exoticas, e atiraram  terra
desalinhadamente com tudo isso, e depois adormeceram.

As arvores, porm, seccaram logo, e as sementes, apenas rebentaram,
morreram; porque os imprudentes no haviam estudado nem a natureza do
clima, nem as propriedades do solo, nem as regras de agricultar.

E a familia inteira no fim do anno tinha perecido de fome.


                                 XXI


Na terra de Cethim houve um rei que era bom e cheio de liberalidade e
valor.

E canado de reinar, disse em certo dia a seu filho, que ainda era muito
moo:

Pesam-me j demais a coroa e o sceptro, e os esplendores do throno no
me deslumbram. Vem, e assenta-te nelle.

E o filho obedeceu, e comeou de reger os povos por certas leis
estabelecidas por seu pae, o qual foi viver em regies longnquas.

Mas um tyranno alevantou-se com o reino, e o moo principe errou largo
tempo por extranhos paizes com os poucos seguidores de sua m ventura.

E o bom rei que descera do throno correu a restituir ao filho a herana
que lhe legara.

E a sua espada foi como a de Gedeo; o seu brao come o dos Machabeus.

Ento o principe desterrado voltou  patria, reassumiu o sceptro que lhe
fora roubado, e a lei e a justia recobraram o antigo vigor.

Depois o rei virtuoso morreu de puras fadigas, e foi dormir com seus
paes: sobre a sua memoria desceram no s as benos dos seus soldados,
mas tambem as de todos os amigos da justia e da paz.

Nas trevas, porm, homens corrompidos comeavam a tramar dissenses
civis; porque pretendiam que os bons soffressem, depois da tyrannia de
um unico mau, a tyrannia de muitos homens ruins.

E estes mysterios da corrupo vieram a lume, e a plebe disse um dia ao
principe e aos cidados pacificos:--A fora est em ns, e a fora  o
direito: obedecei-nos pois, alis um descer do throno, outros sero
reduzidos a p.

E tudo calou diante da plebe; porque era verdade que ella tinha a fora.

Os nobres, os prudentes, e os homens bons cubriram-se de d, e no gesto
lia-se-lhes a amargura do corao.

Mas o moo rei a quem os turbulentos fingiam acatar, porque descera at
elles, mostrou-se contente do seu damno, e engolfou-se nas delicias de
que o rodeiaram os algozes da patria.

Foi ento que se apagou em todos os animos honestos o ultimo raio de
esperana.


                                 XXII


Havia naquelle tempo em Cethim um propheta, em cuja boca posera Deus o
verbo da eterna verdade.

E este propheta entrou um dia nos paos do principe e disse-lhe:

Mancebo inconsiderado, emquanto folgas e ris, vai desconjunctar-se
debaixo de teus ps o throno que te herdaram teus paes.

Lembra-te de que subiste a elle por cima das ossadas de vinte mil dos
teus amigos, regadas pelas lagrymas de cem mil familias.

E no te esqueas de que entre esses ossos jaziam os de teu pae: no
maldigas com tuas obras a sua memoria; porque elle foi justificado
diante do Senhor.

Crs tu que os homens do nada te perdoaro o teres nascido do sangue dos
reis? Enganas-te! Crime para elles  este que nunca te ser relevado.

O sorriso que na tua presena lhes aclara o torvo das faces, no o
creias de amor: repara, e vers que  o riso infernal do desprezo.

Os filhos da abjeco queriam igualar-se comtigo; no, sendo elles quem
subisse, mas sendo tu quem descesse.

As taboas da lei foram feitas pedaos; se o v-las partidas te apraz ou
disso no curas, antes de o patenteiar cumpria-te restituir-nos as vidas
e o sangue de nossos irmos.

Este paiz soffreu tudo por guardar o pacto que jurou, e que tambm tu
juraste: que direito  o teu para approvares que esse pacto seja
rasgado? Porque no padecerias alguma cousa a bem dos que tanto
padeceram por ti?

Crs, porventura, que  bello e generoso assentares-te em um throno que
a rel do povo conspurcou de lodo e de infamia?

A plebe era forte: embora. Mais forte era o tyranno de outrora, e
baqueiou por terra.

Devias deixar aos maus a consummao do seu crime e no o sanctificares
tu.

Devias confiar na Providencia, e arrojar de ti o manto de ignominia que
sobre os hombros te lanavam.

Devias conservar sem mancha o teu nome, porque est ligado ao do que te
deu o ser, e este ser glorioso at o termo dos sculos.

Ns iremos ajoelhar juncto ao sepulchro de teu pae, e s cinzas do rei
virtuoso pediremos a justia que no encontramos na face da terra.

Oh, que se fosse possivel alevantar-se elle em p sobre a campa, um seu
olhar te encheria de remorsos; um brado seu fulminaria os perversos!

Taes foram as palavras que o propheta de Cethim disse ao principe
mancebo: o que depois aconteceu no o sei eu narrar.

E este  um fragmento da historia de eras que passaram ha muito.


                                XXIII


A justia de Deus  grande: maior a sua misericordia.

Para o que se arrepende mana do seio do Senhor fonte perenne de perdo,
e as preces do contrito sobem ligeiras at os degraus de seu throno.
Depois dos dias de afflico, elle envia o consolo e quebra em pedaos o
vaso da sua colera.

Povo, que vagueias desenfreiado pelas sendas da morte, converte-te 
vida, converte-te ao Deus de teus paes.

Elle no se esquecer dos netos desses fortes que espalharam a luz do
seu Verbo entre os mais remotos barbaros, e os teus erros sero
esquecidos.

Nossos avs souberam ser livres sem ser licenciosos; souberam ser
grandes sem crimes: eterna  a sua gloria.

Ousariamos ns irmos ajunctar-nos com elles no repouso do tumulo
carregados das maldices do Altissimo, e sepultando comnosco a herana
do nome portugus cuberta da execrao do universo?

Lembrae-vos de que as cinzas dos cavalleiros de Joo primeiro; dos
valentes de Ceuta, de Tangere e de Arzila, dos conquistadores do
Oriente, esto envoltas na terra que pisaes.

E onde quer que ponhaes os ps levantar o passado um grito de
reprehenso contra a depravao do seculo actual.

Formosa e pura  a luz do sol neste amoroso clima do occidente: no
queiraes convert-la no facho avermelhado e sinistro que fulgura por
cavernas de salteadores e de assassinos.

Unamo-nos, pois, como irmos, e abraando-nos uns com outros, ciam
algumas lagrymas de reconciliao sobre esta terra to regada de
lagrymas de amargura; to ensopada no sangue do fratricidio.

Refloreamos entre ns a paz e a amizade: tenhamos um nome s, o de
portugueses, um s bando, o da patria.

Ainda algum dia estes rogos do propheta sero ouvidos: mas quando,  um
segredo de Deus.




                          A VOZ DO PROPHETA


                            SEGUNDA SERIE


                                Iniquitas surrexit in virga impietatis;
                                non ex eis, et non ex populo, neque
                                ex sonitu eorum, et non erit requies
                                in eis.

                                                      EZECHIEL, VII-11.


                                  I


Lisboa, cidade de marmore, rainha do oceano, tu s a mais formosa entre
as cidades do mundo.

A brisa que varre os teus outeiros  pura como o cu azul, que se
espelha no teu amplo porto, semelhante a grande mar.

Trinta seculos tem surgido depois que tu surgiste, e sorvendo milhares
de existencias cahiram todos no abysmo do passado.

E tu os has visto nascer e morrer; e sorriste-te, porque julgavas que a
vida te estava travada com a vida do universo.

Escondendo nas trevas dos tempos remotissimos a tua origem, dizias s
demais cidades da Europa:--Sou vossa irm mais velha.

Nobre e rica outrora, quando o Oriente e a Africa te mandavam o ouro das
suas veias, os extranhos vinham assentar-se-te ao p dos muros e
abastecer-se com as migalhas cahidas das mesas dos teus banquetes.

Cada um dos teus velhos palacios abrigou j os ultimos dias de um grande
capito; em cada pedra dos teus templos ha uma recordao das virtudes
passadas; em muitas lousas de sepulturas nomes que no morrero.

Nas eras de tua gloria, os monarchas dos ultimos confins da terra se
haviam por honrados com chamar irmos a teus filhos; e filhos teus davam
e tiravam coroas.

As tuas armadas aravam as campinas do oceano, e neste nem uma vaga
deixou de gemer debaixo das naus do Tejo.

Para as frotas da nova Tyro, os golpes de machado resoavam ao mesmo
tempo nos bosques da Europa e da Africa, do Oriente e do Novo-Mundo: os
lenhos do Indosto cosidos com os da Nigricia fluctuavam por mares
distantes, e sobre elles se hasteiava um signal de terror para o orbe:
era o pendo das Quinas.

Ento, oh cidade do Tejo, reinavas tu e eras forte, mais do que Roma ou
Carthago; mas o imperio e a fora vinham-te das virtudes de teus filhos,
dos homens a quem sem pudor chamamos nossos avs.

Vivificavam-te o seio um sem numero de bem nascidos espiritos, e eras
seminario feracissimo de coraes generosos.

Porm, que te resta hoje do antigo esplendor, da gloria de tantos
seculos? Um echo do passado nas paginas da historia, o sol puro da tua
primavera, os restos dos paos e templos que os terremotos te no
consumiram, e o grande vulto das aguas do amplo dito do Tejo.


                                 II


Mas este echo da historia, que devia ser para ti como um grito de
remorso, no ha ouvidos que o escutem, e soa em vo e morre no meio do
vozeiar descomposto da plebe:

Mas este cu puro que te cobre, e que testemunhar no grande dia as
virtudes de nossos maiores, testificar tambm perante o Senhor a tua
corrupo actual:

Mas este porto, que a liberdade regrada de tres annos comeava a povoar
de entenas, torn-lo-ha o reinado da licena to ermo como os extremos
dos mares gelados:

Mas pelos palacios de marmore j no retumba a voz dos heroes, e os
templos esto desertos: s por lupanares e praas sussurra o clamor dos
populares, ou entoando os canticos das orgias, ou tumultuando em
assuadas e preparando o dia em que satisfaam a sede do roubo e do
assassinio.

Viuva prostituida, os vicios corromperam-te a seiva da vida, e a
gangrena e os herpes corroem-te os membros, que ainda vestes de trajos
louos, mas onde a morte se encarnou ha muito.

Formosa ainda no aspecto, assemelhas-te ao sepulchro do evangelho, alvo
e polido no exterior, mas cheio de podrido e negrura.

Nova Jerusalm, a dextra do Senhor vergou pesando-te os crimes e, como a
antiga, sabers se por ventura so asperas as angustias que o
Omnipotente manda aos povos no dia da sua justia.

Rapida  a carreira do malvado pelos atalhos do crime: porque esses
atalhos levam, de despenhadeiro em despenhadeiro, ao abysmo da perdio.

Breve empallidece o outono as folhas das arvores; breve as desprende dos
troncos; breve as espalha e some, arrebatando-as sobre as azas dos
ventos.

Esse curto praso bastou ao povo para esgotar os thesouros da
misericordia divina, que os erros e culpas de seculos no haviam podido
empobrecer.

Os feitos portentosos de dous annos de combates civis foram
amaldicoados pelo povo em uma noite de sedio, e a arvore da liberdade
cerceiada juncto da terra.

E as esperanas de salvao e de felicidade passaram como o sonho
matutino que se desvanece ao alteiar do sol.


                                 III


Como a antiga Jerusalm se afundou em mar de crimes, assim a moderna
Sio, a grande cidade do occidente, se mergulhou em torrente de
perversidades.

E a maldico celeste que sumiu aquella d'entre as naes pesar ainda
mais rijamente sobre a desgraada Lisboa, sobre esta caverna de vicios e
de desenfreiamento.

 roda dos muros de Solima apinhavam-se os cavalleiros de Babilonia, e
as tendas de Nabuchodonosor estavam assentadas ao p da torrente de
Cedron.

E as catapultas arrojavam pedras sobre os eirados do templo, no cimo do
Moria: os arietes batiam os baluartes, que vacillavam at os
fundamentos, e o granizo das settas sibilava, passando por entre as mal
defendidas ameias.

E ao longe scintillavam os ferros das lanas e o bronze dos elmos e dos
cossoletes, e ouvia-se o nitrir dos cavallos.

Surgira o dia extremo para a cidade das maravilhas, para a reproba
Solima. E d'alli a um anno, sobre as ruinas della estava assentado um
velho.

Era o propheta de Anathot, que, em cima da ossada dos palacios e do
templo, entoava uma elegia tremenda, a elegia da sua nao.


                                 IV


Tambem o dia em que, entre os vestigios da cidade maldicta, algum vate
levante um grito de agonia, um grito de desesperana, no tardar a
chegar.

Porque Deus ergueu-se no seu furor, e mandou descer sobre este paiz o
anjo do exterminio.

Mais cruel ser o teu castigo, oh terra do meu bero, do que o de
Jerusalm: porque ella pereceu a mos de extranhos, e seus filhos
morreram defendendo os lares paternos.

Mas a ti  um matricidio popular,  a febre ardente das sedies que te
vae arremessar ao sepulchro.

Os teus muros converter-se-ho em circo: pelas praas e ruas
pelejar-se-ho pelejas como de gladiadores, combates como de mastins e
feras.

Porque o temor de Deus saiu do corao do povo, e entraram nelle todas
as raivas do inferno.

Aspero  para o que morre assassinado no poder clamar ao cu justia
contra o seu matador.

E neste mau caso cahir o povo; porque sero as suas proprias mos que
lhe rasgaro as entranhas: ser elle quem lavre a sua sentena de morte.

Elle se amaldicoar a si, e o remorso e a desesperao de toda a humana
piedade lhe dobraro as agonias do passamento.


                                  V


Os que pelejaram contra os tyrannos purpurados mal sabiam que lhes
quebravam o sceptro de ferro, para metter a espada da assolao na
dextra de tyrannos cobertos de vermes e farrapos.

Mal pensavam que uma raa corrupta no conhece outra estrada seno a da
servido ou a da licenciosidade.

A nao, esmagada pelos reis, tinha muito tempo gemido debaixo da
propria miseria.

Mas surgiu um principe que deu a liberdade ao povo e que veio morrer
para lh'a restituir, quando elle vilmente a deixou baqueiar por terra.

E estes homens, que pouco antes haviam dobrado o joelho perante o
despotismo, mostraram-se to orgulhosos e insolentes, quanto, at ento
haviam sido abjectos e timidos.

E n'uma orgia popular fizeram resoar gritos insultuosos nos ouvidos
daquelle que duas vezes os libertara, e invocaram-lhe a morte. Nesse
momento longe estavam os seus soldados, e muitos delles arquejavam
moribundos no campo onde se pelejou a ultima batalha da patria.

Em verdade vos digo que tal crime  dos que Deus no perdoa; porque a
ingratido  a mais horrenda de todas as perverses humanas.

Elles apressaram o repouso do tumulo para o salvador da republica: mas o
nome de parricidas ser o que sobre a jazida lhes escrever a historia.


                                 VI


O sonho da liberdade, o sonho da minha juventude, esta fonte da poesia e
de aces generosas, converteu-se para mim n'um pesadello cansado.

Digno era o povo de compaixo quando estava em ferros, e por bom feito
se tinha entre as almas puras o affrontar-se o homem com a morte pela
salvao dos seus semelhantes:

Porque, subindo ao patibulo ou expirando entre o estrondo das armas, a
voz da consciencia assegurava ao que fenecia as lagrymas e as benos
dos vindouros, e que algum dia cyprestes se plantariam na terra que lhe
bebesse o sangue.

Mas isto era crer na virtude popular: era apenas um sonho, e a
consciencia mentia.

A corrupo estava no amago das existencias. A arvore da vida social
carcomiu-a a servido. Cumpria que as tempestades politicas a
derribassem; que os vermes da sociedade lhe roessem e desfizessem os
troncos.

E estes vermes so as turmas de uma plebe invejosa, que incessantemente
trabalham na grande obra da publica destruio.

Almas virtuosas, que nos paizes ainda escravos preparaes no silencio a
queda dos tyrannos, no apresseis o grande dia da emancipao popular.

Porque nesse mesmo momento sereis amaldicoados pelos que salvastes, e
cubertos de escarneos e de injurias, sabereis que a plebe lana em
poucos mezes mais crimes na balana da eterna justia do que os tyrannos
ahi ho lanado por seculos.


                                 VII


Certo dia, o conde de Avranches entrava nos paos de Affonso quinto, e
os cortesos calumniavam sem pudor o bom duque de Coimbra, o salvador da
republica.

E o conde disse-lhes:--mentis, como desleaes; e aos melhores tres de vs
prova-lo-hei  lana e  espada: innocente e justo  o mui nobre filho
de meu senhor e rei, Dom Joo de excellente memoria.

E ninguem ousou responder ao velho cavalleiro da Garrota; porque bem
sabiam que a sua consciencia era pura e o seu montante pesado.

D'ahi a alguns dias elle provou o dicto. Na batalha de Alfarrobeira,
sobre um monto de cadaveres, cahiu defendendo a innocencia e bom nome
do seu desventurado amigo.

Onde estavam os do valente capito da nova Diu, do rei soldado da
patria, quando o vulgacho no meio da praa publica, assentado no seu
lodaal mandava derrocar as leis, as recordaes e a gloria d'uma nao
inteira?

Onde estavam os amigos de D. Pedro, quando a memoria do grande homem era
amaldicoada na condemnao da sua obra; quando sobre as suas cinzas a
dissoluo cuspia escarneos; quando a liberdade morria s mos da
licena popular?

Quem se ergueu, seguro em boa consciencia, para lanar a luva em defesa
da justia, e dizer s turbas:--sois desleaes e mentis?

Ninguem! Todas as espadas ficaram embainhadas. Em Portugal j no ha um
cavalleiro. Na batalha de Alfarrobeira morreu o conde de Avranches, e a
sua espada foi sepultada com elle.


                                  VIII


Quando os reis se assentavam em thronos de ferro; quando a lisonja os
rodeiava de prestigios, e o terror estava assentado s portas dos seus
palacios, era bello e generoso affrontar-se o homem com a tyrannia e
menoscabar as dores dos supplicios.

Ento era ousado o propheta, quando, nos paos de Balthasar, lia nos
muros, escriptas pela mo de Deus, palavras de condemnao.

Eram sublimes os martyres, quando perante os cesares davam testemunho do
evangelho, e escarnecendo dos apparelhos de morte, se deitavam
tranquillamente sobre a cruz da agonia.

Era bello ouvir o poeta de Florena trovejar contra a prostituta Roma,
denunciar ao mundo a corrupo e os crimes dos pontifices do Tibre, e
comer no desterro um po eivado de lagrymas e esmolado por estranhos.

Era bello, quando ns, assentados sobre os gelos do Norte, saudavamos do
desterro a terra que nos deu o bero, e vinhamos, fracos pelo numero,
mas fortes de corao, lanar as nossas baionetas na balana da
Providencia, onde a tyrannia tinha tambem lanado as suas.

Tudo isto era bello e generoso; porque ento os pequenos gemiam
oppressos debaixo dos ps dos grandes, e ao homem justo incumbia fazer
resoar na terra a voz da eterna justia, o grito da liberdade.

Mas hoje que a plebe reina e, como ampla voragem, ameaa tragar a
virtude, a liberdade, a justia e todas as recordaes sanctas do
passado, para o homem de boa consciencia s-lo-ha, tambem, o morrer.

S-lo-ha o bradar no meio das turbas, e derramar sobre ellas a
condemnao, que Deus confiou em todos os seculos aos labios do
innocente e virtuoso.

S-lo-ha chegar aos tribunos populares, apontar-lhes para o cu, e
apresentar a cabea ao cutello dos lictores.


                                    IX


Povo, hoje s tu quem impera, e absoluto  o teu poder; porque te dizes
unica fonte delle.

Toma, pois, em tuas mos a vara do magistrado, e assenta-te uma vez mais
no teu throno, amassado com sangue e p.

Vem assentar-te, e julga-nos, a ns, que tu maldizes, e aos tribunos,
aos instigadores de tumultos, que cobres de amor e de benos.

Porque isto diz o Senhor Deus: se a plebe julgar com justia, a plebe
ainda ser salva.

Desa o terror da tua vingana sobre o corao do que te houver
offendido; volvam-se no p as frontes onde tu achares estampado o
ferrete do crime.

Recorre as aces da nossa vida, recorre as obras passadas das vidas dos
teus tribunos, e por preo do perdo de Deus, julga-nos com justia.

Quando tu jazias na servido, e os grilhes, encarnando-se-te nos ps e
nos pulsos, te roavam pelos ossos, peleijavamos ns por te salvar;
derramavamos o nosso sangue por ti.

Por ti viamos o irmo e o amigo morder o p dos campos de batalha, e
calavamos; sentiamo-nos descahir de fome, e no soltavamos um queixume.

Porque guardavamos os ais para o silencio das trevas. Soldados da
patria, ousariamos acaso queixar-nos diante da luz do sol?

E elles, que faziam, emquanto as nossas noites eram veladas debaixo de
um cu de ferro e de fogo, emquanto os nossos dias se consumiam entre o
sibilar dos pelouros?

Elles? Nos lupanares e tabernas de paizes extranhos, folgavam nos
banquetes da embriaguez; reclinavam-se no leito da prostituio.

Elles? Cubriam-nos de insultos, chamavam loucura e vaidade  nossa nobre
ousadia, e riam-se do juramento que faziamos de morrer ou dar a
liberdade a nossos irmos.

Elles? Buscavam por todas as vias semeiar a zizania e os odios, damnar a
nossa causa sancta, e fazer-nos perecer debaixo das ruinas de uma cidade
illustre.

Eis o que elles fizeram em proveito da patria. No meio do foro, diante
de teu tribunal terrivel, descubra quem o ousar o peito, e mostre e
conte as cicatrizes das feridas que recebeu pela salvao da republica.

Um s delles as mostrar; porque esse foi valente e amigo da virtude.
Anjo de luz, porque te despenhaste no abysmo?

A historia escrevia o teu nome na pagina das bnos: tu mesmo o
riscaste e o foste escrever na pagina das maldices...................
.......................................................................
.......................................................................



                                    X


Porm, debalde invocariamos justia perante o tribunal popular; porque o
povo  abastado de injustia e ingratido.

Os que esto cubertos de cicatrizes, os que foram longamente saciados de
angustias por salv-lo seriam condemnados, e os tribunos, os
concitadores da anarchia, cujas obras unicas tem sido conduzir a patria
ao abysmo da perdio, seriam absolvidos, seriam abenoados.

Embora: a nossa consciencia est tranquilla, e no grande dia  Deus quem
a todos nos julgar.

Houve um propheta outrora em Israel, e chamava-se o Filho do Homem.

E este propheta amava os humildes e os pobres, e reprehendia os
poderosos.

E condemnava os hypocritas da religio, e por isso era abominado pelos
grandes e pelos sacerdotes.

Mas respeitava as leis, e ensinava a obediencia: mandava que se pagasse
o tributo das duas drachmas do templo, e o tributo de Cesar.

E affeiava aos populares os seus vicios e abominaes; e por isso era
tambem malquisto da gentalha.

E, condemnado  morte pelos poderosos, o povo, a quem tinha trazido a
luz e a vida eterna, o povo, que elle tanto amava, cubria-o de
opprobrios.

E podendo salv-lo do supplicio, antepunha-lhe um grande criminoso, e
clamava aos algozes:--Pregae-o na cruz, e cia o seu sangue sobre a
nossa cabea e sobre a cabea de nossos filhos.

E este propheta era o Messias, era o redemptor do genero humano, era o
filho de Deus.

Consolem-se, pois, aquelles que sobre os hombros tomaram o odio dos
tyrannos por amor do povo, e a quem o povo paga com injurias e pragas.

Como Jesu-Christo, os hypocritas e os oppressores das naes
abominam-nos: como a Jesu-Christo, o vulgacho cobre-nos de affrontas, e
pede para ns aos seus tribunos a condemnao e o supplicio.

E que nos cumpre fazer para seguirmos em tudo o exemplo do Justo
assassinado, do Deus que nos deixou na terra o consolo e a esperana?

Pedir morrendo ao Eterno Pae o perdo de nossos perseguidores e, como o
divino Mestre, lanar  conta da ignorancia as culpas de coraes
corruptos.

Imitando o Salvador na cruz, seja um pensamento de beno o nosso
pensamento extremo; porque o derradeiro suspiro do christo deve ser um
murmurio de affecto grande para os que o amaram, mas ainda maior para os
que o odeiaram e perseguiram.


                                    XI


E ainda uma vez, filhos da perdio, ainda uma vez vos falarei em nome
do Senhor nosso Deus.

Que foi o que fizestes assassinando as esperanas da salvao publica,
derribando a sancta tradio da patria?

At no crime fostes apoucados. Porque no se ergue um de vs, perverso,
mas sublime, como o archanjo das trevas, e diz:--fui eu o concitador do
motim popular, fui eu o primeiro que clamei quebrem-se as taboas da
lei?

Louvaes a sedio, chamaes-lhe obra illustre, e nenhum de vs acceita a
gloria de ser o bem-feitor do seu paiz?

Quando combatiamos pela liberdade gravavamos os proprios nomes em nossas
armas, e o inimigo que ousasse v-las de perto, ahi os lera inteiros.

No combatiamos nas trevas; e os nossos capites diziam ao
mundo:--Vede:--e mostravam a face diante da luz do sol.

Hypocritas, que enganaes o povo, credes porventura que tambem enganareis
o Senhor e que, semelhantes  prostituta que engeita o fructo de seu
crime, engeitareis diante delle a obra da vossa iniquidade?

No! L se levantaro os nossos e os vossos filhos, para quem preparaes
bero de miseria, vida de amargura e morte de desesperao.

E elles testemunharo contra vs na presena do Altissimo: e haver ahi
choro e ranger de dentes.


                                   XII


Ambiciosos, que desvairaes o povo, o Senhor leu no fundo dos vossos
coraes e revelou-me o que ahi est escripto!

A cubia do mando e do ouro  o vosso amor de patria; a vossa ancia de
liberdade a sde de tyrannia.

Merecedores de jazer perpetuamente na escuridade, e ermos de virtude e
de sabedoria, no podendo fulgir com luz celestial, tentastes romper as
trevas de vossos caminhos com o claro torvo do inferno.

E a serpente vos emprestou a sua v sciencia, as suas corruptoras
palavras, e alumiados por fulgor de morte, alguns vos creram illustrados
pela luz que mana do throno de Deus.

Mas os que foram enganados vos amaldicoaro no dia em que patenteardes
a hediondez das vossas intenes, e o Pae de misericordia lhes perdoar
um erro de intelligencia.

Eis o que diz o Senhor:--Vs sois os assassinos da republica, mas
debaixo das suas ruinas ficaro tambem esmagadas as vossas frontes, e os
vossos membros quebrantados e sumidos.

Tambem vs tereis quem maldizer na hora do passamento: os dias futuros
justificaro o Verbo de Deus.


                                  XIII


Os soldados que arrastavam o Justo ao Golgotha, quando o povo de
Jerusalm pedia o sangue innocente, poseram sobre a cabea do Filho do
Homem a inscripo--Este  Jesus rei dos Judeus.

Porque o povo no sabe commetter um crime, sem, afora o crime,
blasphemar e escarnecer da virtude.

Assim os tribunos da plebe, depois de rasgarem o pacto social, disseram
por irriso:--Reuna-se o conselho dos ancios, dos sabios e dos
prudentes, e faam-se leis para o regimento da republica.

Como se no houvesse ahi lei; como se os eleitos do povo no tivessem
sido expulsos pela rel e separados uns dos outros.

Ento os malfeitores rodeiaram a urna onde d'antes os cidados podiam
livres lanar o voto da sua consciencia.

E todos os bons se afastaram dessa urna; porque a mo do crime a tinha
collocado no templo, e  roda della smente sussurravam ameaas de
morte.

E por isso os nomes que d'alli sairam foram nomes opprobriosos ou
desconhecidos, e como extranhos no meio de ns.

Um erro trouxe outro erro, e o punhal passou da praa para o templo, e
houve ahi mysterios das trevas, mysterios de perversidade.

E homens imberbes, ignorantes e ignobeis ir-se-ho assentar no conselho
dos legisladores, no logar destinado para os velhos, para os sabios e
para os homens virtuosos.

Mas a plebe ahi estar tambm, com seu gesto hediondo, como um espectro
de terror, como a imagem do supplicio nos ultimos dias de um criminoso
depois da sua condemnao.

Ella ahi estar; e o seu grito ser mais alto que o das consciencias, se
 que podem consciencias falar no conselho de homens corruptos.

Ella ahi estar; e as leis sero feitas por ella; porque errados vo os
que pensam que o povo larga jmais o poder que a imprudencia ou a
maldade lhe depositaram nas mos.

Homens a quem a dissoluo social vestiu a toga de senadores, para
debaixo da campa levareis nas frontes duplicado o ferrete da infamia e
do aviltamento.

Nellas vo-lo escreveu uma eleio fraudulenta, em que votou o punhal do
assassinio e o obulo da embriaguez, preo porque a plebe vendeu aos
tribunos o exercicio de um direito que no era seu e que ella tinha
roubado por noites de sedio.

E nellas vo-lo estampar tambem o grito insultuoso do vulgacho que vos
ergueu do p para sanctificardes a sua rebellio, para serdes cumplices
nos seus decretos de morte, e para depois vos quebrar em pedaos, como
um vaso fragil quando se torna inutil.


                                   XIV


De fel e de trabalho me cercou o Senhor. Esta  uma das suas vises, que
elle me enviou em espirito.

N'um campo extensissimo estava eu, e cerrava-se-me o corao, como
traspassado do frio do terror. Era ao cahir das trevas.

Havia por ahi sepulchros, mas sepulchros semelhantes a dorsos de
montanhas: havia por ahi cyprestes, mas cyprestes seculares como o
universo, e cujos cimos avultavam como a espessura de um bosque
primitivo.

O sitio em que eu estava era o cemiterio das naes e dos seculos.

Sobre muitos desses tumulos espantosos j tinha cahido a campa; j o
musgo e as saras lhes dissimulavam as juncturas, e o estellio e o
spide passavam por cima, rangendo como as folhas seccas.

Outros havia l que ainda estavam abertos, e tinham as lousas erguidas
sobre uma das bordas, juncto da qual um anjo derramava lagrymas. Jaziam
nestes muitos seculos de naes modernas.

Algumas sepulturas ahi estavam inteiramente descubertas e ainda
alvejantes, como collocadas de pouco em meio do campo sancto: nem lousas
estavam ao p dellas.

Mas ao longe ouvia-se como o gemido de eixos que vergavam e de homens
que altercavam e que pareciam trabalhar em uma obra de Deus.

E este gemido era semelhante ao do oceano revolto, e o borborinho soava
como o clamor de milhes de vozes.

Na frente de cada um dos jazigos estava escripta a historia do povo ou
do seculo que l repousava ou que l devia cahir.

E algumas destas inscripes eram antigas e meio gastadas, e de roda
tinham esculpidos symbolos de gentilidade.

Apenas sobre uma dellas estava gravado o nome de Jehovah; mas fechavam a
campa sete sellos, cuja lenda era:--at a consummao dos seculos.

E mais alguns monumentos ahi se erguiam, j cubertos com a lousa final:
e em cima delles estava plantada a cruz, e a inscripo acabada.

Juncto destes ajoelhei e derramei lagrymas: eram sepulchros das raas
que educara o evangelho: dormiam l irmos meus.

E os reinos e as republicas da idade media eram os que nesse logar
estavam sepultados: quelles tinham-nos anniquilado loucuras e tyranias
de reis; a estas a licena e a corrupo popular.


                                    XV


L estava tambem o monumento da nossa patria.

E nelle repousavam os cadaveres de muitos seculos.

E a historia de cada um destes lia-se na face da pedra, escripta pela
mo do archanjo que velava o sepulchro e que forcejava por suster a
campa, que j pendia, como para os encubrir  luz.

E esta era a lenda sepulchral:

Deus escolheu para si a nao do extremo occidente, e a beno do
Altissimo desceu sobre o bero della.

E passou glorioso o primeiro seculo da sua existncia, rico de combates
e victorias: elle herdou ao seguinte a cruz plantada nos coruchus dos
alcores, e uma raa valente e virtuosa, que defendesse a terra
conquistada.

De incremento e prosperidade foi o segundo seculo; e posto que ahi
houvesse dias de turbao, o povo cresceu; porque o Senhor o abenoava.

E na terceira era soou em paiz extranho uma voz que falava de servido.
O povo portugus lanou mo da espada e da lana, e em vinte combates
provou a sua independencia, e que o Deus dos exercitos fora o Deus de
seus paes.

E na quarta era chegou a idade viril da republica: a sua estatura
assemelhava-se  de um gigante, os seus braos aos de um athleta.

E na quinta ella estendeu a mo para o oriente, e aferrando centenares
de povos, metteu-os debaixo dos ps.

Ento commetteram-se crimes, a corrupo estendeu-se, e a face do Senhor
turbou-se.

Aqui na inscripo seguia apenas um nome de poeta, o depois uma longa
beta negra. Esta significava que de infamia e servido fora a sexta
idade da republica.

E a lenda tumular proseguia:

Surgiu um dia o povo, e quebrando os grilhes que tyrannos estranhos lhe
haviam lanado, aacalou de novo a sua espada esquecida, e combateu
quasi um seculo.

E recobrou a independencia, seno a liberdade.

D'aqui vante, falava o letreiro de existencias e de largos annos; mas
de existencias sem gloria, e de annos semelhantes apenas  decrepitude
de homem que foi robusto.

E havia ahi guerras e victorias e leis: mas as victorias coroavam o
general e no o soldado, porque o soldado era servo: as leis eram talvez
justas, mas desciam do throno dos reis sem a sanco popular, e o povo
dobrava o joelho.

E isto era impio. O servo que acceita s-lo  s meio-christo. Do
evangelho deriva a liberdade, como condio impreterivel do homem,
responsavel por seus actos perante Deus. A liberdade pde rasgar-se do
evangelho; no separar-se delle.

Depois lia-se o nome de um rei; e este nome era grande e honrado, como
os dos antigos reis portugueses, e a sua historia estava escripta no
monumento da eternidade. Aps esta, seguiam-se algumas palavras de
esperana.

E d'alli por diante a pedra estava em branco; porque a oitava era da
republica ainda no tinha adormecido juncto do umbral do passado.


                                   XVI


E eu meditava em silencio, e o meditar era amargo para o meu corao.

Subito senti um ruido remoto, semelhante ao ruido de bosque sacudido
pelo vento e granizo.

E divisei por entre os cyprestes um vulto, que se approximava da
clareira onde estava a sepultura, e as suas passadas, posto que
apressadas, soavam como se fossem de ps de bronze.

E chegou. Fitando os olhos no vulto, descortinei uma figura humana de
desmesurada altura.

A sua cabea tinha muitas faces e muitos olhos: do tronco saa-lhe uma
grande multido de braos.

E com todas as suas linguas proferia palavras immundas e blasphemas, e
maldizia a religio e a justia.

E vinha salpicado de sangue.

E parou diante do monumento.

Ficou immovel por algum tempo; depois, como excitado por um accesso de
raiva infernal, procurava aluir o sepulchro.

Mas a immutabilidade do passado era a immutabilidade delle. Tinha-o
posto alli a mo de Deus.

Ento o vulto comeou a raspar a inscripo, mas as letras cada vez mais
se avivavam. L do intimo soou um longo gemido.

E o vulto soltou uma praga tremenda, e transpoz a borda do sepulchro; e
estava em p dentro delle.

E comeou a afundar-se nas trevas; e estendendo os braos, os braos lhe
ficavam hirtos.

E nos olhos, que at alli chammejavam furor, j fluctuavam lagrymas de
homem que morre.

E descia, e descia!

E quando a fronte lhe topetava com a borda, a campa escapou das mos do
anjo, que trabalhava por sust-la, e cahiu dando um som profundo.

E a face do sepulchro, abaixo da inscripo, tingiu-se de negro at o
rez da terra.

E as ultimas palavras, palavras de esperana, converteram-se em outras
to horrveis, que a minha lingua no ousa proferi-las.

E a viso desappareceu.


                                   XVII


Reprobo sera aquelle que, vendendo seu pae por preo de opprobrio, o
entregasse  servido de extranhos.

Reprobo, mil vezes rprobo, sera tal homem; porque este crime fra mil
vezes mais negro do que o parricidio.

Quem, por noite tempestuosa, o acolheria debaixo de tecto hospitaleiro?
Quem, vendo-o mirrado de sde, lhe offereceria um pucaro de agua?

Ninguem: porque o seu hlito inficionaria o ar que respirasse: os seus
labios empestariam o vaso por onde bebesse.

No seu leito de morte, que sacerdote ousaria dizer-lhe:--Eu te absolvo
em nome do Deus que perdoa? Nenhum: e o que o dissesse mentir-lhe-hia;
porque nos thesouros da piedade divina no ha resgate para semelhante
divida.

Mas que  este crime, comparado ao daquelle que vende a patria? Esse,
no vende o progenitor smente: vende a familia, os ossos de avs, a
fonte do baptismo, a cruz do cemiterio; vende as saudades, os affectos e
as esperanas de todos os seus irmos.

E todavia, nos conciliabulos dos tribunos proclama-se que no
anniquilamento est o segredo da nossa futura grandeza. Rebeldes de sete
seculos, seremos applaudidos e respeitados no mundo, quando, de joelhos
perante os nossos orgulhosos senhores, fizermos penitencia do glorioso
delicto de mais de vinte geraes de antepassados!

So homens destes que as turbas insensatas victoreiam!

Cegou Deus a intelligencia do povo, porque o quer perder; porque o
afastou de sob as azas da sua Providencia amorosa.

E por isso a viso do sepulchro me foi mandada, e vi cerrar-se a campa
da eternidade em cima da derradeira epocha da monarchia de Valdevez, de
Aljubarrota, e de Montes-Claros.


                                  XVIII


Povo desvairado, doe-te de ti proprio. Sabes, acaso, a quem os homens
das trevas pretendem submetter-te e a teus filhos e netos?

Dir-to-hei, oh povo, para que nos futuros momentos de afflico no
digas ao Eterno:--Senhor, salva-me, porque eu no soube o que fiz!

Odio de sete seculos te separa desses futuros senhores: vinte batalhas,
em que os teus cavalleiros venceram os seus, jazem no vingadas nas suas
recordaes.

Houve tempo em que elles poseram o p no collo de nossos maiores, e a
vida destes foi durante esse periodo tecida de amargura e de infamia.

Ento, alm do oceano, nos campos de tua gloria, sentia-se um ruido
incessante. Eram as tuas fortalezas que desabavam; eram as tuas naus que
se affundiam; era o teu poder que expirava.

Nas veigas, o arado ficava esquecido no meio do sulco, e no prado e no
monte os novilhos mugiam debalde pelo seu guardador:

Porque os mancebos eram levados a combater em paizes remotos, para
sustentar a tyrannia de seus senhores, e, novo genero de ludibrio,
tambem oppressos, quinhoavam as maldices lanadas sobre os oppressores
da sua patria.

 viuva e ao orpho era arrebatado o obolo do tributo, e este ia
accumular-se nos cofres dos extranhos e servir, depois, ao luxo e 
devassido.

O soldado hespanhol estava em p, encostado  lana, juncto s ameias de
nossos castellos, e o escravo portugus que passava ao sop dos muros
pregava os olhos no cho, e a dor acabrunhava-lhe o espirito.

As cidades foram saqueiadas, os patibulos ergueram-se, os homens de
valor e virtude derramaram-se pela face da terra.

Mas os portugueses lembraram-se um dia de que o eram, e levantando os
braos para o cu, com os grilhes que lh'os roxeiavam esmagaram os
craneos dos oppressores estrangeiros.

E breve os campos da Hespanha talados, as suas aldeias arrasadas, os
seus valentes postos  espada, pagaram injurias de sessenta annos.

E na terra adubada com cinzas e sangue se lanaram sementes de
malevolencia perpetua entre as duas naes.

Ai de ns, ai da patria, se o leo da Iberia podesse rugir solto pelas
nossas montanhas, e vir acoutar-se debaixo de nossos tectos!

E isto  o que pretendem os destruidores da liberdade, os suscitadores
da anarchia.

Sade pois o povo os tribunos e obedea-lhes, emquanto elles no
consumam a sua abominavel obra; emquanto o no entregam, como um rebanho
de ovelhas, nas mos dos seus futuros algozes.

Ns, os que no nascemos para a servido, ergueremos as campas de nossos
paes, e ricos com estes restos queridos, iremos deposit-los debaixo do
cypreste do desterro.

No, o hespanhol orgulhoso no calcar as cinzas dos nossos valentes,
embora possua esta terra corrupta e serva; embora venha riscar da face
della todos os monumentos dos seculos da nossa gloria.


                                   XIX


Tal , oh povo, o futuro que para ti guardam os teus tribunos no
thesouro de maldade de que so ricos os seus coraes.

Tu gemers captivo e no ousars queixar-te; e as oraes e as lagrymas
das tuas noites de tribulao e vigilia no rompero os cus, tornados
para ti de bronze.

Eis porque os filhos da perdio suscitaram no teu seio o grito da
guerra civil: foi para que a espada da fratricidio devorasse os teus
fortes, e se fartasse e embriagasse com o sangue delles.

Para que, inerme e enfraquecido, estendesses os braos s cadeias e
curvasses o joelho ante aquelles de quem receberam o preo da tua
liberdade.

Acaso podero neg-lo?--No: porque o mysterio da iniquidade foi
revelado, e a voz que o patenteiou era bem alta, e resoava desde o Tejo
at as alturas dos Pyrenus.

Cr, agora, plebe illudida, cr que os homens que te vendem a extranhos,
melhor te venderiam a um tyranno domestico.

Cr que se homens taes fossem a unica barreira alevantada entre ti e
aquelle que ns expulsmos e tu maldisseste em teus hymnos populares,
semelhante dique fora facilmente transposto pela torrente das vinganas
do despotismo.

Que um pouco de ouro se espalhasse, e as comportas que rebatem o oceano
de sua clera seriam por elles abertas de par em par, para te
mergulharem em um plago de agonias.

Tu os verias at combater por soldar o sceptro de ferro que quebrmos,
se nessas almas mesquinhas houvesse valor para escutar o silvo do
pelouro, para ver o lampejar da espada erguida.

Ouvi-los-hia protestar que as suas mos estavam puras do sangue vertido
nas luctas da liberdade, nas luctas de um contra dez; que entre si e
esse cantinho de Portugal revolvido durante um anno pelas bombas e
granadas, varrido pela metralha, fustigado pelo granizo das ballas,
visitado longamente pela fome e pela peste, tinham mantido com esmero a
moderada distancia que medem as solides do oceano.

E falariam verdade; e sera porventura o unico dia da sua vida hypocrita
em que assim o fizessem.


                                    XX


N'uma viso ajuncta Deus o passado e o futuro; porque para elle no
existem nem espao nem tempo. Viso, pois, do Senhor foi a que se me
representou.

Parecia-me ver uma grande cidade: rodeiavam-na antigos muros e
baluartes, cruzavam-se ruas estreitas e tortuosas dentro do seu ambito,
semelhantes  rede do pescador, e, por entre uma selva de edificios
humildes, surgiam, aqui e acol, torres ponteagudas subtilmente
lavradas, e templos alumiados por frestas esguias ornadas de vidros
corados, que reflectiam o sol occidental em espectros de luz
variadissima.

Grande numero de cavalleiros corriam pelas praas, e iam armados de
elmos e saios de malha e grevas de ao, que scintillavam, e nos seus
olhos e faces assomavam espritos valorosos.

E os campos circumstantes estavam cultivados, e a cruz plantada em todos
os termos dos caminhos e em todas as encruzilhadas.

E conhecia-se nos rostos dos homens que passavam pela cidade e pelos
campos que em seus coraes havia virtude e contentamento.

E proxima desta povoao estava outra muito mais aprazivel no primeiro
aspecto: as suas ruas eram espaosas: aformoseiavam-na os jardins e
hortos, e surgiam no meio della nobres e opulentos edificios.

Viam-se ainda ahi alguns templos, mas arruinados e solitarios, e como
que monumentos da queda de toda a crena.

E os campos que se dilatavam ao redor della estavam ridos e ermos. Nem
uma s cruz l se descobria.

E os homens passavam silenciosos uns por outros. Das almas, turbadas por
paixes tempestuosas e por crimes, subiam-lhes s frontes annuviadas, em
ondas de sombras, os escuros pensamentos.

E estas duas cidades eram a imagem dos tempos que foram e dos tempos que
ho de ser.


                                   XXI


E na cidade do passado os coruchus e eirados dos seus apinhados
edificios eram para os meus olhos, que divisavam tudo quanto se passava
no interior dos aposentos, como o crystal translucidos.

Em uma das quadras de um desses edificios estava um velho, e derredor
delle suas filhas, que o cercavam de amor.

E ao canto via-se um arnez, por muitas partes falsado e roto, e um elmo
abolado e com as enlaaduras quebradas. S ahi faltava uma espada.

E quando eu considerava este velho guerreiro rodeiado dos seus e as
alfaias e os adornos desta habitao tranquilla; quando bebia o halito
de paz que tudo ahi espirava, um mancebo armado entrou na sala: na
cincta trazia mettido um estoque largo e curto, espada do homem valente,
cujo punho em cruz lhe assentava sobre o corao.

E dos labios das donzellas partiu um grito: este grito dizia que o
mancebo era seu irmo. Abraando-o, os olhos se lhes arrasavam de
lagrymas.

O velho ergueu a cabea e olhou com aspecto severo para o soldado, que
se aproximou de seu pae, como se estivera perante o seu juiz.

Fronteiro d'Africa!--disse o ancio--posso acaso abenoar-te como filho,
ou cubriste de infamia o meu nome e a minha espada? Quaes foram teus
feitos no servio da patria, da religio e do rei?

E o moo, calado, desenlaou a couraa e, afastando as roupas que lhe
cubriam o peito, mostrou as cicatrizes de golpes da lana do arabe e do
alfange mourisco.

E o velho, alevantando-se tremulo, contava-as, e as lagrymas tambm lhe
banhavam o rosto, e depois apertou o filho entre os braos por largo
tempo.

D'ahi a pouco, armas ainda no ferrugentas estavam encostadas s do
ancio no angulo da sala, e afra ellas, via-se l uma espada.

E esta familia era feliz; porque havia ahi virtude, honra e amor filial
e fraterno.

Mas esta parte da viso passou, como um sonho formoso; como os homens
virtuosos dessas epochas, sobre os quaes dorme o silencio dos tempos que
j no so.


                                   XXII


E o espirito de Deus collocou-me sobre a moderna cidade.

E aos meus olhos estavam patentes os segredos domesticos e a vida intima
da sociedade, e observando-os, o corao me desfallecia  vista de
tantas abominaes.

Via a corrupo em quasi todas as familias; crimes em grande numero
dellas; temor de Deus quasi em nenhuma.

E clamei ao Senhor na minha afflico, e disse-lhe:--Oh meu Deus, porque
abandonaste este povo?

E dos cus me foi respondido:--O povo  que abandonou os caminhos da
salvao e se afastou de sob as azas da piedade divina.

O perjurio foi sanctificado pelos que se chamaram eleitos do povo, e
este os victoriava quando elles assim quebravam o mais forte vinculo
social, e preparavam a quda da republica.

A religio avta apresentou-se s portas do senado, pedindo a esses
homens soberbos a deixassem subsistir neste paiz desgraado, para
enxugar lagrymas de desditosos e ser a ultima esperana daquelles que
perderam todas as outras.

Porm, como prostituta vil, a religio de nossos paes foi coberta de
motejos, e, entre risadas, lanada fra do sanctuario das leis.

E houve ahi quem dissesse:--Que temos ns com Deus?--E as turbas
approvaram o dicto.

E o Dominador dos orbes respondeu:--Nada terei comvosco!

E o universo tremeu a estas palavras, que logo foram escriptas no livro
da morte.

Ai daquelles que romperam o pacto do Creador com a creatura: ai
daquelles por cuja bca falou o espirito das trevas. A blasphemia cahir
sobre a cabea dos blasphemadores; e o sepulchro lhes dir onde  a
patria dos que motejam de Deus!

E esta voz de cima acabrunhou-me o corao; porque no sabia como
desculpasse perante a Providencia os peccados do povo. O anthema estava
lanado, e a consciencia me dizia que o cu tinha sido justo: nem ousei
implorar outra vez a misericordia divina.

Ento olhei para a cidade que me ficava debaixo dos ps, onde sussurrava
um ruido de vida, mas ruido semelhante ao de mar procelloso e ameaador
de naufragios.

E s descobri rixas e bandos civis, e assassinios atraioados e
dissolues, e o roubo e a embriaguez.

O filho passava por juncto do feretro materno, que homens pagos levavam
com escarneos ao campo do esquecimento, e perguntava o nome desse
cadaver.

Juncto ao leito de pae moribundo, as filhas entregavam-se 
prostituio, e ao velho, morrendo, era ultimo sentimento o do
opprobrio.

Longa era esta scena de crimes, e parecia-me que fechava os olhos para
no ver to horrivel espectaculo. Neste momento a viso desvaneceu-se, e
achei-me banhado em suor frio e repassado de amargura.

E por impossivel tinha que to negro futuro houvesse nunca de
verificar-se: mas subito ouvi muitas vozes que diziam:--Guerra 
religio do Christo!

Ento cri na viso que o Senhor me enviara, e apagou-se-me na alma o
ultimo claro de esperana.




                        THEATRO-MORAL-CENSURA


                                *1841*




Quando, vencidas difficuldades que pareciam insuperaveis, o theatro
parece renascer entre ns na sua parte litteraria; quando, at, se
affiguram grandes probabilidades de vermos alevantar um edifcio
consagrado  arte dramatica, onde este genero de litteratura possa ficar
a salvo daquella especie de ergastulo hediondo e triste a que poseram
por irriso a alcunha do Theatro Normal; Gerio, cuja ossada se
esphacela debaixo da sua triplice face de taberna, de emunctorio das
ruas, e de prostibulo; quando todos os homens de letras e todos os que
as amam forcejam para que nesta formosa arte vamos algum dia emparelhar
com as outras naes, nenhuma questo que venha a suscitar-se acerca do
assumpto ser insignificante ou indifferente, porque nella interessam a
vida intellectual do paiz, a sua civilisao e o seu bom nome
litterario. Mas se essa questo, alm de importar  arte dramatica,
envolver o interesse da moral publica, consider-la e dar opinio sobre
ella  obrigao daquelles a quem Deus deu intelligencia para a
comprehender e razo para a avaliar. Ora, enquanto se forceja para
elevar e restaurar litteraria e at materialmente o theatro nacional,
vemos o drama decahir, prostituir-se moralmente cada vez mais. Cresce
todos os dias a indignao da gente honrada contra os espectaculos que
sobem  scena, orgias da arte, se arte se pode chamar a quadros onde ha,
no o sublime de paixes mais ou menos perversas, o sublime do horrvel,
mas o torpe, o asqueroso dos vicios mais vis. Cumpre que a imprensa seja
orgam desta indignao; que busque a origem e o remedio do mal. A sua
mais alta misso  contribuir para que a sociedade se melhore e
civilise, e o theatro pode ser um poderoso instrumento de civilisao.

Mas como desempenhar a imprensa este grave dever? Como se oppor a que
o theatro seja uma eschola de corrupo, devendo ser um logar de puro e
innocente deleite? Como far rasgar por uma vez esses cartazes, que,
affixados nos logares pblicos, s trazem  memoria, pelos titulos dos
dramas que annunciam, as taboletas dos alcouces romanos desenterrados em
Pompeia? Fulminar os desgraados histries, machinas de aleijar as
verdadeiras obras d'arte, e de peiorar semsaborias; tteres de carne e
osso, incapazes de comprehenderem a sua nobre arte, e de resistirem ao
estragado gosto de quem os dirige, e no sei se diga, ao mais estragado
da plateia? No: deixae-os; porque so existencias inertes, impalpaveis
para a imprensa, traa do drama, da linguagem, do senso commum; pagos
para roer as concepes da intelligencia sobre quatro taboas velhas, ao
passo que o caruncho os vai imitando na substancia destas. Deixae-os,
pelo amor de Deus! Punir com o aoute do epigramma os empresarios e
directores dos theatros? Ainda menos. Um empresario  um individuo
inexplicavel e inclassificavel:  uma abstraco de todas as idas, de
todas as crenas, de todos os affectos: a sua thica  o _livro de
razo_, o seu evangelho o da _caixa_; o seu culto o da _cruz_, mas da
cruz dos cruzados novos; o seu destino, alm do sepulchro, o _limbo_.
No acrediteis na possibilidade de os constranger a despregarem os olhos
destes tres objectos, que, junctos aos farrapos dos bastidores e ao oleo
ftido das lanternas do proscenio, constituem o seu universo. Deixae-os
tambem; que para elles, que no querem, nem sabem, nem podem ler, a
imprensa  como se no existisse, e as suas reprehenses mais amargas,
as suas ironias mais pungentes no os distrahiro um momento da
contemplao beatifica das moedas que rende em cada noite um
estabelecimento industrial de prostituio para familias honestas. Seja
quem for o empresario de qualquer theatro, no se abalance a imprensa ao
louco empenho de convert-lo. Que pessoa tentou jamais educar e instruir
um surdo-mudo-cego de nascimento?

Contra quem pois alevantar a imprensa a sua voz solemne? Contra as
auctoridades propostas aos espectaculos dramaticos? No; porque posto
que revestidas de um poder arbitrario, acima dellas ha tambem o
arbitrio, que lhes inutilisa a energia moral, quando tentam usar della a
bem da decencia publica; e porque, impossibilitadas de julgar por si
essa alluvio de asquerosidades que diariamente sobem  scena, e alm
disso obrigadas por lei a ouvir sobre cada uma dellas o parecer de tres
censores, que podem julgar bem ou mal, no se lhes ha de lanar em conta
uma culpa que no  sua. Nenhum homem de alguma gravidade se quizera
submetter a passar dias, mezes e annos inteiros quasi asphyxiado n'uma
atmosphera de sandices, pelos mais avultados proveitos do mundo, e muito
menos gratuitamente, como servem os inspectores do theatro.

Quem resta por tanto para accusar? Os censores?--Parece-me ouvir a
muitos daquelles que acham mais commodo invectivar individuos do que
avaliar instituies, dizerem que sim. Eu todavia respondo:--No; mil
vezes no! Brevemente se vero os fundamentos da minha negativa.

No sendo, porm, culpados nem os histries, nem os bufarinheiros de
rosalgar moral chamados empresarios, nem os inspectores, nem os
censores, onde estar a causa de um mal de que todos se queixam, e a que
ninguem busca o remedio nos thesouros inexgotaveis da reflexo e do
raciocinio?

Essa causa est n'uma instituio anachronica, absurda, insensata,
attentatoria da liberdade intellectual do engenho humano, e alm disso,
perfeitissimamente inutil.

O mal no vem dos homens: vem das cousas: vem de uma parvoice legal: vem
da _censura prvia_.

O remedio s lh'o pde dar um parlamento que queira pensar cinco minutos
nesta materia.

 luz politica, a censura prvia applicada ao theatro  um attentado to
flagrante como applicada  imprensa. Todas as constituies existentes e
possiveis consagram a liberdade do pensamento e a livre communicao das
idas. O theatro , como a imprensa, como as artes plsticas, um meio de
communicao. Uma representao scenica  um livro impresso em tantos
exemplares quantos so os espectadores, com a unica differena de que
estes exemplares se apagam acabada a sua leitura. O principio da
liberdade do espirito  tanto ou mais sancto que o da liberdade da
terra: no soffre excepes, porque, se as soffresse, desceria da
categoria de principio para a classe das regras transitorias da vida
civil. Onde quer que apparea a censura, onde quer que se aninhe esta
irm gmea da inquisio, ha uma quebra nos foros da independencia do
homem, ha uma insolencia do passado contra a dignidade social da gerao
presente. Seja para o que for, a censura  um impossivel politico.

Contra o impossivel no ha razes de utilidade. As mais evidentes
consideraes de conveniencia deveriam cahir diante da immutabilidade
dos principios; porque no ha meio termo entre o renegar do progresso
humano, e o respeitar sempre e em toda a parte os elementos fundamentaes
das sociedades modernas.

Mas existem, porventura, taes conveniencias? A censura do theatro--dizem
os defensores dessa cpula sacrilega e bestial de uma instituio
cadaver com as instituies vivas e actuaes-- uma necessidade: melhor 
prevenir que castigar: o castigo dos que abusarem deste modo de
publicao no impedir que elle tenha j produzido a corrupo: sem
censura pde, at, attentar-se contra a segurana do Estado: no anno de
tal em Paris, em Bruxellas, na Haya, emfim no sei onde, um drama
recheiado de maximas subversivas produziu tal assuada, tal motim, tal
revolta.--Eis as excellentes razes, pouco mais ou menos, com que se
defende a existencia de um absurdo.

Estes argumentos so a apologia, no da censura do theatro, mas de toda
a censura; da censura do drama, como do livro ou do jornal; e ainda mais
destes; porque o exemplar da publicao scenica deixa de existir apenas
cahe o panno; mas do livro ou do jornal impressos, embora sequestreis os
volumes ou os numeros no vendidos, os exemplares derramados do primeiro
golpe l ficam no dominio publico; milhares de individuos os lero, e
com tanto maior avidez quanto mais severa houver sido contra elles a
condemnao dos tribunaes.

A desculpa da preveno nos attentados legaes contra os principios vai
mais longe: vai at a inquisio, se quizermos ser logicos. Um homem 
conhecido por suas opinies anti-religiosas: este homem  imprudente,
voluntarioso, ousado: nada mais facil, mais provavel que o vermo-lo
cahir na culpa de no respeitar a crena do Estado, de a insultar
publicamente.  cautella, creae-me uma inquisiosinha illustrada; uma
inquisio progressiva, arejada, sem pols, nem potros, mas preventiva e
paternal, onde o incredulo, entre sermes, po negro arraoado e agua
benta, seja inhibido de commetter um crime, previsto na lei politica do
mesmo modo que o abuso da liberdade de escrever e de falar. Apostolos da
censura prvia, em nome da logica, dae-me a sancta inquisio.

Deixemos, todavia, as duas bagatellas dos principios e da logica.
Venhamos ao campo da experiencia. A censura ahi est. Que tem ella
feito, no digo j entre ns, que palpamos todos os dias os bellos
effeitos da instituio; mas na Frana, na Belgica, na Hespanha? Onde
tem impedido a prevaricao do theatro? Respondei-me.

 um dos argumentos mais triviaes e mais lastimosos que se fazem a favor
desta monstruosidade inutilissima o exemplo da Frana. D'antes, em
Portugal, para fazer uma lei, o que se indagava era se ella convinha ao
paiz. Ha annos a esta parte entendemos que era mais judicioso ver se
convinha aos outros povos. Esta abnegao completa da intelligencia
nacional poder conduzir-nos ao cu pelo caminho da humildade; mas
tem-nos arrastado c na terra a muita vergonha legal.

A verdade  que em Frana os homens independentes e illustrados clamam
tambem contra a censura prvia do theatro, porque  attentatoria e
inutil. Quereis a prova da sua inutilidade no vosso paiz modelo?--Ahi a
tendes  mo. D'onde nos vieram as _Torres de Nesle_, as _Proesas de
Richelieu_, e todas as mais prostituies litterarias da nossa pocilga
dramatica, chamada theatro normal? Vieram-nos dos repertorios dos
theatros de Paris: atravessaram pela censura de Mr. Taylor ou dos seus
delegados, como em Portugal passaram sans e escorreitas pela censura do
Conservatorio. L, como c, a censura  um phantasma de que todos se
riem, e que s serve para descarregar os hombros dos empresarios,
auctores, e traductores dramaticos da responsabilidade moral e legal dos
seus envenenamentos litterarios.

 realmente uma das pequices mais desmarcadas falarem-nos das commoes
populares excitadas n'uma plateia. Quando a revoluo vai assentar-se
nos bancos do theatro, no busqueis a sua origem nas palavras energicas
do poeta: buscae-a na frouxido ou na maldade do poder. Sob um governo
forte e justo, uma revoluo no theatro no passaria de comedia
representada quem do proscenio. Mas, alm disso, onde achaes os
exemplos de semelhantes factos? Justamente em alguns dos paizes onde
existe censura prvia. Como o capito de Luiz de Cames, que no cabia
em nada, sancta gente, vs no cahis em que esse argumento  uma
punhalada na vossa querida censura?

Donde vem a impotencia da censura? De ser uma cousa anachronica, morta,
ftida, inintelligivel. Ao censor que respeita a inviolabilidade dos
principios repugna o impedir a representao de um drama; porque no cr
que o seu arbitrio possa substituir os jurados; que se possa executar
uma lei evidentemente contraria  lei fundamental do estado. Pelo que,
porm, toca ao que no cr nessas cousas, o aborrecimento inevitavel que
lhe traz o desempenho de um dever tedioso, de que no tira nem honra nem
proveito, ou o receio de attrahir odios de homens mais ou menos
poderosos, para o que no so triviaes entre ns o valor e a
consciencia, faz com que ou deixe de ler, ou leia essas miserias e as
approve. Se algum ha que no reflectisse no absurdo da instituio, e
que tenha energia bastante para lhes pr o seu veto censorio, l ficam
os empenhos e os respeitos humanos para fazerem escrever no rotulo do
boio immundo de peonha litteraria: _passe e venda-se por dses de 480
ris_.

 este o fado de todas as leis, de todas as instituies contradictorias
com as idas e principios capitaes de qualquer seculo. So cadaveres, em
que a fora legal opera os phenomenos que produz no corpo morto a pilha
voltaica; visagens de terror para os circumstantes, falsos movimentos de
vida, mas que todos sabem no passarem de joguetes de physica.

Fazei uma lei para o theatro em harmonia com a lei politica da nao,
com os principios eternos da liberdade intellectual, e salvareis a moral
e a decencia publica, que a vossa ridicula censura deixa todos os dias
impunemente affrontar.

Constitui um jurado especial composto dos membros das corporaes
litterarias, homens que tem uma intelligencia para pensar, uma reputao
de probidade, de litteratura, e de gravidade que perder. Ahi tendes um
avultado numero de individuos respeitaveis na Academia das Sciencias, na
Eschola Polytechnica, na Eschola Medico-cirurgica, na Eschola do
Exercito, no Conservatorio e em todos os mais estabelecimentos
litterarios. Confiae-lhes a defenso da moralidade. Os espiritos fracos,
mas honestos, ahi julgaro sem temor; porque a sua sentena ser
collectivamente sabida, mas individualmente secreta. Ahi, quando a
occasio do julgamento legal chegar, a causa j estar julgada e
sentenciada pela opinio publica, e esta opinio far tremer os juizes,
se porventura entre elles houver algum de mais larga consciencia, ou que
seja capaz de esquecer-se, por affeio ou por odio, da sua grave e
importante misso.

Fazei que o processo seja rapido. Haja um procurador especial contra os
delictos dramaticos em offensa da moral publica. Seja o inspector dos
theatros; seja quem vos parecer. Se faltar  sua obrigao, puni-o.

A penalidade da lei seja severa. Por mais severa que a imaginemos, ser
sempre branda em comparao da que cabe ao ladro matador; e eu no sei
resolver qual besta-fera  mais damninha, se um assassino do corpo, se
um envenenador do espirito, que assassina as almas inexpertas das
mulheres e da mocidade, surripiando-lhes ainda em cima alguns cruzados
novos.

Desenganae-vos de que as formulas constitucionaes so mais efficazes que
as molas carunchosas do absolutismo.

Ficae certos de que os jurados no tero de vibrar o golpe da punio
mais do que uma vez. O primeiro empresario que, sem remedio, tiver de ir
dormir por um anno aos paos de S. Martinho, e de practicar a
generosidade de mandar algumas dezenas de moedas para o Asylo de
Mendicidade, ou para a Casa dos Expostos, tirar a todos os empresarios,
presentes e futuros, o fino gosto de offerecerem no theatro ao publico
indignado espectaculos que affrontariam um alcouce.

Que a censura prvia  inutil, os factos tem-no sobejamente provado.
Se-lo-ha uma lei constitucional? No o creio. Se assim acontecesse, a
nao portuguesa no fora uma sociedade corrompida; fora uma nao
perdida. Nesse caso cumpriria deixar  Providencia de Deus convert-la
ou anniquil-la.




                              OS EGRESSOS


         *PETIO HUMILISSIMA A FAVOR DE UMA CLASSE DESGRAADA


                                 1842*




No sei se todos aquelles que passam os largos seres do inverno, no
nos theatros, nem nos banquetes profusos, nem nos bailes esplendidos,
mas em aposento de poucas varas em quadro, rodeiados de alguns livros e
a ss com o seu pensar silencioso; no sei, digo, se a todos esses
acontece o mesmo que a mim, quando o som do chuveiro subito, o silvo do
vento, e o bramido do mar, quebrando l ao longe nos rochedos da
marinha, lhes vem toldar a serenidade do to suave calar nocturno e as
imagens que transitam lentas no kaleidoscopo da imaginao. Aquelles
brados da natureza, que parece gemer angustiada, nem uma s vez deixam
de despenhar-me do meu to formoso universo das idas no mundo das
realidades. A vida actual obriga-me ento a tomar por uma das suas
estradas dolorosas, e como ao pobre judeu errante, esse bradar da
natureza, envolto no fustigar da chuva, no sibillar da ventania e no
rumorejar longinquo das ondas, repete-me de continuo:--vante! vante!

O que nesses caminhos muitas vezes se encontra  o claro que illumina e
o claro que deslumbra;  a sciencia que se entrev, separada de ns
pela insufficiencia das foras do espirito; so profundezas ennevoadas
em que a razo se precipita e vai revoluteando at se incrustar n'um
macisso de trevas quasi tangiveis;  o desconsolo de trocar, de noite a
noite, o crer pelo duvidar, o duvidar pelo descrer;  aprender
laboriosamente pouco, desaprendendo dolorosamente muito;  substituir
pela observao e pelo raciocinio opprimidos no finito, no existente, a
poesia que nos leva mansamente embalados atravez das suas creaes
infinitas;  consumir a brevidade da vida em esforos no raro
inefficazes para alcanar a verdade, que alm da morte, nos espera
tranquilla nas amplides do tempo sem fim.

Foi n'uma destas noites procellosas, emquanto eu buscava a verdade do
passado, que a imaginao insoffrida, como que a furto, me transportou
das realidades que foram para uma triste realidade que .

Aproximava-se a meia noite. Tinha acabado de ler uma das bullas do
violento Innocencio III contra o no menos violento Sancho I de
Portugal, inserida nos registos daquelle digno successor de Gregorio
VII, volumosos registos, onde ha muito que aprender cerca da vida
social de nossos maiores e das obscuras luctas da liberdade burguesa,
tronco antigo das modernas revolues populares, que tambem tem as suas
arvores de costado, como a aristocracia de bero.

Ao anoitecer o cu estava toldado, a terra humida, e o ar tepido com o
bafo vaporoso do sul. Mas era mais tarde que a tempestade, como o ladro
nocturno, queria fazer o seu gyro por entre as habitaes dos homens.

Era, pois, j bem tarde. Subitamente a chuva fustigou as vidraas: o
primeiro bofar do vento fez ramalhar as arvores meias calvas; e senti-o
que se abysmava debaixo das arcarias de pedra.

Por momentos imaginei que uma especie de demonio familiar me batia 
porta. Dir-se-hia que viera assentado no dorso eriado do tufo.
Pareceu-me que me affundia diante dos olhos as vises do passado, e que,
entre risadas, me chirriava aos ouvidos.--vante pelos caminhos do
presente; vante, sonhador de abuses.

Obedeci: o meu espirito cahiu no mundo presente, presente na sua mais
rigorosa data, uma noite pessima do mez de novembro do anno do Senhor de
1842.

L fra passava o temporal desfeito. Affigurou-se-me que, levado nas
azas delle, corria por agra e longa estrada das nossas provincias do
norte. Os robles baixos e reforados, cuja vida, contrahida ao cpo pela
mo do homem, lhes converte os topos em hydrocephalos monstruosos,
assemelhavam-se aos renques de dolmens drudicos da Bretanha. Quando as
nuvens, no seu curso precipitado, abriam alguma fenda passageira, por
onde a lua golfava instantaneo claro na terra, via-os fugir para traz
de mim negros, hirtos, nus, como cadaveres tisnados de cousa que j
vivera. Parei. Ao longe, a fita alvacenta da estrada, coleando por entre
os linhares e milharaes, refrangia de quando em quando o luar fugitivo
da superficie alagada das baixas, e depois, alando-se, como o collo do
cysne, sobre um outeiro, sumia-se no viso delle, ao curvar-se para o
pendor opposto. A dilatada fileira dos robles era o que unicamente se
alevantava da terra por um e outro lado. Pareceu-me, porm, que um vulto
distante vinha pela estrada do lado do outeiro: era um vulto humano, que
ora se encobria na sombra de nuvem negra que passava chuvosa, ora se
desenhava na claridade transitoria do cu. Aproximou-se vagarosamente, e
chegou ao p de mim: passando, os seus vestidos roaram-me por uma das
mos: eram frios e molhados. Seguiu vante, sem reparar em mim, que no
podia despregar os olhos d'elle. Os seus passos eram arrastados e
tremulos, vergado o corpo, a fronte nua e calva. E eu olhava para elle
fito. A chuva comeou de novo a cahir cerrada e escura. O vulto
encostou-se ento a um dos robles da estrada, como buscando abrigar-se;
e na cerrao da saraiva que sobreveio, ouvi-lhe um gemido.

Foi um gemido inexplicavel de desalento e agonia.

 mentira:--dizia comigo, tentando quebrar o feitio daquelle pesadello
de homem acordado.

E quebrei-o: e era mentira. Girei n'um circulo vicioso--pensava eu--.
Parti do ideal para chegar ao ideal atravez da realidade.

E de feito, como o leitor facilmente acreditar, estava no meu gabinete,
com um tinteiro e algumas folhas de papel diante de mim, tendo do lado
esquerdo o segundo tomo das epistolas de Innocencio III, e da direita o
terceiro volume da _Monarchia Lusitana_ de Fr. Antonio Brando; isto ,
da esquerda um papa ao mesmo tempo intractavel e astucioso; da direita
um frade modesto e sincero; e como personalisados nelles, o mau e o bom
anjo, que nos seguem sempre e por toda a parte.

De resto, a chuva cahia, mas era l fra. Eu estava enxuto e secco,
tanto, quasi, como a alma de um politico: estava bem, agasalhado,
commodamente. S a luz do candieiro  que se tornara escandalosamente
mortia.

Ergui o brao para a espivitar, e a cabea para ver se a minha obra era
boa. No sei se nestas palavras abuso das reminiscencias biblicas. Os
theologos o diro.

O meu _fiat lux_ foi cumprido. O candieiro despediu um claro brilhante,
que alagou todo o aposento.

Nunca eu tivera practicado este acto de omnipotencia! N'uma porta
fronteira, que dava para outro aposento desalumiado, estava o vulto que
vira no meu desvaneio de homem acordado; estava ahi, immovel, triste,
afflictivo, como a imagem do innocente suppliciado que apparecia todas
as noites sobre o bofete do celebre auctor da Ulissea.

E a figura avultava l: e eu olhava para ella sem pestanejar. Oh que se
vs a vreis!

Era um ancio veneravel: tinha a fronte suave e pallida sulcada
profundamente dessas rugas horisontaes, que so como as ondas que vem
morrer nas margens exteriores do oceano tempestuoso dos pensamentos: o
seu olhar era esse olhar manso, agasalhador, indulgente, que em certos
velhos nos fascina e subjuga, e que nos faz dizer a ns os moos:--Quem
me dera ser teu filho! Nas faces cavadas aninhava-se-lhe a fome ou a
penitencia...

 a fome!--bradei eu, pondo-me em p; porque, correndo a vista ao longo
da barba branca do ancio, vi que esta lhe cahia sobre o escapulario
negro de monge benedictino.

Mas a viso desapparecera de novo: e apenas me pareceu ouvir soar ao
longe uma voz cava e debil, como a que se de peito consumido por febre
pulmonar, que recitava estas palavras do Psalmista:

_Judica me Deus, et discerne causam meam, et a gente non sancta et ab
homine iniquo et doloso erue me_.

O meu circulo vicioso no existia. Cahira das idealidades do passado no
mundo real, e ahi, n'uma das realidades mais torpes, mais ignominiosas,
mais brutaes, mais estupida e covardemente crueis do seculo presente,
que diante de Deus, que o v e o condemna, ousa gabar-se de grande e
generoso e forte; mas em cuja campa o christianismo e a philosophia
escrevero algum dia unicamente este letreiro:

--Aqui jaz a ultima era dos martyres.--

E ps-me a scismar.

_Erue me! Erue me!_--O Senhor te resgatar, pobre monge; porque no
tarda a bater a hora em que durmas tranquillo na terra fria e humida,
fria e humida como a estamenha que te cobre. Queiras tu de l
perdoar-nos!

E lanando os olhos em volta, perguntava a mim mesmo:--Porque possuo eu
os commodos da vida, o po do corpo e o po do espirito, e porque perdeu
elle tudo isso? Que bem tenho eu feito ao mundo? Que mal lhe havia elle
feito?

 f, que a minha consciencia no achou uma unica resposta cabal a to
simplices perguntas.

A lembrana do frade velho atormentou-me toda a noite. A imaginao no
m'o pintava j na passagem escura, onde surgira pela segunda vez: via-o
na ida, e ahi, encostado ao roble, procurando conchegar os membros
inteiriados na cogulla encharcada, e resguardar a cabea calva ao
abrigo do robusto madeiro. Errante e mendigo como o rei Lear, o monge
no tinha, como elle, para o guiar na solido e na procella a caridade
de um truo.

 que hoje no ha trues. Este seculo  um grave, srio e cogitador
assassino.

De quantos ancios veneraveis ser a historia a historia do meu
benedictino?

Mas elles tem po: os soccorros publicos... Ol, homens grandes,
silencio!

Qual  o juro legal de cem milhes? So cinco.

Quanto dizeis vs que atiras dos vossos balces dourados aos hlotas da
sciencia e do sacerdocio? Uma quota diminuta dessa quantia.

Cahiu tambm a arithmetica debaixo das ruinas do passado? Se  assim,
dizei-o. Supprimamos a arithmetica. O que no fica supprimido  a
palavra--mentira!

Mentistes; porque a somma de que falaes existe apenas em palavras mais
torpemente hypocritas que as da serpente tentadora de nossa primeira
me, as que se escrevem nas paginas de um oramento.

E a realidade? A realidade  a minha viso;  que o monge, o sacerdote,
se converteu em mendigo.

Silencio, outra vez, homens grandes! Tambem eu nasci nesta terra, e o
sangue ainda me no esqueceu o caminho das faces.

E se ns, gerao do progresso e da philosophia, nos envergonharmos de
ser deshonestos, e dissermos:--D-se uma fatia de po ao que morre de
fome! Mais; se dissermos:--Pague-se um juro modico dos valores que nos
aproprimos?

Se o fizermos, em logar de sermos mil vezes uma cousa, cujo nome no
escreverei aqui, s-la-hemos s novecentas e noventa e nove; porque
teremos restituido a millesima parte do que loucamente havemos
desbaratado.

O homem no vive s de po. Di-lo um livro que vs nunca lestes, mas que
nem por isso tem deixado de ser por dezoito seculos o abrigo, a
doutrina, a crena e a consolao de innumeraveis milhes de individuos.

Calculastes jmais quanto  insolente, atroz, diabolico, chegar a um
velho, tomar-lhe nas mos todas as suas affeies, todos os seus habitos
de largos annos, todas as suas esperanas mais queridas, e despeda-las
e calc-las aos ps, e dizer-lhe depois:--Dar-te-hei um bocado de po?
Prometter po aos setenta annos!... Feita a quem esperava morrer
abraado com o passado; que reportava a elle o presente e o futuro; cujo
viver intimo era s de memorias, essa promessa materialista e de
escarneo bastaria para deshonrar-vos. Que nome, porm, se dar aos que
nem essa mesma cumpriram?

Quaes podiam ser as affeies de antigo monge habitador de um d'esses
mosteiros solitarios espalhados pelas provincias, e afastados do tumulto
das grandes cidades? As suas affeies existiam todas dentro dos muros
do claustro: era a cella caiada e limpa; era a enxerga do seu catre; era
a banca de pinho em que meditava e lia; era a poltrona tauxiada em que
se assentava; era a estamenha do seu habito; eram as suas sandalias de
peregrino; era a arvore da cerca, fronteira da janella, onde o rouxinol
cantava na madrugada; era o crucifixo do seu oratorio; era a lagea da
crasta, debaixo da qual dormiam seus irmos mais velhos, aquelles que
antes delle haviam seguido o caminho do Calvario, e donde pareciam
cham-lo para o seio de Deus, quando os seus passos vagarosos soavam por
cima da pedra. Nisso, e em mil cousas como estas estavam postos o seu
amor, os seus affectos, as suas saudades, os seus desejos. Era o seu
mundo esse; e a vida, serena, calada, melancholica, balouava-se-lhe
suavemente nessas affeies do retiro. Porque lhe despedaastes tudo
isto? Quanto vos renderam a enxerga, as sandalias, a lagea do sepulchro
e o crucifixo?

Pobre velho! Pobre velho!

Mas ns, acudireis, no podiamos calcular essas cousas, nem cremos em
affectos moraes. Temos cabea, mas falta-nos corao, como convm a
homens politicos. Os frades eram um elemento da sociedade antiga que
cumpria annullar. Fizemo-lo. E ento?

Ento roubastes Satanaz.

Pois Satanaz era um demente, que vos dsse palacios, carruagens,
banquetes, prostituies, embriaguez, poderio, a troco de uma alma
inteiramente morta para os affectos; que no comprehendesse nem a dor
moral, nem as harmonias suaves que ha entre o universo e o homem? Uma
alma sempre em noite, e na qual nunca penetrasse a saudade mysteriosa do
cu? De que lhe serviria para comvosco a sua terribilissima herana de
uma eternidade de tormentos?

Ah... deixae-me dizer tudo isto; porque a imagem do velho benedictino
est gravada na minha alma como um remorso; e sinto l fra a chuva que
lhe aouta as faces ardentes de febre, o tufo que lhe revolve as cs
venerandas, a torrente que lhe alaga os ps descalos. As lagrymas do
sacerdote, s, mendigo, n, esfaimado, so uma tremenda maldico
contra ns, maldico que ha de cumprir-se.

A arte moderna parece ter achado os mais poderosos meios de excitar a
compaixo e o terror: tudo quanto a arte antiga tinha pathetico e
terrivel sentimo-lo hoje frouxo e pallido. Se hoje, porm, houvesse
engenho capaz de traduzir em palavras humanas o drama horribilissimo das
ultimas agonias da vida monastica em Portugal, aquelle que lesse uma s
vez esse livro monstruoso e incrivel poderia depois, ao deitar-se,
conciliar o somno com o _Leproso de Aosta_, com o _Fausto_, com o
_Manfredo_, ou com os _ltimos dias de um sentenceado_.

Quando em 1834 se extinguiu o antigo e celebre cenobio de Sancta Cruz de
Coimbra, aconteceu ahi um facto que pde, at certo ponto, dar uma ida
das primeiras scenas do negro drama que ha oito annos comeou a passar
ante os olhos daquelles que ainda no abnegaram de todo a humanidade e o
pudor. Expulsos os cenobitas, e inventariados os bens do mosteiro pelos
commissarios desta obra brutal, quasi por toda a parte brutalmente
executada, ainda uma cella daquelle vasto edificio ficava occupada por
um dos seus antigos habitadores. Era um velho de oitenta annos, a quem o
tropego, o quasi morto dos membros embargavam o caminhar, e que por isso
no podia seguir seus irmos. Entrando no aposento, encontraram o
cenobita deitado no seu catre humilde, em cujo topo pendia o crucifixo
que, talvez por sessenta annos, tinha visto a seus ps consumir-se na
meditao, nas preces e na penitencia aquella dilatada vida. Estava s o
ancio, e o silencio que o rodeiava apenas era interrompido pelos
gorgeios de uma avesinha, que pulava contente ao sol n'uma gaiola
pendurada da abobada. O velho parecia pensativo, como se adivinhasse que
era chegada para elle a hora do martyrio.

As passadas dos que entravam moveram-no a volver os olhos: correu-os por
aquelles rostos desacostumados: depois tornou-os a abaixar. Que lhe
importavam os homens do seculo? Elle no os conhecia.

Disseram-lhe ento que era necessario sair d'alli.

Porque?--perguntou o cenobita.

Porque os frades acabaram:--replicou o mais eloquente e discreto dos
verdugos, como se exprimisse a ida mais simples e trivial deste mundo.

Porque os frades...: repetiu em voz baixa o velho, sem concluir. Os
labios no podiam levantar de cima do corao o resto daquella phrase
monstruosa: ella lh'o havia esmagado.

Um sorriso estupido passou pelas faces estupidas de alguns dos
circumstantes. No gesto espantado do cenobita liam elles a grandeza do
esforo com que associavam o proprio nome  obra prima do seculo.

E com razo. O triturar assim um corao de oitenta annos era feito que
excedia em heroicidade todos os que haviam practicado dous cavalleiros
portugueses, que, l embaixo na igreja, continuavam a dormir nos seus
leitos de pedra um somno de muitos seculos, e que se chamavam Affonso
Henriques e Sancho Adefonsades.

Os olhos do ancio ficaram enxutos. S accrescentou:--Mas para onde hei
de eu ir?

Para casa dos vossos parentes:--acudiu o philosopho.

O cenobita correu a mo pela fronte calva, e respondeu:--J no tenho
parentes na terra: todos me esperam no cu.

Ento ireis para a de algum amigo.

O unico amigo meu que ainda vive  aquelle!

E apontava para a avesinha.

O frade ir pois morar na gaiola do pintasilgo:--rosnou por entre os
dentes um dos algozes, que tinha fama de gracioso. No quiz, porm,
communicar aos outros tal ida. Tudo estouraria de riso.

Alguem, que estudava ahi perto esta scena de progresso moral, no pde,
todavia, continuar os seus graves e terriveis estudos. Precisava de ar,
de luz, de ver o cu. Atravessou ligeiro o longo dormitorio, e desceu a
quatro e quatro os degraus das extensas escadarias. As lagrymas
rebentavam-lhe como punhos.

 portaria de Santa Cruz as primeiras palavras que ouviu foram, que a
municipalidade acabava de fazer um calvario no fundo de uma petio,
escripta em vascono por certo doutor affamado, na qual pedia ao governo
lhe atirasse aquelle osso do mosteiro de sete seculos, para o roer at
os fundamentos, e construir no sitio d'elle, no me lembra ao certo se
um espogeiro, se uma sentina.

Era o estudo do progresso artistico aps o estudo do progresso moral.

Quantos destes factos dolorosos se passaram naquella epoclha por todos
os ngulos de Portugal! Poderia contar-vos mil, e cada um delles fora
uma nova scena de agonia. Os martyres primitivos morriam nos eculeos,
nas garras das feras, nos leitos de fogo; no eram, porm, condemnados a
assentar-se em cima das runas de todos os seus affectos, clamando ao
Senhor durante annos: _Erue me! Erue me!_

Fizestes uma cousa absurda e impossvel: deixastes na terra cadaveres
vivos, e assassinastes os espiritos.

Ao menos que esses cadaveres no sintam traspass-los o vento que
sibilla nas saras, a chuva que alaga as campinas, o frio que entorpece
as plantas e os membros dos animaes.

Po para a velhice desgraada! Po para metade dos nossos sabios, dos
nossos homens virtuosos, do nosso sacerdocio! Po para os que foram
victimas das crenas, minhas, vossas, do seculo, e que morrem de fome e
de frio!

Cumpri aos menos a vossa brutal promessa. Podem n'essas almas ser
profundas as trevas, e todavia respeitardes as regras mais triviaes de
uma probidade vulgar.

Seno, que os pobres monges inclinem resignados a fronte na cruz do seu
martyrio, e alevantem uma orao fervorosa ao Senhor para que perdoe aos
algozes, que nella os pregaram.  este o exemplo que na terra lhes
deixou o Nazareno.

Mas que se lembrem os poderosos do mundo de que a orao de Jesus na
hora suprema da agonia foi desattendida do Eterno. E comtudo, Jesus era
o seu Christo.

Que olhem para essa nao que fluctua ha dezoito seculos no pgo da sua
infamia, maldicta de Deus, e apupada pelo genero-humano, sem nunca poder
submergir-se nos abysmos do passado e do esquecimento.

Que se lembrem do proprio nome, do nome de seus filhos, de que ha
justia no cu, e na terra a posteridade.

Se nos seus coraes restam vestigios de crenas humanas, que meditem
uma hora, um minuto, um instante nisso tudo. Das profundezas de tal
meditar surgir uma ida, que lhes far manar da fronte o suor frio da
morte; porque ser uma ida tenebrosa e terribilissima.




                             *DA INSTITUIO

                                    DAS

                            CAIXAS ECONOMICAS

                                   1844*




                                     I


A origem das caixas economicas, embora imperfeitamente organisadas, como
todas as instituies nos seus comeos, remonta apenas aos fins do
seculo passado, e a Allemanha e a Suissa foram os primeiros paizes que
as viram nascer. Hamburgo possuia uma em 1787, e a de Berna, instituida
s para os creados de servir, appareceu em 1789. Seguiram-se poucos
annos depois a do ducado de Oldemburgo e a de Genebra. Todas as demais,
nestes e n'outros paizes, foram fundadas posteriormente, e pertencem ao
presente seculo. Em Inglaterra, dizem alguns que a ida das caixas
economicas occorrera primeiramente ao celebre Wilberforce; mas os
vestigios dellas que ahi se apontam anteriores a 1810 so de natureza
duvidosa ou apenas tentativas obscuras. Data daquella epocha o _banco de
poupanas_ (_saving's bank_) de Ruthwel, fundado por Duncan, e que foi o
primeiro que se constituiu naquelle paiz com estatutos publicos e
regulares. Os seus prosperos resultados foram poderoso incentivo para a
diffuso das caixas economicas. Dentro de sete annos contavam-se no
Reino-unido perto de oitenta estabelecimentes analogos, e em 1833 quasi
quinhentos, onde 470:000 individuos, pouco mais ou menos, tinham
depositado a enorme somma de quasi 16 milhes de libras esterlinas, ou
acima de 160 milhes de cruzados, subindo nos quatro annos immediatos o
numero dos depositarios a 636:000 e o valor dos depositos a 20 milhes
de libras ou mais de 200 milhes de cruzados. Ao passo que estes
beneficos institutos cresciam e se multiplicavam na Gran-Bretanha,
generalisavam-se e prosperavam tambem no meio das naes continentaes.
Em 1838 o numero das caixas economicas subia na Allemanha a 257, e na
Suissa a 100. A Frana, onde s foram introduzidas em 1818, conta
actualmente (1844) perto de 300, e na Italia quasi no ha cidade que no
possua estabelecimentos desta especie.  porfia, os governos e os povos
tem concorrido para arraigar uma instituio, cuja ida fundamental ,
talvez mais que nenhuma, civilisadora e moral. Como todas as cousas
verdadeiramente grandes e uteis, as caixas economicas no tem encontrado
uma unica parcialidade politica, uma unica eschola que ouse
condemn-las, uma s crena religiosa que as repudie. As monarchias
absolutas, os governos parlamentares, as republicas acceitam-nas,
promovem-nas. Ao passo que o ministro protestante as aconselha como
poderoso instrumento de morigerao e de ventura para o povo, o papa
sanctifica esta formosa instituio, abenoando-a e propagando-a nos
estados da igreja. Progresso verdadeiro, nascido no meio da terrivel
lucta de idas, de paixes e de interesses em que ha meio seculo se
debate a Europa, as caixas economicas no tem custado  humanidade nem
lagrymas, nem sangue. Evidentemente uteis por sua natureza; provadas
taes pelos principios em que se estribam e pelos seus esplendidos
resultados; simples no seu mechanismo, por toda a parte aquelles a quem
os seus beneficios so especialmente destinados, os homens do povo,
tem-nas comprehendido e abraado. Simplicidade, clareza, utilidade
reconhecida so as principaes condies de todo e qualquer pensamento
social que tenda a popularisar-se. As caixas economicas ostentam no mais
subido grau estes caracteres de todas as instituies que devem vir a
encarnar-se na sociedade e a viver a larga e robusta vida das naes, a
vida dos muitos seculos.

Este consenso unanime, no de paizes ignorantes, mas dos que esto na
dianteira da civilisao, e ahi, no de uma classe de individuos, mas de
homens de todas as jerarchias; tal consenso, dizemos,  o julgamento
mais completo, o testemunho mais irrefragavel da utilidade nunca
desmentida das caixas economicas. Onde quer que ellas appareceram, a
moralidade das classes inferiores e pobres melhorou em breve, e a
miseria, perspectiva permanente que o jornaleiro e o assalariado tem
diante dos olhos para o ultimo quartel da existencia, deixou de ser para
elles uma fatalidade ineluctavel. A sobriedade; a poupana, as virtudes,
em summa, de homem do povo deixaram de ser van precauo contra o seu
negro porvir de mendicante velhice.

A familia, sobretudo, essa imagem da sociedade e sua origem, que para o
obreiro, s vezes escaamente retribuido, , no raro, flagello e
maldico, pde deixar de ser desgraa, ao menos para aquelle a quem ou
viva crena religiosa, ou a natural bondade da indole induzem a preferir
 satisfao de vicios ignobeis o proprio bem estar futuro e o bem estar
de seus filhos.

Que , pois, a caixa economica, essa arvore que produz taes fructos de
beno?  a cousa mais conhecida e trivial.  o mealheiro;  esse velho
alvitre de poupados que desde pequeninos todos ns temos visto usar aos
pouco opulentos, e que nossos paes e avs j conheceram;  a astucia do
pobre para fugir a superfluidades tentadoras ( longa a lista das
superfluidades do pobre: encerra quasi todo o necessario do rico) e 
custa dellas achar em si proprio soccorro nos dias de inactividade
forada, da carestia ou da enfermidade.  o mealheiro, mas o mealheiro
tornado productivo, fecundado pela intelligencia e pelo principio de
associao:  uma grandiosa, e por isso singela, inveno do senso
commum, que durante muitas eras ficou, por assim dizer, no estado de
sementinha perdida, at que a luz do progresso e da civilisao a fez
rebentar, crescer, bracejar, florir e gerar fructos preciosos, que della
colhem em abundancia as sociedades modernas.

A este baptismo de regenerao, que, bem como ao do evangelho, so
principalmente chamados os pequenos e humildes, s tarde ns
concorremos. No que ignorassemos a sua existencia, mas por essa especie
de destino mau que nos arrasta aps novidades de pouca monta ou
contrarias  razo, ao passo que desprezamos o que nas instituies
estranhas ha conforme com os nossos costumes ou accommodado s nossas
precises reaes. Debalde um dos primeiros economistas portugueses[2]
props ha annos na camara dos deputados a creao das caixas economicas,
offerecendo a lei que as devia regular, e mostrando as suas vantagens
n'um largo relatorio, onde  vasta sciencia se ajuncta a eloquencia que
vem da convico profunda. Entretidos com theorias, ou com interesses de
partidos ou de pessoas, os homens politicos lanaram no esquecimento as
boas e sinceras diligencias do deputado que desempenhava uma das mais
graves obrigaes do seu mandato. At hoje nada fizeram a semelhante
respeito aquelles a quem mais que a ninguem isso incumbia; e se a
existencia da primeira caixa economica portuguesa se realisou, deve-se o
facto a uma associao particular[3].

 sabido que, por via de regra, as caixas economicas so uma especie de
deposito, onde qualquer individuo pde ir ajunctando lentamente e em
quantias pequenas ou grandes as sobras da sua receita, salvas das
despesas necessarias  vida;--que, em vez de ficarem inertes as sommas
alli depositadas, comeam logo a produzir juro, o qual, passado um anno,
se converte em capital e se accumula ao capital primitivo para com elle
produzir novos juros;--que esta accumulao, bem como a formao do
capital primitivo,  perfeitamente indeterminada e sem accepo nem
excepo de tempos e de quantias, uma vez que no sejam estas inferiores
ao diminuto minimo de cem ris;--que o depositante pde quando lhe
aprouver levantar o juro ou o principal no todo ou em parte, ou
transmitti-lo por testamento ou por successo a seus herdeiros ou
legatarios;--que, finalmente, o homem laborioso e poupado tem alli as
suas economias seguras pelas garantias positivas que lhe presta uma
associao poderosa e respeitavel, em vez de as conservar improductivas
e arriscadas no mealheiro domestico, ao qual, suppondo-lhe a indole
previdente e poupada que tantas vezes falta ao operario e, em geral, a
todos os que vivem de pequenos lucros eventuaes, teria necessariamente
de recorrer.

Com razo se tem apontado, diz De Gerando, a utilidade moral que esta
instituio produz, favorecendo as inclinaes para o arranjo e
economia. Ella  propicia s virtudes que se ligam com essas
inclinaes, ou que d'ahi nascem. Excita ao trabalho; habitua o homem
laborioso a cogitar; ajuda a desenvolver os affectos domesticos;
concorre para multiplicar tanto os estabelecimentos industriaes como as
familias, proporcionando meios de formar e conservar o cabedal
necessario para abrir uma officina ou ajunctar um dote para casamento;
ensina ao pouco abastado como em si proprio pde achar recursos e como
se pde remir na miseria, na doena e na velhice. As caixas economicas,
ao passo que diminuem o numero dos indigentes, concorrem tambem para
nobilitar o caracter do homem pobre e para lhe dar aquella honrada
altivez que nasce da maior independencia. Aos que vivem na estreiteza
faz-lhes saber quanto  grato o sentimento da propriedade,
estabelecendo-lhes uma que  real e que, apesar de modica, fructifica e
se perpetua. Alm disso, so proveitosas em subido grau  sociedade,
porque so conjunctamente symptoma e instrumento da quietao publica.

Veio o successo justificar as previses do illustre moralista. Tem-se
observado em Frana e em em Inglaterra, que no ha individuo que tenha
feito depositos nas caixas economicas que fosse accusado nunca perante
os tribunaes, ao passo que as listas de criminosos feitas em diversas
epochas provam que as tres quartas partes dos individuos sentenceados
eram pessoas inclinadas ao jogo, s loterias, ou a bebidas espirituosas.

Os factos citados pelo virtuoso De Gerando so, de feito, as
consequencias forosas da ida fundamental das caixas economicas. Das
classes populares saem, no s absolutamente, mas tambem relativamente,
a maior parte dos criminosos. Tem-se attribuido isto  falta de educao
nessas classes: sob certo aspecto e at certo ponto a causa 
verdadeira; no , porm, a unica, nem a principal. Se indagamos quaes
foram os primeiros passos dos mais celebres malvados, achamos que
partiram dos simples roubos at chegarem  maxima ferocidade no crime.
Poucos entre os assassinos famosos escreveram logo com sangue as paginas
maldictas da historia da sua existncia. Na estatistica da criminalidade
popular predomina o roubo:  cousa trivialmente sabida, como o  que a
miseria das classes laboriosas produz principalmente esse facto. Mas o
que a sociedade parece ignorar ou esquecer  que ella  a culpada de que
a pobreza do humilde se converta facilmente em miseria; miseria extrema,
desesperada, terrivel; miseria que impelle quasi foradamente pela
estrada da immoralidade o homem do povo, para quem os legisladores ha
muito inventaram as masmorras, os desterros, os supplicios, em vez de
alevantarem barreiras moraes que lhe obstem a precipitar-se no abysmo.

Para o individuo sem propriedade, para o obreiro, o artifice, o creado
de servir; para aquelle, emfim, que s tem por capital os proprios
braos, e cuja renda  apenas um salario contingente, a imprevidencia e
o habito de procurar cada dia os meios de viver esse dia nascem
naturalmente da sua situao precaria. Nada espera no futuro, e por isso
nada teme delle: probabilidades, contingencias, no as calcula nem
previne. Assim, vemo-lo acceitar com facilidade os encargos de pae de
familia. Satisfez o appetite momentaneo; que importa o futuro quelle
para quem isso no existe?

Depois vem os filhos, vem a doena, vem a falta de trabalho: as
affeies domesticas enraizaram-se no corao do desgraado. A natureza,
a religio, os costumes, tudo lhe diz que esses entes que gerou, que
essa mulher a quem se prendeu devem achar nelle o seu abrigo, a sua
providencia. Ao passo que a m organisao da sociedade o inhabilita
absolutamente para em certos casos poder supprir os seus, a mesma
sociedade lhe diz, e diz bem, que nunca os deve abandonar. Desta ordem
de cousas, falsa, violenta, contradictoria, resulta que as mais leves
tendencias para o crime se excitam e dilatam at chegarem a produzir
tristes fructos, cujo desenvolvimento a sociedade cr impedir com as
algemas, carceres, grilhetas, desterros e patibulos, emquanto ella
propria, com o seu desprezo pelas classes pobres, com a falta absoluta
de instituies verdadeiramente moralisadoras e beneficas, alimenta a
arvore mortifera que produz as aces criminosas.


                                     II


As caixas economicas so o primeiro e agigantado passo para a soluo do
problema que as leis ainda no tentaram resolver: as caixas economicas
so o contraste, a negao do patibulo. Matam a perverso popular nas
suas causas, em vez de a punir nos seus effeitos. Criam o futuro para
milhares de individuos que nunca imaginaram t-lo, creando-lhes o goso
da propriedade, e nesta um recurso para a hora da afflico e escaceza,
to proxima, entre as almas vulgares, da hora do crime. O facto de no
apparecer o nome de um unico depositante das caixas economicas nas
listas dos sentenceados em Frana e em Inglaterra  a consequencia
natural dos principios em que esta instituio se estriba.

A sua influencia moral vai ainda mais longe. Os vicios so, depois da
miseria, a origem de frequentes attentados. O jogo e a embriaguez esto
por toda a parte mais ou menos nos habitos do povo: a embriaguez,
sobretudo,  para o maior numero de jornaleiros como refrigerio, como
prazer licito nos dias de repouso. Quem, todavia, ignora que estes dous
vicios so quasi sempre a causa de rixas entre os operarios, de
desordens domesticas, e de se aggravar cada vez mais a miseria das
classes laboriosas? As caixas economicas guerreiam, geralmente com
vantagem, a propenso para as bebidas fermentadas e para o jogo.
Inimigas da penalidade feroz e sanguinaria que ainda governa a Europa,
no o so menos da taberna, que muitas vezes  a porta fatal por onde o
homem de trabalho enceta o caminho que tantas vezes o conduz s gals,
ao desterro e, at,  morte.

Mas, dir-se-ha, como podem as caixas economicas desarreigar os vicios
inveterados do povo? Como correr este a depositar nos escriptorios das
caixas a exigua quantia que ia applicar  embriaguez e ao jogo? A esta
pergunta responde a experiencia dos paizes onde esta especie de
depositos esto instituidos e vulgarisados ha certo numero de annos. A
principio a concorrencia era diminuta e lenta; mas cresceu gradualmente,
e vai tomando hoje um incremento que passa alm de todas as previses
dos amigos da humanidade.

Entre ns mesmos ha um triste exemplo de como o povo, quando descortina
ainda a mais duvidosa perspectiva de melhorar a sua condio, d de
barato o satisfazer os outros appetites para correr aps essa incerta
esperana. So as loterias o exemplo:  exemplo essa deploravel inveno
de especular com a cubia e com o desejo ardente que as classes menos
abastadas tem de conquistarem, seja como for, fortuna independente.

 de ver a ancia, diriamos quasi o delirio, com que o vulgo concorre a
lanar no sorvedouro das loterias quantos reaes lhe sobram do que lhe
cumpre gastar nas mais estrictas precises da vida. Muitos ha que at
cortam pelo necessario a si e  famlia para o irem dar a devorar 
loteria, a essa fatal banca de jogo em que se joga  luz do dia, no meio
da praa publica, embora haja a certeza de _que a grandissima maioria
dos que apontam ho de forosamente perder_; circumstancia que
caracterisa esta instituio _publica_ de modo, que, se fosse uma
especulao particular, os tribunaes puniriam severamente o especulador.
Mas o facto demonstra que, apenas clareia algum tanto o negro horisonte
do porvir; apenas l reluz uma esperana tenue, improvavel at, a de um
premio avultado, o povo corre para essa esperana; porque antev as
dolorosas consequencias da sua precaria situao e busca esquivar-se a
ellas.

 para tornar proficua e moral esta previso que se instituiram as
caixas economicas. Fazendo convergir para si as sobras escaas dos pouco
abastados, as quaes alis se desbaratariam provavelmente em vergonhosos
deleites, ou no que vale quasi o mesmo, na loteria, ellas no apresentam
esses engodos fementidos, essas promessas mentirosas com que se desperta
a cubia popular; no promettem mil por dez com a condio de, em cem
casos, perderem-se noventa e nove vezes os dez e no se obterem os mil.
No! As caixas economicas offerecem unicamente um juro modico, mas
constante, e alm disso a certeza de rehaver o depositante o seu
capital, augmentado com o juro, no momento em que delle carea:
offerecem uma cousa simples, clara, possivel: no promettem milagres,
nem sequer maravilhas; porque o maravilhoso muitas vezes, e o milagroso
sempre, nas cousas humanas, so a caracteristica do charlatanismo.

Como os descobridores de thesouros encantados, como os viciosos de
loterias, como os alchimistas, os que desenvolveram e applicaram o
pensamento desta instituio calcularam tambem com a insaciabilidade da
cubia humana; com a cubia que pde estar dormente ou subjugada por
outros affectos, mas que existe em todos os coraes. O primeiro
sentimento que deve levar o obreiro, o familiar, o caixeiro, o artifice
a ir entregar na caixa economica alguns tostes que forrou do producto
do seu trabalho ser a ida de que viro de futuro as occasies da
enfermidade, da falta de occupao ou de outro qualquer contratempo, e a
reflexo de que, reservando os sobejos de hoje para as faltas de amanh
, sem questo, mais judicioso accumul-los no mealheiro seguro e
publico, onde no corre uma hora, um minuto, em que a somma poupada no
produza seu lucro, e em que este lucro no se esteja transformando em
capital productivo, do que mett-los no mealheiro particular, que pde
ser roubado, e onde, no momento da preciso, nem mais um ceitil se
achar daquillo que ahi se metteu.  este o sentimento que, no povo,
suscita desde logo a caixa economica, e conforme a experiencia de todos
os paizes, basta elle para angariar extraordinario numero de
depositantes. Ha, porm, um perigo: quando algum destes tiver accumulado
certa quantia que repute sufficiente para occorrer a qualquer apuro
inesperado, os costumes viciosos e desordenados que o temor do futuro e
a esperana de remedio domaram, ho de provavelmente melhorar-se nessa
lucta entre o bem e o mal, e o homem de trabalho voltar aos habitos de
desleixo e dissipao que lhe absorviam as suas sobras, e que lh'as
tornaro a absorver de novo, e quem sabe se, at, as proprias economias
que fizera. Obviamente o perigo  real e grandissimo: ha, todavia, no
corao humano tambem a avareza; ha essa paixo, que, ao contrario das
outras, augmenta com a posse, radica-se com a idade, arde violenta ainda
na penumbra fria do sepulchro. Na instituio das caixas economicas,
contou-se com ella. Inveno que toca as raias do sublime  o aproveitar
uma paixo m e ignobil para fazer o bem; tornar instrumento da moral e
da civilisao a mais indomavel, a pessima entre as nossas propenses.
Perigosa, destructiva, anti-social no rico, ella ser til ao pobre,
que, sem deshonra, a pde alimentar onde quer que existirem as caixas
economicas. E  o que deve succeder e succede. O creado, o jornaleiro, o
artifice que insensivelmente se achou transformado em pequeno
capitalista e que v, com o decurso do tempo, engrossar os tostes em
cruzados, os cruzados em moedas, comea a amar o seu peculio e a fazer
sacrificios para o augmentar: esta ida entranha-se no seu espirito, e
no tarda a vir o exame severo das superfluidades e o crte em todas
ellas. E fazem-no desafogadamente, porque sabem que no dia ou no
instante em que o excesso da poupana os conduza a algum apuro, -lhes
licito ir levantar no todo ou em parte o juro ou o capital que possuem:
e se tal aperto se no der, tem a certeza de que, quanto mais depressa
ajunctarem um peculio de certo vulto, mais depressa realisaro o sonho
constante da maioria dos individuos collocados na precaria situao de
assalariados, a existencia independente. Um abrir a loja de retalho,
outro a officina de pequena industria: este ir plantar a vinha no
outeiro escalvado; aquelle arrotear o cho baldio na planicie. Cada qual
seguir a senda que a sua inclinao lhe indicar, mas todos pensaro s
n'uma cousa, a independencia; a independencia que nasce da propriedade,
e que  o mais fertil elemento da moral, da paz e da prosperidade
publica.

As consideraes que temos feito so geraes; applcam-se a todos os
paizes, porque assentam sobre a indole dos affectos humanos, e sobre
circumstancias mais ou menos communs nas sociedades modernas. Se, porm,
ha nao cujo estado social, cujas tendencias entre as classes
inferiores assegurem s caixas economicas, mais que nenhuma outra, uma
aco poderosa em melhorar a condio dessas mesmas classes, essa nao
 a nossa.

Em Inglaterra e em Frana as caixas economicas, apesar das suas
grandissimas e innegaveis vantagens, tem apresentado alguns
inconvenientes: tal  o de servirem para especulaes de gente rica,
que, na falta de applicaes para os seus cabedaes, alli os vo
depositar com os juros compostos que delles devem auferir, sem correrem
riscos e sem se onerarem com as despesas de administrao. Procurou-se
em muitas partes remover este inconveniente, estabelecendo maximos para
as entradas e para o total dos depositos de cada individuo; mas esta
providencia nem  geral, nem impede que a frequencia das entradas supra
a modicidade dellas, e que repartindo uma quantia avultada por diversos
membros da propria familia, e fazendo todos estes ao mesmo tempo
pequenos depositos em diversas caixas, o abastado venha a abusar de uma
instituio cujo fim no , de certo, locuplet-lo.

Entre ns no existe e difficilmente existir semelhante perigo.
Portugal  um dos paizes da Europa, onde, graas  nossa antiga
organisao social e  natureza e condies das nossas industrias, as
fortunas so por via de regra mediocres, a propriedade territorial mui
dividida nas provincias mais populosas, e por consequencia os capitaes
raros e os grandes capitaes rarissimos. Fallecem elles s applicaes,
no as applicaes a elles. Se a essa limitada fora de capitaes que
possuimos faltasse o minotauro que os devora quasi todos, a agiotagem,
quasi sempre infecunda, com o governo e com os particulares, ainda
restavam as necessidades das industrias fabril e agricola, s quaes por
muitos annos no bastaro os que existem, sem que receiemos sirvam para
perverter uma instituio quasi exclusivamente destinada s classes
laboriosas e menos abastadas.

Tem-se ponderado que a aco benefica das caixas economicas  impotente
contra a miseria do maximo numero de obreiros, isto , contra a miseria
de quasi todos os que pertencem  industria fabril. Nos paizes onde as
grandes fabricas so a principal frma, o mais commum systema da
industria, essa observao  infelizmente verdadeira. O aperfeioamento
das machinas, a concorrencia dos productos nos mercados, a desproporo
entre o fabrico e o consumo tem feito descer os salarios a ponto que
toda e qualquer economia  impossivel para o operario, que ganha
exactamente s o preciso para no morrer de fome. Depois, nos grandes
focos de industria fabril, principalmente na Gran-Bretanha, a depravao
dos costumes  to profunda, que, ainda quando a economia no fora
materialmente impossvel, s-lo-hia moralmente. Ahi, portanto, as caixas
economicas, so, sem duvida, insufficientes para libertar o povo da
miseria e da corrupo.


                                    III


Quando a organisao de um paiz  viciosa e contrafeita; quando e onde a
propriedade est mal e, digamos at, monstruosamente dividida: onde o
capital anda em guerra viva com o trabalho; onde a condio do obreiro 
relativamente peior que a do servo da idade media, a caixa economica de
certo no pde remediar os effeitos desta situao absurda. Os
districtos ruraes da Inglaterra, nomeiadamente os da Irlanda, so
victimas de uma constituio da propriedade territorial em que ainda
est viva a conquista dos normandos, e nas cidades manufactoras o
excesso dos aperfeioamentos mechanicos tem gerado o excesso de miseria
dos proletarios. Para estes, que pelas fluctuaes do commercio externo,
tem repetidas vezes largas ferias de trabalho, e se vem forados a ir
receber a esmola dos soccorros parochiaes; para estes, a quem
frequentemente faltam os objectos de primeira necessidade, a caixa
economica  como se no existisse. Em tal situao recommendar ao
obreiro a economia e a previso fora cruel escarneo.

Mas que ha entre ns que tenha semelhana com tal estado de cousas? As
nossas fabricas so poucas e acham-se ainda longe dos grandes
aperfeioamentos. Por outra parte, no havendo superabundancia de
braos, os salarios so razoaveis. N'uma nao essencialmente agricola a
industria manufactora difficilmente preponderar sobre a agricultura. Do
modo como a propriedade est constituida, sendo avultadissimo o numero
dos proprietarios ruraes, e predominando a pequena cultura pela grande
diviso do solo, essa preponderancia  e ser por muito tempo
impossivel. A supremacia industrial dos ingleses devem-na estes, talvez
quasi exclusivamente, a que na Gran-Bretanha a terra, por assim dizer,
foge debaixo dos ps ao homem de trabalho. Paiz classico dos
latifundios, os possuidores de vastos predios, ou os seus opulentos
rendeiros obtem facilmente simplificar as operaes da cultura com
engenhosos e potentes machinismos, dispensando assim um grandissimo
numero de braos, que vo augmentar a offerta dos que a industria fabril
utilisa. Essa, forcejando igualmente para os substituir pelas machinas,
ao que a obrigam as luctas interminaveis da concorrencia, acceita-os,
acceita-os sempre, mas com a condio inevitavel do abaixamento
indefinido do salario. Em Inglaterra a agricultura, adiantadissima em
extenso, em intensidade, em instrumentos, e em copia de capital movel,
est restricta a operar dentro dos limites do solo cultivado. O
principal instrumento de produco, a terra aravel, no pde
multiplicar-se. Quando a machina ou um novo systema agricola expulsa o
operario rural, expulsa-o para dentro das barreiras da industria fabril.
Para esta, ao contrario, o espao onde labora  um dos menos importantes
elementos da sua existencia. Para produzir indefinidamente, s carece de
uma condio essencial;  a que a faz triumphar da industria das naes
rivaes, a do preo inferior ao do producto alheio com igual valor da
utilidade. A machina, ou aperfeioada ou nova, e a reduco dos
salarios, ou o augmento de horas de trabalho, o que  perfeitamente
identico, so os seus meios heroicos. No lhe importa se o instrumento
homem se quebra, porque o renovar sem custo no meio das multides
famintas. Vive de produzir barato, e os seus obreiros ho de viver de se
afadigarem em procura da morte. Cumpre que a industria inglesa triumphe
na batalha incessante que se peleja entre as naes industriaes, batalha
onde se no v o fuzilar da espingardaria, nem se ouve o troar dos
canhes, mas descortina-se o revolutear do fumo das chamins monstruosas
e soa o murmurar confuso da machina e do homem que lidam: terrivel
batalha, onde no corre sangue, mas corre o suor do trabalho, e depois o
suor da agonia.

D'esta situao, exteriormente esplendida e interiormente violenta e
dolorosa, estamos ns bem longe. No receiamos dizer que em Portugal
ser raro o operario vlido que por meio de severa e intelligente
economia no possa depositar annualmente na caixa economica alguns
cruzados, ou para occorrer a desgraa imprevista, ou para crear um meio
de subsistencia na velhice, ou finalmente para adquirir a independencia
de proprietario. Com o modo de ser da populao portuguesa, pde-se
prever que, diffundindo-se pelo reino as caixas economicas, a
estatistica destas ser bem differente da estatistica das de Inglaterra,
e ainda das de Frana. Nestes dous paizes apenas a quarta parte das
quantias depositadas pertence aos operarios, e a classe que predomina
como credora dellas  a dos creados domesticos. Entre ns a proporo
tem de vir a ser diversa. Os donos de pequenos predios, os seareiros, os
creados de lavoura, os operarios, no s de officinas, mas tambem de
fabricas, ho de provavelmente predominar. E se assim acontecer,
poderemos affirmar que a nao progride largamente no caminho da
civilisao material e moral.

Algum achar, talvez, que estas sinceras esperanas na futura
regenerao economica do nosso povo so contradictas pelo facto da
perfeita analogia que se d entre a Frana e a Inglaterra, em serem
tanto n'um como n'outro paiz as mesmas classes as dos depositantes nas
caixas economicas. Na Frana, dir-se-ha, a diviso da propriedade 
facilitada at o ultimo ponto pelas leis, e o numero dos pequenos
proprietarios  proporcionalmente maior que em Portugal: a agricultura
tambm l predomina sobre a industria fabril; finalmente a situao do
rendeiro e do trabalhador rural  mais semelhante  dos nossos que  dos
de Inglaterra. Como, pois, no do as caixas economicas na Franca
resultados estatisticos diversos dos que subministram os _saving's
banks_ ingleses? No se deve concluir d'ahi que no tem a influencia que
se lhes attribue, e vice-versa, que no seu progresso ou na sua
decadencia no influe nem a situao relativa das classes sociaes, nem o
estado da propriedade?

No. A analogia dos dous paizes na desproporo, contraria  ordem
natural das cousas, entre os operarios e as outras profisses, em
relao aos depositos nas caixas economicas, tem causas em parte
semelhantes, em parte diversas, mas iguaes nos resultados. As fabricas
francesas seguem o rapido progresso das inglesas, e nos grandes centros
industriaes da Frana notam-se j em larga escala a miseria e a
dissoluo das cidades manufactoras da Gran-Bretanha. Lille, Mulhouse,
Rheims, Ruo, reproduzem o triste quadro de perverso que apresentam as
classes laboriosas em Manchester, Birmingham, Leeds, Glasgow, etc. A
pobreza extrema, sem esperana e sem limites, j ahi golfa tambem das
caldeiras de vapor. A industria individual tende rapidamente a
converter-se na industria, digamos assim, collectiva. A officina
desapparece diante da fabrica, o homem diante da machina. A questo de
saber se isto , em absoluto, um mal ou um bem, relativamente aos
interesses geraes de qualquer paiz, no a ventilaremos aqui; mas 
indubitavel que esse transtorno completo na forma do trabalho torna
altamente angustiosa a situao dos operarios, e inhabilita-os para
depositarem nas caixas economicas sobras de salarios diminutos e
frequentes vezes interrompidos.

Por outra parte, o modo de ser dos bens de raiz em Frana  exactamente
o contrario da indole da propriedade territorial em Inglaterra. O solo
ingls , por assim dizer, um grande vinculo aristocratico; a Frana um
vasto allodio popular. A terra neste paiz est retalhada em cento e
vinte e cinco milhes de chos ou courellas e tende a subdivir-se ainda
mais. Do-se casos j em que o preo da venda de uma parcella de terreno
pouco excede o total das despesas necessrias para legalisar a
transmisso. Muitos homens pensadores comeam a ter serios receios de
que a extrema diviso do solo venha a impossibilitar em certas
circumstancias uma cultura remuneradora; e ainda os que julgam estes
receios infundados confessam a conveniencia de uma lei que, distinguindo
na propriedade o seu modo de ser, quando este modo de ser importa 
causa publica, do direito do individuo  mesma propriedade, consinta em
todas as divises possiveis deste direito, mas prohiba que se retalhem
indefinidamente os pequenos predios. O systema dos _quinhes_ do
Alemtejo, que tem uma razo de ser, mas que est longe de ter a
importancia que teria quando applicado s glebas de moderada grandeza,
prova que a doutrina que distingue o modo de ser da propriedade do
direito de propriedade  reduzivel  praxe. Em Frana, porm, fora
difficil entrar nesta senda que repugna a habitos inveterados da vida
civil da nao. No estado actual das cousas alli, o lavrador
proprietario ou ainda o simples rendeiro acha facilidade em empregar
immediatamente na acquisio de terras as suas economias, sem que lhe
seja necessario accumul-las por largos annos nas caixas economicas.
Quatrocentos, duzentos, cem francos que, lhe sobejem, deduzidas as
despesas de cultura e domesticas,  quanto basta; l encontra logo um
prado, uma courella, um cerradinho, que comprado e cultivado com esmero,
lhe produzir um lucro maior que o limitado juro da caixa economica:
prefere, portanto, aquelle expediente. Para elle esta bella instituio
torna-se realmente inutil.

Eis, quanto a ns, a explicao da analogia entre a Frana e a
Inglaterra pelo que respeita  proporo das diversas classes de
contribuintes das caixas economicas. A condio dos operarios fabris 
semelhante nos dous paizes. Quanto  populao rural, essa, em
Inglaterra no contribue, porque a sua situao pouco melhor  que a do
obreiro da industria, e o proprietario da pequena gleba  uma excepo
pouco vulgar; em Frana, porque  facilimo para os pequenos capitaes o
transformarem-se em propriedade territorial. Assim naturalmente
explicada, essa analogia no invalida as consideraes anteriormente
feitas.

Em Portugal o caso  diverso. Entre ns o modo mais commum de possuir a
pequena propriedade  a emphyteuse. Para o sabermos no precisamos de
estatistica: basta olhar ao redor de ns. Nas provincias do norte, pode
dizer-se, talvez, que  rara outra especie de propriedade. Sommados os
prazos, os vinculos, as vias publicas, os terrenos chamados _nullius_,
pouco faltaria para ter a medida superficial dessas provincias, e ainda
ao sul do reino so por milhares os terrenos emphyteuticos tanto ruraes
como urbanos. Os vastos allodios s predominam no Alemtejo, se  que os
vinculos lhes no levam a palma. Ora a caracteristica da emphyteuse 
ser um meio termo entre o systema de propriedade em Inglaterra, que no
passa, na essencia, de uma odiosa e anti-economica aggregao de
morgados, e aquelle systema illimitadamente parcellario da Frana, que
suscita as apprehenses dos pensadores. A emphyteuse, collocada no meio
destes dous extremos, se for simplificada e constituda de um modo
accorde com as idas e costumes das sociedades modernas, ser sempre uma
das mais sensatas e beneficas instituies civis, e os seus resultados
immensos nas crises sociaes que despontam no horisonte. Radicada nos
habitos nacionaes, parece-nos que no corre o perigo de ser abolida; mas
se alguem o tentasse e o obtivesse, faria um bem mau servio ao seu
paiz. O prazo fateusim hereditario realisa o desejo, por tantos
manifestado em Frana, de que os terrenos que por successivas divises
desceram a um limitado perimetro, passassem indivisos, sem que por isso
deixasse de ser divisivel o direito de propriedade sobre elles.

 n'um paiz assim, se nos no enganamos, que a vantagem da existencia de
caixas economicas  immensa. Em geral os prazos de certa grandeza
excedem em valor as economias annuaes que qualquer lavrador mediocre ou
seareiro pode realisar; mas estas economias, accumuladas por alguns
annos, bastaro no raro para a acquisio de um desses prazos, que
diversas causas to frequentemente attrahem ao mercado. Quem conhece os
habitos do homem do campo sabe que, poupado durante a maior parte do
anno, porque os recursos lhe no sobejam, quasi sempre desbarata uma
poro do producto do seu suor na occasio das colheitas. Pagos as
rendas, fros e impostos, reservadas as sementes, provida a sua parca
dispensa, acha-se ainda com sobras mais ou menos avultadas. Illude-se
ento por alguns dias e suppe-se rico. Quer gosar; e essas sobras, que
poderiam constituir lentamente um peculio consideravel, vo-se em luxo e
em festas, quando no no jogo, na embriaguez ou na devassido. Se
houvesse, porm, um estimulo de cubia que lhe excitasse o animo, essas
sobras assim malbaratadas converter-se-hiam em capitaes uteis, e tanto
mais uteis quanto, pertencendo ao mesmo homem de trabalho, iriam
fecundar duplicadamente a terra.

Depois, n'um paiz cuberto de baldios, para promover cuja cultura 
impossivel se no olhe seriamente quando posermos treguas  furia das
nossas paixes politicas, qual no deve ser o fructo das caixas
economicas?! Hoje, se estes baldios se offerecessem gratuitamente,
libertando de todos os impostos directos quem os cultivasse,
achar-se-hiam, provavelmente, muitos que se aproveitassem do beneficio.
Mas, quem seria? Os grandes proprietarios e lavradores e alguns dos
raros argentarios que as douras do agio no trazem captivos. Os
pequenos cultivadores, os rendeiros, os seareiros, aquelles, em summa,
que, mais que ninguem, importaria se convertessem em proprietarios do
solo, esses justamente  que ficariam no maximo numero excluidos,
porque, por mais diminuto que supponhamos o cabedal necessario para o
arroteamento de poucas geiras quando  o prprio dono que o faz, sempre
deve ser algum, e as classes trabalhadoras no possuem capitaes nem
grandes nem pequenos.  evidente, porm, que as caixas economicas,
estabelecidas, propagadas, favorecidas por todos aquelles que podem e
devem faz-lo, preparariam os elementos necessarios para, com verdadeira
utilidade social, se poder tomar to importante providencia.

Hoje entende-se que o melhor instrumento de moralisao e de ventura
social consiste em derramar entre o povo o desejo da independencia e o
amor da propriedade, associando por esse modo o capital ao trabalho em
vez de os conservar em mutua hostilidade, como infelizmente os vemos. Se
os modestos peculios se forem successivamente alistando no campo do
trabalho, este ha de frequentes vezes triumphar dos capitaes, embora de
maior vulto, mas combatendo isolados. Supponhamos que o rico concorre
com o homem do povo para adquirir a courella, o prazo, a pequena vinha,
o pequeno olival que se levou ao mercado. O primeiro calcula que somma
lhe ser necessaria para instrumentos, para sementes, para pagar aos
obreiros que ho de amanhar o predio, e  por este calculo e pelo lucro
comparado com o de outras applicaes do seu dinheiro, que se regula
para determinar o maximo que pode offerecer. O homem de trabalho, porm,
que tiver o sufficiente para viver at as primeiras colheitas, e
occorrer a poucas despesas prvias que no pode evitar, no compara
lucros com lucros, no conta com os obreiros. Dono e obreiro  elle;
so-no a mulher e os filhos. O lavor da familia valer o dobro do
trabalho salariado que paga o rico, e o primeiro lucro do trabalhador
proprietario ser o seu jornal e o dos seus, ganho no proprio campo. Pe
o signal de _mais_, por assim nos exprimirmos, onde o abastado pe o
signal de _menos_. Do operario rural quando trabalha no seu predio
costumam dizer os outros: _anda comsigo_, expresso admiravel de
exaco economica.  isto que explica o phenomeno geralmente observado,
de, no mercado, o valor proporcional da propriedade rustica ser na razo
inversa da respectiva grandeza. O que no sera, se o homem do campo de
humilde condio poupasse tudo quanto desbarata!

Sinceramente confessamos que o unico meio simples, exequivel, pacifico,
no de cohibir os abusos do capital pela negao das suas funces
economicas, e pela condemnao da propriedade; mas de o cohibir nos
excessos com que muitas vezes opprime o operario, consiste em habilitar
este para se transformar de proletario em modesto proprietario. O
estabelecimento e o progresso das caixas economicas  o instrumento mais
poderoso de quantos se poderiam excogitar para obter, sem offensa de
nenhuns direitos e sem convulses sociaes, to salutar resultado.

Que, pois, todos aquelles que se condoem das miserias populares: que
desejam ver augmentada a prosperidade publica, reformarem-se os
costumes, enraizar-se no animo do povo o aferro ao solo natal, protejam
por quantos modos souberem esta bella instituio. Exigem-no o
christianismo, a philosophia, a moral e a politica. Que as tres grandes
foras intellectuaes da sociedade, o sacerdocio do altar, o sacerdocio
da imprensa e o sacerdocio da eschola se liguem para esta grande obra de
civilisao. Ser trahirem a sua misso negarem-se a faz-lo; porque a
ida a cuja realisaco tendem as caixas economicas , embora ao primeiro
aspecto o no parea, um consectario do evangelho, da philosophia e da
boa politica. Essa ida  a manifestao da caridade judiciosa, porque
se encaminha a combater os vicios e a miseria, e a alargar a esphera da
liberdade humana, contribuindo para a assegurar s classes laboriosas,
tantas vezes escravas da necessidade do salario. A liberdade pode
facilmente ser theoria, pode ser doutrina proclamada na constituio de
qualquer paiz; facto, realidade, s o pode ser onde a maioria dos
cidados possuam com que serem independentes.

Que a experiencia das naes extranhas nos aproveite; que o pudor do
patriotismo nos incite. J que fomos a ultima nao da raa latina em
plantar entre ns esta instituio bemfazeja, no nos deshonremos
deixando-a logo definhar. Passariamos aos olhos do mundo attonito por
barbaros, e todos os nossos protestos de querermos o melhoramento moral
e material do paiz seriam havidos por hypocrisia insigne. Sem civilisar,
morigerar e felicitar as classes populares, todo o progresso  futil.

Dirigimos estas ponderaes especialmente  classe media e ao clero.
Naquella reside a illustrao, a riqueza e verdadeiramente o poder; nas
mos deste a preponderancia que d o predominio sobre as consciencias.
Que tanto uma como outro usem da sua influencia para attrahir o povo ao
caminho da previso, da economia e das legitimas ambies e esperanas.
No s elle, hoje rude, pobre e inclinado a vicios ignobeis, lucrar com
isso; mas tambem as classes mais elevadas ganharo na paz e ordem
publicas, que se iro firmando  proporo que as classes inferiores se
melhorarem nos costumes e na ventura domestica. Empreguemos o exemplo e
a persuaso: uns poucos de cruzados postos nas caixas economicas no
produziro, de certo, vantagens apreciaveis para o que possue uma
fortuna avultada ou ainda mediana; mas fructificaro para o povo,
gerando a confiana e despertando nelle o instincto da imitao.
Conspiremos todos para esta grande catechese; e que n'um paiz, onde o
habito da leitura ainda  limitadissimo, a persuaso oral, as relaes
de familia ou de dependencia ajudem as diligencias da imprensa nesta
obra de alta moralidade. Deus abenoar os obreiros que semeiarem e
cultivarem essa rica sementeira de regenerao na terra patria; e o
povo, com a sua futura gratido, dar testemunho da benam da
Providencia.

[Nota de rodap 2: O sr. Antonio de Oliveira Marreca.]

[Nota de rodap 3: A associao do Monte-pio geral.]




                           AS FREIRAS DE LORVO

                                  *1853*

                                    A

                        ANTONIO DE SERPA PIMENTEL




Meu amigo.--Escrevo-lhe do fundo do estreito valle de Lorvo, defronte
do mosteiro onde repousam as filhas de Sancho I; deste mosteiro
melancholico e mal-assombrado como as montanhas abruptas que o rodeiam
por todos os lados: escrevo-lhe com o corao apertado de d e repassado
de indignao. Descendo a examinar o archivo das pobres cistercienses,
penetrei no claustro por ordem da auctoridade ecclesiastica. L dentro,
nesses corredores humidos e sombrios, vi passar ao p de mim muitos
vultos, cujas faces eram pallidas, cujos cabellos eram brancos. Esses
cabellos nem todos os destingiu o decurso dos annos: a amargura
embranqueceu os mais delles. Quasi todas essas faces tem-nas
empallidecido a fome. Morrem aqui lentamente umas poucas de mulheres,
fechadas n'uma tumba de pedra e ferro. Estas mulheres ouvem de l, do
seu tumulo, o ruido do burgo apinhado na encosta fronteira, e dividido
do mosteiro apenas por um riacho. Naquellas casas de telha-van, negras,
gretadas, desaprumadas, com o aspecto miseravel da maior parte das
aldeias da Beira, vive uma populao laboriosa, que at certo ponto se
pode chamar abastada, e a que, pelo menos, no falta o po nem a
alegria. No mosteiro sumptuoso, vasto, alvejante, com um aspecto
exterior quasi indicando opulencia,  que no ha po, mas s lagrymas.
Lorvo  peior do que um carneiro onde se houvessem mettido vinte
esquifes de catalepticos, sellando-se para sempre a lagea da entrada. O
cataleptico, fechado no seu caixo, ouve, sente, tem a consciencia de
que foi sepultado vivo. Nas trevas e na immobilidade, o terror, a
desesperao, a falta de ar matam-no em breve: a sua agonia  tremenda,
mas no  longa. Aqui  outra cousa: aqui v-se, por entre as grades de
ferro, a luz do cu, a arvore que d os fructos, a seara que d o po, e
tudo isto v-se para se ter mais fome. Todos os dias uma esperana
duvidosa e fugitiva atravessa aquellas grades de envolta com os
primeiros raios do sol: todos os dias essa esperana fica sumida debaixo
das trevas que  tarde se precipitam sobre Lorvo das ladeiras do
poente. Depois as noites de insomnia; depois o choro; depois, sabe Deus
se a blasphemia!

Dez vezes que tenhamos lido o Dante, ao chegarmos  descripo da torre
de Ugolino erriam-se-nos sempre os cabellos. Mas Lorvo  uma torre de
Ugolino. A differena est em que no carcere da _Divina Comedia_ havia
um homem forte de alma e de corpo, affeito  dor e s scenas de dr:
aqui ha dezoito ou vinte mulheres na idade decadente, que se affizeram
na juventude aos commodos, aos regalos, e at ao luxo compativel com as
condies da vida monastica. L o _fiero pasto_ acabava, e depois
morria-se rapido. Aqui no: aqui ha justamente quanto basta para
prolongar por mezes e por annos o martyrio. Dir-se-hia que existe uma
providencia infernal para que no falte s freiras de Lorvo o
restrictamente indispensavel para, lento e lento, se lhes irem os
membros mirrando n'um longo expirar, debeis e senis.

Imagine, meu amigo, uma noite de inverno, no fundo desta especie de poo
perdido no meio da turba de montes que o rodeiam: imagine dezoito ou
vinte mulheres idosas, mettidas entre quatro paredes humidas e
regeladas, sem agasalho, sem lume para se aquecerem, sem po para se
alimentarem, sem energia na alma, e sem foras no corpo, comparando o
passado, sentindo o presente e antevendo o futuro. Imagine o vento que
ruge, a chuva ou a neve fustigando as poucas vidraas que ainda restam
no edificio; imagine essas orgias tempestuosas da natureza que passam
por cima das lagrymas silenciosas das pobres cistercienses, e as horas
eternas que batem na torre. Imagine tudo isto, e sentir accender-se-lhe
no animo uma indignao reconcentrada e inflexivel.

Ha poucos dias passou-se em Lorvo uma scena tremenda. N'um accesso de
desesperao, parte destas desgraadas queriam tumultuariamente romper a
clausura; queriam ir pedir po pelas cercanias. Custou muito cont-las.
Tinha-se apoderado dellas uma grande ambio; aspiravam  felicidade do
mendigo, que pde appellar para a compaixo humana; que pde fazer-se
escutar de porta em porta. Era uma vantagem enorme que obtinham. A sua
voz  demasiado fraca, e os muros de Lorvo demasiado espessos. Gemidos,
brados, prantos, tudo  devorado por esse tumulo de vivos. Ao menos,
surgiam como Lazaro da sua sepultura.

Gemidos, brados, prantos, nada disso chega aos ouvidos dos homens que
exercem o poder nesta terra; nada disso os incommoda. Entretanto, se eu
falasse com elles, dar-lhes-hia um conselho. Talvez o ouvissem, porque a
minha voz  um pouco mais forte que a das velhas freiras. Era o de
enviarem aqui sessenta soldados, formarem as monjas de Lorvo em linha
no adro da igreja e mandarem-lhes dar trs descargas cerradas.
Desapparecia, a troco de poucos arrateis de polvora, um grande
escandalo, e resolvia-se affirmativamente um problema a que nunca achei
seno solues negativas, o da utilidade da fora armada neste paiz.

Sim, isto era util, porque era atroz; porque era uma festa de cannibaes;
porque se gravava na mente dos homens; porque ficava na historia, como
um padro maldicto, para instaurar no futuro o processo desta gerao.
Mas no era infame, no era covarde; no era o assassinio lento,
obscuro, atraioado, feito com a mordaa na boca das victimas. Corria o
sangue durante alguns minutos: no corria o suor da agonia durante
annos. Era uma scena de delirio revolucionario; mas no era um capitulo
inedito para ajunctar aos annaes tenebrosos do sancto officio.

A historia recente de Lorvo  simples. Os bens acumulados naquelle
cenobio durante dez seculos tinham-no tornado demasiadamente rico. A sua
renda annual dizem que orava por mais de oitenta mil cruzados. Como
mosteiro cisterciense, Lorvo dependia dos monges brancos. Cem freiras
de que se compunha a communidade, e que viviam opulentamente, gastavam
muito, mas no gastavam tudo. Cinco frades bernardos, aposentados n'um
palacete contiguo ao mosteiro, consumiam o resto. Eram elles que
administravam as grossas rendas da casa. Os banquetes e as festas
succediam-se alli sem interrupo. Os hospedes eram continuos. O manto
da religio cobria todos os excessos da opulencia. A chronica dos
bernardos em Lorvo subministra mais de um capitulo curioso para a
historia dos _bons tempos_ que j l vo.

At aqui nada ha extranho. Mas os frades entenderam que deviam comer a
renda e o capital das cenobitas laurbanenses. Refere-se que certa vez,
no sabendo explicar plausivelmente o dispendio de uma verba de 600$000
ris, escreveram n'umas contas irrisorias que mostravam annualmente 
abbadessa: _Palitos--600$000 ris_. Pode ser fabula. O que, porm, no 
fabula  que durante muitos annos o dinheiro das decimas que o mosteiro
devia pagar esqueceu em Alcobaa, dando-se em conta como pago. Por outro
lado as _necessidades da casa_ tinham feito com que suas reverencias
empenhassem a communidade em 6:000$000 ou 8:000$000 ris. Os juros desta
divida tambm se no pagaram. Veio o anno de 1833. Desappareceram os
dizimos, principal rendimento do mosteiro. Os direitos senhoriaes
desappareceram tambem. Os frades, enxotados do seu feudo de Lorvo,
sairam d'alli, mandando primeiramente derribar todas as arvores que
povoavam aquellas encostas e vendendo as madeiras. Era o ultimo _vale_
que davam a suas irms. Ainda assim, ficava s monjas uma honesta
subsistencia. Passado, porm, apenas um anno, o fisco arrebatou-lhes
quasi tudo pela divida de 25 contos de ris de decimas, e os credores
particulares levaram-lhes depois os demais bens. Restavam-lhes apenas
alguns pequenos foros espalhados por diversos districtos, os quaes
geralmente lhes so recusados, ou cuja difficil cobrana quasi consome o
producto delles. Vacillantes entre a vida e a morte, as freiras de
Lorvo prolongam uma existencia de dr e miseria pendente das
eventualidades desse tenue rendimento. Ha um ou dous annos, o governo
deu-lhes a esmola de um subsidio: este subsidio, porm, cessou.
Ignora-se o motivo. Por ventura alguma secretaria de estado precisava de
novos estofos nas suas commodas poltronas, ou os felpudos tapetes das
salas ministeriaes tinham perdido o brilho das suas cres variegadas, e
cumpria renov-los. So despezas inevitaveis, e  necessaria a economia.
Se assim foi, respeitemos as exigencias imperiosas da dignidade
governativa. Alta noite, durante o inverno, vinte mulheres curvadas pela
inedia e pela velhice podem dirigir-se ao coro, calcando quasi descalas
as lageas humidas e frias destes claustros solitarios; mas as botas
envernizadas de suas excellencias devem ranger mollemente sobre um
pavimento suave, e as suas cabeas, afogueiadas pelas profundas
cogitaes, reclinarem-se em fofos espaldares. Todavia a magestade das
secretarias e os apices da economia no excluem a tolerancia, nem a
indulgencia. Fao essa justia ao poder. Quando a ultima freira de
Lorvo expirar de miseria, ou debaixo de alguma dessas paredes
interiores do mosteiro que ameaam desabar, os ministros soffrero com
animo paternal que mos piedosas vo lanar o cadaver da pobre monja no
ossuario de sete seculos, onde repousam as cinzas de milhares de suas
irms. Depois vendero o edificio e a cerca a algum destes judeus do
seculo XIX, a que chamamos agiotas, se algum houver a quem passe pelo
espirito ter uma casa de campo em Lorvo.

Meu amigo: se a indignao consentisse o riso, se no se tractasse de
uma questo grave e triste, eu riria do afan da imprensa em ventilar os
meios de acudir  desgraada ilha da Madeira. O remedio ha de ser o
abandono. Quando vejo a facilidade com que a sorte das freiras de
Portugal se tornaria feliz, e considero o estado de Lorvo, de Cellas, e
de tantos outros mosteiros, como hei de esperar que remedeiem um mal
cuja cura  mil vezes mais difficil?

Na secretaria da justia encontram-se as provas de que a renda dos bens
que ainda possuem os conventos do sexo feminino em Portugal excede a
200:000$000 ris, e todavia ha centenares de freiras que morrem 
mingua. So dous factos que no carecem de commentario.  a manifestao
mais eloquente de que no ha governo nesta terra. Existem mosteiros,
cujas habitadoras vivem na opulencia, e onde o superfluo se desbarata de
um modo escandaloso. No digo quaes. E para que apont-los? Aposto meia
moeda, uma moeda at, contra mil aces da companhia Hislop, que se
lembravam logo de reduzir esses mosteiros  mendicidade para fazerem com
o rendimento delles sessenta coroneis e duas secretarias de estado
novas. Antes assim como est. Defendiam-nos mais, e administravam-nos
mais. Deus nos livre disso!

 certo, porm, que para as freiras de Lorvo viverem tranquilamente os
seus ultimos dias, bastava que nos homens do poder tivesse existido um
leve instincto de equidade. Os frades de Alcobaa roubaram 25:000$000
ris a Lorvo. Eram responsaveis por elles. A sua responsabilidade
passou para o fisco seu herdeiro e successor. As decimas de Lorvo
deviam ir buscar-se aos bens de Alcobaa, logo que se provasse que
Alcobaa espoliara fraudulentamente Lorvo. Averiguou-se o facto? No. O
fisco executou as freiras, e recebeu duas vezes a mesma divida. Onde
houvesse moralidade na administrao publica practicava-se isto?

Mas porque o importuno com esta larga historia? No , meu amigo, s
para desabafo:  para lhe pedir um favor. Supponha que viu, como eu vi,
as faces enrugadas e pallidas das monjas de Lorvo, por onde as lagrymas
se penduravam quatro a quatro, emquanto vozes convulsas descreviam
scenas do longo drama de miseria de que este sepulchro de vivos tem sido
theatro durante vinte annos: supponha que olhava para estas janellas mal
reparadas, para estas paredes verdoengas, cujo aspecto produz um
sentimento inexplicavel de frio, apesar do calor da atmosphera n'um dia
de julho; para as alfaias roadas e podas; para os proprios trajos das
freiras; que lia em tudo isso, repetida por cem modos, uma palavra s:
_infortunio, infortunio, infortunio_! Que fazia? Com o seu corao, com
os seus principios, e redactor de um jornal que tem largas sympathias,
sentia-se grande e forte pondo a sua penna eloquente ao servio da
desgraa e da fraqueza. Faa-o, meu amigo; faa-o! Pea esmola para as
freiras de Lorvo, que foram ricas e felizes na mocidade, e que na
velhice tem fome. A velhice  sancta! Ponha esse contraste do passado e
do presente perante os olhos dos opulentos e ditosos, para que se
lembrem com alguns cruzados das pobres que gemem debaixo destas abobadas
escondidas no meio dos montes ladeirentos e agrestes do concelho de
Penacova. Ao governo no pea nem diga nada; deixe esses homens ao seu
destino; deixe-os estofar poltronas e dormir nellas. Deus e os vindouros
ho de julgar-nos a todos.

Se entender que esta carta de uma testemunha ocular pde servir de thema
s suas consideraes, publique-a. O homem que v o que eu vi e abafa no
peito o grito da indignao ou  um malvado ou um covarde, e eu espero
no merecer jmais nenhum desses titulos. Imprima esta carta no todo ou
em parte, se quizer; porque folgarei com isso. O que importa  ver se
obtemos despertar a compaixo publica a favor destas infelizes.

Auctorisando-o, porm, a publicar as idas que me assaltaram ao
presenciar o espectaculo atroz e repugnante que est diante de mim,
advirta que no ha nisso nem virtude, nem audacia. Incommodam-me
mediocremente as coleras de certa gente, e a malevolencia ou antes o
odio della  titulo que aprecio, porque creio que ha de honrar perante a
posteridade quem quer que o possuir, se  que este paiz no caminha
fatal e irremediavelmente  dissoluo social.




                                DO ESTADO

                                   DOS

                    ARCHIVOS ECCLESIASTICOS DO REINO

                                  E DO

                           DIREITO DO GOVERNO

                                   EM

             RELAO AOS DOCUMENTOS AINDA NELLES EXISTENTES


                          PROJECTO DE CONSULTA

                              SUBMETTIDO 

             SEGUNDA CLASSE DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS

                                 *1857*




Senhor.--Manda V. M. que a Classe de sciencias moraes, politicas e
bellas-letras da Academia Real das Sciencias de Lisboa consulte sobre as
representaes dirigidas a V. M. por diversas corporaes
ecclesiasticas, que recusara obedecer  portaria de 11 de setembro de
1857 pela qual se ordenou a entrega de certos documentos antigos
pertencentes aos cartorios dessas e d'outras corporaes, para serem
depositados no Archivo nacional da Torre de Tombo, onde tem de ser
examinados, a fim de se transcreverem aquelles que se reputarem dignos
de entrar na colleco dos Monumentos Historicos de Portugal, que esta
Classe est publicando, e que se tornou pela ultima lei do oramento uma
obra verdadeiramente nacional, visto que a sua existencia se estriba
hoje n'uma providencia legislativa.

Examinando a portaria de 11 de setembro e as representaes que ella
suscitou, a Classe no pde deixar de deplorar que um acto do poder
executivo em que s transluz o amor das letras e o patriotismo
illustrado e circumspecto do Governo de S. M. encontrasse resistencias,
s quaes se buscaram pretextos, que nem sequer tem o merito de
plausiveis, e que ao mesmo tempo envolvem affirmativas erroneas de
doutrina e de facto, que esta Classe, pertencendo a um dos primeiros
corpos scientificos do paiz, no deve deixar sem correctivo, at porque
foi ella, no s quem sollicitou a transferencia d'aquelles documentos,
mas tambm quem aconselhou a sua conservao no Archivo geral do reino,
circumstancia esta que, diante de inexplicaveis resistencias, a foram,
bem contra sua vontade, a dar as razes que a moveram a suggerir esse
ultimo arbitrio ao Governo de V. M.

Dos papeis transmittidos  Classe por soberana resoluo de V. M.,
comparados com as communicaes dos commissarios encarregados da
recepo dos antigos pergaminhos indicados pela Classe, resulta que
nenhum prelado diocesano recusou entregar os documentos que foram
pedidos dos archivos das respectivas mitras, ou de outros immediatamente
dependentes dos mesmos prelados. Provaram assim que comprehendiam, como
o Governo e o Parlamento o haviam comprehendido, a magnitude e o valor
do trabalho que a Academia emprehendera, provando igualmente que o
episcopado portugus no degenerou, e que o baculo pastoral dos Caetanos
Brandes, dos Cenaculos, dos Avellares, dos Lemos, dos S. Luiz no cahiu
em mos indignas delle. A Classe compraz-se em poder dar um testemunho
de agradecimento em nome das letras a quem to nobremente sabe conciliar
a dignidade do caracter episcopal com o reconhecimento do direito do
Governo, e com o sentimento da gloria litteraria que resulta para o paiz
da publicao dos seus monumentos historicos, empreza que j 
devidamente apreciada, no s entre ns, mas tambem pelos homens
competentes de outras naes da Europa.

Do mesmo modo resulta dos documentos officiaes remettidos pelo Governo 
Academia e das communicaes dos agentes desta, que umas corporaes se
mostraram promptas a obedecer ao Governo, que outras desobedeceram,
limitando-se a declarar oficialmente aos agentes da Academia o motivo do
seu proceder, e que outras desobedeceram e representaram a V. M. V-se
d'aqui que entre ellas ha desacordo sobre a extenso dos respectivos
direitos, e que algumas entendem, e bem, como os prelados maiores, que o
Governo no ultrapassou os limites das suas attribuies.

Para poder apreciar devidamente os fundamentos da resoluo tomada por
algumas das corporaes de mo-morta, de que resultaria tornar-se
impossivel a continuao de um trabalho que hoje a lei fra o Governo e
a Academia a realisar, cumpre expor o estado da questo e reunir as
objeces ao cumprimento da portaria de 11 de setembro, oferecidas nas
diversas representaes recebidas pelo Governo e communicadas 
Academia, e nas respostas que foram dirigidas officialmente ao agente
desta nas provincias do norte. No podendo qualificar-se o acto das
corporaes que recusaram fazer a entrega sem recorrer a V. M., seno de
pura e simples desobediencia, a Classe abstem-se de indicar qual deva
ser em tal caso o procedimento do executivo, encarregado de cumprir as
resolues do poder legislativo. O Governo de V. M. sabe perfeitamente
qual  neste caso, no s o seu direito, mas tambem o seu dever. Todavia
a Classe no pde deixar de se fazer cargo dos motivos de recusa que
directamente lhe foram dados, e conjunctamente d'aquelles sobre que 
mandada consultar.

A Academia pela Classe de sciencias moraes, politicas e bellas letras
sollicitou a vinda a Lisboa dos documentos anteriores ao anno de 1280
que existiam, no s nos cartorios dos extinctos mosteiros, mas tambm
nos das corporaes de mo-morta no abolidas, pedindo ao mesmo tempo,
para maior segurana desses documentos, e para evitar uma
responsabilidade que lhe era inutil tomar, que fossem depositados no
Archivo geral do reino, aonde os academicos encarregados da publicao
dos Monumentos Historicos podiam, sem incommodo grave, ir fazer a
escolha e os mais trabalhos necessarios cerca dos que se achasse que
deviam entrar naquella colleco. A Classe possuia j a este tempo um
inventario succinto de todos os documentos anteriores a essa data, que
ainda existem nos archivos dos districtos centraes e septemtrionaes do
reino, e que montam a alguns milhares. Este inventario fora feito por
um commissario da Academia com auctorisao do Governo, nos annos de
1853 e 1854.

A correspondencia deste commissario, no desempenho das funces que lhe
tinham sido commettidas, e em conformidade das instruces que lhe
haviam sido dadas, fez conhecer  Classe qual era o deploravel estado da
maior parte dos cartorios, no s das corporaes extinctas, mas tambem
das existentes. A perda de antigos documentos, quanto ao passado, era j
immensa, e podia prever-se qual seria quanto ao futuro, conservando-se
as cousas no estado em que se acham. Convencida de que fazia um bom
servio ao paiz aconselhando o Governo a que conservasse no Archivo
geral do reino os documentos chamados a Lisboa, depois de examinados e
utilisados litterariamente, a Academia no hesitou em faz-lo;
absteve-se porm de fundamentar com os factos de que adquirira
conhecimento um conselho, na verdade no pedido, mas que o seu caracter
de corpo litterario official lhe impunha o dever de dar em materia de
sua competencia. Procurava assim evitar s corporaes existentes o
desgosto que a narrativa de certos factos, que podiam vir a ser
publicos, devia causar-lhes, e ao mesmo tempo precaver a continuao de
perdas irreparaveis. Entretanto, como o fim que ento se propunha, e que
hoje se prope, era o estudo e escolha desses documentos para continuar
o trabalho que encetara, deixou ao prudente arbitrio do Governo ponderar
se conviria mais restituir os documentos enviados  Torre do Tombo, se
conserv-los alli, propondo a V. M. a resoluo mais conveniente.

A portaria de 11 de setembro de 1857 no  outra cousa seno a
reproduco deste pensamento da Academia, abraado pelo Governo de V. M.
Expondo summariamente as razes que ha para se conservarem de futuro na
Torre do Tombo os documentos pedidos, o ministro dos negocios
ecclesiasticos e de justia limitou-se comtudo a ordenar em nome de V.
M. a entrega delles, reservando para tempo opportuno resolver se devem
ser alli conservados ou restituidos aos cartorios das corporaes.
V-se, pois, que nessa parte as representaes eram licitas, e  at
possivel que as ponderaes a favor da restituio fossem de ordem tal
que movessem o animo de V. M. a orden-la. Isto, porm, no dispensava
as corporaes de obedecerem quanto  entrega e ao deposito temporario
no Archivo nacional, que era por ento o que preceptivamente se
estatuia. Quanto a este ponto, nenhuma opposio plausivel se poderia
fazer, e as recusas dirigidas officialmente ao commissario da Academia
constituem nessa parte, como j se notou, uma desobediencia formal.

E esta desobediencia  tanto mais grave quanto  certo que se o Governo
de V. M. no procurasse reprimi-la, della resultaria, no s a
impossibilidade de se cumprirem as resolues do Parlamento, mas tambem
grande descredito para qualquer ministro que tolerasse semelhantes
obstaculos  continuao de uma empreza que, por nos servirmos da phrase
de um de dos maiores sabios da Frana, constituir um dos ttulos mais
gloriosos do reinado de V. M.

A Classe lamenta que taes resistencias venham de corporaes parte das
quaes so compostas de individuos em quem se deve suppor maior ou menor
educao litteraria, e que, em relao  sociedade civil, so
verdadeiros funccionarios publicos. No era por certo de esperar que,
tanto nas representaes dirigidas a V. M., como nas respostas dadas ao
agente da Academia, se encontrasse to singular esquecimento do direito
publico antigo e moderno do paiz, transtorno to completo das boas
doutrinas, to inexacta exposio de factos, e at accusaes to
offensivas contra a Academia, que V. M. relevar por certo que esta
Classe, repellindo-as, seja talvez sobradamente severa.

As ponderaes feitas e os factos allegados, tanto nas representaes
dirigidas a V. M., como nas respostas officialmente dadas ao commissario
da Academia, resumem-se no seguinte:

Diz uma das corporaes que no pode convir na alheao dos antigos
documentos do seu cartorio, porque na maxima parte so comprovativos de
contractos onerosos, e quando o no sejam, illustram esses contractos, e
que a portaria de 11 de setembro alheia a favor do Archivo da Torre do
Tombo documentos que so propriedade da mesma corporao.

Diz outra: que a portaria encerra uma determinao inteiramente nova e
contraria  practica at hoje seguida.

Declara ao mesmo tempo, n'um officio ao commissario da Academia, que
para o exame de qualquer documento no seu archivo  indispensavel
licena regia e uma ordem do prelado ordinario; mas que para se tirarem
documentos seriam necessarias ou uma lei que dispensasse as formalidades
do esbulho da propriedade, ou sentena do poder judicial.

Outras duas corporaes limitam-se a dizer em officios ao dito
commissario que a portaria de 11 de setembro offende o direito de
propriedade, e que recusam a entrega por terem representado sobre esse
assumpto ao Governo de V. M., representaes que esta Classe no pde
apreciar porque no lhe foram communicadas.

Duas corporaes monasticas do sexo feminino declaram, emfim, no
poderem entregar os dictos documentos por causa dos inventarios dos seus
bens a que se est procedendo por ordem do Governo, em virtude de
resoluo de Cortes.

As outras corporaes mostram-se todas promptas a obedecer s ordens de
V. M.

Senhor, os membros da Classe de sciencias moraes, politicas e bellas
letras no podem deixar de dizer a V. M. com o respeito devido ao chefe
do estado, mas com a liberdade de homens de letras, que  impossivel
acumular mais desvarios do que os que se lem nos documentos acima
substanciados. Elles provam peremptoriamente a necessidade de uma
profunda reforma no systema da educao do clero, e de vigilancia da
parte do Governo sobre o modo como so providos os beneficios
ecclesiasticos.

Predomina, em geral, nos documentos que temos presentes uma certa somma
de idas, no sabemos se astutas, mas sem duvida falsas.  uma dellas a
confuso dos bens administrados pelas corporaes com os titulos
primitivos dos mesmos bens, confundindo-se igualmente esses titulos
primitivos com os actuaes; os que podem ter uma utilidade practica na
administrao ou no foro com os que s em casos rarissimos serviro para
fortificar ou esclarecer o testemunbo d'est'outros. Posses immemoriaes,
tombos incomparavelmente mais modernos do que os pergaminhos anteriores
ao seculo XIV, contractos de epochas posteriores, mais ou menos
recentes, eis os verdadeiros documentos de uso practico, que se
conservam nos cartorios das corporaes. E se esses pergaminhos antigos
tem a utilidade material que se lhes attribue, as corporaes devem
possuir ndices regulares que apontem em substancia o objecto, a indole
d'elles e os logares onde se acham nos respectivos cartorios: depois,
devem abundar os exemplos de casos nos quaes ellas os hajam utilisado
nos ultimos vinte ou trinta annos. Exija o Governo de V. M. aquelles
ndices; pea a enumerao especificada destes casos, que por certo no
ficar edificado da verdade das allegaes nesta parte.

Ainda admittindo todas as inexaces de direito e de facto apinhadas nas
representaes e officios sobre este assumpto, ha uma circumstancia que
torna a denegao absoluta e completa das corporaes ao cumprimento da
portaria de 11 de setembro, no s um acto de vandalismo litterario e de
desprezo pela gloria da nao, mas tambem uma verdadeira espoliao
feita ao paiz. Na epocha a que pertencem os documentos exigidos, no
existia archivo especial do rei ou do estado, o qual s comeou no tempo
de D. Fernando I. Os diplomas de alta importancia, cuja existencia se
desejava conservar para a posteridade, manda-vam-se depositar nos
cartorios dos cabidos e dos principaes mosteiros, chegando-se aponto de
se ordenar esse deposito no proprio corpo do diploma.  um facto este
que as corporaes desobedientes tinham obrigao de no ignorar.
Depois, os prelados, os cabidos, as ordens ecclesiasticas e militares
exerciam, como donatarios da coroa, actos que importavam manifestaes
de soberania, e contractos em que rigorosamente esses corpos no
figuravam seno como representantes do poder publico: taes eram os
foraes instituindo municipios e comprehendendo provises de direito
publico local; taes eram os contractos por que se transformavam os
terrenos reguengos em jugadeiros, as quotas de fructos em rendas certas,
etc. Os documentos desta ordem no respeitam s corporaes; respeitam
ao paiz, como aquelles que os antigos monarchas confiaram  guarda do
clero. Suppondo que ellas tivessem direito a negar a entrega dos que
exclusivamente lhes dizem respeito, poder-se-hia tolerar que tambem
sequestrassem impunemente os documentos da nao por um capricho
inexplicavel, ou antes explicavel de mais?

Ha, pouco, Senhor, que examinando-se por ordem desta Classe os restos
que escaparam do rico archivo do mosteiro de Aguiar, conservados no
Thesouro-publico, ahi se foram encontrar no original muitos documentos
politicos e economicos da mais alta importancia relativos aos seculos
XIII e XIV. Se ainda existissem corporaes religiosas do sexo
masculino, como existem do feminino,  natural que, como algumas destas,
os monges de Aguiar recusassem obedecer  portaria de 11 de setembro.
Toleraria, porm, o Governo que esses documentos importantes para a
historia, e talvez para questes actuaes ou futuras com a Hespanha
cerca de limites, ficassem sepultados e inuteis nas tristes solides do
Cima-Coa? E toler-lo-hia s porque alguns frades suspicazes e
ignorantes receiassem que o conhecimento dos velhos pergaminhos do seu
cartorio podesse servir para lhes contrariar interesses materiaes de
cuja legitimidade a consciencia os fizesse duvidar?

As difficuldades, Senhor, que se oppoem agora  realisao do empenho da
Academia e ao cumprimento da lei j em parte surgiram quando se ordenou
que os cartorios das corporaes fossem franqueiados ao simples exame de
um commissario da mesma Academia. Houve recusas formaes; houve
subterfugios dilatorios. Indagou-se o motivo disto, e soube-se que se
receiava fosse utilisado o exame a que se procedia em beneficio dos
colonos ou proprietarios com quem as corporaes tem litigios sobre
direitos dominicaes; porque a algumas d'ellas, ou a todas, custava a
comprehender que se gastasse tempo em decifrar esses pulverulentos e
afumados diplomas sem algum interesse material. Note-se agora a infeliz
coincidencia entre a resoluo administrativa que chama a Lisboa os
documentos de antigos tempos, e a que ordena um inventario dos bens de
certas corporaes de mo-morta, e achar-se-ha facilmente, em suspeitas
no menos insensatas que as primeiras, a explicao mais plausivel das
resistencias que apparecem por esta parte.

Os cartorios dos corpos de mo-morta tem sido sempre considerados como
cousa publica. Uma das corporaes reconhece-o formalmente no officio
que dirige ao commissario da Academia, affirmando a necessidade de
licena regia, e determinao do prelado, para qualquer extranho
examinar os documentos do seu archivo. De certo um particular no
precisaria de licena regia para facultar a qualquer o uso do seu
cartorio ou para deixar sair delle quaesquer titulos. Tanto se
consideravam esses archivos como dependentes do Estado, que os seus
documentos mereceram sempre uma especie de f publica. Em muitos delles,
at, existiam e existem chartularios, geral e impropriamente denominados
Tombos, e feitos em diversas epochas, desde o reinado delrei D. Joo II
at o delrei D. Joo V, em que se contm traslados dos documentos
antigos, precedendo provises regias, pelas quaes se d a estas copias o
mesmo valor dos originaes, para dellas se passarem certides. Esses
actos do poder supremo no provam s a consciencia que o Governo tinha
da incapacidade ordinaria dos membros das corporaes, e dos tabellies
desses logares para lerem os antigos diplomas: provam tambem o caracter
publico de taes archivos; porque no nos consta que provises de
semelhante natureza se passassem nunca a favor de cartorios
particulares. Embora o poder civil dsse a sua sanco s disposies
canonicas relativas  conservao dos documentos dos corpos de
mo-morta; embora prohibisse, como mais de uma vez prohibiu, a sada
delles do respectivo archivo, essa prohibio est justamente
demonstrando que elle poderia ordenar o contrario, se entendesse que
convinha mais guard-los n'outra parte. Foi por isto que no reinado de
D. Joo V se proveu a favor da Academia de Historia, para que se lhe
facultasse o conhecimento e copia de todos os documentos das corporaes
de mo-morta, que foram obrigadas a transmittir inventarios de todos
elles  mesma Academia. Foi por esse fundamento juridico, que nos
estatutos da universidade (L. 2, tit. 6, cap. 3) se determinou que os
cartorios dos mosteiros e das cathedraes estivessem patentes aos
professores de direito patrio, para lerem, estudarem, extractarem,
copiarem, ou fazerem extractar e copiar todos os documentos que
entendessem serem uteis ao ensino das leis patrias e da sua historia,
disposies que no se estenderam, nem podiam estender, ainda debaixo do
absolutismo ferrenho daquella epocha, aos cartorios particulares. ,
finalmente,  vista de tal jurisprudencia e de taes exemplos, que na
portaria de 11 de setembro o Governo ordena se facilite  Academia o uso
desses diplomas, reservando para si o direito, que indubitavelmente lhe
pertence, de resolver sobre o modo mais conveniente da sua futura
conservao.

Mas, diz uma das corporaes desobedientes, que foi no proprio archivo
della que Brito e Brando tomaram notas dos documentos ahi existentes;
que o guarda-mr Lousada copiou os mais curiosos e mandou as copias para
a Torre do Tombo; que alli se tiraram traslados dos mais importantes
para o Archivo de Historia Portuguesa; que a corporao possue no seu
seio um paleographo capaz de trasladar tudo, embora no seja to habil
como os da capital; que no convem que os documentos andem de mo em
mo; emfim, que a Academia no restituiu integralmente os documentos
recebidos por ella, uma unica vez que lhe foram confiados.

A Classe desejava, Senhor, nesta consulta no empregar uma unica phrase
que no fosse moderada; mas, vendo accusados, se no os membros actuaes
da Academia, ao menos os que os precederam, de falta de probidade, e
sabendo que essa accusao vai directamente cahir sobre homens to
eminentes por sciencia e virtudes como D. Francisco de S. Luiz, Trigoso
e outros vares, cujos nomes so veneraveis para o paiz e para as
letras, teme no saber reprimir sempre os impetos de indignao diante
das calumnias vertidas sobre as cinzas de individuos que no se podem
defender, mas que os academicos de hoje, posto valham menos do que
elles, no devem, nem querem deixar sem pleno desaggravo.

A corporao que, desobedecendo ao Governo, mostra desconhecer o antigo
e o moderno direito publico destes reinos, no foi feliz querendo dar
lices  Academia sobre materias de sua competencia, e increp-la de
menos probidade. Se esta virtude tivesse faltado aos seus antigos
membros cerca de documentos publicos, no seria o melhor meio de
preservar os actuaes de semelhantes delictos pr-lhes diante os nomes de
Brito e Lousada, que passaram a vida, no tanto a distrahi-los, como a
forj-los e a falsific-los. Curiosas devem ser as memorias por onde
consta  corporao desobediente que o escrivo Lousada (despachado por
ella guarda-mr da Torre do Tombo) mandou para alli copias dos
documentos mais curiosos do seu cartorio, do que alis nenhuns vestigios
restam no Archivo geral do reino. Dos que se remetteram para o Archivo
de Historia Portuguesa nada tem que dizer a Classe, porque no lhe
consta que tal archivo exista ou existisse nunca no mundo. Pde ser
excellente o paleographo que essa corporao inculca  Academia; mas a
Classe emprehendeu um trabalho demasiado serio, para exigir dos membros
encarregados da publicao dos Monumentos Historicos a conferencia
pessoal das copias destinadas  publicao com os respectivos originaes,
depois de terem apreciado quaes merecem ver a luz publica. Estes
trabalhos preliminares, asss tediosos e longos, no podem os socios
effectivos ir faz-los a 50 ou 60 legoas da capital, porque tem aqui
outros deveres que cumprir, e por isso no aproveitam o offerecimento.
Se o sincero, honesto e judicioso Brando teve a simplicidade de se fiar
em copias subministradas pelas corporaes e nos paleographos habeis
dellas, pagou bem caro a sua imprudencia, no havendo, talvez, seno um
ou dous documentos, dos publicados por integra na 3. e 4. Partes da
_Monarchia Lusitana_, que esteja devidamente correcto. Quando,
finalmente, esta Classe pede, no que venham para a sua secretaria os
documentos que pretende examinar e transcrever, mas que se depositem na
Torre do Tombo, para onde os remette directamente a pessoa encarregada
de os receber, e onde no ha perigo de se extraviarem, nem de serem
presa de algum incendio; quando esta Classe prefere  propria
commodidade ir alli preparar e dirigir os trabalhos de que est
incumbida, temendo os riscos que de outro modo poderiam correr esses
restos dos abundantes monumentos historicos que outr'ora possuimos;
quando, depois, aconselha ao Governo que os conserve cuidadosamente
naquelle archivo, o ponderar-se que no convem que os antigos documentos
andem correndo de mo em mo  uma verdadeira inepcia.

Desde o comeo desta consulta e no proseguimento della, a Classe
forcejou e forcejar sempre por no designar nomeiadamente nenhuma das
corporaes a que se refere. Move-a a isso um sentimento de
generosidade.  todavia forada a fazer uma excepo quando se tracta da
honra do instituto de que forma parte, e da boa fama dos que precederam
os signatarios deste papel nas cadeiras que hoje occupam. Na sua
representao dirigida ao digno prelado metropolitano, para ser presente
ao Governo, o cabido da s de Braga accusa a Academia de no ter
integralmente restituido varios documentos que, por ordem do mesmo
Governo, lhe haviam sido confiados. Dos registos da Academia consta, com
effeito, que para uso da commisso de Cortes foram chamados a Lisboa, em
1836, varios monumentos do cartorio daquelle cabido; mas dos actos
officiaes, junctos por copia  presente consulta, se v, 1., que a
Academia pediu um codice e cinco documentos avulsos do mesmo cartorio,
indicando o logar onde estes se achavam, e um volume manuscripto do
archivo da mitra; 2., que foram remettidos pelo cabido o codice e tres
dos cinco documentos pedidos, declarando o presidente da corporao que
no fora possivel encontrar os outros dous, nem na gaveta onde deviam
estar, nem nas diversas gavetas que diligentemente se examinaram; 3.,
que em 1840 foram devolvidos  secretaria do reino para voltarem a Braga
o manuscripto da mitra, e bem assim o codice e os tres pergaminhos
avulsos que tinham vindo do cabido. A restituio foi, portanto,
integral. Esses actos officiaes, que a Classe leva  presena de V. M.,
no so, porm, s importantes para desfazer uma calumnia: so-no
igualmente para provar com quanta razo a Classe aconselhou que os
antiquissimos documentos chamados agora a Lisboa fossem conservados no
Archivo geral do reino. De cinco pedidos pela Academia, indicando ella o
logar onde se achavam, apenas tres existiam naquella conjunctura, porque
nem alli, nem nas outras gavetas, se acharam. Di-lo o chefe da
corporao; e das suas explicaes se deduz que tambem no havia indice
do cartorio, nem registo por onde constasse como haviam sido
distrahidos. Se da historia, porm, dos cinco diplomas, pedidos
casualmente, houvessemos de tirar illaes para o resto do archivo
capitular, infeririamos que dous quintos dos seus pergaminhos tem sido
desencaminhados, apesar das constituies synodaes e das excommunhes
fulminadas contra os dissipadores dos titulos da cathedral, excomunhes
que poderiam gerar nos animos srias apprehenses sobre o destino alm
da campa dos conegos at ento fallecidos, mas que teriam sido
impotentes para salvar da rapina ou do desleixo os primitivos e
veneraveis monumentos da antiga metropole da Galliza.

Ainda, em relao quella remessa de documentos, faz o reverendo cabido
bracharense uma severa increpao  Academia, de que esta Classe no
sabe, Senhor, defend-la, mas para esquivar a responsabilidade da qual
se offerece em holocausto. O codice e os tres pergaminhos voltaram a
Braga  custa do cabido!  um successo que talvez perturbasse gravemente
a economia da fazenda capitular. Liquide-se aquella divida, e a Classe
restituir integralmente o frete dos dous codices e dos tres
pergaminhos, como fica provado que se restituiram essas preciosidades.

Se nas suas representaes ao Governo, por interveno do prelado, o
reverendo cabido de Braga calumniou a Academia, no officio ao agente
desta calumniou todos os poderes publicos. Diz ahi o reverendo cabido
que, para se lhe tirarem os documentos de que se tracta, precisa-se de
lei precedente que dispense as formalidades do esbulho da sua
propriedade, ou sentena do poder judicial que o convena de que a deve
largar. Estas poucas phrases, seno so filhas da hallucinao ou de
incrivel ignorancia, so um grave insulto a todos os corpos do Estado. O
cabido offende o Governo, porque lhe attribue um acto de espoliao,
quando a portaria de 11 de setembro no  seno uma providencia
administrativa ordinaria, e que honra por mais de um modo o mesmo
Governo. Offende o poder legislativo, porque o suppe capaz de fazer
leis inconstitucionaes e absurdas. O legislador nem mantem, nem dispensa
formalidades no esbulho, porque nunca pde determinar o esbulho. Quando
estatue a expropriao por utilidade publica, estatue sempre a
compensao. Offende o poder judicial, porque presuppe que elle pde
ordenar a alguem por sentena que largue a propriedade que  sua. Quando
o magistrado julga que o individuo deve perder o que possue, 
justamente pelo motivo contrario;  porque se convence de que o
individuo retem o que no  seu; e nesse caso, no tira, mas defende a
propriedade.

Somos chegados, Senhor, a um ponto, cerca do qual a Classe de sciencias
moraes, politicas e bellas letras tem, por mais de um modo, o dever de
lanar neste papel algumas consideraes; porque se tracta de um
assumpto que  da sua competencia, como corpo official scientifico. O
pensamento de qualificar a portaria de 11 de setembro como um acto
exorbitante do Governo contra a propriedade no se manifesta s nas
phrases acima citadas: revela-se tambem, mais ou menos expressamente, na
linguagem de outras corporaes desobedientes. Na opinio dellas, os
antigos pergaminhos dos respectivos cartorios so uma cousa em que o
Governo no pde tocar, sem quebra do direito constitucional que garante
a propriedade dos cidados; porque esses pergaminhos so os titulos dos
bens que possuem, os quaes as dictas corporaes de mo-morta suppe
gratuitamente que so uma propriedade sua, analoga  de qualquer
individuo ou associao civil.

A Classe disse j e mostrou como muitos dos documentos de que se tracta,
pela sua natureza, pelo sua origem, e por factos historicos sabidos e
certos, pertencem pura e simplesmente ao Estado; disse e mostrou j como
os cartorios das corporaes de mo-morta se consideraram sempre
archivos publicos; disse e mostrou como os pergaminhos anteriores a 1280
no so nunca, ou quasi nunca, documentos de uso practico nos litigios
ou nas duvidas administrativas que podem suscitar-se cerca de alguns
desses bens; e quando o fossem, nem a portaria de 11 de setembro ordena
definitivamente a sua reteno na Torre de Tombo, nem o Governo,
supposto que de futuro assim o ordenasse, deixaria de prover do modo que
estabelece naquella portaria. As corporaes obteriam gratuitamente,
quando necessarios, transumptos authenticos, frma unica em que elles
costumam figurar na tela judicial. Uma ou outra corporao pde achar no
seu seio ou na localidade onde reside um paleographo legalmente
habilitado para authenticar os traslados de antigos documentos; mas, na
maior parte dos casos, dada a necessidade de taes copias, elles teriam
de vir a Lisboa para serem decifrados e reduzidos os seus transumptos a
frma authentica. Qual seria, porm, mais seguro para os velhos
pergaminhos, e at mais barato para as corporaes; isto, ou as
providencias a que se refere a portaria de 11 de setembro?

As corporaes falam da propriedade dos pergaminhos, confundindo-a com a
de quaesquer outros bens moveis ou de raiz. Os antigos documentos so ou
foram titulos de propriedade, o que  diverso. Para qualquer cousa ser
materia de propriedade precisa de ter um valor de utilidade; servir aos
fins e necessidades do homem. No sendo como prova de dominio, elles de
nada servem s corporaes; e a no ser como monumentos litterarios ou
historicos, no tem nenhum valor real. Por este lado as corporaes
esto bem longe de poderem utilis-los. Como prova do dominio, nem o
Governo quer destrui-los, nem guardados no Archivo nacional ficam menos
seguros do que no seio das corporaes, antes incomparavelmente mais.
Depois, no  o Estado padroeiro de todas essas cathedraes, collegiadas
e mosteiros desobedientes? No teve elle sempre o direito de suprema
inspeco sobre o cumprimento dos deveres que resultam para esses corpos
das condies da sua fundao e instituio? No lhe incumbiu sempre
vigiar sobre a conservao e uso dos bens unidos aos mesmos corpos? No
deriva immediatamente desse direito o de providenciar do modo mais
conveniente sobre a fiscalisao daquelles bens, e de chamar a si os
titulos delles quando entender, e sobretudo quando se provar, que esses
titulos so tractados com desleixo, ou que podem ser conservados em
melhor ordem ou com maior segurana, ou finalmente quando precisar
delles para verificar se se tem dado abusos que o mesmo Governo possa e
deva corrigir? Se as corporaes crem que os documentos que lhes pedem
ainda tem o valor de titulos, em virtude de que direito recusam obedecer
 portaria de 11 de setembro?

E preciso, Senhor, dizer por uma vez a verdade inteira. As corporaes
recalcitrantes, por um capricho insensato, talvez por insinuaes
perfidas, e provavelmente por apprehenses infundadas de que o
conhecimento dos diplomas e chartularios que se lhes pedem possa ser
nocivo aos seus interesses como administradoras de rendas e direitos
dominicaes, aparentam por esses velhos pergaminhos, inintelligiveis e
indifferentes para ellas, um zlo, um affecto que realmente no sentem.
Foi isto que as arrastou a invocarem o direito de propriedade, a falarem
de tal direito em relao aos bens que desfructam. Pde o Governo
tolerar, toleram os bons principios que as corporaes se digam
proprietarias dos bens que usufruem? At aqui a Classe provou por
diversos modos o desarrazoado e illegal das resistencias que suscitaram
esta consulta, ainda dada a situao de proprietarias, em que as
corporaes pretendem collocar-se. No caso presente, o antigo direito
publico derivado dos antigos principios, das prerogativas do poder
supremo como ento se concebia, e at o direito canonico relativo ao
padroado, bastariam para legitimar o acto practicado pelo Governo e
justificar as intenes manifestadas na portaria de 11 de setembro. Mas
esta Classe tem de ir mais longe. Desde que se querem estender as
actuaes garantias politicas dos cidados a corporaes de mo-morta, por
um sophisma grosseiro; desde que se proclamam doutrinas subversivas que
mutilam a aco do poder publico, a Classe tem, pela sua indole, pelos
fins da sua instituio, o dever restricto de protestar contra erro to
perigoso. So as corporaes que a fram ao cumprimento de uma
obrigao desagradavel.

A propriedade, Senhor,  um direito preexistente s sociedades, visto
derivar da necessidade que tem o individuo de satisfazer aos fins
racionaes para que foi creado. O direito de propriedade estriba-se na
lei natural, porque  inherente  natureza do homem. Desde que este
direito se no collocar acima das leis positivas, quer constitucionaes
quer civis, e anteriormente a ellas, a sociedade acceitar um elemento
de dissoluo e de morte. Se  o legislador que cria esse direito; se
este no o precedeu no mundo, elle pde tambm crear o direito
contrario. Reduz-se tudo a uma questo de conveniencias moraes e
materiaes e de opportunidade, e tanto  possivel existir s a
propriedade commum, como existir a individual, ou, para exprimir a mesma
ida com diversa formula, tanto  possvel a no propriedade, como a
propriedade. D'aqui nasce que esta  primordial e principalmente
individual. A ida de propriedade collectiva, como regra, como
principio, depois de andar por seculos ao servio de um despotismo
espoliador; depois de attribuir ao chefe do Estado o dominio imminente e
aos subditos uma posse e um dominio incompletos, quando o sentimento da
liberdade e a razo esclarecida por tal sentimento collocaram os
direitos dos cidados  sua verdadeira luz, veio, apesar de velha e
gasta, pr-se  merc das escholas socialistas e communistas. Como em
mechanica dizia Archimedes, dem a estas esse ponto nas regies do
direito, e ellas revolvero o mundo.

A propriedade commum nas associaes civis voluntarias no  seno uma
forma especial de manifestao da propriedade individual, que lhe muda
os accidentes sem lhe alterar a essencia. Dissolvida a associao, a
propriedade toma immediatamente os caracteres da individualidade. No
assim nas corporaes de mo-morta, cuja existencia depende do poder
publico. Ha, por certo, propriedades collectivas; taes so os bens
nacionaes de uso commum dos cidados; mas esta especie de propriedade,
estribando-se puramente na lei, supprime-se, desapparece, transforma-se,
accumula-se, tambem  merc da lei, e  por isso que se denomina
propriedade legal. As instituies garantem a propriedade individual, a
do cidado, aquella que se funda n'um direito acima das leis e anterior
a ellas. No podem ir alm sem serem antinomicas comsigo mesmas; sem
darem ao legislador a funco de crear e no a de extinguir; sem
confundirem o absoluto com o condicional.

Os membros das corporaes de mo-morta no gosam menos que outros
quaesquer cidados da garantia constitucional pelo que respeita  sua
propriedade particular. No lhes  applicavel, porm, a mesma garantia
quanto  propriedade collectiva que desfructam, porque essa propriedade
 apenas legal. So proprietarios, como membros d'uma associao? N'esse
caso, porque no podem alienar; porque no podem testar; porque no se
resolver em propriedade individual esse cumulo de bens, na hypothese de
deixar de existir a corporao?  que a sua existencia no deriva da
natureza; deriva do direito positivo. Assim, era com sobrada razo que
um publicista dizia: Do mesmo modo que a suppresso de uma corporao
no  um homicidio, a revogao da faculdade que lhe foi concedida de
possuir bens de raiz no  uma espoliao. Pessoas facticias, a lei
pde destrui-las, como as creou; e se a sua existencia  precaria, como
 que possuem por um direito absoluto? Comprehende-se que o clero
hierarchico desfructe uma poro de bens que o Estado no revocou a si.
Como classe de funccionarios, de ministros de uma religio dominante, e
por consequencia official, podem ser retribuidos, no todo ou em parte,
por este modo:  um systema bom ou mau; mas  um systema que presuppe a
doutrina de que os bens que administram no so propriedade sua e de que
nem sequer usu-fructuarios so por direito proprio. Porque recebem
corporaes e individuos pertencentes  jerarchia da igreja, e cujas
congruas esto fixadas, apenas complementos d'essas congruas pelo
Thesouro, quando os redditos dos chamados bens ecclesiasticos
subministram parte d'ellas? Tractando-se de materias temporaes, se a
propriedade ecclesiastica  o mesmo que a propriedade individual, donde
provm a desigualdade que resulta de uma retribuio desigual, que o
clero acceita sem murmurar? Se  por se attender s a que tenham a
_congrua sustentao_, porque no ser esta calculada tambem em relao
aos bens patrimoniaes do sacerdote funccionario? Aquelles que hoje
invocam o seu direito de propriedade como sendo analogo aos dos cidados
tem j reconhecido, pelo facto proprio, que entre as duas cousas no
existe paridade.

Mas se nos lembrarmos, Senhor, da origem e historia dos bens
ecclesiasticos em Portugal, quanto mais deploraveis e imprudentes no
acharemos as doutrinas invocadas pelas corporaes desobedientes, em
damno da gloria e das letras patrias! Verdadeiramente, entre ns, aos
bens d'esses gremios s quadraria uma qualificao repugnante comsigo
mesma, a de _propriedade anti-legal_. Comearam cedo neste paiz, nos
principios do seculo XIII, as leis de amortisao, e j antes el-rei D.
Sancho I, escrevendo a Innocencio III, affirmava o seu direito de privar
o clero dos bens que possuia para lhes dar uma applicao em seu
entender mais util. Renovadas successivamente as leis de amortisao,
foram tantas vezes vilipendiadas e infringidas pela prepotencia do clero
quantas de novo promulgadas. As corporaes julgavam-se ento tanto
acima do legislador quanto parece julgarem-se hoje acima do Governo. Sem
recorrer a outros monumentos das varias phases d'essa permanente revolta
de um dos corpos do Estado contra o direito publico do reino, basta
abrir successivamente os tres codigos que, um aps outro, regeram este
paiz desde o seculo xv at os nossos tempos, para vermos que os
verdadeiros titulos dos bens usufruidos pelas corporaes no so tanto
os antigos pergaminhos que ellas recusam largar da mo para utilidade
commum, como o desprezo insolente de leis que os nossos monarchas nunca
tiveram fora para tornar effectivas. As Ordenaes affonsinas, as
manuelinas e as philippinas reproduzem sempre o direito antigo, que
prohibia s corporaes de mo-morta possuir bens de raiz, mas a
clausula pela qual se perdoava a desobediencia passada perdia tudo;
porque provava a impotencia da lei, e abria campo a novos abusos, que se
tornavam a perdoar para se tornarem a repetir. O melhor titulo de
propriedade que as corporaes podem invocar cerca dos bens que
desfructam  este. V. M. apreciar a sua legitimidade.

Resta unicamente, Senhor,  Classe de sciencias moraes, politicas, e
bellas letras desempenhar um dever que desde o principio d'esta consulta
reconheceu incumbir-lhe.  o de dar a razo por que aconselhou ao
Governo que conservasse no Archivo da Torre do Tombo os documentos mais
antigos e preciosos das corporaes tanto extinctas como existentes,
depois de utilisados pela Academia. No foi, Senhor, um conselho dado de
leve: foi a triste convico de que, sem isso, os vestigios e as
memorias authenticas das geraes que passaram iro gradualmente
desapparecendo, como at aqui tem desapparecido. Nos logares onde se
acham, os antigos pergaminhos e chartularios no so entendidos nem
apreciados, nem resguardados de um modo conveniente contra os accidentes
que possam sobrevir-lhes: no ha ordem racional na sua arrumao, nos
raros casos em que esto n'alguma ordem: no ha indices aos quaes se
possa recorrer quando  necessario consult-los. Por quasi todos os
archivos se encontram pergaminhos nas costas dos quaes se escreveu a
palavra fatal _inutil_. Inutil quer dizer que no serve a algum
interesse material da corporao. Em regra,  no meio d'estas
inutilidades que se vo achar os documentos historicos mais importantes.
Quaes tem sido, porm, os effeitos d'aquella qualificao, quaes
continuaro a ser, facil  adivinh-lo. N'alguns cartorios a phrase _
latim_, tambem escripta nas costas do diploma, soa igualmente como
sentena de condemnao. Acham-se frequentemente pergaminhos (e destes
muitos n'um cartorio onde tal barbaridade no era de esperar), cuja
leitura quiz fazer algum curioso inhabil, cubertos de aguadas de galha,
que avivaram momentaneamente as letras sumidas, mas que depois formaram
uma s mancha negra, onde no tornar a ser possivel decifrar uma unica
palavra. Grande parte dos cartorios do, ao simples aspecto dos seus
documentos, as provas de que durante annos estiveram, e de que esto
ainda expostos  chuva, ao passo que no ha um s que se possa dizer ao
abrigo dos incendios. As abobadas arejadas e enxutas, debaixo das quaes
se guardam a parte antiga e ainda uma grande poro das addies
modernas do Archivo Nacional, uso adoptado tambem por alguns mosteiros
da congregao benedictina, que sabia tractar objectos destes, porque
sabia entend-los e apreci-los, no existem em nenhuma parte.  esse um
dos factos que mais instantemente exigem a conservao na Torre do Tombo
dos j to rareiados documentos dos primeiros dous seculos da monarchia
e dos que a precederam. A imprevidencia de collocar cartorios em logares
no convenientemente isolados fez com que n'uma noite perecessem
inteiros os quatro archivos mais ricos de monumentos da Beira Alta, os
de Salzedas, Tarouca, S. Pedro das Aguias e S. Christovam de Lafes, bem
como o incendio da Casa-pia, do Porto deu aso a perderem-se (dado que
perecessem nas chammas, o que  controvertido) quasi todos os cartorios
monasticos do Minho, que constituiam a parte mais importante das
riquezas do paiz n'este genero. O celebre incendio do Thesouro, que
tambem foi fatal a esta especie de documentos,  outro grande exemplo da
imprudencia que ha em no conservar archivos cuja perda  irreparavel em
edificios isolados ou pelo menos abobadados.

Expostos aos lentos effeitos da humidade e a serem devorados pelas
chammas, os antigos documentos das corporaes nas provincias esto,
alm d'isso, sujeitos s devastaes das guerras civis e estrangeiras.
Explicam estas em grande parte o no se acharem em quasi nenhumas
camaras do reino documentos originaes anteriores ao reinado de D. Diniz.
Nas tres provincias do norte, esta Classe apenas pde descubrir a
existencia de um no cartorio da camara de Bragana. Sabemos, todavia,
que ainda certo numero d'elles existia nos fins do seculo passado. No
teria sido mais util para o paiz, e at para as proprias
municipalidades, que o Governo tivesse feito recolher esses
antiquissimos pergaminhos no Archivo geral do reino? Quando el-rei D.
Manuel mandou expedir os foraes novos, recolheram-se alli as cartas
constitutivas e os privilegios annexos a ellas, respectivos aos
concelhos a quem se concediam aquelles foraes novos.  por isso que, em
parte, os seus primitivos titulos de liberdade ainda hoje existem. E que
 feito de tudo o mais que l ficou? Desappareceu completamente.

A estes accidentes accresce a deteriorao permanente que o desleixo e a
ignorancia produzem. No cartorio de certa corporao, lanado pela
janella fra durante a guerra peninsular por alguns soldados franceses,
e de que s uma pequena parte foi recolhida, achou-se ainda em 1853
incrustado nos pergaminhos o lodo em que estiveram mergulhados durante
alguns dias; tal tinha sido o desvelo da corporao cerca dos
monumentos que salvara. No sabemos se  das que bradam contra a offensa
feita ao seu direito de propriedade. Em outro archivo de um corpo de
mo-morta, os documentos antigos tinham sido lanados em monte na
diviso inferior de um armario humido, cujo pavimento era de tijolo.
Alli haviam apodrecido at a altura de duas ou tres pollegadas,
constituindo, quando se examinaram em 1853, uma massa negra e compacta.
Salvaram-se apenas os que tinham cahido na parte superior d'aquelle
acervo, aonde a podrido ainda no chegava. Outra corporao pediu tempo
ao commissario da Academia para lhe tornar accessivel o cartorio. Estava
este n'um aposento sem vidraas, e pelas roturas das janellas os
passaros tinham estabelecido alli a sua residencia habitual. Era preciso
desimpedir aquella nova especie de estabulo de Augias. A maior parte das
corporaes, cujos archivos se examinaram n'esse e no seguinte anno, no
poseram obstaculo algum a que os documentos de que se tomava nota fossem
separados e emmassados  parte, como se fez. A razo era simples. Tanto
importava aquella disposio como outra qualquer, visto no existir ahi
ordem nem indices. Cartorios ha, e dos mais notaveis, onde se adoptou a
distribuio corographica, mas esta distribuio era e  apenas parcial,
e necessariamente incompleta. Os documentos que por algum resumo ou
declarao externa, postos no verso do pergaminho, ou que por serem
modernos podiam facilmente classificar-se como relativos a tal ou tal
propriedade, collocaram-se nos massos respectivos. Todos aquelles,
porm, cujo contedo se ignorava, ou que refugiam a este systema
imperfeitissimo, assignalados ou no com o ferrete de _inuteis_, foram
amarrados em feixes e atirados para o fundo de armarios, onde ficaram
jazendo por dezenas e dezenas de annos, cubertos de p e condemnados ao
esquecimento e a lenta runa. Em um d'estes cartorios, depois de se ter
concluido o seu exame, achou-se uma gaveta, em logar pouco apparente, na
qual, debaixo de um monte de caruncho, se encontraram 40 a 50 bullas
originaes expedidas pela maior parte do decurso dos seculos XII e XIII.
Talvez durante 50 ou 60 annos ninguem tivera noticia da existencia
d'aquelles diplomas.

Certa corporao clerical teve a singular ida de enquadernar os seus
pergaminhos avulsos. Era um arbitrio devido, segundo parece,  fecunda
imaginao de uma communidade franciscana, cujos documentos primitivos
se acham n'uma repartio de fazenda da provincia cosidos n'um volume,
podendo ler-se apenas parte de cada um d'elles. A corporao, porm,
encontrara uma difficuldade imprevista em aproveitar o alvitre dos
frades. Os sellos pendentes eram um obstaculo a essa obra meritoria.
Cortaram-nos, ensacaram-nos, e hoje mostram innocentemente aquelle
monumento de sabedoria. Os sellos, sobretudo os dos diplomas
pontificios, esperam pela trombeta final do archanjo para se unirem aos
respectivos corpos, porque s a trombeta final poder operar tal
maravilha.

Esta mesma corporao possuia um chartulario dos mais conhecidos na
nossa litteratura historica. Esse chartulario tinha sado do archivo,
por ordem do prelado maior, havia quasi vinte annos, para se tirarem
delle copias de varios documentos, de que se carecia para objecto
litterario. Quando em 1854 a Academia mandou examinar os cartorios
provinciaes, o seu commissario perguntou pelo celebre codice. Fra elle
que tirara aquellas copias quasi vinte annos antes. Disseram-lhe que
existia bem guardado. Pediu-o: apresentaram-lhe uma copia moderna.
Observou que esse volume no passava de um bom ou mau transumpto do
manuscripto de que se tractava. No se conhecia outro! O commissario da
Academia recordou-se, porm, de uma circumstancia: as copias tiradas por
elle tinham sido feitas em certa livraria vizinha. Teria esquecido alli
o codice? Era um desleixo de vinte annos, absurdo, vergonhoso, incrivel,
mas por isso mesmo, probabilissimo. Props que se buscasse, ou antes,
offereceu-se elle proprio a procur-lo. Acceitou-se a offerta. No se
enganava. O precioso chartulario vivera desterrado vinte annos, emquanto
o seu pouco leal Sosia lhe usurpava as homenagens daquella corporao
erudita.

No fasciculo j impresso dos _Monumenta_ pertencente  serie intitulada
_Scriptores_ foi inserido um chronicon, cujo original existe no archivo
de uma das corporaes ecclesiasticas que representam a V. M. contra a
portaria de 11 de setembro. Havia duas edies discordes entre si, e
ambas inexactas, como depois se viu. Quando se colligiam os monumentos
destinados a entrar naquelle fasciculo, buscou-se obter o codice
original para restabelecer a verdadeira lico. Era impossivel. As
excommunhes contra a extraco dos documentos do cartorio onde elle
existia obstavam a isso. O anjo percuciente velava  porta do cartorio
com a espada de fogo na mo.  Academia, porm, repugnava manter n'um
trabalho serio, e feito com consciencia, o texto incorrecto. Favoreceu-a
uma circumstancia imprevista. A vigilancia do anjo percuciente fora
entretanto illudida. Pessoa particular obtivera por esse tempo que o
codice viesse a Lisboa. Empregaram-se ento meios indirectos para
alcanar copia exacta do chronicon. Mas voltou o codice ao logar d'onde
sara? Esta Classe ignora qual foi o seu ulterior destino.

 tempo, Senhor, de colher as vellas ao discurso. Parece-nos que o
Governo de V. M. fica habilitado para despachar as supplicas das
corporaes conforme a justia e as conveniencias publicas. A Classe tem
a consciencia de que, tanto nas suas sollicitaes como nos seus
conselhos, procurou sempre conciliar o zelo com a circumspeco, e que
no deu neste negocio um nico passo que no signifique o cumprimento de
um dever. Resta ao Governo cumprir o seu. Se no assumpto que se debate
ha lucta entre o amor das cousas patrias e um egoismo pueril, entre a
sciencia e a ignorancia, entre a luz e as trevas, no julga esta Classe
que o reinado de V. M. seja a epocha mais propicia para a victoria da
barbaria contra a civilisao.

Deus guarde a vida de V. M. como o paiz e as letras ho mister.




                               A SUPPRESSO

                                   DAS

                          CONFERENCIAS DO CASINO


                                   1871


                                    A

                                   J.F.




Teve v. s. a bondade de me remetter o discurso que o sr. Anthero do
Quental proferiu ou devia proferir no Casino (da sua carta no infiro
claramente se o facto chegou a verificar-se) o que, com os discursos dos
oradores que o precederam, deu aso a serem tolhidas pelo governo
aquellas conferencias. Pede-me v. s. que leia o discurso e lhe d a
minha opinio sobre o seu contedo e sobre o procedimento da
auctoridade. Nesta vida positiva que hoje vivo, pouco  o tempo que me
sobeja para a leitura, nem, a falar verdade, o espirito se inclina muito
para esse lado. Depois, as suas perguntas referem-se a assumptos graves,
e at abstrusos, que, porventura, no cabem na capacidade da minha
intelligencia. Accresce que geram em mim tristeza as nossas questes
publicas, e com o egoismo de velho fujo de pensar nellas. Apesar, porm,
de tudo isso, forcejarei por fazer uma excepo a favor deste discurso,
por certa sympathia que sinto pelo auctor, no obstante a profunda
divergencia que ha entre as nossas opinies. , talvez, porque no seu
caracter me parece descobrir uma destas indoles nobremente austeras que
cada vez se vo tornando mais raras. Revela o trabalho que me remette as
precipitaes e os impetos proprios da idade de quem o delineou. S os
annos nos curam desse defeito. Quizera eu que o sr. Anthero do Quental
conhecesse melhor a doutrina e a tradio verdadeiramente catholicas,
porque havia de ser menos injusto com o catholicismo, embora no fosse
menos severo, ou talvez o fosse ainda mais, com os padres.

Quanto  prohibio das conferencias, que quer que lhe diga?  peior que
uma illegalidade, porque  um desproposito; e na arte de governar, os
despropositos so s vezes peiores que os attentados. O que sera
escutado e em grande parte esquecido por cem ou duzentos ouvintes ser
agora lido e meditado por milhares, talvez, de leitores. Diz-me que se
tomou por pretexto da suppresso das conferencias o desaggravo da
religio offendida. Erro deploravel. Ida perseguida, ida propagada:
lei perpetua do mundo moral, perpetuamente esquecida pelo poder. Por
certo, o governo tem obrigao de manter a religio do Estado, como tem
obrigao de manter todas as instituies do paiz. Mas o respeito pela
inviolabilidade do pensamento entra tambem no numero das suas
obrigaes. E quando a religio do Estado e a liberdade do pensamento
collidem,  aos tribunaes judiciaes que cumpre dirimir a contenda. O
discurso oral  manifestao da ida, como o  o discurso escripto. No
se pde supprimir o orador, como se no pde supprimir o escriptor. Para
um, como para outro, ha a responsabilidade e a punio.

Depois, creio pouco que o sr. Anthero do Quental, apesar da sua clara
intelligencia, e da auctoridade moral que lhe d a integridade do seu
caracter, seja asss poderoso para derribar o catholicismo, a religio
de S. Paulo e de S. Agostinho, de S. Bernardo e de S. Thoms, de Bossuet
e de Pascal. O perigo, no absoluto, mas relativo, est n'outra parte.
Aggredido pela frente, o catholicismo pde applicar a si, melhor que o
protestantismo, o verso do bello hymnario de Luthero.

Ein feste Burg ist unser Gott.

No se toma a fortaleza divina; mas pde ser minada e alluida por uma
guarnio desleal.  este actualmente o grande perigo que a ameaa: no
so os discursos do Casino. A situao da igreja assemelha-se hoje
quella em que se achava no IV seculo, quando o arianismo, no dizer de
S. Jeronymo, triumphava por toda a parte, e at o papa Liberio adheria 
formula ariana do conciliabulo de Sirmio e acceitava como orthodoxa a
heresia. Esta situao tristissima da igreja  cousa um pouco mais grave
para a religio do Estado do que todas as hostilidades imaginaveis dos
seus adversarios leaes.

Que me seja licito fazer uma pergunta, que vai maravilh-lo. Existe
ainda entre ns o catholicismo proclamado instituio social pela Carta?
A resposta que eu proprio darei a esta pergunta ainda, porventura, o
maravilhar mais. Existe apenas na f perseverante, mas silenciosa e
triste, de alguns fieis, que deploram os destinos preparados  igreja
por um clero geralmente faccioso e sem convices. Hoje a igreja, se
podesse perecer, correria grande risco de no completar o vigesimo
seculo da sua existencia. Dar-lhe-hei nesta carta a razo do meu dicto,
embora isso a torne, talvez, demasiado longa; mais longa, por certo do
que eu desejaria.

Caracter fundamental do catholicismo verdadeiro, do catholicismo que nos
inculcaram na infancia, era a immutabilidade, a perpetuidade e a
universalidade dos seus dogmas e das suas doutrinas na successo dos
tempos, caracter precisamente descripto no celebre _Commonitorium_ de
Vicente de Lerins. Nessa crena, to incomprehensivel seria a suppresso
de um dogma antigo, como a addio de um dogma novo, ou (para me servir
de phrase de um theologo eminente do seculo XV) nessa crena no se
tinha por menor heresia affirmar ser de f o que no o era, do que negar
que o fosse o que era [4]. Nisto consistia practicamente a immensa
vantagem do catholicismo sobre as seitas dissidentes, indefinitamente
variaveis, fluctuantes, subdivididas de dia para dia, gerando as mais
desvairadas aberraes religiosas. Alm disso, a igreja tinha leis que a
regiam desde os seculos primitivos e que s os parlamentos christos, os
concilios, podiam alterar, quando essas alteraes no fossem de
encontro s tradies apostolicas, e a que todos os membros da sociedade
catholica, desde o papa at o mais obscuro entre os fieis, eram
obrigados a obedecer. Depois, na economia da sua administrao interna,
nos ritos, e em outras manifestaes accidentaes do culto, cada igreja
nacional, e at cada provincia ecclesiastica, tinha os seus usos e
liberdades especiaes, que a igreja universal consentia, porque o que
constitue verdadeiramente a unidade  a unidade da f. Governo
parlamentar, maximas fundamentaes dominando atravez dos seculos a
legislao canonica, direito commum conciliando-se com o respeito s
autonomias, ninguem superior  lei, a fraternidade humana, a tolerancia
material ao lado da intolerancia doutrinal; em summa, uma grande parte
das conquistas da civilisao moderna so apenas velhas conquistas do
christianismo transferidas para a sociedade temporal. Cuidando aportarem
a praias ignotas, os publicistas mais de uma vez tem plantado padres de
descobrimento em regies onde, embora occultos pelos musgos e saras, os
padres da cruz esto plantados ha mais de mil e oitocentos annos.

Sem duvida, durante a idade media, grande numero de abusos se tinham
introduzido na disciplina, no mechanismo da sociedade catholica. Houve
sempre homens grandes e virtuosos que luctassem contra esses abusos, mas
nem sempre alcanavam moder-los e mormente venc-los. Na epocha dos
concilios de Constana e de Basilea,[5] os dous ultimos concilios
sinceros e livres que a historia ecclesiastica memora, sorriu para a
igreja uma esperana de reforma; mas essa esperana desvaneceu-se em
breve. Os abusos adquiriram novo vigor quando o renascimento veio
substituir as tendencias christans pelas tendencias pagans, e se
tornaram possiveis papas como Alexandre VI e Leo X, mais devotos da
trindade de Momo, Venus e Baccho do que da trindade evangelica. Ento,
em logar da reforma, veio a revoluo: veio Luthero. O catholicismo,
mutilado, tornou-se fragmento, embora grandioso fragmento. A resistencia
 revoluo gerou, porm, a assembla de Trento. Trento exprime um facto
notavel. A igreja servira, seculos antes, como de typo  sociedade
temporal: a sociedade temporal, onde as liberdades da idade media tinham
cedido j o campo ao absolutismo victorioso, reflectiu na reorganisao
da igreja. Como o absolutismo trouxera vantagens na vida civil,
trouxe-as tambem na vida espiritual; mas, tanto aqui como alli, essas
vantagens foram bem modestas comparadas com os males que derivavam da
nova contextura da sociedade religiosa e da sociedade temporal; tanto
aqui como alli, um abuso derribado era o prenuncio de muitos que am
pullular. Esses abusos, quer antigos quer modernos, ingeridos na
sociedade christan, invadiam sempre mais ou menos as igrejas nacionaes.
Mas, no meio da decadencia exterior, a essencia do catholicismo--o
dogma--mantinha-se intacta. O symbolo salvo pelo concilio de Nica e
pelos esforos de S. Athanasio continuou at ns immutavel. Na propria
disciplina, o poder temporal, quando nisso interessava, reprimia as
tendencias abusivas de Roma, e at, no raramente, o episcopado,
momentaneamente desperto, recordava-se da sua instituio divina. Novo
Encelado, revolvia-se debaixo da enorme presso do papado e, batendo com
as algemas nos degraus do throno pontificio, fazia-o estremecer.
Travavam-se s vezes luctas srias entre os dous absolutismos. Ambos
tinham por alliado o cu. _Tu es Petrus_, allegava o papa: _Per me reges
regnant_, redarguia o rei. _Pasce oves meas_: acudia o papado. _Omnis
potestas a Deo_: repunha o absolutismo. Roma, por via de regra, no
levava a melhor, sobretudo quando os bispos, ou por conveniencia ou por
convico, se associavam ao poder temporal, o que era frequente.

Ao promulgar-se a Carta, Portugal achava-se nesta situao religiosa. A
Carta, convertendo o catholicismo em instituio politica, adoptava-o
como elle existia no paiz--essencia e frma; dogma e disciplina. Disse o
legislador que a religio catholica apostolica romana _continuaria_ a
ser a religio do reino: no disse que essa instituio seria uma cousa
nova, fluctuante, mudavel, conforme approuvesse aos jesuitas ir
supprimindo ou annexando dogmas  doutrina catholica, mediante o assenso
ou inconsciente ou incredulo do papa e do episcopado. O que contina no
 o que vem de novo;  o que existe no acto de continuar. Ora os factos
esto desmentindo esta doutrina irrefragavel. Desde a promulgao da
Carta tem-se realisado gradualmente uma revoluo na igreja catholica.
Com assombro da gente illustrada e sincera, vimos transformar em dogma
uma superstio dos seculos de trevas, rendoso mealheiro de
franciscanos, tinctura de pelagianismo, aproveitada hoje para aviar
receitas na botica de S. Ignacio, a immaculada conceio de Maria, dogma
que foradamente conduz ou  ruina do christianismo pela base, tornando
inconcebivel a Redempo, ou  deificao da mulher,  mulher-deus, 
mulher redemptora, recurso tremendo nas mos do jesuitismo, que,
lisonjeiando a paixo mais energica do sexo fragil, a vaidade, o
converte em instrumento seu para dilacerar e corromper a familia, e pela
familia a sociedade. Depois, ludibrio desses homens de trevas, vemos o
papa, celebrando uma especie de concilio disperso, mandar perguntar
pelas portas dos bispos que tal acham aquelle appendiculo  f
catholica. Os bispos, pela maior parte, encolhem os hombros ou riem-se,
dizem-lhe que est vistoso, e vo jantar. Depois, os que falam em nome
do pontifice, tendo tornado virtualmente absurdo, por inutil, o
sacrifcio do Golgotha para a redempo da humanidade, ou dando ao
Christo um adjuncto na sua obra divina, divertem-se em negar no
_Syllabus_ os dogmas, um pouco mais verdadeiros, da civilisao moderna,
e tendo elevado o erro, apenas tolerado, e ainda mal que tolerado, nos
dominios do opinativo, a dogma indisputavel, e sanctificado assim uma
opinio peior que ridicula, convidam a sociedade temporal  guerra
civil.  a Companhia de Jesus na sua manifestao mais caracteristica.
Os principios da Carta, como os de todas as constituies analogas, so
condemnados, anathematisados, exterminados _in petto_.  a communa de
Paris, prefigurada em Roma, a arrasar e queimar, em vez de edificios,
todas as conquistas do progresso social, todas as verdades fundamentaes
da philosophia politica. Ao concilio vagabundo segue-se ento o concilio
parado.  que falta ao _Syllabus_ a sanco divina. Dar-lha-ha a
infallibidade indossada pelo episcopado ao papa ou  sua ordem.
Ajunctam-se no sei quantos bispos, muitos bispos; uns reaes, outros
pintados: agremiam-se; e o papa pergunta ao gremio, em vez de o
perguntar a si mesmo, se  infallivel. Os bispos tornam a encolher os
hombros ou a rir-se, dizem-lhe que sim, e vo ceiar. O papa infallivel,
que no saba se era fallivel, fica emfim descanado, e os bispos
ceiados, dormidos e desappressados do _visum est Spiritui Sancto et
nobis_ do concilio apostolico de Jerusalem, transferido definitivamente
para a Casa-professa, voltam a annunciar aos respectivos rebanhos essa
nova correco das erroneas doutrinas da primitiva igreja.

Taes so os deploraveis e incriveis successos que temos presenciado. O
jesuitismo converte o infeliz Pio IX n'um Liberio ou n'um Honorio,
induzindo-o a subscrever heresias, e a grande maioria dos bispos,
creando na igreja uma situao analoga  dos tempos em que o arianismo
dominava por toda a parte, e abandonando a maxima sacrosancta da
immutabilidade da f, tornam-se em arautos e pregoeiros dos desvarios de
Roma. As novidades religiosas vem perturbar as consciencias, e o
marianismo e o infallibilismo quasi levam o christianismo de vencida na
igreja catholica. Ninguem v isto; ninguem sabe disto.  que, em
Portugal, os que ainda crem em Deus e na divina misso de Jesus, sem
crerem na conceio immaculada nem na infallibilidade do summo
pontifice, pelo seu diminuto numero e pela tibieza que  geral em todas
as crenas, no tem nem fora, nem resoluo para arrostar com as iras
do beaterio neo-catholico. O governo, esse v s o Casino, ouve s os
discursos do Casino. Aquillo  que ameaa subverter a religio, a
monarchia e a liberdade. _Dedit abyssus vocem suam_. A voz do abysmo so
aquelles quatro ou cinco mancebos que vo falar de cinco ou seis
questes desconnexas a cem ouvintes, metade dos quaes provavelmente no
entendem a maior parte do que elles dizem, o que tambem  muito possivel
me succedesse a mim.

Isto  simplesmente, macissamente, indisputavelmente ridiculo.

O que  grave em si, e como tendencia, e como symptoma,  a interveno
da policia preventiva nessa questo:  a policia violando um direito
anterior  lei positiva, o direito da livre manifestao das ideas,
direito exercido por individuos que se apresentam franca e lealmente
adversarios do catholicismo e acceitam sem tergiversar a
responsabilidade e a penalidade que possam corresponder ao seu acto. O
governo parece ignorar que o bom ou mau uso dos direitos absolutos est
acima e alm das prevenes da policia. Dizer-se que se respeita a
liberdade do pensamento, sob a condio de no se manifestar,  pueril.
Na manifestao  que reside a liberdade, porque s os actos externos
so objecto do direito, e a liberdade de pensar em voz alta  um direito
originario, contra o abuso do qual no pde haver preveno, mas
unicamente castigo. Menos essencial  o direito eleitoral ou a garantia
do jury. Traz aquelle no raro violencias, corrupes, tumultos: traz
esta pela indulgencia, s vezes pela venalidade, frequentemente pelo
temor, audacia nos maus, frequencia nos crimes. A propria religio d
pretextos ao fanatismo, e o fanatismo tem escripto a sua historia com
lagrymas e sangue na face dos seculos. Pois bem: supprimi o eleitor;
supprimi o jurado; supprimi a religio; supprimi tudo, pelos perigos que
de tudo podem advir. Fique s a preveno e a policia.

O seu amigo Anthero do Quental podia fazer dez, vinte, cem conferencias
contra o catholicismo, comtanto que no perturbasse a paz publica, e o
governo podia querelar d'elle dez, vinte, cem vezes. Di-lo o artigo
363. do codigo civil. No assim a respeito das novidades que tem
alterado a indole da igreja catholica. Aqui no se tracta do modo como
um cidado exerce um direito inauferivel: tracta-se do modo como
funccionarios publicos, segundo a jurisprudencia recebida, exercem as
suas funces. Visto que assim se entende a Carta, os prelados
diocesanos e o seu clero so funccionarios, no s porque o poder
temporal lhes d uma interveno maior ou menor em assumptos de
competencia civil: so funccionarios publicos no proprio ministerio
sacerdotal; porque, convertida a religio em instituio politica, os
ministros d'ella so agentes e executores da lei constitucional,
justamente na esphera espiritual; absurdo, na verdade, grande, mas
corollario ineluctavel de outro absurdo maior, a interpretao que os
reaccionarios e ainda alguns liberaes do ao artigo 6. da Carta.

Eram acaso dogmas em 1826 o immaculatismo e o infallibilismo? Quem
ousaria affirm-lo? Era em 1826 um dos caracteres essenciaes do
catholicismo a perpetuidade da f e a sua identidade atravez dos
seculos? Ninguem se atreveria a neg-lo. Os proprios restauradores de
velhos erros, agora convertidos em dogmas, fazem esforos desesperados
para os filiarem nas tradies da igreja. So esplendores do cu que
andavam nublados. Acceitavam-se, porventura, antes dessa epocha as
maximas do _Syllabus_ contradictorias com as leis do reino, com o seu
direito publico? J notei que nem o proprio absolutismo acceitava
aquellas que o contrariavam quando, dispersas, no se pensava ainda em
compaginar essa especie de mappa estrategico da campanha contra a
civilisao. O absolutismo tinha o _placet_ regio para repellir as
invases de Roma e os proprios erros de doutrina em que Roma, ou antes
os successores de Pedro, podiam, como elle, no perpetuamente, mas
temporariamente, cahir; e o absolutismo usava amplamente desse recurso.
Era uma praxe sanctificada pelo simples senso commum, pelo direito que
tem todo o dono de casa de examinar as doutrinas que os vizinhos lhe
inculcam  familia. D'ahi derivou a legitimidade da convocao dos
primeiros concilios ecumenicos pelos imperadores romanos.

A historia do _placet_ ou _exequatur_  por toda a parte rica de
peripecias. Nos ultimos seculos, o rei e o papa eram dons duellistas de
supremo cavalheirismo e esmerada educao. Das mutuas delicadezas, dos
apices de benevolencia no omittiam um s ao encetarem qualquer lucta.
Quasi que sentiam um pelo outro mutua ternura. O rei beijava, c de
longe, o p do papa: l de longe, o papa estendia para o seu filho
predilecto a beno apostolica. A questo, que se iniciava pela recusa
do _placet_, terminava, de ordinario, por ser intimado o nuncio para
sair da corte em vinte e quatro horas, e por ser o paiz posto em
interdicto. Chamava-se ento a isto, na phrase dos homens de estado e
dos jurisconsultos, concordia do sacerdocio e do imperio.

A Carta, transformando a religio em instituio politica, manteve
felizmente o beneplacito a que estavam sujeitas sem excepo todas as
letras apostolicas de caracter generico. Digo, felizmente, porque, em
vez de se dar ao artigo 6. da Carta uma interpretao racional, e que
no esteja em antimonia com as garantias dos cidados e com as maximas
mais indubitaveis das sociedades livres, d-se-lhe, com acceitao
commum, um valor monstruoso e illiberal. Racionalmente, a instituio de
uma religio do Estado n'um paiz livre no pde significar seno uma
homenagem  crena da grande maioria dos cidados, homenagem
representada pela manuteno do sacerdocio e do culto a expensas do
Estado, pelo singular privilegio de ser este culto o unico publico, e
pelas demonstraes de respeito para com a religio da sociedade que se
exigem de todos os cidados. Ao lado disto, n'um paiz livre, no pde
deixar de ser escrupulosamente mantida a plena liberdade da consciencia,
e removida completamente a mistura dos actos e formulas religiosas com
as phases e com os actos da vida civil em que tal mistura produza
annullao de direitos ou da igualdade de direitos. Com semelhante
garantia, e nesta situao transitoria entre o antigo predominio de uma
crena exclusiva e tyrannica e a distinco precisa entre o estado e a
igreja, que tem de vir a formular-se definitivamente nas sociedades
futuras, as prevenes do  14. do artigo 75. da Carta seriam
excessivas, e at, porventura, desnecessarias. Mas, quando se quer que a
existencia de uma religio do Estado importe para a universalidade dos
cidados o dever de se conformarem com os preceitos della em todos
aquelles actos da vida exterior que taes preceitos possam abranger, e se
d a uma crena religiosa, isto , a certa norma das relaes entre o
homem e Deus, os caracteres e a natureza de uma norma das relaes entre
o homem e a sociedade,  obvio que se attribue  religio uma indole
mundana, temporal, derivando unicamente a sua auctoridade e a sua fora
coactiva de ser instituio politica, e essa fora e auctoridade ho de
manter-se, interpretar-se, applicar-se, circumscrever-se, pelos mesmos
meios e pelo mesmo modo por que se mantem, interpretam, applicam e
circumscrevem as das outras instituies analogas.

Supposta a theoria da coaco religiosa, supprimir na constituio a
doutrina do beneplacito seria absurdo, porque seria impossivel sem ella
impor aos ministros a responsabilidade por tolerarem qualquer infraco
do artigo 6. da Carta, quando a infraco procedesse de abusos da curia
romana, de excessos do poder espiritual, do mesmo modo que seria
impossivel impor-lha recusando-lhes a inspeco dos actos do clero
official, ainda relativos s suas funces puramente sacerdotaes. 
certo que o direito de beneplacito  um dos erros feios anathematisados
no _Syllabus_; mas tambem  certo que no _Syllabus_ est anathematisado
um bom tero dos artigos constitucionaes da Carta.

Tendo, pois, os ministros por dever a manuteno da crena official na
sua integridade, nem mais nem menos, e possuindo os meios que lhes
faculta a constituio para desempenharem esse dever, como  que os
governos d'esta terra tem defendido, em relao s aggresses do poder
espiritual, a instituio politica da religio do Estado? De um modo,
que, se a responsabilidade ministerial fosse entre ns cousa sria, e
no uma phrase inventada para os ambiciosos em disponibilidade darem
vaias aos ambiciosos em exercicio, receio muito que a maioria dos nossos
ministros, ha vinte e cinco ou trinta annos a esta parte, tivessem
corrido grande risco de severo castigo. Essas loucuras practicadas no
centro da unidade catholica, a que j me referi, reproduzem-se entre
ns. A historia da igreja portuguesa nos ultimos annos  uma
contradico permanente com a Carta. Altera-se o dogma e busca-se
alterar a disciplina. Nas pastoraes, nos pulpitos, na imprensa
infallibilista inculcam-se novidades no regimen da igreja e novidades de
crena. Os missionarios e uma parte do clero curado repetem ao povo
quantas semsaborias se espriguiam por essas vastas charnecas das
allocues que os jesuitas assignam com o pseudonymo de _Pio Nono_. Os
principios que so hoje condies essenciaes da existencia politica da
nao portuguesa apontam-se ao povo ignorante como invenes do diabo.
Misses dos agentes do jesuitismo, umas ineptas, outras astutas,
instillam por toda a parte o veneno do ultra-montanismo extremo, e
corrompem o elemento social, a familia, sobretudo pela fraqueza
mulheril. Vemos bispos que protegem esses agentes, e que os applaudem;
parochos que os acceitam para que elles faam o que, em diverso sentido,
fora dever seu fazer.  uma conspirao permanente, implacavel contra a
sociedade. As resistencias nascidas no seio do proprio clero so
difficilimas, seno impossiveis. O que tentasse levant-las seria
esmagado. Os antigos institutos monasticos, que pela emulao, e pela
seriedade e profundeza dos seus estudos, se contrapunham ao jesuitismo e
 sua sciencia facciosa e dolosa, desappareceram, e se hoje se
restaurassem entre ns, succederia o que succede quasi por toda a parte:
ir-se-lhes-hia encontrar a roupeta de S. Ignacio debaixo da cogulla
benedictina ou augustiniana. O presbyterado, que  como a burguesia da
igreja, e no seio do qual se encontram j muitos sacerdotes moos, ao
mesmo tempo crentes e illustrados, no tem fora para readquirir nos
negocios da sociedade christan o quinho de influencia que a disciplina
primitiva lhe dava. E, todavia, s uma especie de presbyterianismo
orthodoxo e simplesmente disciplinar tornaria agora possivel dar-se
algum remedio  ruina da igreja; porque talvez esses homens novos
quizessem e soubessem congra-la com a sociedade moderna. Infelizmente,
porm,  abdicao dos bispos nas mos do papa, comeada ha seculos e
consummada no nosso tempo, tem correspondido a servido cada vez mais
profunda dos presbyteros. Ao procedimento do episcopado pde applicar-se
a phrase de Tacito _omnia serviliter pro dominatione_. Tudo o que
tende a dar a menor sombra de independencia ao clero inferior irrita o
ciume dos prelados. Sirva em Portugal de exemplo a pertinaz resistencia
que se tem feito s transferencias de parochos sem a interveno
episcopal. De certo as tradies disciplinares do velho catholicismo no
favorecem essas mudanas; no , porm, a quebra dos canones que
incommoda os prelados; e, seno, digam se viram j algum delles
indignado de o transferirem para s mais importante ou mais pingue sem a
interveno do concilio provincial, embora o consorcio entre o bispo e a
sua igreja no seja menos srio do que o  entre o presbytero e a sua
parochia. O que os maga  que o simples clerigo possa obter a minima
vantagem sem que propriamente lh'a deva; que no dependa delles sempre e
em tudo. As aspiraes desta succursal da Casa-professa a que ainda hoje
se chama igreja docente resumem-se n'uma formula breve: perfeito
absolutismo na jerarchia sacerdotal, tendo por cuspide um summo
sacerdote, como Deus infallivel. Roma homologou, substituindo-o 
constituio da igreja, o instituto da Companhia, porque assim so mais
precisos e pontuaes os movimentos estrategicos do exercito ultramontano
sob o commando do geral dos jesuitas, e o pensamento da assembla
celebrada em Trento ha trezentos annos tende sempre, com mais ou menos
fortuna,  sua completa realisao. O absolutismo na igreja  como o
prodromo do absolutismo na sociedade civil, sanctificado pelo _Syllabus_
com os anathemas  liberdade. Depois, fundindo-se ambos n'uma ultima
evoluo, a sua synthese definitiva seria o poder illimitado e omnimodo
do papa, do pontifice-deus, sobre a existencia interior e exterior,
espiritual e temporal dos povos; seria a monarchia universal, o
despotismo theocratico sonhado pela ambio de Gregorio VII.

Fora necessario estar inteiramente obcecado para no ver que a revoluo
que de ha muito se a preparando no seio do catholicismo, que hoje se
realisa, e cujo termo tem necessariamente de ser fatal para a igreja ou
para a liberdade, se espraia j, onda aps onda, entre ns, sem
encontrar resistencia da parte dos poderes publicos, e nem sequer a
resistencia collectiva do partido liberal, que faz travesseiro para
dormir do destino das geraes futuras. Na Allemanha, no paiz da fora e
da vida moral, da sciencia e da consciencia, as audacias de Roma
perturbam e concitam os animos, e o velho catholicismo arma-se para o
combate. Ns no pensamos nessas insignificancias: ns elegemos e somos
eleitos. Que importa o resto? _Loco libertatis esse coepit quod eligi
possumus_, dizia Tacito dos romanos corrompidos. Os povos, como os
individuos, assentam-se indifferentes e serenos no atrio da morte quando
lhes chega a quadra fatal do idiotismo senil.

E todavia, a questo  ao mesmo tempo simples e grave.

Tem o governo negado o _exequatur_ aos documentos emanados, a bem dizer,
diariamente da chancellaria apostolica, donde resultam alteraes no
dogma e na disciplina da religio official, ou em que so aggredidos os
princpios do actual direito publico portugus? Tem o governo imposto
aos prelados a obrigao de lhe submetterem as suas pastoraes antes de
serem publicadas, de modo que quaesquer novidades religiosas ou
politicas no sejam propagadas pela auctoridade do alto clero? Tem o
governo advertido este de que os pulpitos dos templos fundados pela
nao, em eras mais ou menos remotas, protegidos pelas leis, e mantidos
 custa do Estado, no podem servir de instrumento para a ruina do mesmo
Estado? Se tem feito isto e no tem sido obedecido, o governo 
responsavel por no haver coagido os seus funccionarios ecclesiasticos a
respeitarem as instituies e as leis do paiz. Se no o tem feito,  ru
de traio contra a Carta. Nenhum parlamento imps essa
responsabilidade,  certo; nenhum, provavelmente, a impor. Sei isso, e
sei porqu. No , todavia, menos verdade que ha vinte e cinco ou trinta
annos o clero est infringindo a Carta, se o artigo 6. della significa
o que o mesmo clero e tanta outra gente pretende que signifique. O
bispo, o parocho, o missionario, que propalam doutrinas tendentes a
alterar a religio do paiz, ou que offendam o pacto social, tumultuam.
Esses homens esto em manifesta rebellio, rebellio, no porque
condemnem as instituies em linguagem mais ou menos violenta, o que, se
fossem simples cidados, constituiria apenas um delicto commum sujeito 
apreciao dos tribunaes, mas porque aproveitam a fora moral que lhes
d o seu caracter sagrado e a sua condio de funccionarios do Estado
para, ao mesmo tempo, inficionarem com extranhos erros a religio de
nossos paes, que, immutavel, deve _continuar_ a ser a religio official,
e para alluirem pelos fundamentos a monarchia representativa.

 racionalmente possivel semelhante situao? Ha de soffrer-se a
anarchia, porque se agita, no nas ruas e campos, mas sob os doceis
episcopaes, no pulpito e no confessionario? Fizeram-se os governos para
proverem nos grandes perigos sociaes como este, ou para estarem
espreitando s fisgas das portas se algum mancebo mais ou menos
imprudente, mas sem pensamento reservado, sem compromissos occultos com
conspiradores estrangeiros, expoem as suas opinies, embora erradas, a
uma assembla pacifica, pouco numerosa, e pouco attenta, provavelmente,
 substancia do discurso, mas curiosa da belleza da frma? Pois a
consciencia timorata da policia a escrupulisar de ouvir impiedades e a
pr, para as cohibir, o bengalo do quadrilheiro no logar das frmulas
judiciaes  cousa que se tolere? Quando taes enormidades fossem licitas,
no se deveria dar s exuberancias sinceras da mocidade mais importancia
do que tem realmente. Ha verduras da intelligencia, como ha verduras de
corao. Nas indoles energicas, nos cerebros vastos  que ellas so
maiores. Ha a esperar nessas intelligencias os effeitos do tempo e das
cogitaes. Da inepcia ou da hypocrisia  que nada ha a esperar. Quando
as tempestades moraes, as longas e acres tristezas da existencia e os
profundos desenganos do mundo tiverem devastado aquellas almas, no ser
raro que se v encontrar o impio dos vinte cinco annos, l pela tarde da
vida, assentado ao p da cruz, a scismar no futuro e em Deus. No quer
dizer isto que os devotos fervorosos de vinte annos sejam provadamente
hypocritas. A convico religiosa pde ser mais precoce e mais viva
neste ou naquelle espirito. Todavia, sempre ser bom verem se lhes
descobrem debaixo da burjaca piedosamente mal talhada o cabeo de
jesuita.

Mas que ha de fazer o governo? Cumprir o seu dever. Compellir o clero
official a respeitar as doutrinas da Carta, recusar o beneplacito a tudo
que venha de fra alterar a religio do paiz, a religio como ella era
em 1826, e obstar a que os prelados acceitem e promulguem como dogmas
erros de f, como direito a quebra dos canones, como doutrina catholica
as blasphemias contra as maximas fundamentaes da sociedade civil. O
governo tem arbitrio para conceder ou negar o _exequatur_ s decises
conciliares ou s letras apostolicas quando no collidirem com a
constituio do reino. As que forem hostis a esta,  obvio que ha de
rejeit-las, combat-las, annull-las. Podem em Roma inventar o que
quizerem, proclamar o que lhes convier, anathematisar o que lhes
parecer. Em Portugal  que nada disso pde ser admittido, se repugnar s
instituies politicas de que forma parte a religio do Estado. Nas
proprias resolues synodaes ou pontificias que no se contraponham 
Carta, mas de applicao geral, e que, portanto, ho-de obrigar a
generalidade dos cidados nas suas relaes religiosas, a simples
acceitao do governo no basta:  necessaria, para terem vigor e
obrigarem, a acceitao do parlamento.

Mas, dir-se-ha, os ministros no so theologos nem canonistas para
aquilatar os actos e doutrinas recentes da igreja ou do seu chefe,
afferindo-os pelas tradies religiosas do paiz. Oh sancta simplicidade!
Os ministros so tudo o que  preciso que sejam para serem ministros.
Ninguem os recruta para isso. Mas ainda ao mais insciente ministro, dado
que as faces no possam dispens-los de serem profundamente ignorantes
n'estas materias, uma experiencia facil ensinar se o neo-catholicismo 
ou no o mesmo que o catholicismo de nossos paes. Se no , cumpre
extirp-lo das regies officiaes, porque a manuteno do pacto social o
exige. Os reaccionarios que, em nome da Carta, no admittem a minima
tolerancia para as divergencias religiosas que por qualquer modo se
manifestem, devem, por maioria de razo, ser os primeiros a applaudir a
severidade do governo.

E a experiencia  simples. Em encyclicas, em livros, em publicaes
periodicas, em pareneses de missionarios so apodadas de erros, de
blasphemias e de heresias grande parte das doutrinas contidas na Carta.
Diante destas aggresses contra os principios liberaes, os ministros
podem talvez esquecer que ha tribunaes e juizes. Se faltam ao que, em
rigor,  dever seu, eu, pelo menos no foro intimo, estou quasi tentado a
perdoar-lhes. A laxido neste caso confunde-se um tanto com a
tolerancia, e a tolerancia nunca se me affigura demasiada. Bom fora que
ella dsse tambem uma volta pelo Casino. O que me parece de mais  que o
governo abandone a defesa moral, alis to facil, dos principios que so
hoje o fundamento da sociedade civil. O clero official no pde recusar,
sem previamente resignar as suas funces, o ser instrumento do governo
nessa modesta e legitima defesa.  obvio que a antiga religio que, pela
Carta, _continuou_ a ser a religio do reino era e  perfeitamente
accorde com aquelles principios. Sem isso, a Carta no seria s absurda;
seria practicamente impossivel. Ou o artigo 6., como na praxe se
interpreta, matava o resto, ou o resto matava o artigo 6. As liberdades
patrias, os direitos e garantias dos cidados, o mechanismo do governo
representativo conciliam-se, portanto, com a nossa crena. O pacto
social  a consagrao de todo esse conjuncto de instituies. A sua
coexistencia, a sua harmonia so indispensaveis sob o regimen da Carta.

Quando pois, neste paiz, a malevolencia reaccionaria declara a religio
inimiga da sociedade moderna, no se refere  religio de Portugal, e se
o seu intuito  referir-se a ella, calumna e insulta a crena nacional.
Nesse caso, cumpre que os bispos, os parochos, em summa, todos os
funccionarios ecclesiasticos desaggravem a f offendida e esclaream o
povo para que o erro no possa transvi-lo.  para servirem a religio
que a sociedade lhes confere honras, proventos, exempes, auctoridade;
e a unica religio que elles tem de ensinar, servir e defender  a que
coexiste e se harmonisa ha perto de meio seculo com as instituies da
Carta.  o direito e  o dever do governo compelli-los a que o faam. 
necessario exigir delles manifestaes positivas, e que os bispos,
parochos e professores publicos de theologia declarem falsas e
subversivas todas as doutrinas, sejam de quem forem, venham donde
vierem, que tenderem a tornar contradictoria a religio do reino com as
condies impreteriveis da sociedade actual estatuidas na Carta.

Que o governo exija isto, e espere o resultado.

Outra experiencia.

Em 1826 a theologia, a historia ecclesiastica, os ritos, os canones
ensinavam-se na universidade, nos seminarios, nos cursos de estudos das
congregaes e das ordens monasticas. As dioceses tinham os seus
catecismos, pelos quaes os parochos e mestres educavam a infancia na
doutrina catholica. Os prelados de ento acceitavam esses compendios,
expositores e catecismos; ordenavam-nos, at. O ensino, portanto, das
sciencias ecclesiasticas e a doutrinao dos fieis eram necessariamente
conformes com a religio catholica seguida pelo paiz. Atenhamo-nos,
pois, aos catecismos, aos compendios, aos expositores, aos livros, em
summa, por onde se ensinaram as sciencia ecclesiasticas e se educou o
clero e o povo desde o principio deste seculo at a promulgao da
Carta. Declare-se que todas as doutrinas, ou desconhecidas nesses
livros, ou contrarias s que elles encerram, ou a que se d uma
interpretaao ou um valor differentes dos que se lhes davam ento, ou
so heterodoxas ou erroneas, quer se refiram ao dogma, quer  moral
religiosa, quer  disciplina. Teremos assim a certeza: primeiro, de que
_contina_ a ser religio do reino a que d'antes era; em segundo logar,
de que essa  a crena catholica apostolica romana de que fala a Carta.
Os bispos eram ento, como o foram sempre, os principaes juizes da f, e
os papas os chefes visiveis da igreja pela sua primazia. Pio VI ou Pio
VII valiam bem Pio IX. Nunca, porm, nessa epocha Roma lanou sobre ns
sequer uma suspeio de heterodoxia, e fossem quaes fossem as
divergencias entre a curia romana e a igreja portuguesa ou o governo
portugus em assumptos disciplinares, nunca se proferiu contra ns a
accusao de scisma. Estavamos, pois, pelas nossas tradies e doutrinas
perfeitamente no seio da igreja. Mantendo exclusivamente o dogma
catholico, nem mais, nem menos, como a igreja no-lo ensinou a ns os
velhos, e conservando-nos, em relao  disciplina, onde estavamos,
estamos indubitavelmente no gremio dessa igreja; porque a religio 
immutave, a religio no se aperfeioa. O criterio supremo do
catholicismo est resumido na celebre maxima: _Quod ubique, quod semper,
quod ab omnibus creditum est_.

Diga o governo isto aos bispos, aos cabidos, s escholas de theologia e
de canones, aos parochos, aos commissarios de estudos, aos mestres
primarios. Envolva-se no manto da sua ignorancia. O seu criterio 
apenas o do senso-commum. Mantem a religio da Carta, porque lhe no 
licito manter outra sem crime, e conscio da propria incompetencia,
recorre a um meio seguro de no errar. Imponha o ensino de ha cincoenta
ou sessenta annos em materia religiosa, e vigie pelos seus agentes se
alguem exorbita das doutrinas de ento e se atraioa com o ensino oral o
ensino escripto. O imperante far nisto no s o papel de mantenedor da
Carta, mas tambem o de bispo externo; far o mesmo que nos seculos
aureos do christianismo faziam os imperadores romanos com applauso dos
Padres da primitiva igreja.

O tumulto que ha-de alevantar este procedimento, alis to simples e
razoavel, sei eu. Ver, meu amigo, o que vai. Ver a reaco a inquietar
na jazida com seus furiosos clamores as cinzas dos nossos mais
veneraveis prelados dos fins do seculo XVIII e dos principios deste
seculo, dos magistrados mais integros, dos professores mais sabios, dos
mais abalisados jurisconsultos e theologos, e at a memoria de algumas
das congregaes religiosas que desappareceram, para os accusar de
jansenismo, de gallicanismo, de philosophismo. Ver o que succede ao
clero regular que foi, aos benedictinos, aos augustinianos, aos
oratorianos. Referindo-me  congregao do Oratorio, no falo do pequeno
hereje ruivo, o terrivel padre Pereira de Figueiredo. Esse tem de ha
muito recebido o seu quinho de anathemas maranathas. Tudo
pedreiros-livres. Os reaccionarios ho-de provar at a evidencia que o
artigo 6. da Carta no diz o que diz. _Quidquid dixeris, argumentabo_.
Ho-de provar que o verbo _continuar_ significa em rigor _ser
substituido_, substituido o catholicismo da biblia e da tradio, o
catholicismo de nossos maiores, pelo neo-catholicismo, com os seus
dogmas de nova fabrica e materia velha, com as suas maximas
anti-sociaes, com as suas pretenses  restaurao do papado como o
concebiam Gregorio VII ou Bonifacio VIII, e com a moral asquerosa dos
casuistas do padre Lainez substituida  do evangelho de Jesu-Christo.

 uma lucta, pois, que eu aconselho ao poder civil? De certo. Os
governos fizeram-se para luctar quando  necessario manter as
instituies do paz. O direito est da sua parte. Se o artigo 6. da
Carta tem a significao e a latitude que se lhe d,  indispensavel que
se d igual valor e extenso ao  14. do artigo 75. Cumpre que o clero
official venha a uma situao definida e precisa. Ou o _Syllabus_ ou a
Carta. A questo reduz-se a isto.

Mas a acceitao prestada pela maioria dos bispos s definies _ex
cathedra_ do pontifice? Mas a adopo do _Syllabus_ pelos prelados como
norma de doutrina? Mas as decises do concilio ecumenico do Vaticano?
Sem debater as condies que a tradio exige para terem valor as
definies pontificias, e se  ou no pueril a moderna distinco _ex
cathedra_ e _non ex cathedra_, inventada para salvar as contradices
dos papas em materias de f e de costumes: sem indagar se a adheso dos
bispos representa sempre a adheso das respectivas igrejas; sem
finalmente individuar os caracteres que assignalam a ecumenicidade de um
concilio, e at onde obrigam as suas resolues, quando cerca destas
no houve, ao menos, a unanimidade moral; evitando, em summa, questes
abstrusas, origem de interminaveis debates, limite-se o governo a exigir
o cumprimento rigoroso do respectivo artigo da Carta interpretado pela
reaco. Que mais querem? Os neo-catholicos constituidos em dignidade,
exercendo funces publicas, ficam na plena liberdade interior de crerem
o que lhes aprouver: nos actos exteriores ho-de ser catholicos de 1826.
Supponho que a theoria  esta. Collidem as infallibilidades papaes?
Deix-las collidir. Admittamos que a boa, a de lei,  a de hoje. Os
neo-catholicos esto salvos. Vai para o inferno o Estado quando morrer.
Manda-o para alli a Carta. Cumprir e fazer respeitar as instituies e
as leis  a misso dos ministros; no o  a salvao das almas. Isso
pertencia d'antes  igreja, e pertence hoje, por transaco particular,
 Companhia de Jesus.

Que ninguem se assuste com a immensa e omnipotente auctoridade de um
concilio ecumenico. A primeira condio da sua fora  a certeza de sua
ecumenicidade e da liberdade das suas decises; alis no passaria de um
conciliabulo; de um _latrocinio d'Epheso_, conforme a phrase dos Padres
de Calcedonia. Ainda, porm, que se d tal certeza, nem por isso o poder
temporal fica inhibido de negar o seu assenso s resolues synodaes.
Figurava de ecumenico o concilio de Trento, e todavia a Frana recusou
constantemente acceit-lo, sem distinco de dogma ou de disciplina.
Havia, at, certa affectao nos actos officiaes em chamar _assembla de
Trento_ ao concilio. Foi infructuoso todo o empenho do clero francez em
fazer admitti-lo, porque as barreiras que lhe oppunham ora os reis, ora
os tribunaes, eram insuperaveis. E nunca a Frana foi por isso reputada
scismatica, nem os reis _christianissimos_ deixaram de ser os _filhos
primogenitos da igreja_. Era simples a explicao da repulsa. Muitas das
resolues disciplinares do concilio repugnavam aos principios e s leis
que a sociedade temporal reputava uteis ou necessarias  sua existencia.
Acceitando o concilio, a sociedade feria-se ou suicidava-se. Era contra
o direito natural.  cautela, repellia tudo, porque nas deliberaes do
concilio nem sempre era facil discriminar o doutrinal do disciplinar.
Nenhum perigo havia naquella rejeio absoluta. Se o concilio no fizera
seno confirmar a doutrina catholica derivada das suas duas unicas
fontes, a Escriptura e a tradio constante e universal da igreja, a
Frana l seguia essa doutrina desde remotissimos tempos. Se, porm, o
concilio inventara novos dogmas, ou alterara em qualquer cousa a antiga
crena, deixava de ser concilio, e rejeitando-o _in totum_, a Frana
separava-se tanto da igreja universal, como se, por um acto solemne,
rejeitasse a Confisso de Augsburgo.

Mas--perguntar-me-ha--pde razoavelmente esperar-se que haja um desses
governos a que estamos habituados, com energia e vontade sufficientes
para emprehender commettimento de tal ordem? Deve fazer-se neste ponto
uma distinco essencial. Hoje, sem duvida, do gremio de qualquer das
faces que disputam entre si a ponta da corda que vai arrastando para
futuro incerto o corpo enfermo do Estado, no devemos esperar que sia
um governo capaz de reduzir o debate entre o liberalismo e a reaco a
estes simples termos. Todas ellas dependem, at certo ponto, do cura na
questo eleitoral, questo suprema e talvez unica das faces, instincto
de vida que  desculpavel. Ora o cura  o _servus a mandatis_ do bispo,
como o bispo  o _servus a mandatis_ do papa, ou para falar com mais
exaco, do geral da Companhia. Depois, ha aqui, alli, no se sabe bem
onde, o jesuita; o jesuita, que se encontra e sente, sem se ver, em toda
a parte, desde os paos at a taberna; o jesuita, que veste gentilmente
a farda bordada ou a farda lisa, a casaca ou o paletot, a bca, a loba,
preta, roxa, encarnada, ou a grosseira jaqueta do operario; o jesuita,
que, se cumpre,  mais impio que Voltaire, ou mais fanatico do que Pedro
de Arbus e Torquemada; que  absolutista, democrata, socialista,
communista, se a ordem de S. Ignacio interessa com isso; que seria, at,
liberal, daquelles celebres liberaes do _Syllabus_, se hypothese to
abominavel fosse admissivel. Ora o jesuita pde vigiar a urna, morigerar
a urna, penitenciar a urna.  pois necessario ao homem d'estado (talvez
conhea o typo nacional da especie) manter-se em certa altura de tacto
politico para no adivinhar o jesuita, para no crer na existencia do
jesuita, dessa singular inveno de certos visionarios. Precisa a patria
de que a jerarchia ecclesiastica e a congregao no venham, irritadas,
oppor o seu voto, a sua preponderancia, s benevolencias da urna.

Eis porque  impossivel, por emquanto, travar sriamente a lucta em cho
firme. Deixe gritar contra a reaco. Puro formulario. Bem como a
responsabilidade ministerial, o epitheto de reaccionario no significa
nada, na linguagem dos homens d'estado.  um extracto do vocabulario
politico, que a faco decahida mette impreterivelmente na algibeira,
quando desce das regies do poder, para apupar e injuriar c da rua os
de outra faco que para l subiram. De resto, amor e respeito omnimodo
e universal  congregao. Se algum dia, porm, a gymnastica das
ambies deixar de ser o espectaculo mais divertido destes reinos e
passar de moda, ha uma reflexo gravissima a que antes de tudo tem de
attender-se. N'um paiz, onde, por ignorancia do clero inferior e m-f
ou desleixo dos prelados, as maiorias incultas crem nas bruxas, nos
feitios, nas mulheres de virtude, nas almas penadas, na permutao de
milagres por ex-votos de cera, e onde, falando geralmente, as minorias
intelligentes e instruidas buscam estonteiar-se, supprimir uma voz
interior que fala de Deus, com a indifferena ou com o scepticismo, o
clero, jesuita ou no-jesuita, ha-de forosamente exercer certa
influencia, que, por mais que elle se desconsidere ou o desconsiderem,
no ser facil destruir. Para combater essa influencia, quando nociva, a
incredulidade superciliosa no  a melhor das armas, porque a
incredulidade  a negao de uma tendencia natural do homem, a
religiosidade;  o espirito violando-se a si proprio. As multides no
podem ser, no sero nunca incredulas. Onde e quando lhes faltar a boa
doutrina, seguiro a m. Nas almas incultas a preciso da crena ha-de
sempre satisfazer-se. Por uma lei psychologica, o crer tenaz suppre
nellas o crer reflexivo das intelligencias privilegiadas. No tem arte,
nem sciencia para oblitterar em si uma condio humana, o aspirar, com
maior ou menor ardor, ao infinito, ao immortal. Se deixardes sair de
todo pela porta o catholicismo christo, entrar-vos-ha pela janella o
que ainda c falta do moderno catholicismo do beaterio, com os seus
intuitos dissolventes, com as suas extravagancias dogmaticas da
immaculidade e da infallibilidade, e com as blasphemias sociaes do
_Syllabus_.

Mas, radicalmente, a questo no  nem com os governos de hoje, nem com
os homens de hoje. Na escripturao da primeira entre as companhias
commerciaes do mundo, a Companhia de Jesus, ns os velhos, e ainda uma
ou duas geraes dos que tem nascido depois de ns, fomos j levados,
como perda redonda, como valores incobraveis, ao livro de conta de
ganhos e perdas. Do que se tracta sriamente nas especulaes da
Casa-professa  da infancia; daquelles que ho-de receber as primeiras
impresses moraes e religiosas de mes filiadas nas associaes de
diversos feitios e nomes, sob qualquer das epigraphes da mulher-deus, da
mulher redemptora. Decorridos mais alguns annos, os symptomas do mal
sero cada vez mais visiveis. Ento a imminencia do perigo ha-de coagir
os homens novos a tractarem de pr srias barreiras a esse immenso lavor
subterraneo que tende a converter a Europa, sobretudo a Europa latina,
n'uma como vasta copia das Misses do Paraguay. Se, pois, esta carta
sair das suas mos,  aos homens de quinze at vinte e cinco annos, cuja
educao o jesuitismo, aninhado entre os affagos maternos, no tenha j
viciado, que as precedentes idas podero, porventura, aproveitar. Deixo
por isso  apreciao de v. s. a conveniencia ou inconveniencia
absolutas de as tornar conhecidas, bem como a opportunidade ou
inopportunidade dellas. Nem ambiciono, nem temo que as minhas opinies,
neste como em qualquer outro assumpto, sejam sabidas. Ao cabo da
existencia, os applausos ou as censuras do mundo fazem mediocre
impresso em quem est costumado a reflectir. Ou a nossa memoria se
desvanece nos longes indecisos do progressivo esquecimento, ou so
outros os juizes que ho-de definitivamente sentencear-nos; juizes
suspeitos quando julgarem as questes de opinio ou de interesse da sua
epocha, imparciaes e incorruptiveis quando julgarem as cousas e os
homens do nosso tempo.

[Nota de rodap 4: Joan. Major, In 3.um Sent. Dist. 37, Quest. 16, apud
Launoium, Oper. vol. I, p. 78. , expressa por outra frma, a doutrina
constante da igreja, to admiravelmente resumida por Vicente de Lerins:
Christi ecclesia, sedula et cauta depositorum apud se *dogmatum*
custos, nihil in iis unquam permutat, nihil *minuit*, nihil *addit*.
_Commonitorium_ c. 32.]

[Nota de rodap 5: Emquanto ecumenico.]



                                   INDICE

                                                              PAG.

Advertencia prvia                                           I a XV

A Voz do Propheta, precedida de uma Introduco             1 a 118

Theatro, Moral, Censura                                   119 a 134

Os Egressos                                               135 a 154

Da Instituio das Caixas Economicas                      155 a 192

As Freiras de Lorvo                                      193 a 206

Do estado dos Archivos Ecclesiasticos do Reino            207 a 251

A Suppresso das Conferencias do Casino                   253 a 297






                        CATALOGO DE ALGUNS LIVROS
                              QUE SE VENDEM
                     NA LOJA DA VIUVA BERTRAND & C.a
                            AO CHIADO N. 73


Affonso Africano, poema heroico da presa de Arzilla e
  Tanger, por Vasco Mousinho de Quebedo; nova edio;
  8., 1844--480 ris.

Os amores de Dido com Enas, traduco da 4.
  Eneida de Virgilio (com o texto latino ao lado), por
  Joo Nunes de Andrade; 8., 1847--240 ris, br.

Bellezas de Coimbra, por Antonio Moniz Barreto Crte
  Real; 12. grande, 1831--480 ris, br.

Cantatas de Joo Baptista Rousseau, traduzidas
  em verso portuguez por Antonio Jos de Lima Leito;
  4., 1816--240 ris, br.

Caramur, poema epico do descobrimento da Bahia,
  composto por fr. Jos de Santa Rita Duro; 2. edio;
  8., 1836--360 ris.

Carta de guia de casados, para que pelo caminho da
  prudencia se acerte com a casa do descanso, por D. Francisco
  Manuel; nova edio; 8., 1853--200 ris, br.

Chronica de Palmeirim de Inglaterra, por Francisco
  de Moraes, a que se ajuntam as mais obras do
  mesmo auctor; 4., 3 vol., 1786--2$4OO ris.

Cinco annos de emigrao na Inglaterra, na Belgica
  e na Frana, do brigadeiro Antonio Bernardino
  Pereira do Lago; 8., 2 vol., 1834--400 ris, br.

Comedias (as primeiras quatro) de Terencio, traduzidas
  em verso solto portuguez por Leonel da Costa,
  com o texto latino em frente; 8., 2 vol., 1788--1$200
  ris.

  Ordem, ou construio litteral, palavra por palavra,
  das primeiras quatro comedias de Terencio, pelo mesmo
  Leonel da Costa; 8., 2 vol, 1790--960 ris.

Eclogas de Virgilio, traduzidas em portuguez em verso
  rimado, com as notas, explicao da fabula e de alguns
  logares escuros, por Jos Pedro Soares; 8., 1800--160
  ris, br.

Elegiada, poema da jornada de Africa, por Luiz Pereira;
  fielmente copiado da edio de Manuel de Lyra,
  anno de 1588, por Bento Jos de Sousa Farinha; 8..
  1785--480 ris.

Erasto, pastoral de Gessner, traduzida do allemo; 8.,
  1817--120 ris, br.

Escolha de poesias orientaes, traduzidas da verso
  ingleza de Guilherme Jones, e seguidas de outras varias
  rimas, por Francisco Manuel de Oliveira; 8., 2 vol.,
  1793-94--400 ris, br.

Eufrosina, comedia de Jorge Ferreira de Vasconcellos;
  3. edio, fielmente copiada por Bento Jos de Sousa
  Farinha; 8., 1786--480 ris.

Henriada, poema epico de Voltaire, traduzido em verso,
  e illustrado com varias notas, por Thoms de Aquino
  Bello e Freitas; nova edio; 16., 2 vol., 1812--480
  ris, br.

Henrique IV, poema epico, traduzido do original francez,
  por ***; 4., 1807--480 ris, br.

Historia de Cromwell, conforme com as memorias escriptas
  d'aquella epocha, e as colleces das notas parlamentares;
  escripta em francez por mr. Villemain, e
  traduzida por M. S. da C. Couraa; 8. grande, 1842--600
  ris, br.

Historia dos descobrimentos e conquistas dos
  portuguezes nas Indias orientaes e occidentaes:
  traduco do francez pelo capito Manuel de
  Sousa; 8., 4 vol., 1786--1$920 ris.

Historia de Napoleo, por mr. Norvins; traduzida do
  francez sobre a ultima edio; 8., 4 vol., 1846--1$200
  ris.

Historia critica do theatro, e causas da decadencia
  do seu verdadeiro gosto, traduzida do francez por Luiz
  Antonio de Araujo; 8., 1779--320 ris, br.

O Hyssope, poema heroi-comico, por Antnio Diniz da
  Cruz e Silva; nova edio, revista, correcta e ampliada
  de notas; 12. grande, Paris, 1821--600 ris.

Idyllios, e poesias pastoris de Salomo Gessner:
  traduzidos em verso portuguez por Joaquim Franco de
  Araujo Freire Barbosa; 8., 1784--200 ris.

Itinerario da India por terra at Aleppo e d'ali 
  ilha de Chipre, por frei Gaspar de S. Bernardino; conforme
  a edio de 1611; 8. grande, 1842--360 ris, br.

Lisboa reedificada, poema epico de Miguel Mauricio
  Ramalho; 8., 1780--300 ris.

Marilia de Dirceo, por T. A. G.; nova edio; 16.,
  3 partes, 1 vol., 1840--120 ris, br.

A Natureza, poema, por Jos Agostinho de Macedo;
  8., 1846--320 ris, br.

Newton, poema, por Jos Agostinho de Macedo; 2. edio,
  correcta e augmentada; 8., 1815--300 ris, br.

Noites clementinas, poema em quatro cantos  morte
  de Clemente XIV (Ganganelli), trasladado em vulgar por
  um anonymo; nova edio; 8., 1816--320 ris.

Obras de Francisco de Borja Garo Stokler,
  tomo 1. (contendo elogios de homens illustres--memoria
  sobre a originalidade dos descobrimentos maritimos
  dos portuguezes no seculo xv, etc.); 8., 1805--400
  ris, br.

Obras ineditas de Duarte Ribeiro de Macedo,
  publicadas por Antonio Loureno Caminha; 8., 1817--400
  ris.

Obras poeticas de Bartholomeu Soares de Lima
  Brando, abbade de Coronado; 12. grande, 1794--240
  ris, br.

Obras poeticas de Francisco Dias Gomes, mandadas
  publicar por ordem da academia real das sciencias
  de Lisboa, a beneficio da viuva e orphos do auctor;
  4. 1799--800 ris, br.

Obras poeticas de Nicolau Tolentino de Almeida;
  nova edio, augmentada com as suas obras posthumas;
  16., 3 vol., 1828--300 ris, br.

Obras poeticas de Pedro Antonio Correia Garo;
  nova edio; 8., 2 vol. 1826--600 ris, br.

Obras de Virgilio, traduzidas em verso portuguez, e
  annotadas por Antonio Jos de Lima Leito; tomo 1.,
  contendo as Bucolicas e as Georgicas; 8. grande,
  1818--5OO ris, br.

O Paraiso perdido, epopa de Joo Milton, vertida do
  original inglez para verso portuguez por Antonio Jos
  de Lima Leito; 8. grande, 2 vol., 1840--1$200
  ris, br.

Poemas lusitanos do dr. Antonio Ferreira; 3. impresso;
  16., 2 vol., 1829--320 ris, br.

O porque de todas as cousas, ou endelechia da philosophia
  natural e moral, problemas de Aristoteles; escriptos
  no idioma castelhano por frei Andr Ferrer de
  Valdecebro e expostos na linguagem portugueza pelo
  padre Manuel Coelho Rabello; 8., 1818--300 ris.

Rimas de Joo Xavier de Matos; nova edio; 8.,
  3 vol., 1827--1$440 ris.

Rimas varias, Flores do Lima, etc., por Diogo Bernardes
  e seu irmo Fr. Agostinho da Cruz; 12., 3 vol.
  1770--600 ris, br.

Do sitio de Lisboa, sua grandeza, povoao e
  commercio, etc., dialogo de Luiz Mendes de Vasconcellos;
  nova edio conforme  de 1608; 8., 1786--240
  ris, br.

As Solides, poema de Cronegk, extrahido e traduzido
  da escolha de poesias allems de Huber; e algumas poesias
  portuguezas feitas em 1833 ao Bussaco; 8., 1835--160
  ris, br.

Successo do segundo cerco de Diu, estando D. Joham
  Mascarenhas por capito da fortaleza, em 1546; poema
  de Jeronymo Crte Real, fielmente copiado da edio
  de 1574 por Bento Jos de Sousa Farinha; 8., 1784--480
  ris.

Tratados de amisade, Paradoxos, e Sonho de
  Scipio, compostos por M. T. Cicero, e traduzidos do
  latim em linguagem portugueza por Duarte de Rezende,
  no anno de 1531; agora reimpressos por Luiz Antonio
  de Azevedo; 8., 1790--300 ris.

Ulysippo, comedia de Jorge Ferreira de Vasconcellos
  3. edio, fielmente copiada por Bento Jos de Sousa
  Farinha; 8., 1787--480 ris.

A verdade, ou pensamentos philosophicos sobre os objectos
  mais importantes  religio e ao estado, por Jos
  Agostinho de Macedo; 16., 1837--200 ris, br.

Viagem extatica ao templo da sabedoria, poema
  em quatro cantos, por Jos Agostinho de Macedo; 4.,
  1830--600 ris, br.

Viagens de Cyro, historia moral e politica, pelo cavalheiro
  de Ramsay, traduzida em portuguez; nova edio;
  12., 2 vol., 1817--600 ris.





End of the Project Gutenberg EBook of Opsculos por Alexandre Herculano -
Tomo I, by Alexandre Herculano

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